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EDITORIAL. 21

25-03-2020 18:52

Dias de espera em tempos de Esperança

 

É de todos sabido o momento, entre dramático e trágico, que Portugal e o mundo estão a viver.

Este quadro circunstancial havia já ditado o cancelamento da sessão de lançamento do Volume XI das Obras Completas de António Telmo, A Verdade do Amor precedida de Adriana, que iria ter lugar, no passado dia 20 de Março, na Cooperativa Árvore, no Porto, e em que se apresentaria também a primeira edição completa da Vida Conversável, de Agostinho da Silva e Henryk Siewierski, lançada em Lisboa a 24 de Janeiro, ambas as obras trazendo o selo da Zéfiro.   

Foi isto há duas semanas. De lá para cá, toda a vida cultural pública do país parou. Disso mesmo se ressentiu largamente o surgimento de Portugal, Razão e Mistério – A trilogia, livro de António Quadros posfaciado por Pedro Martins, do nosso Projecto, que ia ser lançado no passado sábado, na sede da Fundação António Quadros, em Rio Maior, e que tinha já igualmente definidas, ainda no mês em curso, sessões de apresentação no Porto e em Lisboa, com a participação de outros membros do PAT.VO: Paulo Samuel e Miguel Real, respectivamente.

Provavelmente a obra que mais e melhor dialoga com a História Secreta de Portugal, de António Telmo, Portugal, Razão e Mistério, agora ressurgido pela vontade inquebrantável de Mafalda Ferro, havia inclusive chegado às principais redes portuguesas de livrarias com destacada pujança. O que, num só trimestre, prometia ser um movimento editorial como havia muito se não via no seio da Escola Portuense, com a saída a lume de novos livros de Agostinho da Silva, António Telmo e António Quadros, foi subitamente eclipsado pela sombra duradoura de uma dura incerteza a que importa, porém, responder com a virtude da esperança, na espera de um recomeço.

Não iremos parar. Encontramo-nos a transcrever um conjunto de escritos inéditos do nosso patrono, e bem assim a correspondência que Dalila Pereira da Costa, ao longo de décadas, lhe dirigiu e se guarda hoje no espólio do filósofo. Tudo isto se destina ao dossier especial que a revista NOVA ÁGUIA irá dedicar a António Telmo no seu próximo número, a ser lançado no segundo semestre deste ano de 2020 em que, a 21 de Agosto, se assinala o décimo aniversário da sua partida, e que irá, por certo, receber ainda a colaboração de vários membros do nosso Projecto.

Entretanto, procuraremos intensificar o ritmo das publicações nesta nossa página digital, reforçando assim os laços com os leitores, que são afinal a nossa razão de ser. Serão de guerra, segundo dizem alguns, estes dias, que por ora ainda correm sob o signo de Marte, ou de Março. Mas deste mês são também algumas datas que, como efemérides, evocam figuras luminosas e magistrais do universo télmico: Álvaro Ribeiro (nascido em 01.03.1905), Dalila Pereira da Costa (nascida em 04.03.1918 e falecida em 02.03.2012) e António Quadros (falecido em 21 de Março de 1993). A todos eles, de alguma forma, os evocamos, nos novos textos inéditos que o leitor aqui encontra hoje publicados.  

INÉDITOS. 85

25-03-2020 18:31

Esboço de uma carta para António Quadros

 

Dirijo-me a si, com quem são raríssimas as ocasiões de conversar, a si pela nossa homónima afinidade, para lhe perguntar se por acaso não recebeu o meu último livro Gramática Secreta da Língua Portuguesa e, se o recebeu e leu, o que é que pensa dele. Eu acreditava nesse livro. Todavia, embora não me surpreenda a sua desclassificação no concurso ao Grande Prémio da Sociedade de Língua Portuguesa, intriga-me o silêncio do grupo de Filosofia Portuguesa. Com excepção do Agostinho da Silva e do Álvaro Ribeiro, dos quais possuo cartas, todos os outros se comportam como se ignorassem a sua publicação. Devem ter feito o mesmo com o seu último livro sobre o Fernando Pessoa, mas o António Quadros, pelo que vejo com o exemplo dos magníficos artigos no jornal Tempo, continua a escrever consciente de que a nossa missão é só essa: dizer o que há para dizer e conforme nos é concedido dizer. “Tudo o mais é com Deus”.

Eu sei que, não propriamente o livro, mas a científica determinação dos vinte e dois esquemas consonânticos, dos dez grupos ou conjuntos de consoantes afins, das quatro espécies em que se subdivide a voz, das três medidas verticais, das sete vozes puras, determinação que é a própria forma da balança sephirótica na sua complexa estrutura, constitui a mais importante descoberta linguística que se fez desde os gregos até hoje. Enquanto tal, há-de no futuro vir revolucionar a linguística europeia. É possível que, sendo o meu livro um livro de ciência e não de filosofia, isso explique a indiferença do grupo de filosofia portuguesa.

Li o seu artigo onde defende que se passa por uma Escola, e ali se recebe a iniciação, para depois não se ficar preso a ela e fazer a sua própria obra. Inteiramente de acordo, lembro-me contudo do José Marinho e do Álvaro Ribeiro. Sinto que nos olham e esperam mais do Pinharanda Gomes, de si, de mim, do Orlando, do Braz Teixeira, do Sottomayor, do Guerra, do que a divisão religiosa. O próprio António Quadros mostra bem nitidamente no seu último livro como a profissão de fé católica não exclui a atenção à gnose e até a valorização do que nela se aprofunda para levantar o catolicismo até ao limiar da Igreja Invisível.               

 

António Telmo

CORRESPONDÊNCIA. 46

25-03-2020 16:40

Carta de Dalila Pereira da Costa para António Telmo, de 15 de Novembro de 1979

 

 

 

Porto, 15-XI-1979

 

                                                                        Amigo António Telmo

Gostei de o ver ontem, e falar consigo naqueles breves e intermitentes instantes.

Aqui vão algumas páginas, que se ligarão com o que ontem dissemos (e não tivemos tempo de dizer). Não se preocupe com cartas, respostas, etc. Se quiser e em casa tiver uma hora livre, passe os olhos por elas.

A presença, ou união, está há muito realizada – por uma mesma finalidade na vida, Com cartas ou sem elas.

Um abraço cordial para ambos, e beijos aos meninos.

                                Sua dedicada, e admiradora,

                                Dalila

 

 

[cartão branco, manuscrito; 15/8,8]

 

INÉDITOS. 84

25-03-2020 16:04

 

Filosofia portuguesa e martinismo[1]

O problema da filosofia portuguesa é o problema do martinismo em Portugal.

É isto que se tem de pôr a claro, se o problema da filosofia portuguesa é o problema da filosofia de Álvaro Ribeiro. Foi ele que pôs o problema; é nele que deve ser equacionado. A equação é esta:

Martinismo + X = filosofia portuguesa. O X é a relação misteriosa, ainda incógnita, de cada filósofo com o enigma do homem e do universo. A doutrina sabemos qual é. Mas a filosofia não é a exposição de uma doutrina; é a reflexão e vivência individual dessa doutrina. Doutrina pressupõe escola, tradição de ensino, propulsora de uma corrente invisível.

A ter em conta O Encoberto de Sampaio Bruno, o martinismo é um momento, perfeitamente significativo, dessa corrente e que se apresenta como capaz de harmonizar a religião católica com o conhecimento e a liberdade. É, pelo menos, assim que a apresenta Álvaro Ribeiro n’A Arte de Filosofar: «A acção de Pascoal Martins é a magnífica versão para a Europa Central da doutrina que faz a síntese das três tradições religiosas peninsulares.» Não chega dizer que Portugal é, como a Espanha, a terra em que coabitam três tradições. O importante é procurar a síntese e é ela que cada filósofo se propõe, com maior ou menor consciência, formar pelo pensamento. A separação da filosofia e da teologia foi, segundo Álvaro Ribeiro, o resultado, entre nós, da Reforma pombalina. «A filosofia é inferior à religião», diz-nos ele noutro lugar e várias vezes escreve que a ideia de Deus é o princípio da filosofia.   

 

António Telmo



[1] Nota do editor –O título é da nossa responsabilidade.

 

UNIVERSO TÉLMICO. 67

17-01-2020 09:46

E nota final

Agostinho da Silva

Ao que diz, e sei que o não move qualquer lisonja pessoal, considera o Professor Henryk Siewierski, da Universidade de Cracóvia, que o excelente convívio que mantivemos durante os quatro anos em que ensinou língua polaca e sua cultura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foram para ele uma segunda Universidade. Também sem cumprimento e por tudo o que esse contacto para mim foi, penso, por meu turno, que houve igualmente para mim uma Universidade, já nem sei de que número, pois muito tenho aprendido em várias, desde a inicial, a Faculdade de Letras do Porto, lá por entre 24 e 28 ou 29, até aos meus Amigos de hoje, passando pela Parasitologia Médica do Instituto Oswaldo Cruz, pelos Sábados do Moinho de Vento em casa de António Sérgio, pelos sertanejos do Nordeste brasileiro e pela gente do Senegal ou pela do Japão ou pela de Timor. Quanto excelente professor e quanta sorte a minha. Em tudo, vida e conversa – a tal “vida conversável”, como lembrou Siewierski, tomando as palavras de Pero de Sousa. E em tudo houve a experiência, a que chamaria um outro nosso autor “madre de todas as coisas”. Muito conversamos nós dois, o Professor e eu, e se lembrou o nosso Amigo de recolher o que se dizia e de o oferecer para publicação, já que apareceu benevolente Editor; sem espécie alguma de correcção ou apuro de estilo, sem, por outra parte, nenhuma tentativa de o escrever, ainda que imitando o falado. Se o que fica para trás não servir para outra coisa será exemplo, no sentido de amostra, da forma pela qual uma pessoa não inculta conversava com um Amigo neste quase final do século XX. Claro que não falei somente eu: falou, e muito, e lucidamente, e com todo o interesse em penetrar o mais possível na cultura portuguesa, o Professor Henryk Siewierski, e a ele, afinal, se deve o volume. Os quatro anos foram-me Universidade porque agudamente perguntou e me obrigou a pensar muita coisa que jamais me ocorrera ou a recordar factos mais ou menos esquecidos de minha vida. Creio que, sobretudo, deve ser uma Universidade Foro de perguntas, de provocações, digamos, de preferência a supermercado de respostas convenientes para a vida e de receitas para singrar no mundo sem perigo de naufrágio. E, curiosamente, às perguntas que fez as decidiu ele eliminar, tentando a jogo de criatividade o possível leitor e o fazendo participar do diálogo. Completarei eu dizendo que o máximo que desejo é que as perguntas que se façam e as possíveis respostas do volume sejam bem sacudidas, bem joeiradas, jamais se aceitem como verdades estabelecidas, mas apenas como ponto de partida de discussão. É o que os outros pensem, o que os outros criem aquilo que fundamentalmente me interessa. Só assim escrever ou falar servirão para alguma coisa. Estimular é útil, siderar nefasto.

ÁLVARO RIBEIRO E «A LITERATURA DE JOSÉ RÉGIO», 50 ANOS DEPOIS. 04

04-12-2019 11:34

«Devo, todavia, confessar que mais interessado pela verdade do que pela ficção, me inclinei para a leitura de romances menos conhecidos. Assim estudei em obras de J. K. Huyssmans, Barbey d’Aurevilly, Léon Bloy e Georges Bernanos, o modo singular de considerar válidas algumas das teses mais rebarbativas do pensamento católico. Firmei a convicção de que o estudo das ciências ocultas, porque proibidas, seria a habilitação para entender as verdades do cristianismo.» 

Álvaro RibeiroA Literatura de José Régio, página 83.

 

      

 

ÁLVARO RIBEIRO E «A LITERATURA DE JOSÉ RÉGIO», 50 ANOS DEPOIS.03

04-12-2019 11:24

Sobre A Literatura de José Régio

 

Propondo-me escrever sobre aquele que foi um dos maiores filósofos de Portugal, escolho para ponto de partida e para ponto de chegada A Literatura de José Régio. Tudo indica que este livro foi, para Álvaro Ribeiro, o mais importante dos onze que publicou e é, para nós, se quisermos conhecer a verdadeira orientação do seu pensamento, a sua profunda vivência interior da filosofia, aquele a que poderíamos chamar, sem desvio ou exagero, o livro da revelação. Em analogia com a Carta Íntima que precede A Ideia de Deus de Sampaio Bruno, há, a abri-lo, algumas páginas de “evocação e de invocação” do Anjo da filosofia. Ali revela que por mais de três decénios manteve o propósito íntimo de o escrever. Foi publicado em 1969. O Problema da Filosofia Portuguesa apareceu em 1943. Por conseguinte, alguns anos antes de iniciar o que depois se veio a chamar “o movimento da filosofia portuguesa”, já no seu espírito vivia a ideia deste livro, «de desígnio insondável».

O movimento da filosofia portuguesa deve considerar-se aberto com Sampaio Bruno e fechado com Álvaro Ribeiro.

O grande erro em que têm caído os “filhos da luz” é o de haverem deixado convencer-se pelo mito do diabo como do libertador das servidões do intelecto e da alma. Este é um dos sentidos mais fundos da obra de Álvaro Ribeiro.

 

António Telmo

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* Nota do Editor - O título é da nossa responsabilidade.

INÉDITOS. 83

21-08-2019 10:06

Sobre a Gramática Secreta da Língua Portuguesa*

 

O fracasso cultural da minha “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” patente na indiferença do grupo de filosofia portuguesa significa talvez que a maravilha do pensamento concreto, do pensamento que procede no ser e na forma dos fenómenos, neste caso, dos fenómenos fonéticos, deixou de impressionar os leitores. Uma humanidade cheia de pressa já não tem tempo para contemplar. Ainda haverá alguns entre nós que sabem criar em si o vazio no próprio seio do tumulto, o lugar absoluto onde os fenómenos simples convocados brilhem no esplendor do significado. É para esses outros que retomo o assunto da “Gramática Secreta”, que reassumo a responsabilidade de reflectir o que me foi dado ver.

Tive o arrojo e a ironia de concorrer ao Grande Prémio de 1981 da Sociedade de Língua Portuguesa, sem qualquer esperança de vencer, no critério de um júri composto por cinco professores universitários, trabalhos de outros universitários, puros do pecado da imaginação. O que me entristece é não ver discutido em público ou, privadamente, em conversa ou carta, aquilo que, no meu livro, tenho por uma descoberta científica, a mais importante, atrevo-me a dizer, descoberta científica que se fez em linguística de Saussure e de Sapir até hoje.

O essencial dessa descoberta diz-se assim:

O sistema fonético português é, ponto por ponto, o mesmo que o sistema cabalístico dos princípios internos do mundo, representado na figura da balança sephirótica.

Caso se verifique a equivalência dos dois sistemas, como um é um facto linguístico em si existente e o outro um dado metafísico produzido independentemente desse facto, das duas uma: ou estamos perante uma coincidência fortuita, o que é improvável dada a complexidade dos dois sistemas e as múltiplas relações dos seus elementos; ou encontrámos uma relação altamente significativa destinada a revolucionar toda a linguística.

Os cabalistas estabeleceram uma correspondência entre as letras do alfabeto hebraico e a balança sefirótica. Todavia, essa correspondência não pretende basear-se num critério fonético positivo, é construída sobre os valores metafóricos das letras, pelo que a situação delas nos vários lugares da “balança” varia de escola para escola. Aqui, na “Gramática Secreta Portuguesa” a correspondência é a que é e não pode ser outra, porque resulta de uma classificação objectiva dos fonemas portugueses.

Porque se trata de uma investigação com conclusões no domínio científico da fonética e da fonologia, os filósofos de uma filosofia há muito separada da ciência consideram-na ao lado das suas preocupações essenciais, mas os linguistas também não querem atender, praticantes como são de uma ciência separada da filosofia, uma investigação conduzida à luz de princípios metafísicos. Ainda por cima, a poesia está sempre presente na minha “Gramática Secreta” a ligar ciência e filosofia, e a imaginação, por mais rigorosa que se apresente e por mais submissa que se comporte em relação a uma e a outra, é sempre suspeita por aquele excesso seu, aquele ímpeto de liberdade que leva a ciência a realizar-se para lá dos seus limites e a filosofia a não temer a necessidade dos factos.

Gostaria de ver os linguistas serem capazes de rebater a classificação dos fonemas que apresentei, a sua repartição por dez conjuntos, a integração destes em quatro grandes grupos. Se, por outro lado, os filósofos quisessem reflectir a projecção da ideia nos fonemas, à luz da admissão de sucessivos estádios de manifestação do Princípio dos princípios, não poderiam deixar de ensinar os primeiros a maravilhar-se com as inesgotáveis perspectivas sóficas da ciência que cultivam.

Infelizmente, uns e outros voltam-se as costas e um livro que poderia ajudar a compreender o mistério da frase do apóstolo João (“No princípio era o Verbo, no princípio era o Lógos”) fica esquecido e entregue às moscas de Belzebuth.

 

António Telmo

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* Nota do editor: o título é da nossa responsabilidade.

EDITORIAL. 20

21-08-2019 10:03

Nove anos

 

António Telmo partiu há nove anos. Quase toda a obra do filósofo publicada em vida e uma parte importante dos escritos que deixara inéditos estão hoje acessíveis aos leitores de língua portuguesa. Ainda em 2019, sairá a lume, com o apoio institucional e científico do nosso Projecto e a chancela da Zéfiro, o Volume XI das suas Obras Completas. No seu espólio encontram-se ainda muitas páginas, nomeadamente sobre linguística, a aguardar publicação. Será sobretudo sobre este material que a nossa atenção passará preferencialmente a incidir no futuro próximo.  A passagem, já no próximo ano, da primeira década de uma ausência sempre tão presente como a sua será, por certo, um excelente pretexto para se ir desvelando o que António Telmo ainda tem para nos oferecer.

 

UNIVERSO TÉLMICO. 66

30-07-2019 09:40

Pinharanda Gomes

O contrabandista de Deus

Miguel Real

 

Possuidor de um vasto saber sobre a história do pensamento português, de que se destacam os três volumes da História da Filosofia Portuguesa, bem como os seis volumes da série Pensamento Português, regista em todos os seus livros uma adesão viva ao modo religioso e espiritualista de problematização das questões filosóficas. Autor prolífico, tem resgatado do esquecimento histórico inúmeros autores integrados na mundividência espiritualista, prestando sólida consistência à existência de uma corrente filosófica em Portugal que, em continuidade, por vezes subterraneamente, desprezada pelo racionalismo e pelo positivismo, condenada pelo modernismo, tem privilegiado, dos alvores da nacionalidade até ao século XX: o espírito face à matéria; a alma face ao corpo; a transcendência face à imanência; a metafísica face à positividade empírica; enfim, Deus face à idolatria dos produtos humanos reificados segundo desejos sociais e ambições ideológicas ou políticas. Este é, de facto e de direito, o estatuto singular de Pinharanda Gomes no seio da cultura portuguesa contemporânea. O seu legado patrimonial.

Lega um exemplo de disciplina, esforço e persistência no estudo, de minimização das coisas materiais face às espirituais e uma obra que vincula Deus e Homem enquanto desacerto ou desequilíbrio entre ambos, buscando o segundo, como Peregrino, amparo e paz no regaço do primeiro.

Autodidacta (porventura, o último, após a morte de Saramago), nascido em Quadrazais, Sabugal, terra raiana de contrabandistas, a que devotou parte importante da sua obra, Pinharanda Gomes só soube ser de nacionalidade portuguesa quando iniciou a frequência do ensino primário. Fiel à natureza candongueira da sua terra, Pinharanda Gomes conservou sempre a capacidade de transmutar e converter conceitos de uma área de estudos para outra ou outras. É assim que a Filosofia lhe serve de caminho montanhoso para os céus da Teologia, a História alimenta uma Antropologia da espiritualidade portuguesa, comprovada e sedimentada pela Historiografia, e a Filologia ampara a Filosofia.

Contrabandista de ideias, Pinharanda Gomes toda a vida se postou fora do pensamento mainstream, exterior às academias bem-pensantes, brilhando, em cada livro, não por brilho alheio, mas por luz própria. É normal, até natural, devido à natureza formal das universidades, que estas lhe não tenham concedido privilégios. Até que a Universidade da Beira Interior decidiu atribuir-lhe o doutoramento Honoris Causa em 2018.

Até sempre, Pinharanda! Lá nos encontraremos de novo, agora não na Biblioteca Nacional, mas no teu Céu.

 

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