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INÉDITOS. 88

01-05-2020 11:34

Leonardo Coimbra, filósofo exemplar[1]

 

A ideia de uma queda no Divino, explícita em Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, restaurada por José Marinho com a noção de cisão em Deus, oculta ainda em Álvaro Ribeiro, mas exigida por quem queira ter uma compreensão lúcida do seu pensamento, mostra que a “gnose”, após quatrocentos anos de latência ou adormecimento, volta a ressurgir na poesia e na filosofia portuguesas como o sinal irrecusável da nossa visão do mundo. Uma única, enigmática excepção: Leonardo Coimbra. O espontâneo sentido da beleza da Criação e da presença nela do Divino, uma grande generosidade que o atraía para a ideia de que o Divino é no encontro fraterno das mónadas, mais do que um Ser é uma Relação, levaram Leonardo Coimbra a desviar de seus pares, mas, porque lhe era impossível perdê-los de vista, concebeu, no cruzamento do catolicismo com a gnose, uma das mais difíceis filosofias, cujo segredo não será nunca suficientemente interrogado.

Leonardo Coimbra é o nosso filósofo exemplar.

 

António Telmo



[1] Nota do editor – O título é da nossa responsabilidade.

 

CORRESPONDÊNCIA. 47

30-04-2020 11:36

Carta de Dalila Pereira da Costa para António Telmo, de 3 de Novembro de 1981

 

Porto, 3-XI-1981

 

Querido Amigo António Telmo

 

Não se preocupe com faltas de respostas a cartas; o silêncio é também uma forma de diálogo, ou comunhão, quando duas pessoas estão tão ligadas como nós, pelo mesmo amor à pátria e serviço a ela, que nos ocupa a vida inteira. Nossa gratidão mútua, deve ser só por esse serviço, mútuo. Está sempre tudo muito bem.

Ainda, desculpe se a leitura de seu belo livro teve de minha parte muitos erros. Ele estava, no seu conhecimento, profundo, para além, e muito, da minha competência.

Este fim de Setembro, dei umas voltas pelas redondezas do Douro, a certos lugares sagrados: e na igrejinha românica (séc. XIII) de S. Pedro de Tarouca, lembrei-me muito de António Telmo. No túmulo do Primeiro Conde de Tarouca, D. João de Menezes, (general de Arzila e Tânger e das Armadas do Oceano, etc.) – há no alto dois medalhões de navegantes, perturbantemente semelhantes aos do grupo do lado Sul do Claustro dos Jerónimos, estudados por si[1] (e nestes, ao de Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama). Não sei de quem é o trabalho do túmulo: procurei em Reinaldo dos Santos, Vergílio Correia, etc., e não encontrei. Vá lá um dia ver: a igreja é uma beleza.

Gostei muito de receber e ler sua carta. Votos para seu novo trabalho sobre a Ilha dos Amores[2]: o omphalos dos portugueses.

Aqui junto lhe vão estes jardins[3].

Queria que eles fossem mensagem de alegria, esperança e fé.

Não pense em escrever-me, agradecer, etc. O que vale é o seu tempo consagrado a seu trabalho.

Um abraço de sua amiga, fraterna e dedicada,

                                                        Dalila

 

Ando tentando seguir um percurso português: da Serpente (a do neolítico e de Ofiussa) até à Imaculada (a do Rei da Restauração): às apalpadelas nos cafundós do nosso passado[4].

 

[Carta manuscrita.]



[1] Na História Secreta de Portugal.

[2] Referência ao que viria a ser o livro Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, de António Telmo, publicado no ano seguinte, em Lisboa, com a chancela da Guimarães. Pode hoje ser lido no Volume III das Obras Completas de António Telmo, Luís de Camões e o Segredo d’Os Lusíadas seguido de Páginas Autobiográficas, editado pela Zéfiro em 2015.

[3] Referência ao livro Os Jardins da Alvorada, de Dalila L. Pereira da Costa, que nesse ano de 1981 saíra a lume com a chancela de Lello & Irmão - Editores.

[4] Desta investigação viria a resultar o livro Da Serpente à Imaculada, editado por Lello & Irmão em 1984.

 

VOZ PASSIVA. 86

30-04-2020 11:30

[Recensão a Gramática Secreta da Língua Portuguesa][1]

Dalila Pereira da Costa[2]

 

 

Título: Gramática Secreta da Língua Portuguesa

Autor: António Telmo

Edição: Guimarães & C.ª, Editores

Lisboa, 1981

 

Este livro, agora surgido, continuará a linha perscrutadora do Autor sobre o ser português, já iniciada e seguida pelos seus anteriores livros: Arte Poética, História Secreta de Portugal, nos quais se prossegue uma «visão que, até agora, se exceptuarmos alguns apontamentos de Sampaio Bruno e de outros pensadores, onde ela se demorou breves instantes, apenas recebeu uma expressão cifrada», como se declara a página 23 daquela segunda obra. O nódulo central que guia e justifica este trabalho pátrio levado a cabo fielmente através desses livros, estará ainda dito explicitamente nas palavras da contra-capa deste mesmo livro: e elas serão indispensáveis de citar, para uma abordagem, mesmo muito breve, desta sua última obra agora surgida. «Há uma história oculta de Portugal. Não dizemos isto no sentido em que de tudo se pode afirmar ter um aspecto oculto. Pensamos que houve entre nós (senão connosco) uma organização esotérica que, de uma maneira perfeitamente consciente e intencional, procurou a partir desta Pátria, a que deu existência, redimir o mundo do mal e da divisão». E será esta a história à qual nos teremos de reportar para qualquer tentativa de vislumbre do problema do ser português, como seu segredo.

Na tenção providencialista e esperançosa que estará inclusa e concedida na história de Portugal desde seu início, desde sua entrega, como missão, nas mãos de seu Fundador, estará também inclusa esta obra redentora, desde então visando um carácter ecuménico: o Quinto Império. Obra de unificação e reintegração na terra, iniciada à dimensão universal pelos Templários, depois Ordem de Cristo, ela teria sofrido, a partir duma certa data – e aqui marcada exactamente, 1513 – uma paragem, queda ou frustração. E esta finalidade, justificadora de toda uma história nacional, e suas linhas de força, não estará escrita numa linguagem dada a ver, às claras, nos documentos ou trabalhos de carácter estritamente historicista, mas escrita numa linguagem simbólica que, tal como a de Apolo, o deus da profecia, cultuado e escutado em Delfos, «não diz nem esconde, significa», segundo Heraclito.

Nesta linguagem cifrada, para a clarividência de António Telmo, a sua primeira expressão será de carácter arquitectónico, o «manuelino», e a segunda de carácter poético, através da obra dos poetas galegos e portugueses e, supremamente, através da obra de Camões, Os Lusíadas e ainda sua lírica; continuada por P.e António Vieira, Pascoaes e Pessoa profeticamente, será sobre ela que aqui incidirá esta hermenêutica: como sobre um testemunho deixado e transmitido através duma corrente de iniciados desta Pátria. A última fase deste testemunho, a Mensagem, construindo-se sobre a ideia do Quinto Império, dará ainda continuidade, nos nossos dias, «à demanda do centro invisível do mundo, sem a qual o Quinto Império não será mais do que uma miragem» (op. cit., p. 119).

E ainda, nestas páginas, se lembrará que «neste povo hipnotizado pelo transcendente, a ordem dada foi a que manda realizar a Monarquia Universal» (pág. 28).

Julgamos ter sido necessário lembrar estas palavras, antes de abordar o livro de António Telmo recentemente surgido, para dar uma visão global da tenção da sua obra, toda ela fielmente como serviço à sua Pátria.

Agora, neste ciclo histórico presente, a expressão da finalidade transcendente de Portugal estando «apenas confiada aos poetas e filósofos da profecia», é natural que este investigador exemplar se curvasse sobre o instrumento eleito desta expressão, a língua portuguesa. E ainda, seguindo o seu princípio, aqui logo declarado na Introdução da Gramática Secreta da Língua Portuguesa: «que a forma superior da razão é a poética, que há uma razão poética, binómio já de si iluminante».

«Neste meio subtil que é a linguagem, o pensamento pensa-se a si próprio», e assim aqui se procurará nas suas letras-elementos, os «ecos remotos mas significativos do Verbo supremo». Porque, assim como haverá aqui uma história profana explicitamente e outra história secreta ocultamente escrita em cifras, também para a linguagem haverá duas genealogias. «Se o português, provém, como entende a maioria, do latim e as palavras portuguesas têm, na generalidade seus étimos nas palavras latinas, tal ‘genealogia’ compõe-se com outra, mais alta, que deriva de uma língua sobrenatural, pressentida pelos poetas, e, neste livro, tornada menos distante através da ‘árvore’ das letras. Teremos, pois, uma árvore genealógica terrestre e uma árvore genealógica celeste. Do encontro das duas raízes surgiu a língua portuguesa» (pág. 7). E António Telmo, pela primeira vez na espiritualidade portuguesa, estabelece a relação entre a tradição hebraica da Árvore dos Sephiroth, e esta língua. Os dez princípios ou atributos divinos representados na Kabbalah, e que formam a estrutura interna do mundo visível e invisível, vão-lhe permitir uma equivalência entre o sistema fonético português e este sistema hebraico dos sephiroth; assim, «a fonética portuguesa é a demonstração de que cada língua possui uma estrutura sagrada!» (pág. 28). Se a «árvore» surgiu da «contemplação de sábios e de santos», esta sabedoria suprema se reflectirá perfeitamente nas línguas reais. E também aqui se criarão aquelas palavras portuguesas, já apontadas pela intuição de Pascoaes, como as mais específicas e singularizantes do ser português: ermo, oculto, remoto… palavras crepusculares. «Dir-se-á, pois, que o povo português, no extremo ocidente da Europa, é também na língua o povo do entardecer. Se a noite, o abismo se situam qualitativamente na 10 Sephira, ali onde impera o u, vogal escura e nocturna, e o invernal R, já a manhã, o sol nascente, a luz que desponta e irrompe da fonte suprema devem referir-se ao mundo da emanação» (pág. 51).     

Aqui, tudo se traduzirá por uma predominância das vogais e destruição das consonantes: o que aproximará a língua portuguesa de «aquela língua à qual a simbologia chama a língua dos pássaros ou dos iniciados» (pág. 53). O que confirmará ainda uma das nossas mais altas e remotas vocações tradicionais: de ser terra de iniciação, neste extremo ocidental.

Terminaremos esta rápida aproximação da obra de António Telmo citando ainda as suas palavras na última página da História Secreta de Portugal: «Tudo está em atribuir ou não à acção gigantesca que os «iniciados» cifraram nos Jerónimos uma repercussão que, subitamente, se revele nos seus efeitos adiados por um longo período de adormecimento. Tudo está para o indivíduo português em acreditar nisto ou não e, em caso positivo, em assumir conscientemente as consequências de uma sempre possível frustração».   

 


[1] Nota do editor – Publicado originalmente in Nova Renascença, Volume I, n.º 4, Porto, Verão de 1981, pp. 453-455.

[2] Nota do editor – Assinado com as iniciais “D. P. C.”.

 

INÉDITOS. 87

28-04-2020 22:02

L. e T. de Pascoaes

 

A amizade entre estes dois homens não foi importante somente para eles, mas mais ainda para todos nós, porque nela e dentro da mais séria e compreensiva atitude da alma se cruzaram duas das orientações cardiais do pensamento português. São o maniqueísmo (Pascoaes) e o cristianismo (Leonardo) que, confrontado com os problemas que aquele lhe põe, se coloca à suficiente distância do cristianismo de estado para poder encontrar o seu caminho de reflexão e de liberdade. As duas outras orientações cardiais são esse mesmo cristianismo de estado, assegurado pelas instituições laicas e religiosas, e várias formas de materialismo e de racionalismo ateu que tem com o primeiro mais afinidades do que em geral se supõe.

Damos as quatro direcções do esquema espacial. Na obra de Leonardo Coimbra, constantemente se verifica que o seu pensamento se forma reagindo perante estas três arestas e, se digo perante e não contra, é porque procurou integrar aquelas três orientações na sua própria orientação, lutando, num dos lados, por um catolicismo renovado, noutro por uma razão científica criacionista, noutro ainda por uma conciliação que é, afinal, a expressão de uma profunda afinidade, quer o dualismo invencível dos novos maniqueus não deixa realizar-se plenamente.

Deveria, talvez, dizer gnósticos em vez de maniqueus. O maniqueísmo é uma variedade da gnose. Esta palavra é a que, segundo Leonardo Coimbra, caracteriza o pensamento de Teixeira de Pascoaes.         

Temos, pois, Bruno, Antero e Pascoaes, do lado da “gnose” e Leonardo profundamente interessado neles.

Bruno é um representante, entre nós, da gnose judaica. Nele se repercute o pensamento de Isaac Luria, filtrado pelas reflexões sobre o pensamento contemporâneo: Leibniz (Amorim Viana), Schelling, Darwin, etc….

Antero vai ligar-se ao budismo tal como foi refractado pela filosofia nórdica.

Pascoaes é de pura inspiração portuguesa, um Prisciliano renovado e casto, um maniqueu naturalista.

Há ainda António Sérgio e a sua relação com a Índia, étnica (era goês) e espiritual, o pensador do “uno unificante”, mas nele há uma radical repulsa em combinar a Razão com a Fé. Um espírito quezilento que se comprazia em aborrecer os descobridores do espírito, aqueles que para atingir uma estrela embarcam no que lhes parece, na ocasião, o melhor barco – razão, imaginação, intuição – e só depois de estarem em pleno oceano é que põem a funcionar o astrolábio. Claro que confiam em quem fez os barcos. Mas um barco serve para descobrir e não para ficar ali pregado como se fosse de pedra e cal, uma espécie de prisão maçónica, onde, contando os dias, se passam as horas sempre iguais a brincar à ciência ou à religião.    

 

António Telmo

INÉDITOS. 86

28-04-2020 19:58

Sampaio Bruno, filósofo exemplar[1]

 

O medo que certos espíritos, deste ou daquele modo interessados em sair, têm da gnose poderá também levá-los a reflectir que não é possível tocar, só que seja, o limiar do conhecimento divino sem que se sintam estremecer os alicerces da nossa percepção comum onde se instalara a relativa segurança do não ser. Apoderou-se de Jacob o pavor: “Esta, disse, é certamente a casa de Deus.” Estamos defendidos pelos muros da própria prisão.

Há, porém, uma razão mais válida contra a gnose. É a impossibilidade de admitir que o mundo visível, criação maravilhosa de Deus, seja uma prisão. Este sentido da presença do divino na natureza e, portanto, de uma liberdade imanente às coisas e aos seres é muito agudo nos portugueses. Não obstante, a nossa mais alta e representativa poesia, desde Camões a Pascoaes e a Pessoa, tem como dominante o sentimento do exílio, do distante no tempo e no lugar, do Paraíso perdido. Aqui aparece Sampaio Bruno como o filósofo exemplar dos portugueses; ali é Leonardo Coimbra.                

 

António Telmo



[1] Nota do editor – O título é da nossa responsabilidade.

 

EDITORIAL. 21

25-03-2020 18:52

Dias de espera em tempos de Esperança

 

É de todos sabido o momento, entre dramático e trágico, que Portugal e o mundo estão a viver.

Este quadro circunstancial havia já ditado o cancelamento da sessão de lançamento do Volume XI das Obras Completas de António Telmo, A Verdade do Amor precedida de Adriana, que iria ter lugar, no passado dia 20 de Março, na Cooperativa Árvore, no Porto, e em que se apresentaria também a primeira edição completa da Vida Conversável, de Agostinho da Silva e Henryk Siewierski, lançada em Lisboa a 24 de Janeiro, ambas as obras trazendo o selo da Zéfiro.   

Foi isto há duas semanas. De lá para cá, toda a vida cultural pública do país parou. Disso mesmo se ressentiu largamente o surgimento de Portugal, Razão e Mistério – A trilogia, livro de António Quadros posfaciado por Pedro Martins, do nosso Projecto, que ia ser lançado no passado sábado, na sede da Fundação António Quadros, em Rio Maior, e que tinha já igualmente definidas, ainda no mês em curso, sessões de apresentação no Porto e em Lisboa, com a participação de outros membros do PAT.VO: Paulo Samuel e Miguel Real, respectivamente.

Provavelmente a obra que mais e melhor dialoga com a História Secreta de Portugal, de António Telmo, Portugal, Razão e Mistério, agora ressurgido pela vontade inquebrantável de Mafalda Ferro, havia inclusive chegado às principais redes portuguesas de livrarias com destacada pujança. O que, num só trimestre, prometia ser um movimento editorial como havia muito se não via no seio da Escola Portuense, com a saída a lume de novos livros de Agostinho da Silva, António Telmo e António Quadros, foi subitamente eclipsado pela sombra duradoura de uma dura incerteza a que importa, porém, responder com a virtude da esperança, na espera de um recomeço.

Não iremos parar. Encontramo-nos a transcrever um conjunto de escritos inéditos do nosso patrono, e bem assim a correspondência que Dalila Pereira da Costa, ao longo de décadas, lhe dirigiu e se guarda hoje no espólio do filósofo. Tudo isto se destina ao dossier especial que a revista NOVA ÁGUIA irá dedicar a António Telmo no seu próximo número, a ser lançado no segundo semestre deste ano de 2020 em que, a 21 de Agosto, se assinala o décimo aniversário da sua partida, e que irá, por certo, receber ainda a colaboração de vários membros do nosso Projecto.

Entretanto, procuraremos intensificar o ritmo das publicações nesta nossa página digital, reforçando assim os laços com os leitores, que são afinal a nossa razão de ser. Serão de guerra, segundo dizem alguns, estes dias, que por ora ainda correm sob o signo de Marte, ou de Março. Mas deste mês são também algumas datas que, como efemérides, evocam figuras luminosas e magistrais do universo télmico: Álvaro Ribeiro (nascido em 01.03.1905), Dalila Pereira da Costa (nascida em 04.03.1918 e falecida em 02.03.2012) e António Quadros (falecido em 21 de Março de 1993). A todos eles, de alguma forma, os evocamos, nos novos textos inéditos que o leitor aqui encontra hoje publicados.  

INÉDITOS. 85

25-03-2020 18:31

Esboço de uma carta para António Quadros

 

Dirijo-me a si, com quem são raríssimas as ocasiões de conversar, a si pela nossa homónima afinidade, para lhe perguntar se por acaso não recebeu o meu último livro Gramática Secreta da Língua Portuguesa e, se o recebeu e leu, o que é que pensa dele. Eu acreditava nesse livro. Todavia, embora não me surpreenda a sua desclassificação no concurso ao Grande Prémio da Sociedade de Língua Portuguesa, intriga-me o silêncio do grupo de Filosofia Portuguesa. Com excepção do Agostinho da Silva e do Álvaro Ribeiro, dos quais possuo cartas, todos os outros se comportam como se ignorassem a sua publicação. Devem ter feito o mesmo com o seu último livro sobre o Fernando Pessoa, mas o António Quadros, pelo que vejo com o exemplo dos magníficos artigos no jornal Tempo, continua a escrever consciente de que a nossa missão é só essa: dizer o que há para dizer e conforme nos é concedido dizer. “Tudo o mais é com Deus”.

Eu sei que, não propriamente o livro, mas a científica determinação dos vinte e dois esquemas consonânticos, dos dez grupos ou conjuntos de consoantes afins, das quatro espécies em que se subdivide a voz, das três medidas verticais, das sete vozes puras, determinação que é a própria forma da balança sephirótica na sua complexa estrutura, constitui a mais importante descoberta linguística que se fez desde os gregos até hoje. Enquanto tal, há-de no futuro vir revolucionar a linguística europeia. É possível que, sendo o meu livro um livro de ciência e não de filosofia, isso explique a indiferença do grupo de filosofia portuguesa.

Li o seu artigo onde defende que se passa por uma Escola, e ali se recebe a iniciação, para depois não se ficar preso a ela e fazer a sua própria obra. Inteiramente de acordo, lembro-me contudo do José Marinho e do Álvaro Ribeiro. Sinto que nos olham e esperam mais do Pinharanda Gomes, de si, de mim, do Orlando, do Braz Teixeira, do Sottomayor, do Guerra, do que a divisão religiosa. O próprio António Quadros mostra bem nitidamente no seu último livro como a profissão de fé católica não exclui a atenção à gnose e até a valorização do que nela se aprofunda para levantar o catolicismo até ao limiar da Igreja Invisível.               

 

António Telmo

CORRESPONDÊNCIA. 46

25-03-2020 16:40

Carta de Dalila Pereira da Costa para António Telmo, de 15 de Novembro de 1979

 

 

 

Porto, 15-XI-1979

 

                                                                        Amigo António Telmo

Gostei de o ver ontem, e falar consigo naqueles breves e intermitentes instantes.

Aqui vão algumas páginas, que se ligarão com o que ontem dissemos (e não tivemos tempo de dizer). Não se preocupe com cartas, respostas, etc. Se quiser e em casa tiver uma hora livre, passe os olhos por elas.

A presença, ou união, está há muito realizada – por uma mesma finalidade na vida, Com cartas ou sem elas.

Um abraço cordial para ambos, e beijos aos meninos.

                                Sua dedicada, e admiradora,

                                Dalila

 

 

[cartão branco, manuscrito; 15/8,8]

 

INÉDITOS. 84

25-03-2020 16:04

 

Filosofia portuguesa e martinismo[1]

O problema da filosofia portuguesa é o problema do martinismo em Portugal.

É isto que se tem de pôr a claro, se o problema da filosofia portuguesa é o problema da filosofia de Álvaro Ribeiro. Foi ele que pôs o problema; é nele que deve ser equacionado. A equação é esta:

Martinismo + X = filosofia portuguesa. O X é a relação misteriosa, ainda incógnita, de cada filósofo com o enigma do homem e do universo. A doutrina sabemos qual é. Mas a filosofia não é a exposição de uma doutrina; é a reflexão e vivência individual dessa doutrina. Doutrina pressupõe escola, tradição de ensino, propulsora de uma corrente invisível.

A ter em conta O Encoberto de Sampaio Bruno, o martinismo é um momento, perfeitamente significativo, dessa corrente e que se apresenta como capaz de harmonizar a religião católica com o conhecimento e a liberdade. É, pelo menos, assim que a apresenta Álvaro Ribeiro n’A Arte de Filosofar: «A acção de Pascoal Martins é a magnífica versão para a Europa Central da doutrina que faz a síntese das três tradições religiosas peninsulares.» Não chega dizer que Portugal é, como a Espanha, a terra em que coabitam três tradições. O importante é procurar a síntese e é ela que cada filósofo se propõe, com maior ou menor consciência, formar pelo pensamento. A separação da filosofia e da teologia foi, segundo Álvaro Ribeiro, o resultado, entre nós, da Reforma pombalina. «A filosofia é inferior à religião», diz-nos ele noutro lugar e várias vezes escreve que a ideia de Deus é o princípio da filosofia.   

 

António Telmo



[1] Nota do editor –O título é da nossa responsabilidade.

 

UNIVERSO TÉLMICO. 67

17-01-2020 09:46

E nota final

Agostinho da Silva

Ao que diz, e sei que o não move qualquer lisonja pessoal, considera o Professor Henryk Siewierski, da Universidade de Cracóvia, que o excelente convívio que mantivemos durante os quatro anos em que ensinou língua polaca e sua cultura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foram para ele uma segunda Universidade. Também sem cumprimento e por tudo o que esse contacto para mim foi, penso, por meu turno, que houve igualmente para mim uma Universidade, já nem sei de que número, pois muito tenho aprendido em várias, desde a inicial, a Faculdade de Letras do Porto, lá por entre 24 e 28 ou 29, até aos meus Amigos de hoje, passando pela Parasitologia Médica do Instituto Oswaldo Cruz, pelos Sábados do Moinho de Vento em casa de António Sérgio, pelos sertanejos do Nordeste brasileiro e pela gente do Senegal ou pela do Japão ou pela de Timor. Quanto excelente professor e quanta sorte a minha. Em tudo, vida e conversa – a tal “vida conversável”, como lembrou Siewierski, tomando as palavras de Pero de Sousa. E em tudo houve a experiência, a que chamaria um outro nosso autor “madre de todas as coisas”. Muito conversamos nós dois, o Professor e eu, e se lembrou o nosso Amigo de recolher o que se dizia e de o oferecer para publicação, já que apareceu benevolente Editor; sem espécie alguma de correcção ou apuro de estilo, sem, por outra parte, nenhuma tentativa de o escrever, ainda que imitando o falado. Se o que fica para trás não servir para outra coisa será exemplo, no sentido de amostra, da forma pela qual uma pessoa não inculta conversava com um Amigo neste quase final do século XX. Claro que não falei somente eu: falou, e muito, e lucidamente, e com todo o interesse em penetrar o mais possível na cultura portuguesa, o Professor Henryk Siewierski, e a ele, afinal, se deve o volume. Os quatro anos foram-me Universidade porque agudamente perguntou e me obrigou a pensar muita coisa que jamais me ocorrera ou a recordar factos mais ou menos esquecidos de minha vida. Creio que, sobretudo, deve ser uma Universidade Foro de perguntas, de provocações, digamos, de preferência a supermercado de respostas convenientes para a vida e de receitas para singrar no mundo sem perigo de naufrágio. E, curiosamente, às perguntas que fez as decidiu ele eliminar, tentando a jogo de criatividade o possível leitor e o fazendo participar do diálogo. Completarei eu dizendo que o máximo que desejo é que as perguntas que se façam e as possíveis respostas do volume sejam bem sacudidas, bem joeiradas, jamais se aceitem como verdades estabelecidas, mas apenas como ponto de partida de discussão. É o que os outros pensem, o que os outros criem aquilo que fundamentalmente me interessa. Só assim escrever ou falar servirão para alguma coisa. Estimular é útil, siderar nefasto.

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