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INÉDITOS. 83

21-08-2019 10:06

Sobre a Gramática Secreta da Língua Portuguesa*

 

O fracasso cultural da minha “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” patente na indiferença do grupo de filosofia portuguesa significa talvez que a maravilha do pensamento concreto, do pensamento que procede no ser e na forma dos fenómenos, neste caso, dos fenómenos fonéticos, deixou de impressionar os leitores. Uma humanidade cheia de pressa já não tem tempo para contemplar. Ainda haverá alguns entre nós que sabem criar em si o vazio no próprio seio do tumulto, o lugar absoluto onde os fenómenos simples convocados brilhem no esplendor do significado. É para esses outros que retomo o assunto da “Gramática Secreta”, que reassumo a responsabilidade de reflectir o que me foi dado ver.

Tive o arrojo e a ironia de concorrer ao Grande Prémio de 1981 da Sociedade de Língua Portuguesa, sem qualquer esperança de vencer, no critério de um júri composto por cinco professores universitários, trabalhos de outros universitários, puros do pecado da imaginação. O que me entristece é não ver discutido em público ou, privadamente, em conversa ou carta, aquilo que, no meu livro, tenho por uma descoberta científica, a mais importante, atrevo-me a dizer, descoberta científica que se fez em linguística de Saussure e de Sapir até hoje.

O essencial dessa descoberta diz-se assim:

O sistema fonético português é, ponto por ponto, o mesmo que o sistema cabalístico dos princípios internos do mundo, representado na figura da balança sephirótica.

Caso se verifique a equivalência dos dois sistemas, como um é um facto linguístico em si existente e o outro um dado metafísico produzido independentemente desse facto, das duas uma: ou estamos perante uma coincidência fortuita, o que é improvável dada a complexidade dos dois sistemas e as múltiplas relações dos seus elementos; ou encontrámos uma relação altamente significativa destinada a revolucionar toda a linguística.

Os cabalistas estabeleceram uma correspondência entre as letras do alfabeto hebraico e a balança sefirótica. Todavia, essa correspondência não pretende basear-se num critério fonético positivo, é construída sobre os valores metafóricos das letras, pelo que a situação delas nos vários lugares da “balança” varia de escola para escola. Aqui, na “Gramática Secreta Portuguesa” a correspondência é a que é e não pode ser outra, porque resulta de uma classificação objectiva dos fonemas portugueses.

Porque se trata de uma investigação com conclusões no domínio científico da fonética e da fonologia, os filósofos de uma filosofia há muito separada da ciência consideram-na ao lado das suas preocupações essenciais, mas os linguistas também não querem atender, praticantes como são de uma ciência separada da filosofia, uma investigação conduzida à luz de princípios metafísicos. Ainda por cima, a poesia está sempre presente na minha “Gramática Secreta” a ligar ciência e filosofia, e a imaginação, por mais rigorosa que se apresente e por mais submissa que se comporte em relação a uma e a outra, é sempre suspeita por aquele excesso seu, aquele ímpeto de liberdade que leva a ciência a realizar-se para lá dos seus limites e a filosofia a não temer a necessidade dos factos.

Gostaria de ver os linguistas serem capazes de rebater a classificação dos fonemas que apresentei, a sua repartição por dez conjuntos, a integração destes em quatro grandes grupos. Se, por outro lado, os filósofos quisessem reflectir a projecção da ideia nos fonemas, à luz da admissão de sucessivos estádios de manifestação do Princípio dos princípios, não poderiam deixar de ensinar os primeiros a maravilhar-se com as inesgotáveis perspectivas sóficas da ciência que cultivam.

Infelizmente, uns e outros voltam-se as costas e um livro que poderia ajudar a compreender o mistério da frase do apóstolo João (“No princípio era o Verbo, no princípio era o Lógos”) fica esquecido e entregue às moscas de Belzebuth.

 

António Telmo

____________

* Nota do editor: o título é da nossa responsabilidade.

EDITORIAL. 20

21-08-2019 10:03

Nove anos

 

António Telmo partiu há nove anos. Quase toda a obra do filósofo publicada em vida e uma parte importante dos escritos que deixara inéditos estão hoje acessíveis aos leitores de língua portuguesa. Ainda em 2019, sairá a lume, com o apoio institucional e científico do nosso Projecto e a chancela da Zéfiro, o Volume XI das suas Obras Completas. No seu espólio encontram-se ainda muitas páginas, nomeadamente sobre linguística, a aguardar publicação. Será sobretudo sobre este material que a nossa atenção passará preferencialmente a incidir no futuro próximo.  A passagem, já no próximo ano, da primeira década de uma ausência sempre tão presente como a sua será, por certo, um excelente pretexto para se ir desvelando o que António Telmo ainda tem para nos oferecer.

 

UNIVERSO TÉLMICO. 66

30-07-2019 09:40

Pinharanda Gomes

O contrabandista de Deus

Miguel Real

 

Possuidor de um vasto saber sobre a história do pensamento português, de que se destacam os três volumes da História da Filosofia Portuguesa, bem como os seis volumes da série Pensamento Português, regista em todos os seus livros uma adesão viva ao modo religioso e espiritualista de problematização das questões filosóficas. Autor prolífico, tem resgatado do esquecimento histórico inúmeros autores integrados na mundividência espiritualista, prestando sólida consistência à existência de uma corrente filosófica em Portugal que, em continuidade, por vezes subterraneamente, desprezada pelo racionalismo e pelo positivismo, condenada pelo modernismo, tem privilegiado, dos alvores da nacionalidade até ao século XX: o espírito face à matéria; a alma face ao corpo; a transcendência face à imanência; a metafísica face à positividade empírica; enfim, Deus face à idolatria dos produtos humanos reificados segundo desejos sociais e ambições ideológicas ou políticas. Este é, de facto e de direito, o estatuto singular de Pinharanda Gomes no seio da cultura portuguesa contemporânea. O seu legado patrimonial.

Lega um exemplo de disciplina, esforço e persistência no estudo, de minimização das coisas materiais face às espirituais e uma obra que vincula Deus e Homem enquanto desacerto ou desequilíbrio entre ambos, buscando o segundo, como Peregrino, amparo e paz no regaço do primeiro.

Autodidacta (porventura, o último, após a morte de Saramago), nascido em Quadrazais, Sabugal, terra raiana de contrabandistas, a que devotou parte importante da sua obra, Pinharanda Gomes só soube ser de nacionalidade portuguesa quando iniciou a frequência do ensino primário. Fiel à natureza candongueira da sua terra, Pinharanda Gomes conservou sempre a capacidade de transmutar e converter conceitos de uma área de estudos para outra ou outras. É assim que a Filosofia lhe serve de caminho montanhoso para os céus da Teologia, a História alimenta uma Antropologia da espiritualidade portuguesa, comprovada e sedimentada pela Historiografia, e a Filologia ampara a Filosofia.

Contrabandista de ideias, Pinharanda Gomes toda a vida se postou fora do pensamento mainstream, exterior às academias bem-pensantes, brilhando, em cada livro, não por brilho alheio, mas por luz própria. É normal, até natural, devido à natureza formal das universidades, que estas lhe não tenham concedido privilégios. Até que a Universidade da Beira Interior decidiu atribuir-lhe o doutoramento Honoris Causa em 2018.

Até sempre, Pinharanda! Lá nos encontraremos de novo, agora não na Biblioteca Nacional, mas no teu Céu.

 

VOZ PASSIVA. 85

03-06-2019 13:02

António Telmo e a apologia da não perversão da linguagem

Eduardo Aroso

 

«Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma»

Fernando Pessoa

 

«Durante o Governo de Salazar (…) construiu-se um tipo de organização cultural e social do país que foi a obra-prima da inveja portuguesa. Nesse Governo se conceberam os intelectuais que agora actuam como agentes na preparação da demência pela corrupção da língua»

António Telmo

 

 

No café onde habitualmente tomo a benigna dose diária de cafeína, chega-me aos ouvidos a linguagem de dezenas de estudantes do chamado ensino superior, alguns já licenciados. Praticamente não há excepções que se notem neste ambiente de conversa, do qual, para o que aqui mais importa, excluo o que com alguma frequência chega inevitavelmente aos ouvidos: o agressivo volume sonoro de quem crê estar no espaço da liberdade da sua casa. Da chamada asneira ou palavra brejeira também o desconto, ao mesmo tempo na esperança de que a aprendizagem de umas boas maneiras intensivas dadas na família ou por outros meios possa, se não resolver, pelo menos atenuar a situação. Mas - tenhamos algum bom-senso - à idade febril da juventude deve conceder-se a mesma compreensão da que temos sobre a natureza dos músculos e dos ossos aos 20 e 30 anos ou aos 80.

O problema mais agudo, de consequências futuras, que não se podem imaginar bem e muito menos medir, é o acelerado reducionismo da língua portuguesa na formação integral das pessoas, ditado pela pressa, pelo facilitismo ou já por alguma imbecilidade actuando ela própria nessa atrofia do pensamento, num estreitamento de expressão cada vez mais notório. O que hoje se designa por “socialmente (ou culturalmente) correcto” reveste-se do medo de algo que possa emergir e assim ferir um dado paradigma. Segundo Byung-Chul Han, hoje onde não há idêntico há terror, no mínimo estranheza. Um bem-falante num grupo de maus conversadores estaria assim a lançar o terror do não idêntico, e, portanto, a ser um estranho, ainda que ele pudesse desenvolver e explicitar bem melhor o tema da conversa em causa. Como duas rectas paralelas, os (provavelmente) dois níveis de pensamento instalados não se encontrariam.

 

Parece que não têm sido suficientes as chamadas de atenção, entre nós, de filósofos como Álvaro Ribeiro e António Telmo para o problema da filologia na sua relação com o pensamento. É de ver que, por exemplo, um músico tem menos possibilidades de composição numa escala de sons mais reduzida do que se o fizer noutra de maior extensão, ou um pintor que não dispõe de uma gama variada de cores está limitado no trabalho da tela onde pretende fixar a beleza de um pôr-do-sol. Mas parece que nem a clareza de uma compreensão dir-se-ia quase intuitiva, nem a fundamentação dos pensadores têm sido dignas de atenção, sobretudo se o assunto diz respeito ao chamado ensino superior e à formação das elites culturais, que actuam como estabilizadores e fermentadoras da fala e da escrita no seu melhor, pois, se assim não fosse, ficaria a linguagem descartável do dia-a-dia que não pode ser marca de civilização.Em Filosofia e Kabbalah António Telmo dedica um capítulo ao tema em causa, intitulado «Como a perversão da linguagem leva à demência na sociedade». Ao lembrar a preocupação que Álvaro Ribeiro deixara já em Uma Coisa que Pensa (1976), Telmo, no final da década 80, escreve o seguinte: «Na verdade, a decadência da língua portuguesa reveste-se de formas, no momento que passa, que se aproximam assustadoramente  dos aspectos que assume a linguagem no indivíduo atingido pela espécie de demência que os clínicos designam por afasia».  Aborda também a relação do pensar, falar e escrever. Nesta tríade indivisível, é evidente que a pobreza da linguagem não só não pode ajudar a pensar, como não torna possível a representação desse pensamento pela escrita. Aspectos subtis que se adentram mesmo no espírito são mencionados por Telmo quando diz: «E nos indivíduos, quando o espírito perde o poder de invocar a palavra precisa, atribuímos isso a uma quebra momentânea de memória, aceitando a descrição pela explicação, e, por instinto de defesa, empregamos a primeira palavra que nos surge, a palavra imprecisa, sem cuidar de saber se ela nos é sugerida». Ora, isto é o chamado «pensamento que não pensa» de que já Heidegger falava, e que no automatismo diário actual se pode ver, por exemplo, em expressões como: «Ah, pois é verdade. Até já deu na televisão», ou «Já ouvi falar isso na televisão». Parece difícil, nos tempos que correm, alguém, deter-se para pensar, mas nem sequer se toma como terapia o aforismo latino «festina lenta», bem útil, por exemplo, para muitas licenciaturas do acordo de Bolonha.

Acontece que, de vez em quando, parece haver uma súbita semi-consciência, um notar algo neste problema que afecta a nação e o país. Referindo-se a palavras, digamos bastardas, que proliferaram em pouco tempo na nossa sociedade, e ao apontar uns poucos escritores que têm reagido, escreve António Telmo que só os actores do «Parque Mayer apresentaram até agora a única reacção, com quadros que ridicularizam aquelas palavras, tentando através do riso fazer substituir uma atitude emocional de adesão por um atitude emocional de repulsa». Ou seja, uma atitude bem portuguesa, que encaixa perfeitamente num outro nível, o dos intelectuais do regime, que negam haver filosofia portuguesa, não podendo contudo negar que, por exemplo, uma equação errada não se corrige com uma tese de biologia! Em suma, embora a ironia e a sátira cumpram o seu papel na vida humana, não podem (ao invés do que poderiam os sucessivos ministérios da cultura e da educação) estancar e tentar inverter a situação.

Referindo-se à mão que é manipulada (hoje torna-se sufocante a ideia de manipulação de tudo e em tudo), ela pode agir já em cisão com o núcleo central do pensar, havendo assim o risco da linguagem automatizada ou do não-pensamento se comunicar a esse membro superior. O perigo, segundo António Telmo, é que: «se falta o suporte primordial de sentido, a ligação directa do pensamento às mãos canaliza a corrente mental para formas de automatismo puro, conforme vem exemplificado num filme célebre de Charlie Chaplin». O filósofo de Estremoz faz ligações antigas e subtis ao dizer: «O que caracteriza o homem na plena posse dos seus predicados é o intelecto activo. Assim designava Aristóteles a “energia espiritual” que os antropólogos hoje significam pelo “pensamento voluntário”. Opõem o pensamento voluntário ao pensamento automático na exacta relação aristotélica do intelecto activo (noús polêtikos) com o intelecto passivo (noús pathétikos).

 

Um dos exemplos mais conhecidos da perversão da linguagem instalada, notamo-lo quando por exemplo, alguém começa uma frase dizendo portanto ou efectivamente. O autor de Filosofia e Kabbalah escreve: «O emprego da conjunção portanto fora da função semântica ou articulatória própria, algumas vezes intempestivamente como termo de abertura do discurso ou em resposta a uma pergunta ( - Que vai fazer hoje? – Portanto vou ao cinema), constitui um exemplo típico de linguagem afásica, persistindo apenas a dúvida se o havemos de classificar como um fenómeno de intoxicação». O que vemos nós senão um caudal de logorreia («falar impelindo o som pelo fio ininterrupto dos automatismos») de uns quatro convidados mais o apresentador de um programa de televisão, falando todos aos mesmo tempo?! Mesas-redondas já não só de inflamados comentadores desportivos, mas situações de outra ordem que exigem por certo outra postura mental. É frequente lermos e ouvirmos, quase sempre em tom jocoso, que a língua portuguesa é manhosa, cheia de truques ou algo semelhante. O que estas rudes expressões querem dizer é precisamente o contrário, perante um subconsciente colectivo que, herdando séculos da língua de poetas e escritores, está contudo sufocado no automatismo de chamar manha à riqueza linguística. 

 

«A simplificação de uma língua é um meio, entre outros, de alterar as estruturas do pensamento». Porém, já não se trata apenas da simplificação, mas da não utilização correcta dessa “escolha”, que nem sequer é peneirada, e cada vez mais abreviada nas mensagens no telemóvel e no computador. Para bem do seu espírito, António Telmo já não assistiu a esta escandalosa indiferença dos intelectuais portugueses e dos políticos sobre a torre de Babel que é o famigerado AO de 1990.

 

Maio de 2019  

UNIVERSO TÉLMICO. 65

12-05-2019 12:45

Caetano Veloso e Agostinho da Silva sob o signo "Deus está solto"

Eduardo Aroso

 

Num dos seus escritos em forma de crónicas, reunidas no volume Caetano Veloso – Verdade Tropical, edição Círculo de Leitores, o cantor-compositor brasileiro confessa a influência que teve de Agostinho da Silva, bem como de outras figuras que gravitavam então junto do filósofo português,  no alvorecer do que viria a ser denominado «tropicalismo». Agostinho, um “bandeirante da cultura”, ensinava e criava instituições e universidades em terras de Vera Cruz, e, contra a corrente de uma distorcida portugalidade forjada pelo Estado-Novo,  o pensador de Barca de Alva retomava a ideia de uma vera fraternidade luso-afro-brasileira, só impossível se o Homem não o consentir. Caetano estava então imerso na ideia do que viria a ser o «tropicalismo» (nome incluído no álbum do cantor baiano «Tropicália»), conceito criado pelo artista plástico Hélio Oiticia, sendo que foi o jornalista Nelson Motta que pela primeira vez escreve um artigo sobre essa decisiva corrente cultural, com repercussões na música, literatura, cinema e outros domínios. A Roberto Pinho ficou a dever Caetano a sua ida para o Rio de Janeiro. Dele, diz o cantor: «Ele fora formado pelo professor Agostinho da Silva, o fascinante português fugido do salazarismo e que via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização. Era um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano não ficava claro para mim».

 O que mais importa, de relance, é observarmos o impacto que para um cantor brasileiro do séc. XX tudo aquilo tinha no seu espírito. «O professor Agostinho, interessado em ligar Brasil com África e Oriente (no fim da vida ele estava apaixonado pela China “póscomunista”), nunca derrapou para nenhum tipo de reaccionarismo  radical: ele amava ver em Portugal (o mais antigo país da Europa – unificado e feito Estado-Nação desde o século XII) uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso, sem negar os frutos da paixão nórdica pela tecnologia. E quando ele dizia petulantemente que “Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa”, estava sobretudo mostrando que queria pensar ao arrepio dos poderosos».

Na verdade, fosse por convicção pessoal, por aquilo que emanava do próprio «tropicalismo», pensando com Agostinho neste cenário de fundo na ideia de uma relação Portugal Brasil, muito para além da distorcida que apresentava o salazarismo, ou ainda por todas estas circunstâncias, o certo é que por volta da década de 60 o cantor-compositor inculcava uma utopia clarividente da realização da Língua Portuguesa, não sendo de minimizar o facto de ser baiano de nascimento (como, por exemplo, Jorge Amado), isto é, uma herança genética que podia entrever o triângulo, Portugal-Brasil-África, quiçá mais interessante do que o tão falado triângulo das Bermudas (!). Caetano, conforme confessa, intui que «deveria aceitar a sugestão do destino e ir fazer música no Rio e em São Paulo porque coisas grandes necessariamente adviriam disso». É de crer que o autor de «Tropicália» aceitasse, dir-se-ia, essa missão de ser voz e melodia desse sonho que no sotaque «de português com açúcar (Agostinho da Silva) fizesse girar a seiva de alma e cultura no referido e cosmopolita triângulo. Embora a música do cantor fosse um canal importante não se pode descuidar a influência do cinema na figura exemplar de Glauber Rocha (também baiano) nas obras «Deus e o Diabo na Terra do Sol» ou «Barravento», este último porventura o de maior influência no tropicalismo.

Mas não só de Agostinho, ou melhor, antes dele, há o fascínio de Caetano (melhor seria dizer encanto?) pelo idioma luso-brasileiro. No meio de tanto fervilhar de tropicalismo, de se reclamar um «Brasil brasileiro», havia a sedução intelectual do Brasil pelas correntes culturais da Europa, nomeadamente o Dadaísmo.  Todavia, já nos bancos de escola o cantor fica marcado por Mensagem de Fernando Pessoa, muito particularmente pela figura mítica de D. Sebastião. Assim o diz: «É um poema de Mensagem, o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz  - ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou a sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós). Uma versão corajosamente livre (e surpreendentemente nada reaccionária) desse mito tinha se apresentado a nossa geração de baianos através da figura do professor português Agostinho da Silva que, nos anos de ouro da Universidade da Baía sob o reitor Edgar Santos, fundara em Salvador o Centro de Estudos Afro-Orientais, sempre mirando um horizonte  de superação do estágio em que se encontrava o mundo liderado pelo Ocidente (…) Algo (ou muito disso) está por trás de toda a obra de Glauber – e, em que pesem as ironias e desconfianças, de todo o tropicalismo».

Podemos especular- não o sabendo com realidade de fonte directa – do que,  nos dias actuais, Caetano pensa de Agostinho da Silva, parecendo certo que a sua ideia e amor à língua portuguesa (aliás, bem apoiado pela irmã Bethânia) não conheceu declínio, a julgar pela sua obra, e pelo que, por contraste, disse da língua inglesa, quando por imperativos profissionais permaneceu uma temporada em Inglaterra. Seja como for, há uma indesmentível convergência que incarna perfeitamente no âmago do pensamento agostiniano, quando o cantor, ao jeito do Grito de Ipiranga, lança um outro quando diz «Deus está solto».

 

Maio 2019

 

INÉDITOS. 82

12-05-2019 12:38

 

FRAGMENTO DE DIÁLOGO ENTRE X E Y[1]

 

 

X

Não sabemos nada. Ninguém sabe nada. Se alguém sabe, esse é como um deus: esconde-se e cala, de modo que fica tudo na mesma. Sim! Só Deus sabe e conhece, mas tudo se passa no Universo dos homens como se Ele não fosse.

 

Y

Parece ser o seu silêncio a condição da existência do mundo. Como poderia o Mundo suportar a sua visão? No entanto revela-se. Como poderia o mundo ser sem a sua revelação? É este mínimo que nos é dado, mas esse mínimo é tão real quanto a própria existência do Mundo. Mais nada nos resta fazer do que apreender os sinais de luz compossíveis com os nossos limites. Depois da morte, logo se verá.

 

X

Por que o havemos de saber depois da morte e não agora? Por que havemos mesmo de procurar saber? Vê aquela rapariga que passa! Observa como é harmoniosa a andar, como nos movimentos do seu corpo quebradiço se prenuncia o amor e a maternidade. Como ela, outras ondularam e ondularão no éter pela infinidade dos séculos e na onda luxuriosa da forma feminina sempre se repetiu o mesmo desejo. Nascem e morrem os seres. De onde vêm e para onde vão? Só sabemos que aparecem e desaparecem numa forma de vida. Esta é a única realidade, mas tão indiferente à nossa metafísica quanto o era antes.

 

Y

Se eu cometo o erro de imaginar um antes e um depois onde só nos é possível ver o nada e o vazio, tu não cais em menor engano ao julgares que só te importarás em saber depois de ter sabido. Precisas de ter a certeza do termo para ires à sua procura. Como não há para ti tal termo, ficas onde estás céptico e impassível. És como um homem que nunca tivesse visto nadar nem soubesse que nadar era possível e, por isso, nunca tentasse atravessar as águas. Só farás o que os outros tiverem feito ou tentarás fazê-lo. Estarás para sempre dependente dos gestos dos outros.

 

X

E o que é que tu propões em troca?

 

Y

Aprende-se a nadar nadando. O conhecimento só é dado no acto de conhecer. Como disse o poeta, “tudo o mais é com Deus”.

 

X

Há, porém, outro caminho. A partir do que já se sabe, procurar-se saber mais.

 

Y

Não dizias há pouco que ninguém sabe nada?

 

X

Falava de Deus. Sei, por exemplo, que a terra gira em volta do sol. E, como este, tenho outros conhecimentos reais e bem positivos.

 

António Telmo



[1] Nota do editor – Inédito. O título é da nossa responsabilidade.

 

DOS LIVROS. 63

02-05-2019 10:24

Os filósofos e a inveja[1]

 

Os poetas e os filósofos são ambos vítimas do mal por caminhos diferentes. A sociedade tolera os poetas da palavra, da pedra ou da cor, talvez porque não argumentam e o seu irracionalismo não põe em perigo a mediocridade das relações humanas, sustida, nas suas vastas ramificações, pela razão judicativa. Os filósofos, aparecendo como seres de razão, de uma razão que é o argumento que torna evidente a mediocridade e transmite à verdade intuída pelo irracionalismo dos poetas o poder capaz de a tornar activa no mundo dos homens, vêem-se por isso perseguidos e hostilizados, odiados, até ao assassinato.

 

António Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e Inéditos, 2019)


 


[1] Nota do editor – o título é da nossa responsabilidade.

 

EDITORIAL. 19

02-05-2019 10:15

Ter a palavra

Se entre nós estivesse ainda fisicamente, António Telmo festejaria hoje o seu 92.º aniversário. A verdade é que, menos de dez anos após a sua partida, a quase totalidade da sua obra, incluindo muitos dos escritos que deixou inéditos, se encontra já à disposição dos leitores em todas as livrarias de Portugal. É este um trabalho que entrou já na sua recta final, e que em breve se concentrará naquilo que no espólio do filósofo permanece ainda por publicar.  

A edição, no próximo Outono, com a proverbial chancela da Zéfiro, de A Verdade do Amor precedida de Adriana, Volume XI das suas Obras Completas, que será prefaciado por Paulo Samuel, constituirá, por certo, um marco muito importante nesta caminhada. Num tempo em que António Telmo foi devolvido aos leitores e em que se prenuncia e se pronuncia a reaparição nos escaparates de outros nomes do seu universo, que é o do livre pensamento radicado na língua portuguesa. São eles, os leitores, também os das gerações mais novas, que agora têm a palavra.

ÁLVARO RIBEIRO E «A LITERATURA DE JOSÉ RÉGIO», 50 ANOS DEPOIS. 02

09-04-2019 10:39

A fenomenologia do narcisismo em Álvaro Ribeiro[1]

 

A fenomenologia do narcisismo constitui uma das linhas mestras do mais recente livro de Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio.

Deste livro hão-de só falar os que se preocupam, não com o livro ou com o autor, mas com os temas e os problemas de que a reflexão filosófica se apoderou no espírito de Álvaro Ribeiro. Por isso, nos parecem inoportunos e desnecessários os protestos que alguns discípulos do autor apresentaram contra o silêncio do mundo literário que fechou o livro no seu cofre de superficialidades. O filósofo responde em prosa às perguntas de Deus; o poeta interroga Deus que lhe responde em verso. Mas os literatos falam de poetas e, às vezes, de filósofos sem tratar das perguntas e respostas. Não tem qualquer interesse o que dizem e, quase sempre, é preferível que estejam calados. Se Deus me pergunta como é que eu explico a existência do mal num mundo por ele criado, o desinteresse do literato em conhecer ou mencionar a minha resposta, porque não pertenço à tertúlia de imbecis que lhe é simpática, é o sinal de que não lhe foi posta análoga pergunta e, por isso, a sua opinião sobre o livro que fiz em resposta a essa e outras interrogações é tão pouco importante para mim como serão certamente para a lua, seus movimentos e suas fases, o ladrar dos cães que se perde na solidão solene dos espaços.

Quando dizemos que filósofo é quem responde em prosa às perguntas de Deus e que poeta é quem interroga Deus que lhe responde em verso, relevamos ou o predomínio da razão ou o predomínio da inspiração. «Os homens superiores são os que não perdem a razão nos momentos em que vão sendo agraciados por instruções espirituais.» No outro extremo está o poeta narcisista, que se deixou dominar pelo fascínio do próprio ser. O narcisismo, em termos freudianos, é a sístole de um movimento cuja diástole é o homossexualismo. Quem ama a própria imagem pode evitar o suicídio que lhe dá a ilusão duma futura posse substituindo-a por uma imagem semelhante, mas exterior. Contudo, a via narcisista foi indicada como o único caminho de realizar a liberdade. «…o problema da liberdade é solidário do problema da individuação, como ficou demonstrado por Leibniz em monografia célebre. Tal foi focado com logicidade irrefutável no discutido livro de Max Stirner, intitulado Das Einzige und seine Eigentum, cuja tradução exacta seria O Único e a sua Unicidade ou O Próprio e a sua Propriedade, se os franceses não o houvessem traduzido por L’Unique et sa proprieté. Esta obra representa em filosofia o que em estética poderia ser chamado O Narciso e o seu narcisismo, porque postula o solipsismo levado às suas extremas consequências».

À via operativa da liberdade dá-se o nome de iniciação. Aqui, o conceito de narcisismo alarga-se, pois a vivência pelo único da sua unicidade impõe o corte absoluto da corrente para o exterior nos três pontos em que ela é possível: sexo, nutrição e sensações. O exemplo perfeito é o da iniciação cátara, que se exprimiu poeticamente nas trovas medievais de amor, e que consistia num suicídio lento pela fome, pela sede e pela solidão, enquanto as energias dos sentidos eram reconduzidas pela concentração mental ao ponto original donde tinham emergido à medida que o corpo se ia estruturando.

Narrado por Ovídio, o mito de Narciso (que corresponde ao mito da queda de Lúcifer) contém já todos os elementos que permitem interpretá-lo como uma descrição por imagens da “iniciação”. Explicando a morte de Narciso pelo “Nosce te ipsum”, Tirésias integra o mito na sabedoria órfica, cujo esoterismo constituiu a raiz última e primeira da filosofia de Sócrates e do platonismo. Álvaro Ribeiro que define o narcisismo como «a presença perante o espelho» não ignora a correspondência do mito grego com o mito hebraico, propriamente kabbalístico, ao caracterizá-lo também pela oposição a Deus. As iniciações luciferinas, ao número das quais pertence a cátara, se fosse possível referi-las a um sentimento fundamental seria, porém, não a vaidade, mas o orgulho. A vaidade, que os literatos cultivam, no tipo superior de narcisista, que é o filósofo solipsista, dá, com efeito, lugar ao orgulho, mas um e outro sentimento excluem a comunicação livre dos espíritos, a convivência angélica dos entes que não quiseram separar-se. Leibniz assegura esta convivência por um mecanismo de reflexões das mónadas nas mónadas até ao infinito. É, no entanto, um precursor de Max Stirner ao afirmar que a mónada não tem portas nem janelas. A mónada contém todos os elementos da totalidade e uma vez emanada de Deus por fulguração é, logo, um ente autónomo e perfeito que só precisa de tomar consciência de si para “ser igual aos Elohim” (“Eritis sicut Dei”).

O Génesis sofreu esta interpretação, mas Álvaro Ribeiro, preferindo a ortodoxia hebraica às várias doutrinas heterodoxas mais ou menos ligadas à Kabbalah, recorre precisamente ao Génesis para transcender o ponto de vista narcisístico. Reflectindo o preceito mosaico de que não é bom que o homem esteja só, vê na mulher o complemento indispensável do homem, e, portanto, a base terrestre e natural da redenção ou da sobrenaturalização. «A mulher coopera eficazmente na sobrenaturalização quando cumpre o dever de criar e educar os filhos, e nessa função está a sua bondade e o seu valor. Cumpriria ao homem ser o agente capaz de se tornar sagrado, isto é de ser sacerdote, capaz de iniciar a sua esposa nos segredos ou nos mistérios sobrenaturais que asseguram a verdade do amor. Em nossa época, que julgou indispensável instituir cursos para noivos e escrever viáticos para a vida conjugal, bem merecia ser o Cântico dos Cânticos, em sua tradução espanhola de Frei Luís de Leon ou em sua tradução portuguesa de João de Deus, texto fiel onde o estudioso pudesse haurir a melhor inspiração.»

Esta doutrina desagrada aos narcisistas que defendem a igualdade dos sexos, o mesmo sexo em homens e mulheres, o homossexualismo. A alteração da mulher em homem ou do homem em mulher não é, porém, possível, sem que se formem dois novos seres, ainda completamente diferentes um do outro, por muito que consigam parecer-se exteriormente. Corresponde a alteração a um trânsito para outros planos psíquicos, onde às diferentes naturezas correspondem diferentes energias, para não dizer demónios que nelas são recebidos por rotura do subconsciente.

A demonologia do sexo, descrita em termos modernos por Freud, nos termos da moda psiquiátrica, constitui efectivamente uma das chaves utilizadas por Álvaro Ribeiro na interpretação de José Régio. A psicologia do homem solteiro deve ser sobretudo referida às visitas nocturnas de entes sobrenaturais e quem diz do homem solteiro dirá da mulher solteira, tendo em mente quanto as ciências ocultas ensinam sobre incubos e veículos. O poeta José Régio representa no morcego de Jacob e o Anjo o incubo de Afonso VI, mas sugere que nele reside a “forma de luz” perseguida pela iniciação cátara.  

Narciso, adolescente de extraordinária beleza, depois de ter repudiado quantos e quantas se apaixonaram por ele, viu-se no espelho das águas e, perdido de amor por si próprio, suicidou-se com uma pedra. Tirésias, o adivinho, predissera com efeito que Narciso viveria muitos anos se não se conhecesse.

É este, em breves palavras, o mito de Narciso, tal como nos foi transmitido pelos poetas.

A psicanálise apoderou-se do mito, designando por narcisistas todos aqueles que se deixam fascinar pelo próprio corpo, servindo-se dele como única fonte de prazer erótico, na tentativa de realizar um acto fisicamente impossível. O espírito recorre à imaginação inventando perversões que substituem um acto impossível, mas a doença, a loucura e a morte são as consequências inevitáveis e subconscientemente desejadas pelo narcisista.

Nos termos da psicologia imediata, o narcisismo, de que todos nós, mais ou menos, participamos, que está ligado a uma fase de desenvolvimento erótico de todos os indivíduos, quando se torna dominante e se fixa transforma-se num caso patológico a ser tratado pela medicina. Mas há mais. Se o narcisismo, que perdura e invade a vida erótica do indivíduo, é pela psicanálise explicado por traumatismos de infância, pode dar-se o caso de não ser o indivíduo a sofrê-lo, contra sua vontade, mas de ser voluntariamente cultivado, como uma técnica de separação do mundo exterior, podendo abrir ao espírito uma via mística, se convenientemente posto em relação com outros valores. 

 

António Telmo

     

 


[1] Publicado originalmente em Capelas Imperfeitas - Dispersos e inéditos, Zéfiro, Sintra, 2019.

 

UNIVERSO TÉLMICO. 64

03-04-2019 12:41

Publicamos hoje o texto da intervenção de Risoleta C. Pinto Pedro, sobre a obra poética de Manuel J. Palmeirim, na sessão de homenagem aos poetas populares de Sesimbra que se realizou naquela vila, no passado dia 23 de Março, no Auditório Municipal Conde de Ferreira, numa organização da Liga dos Amigos de Sesimbra.

foto de Sara Ramos

Manuel J. Palmeirim - As duas faces de um poeta

Risoleta C. Pinto Pedro

 

Para falar de Manuel J. Palmeirim, outros, nomeadamente ou especialmente António Reis Marques, seriam muito mais indicados do que eu, por isso não ousarei falar do que não sei. Apenas posso falar do que conheço dele: dois livros de poesia e pouco mais.

O primeiro livro, Espumas Vivas, sai em Março de 1950 em edição de autor, o segundo, 7 Poemas de Sesimbra, em 1963, uma edição de O Sesimbrense, na colecção “Poesia Sesimbrense”.

Não possuo muita informação sobre o autor, não é fácil encontrá-la, nem é esse o propósito da minha comunicação, que se baseia sobretudo numa análise literária dos dois livros, mas é importante assinalar o que o próprio, numa introdução intitulada “Duas Palavras”, ao segundo livro, nos diz:

Dedica o seu livro aos companheiros Gilberto Pinhal e Zé Preto, que nessa altura já tinham partido, prematuramente, mas que evoca com admiração e carinho, recordando momentos em que foi confidente da inspiração poética quer de um quer de outro. Anuncia, também, os próximos números da colecção a um e a outro dedicados, justificando a sua precedência enquanto trombeta anunciadora da futura vinda poética dos verdadeiros heróis.

Tive conhecimento do seu trabalho na área editorial, nomeadamente na Europa-América e na D. Quixote, com muitas traduções para esta última.

Para além dos livros citados e sobre os quais me debruçarei, tenho conhecimento, que muito agradeço ao João Aldeia, de activa colaboração n’O Sesimbrense, que se conheça a partir de 1946 e até 1968, nomeadamente contos e outros textos literários, poesia, assuntos locais, polémica…

Apesar de os ter lido, não serão alvo deste estudo, até porque não quero monopolizar o tempo da sessão, mas poderão ser objecto de estudo e partilha numa outra comunicação, por alguém que tenha gosto em fazê-lo, sugestão que deixo, ou por mim, se não se apresentar ninguém.

 

É visível, neste poeta, por um lado a veia da tradição, que lhe vem da origem, e a veia mais moderna, que lhe vem do contacto com a poesia contemporânea, muito possivelmente potenciada pelo seu trabalho em editoras. O que é curioso é que, dos dois livros que lhe conheço, aqueles a que tive acesso, Espumas Vivas e 7 Poemas de Sesimbra, acima referidos, a tradição vem depois da modernidade. Cá voltaremos.

No primeiro, de 1950, apesar de não ser livro directamente relacionado com Sesimbra, e do seu carácter mais inovador, sem preocupações em respeitar o cânone tradicional no que respeita à rima ou à métrica (inovador, mas não necessariamente melhor…), ainda assim aqui vem rebolar aos nossos pés a espuma do mar materno. Aliás, o próprio título lhe denuncia a origem, e a alusiva metáfora está presente e dá o tom logo no primeiro verso («Vivo na imensidade revolta e encapelada/ Dos meus pensamentos»), embora com menos embalo do que o segundo livro. O primeiro poema traz ainda algum ritmo, uma memória viva que se vai perdendo ao longo do livro. Que, aliás, termina assim: «Babei-me e adormeci». Será o retorno à baba das ondas que é a espuma?

O poeta, por modéstia, por sinceridade, ou por fingimento poético à Pessoa, Pessoa que ressoa de vez em quando neste primeiro livro, não se tem em grande conta como poeta, aliás, não tem em grande conta os poetas em geral:

«Um poeta é um cavalheiro que se lembrou de escrever/ Que estava satisfeito ou triste, irritado ou feliz/ Num determinado momento.»

Quanto à rima e à métrica, com que se há-de reconciliar no segundo livro, não ficam muito bem no retrato que faz do cânone da poesia, como coisa passada:

«Antigamente havia a métrica e a rima,/ O som e a música,/ E o poeta quando chegava ao fim já não sabia/ Se tinha sentido aquilo que escrevera,/ Se escrevera apenas com sentido».  Lembra vagamente “O Poeta é um fingidor”, de Fernando Pessoa. Para ele, a qualidade está na razão directa do sentir: «Qualquer um pode fazer um poema/ Melhor faz quem mais sentir». Resta saber se este é o sentir “sincero” dos românticos, se o sentir “fingido” de Pessoa.

Ainda sobre a rima, sendo verdade que rimar e criar uma métrica regular não chegam para que aconteça poesia, também é verdade, como António Telmo tão bem assinalou, que métrica não é o mesmo que metrificação e que tanto esta como o ritmo, antes de aparecerem no poema, estão dentro do poeta. Ritmo e métrica apenas surgem materialmente no poema porque já existiam antes, tal como a língua. Assim sendo, são duas das mais nobres funções ou características inalienáveis da poesia, a que se deve acrescentar a metáfora.

Ao contrário do autor, não avaliarei e muito menos quantificarei o seu talento, tal é impossível e não tem muito interesse, cada leitor que o faça, mas não posso deixar de afirmar que a maior parte das vezes a sua métrica, sobretudo a do segundo livro, 7 Poemas de Sesimbra, parece corresponder a um ritmo interno. E isso fala muito a seu favor.

Ainda a propósito do primeiro, Espumas Vivas, e da qualidade poética, não posso deixar de assinalar o excelente “Apontamento Crítico” assinado por L. D. Cardefe, que tem tanto de sucinto quanto de certeiro. Embora eu me permita semi discordar, tenho de reconhecer a qualidade.

Começando por afirmar que a arte se compõe «de três partes integrantes: o real, o poético e o ideal», de cuja «harmoniosa fusão integral surge «a vida coada através da arte: não já, pois, como vida, mas como Vida». Concluindo que «partindo da vida, chega-se à Vida atravessando os tão desejados (e tão mal trilhados) caminhos da arte.». Vê a arte como um «meio de construção da Vida» e não como um fim. Critica o facto de se viver «em excesso para a arte» em vez «de se viver para a Vida». Afirma, implacável, que se começa «por ser artista… e não se chega a ser homem!»

Desta falha exclui Manuel J. Palmeirim, a quem atribui tal «humanidade, que ele atinge frequentemente o desumano».

Esta desumanidade talvez a encontre em alguns versos que se aproximam do excesso de Álvaro de Campos, como vemos em: («Caminham no céu gigantescas aves de metal»); e do cinismo dele mesmo ou à Cesário, que exemplifico: («Olha, filho: Não te mates!/ Não te mates porque esta vida não vale dois tiros.»); ou ainda: («(Donde estou não se vê a lua/ Mas presumo que está uma noite óptima para os poetas.)»).

Ao mesmo tempo que o seu prefaciador afirma «Palmeirim é um homem!», acrescenta que não chega «a ser artista». Nem Poeta. E remata: «Faltam-lhe para isso, em Espumas Vivas, o elemento poético e o elemento ideal». Conclui que ali está presente «o real, em toda a sua brutal sinceridade».

Ora eu, apenas leitora que nunca conviveu com o poeta, não posso avaliar, como já referi, da sua sinceridade, por essa mesma razão não poderei dizer se é ou não artista.

Mas poderei anotar que se o mar aparece como ideia motriz, o seu ritmo só iremos encontrá-lo, plenamente, no segundo livro. Perde neste primeiro livro em ritmo, o que ganha em reflexão, confidência crítica e indignação. Salta directamente da vida, por cima do ritmo e da rima, para o ideal. Mas um ideal pela negativa. Não nos diz ele como deveria ser a Vida, mas lamenta ele que seja como é a vida. Diferentemente do que preconiza o seu, de resto excelente, por assim dizer, prefaciador.

Mas não poderei estar totalmente de acordo com L. D. Cardefe, porque pelo meio de um texto mais aparentado com uma reflexão sobre a vida, saltam de vez em quando poéticas e belíssimas imagens, como esta:

«De mil espumas brancas de viver efémero/ Uma me salpicou o rosto/ Qual pontada fria.»

Tem metáfora, tem ritmo, tem métrica. É belo.

Polvilham também o livro considerações sobre a arte, passíveis de reunir e formar algo a que poderíamos chamar a Arte Poética do Manuel J. Palmeirim da primeira fase:

Por exemplo:

«Esta maneira de escrever a que alguns chamam “poema”/ É maneira de escrever como a prosa./ Simplesmente leva mais intervalos».

Caeiro estaria de acordo. Curiosamente, Campos também.

Mas Campos também não desgostaria do poema “Sem Rótulo”:

«Caminham no céu gigantescas aves de metal;/ Atravessam os mares monstruosos peixes de ferro;/ Cruzam a terra velozes móveis!/ Em tudo, homens!/ Homens nas aves, homens nos peixes, homens nos móveis velozes.// Matraqueiam bocarras de fogo escancaradas/ Um troar sinistro, no ar, no mar, na terra./ Em tudo, homens!»

E eu estaria de acordo com Campos. Tem rasgo, é poesia. Mas depois perde força… Essa é, aliás uma característica de alguns destes poemas: a irregularidade da sua força poética.

Também ao início do poema “Tensão” é impossível ficar indiferente:

«Um morro gigantesco, negro, horrendo,/ Na noite escura se confundindo – trevas unidas./ Sobre o morro um olhar desvairado domina a terra inteira./ Uma gargalhada sinistra ecoa lugubremente/ De vale em vale/ E repete-se… Repete-se eternamente/ Zunindo-me nos ouvidos/ Sarcástica, ameaçadora, rude, negra – mais trevas unindo./ Quem a ouve estremece. Quem a não ouve não vive.»

Quase nos sentimos na Serra de Pascoaes.

E a seguinte passagem, que um poeta menor não escreveria:

«Não ouves a gargalhada do medo, animal?/ Não tremes agora como um cão perante o desconhecido?/ Não corres como um cavalo ao pressentir o que não se vê?/ Não galgas, como um felino apavorado,/ Obstáculos – intransponíveis quando te julgas homem?// Não penses no que és!»

Ou ainda, pelo inesperado:

«Reuniram-se os sete pedaços desiguais do meu prato/ E o prato voltou para a minha mesa.»

Como se o tempo tivesse passado a movimentar-se ao contrário. Um físico actual não se surpreenderia com esta relativização do tempo, o passado depois do presente.

Não teria importância a ausência do uso canónico das ferramentas da poesia tradicional, a métrica e a rima, se se tivesse sempre deixado arrebatar pela metáfora, como aqui acontece. Perde força quando se entrega à reflexão, à conclusão, à moral, à lamentação, daí a fraqueza da maior parte dos finais. Mas a garra está lá, existe. A arte está lá, mas de modo irregular, em qualidade desigual. Na ausência da rima, da métrica, é salvo, e de que maneira, pela metáfora.

Já o segundo livro, os Sete Poemas de Sesimbra,  com uma respiração ao pé deste mar, tem dentro de si o ritmo das ondas, que  está nas palavras, apenas têm de ser procuradas. Este livro é banhado pela espuma, mesmo quando o poema é sobre o castelo.

Melhora quando se aproxima da tradição, o livro tem mais unidade e há mais equilíbrio, porque aqui se alimenta do que é perene, que vai buscar ao início do movimento das ondas. Quando imita o moderno, fragmenta-se como espuma e perde-se de si. Quando se aproxima da tradição poética e histórica, ganha ritmo o verso e a métrica balança na língua como um barco no mar, o ambiente para que foi criado.

Reparte-se este segundo livro espacialmente entre a praia, não a dos turistas, mas a do pescadores, o castelo e a estrada. E a história. Dos homens, dos lugares e da Poesia.

No início do livro, a intertextualidade com Raul Brandão, na epígrafe, pois também ele escreveu sobre Sesimbra e os pescadores.

Marginal a estrada, a dos namorados, o desejo incontrolável. O corpo sob o poder da lua e do calor do Verão. E aqui estamos em pleno cenário das cantigas de amigo. O campo de avelaneiras onde dançam as amigas do séculos XI, XII, é substituído pela estrada, mas o som do mar, como numa barcarola medieval, é o alaúde do amor. O  movimento das ondas materializado no refrão, a imitá-las.

Curiosa a ambivalência do namoro, a lembrar muito outro amigo de Sesimbra, António Telmo e a sua peça de teatro A Verdade do Amor:

Palmeirim canta: «Pares de namorados arrulham pecados,/ Demoníacos uns, outros santificados,/»

E Telmo: «A menina e o menino/ Sexo neutro: a criança!/ Feminino e masculino. Siga a dança!»

Estes sete poemas soam entre a praia e o castelo, a água e a pedra. E em “Bairro dos Pescadores” os «cubos alinhados» das casas são «barcos cansados», numa certa analogia, pela antítese, com a expressão de Miguel Real em A Cidade do Fim, romance sobre Macau onde também Sesimbra é personagem. A expressão de Miguel Real é «naus que viram casinos», mas refere-se a Macau. Aqui não há dinheiro para tal, são as casas que parecem naus exaustas, em repouso.

No livro de 1963 encontramos uma toada antiga, ancestral, que vem dos trovadores, um ritmo que vem do mar. Quem nasceu ou viveu em Sesimbra, conhece-o.

Contudo, também neste livro o poeta relativiza a rima e o rimar. Não nos poemas, mas no texto introdutório. Assume-se como mais prosador e afirma que «nem sempre que faço versos acontece poesia»; bem como reafirma que «a facilidade em rimar e conhecimentos de métrica nunca foram a maior riqueza de um poeta. O que diz aqui em prefácio já dissera no anterior livro em poema. E no entanto, aqui acontece rima, métrica e… poesia.

Três destes poemas, como informa, já haviam sido publicados n’O Sesimbrense sob pseudónimo: Tristão Sesimbra. Por aqui ficaríamos mos a saber que ali vem publicando poesia «de quando em quando».

Tem uma atitude humilde, porque não só não se exalta, como se desmerece, e aproveita esta edição do primeiro livro na colecção “poesia Sesimbrense” de 1963, para justificar a sua precedência, enquanto arauto dos poetas que, no seu entendimento, o são verdadeiramente: Zé Preto e Gilberto Pinhal.

Talvez o pseudónimo “Tristão” concentre em si a tristeza do desaparecimento dos amigos poetas, a tristeza que numa concepção simbólica da doença surge associada à tuberculose que prematuramente os levou.

Já Telmo, também convivendo com amigos infectados pela doença, ouve uma voz que o avisa de algo como: Não entristeças, senão entuberculizas. Era um quase menino, pouco sabia da metafísica das doenças, contudo existe um saber universal a que os poetas têm acesso.

Mas voltando ao que escreve Palmeirim sobre a rima, permito-me discordar dele. Se rimar toda a gente rima, rimar com elegância dentro dos limites da métrica, como ele faz, com uma ou outra excepção, não é para qualquer um, e não é fácil fazê-lo sem cair na banalidade.

Acrescenta-lhe ainda a toada tradicional bem servida pela anáfora e temos poesia quase cantada e sem dúvida muito cantável.

Seria até interessante se em vez de se pagar balúrdios a cantores de centésima ordem, como vemos por esse país fora, se investisse numa composição musical de qualidade a partir de poetas da terra, destes ou de outros poemas sesimbrenses. Sesimbra ganharia.

O primeiro poema apresenta um processo muito interessante, ao analisar ou conciliar Sesimbra, de que trata o poema, com um tom eminentemente lírico, pela presença anafórica do eu, no refrão de cada estrofe («Comigo e sem mim»); transforma o que parece exterior em confidência, sem de si falar. O lirismo em alta rotação.

A preocupação social que já encontráramos no livro anterior, cruza-se aqui de forma harmónica com os “ais” que caracterizam alguma poesia lírica, nomeadamente a nossa poesia original, trovadoresca, mas igualmente expressam as vidas «da gente sem pão».

Reparem na musicalidade da aliteração, em: «Do mar marulhando», a coerência da forma com o conteúdo no paradoxo: «No vale tão fundo/ Tu ficas mais alta/ Que todo o nundo».

Da praia, relata poeticamente a labuta e a fome; do castelo, a história e o orgulho. A uni-los, a coragem, a bravura. E como sabe articular o falar sobre o antigo com a crítica ao novo:

«As guerras de agora/ São inda peores, mais maquiavélicas/ Heróis não existem. Deitaram-nos fora/ Os inventos novos, novas armas bélicas.»

Encontramos neste livrinho, desde os ais das cantigas de amigo aos romances tradicionais recolhidos por Garrett.

E uma imensa sabedoria poética, entretanto adquirida pela compreensão de que, ao contrário do que afirmara no outro livro, não é necessário que o poeta seja literalmente sincero, pelo contrário. Aqui o canta:

«Se escondes a dor,/ Descobres poesia!». Aqui, o poeta é um fingidor. E não parece ver mal nisso.

Com esta inteligência poética entre um e outro livro reforçada, muitas são as mudanças. Se não fora a preocupação com a crítica social, quase não identificaríamos o mesmo poeta. Parece ter meditado nas palavras de L. D. Carfede e atravessando os caminhos da arte, aqui está a poesia com tudo a que tem direito, musicalidade, confidência, tradição, observação do real e transformação pela metáfora. O percurso da vida à Vida. A provar que é aquilo que nega ser: um poeta. Com rima e métrica e tudo. E crescendos dentro dos poemas de modo a criar finais fortes, nobres, por vezes épicos.

Um enorme crescimento é o que encontro neste segundo livro, através deste caminho iniciático que proporciona a arte para se conhecer a verdadeira Vida. Através do símbolo, do ritmo e da música, que o mesmo é dizer-se da metáfora, da métrica e da rima, uma forma mais familiar de falar da poesia que transforma e não se limita a contar as vidas pequenas de homens conformados na sua revolta, mas os eleva entre o barco e o castelo e os prepara para uma Vida Nova. Como diria Dante, não basta descer aos infernos, é preciso de lá sair e essa é a missão do poeta: ir e voltar. Não é para todos.

 

Sesimbra, 23 de Março de 2019.

 

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