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EDITORIAL. 36
21-08-2026 10:49Um tesouro à vista de todos
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António Telmo partiu há dezasseis anos, deixando um legado único: pela palavra, pelo gesto, pelo exemplo. Pela sua lucidez. E uma obra plena de indícios, trilhos e sugestões. Uma obra com o futuro dentro de si, à espera que ele chegue. No caso do filósofo, o futuro é um tempo grande, que dentro de oito meses e alguns dias se irá medir com três algarismos. Não se sabe se será um desafio para novecentos anos, à altura do que a pátria que é a sua está quase a superar. Mas importa hoje recordar o patriota que Telmo sempre se revelou. Num amor a Portugal que não era questão de emulação e fugia a qualquer forma degenerescente de patrioteirismo, antes se fundando numa nobilíssima visão do mundo, do homem e de Deus. O que nunca impediu o filósofo de ser crítico dos seus compatriotas, como quando, por exemplo, deplora na História Secreta Portal a “paródia mnésica” do Estado Novo, ou quando, no Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, não hesita em dar António Sérgio como a outra face de uma moeda chamada Salazar. Num tempo de “guerra civil” ideológica, urdida no imediatismo das redes sociais e, por isso, não raro acéfala e boçal, a obra de António Telmo continua a ser um tesouro bem escondido, à vista de todos…
VOZ PASSIVA. 151
21-08-2026 10:1921 de Agosto, dia de evocação
Risoleta C. Pinto Pedro

Estacionei, recentemente, na avenida ladeada pela Rua António Telmo. Olhei, cá de baixo, a rua, com vontade de a conhecer melhor, mas não havia contexto para lá ir, com uma criança ansiando por descer à praia. Já várias vezes a contornei, rodeei, ladeei, mas nunca a percorri a pé. Na verdade, de Telmo apenas tem o nome. Ele viveu, inicialmente, num quarto na rua da Fortaleza e mais tarde na conhecida como Rua do Forno, oficialmente Rua Joaquim Marques Pólvora. Estas, sim, terão, mais provavelmente, eco dos seus passos.
Apesar de Sesimbra ser o meu lugar dos fins-de-semana e férias, o espaço que verdadeiramente me acolhe é o campo, e apenas ocasionalmente, a vila. Talvez por isso, por o meu deambular não ter ainda adquirido o estatuto do hábito, sinto-me sempre, andando pela vila, como ali caminhando pela primeira vez. E os passos que a percorrem não são propriamente os meus. Dou por mim, espontaneamente, imaginando Telmo nos seus dezoito anos, quando para cá veio com a família (pai, mãe e irmãos), e depois mais tarde, com a nova família (Maria Antónia, filhos), e imagino-o percorrendo as ruas e olhando o mar. Ora só, ora com os outros jovens da tertúlia, ora mais tarde com os seus alunos, e tento sentir Sesimbra como ele terá sentido, e isso não é difícil, pois nas “Páginas Autobiográficas” deixou-nos relatos e pensamentos desses tempos e do convívio desta extraordinária geração que ali se reuniu, como Rafael Monteiro e Agostinho da Silva. Terá sido Telmo, segundo Reis Marques, que os terá apresentado, quando Agostinho regressou a Portugal, após 1969. Ainda que não em Sesimbra, conheci António Telmo e Agostinho da Silva, seu amigo e compadre, padrinho de Anahi. Deste com Rafael, deixa Telmo, num dos seus cadernos, uma conversa breve, possivelmente tida no castelo, onde Rafael vivia, ou no café, ou deambulando de madrugada peãs ruas, ou na avenida em frente ao mar. O cenário, por não descrito, pode ser escolhido pelo leitor:
«Rafael- Sabe o senhor? Eu em geral tenho dinheiro para o próprio dia e às vezes para o dia seguinte.
A.Silva- Isso é bom. Comigo acontece uma coisa semelhante. Em geral só tenho dinheiro para a véspera.»
Era esta a geração sem dinheiro, mas com génio, que deixou legado. Só temos de o receber, somos, se quisermos, seus herdeiros. António Telmo partiu há dezasseis anos num dia 21 de Agosto. Mas deixou obra. E está publicada. Basta procurar a sua Obra Completa, com chancela da Zéfiro, na Biblioteca. No meu entender, pode tornar-se, pelo andar da carruagem, um quase manual de sobrevivência para tempos de escuridão.
EDITORIAL. 35
02-05-2026 09:56
Longos dias têm cem anos
Entramos hoje na contagem decrescente para a comemoração do centenário de António Telmo. Um ano apenas nos separa exactamente dessa efeméride. Mas, por agora, que o filósofo, uma vez mais, renasce para as voltas do calendário, deixemo-lo ser menino. Vindo do futuro, ele está quase a nascer. Em África, na Arruda, em Alter do Chão ou nessa Almeida que lhe foi berço.
De hoje a uma semana, no sábado, dia 9, em Lisboa, no Atelier da Graça, será o início das comemorações centenárias, com o lançamento de QUEM CRESCEU ASSIM? TOMÉ NATANEL (As aventuras, enquanto menino, de um filósofo chamado António Telmo), livro da autoria de Risoleta C. Pinto Pedro (texto) e de Gabriel Pedro Martins (ilustração).
E, por uma feliz coincidência, no dia seguinte, no Auditório Bocage, em Setúbal, às 11:00 e às 17:00, não propriamente à margem, mas em paralelo com as comemorações, teremos a ópera para bebés (mas que a todos se destina) Quem roubou o leão?, com música de Rodrigo Leão e libreto de Risoleta C. Pinto Pedro, e inspirada em histórias da infância e da adolescência de António Telmo.
Muito em breve, divulgaremos ainda o logotipo que a designer Ema Francisco concebeu para as comemorações do centenário, como sua marca distintiva.
INÉDITOS. 109
20-04-2026 21:37
Leonardo Coimbra, nosso irmão no grau de mestre[1]
Sem dúvida que há relações essenciais, isto é, segundo a essência, entre o Templo elevado por Salomão e a Instituição Maçónica. Tais relações são múltiplas, mas há uma nuclear de onde derivam todas as outras, é aquela pela qual a Maçonaria é propriamente a arte de elevar templos a imagem do Templo de Salomão. O que na Maçonaria operativa terá constituído essa relação no seu aspecto material, não obstante simbólico, na Maçonaria especulativa, que caracteriza a instituição atual, a elevação do Templo é, como se ensina no catecismo de aprendiz, uma elaboração mística. Cada maçon é uma pedra moldada pela arte para se harmonizar com as outras pedras. Além de sua significação mística há também a escatológica, a de realizar aquela “fraternidade das mónadas” que são as almas deste e do outro mundo. A expressão é de Leonardo Coimbra nosso irmão no grau de mestre.
António Telmo
DOS LIVROS. 79
30-03-2026 07:33
Páscoa no mar
Todo o mundo comemora a Páscoa; em todas as terras ela se celebra. Mas se bem que Páscoa tenha um significado universal, diverge a atitude dos homens nas diversas regiões.
Sesimbra é um povo de mar; aqui não há vinho nem pão. Nos montes escalvados que a rodeiam, não há cachos doirados nem trigos ondulantes. Há o mar indefinido, com peixes, algas e sal. Há ainda uma população de pescadores, que em barcos ligeiros colhe nas redes e nas «linhas» os peixes que vivem entre as algas e entre o sal.
Os Apóstolos, eram pescadores. Cristo pregava sobre uma barca. O mar, inquieto como a vida, rodeava a barca. Por isso, para o pescador, a Igreja é uma barca onde o cristão busca refúgio contra as inquietações do mundo. E nessa barca comunga a palavra viva de Cristo, o pão que lhe falta, o pão que o mar não dá.
~
Hoje, Domingo de Páscoa, ressuscita Cristo.
Não há aqui vinhas nem trigais que reverdeçam. Mas o mar, que a nós que o vemos de fora, oferece uma superfície tranquila, em seu seio todo ele se alegra e revive.
O sol penetra a sua intimidade escura. Os peixes doiram-se, e as algas reverdecem. Toda a água é como um aquário, translúcida e colorida, onde se agitam em harmónica vida, em profunda paz harmoniosa, todos os seres nascidos das águas. E o mar que era tenebroso e escuro, sobre o qual a barca baloiçava, segura pela âncora, é agora como o seio de Deus, em que todos os seres se amam e se querem, e se compreendem.
~
Também a alma é escura, inquieta e indefinida. Também neste dia ela revive para a harmonia e para a luz.
É um outro sol que a ilumina, mas é o mesmo.
Também ela tem algas, e tem sal e tem peixes.
E também nela os peixes se doiram e as algas reverdecem.
Olhai o rosto de um pescador; vede quanto abismo interior ele revela; vede agora a criança que ensaia, pescando à beira-mar, com curtas canas, a profissão do pai. E reparai quanta graça o seu rosto reflecte.
Neste dia, o pai é o filho, e o filho é o pai.
[1] Publicado originalmente em O Sesimbrense, de 5 de Abril de 1953. Republicado em António Telmo, Sesimbra, o lugar onde se não morre, pp. 25-26.
VOZ PASSIVA. 150
26-02-2026 09:49Publicada na edição de 18 de Junho de 1977 do Diário de Lisboa, a recensão sobre a História Secreta de Portugal que hoje aqui se traz aos nossos leitores foi escrita, embora não assinada, segundo o próprio António Telmo, pelo jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco, então figura de proa na Redacção daquele vespertino. Com efeito, na entrevista, conduzida por Francisco José Viegas, que o filósofo concedeu à revista LER em 1998, pode, em dado momento ler-se o seguinte:
«[Revista LER] Mas escrever sobre o nacionalismo naquela altura não podia ser considerado como uma recuperação dos ideais conservadores do Estado Novo?
[António Telmo] Mas o livro até é a favor do 25 de Abril. O Estado Novo não tem nada a ver com os Dom Afonso Henriques nem com os Jerónimos… Aliás, a própria política de esquerda foi muito favorável, o livro agradou a toda a gente. O Assis Pacheco, por exemplo, escreveu um bom artigo sobre o livro.»
Estamos, pois, diante de um importante documento histórico-biográfico…

História Secreta de Portugal de António Telmo (Vega)
Fala-se aqui dum sentido que a história de Portugal pode ter. «Há uma história oculta de Portugal – diz o autor a páginas 24, ainda numa introdução. Não dizemos isto no sentido em que tudo se pode afirmar ter um aspecto simbólico. Pensamos que houve entre nós, se não connosco, uma organização esotérica que, de uma maneira perfeitamente consciente e intencional, procurou, a partir dessa Pátria, a quem deu existência, redimir o mundo do mal e da divisão». O texto de António Telmo pretexta-se mais imediata e concretamente no horóscopo que Fernando Pessoa fez prevendo (digamos) para 1978 (o ano que vem, portanto) uma mudança cíclico-astrológica para Portugal. Depois é a perseguição interpretativa do sentido que terão certos sinais dispersos ente os vestígios que do passado nos ficaram. Estamos aqui dir-se-á que predominantemente no domínio da especulação. Naturalmente. Mas haverá no trajecto que esta especulação faz (e que é, pode-se talvez dizer, um esforço produtivo de leitura – do processo de representação dos sinais e da sua articulação imaginada na cena igualmente imaginada da história) uma certa coerência, e não será de todo errado falarmos mesmo em termos de rigor. É evidente que restam sem resposta tantas interrogações, como outra coisa, aliás, não seria de esperar. O livro não terá o mínimo interesse ou sequer alguma validade para aqueles leitores que não serão capazes de sair do esquema unívoco que adoptam os mais dos discursos com a história por objecto – e que os nossos ajuizados compêndios reproduzem invariavelmente. O discurso de António Telmo privilegia o seu objecto mais distante e porventura inacessível: o símbolo, primeiro, o mito, depois – em perseguição do sentido para que a narração (o mito) aponta. Tudo isto se passa no âmbito do que poderemos dizer as estruturas mais profundas, ou a estrutura mais profunda, onde o sentido com que se gera e oculta – motivação e finalidade da actividade, das actividades, do trabalho, dos trabalhos, do homem dos homens. Trata-se no entanto não de uma análise estrutural – no que de científica a designação «estrutural» para nós denota e conota com as noções e conceitos mais generalizados hoje em dia. Haverá nisto uma limitação – dirão os mais prevenidos, armados de historicismo (seja qual for a forma, mesmo a aparentemente menos historicista, que este historicismo pode assumir). Para a generalidade dos leitores será necessária uma certa disponibilidade para a leitura deste livro. Quer dizer, este livro exige que o seu leitor se desembarace de algumas numerosas sobregangas que fazem dele um fóssil virtual. Parte-se aqui do famoso horóscopo que Pessoa fez prevendo para 1978 uma mudança ciclo-astrológica para Portugal. «É evidente que nada disto terá realidade à luz da história profana de Portugal» – diz o próprio autor a páginas 21. É evidente que tudo isto de que neste livro se fala nos escapa um pouco. Mas nem por isso nós poderemos recusarmo-nos a admitir a legitimidade do interesse que, se não em nós, noutros, pelo menos, pode suscitar (até à fascinação) o que neste livro se diz.
CORRESPONDÊNCIA. 79
26-02-2026 09:36
Carta de António Telmo para José Marinho de 1 de Fevereiro de 1973
Meu caro Amigo Sr. Dr. José Marinho
Chegou, pois, a altura de lhe escrever, depois de ter lido pela terceira vez Filosofia ensino ou iniciação? que quis oferecer-me pelo Natal e que, de facto, desceu pela chaminé. Há muito tempo não me sentia tão feliz a ler um livro. Só é pena que aqui no Redondo não tenha com quem trocar reflexões. Há uma ou duas pessoas para trocar impressões sobre livros que nos entram pela porta da cozinha.
Fiz três leituras: a primeira de um ímpeto; a segunda analítica; a terceira aprofundante. Como todos os livros que nos hipnotizam e nos “adormecem as potências resistentes da alma” ou nos fazem saltar de mundo, uma vez saídos há depois um esforço para recordar, a procura subtil duma atitude do espírito, para falar a linguagem de Bergson, ou a invocação dum demónio divino que nos conduza de novo para dentro, para falar a linguagem de Dante. Direi, no entanto, conforme vier vindo e pedindo desde já desculpa ao Sr. Dr. José Marinho se as minhas interrogações assumirem, como é inevitável, por vezes, a forma de afirmações.
Gostaria, contra o que sugere na dedicatória amiga, de publicar um escrito sobre o livro, mas como teria de me referir à democracia simiesca (de Veiga Simão) da educação nacional, tão justamente maltratada, não posso fazê-lo sem arriscar o pão do Manuel e da Anahy. Gostei de ver o Sr. Dr. José Marinho sair do barco em terra para definir esse e outros movimentos que se desenvolvem precisamente para anular a infinita virtualidade de espanto que há em todas as crianças e impedir a possibilidade de interrogação. Ando, porém, triste, flco triste a verificar que eles constituem os inevitáveis resultados da cultura numa gente, a portuguesa, que logo que emerge do torrão rústico só dá “mestres e polícias”. Nem sequer a influência estrangeira ou clerical explica. Fomos sempre assim, atavicamente, como quer Bruno. E se há, como há, uma outra história, o seu sujeito é outro. O duplo oculto em nada corresponde ao duplo visível. A unidade da língua? Mas a língua pode ser falada por pássaros ou por porcos.
Ensinar a essa gente, com muito mais lógica do que ela quando defende os seus próprios pontos de vista, que a filosofia não constitui objecto de ensino e que, quando constitui, como no programa do ensino liceal, deve introduzir aquelas noções operativas (intuição, reminiscência, imaginação, etc. que a transmutam numa actividade iniciática e, portanto, a desobjectivizam, atribuir-lhe, à filosofia, a suprema categoria de magistério espiritual ou, pelo menos, circunscrevê-la pelo domínio mental onde esse magistério se manifesta no homem; pareceria inútil, se não estivesse mais perto do que se julga (e isso nos é dito pelas palavras terminais do livro) a autofagia dum ciclo cultural que já começa a devorar a própria cauda. Ainda, na caracterização do homem português, aquela nota sobre o sarcasmo nos dois romancistas nacionais mais representativos e admirados, e mais lidos, é definitivamente certeira e creio que pelo menos em relação ao Eça não tinha sido marcada.
Do ponto de vista dos meus interesses mais próximos, o livro ajudou-me muito, na medida em que a filosofia é tida não como coisa mental mas como coisa capaz de nos integrar num processo misterioso cujo início só ela pode encontrar. É, porém, discutível se esta iniciação está ao alcance de todos os indivíduos através do ensino, já que “a luz ilumina todo o homem que vem a este mundo”. De qualquer modo, a pedagogia que não tem como supremo fim a anagogia reduz-se sempre a um mecanismo destinado a desenvolver o espirito crítico e científico.
Os romances do Graal são relatos dessa experiência anagógica. E também ali se conta que não conquista a pedra, o vaso, o livro de poder e da sabedoria quem não sabe, não pode ou se esquece de “interrogar”, de “pôr a demanda”. Não há exemplo no nosso país de reflexão filosófica tão funda deste e doutros pontos decisivos como aquela que o Sr. Dr. José Marinho nos apresenta. Pelo que me diz respeito, não lamento que, desta vez, tenha tornado mais acessível a expressão do seu pensamento, até porque o pensamento autêntico é sempre difícil se irrompe duma raiz secreta e remota, à qual temos de referir sempre o que, aparentemente parece próximo. Se assim não fosse, nunca se teriam inventado os contos tradicionais para crianças, para os que nascem segunda vez e já têm no rosto as rugas e os sulcos da filosofia. Além disso, parece-me que a leitura deste livro levará alguns a retomar de novo A Teoria do Ser e da Verdade ou, como diriam os hebreus, O Livro da Teoria.
Se o Sr. Dr. José Marinho quiser ter a bondade de me escrever outra vez, poderemos conversar mais sobre estes assuntos. De qualquer modo, gostaria de vir a saber quais as reacções que o livro provocou, não só entre os amigos, mas, se algumas houve, entre o público ignaro.
Do discípulo e amigo muito grato
António Telmo
CORRESPONDÊNCIA. 78
26-02-2026 09:31Carta de Max Hölzer para António Telmo de 27 de Junho de 1978
Le 27 juin 78
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Cher António Telmo,
Je vous prie de contacter les participants de notre cercle et ceux du « cercle de lecture » pour savoir s’il est possible de les réunir au mois de juillet, à partir du 15, ou non ; et de me l’écrire aussitôt que possible.
Je voudrais aussi savoir si les « autres » ont suivi les tâches nécessaires (le français, Ouspensky).
Ici un article d’un Père dominicain sur Carlos Castaneda que je trouvais dans une révue [sic] des poètes (jeunes) qui a emprunté pour titre « Le port des singes » au Mont Analogue.
Soyez sûr de toute mon attention amicale.
Maz Holzer
Donnez la copie de l’article, après l’avoir lu, à Francisco, s’il vous plaît.
VOZ PASSIVA. 149
17-01-2026 13:14Gramática e História
Risoleta C. Pinto Pedro

O filósofo que nos apresenta uma gramática da autoria de uma espanhola, Pilar Vásquez Cuesta, escrita em espanhol e editada em Madrid, como sendo a melhor gramática do português, viveu, na sua idade adulta, no Alentejo, sendo-lhe por isso fácil visitar e aí se fornecer de livros, a Livraria Universitas, em Badajoz.
Mas se recuarmos à proximidade do nascimento do futuro filósofo, está-se no cume das inquietações do país, por causa do problema do provimento de pão ao povo; os campos não produzem o trigo necessário. Ele não sentiria este efeito, a situação em Lisboa era a mais crítica e a família não sofria necessidades, embora a nível nacional se tornasse imperiosa e urgente a importação de trigo.
Consultando a História de Portugal de Oliveira Marques, saberemos que em 1925, dois anos antes do nascer, o ministro da Agricultura do governo de esquerda de José Domingues dos Santos apresenta, no Parlamento, um “Projecto de lei da Organização Rural”, que indicava um repovoamento rural com uma reforma agrária moderada, que silenciava a desapropriação. O governo caiu antes da aprovação do projecto. Os governos que se seguiram, mais à direita, não lhe deram prosseguimento.
Em 1927 nasce António Telmo. No mesmo ano duplica o número de automóveis em relação a 1924. O nosso biografado irá adquirir o seu primeiro carro por alturas do serviço militar.
O número de localidades servidas por telégrafo quadruplicou também em relação a 1924, e em 1925 um diploma legitima, protege e estimula ainda mais, a marinha mercante nacional, o que irá ter uma fundamental importância quando, dois anos depois, a família de Telmo partir para Angola.
Subiremos à árvore, ainda não a da Cabala, cujos ramos tanto o atraíram, cujas raízes tão bem regou, de cujo jardim tão bem cuidou, para no-la mostrar no seu brilho de safiras. A nossa árvore é a da genealogia, para tentarmos compreender, procurando nos ramos onde a História se entrelaça com as histórias, a raiz da grandeza do génio.
Em Fevereiro de 1927, como já dito o ano do seu natal, aconteceu uma revolta, a primeira tentativa, com alguma consistência, para derrubar a ditadura após o Golpe de 28 de Maio de 1926. A esta revolta há quem chame rebelião militar e terá durado sete dias. O centro da acção foi o Porto, porque aí estava o coração do comando e foi lá que se desenrolaram escaramuças, mas Lisboa juntou-se à revolução. Três meses antes do nascimento do herói cuja narrativa iniciamos, a dar o tom à vida que se desenrolará lúcida e inconformista, como uma revolução que se ergue, silenciosa, contra a escuridão. O aparente insucesso da revolta de Fevereiro foi, apenas, uma das etapas da não desistência de uma sempre presente, mas às vezes oculta, resistência. O preço deste episódio foi alto, rendição e prisões, dezenas de mortos e centenas de feridos no Porto e em Lisboa. Foi o general Adalberto Gastão de Sousa Dias quem liderou este primeiro gesto do chamado Reviralhismo, sucessão de movimentos insurrecionários para o derrube do regime.
Entretanto nasce, dentro de uma fortificação com forma aproximada à estrela de Salomão, o bebé a quem mais tarde alguém viria a revelar, em ambiente reservado, que poderia ser destinado a um notável papel, tendo acrescentado um conselho, que por ora manteremos em segredo.
17 de Janeiro de 2026.
VOZ PASSIVA. 148
17-01-2026 09:00A mentirada
Pedro Martins

1. Por mais de uma vez escutei a António Telmo a palavra saborosa que substancia o título deste escrito. Disse-me o filósofo que a haurira nas andanças vocabulares transtaganas; e com ela designava os desvirtuamentos do movimento da filosofia portuguesa patenteados, no plano político como no religioso, por alguns dos seus condiscípulos e seguidores.
Resulta difícil discernir uma dimensão política no pensamento filosófico deste livre-pensador religioso. Mais curial será reconhecer no gnóstico que também foi algumas atitudes políticas que, pela firmeza do rumo, o nobilitam como um cultor da Liberdade.
A concretização de tal desígnio torna-se, porém, premente: um número recente da revista Superinteressante, supostamente dedicado à portugalidade, amalgamou três escritos de Telmo com alguns ensaios de interpretação filosófica sobre o ser português de que, não raro, ressuma um devocionismo fanático com laivos de autoritarismo. Não admira, pois, que os editores hajam trazido para a capa da publicação o Padrão dos Descobrimentos de Cottinelli Telmo. Independentemente da valia artística do monumento, e do seu direito de cidade, ninguém, por certo, desconhecerá que o padrão foi um expoente da Exposição do Mundo Português, valendo, por isso, como símbolo do Estado Novo.
Mas António Telmo não cabe nos labirintos do mago das Finanças, esse “menino mimado do Vaticano”, como justamente chamou a Salazar o seu biógrafo Yves Léonard. Com um módico de boa boa-fé e outro tanto de instrução, percebe-se o que quis Telmo significar ao verberar na História Secreta de Portugal a paródia mnésica do salazarismo, essa falsa vivência dos valores patrióticos.
Ler, como algures se lê na revista, que Agostinho da Silva foi incomodado pelo Estado Novo releva, por certo, de uma outra incomodidade que somente a frequência do divã de Freud poderá mitigar. Afinal de contas, foi só passar pelo catre da enxovia do Aljube, pernoita chique a valer e então muito em voga, e seguir de rota batida para os trópicos de Vera Cruz num exílio assaz voluntário.
Ficamos ainda a saber, a pretexto dos malefícios do positivismo, que a Seara Nova, com as suas costas largas de décadas (tão largas que nela coube, por muitos anos e por direito próprio, um Sant’Anna Dionísio a defender Leonardo Coimbra e a publicar os seus próprios livros), teria hostilizado Pascoaes, Pessoa e Régio. Essa mesma Seara de quem Telmo, porém, pôde belamente escrever que «era uma promessa de pão, uma messe, uma missa, uma mensagem dirigida à acção imediata, esteada em razões susceptíveis de serem ensinadas onde houvesse mente de homem» (2014: 100). No mesmo texto em que verbera «aqueles traidores que teimam em ver a luz nas labaredas da Inquisição» (Idem: 98).
Tanto a Seara hostilizou Pascoaes que, pasme-se, deu chancela à segunda edição da Vida Etérea e revelou as cartas que o vate escrevera a Suzanne Jeusse, tradutora francesa do longo poema mítico de 1912! Para começo, não está mal… 
De Pessoa, publicou a Seara postumamente, em 1937, o fabuloso poema anti-salazarista intitulado “Liberdade”, que nos fala do prazer de não cumprir um dever, de ter um livro para ler e não o fazer. Neste caso, não foram propriamente livros, mas, na ordem das muitas dezenas, senão centenas, os números da Seara Nova que ficaram por ler. Só assim se explica não ter havido do plumitivo a percepção de que José Régio, anos a fio, foi figura de proa da Seara e só a abandonou num gesto de compromisso – imagine-se! – com António Sérgio.
Foi aliás com a chancela seareira que o sobredito Sant’Anna publicou em 1953 O Poeta, essa ave metafísica, livro sobre Pascoaes em que o autor, não raro, recorre a frases deste. Como essas, preciosas, que lhe escutou sobre a conversão de Leonardo Coimbra, lamentando o vate de Gatão que o filósofo criacionista o houvesse feito na ocasião em que o fez: «Se estivesse um governo anti-religioso, duro, avermelhado, – está bem; a sua atitude seria justificada e heróica. Assim, – foi o diabo…» (1953: 31-32)
2. Será por certo mais fácil procurar saber o que não foi Telmo em política, na medida em que procurou desenlear a filosofia portuguesa dos liames abusivos com que alguns pretenderam jungir ao reaccionarismo uma tradição filosófica politicamente liberal e de livres-pensadores religiosos.
Telmo tinha consciência do pecado original. Em 1988, numa carta que não sabemos se chegou a seguir para Francisco Moraes Sarmento, director da revista Leonardo, mas cujo dactiloscrito surge firmado pelo seu próprio punho, mostra estar ciente do «proveito que os adversários do livre-pensamento podem tirar da confusão estabelecida pela conversão final ao catolicismo do pensador “obreiro”, desviando subtilmente a interpretação da sua filosofia da linha de impulso que Álvaro Ribeiro situou em Sampaio Bruno. Tudo está aqui neste desvio subtil. Não me parece que a orientação geral ou dominante da Revista possa, sem contradição, incluir entre os filósofos de filosofia portuguesa Sampaio Bruno, aceitando o ensino de Álvaro Ribeiro que o dá como “fundador”, isto é, como aquele que estabeleceu os princípios que fundam essa mesma filosofia».
A conversão de Leonardo ocorre em plena ascensão do salazarismo; e o Estado Novo, mais do que um regime fascista como o italiano (de cujo paradigma, não obstante, irá recolher alguns traços fundamentais), é um regime autoritário de radicação católica: Salazar, nada atreito ao cesarismo pagão que unge o Duce, chega ao poder, como ministro das Finanças, em Abril de 1928, para não mais o largar até à fatídica queda quatro décadas depois, como militante proeminente do Centro Católico Português, um partido nacionalista, anti-liberal e anti-socialista (Léonard, 2023: 70). Prevalecendo sobre a Igreja, na pirâmide do regime, restará apenas, em última instância, a pessoa imensa e inexorável do ditador.
A confusão não se deu, porém, na geração dos discípulos de Leonardo. Álvaro Ribeiro, para quem o mestre havia convertido na ortodoxia católica a Saudade, interpretada em termos judeo-cristãos (a precisão técnica desta expressão conotada com o ebionismo remete-nos para a mais lídima tradição herética nacional) (2005: 139), confessa-se impedido, dez anos depois da morte de Leonardo, por força de divergências profundas, especialmente em teologia, de estudar a obra deste e de escrever sem mácula um estudo sobre o seu pensamento (2004: 298). A sua vinculação, ao dealbar a década de 30, ao movimento da Renovação Democrática permite creditá-lo como um dos primeiros opositores ao Estado Novo, em cujo funcionalismo público irá modestamente sobreviver com a solércia, não raro incompreendida, do marrano que sempre foi, e que se não converteu, nas suas próprias palavras, «à religião da maioria» (1969: 20). Daí que, quando, nas palavras de Telmo, já não temia que o proibissem de viver, houvesse vindo exortar a Igreja Católica a «aceitar, enfim, o messianismo de S. João Evangelista e de Joaquim de Floris, libertando a liturgia de praxes e de dogmas que representam rotinas pretéritas, já insignificantes ou talvez hipócritas» (2005: 304).
Obra de fundo sobre Leonardo virá José Marinho a escrevê-la, não sem antes haver caído em desgraça perante o salazarismo. «Em 1937», como lembra Jorge Croce Rivera, «e por ter protestado pela inclusão do seu nome sem seu consentimento num telegrama de repúdio pelo atentado anarquista ao presidente do Conselho de Ministros, Marinho foi preso por alguns meses no Aljube, sendo-lhe retirada, após a libertação, a licença de ensino» (2000: 217). Antes mesmo de incomodar Agostinho, a ditadura incomodava Marinho, poderia quiçá ter escrito o plumitivo paliativo da Superinteressante.
Do “Estranhíssimo Colosso”, a história da sua passagem pelo Aljube é hoje assaz conhecida e, em lance de paralelismo com a de Marinho, encontra já antecedentes na sua recusa, dois anos antes, enquanto funcionário público, em assinar a declaração imposta pela Lei Cabral, que visava sobretudo atingir a Maçonaria e o Partido Comunista. Como Marinho, Agostinho quer ter a primeira e derradeira palavra sobre o núcleo irredutível da sua pessoa, e não que outros pensem, digam ou ajam por ele. Se a queda em desgraça leva Marinho a cruzar-se, em Arruda dos Vinhos, com os caminhos de Telmo, pois que ali passe a deslocar-se, como explicador particular de seu irmão Orlando Vitorino, ao dealbar a década de 40, a deriva de Agostinho para os trópicos prepara o encontro, duas décadas depois, em Brasília, com o filósofo da arte poética, para cuja universidade Eudoro de Sousa o chamará a leccionar.
Telmo, em escrito dado à estampa, pela primeira vez, nas páginas desta revista, explica a aparente animadversão de Agostinho para com a filosofia portuguesa e para com Leonardo pelo facto de o ensino deste haver sido «falsamente interpretado sobretudo pelos discípulos dos discípulos como de direita» (2018: 175). Assim, «era preciso levedar a “esquerda”», e isso teve de ser feito por quem, mais do que qualquer outro dos discípulos de Leonardo, dele herdara «o poder de comunicar de viva voz o verbo do espírito, o fascínio pela matemática e pela física nas suas mais altas expressões modernas, o franciscanismo, a conversão ao catolicismo, o sentido da fraternidade de todos os seres, o misticismo e o universalismo» (Idem: 174).
A carta, acima citada, de António Telmo para Moraes Sarmento parte de um episódio que este último teria revelado: «o senhor bispo fulano de tal» advertira a Leonardo, através de Pinharanda Gomes, «sobre o perigo, já visível, de ela se tornar um órgão do anticlericalismo». Telmo supõe, então, que a sua colaboração na revista haja sido envolvida na advertência episcopal; e, visando aquele seu condiscípulo, prossegue: «a intriga, no nobre sentido da relação a três, estabeleceu-a o autor desse livro subreptício e subversivamente antipatriótico “História da Filosofia Hebraica”».
Na visão do filósofo, o artigo sobre Leonardo, que escrevera para o primeiro número da revista «logo provocou a censura eclesiástica, através da carta de Barrilaro Ruas»: «Nos livros que até agora publiquei e nos escritos que se vão dispersando por revistas e jornais deixei claramente expressa uma interpretação de filosofia portuguesa de raiz brunina e, por isso, incompatível, no domínio da religião, da política e do ensino com a que é dominante entre vós.»
A fractura é já evidente; mas duas décadas depois ganha contornos mais nítidos, em carta, datada de 12 de Novembro de 2007, para o próprio Pinharanda, que, em anterior missiva, repreendera Telmo por este, imprecisamente, haver imputado a Salazar o encerramento da Faculdade de Letras do Porto. Telmo não gosta e responde-lhe à letra:
«Quando eu era moço e andava lá pela tertúlia de filosofia portuguesa, ouvi dizer que tinha sido Salazar a fechar a Faculdade pela qual tudo conhecemos do que verdadeiramente conhecemos. Não foi Salazar, nem ninguém por ele mandado. Sei-o agora por si. Peço-lhe desculpa do engano. Não peço à memória de Salazar, pois me parece que não me engano desta vez lembrando que foi, quando ele era Primeiro Ministro e Presidente do Conselho, que se deu a prisão de José Marinho e lhe foi tirado o pão da boca das filhas, pois o impediram de continuar a ensinar nas escolas do Estado. Andou, depois, calcorreando ruas, de casa em casa a dar explicações, até que, muitos anos passados, o Orlando, que Deus haja, lhe arranjou emprego na Gulbenkian. Ironia do destino. Estranho favor da Providência! Foi por ter sido impedido de ensinar nas escolas do Estado Novo que veio até Arruda dos Vinhos para onde o solicitaram, a fim de dar explicações de filosofia ao futuro enorme filósofo Orlando Victorino. Disto beneficiámos todos. Eu e o Pinharanda também. Por alguém ser contra a FILOSOFIA PORTUGUESA; ESTA CRESCEU E AUMENTOU. Por ser contra, quem? Sem dúvida, o diabo que protege os estúpidos.»
«Meu caro Pinharanda, meu Amigo, com toda a franqueza, eu acho que o engano não foi assim tão mau, embora seja condenável por não corresponder à verdade. Acho que não foi assim tão mau, porque os nossos inimigos situados em grande parte entre os materialistas ateus politicamente de esquerda gostam de fazer passar por fascistas Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e até já o fizeram com o Agostinho da Silva quando ele veio do Brasil e constava que se tinha convertido ao catolicismo. Mas o que caracteriza o ensino destes homens e dos que o acompanham, entre os quais me situo e gosto de o situar a si, é o amor da liberdade e da verdade, ambas incompatíveis com o positivismo salazarista e com o materialismo dos anti-salazaristas de esquerda ou de direita. Somos livres e, se não somos, devemos sê-lo.»
Desfazer a confusão emergente do pecado original, cujas consequências se sentirão sobretudo a partir da década de 50, eis o propósito, firme e constante, de Telmo. Tarefa árdua, mas não impossível, ainda se, em plano eminentemente político, o liberalismo de Orlando Vitorino, amplamente esteado no pensamento de Friedrich Hayek, nos não deve fazer perder de vista a viva simpatia que o autor de O Caminho para a Servidão nutria por Salazar e pelo seu regime, chegando mesmo, em 1962, a enviar-lhe um exemplar da sua obra A Constituição da Liberdade, e a manifestar-lhe a esperança de que um tal «esboço preliminar de novos princípios constitucionais possa ajudá-lo nos seus esforços de conceber uma constituição protegida dos abusos da democracia» (apud Léonard, 2023: 363). Como refere Yves Léonard, autor de que me venho servindo, Hayek esclarecerá mais tarde que a sua ideia consiste em concentrar «o poder nas mãos de uma elite cuidadosamente selecionada, ao abrigo da influência das massas» (Idem: ibidem).
3. No Verão de 1965, com arrepiante exactidão, o astrólogo e quirólogo Horus predissera a António Telmo alguns acontecimentos decisivos da sua vida pessoal e profissional que o curso dos meses se encarregaria de confirmar; e, não sem assombro, revelou-lhe ser ele o único homem que poderia derrubar Salazar, exortando-o, porém, a que o não fizesse.
Em 1962, quando leccionava na Escola Industrial e Comercial de Beja, Telmo vira-se exonerado, conforme acta de 31 de Janeiro daquele ano, do cargo de Adjunto do Director dos Serviços de Concursos Literários do Centro da Mocidade Portuguesa, por mor de 14 faltas injustificadas, pois que o filósofo se recusasse sistematicamente a colaborar com aquele Centro, deixando de comparecer a aulas que eram obrigatórias. A bravata trouxe-lhe ainda outras consequências desagradáveis: não haver obtido, como classificação de serviço, no ano lectivo de 1961-62, mais do que um sofrível “Suficiente”, segundo reza uma outra acta, agora do Conselho Escolar daquele estabelecimento, de 11 de Agosto. Esta classificação era raríssima: nos anos anteriores sempre Telmo fora classificado com um “Bom”.
A ida para o Brasil estivera entre os vaticínios de Horus. Ao cabo de uma estada de dois anos e meio, desencantado com o país irmão e receando os efeitos da Ditadura Militar que dele se apoderara, Telmo e a família regressam a Portugal. Aterram na Portela em 26 de Julho de 1968. Mas, de início, o regresso estivera previsto para 1 de Agosto, data da queda de Salazar. Telmo obedecia a Horus…
No ano lectivo de 1971-72, Telmo vai fundar e dirigir a Escola Preparatória do Redondo, à qual, não sem orgulho, se referirá, mais tarde, como a primeira escola democrática do país, graças às inovações pedagógicas que ali incrementa e ao sentido, profundamente humanista, que norteará este seu projecto. Em carta de 4 de Maio de 1972, Agostinho da Silva dar-lhe-á conta da espantosa impressão que a visita à escola lhe motivara: «Já para não falar de mim, Maria Violante veio entusiasmada com sua Escola – a da liberdade, da familiaridade, da criação. Acho que há que acrescentar o louvor da sua pedagogia de gente adulta, inteligente e corajosa, coisa rara por estes lados. Suponho, pelo que vimos, que sua Escola será do melhor que jamais se fez» (2014: 108).
A tríade enunciada por Agostinho descreve a realidade com exactidão. António Telmo estimulara o convívio entre docentes e discentes, sem solução de continuidade entre a sala de aula e o refeitório. Uma cantina tinha sido posta a funcionar rapidamente e o refeitório era simultaneamente utilizado por professores e alunos, que tomavam as suas refeições em mesas comuns sem qualquer espécie de discriminação e com o evidente propósito pedagógico de prolongar até às refeições o ensino de saber comer e estar à mesa. Alunos e professores utilizavam igualmente as salas comuns de convívio, de trabalho e de lazer. No mais, o filósofo opera uma autêntica revolução, interditando estrita e definitivamente os castigos corporais aos alunos e promovendo iniciativas que vão desde a criação de um jornal à organização de actividades comuns entre estabelecimentos escolares congéneres de povoações vizinhas, passando pela recepção a vultos importantes, que vinham de visita à escola, como o caso, já apontado, de Agostinho e também o de Hernâni Cidade, redondense ilustre.
O processo de fundação do estabelecimento não isentou António Telmo de dissabores e sobressaltos com as autoridades locais e governamentais do Estado Novo. Num rincão pejado de grandes latifundiários e homens bem escanhoados, a barba cerrada que então usava era um alarmante indício de bolchevismo. Como o próprio nos conta, em entrevista à revista LER – Livros e Leitores: «Quando vim do Brasil, usava barba. E o ministério de Veiga Simão pediu-me para ir fundar a escola do Redondo. E eu vim. Nesse tempo ainda se fundavam escolas – agora abrem-se escolas. E quem ia fundar uma escola tinha, também, de escolher os professores, etc. Quando lá cheguei, apareceram-me os políticos da terra a impor os professores, mas eu não deixei. Entre os que escolhi, pelo menos dois eram contra a situação, o que, aliado às minhas barbas, fez com que isto chegasse ao Governador Civil e, depois, ao ministério. Lá fui eu a Lisboa. O director-geral [Dr. Rogério Fernandes] perguntou-me: «Você é a favor da situação?» E eu disse: «Não, sou contra.» E ele perguntou-me o mesmo que vocês agora: «Mas pertence a alguma coisa?» e eu disse que não. «Então, volte lá para o Redondo, que tem o nosso apoio», respondeu-me ele. A partir daí não tive mais problemas» (2016: 116).
Logo após o 25 de Abril, o nome de Telmo surgirá a encabeçar as assinaturas de um grupo de democratas de Sesimbra que «vem manifestar o seu incondicional apoio e adesão ao programa político apresentado pela Junta de Salvação Nacional». Dessa Sesimbra que, pelo seu empenhamento, verá desfilar nas suas ruas Vitorino Salomé e o grupo de Cantadores do Redondo, actuação musical que contou também, como nos testemunha António Couvinha, com a participação de Zeca Afonso.
Por contraste com as demais figuras de proa da geração do 57, tudo isto torna Telmo um vulto sem par. “Você é diferente deles” – sussurrar-lhe-á Joel Serrão, depois de o escutar no decurso de uma mesa-redonda subordinada ao tema “Leonardo Coimbra e a Filosofia Portuguesa”, realizada no Porto, em 12 de Abril de 1983, por ocasião das comemorações do centenário do filósofo criacionista, em que um e outro coincidem com Fernando Sylvan, José Augusto Seabra, António Quadros, Afonso Botelho e António Braz Teixeira.
4. Tudo isto são apenas gestos e atitudes, decerto nobilíssimos, mas insuficientes para esclarecerem o seu pensamento político. Ainda assim, a História Secreta de Portugal, obra publicada com êxito estrondoso na Primavera de 1977, no rescaldo de uma revolução que o autor realmente desejara e a que visava agora conferir a orientação superior de um sentido espiritual, será o lugar da sua obra que, a um tal respeito, melhor nos pode servir. Desígnio ali postulado vem a ser, como n’O Encoberto de Sampaio Bruno, o da unidade na liberdade, assegurada pelo governo do melhor, ou seja, por um regime aristocrático polarizado na figura do Rei, tal como Dante Alighieri propugnara na sua Monarquia, o que está longe de se poder confundir com as monarquias existentes, que ou «são uma paródia, ou não são legítimas ou constituem uma evocação» (2013: 143).

Neste sentido, e dentro da concepção cíclica que Telmo desenvolveu naquela obra, será talvez possível buscar na tradição iniciática um horizonte de esperança, por ser ela que, em última instância, sustenta, permeia e vivifica o pensamento político do florentino.
A perda do poder pela Igreja Católica a favor da Maçonaria havia assinalado, com Pombal, o início do terceiro ciclo da nossa história: o do povo. Não desconhece, porém, o filósofo que a Ordem Maçónica, que durante algum tempo ainda pudera assegurar as condições requeridas para a iniciação, havia sido minada de fora para dentro e reduzida, no dogma e no ritual, a um mínimo facilmente neutralizável. No capítulo que no livro, referido ao ciclo do povo, dedica a “Fernando Pessoa, Rectificador da Maçonaria”, se, por um lado, mostra como o positivismo veio desvirtuar a experiência espiritual das lojas, não deixará, por outro, de vislumbrar na Maçonaria, na senda de António Carlos Carvalho, talvez «o que passe deste ciclo para o seguinte, assegurando a transição através dos elementos incorruptíveis que contém» (Idem: 119). Nessa mesma Maçonaria que, tornada dominante no início do ciclo do povo, conservava ainda algumas reminiscências do ciclo dos reis: à gibelina e templária monarquia portuguesa, em meio de excomunhões e interditos papais, muito conviera a doutrinação dantesca e o remoto fundo sapiencial em que esta se inscrevia.
Mas o derradeiro capítulo da História Secreta, pelo reconhecimento de condições as mais adversas, por hostis, à iniciação, parece um convite desalentado ao isolamento individual, mero apelo à reclusão estóica de cada um em si mesmo. Poderemos, porém, entrever neste desenlace a proposição de um tempo suspenso, como espera ou esperança de estrelas propícias. Significativamente intitulado “Últimas reflexões de um profano”, o derradeiro acto da História Secreta aponta já, por isso mesmo, para a vitriólica câmara de reflexão e para o que nela precede e prepara a mudança de estado pela morte iniciática. Posto que insuladas, as mónadas, pelo comum propósito que as reúne, formarão um arquipélago…
No ano seguinte, em 1978, por indicação de Álvaro Ribeiro e a pedido de José Valle de Figueiredo, escreve António Telmo um prefácio destinado à reedição, pelas Edições do Templo, de O Encoberto, de Bruno.
Na leitura de Telmo, Bruno faz n’O Encoberto o elogio do socialismo, essa degenerescência da Maçonaria, como forma de teodiceia. Mas, ainda que, por mor dessa degradação, se possa discordar do portuense; ou que da Ordem Maçónica se forme uma imagem minorativa precisamente «porque o socialismo ateu ou igualitário dela derive ou nela se fundamente» (2014: 152), o filósofo, judicioso, fará notar que, «também para os católicos, os caminhos sinuosos do clero não alteram a perpétua verdade da Igreja fundada por Pedro» (Idem: ibidem).
A verdade é que Sampaio Bruno, adentro de uma angelologia que fora já a de Dante, «vê no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria» (Ibidem), com o que se quererá talvez significar «que o socialismo constitui o socorro que o todo homogéneo dos seres integrados envia ao nada dos seres decaídos. O fim da Maçonaria no plano político será assim a participação dos membros dispersos e dilacerados da humanidade numa grande e luminosa unidade interior. Nem um só homem poderá ficar fora do processo universal de realização da Bondade. Todos os homens, pela democracia, serão chamados a cooperar activamente na política, assumindo-se cada um como uma parcela luminosa do universo, pois, enquanto emanação superior, conquanto esquecida de si, possui a potencial dignidade de um “sacerdote-rei” maçon, de um arquitecto. Há então que correr o risco que consiste na subversão dos elementos superiores pelos elementos inferiores. Mais do que o risco, há que viver essa subversão sem a cobardia do egoísmo, a não ser que se aceite a ideia pessimista de que para sempre haverá divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os que podem e os que não podem» (Idem: 152-153).
A importância decisiva do trecho impõe tão longa transcrição. A reedição de O Encoberto, porém, gorou-se, e com ela a saída a lume do escrito de Telmo; mas o filósofo parece jamais ter deixado de pensar o que nele mentara. Comprova-o o facto de o haver recuperado e enviado para publicação no livrinho Messianismo Português que a Fundação Lusíada, em 2005, dará à estampa, modo de documentar o colóquio que, sob aquele título genérico, tivera lugar em Coimbra, em Outubro do ano anterior. Por esta época, ainda Telmo mantém plenamente a prática maçónica na Loja Teixeira de Pascoaes, cuja criação obedecera ao seu desígnio de conferir operatividade iniciática, pela desinência martinista do Rito Escocês Rectificado, ao pensamento filosófico da tradição portuguesa, na senda de Bruno, Junqueiro e Pascoaes.
5. Alguns dos fautores da mentirada que continua a envolver o movimento da filosofia portuguesa, fiados no título de uma sua obra publicada a título póstumo, têm pretendido fazer crer que a iniciação maçónica de António Telmo mais não foi do que uma aventura inconsequente, e mesmo deletéria, no caminho do filósofo.
Se fossem intelectualmente honestos, teriam estes lamentáveis ultramontanos de postular que o filósofo jamais se desencantou com a tradição maçónica, com o seu ritual, com o seu simbolismo, com o seu ideário. Poderá, é certo, António Telmo ter ficado entristecido com o que, por vezes, presenciou em loja ou fora dela, em ágape ou nos passos perdidos. Mas o que quer que haja sido, não o impediu de, em 2009, já afastado do templo, ter dado para reedição, ao editor Alexandre Gabriel, as suas Congeminações de um Neopitagórico, título que é, nem mais nem menos, do que o termo de substituição para Reflexões de um Maçon ou coisa que o valha, como, de resto, o mostram as suas páginas. Desde logo as da “Introdução”, descarada projecção de uma loja maçónica sob a égide da tradição filosófica portuguesa, em que aos onze lugares preenchidos pelos irmãos se acrescenta um décimo segundo, cadeira vaga aguardando quem nela quiser, puder e souber vir sentar-se; mas também as da “Carta ao Pedro Sinde – Um dos Doze”, ou ainda as da fabulosa sequência de diálogos que, entre o marranismo, a Kabbalah e o gnosticismo, ali exprimem o ânimo conciliador da Ordem Maçónica.
Também A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete foi entregue pelo próprio Telmo a Alexandre Gabriel poucos meses antes de partir. O livro pode ter saído póstumo, mas as ideias que veicula manteve-as o seu autor até ao fim da vida. Constata-o quem, sem pensar com a vontade, evitar treslê-lo com a bílis… 
Oscilando entre a freima criacionista e um claro propósito rectificador, este par de livros cumpre a contento o propósito cifrado nas “Últimas Reflexões de um Profano” com que desce o pano sobre a História Secreta, obra em que a Ordem Maçónica nos surgia já, congruentemente, como a depositária virtual de um renascimento. Serão, pois, o corolário de um desígnio cuja concretização fora longamente preparada e maturada. Querer somente ver na aventura maçónica de Telmo, como promovem os reaccionários da mentirada, um devaneio dessultório constitui um grave atentado à boa-fé, cuja punição maior logo lhes chega do ridículo com que os recobre a indesmentível verdade textual de uma obra couraçada. Dela, em dado momento, se vê, com Sampaio Bruno, no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria. Não diremos que esta proposição de Telmo permita resumir, no essencial, o seu ideário político. Diremos antes ser uma sua expressão plausível, em jeito de aproximação à essência complexa de um pensamento que é movimento.
6. Em 30 de Janeiro de 2010, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, casa de que foi o primeiro director, escutei, ao lado de António Telmo, uma conferência sobre Guerra Junqueiro por um dos membros do seu círculo. E ouvi-o comentar, com desagrado, que o poeta de A Velhice do Padre Eterno não era o que ali dele estava a ser dito.
Quatro meses depois, a 29 de Maio, já visivelmente doente, fará Telmo, naquela mesma sala, a sua derradeira oração pública. É manifesto o sacrifício com que o orador, bastante debilitado, fala para a assistência. Surpreende, porém, pelo tom empolgante com que a arrebata num apólogo estrénuo da República, em detrimento da dinastia de Bragança, que manifestamente verbera. Arranca-lhe, a final, tremenda ovação. No âmbito do colóquio “Anarquia, Monarquia e República”, Telmo fala sobre “Monarquia e República”. A seu lado, António Cândido Franco abordará o tema “Anarquia e República”, para além de apresentar o livro Luís de Camões, de Telmo, lançado nesse mesmo dia.
Nas palavras de Telmo corre, medular, a indignação que atravessa as laudas da Pátria. Como um testamento espiritual, a resposta ao conferencista de Janeiro estava dada.
OBRAS CITADAS
DIONÍSIO, Sant’Anna (1953), O Poeta, Essa Ave Metafísica. Lisboa: Seara Nova; LÉONARD, Yves; (2023), Salazar – Uma Biografia. Lisboa: Edições 70; RIBEIRO, Álvaro; (1969) – A Literatura de José Régio. Lisboa: Sociedade da Expansão Cultural; (2004) – Dispersos e Inéditos. I. Lisboa: INCM; (2005) – Dispersos e Inéditos. III. Lisboa: INCM; RIVERA, Jorge Croce (2000) – “«Estádios no caminho da Verdade»: o percurso ético-metafísico de José Marinho”, in História do Pensamento Filosófico Português, Direcção de Pedro Calafate. Lisboa: Caminho, pp. 211-247; SILVA, Agostinho da (2014) – Cartas para António Telmo. Évora: Licorne; TELMO, António (2013) – História Secreta de Portugal. Sintra: Zéfiro; (2014) – A Terra Prometida: Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império. Sintra: Zéfiro; (2016) – Viagem a Granada seguida de Poesia. Sintra: Zéfiro; (2018) – “Agostinho da Silva”, in A Ideia – Revista de Cultura Libertária, 84-85-86, Outono 2018, pp. 174-176.
