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INÉDITOS. 81

28-01-2019 11:29

Código de honra do cidadão livre

 

1.º Não me esquecer nunca de mim em qualquer situação, de modo a ser sempre responsável dos meus pensamentos, palavras e actos.

2.º Não se trata do que se entende habitualmente por responsabilidade moral. Bons ou maus pensamentos, por exemplo, é em mim que eles nascem e progridem, evoluem e morrem. Aqui a presença a mim mesmo pode ser, e é, a de alguém que assiste aos seus próprios pensamentos como se fossem de outro, mas eu sou ainda responsável por esse outro que deixei instalar em mim. Responsável, quer dizer, que respondo por ele e não que me desculpo com ele. Se, ao pensar, falar e fazer me esqueço de mim, sou como se não fosse, sigo como se não permanecesse no movimento que os transporta. E como os outros são vários a instalar-se, vivo sem identidade, como um autómato. Agredi alguém? Não tive culpa, não fui eu. Vejo depois o de que deveria ter consciência no momento. E, tendo consciência, assistir impávido ao movimento do monstro que agride, reconhecer que ele é em mim realmente existente. Dir-se-á que assim se aceita o mal. “Não resistir ao mal” disse Jesus. A verdade é que este é o único caminho de libertação do mal. Se reajo contra o “monstro” que quer agredir, ele cresce e aumenta de força. Se não tomo consciência dele em mim, apodera-se inteiramente do meu ser.

O que acontece se não resisto ao mal, estando eu presente a mim mesmo? “Mais vale experimentá-lo que julgá-lo”. Mas julgando é de supor que a energia, que pela minha entrega ou pela minha resistência, animava inteiramente o monstro, lhe falta e a vontade ou força que o animava pode ser captada para fins mais nobres.     

 

António Telmo

INÉDITOS. 80

06-01-2019 13:12

Carta Segunda

 

Leonardo Coimbra não quer que a humanidade seja depois de Cristo o que foi antes de Cristo e por isso repudia a tragédia grega. Deveria também repudiar o teatro de Shakespeare. Mas a redenção da humanidade e, segundo Orígenes, de todo o Universo, é feita através da tragédia de Deus que, aliás, a Igreja Católica repete em simbólica presença todas as semanas. “O mal não é por si só suficiente para que por ele se explique o Universo” escreve contra A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Todavia, foi suficiente para provocar a morte humana de Deus. E como o segundo Édipo (Édipo em Colona) nos mostra o herói trágico, que a fatalidade no primeiro Édipo (Édipo Rei), levou ao desterro e à cegueira dotado do poder miraculoso de curar (Cristo ressuscitado), assim a ressurreição de Cristo não foi sem a celebração pela humanidade que o crucificou do mistério do mal.

Se na existência do mal, não houver algo de radical, isto é, se o mal não estiver nas raízes do mundo não se compreenderá a necessidade da encarnação de Deus. Essa raiz é também a de que brotou a humanidade porque é a figura do homem que Deus assume pelo Filho. Daqui a importância do homem na Divina Comédia que levou Orígenes a dizer que a Divina Tragédia repercutiu infinitamente e tremendamente nas esferas angélicas e arquiangélicas do Universo.

Há que reconhecer que os gregos perpetuavam pela tragédia uma antiquíssima tradição, conhecida e sabida de todos os povos do mundo. A teoria da tragédia exposta por Aristóteles na Poética é a teoria do sacrifício que Leonardo Coimbra já medita no seu primeiro livro. Só nos tempos modernos a arte da palavra se tornou uma ocupação de literatos.

 

António Telmo

INÉDITOS. 79

18-12-2018 11:57

Da heresia*

 

Há que distinguir a “heresia” que significa escolha e é, portanto, uma forma de liberdade conciliável com a ortodoxia, de “luciferismo” em que a luz que o espírito conduz se afirma como autosubsistente. A filosofia portuguesa não é luciferina nem satanista, porque tem como princípio a ideia de Deus. Não é satanista porque não consagra nem diviniza o sensível, separando-o do seu princípio espiritual.

É muito difícil não haver “escolha” num povo servido por três tradições. Dizer, por exemplo, que Cristo foi um profeta, se é herético do ponto de vista católico, não o é do ponto islâmico. Do ponto de vista hebraico, isto é, do Velho Testamento, não se põe esse problema, que é posterior ao estabelecimento da Tradição. A filosofia portuguesa tende a ver no cristianismo um aperfeiçoamento do mosaísmo e não uma nova religião diferente ou oposta à primeira.   

 

António Telmo

__________

* Título da responsabilidade do editor.

UNIVERSO TÉLMICO. 62

28-11-2018 15:12

Publicamos hoje “Da Pluralidade Fecunda: João Ferreira e a Filosofia Portuguesa”, texto da comunicação que Pedro Martins apresentou ao XII Colóquio Tobias Barreto, no passado dia 13 do corrente mês, no Palácio da Independência em Lisboa. É um olhar sobre o livro pioneiro e clássico deste insigne membro do nosso Projecto, que é hoje o decano do movimento da Filosofia Portuguesa.  

Da Pluralidade Fecunda: João Ferreira e a Filosofia Portuguesa

Pedro Martins

 

1. Entre 1957 e 1961, João Ferreira publicou em Itinerarium, Revista Portuguesa de Filosofia e Diário Ilustrado uma série de estudos que, «sob a pressão dos amigos», veio a reunir em Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa, editado em 1965. À distância de meio século, este livro do emérito Professor da Universidade de Brasília permanece como referência no correspondente domínio, na senda dessa obra seminal que foi O Problema da Filosofia Portuguesa, publicada por Álvaro Ribeiro em 1943.

Não sabemos o que nele mais admirar: se a serenidade, a elevação e a elegância com que o autor participa num debate não raro marcado pelo acinte de surdas polémicas; se a clareza didáctica da sua prosa límpida e a erudição actualizada que o enformam; se a ponderação, o equilíbrio e a lucidez dos juízos formulados; se a genuína atitude de paixão filosófica que o determina; se o espírito de missão e serviço que, com sentido prospectivo, o motiva.

 

2. Em larga medida, as páginas de Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa obedecem frutiferamente a um desenvolvimento analítico, dicotómico ou dual, mas não dualista, das matérias que aborda ou das questões a que responde.

A este respeito, e antes de mais, convém que se saiba do que se fala quando se fala de filosofia portuguesa. Para João Ferreira, a expressão comporta dois sentidos diferentes, numa relação de género e espécie.

Em sentido amplo, filosofia portuguesa «significa o conteúdo doutrinal da nossa história filosófica e abrange a filosofia cultivada pelos portugueses durante a sua sobrevivência histórica como tal». Por um lado, consideram-se os «monumentos literários dos autores» em que essa filosofia se concretiza como «corpo histórico» a partir do qual pode objectivamente ser estudada. Por outro, atende-se ainda à sua «feição vivencial formulável», «latente no espírito do povo e na consciência individual dos que se consagram à problemática filosófica». À dicotomia assim enunciada, corresponde a destrinça entre uma «filosofia explícita» e uma «filosofia implícita», que constituem a «dupla face» da filosofia portuguesa na sua mais ampla acepção.

 

3. Mas há ainda que tomar o termo num sentido mais restrito, pelo qual se significa já «a atitude mental e cultural de alguns pensadores livres, com fundo filosófico e cultural, os quais reunidos em torno dum símbolo comum, que é Sampaio Bruno[,] advogam a existência, originalidade e a supremacia da filosofia portuguesa sobre as outras filosofias e a sua missão na condução do povo português para o futuro».

Fundada por Sampaio Bruno, trata-se, nas palavras de Álvaro Ribeiro, que João Ferreira cita e traduz, «da corrente “dos livres pensadores religiosos, tão afastada do positivismo agnóstico como do catolicismo ortodoxo e colocada fora do ensino das instituições públicas». Evidentemente, é «por direito próprio, no que tem de conteúdo e afirmação filosófica», que este segundo sentido «fica naturalmente incluído» no primeiro, «ecuménico e universal», da expressão filosofia portuguesa, que designa «o pensamento filosófico pátrio diferenciado e característico», em referência «às formas históricas e vivenciais da filosofia portuguesa, incarnadas na existência temporal da velha casa lusitana».

 

4. Ainda que João Ferreira o não diga abertamente, não será ousado supor que estas duas dicotomias – filosofia portuguesa em sentido amplo e em sentido restrito; face explícita e face implícita da expressão na sua acepção mais vasta – possam ser aproximadas, nos termos variáveis de uma sobreposição tendencial, de outra que logo nos propõe, ao distinguir professores de publicistas:

 

«Os primeiros, com uma função docente oficial, são geralmente de espírito universalista, procurando estar atentos às novidades exteriores para se manterem ao nível das melhores produções estrangeiras, informando os seus alunos dos temas, problemas, métodos e resultados do estrangeiro culto. Os segundos, pensadores livres ou independentes, sem responsabilidade oficial de ensino, inspirando-se em temas de livre escolha, não impostos pelos programas, nacionais, circunscritos, procuram corresponder a uma linha histórica e caracteriológica da nação em nome da qual filosofam. Esta disjunção, demasiado evidente para que a passássemos adiante, reúne e comporta dum lado a filosofia universitária e doutro, a filosofia a-universitária. Ambas, porém, representam, no esforço comum do país, dois momentos funcionais.»         

  

Se esta distinção permite já antecipar, no desenvolvimento da obra, a questão da extensão do próprio conceito de filosofia, facto é que, nas palavras do autor,

 

«ambos concorrem para um despique útil à revitalização filosófica do país, pois enquanto os professores vão lutando por que o pensamento não se feche numa insularidade asfixiante e provinciana, os publicistas, de sua vez, vão lembrando que não podemos ir à busca de nós fora de nós, lamentando simultaneamente a conversão do pensamento dos portugueses às formas estrangeiras e a importação não assimilada».  

 

Sublinho as ideias de concorrência e de despique que, se não impedem o diálogo ou a colaboração entre os dois grupos, não será de crer que consintam a cooperação em termos que possam conduzir à confusão ou dissolução do grupo dos publicistas, no qual naturalmente se inclui o movimento da Filosofia Portuguesa, no grupo dos professores, por assimilação ou desvirtuamento, com ou sem mediação confessional. Esta observação não pode deixar de se mostrar de vital importância para um movimento de livres-pensadores religiosos que, pela voz da sua mais alta figura, se afirma equidistante do positivismo agnóstico e do catolicismo ortodoxo e se coloca fora do ensino das instituições públicas.

À distância de cinco décadas, e enquanto não chegar o tempo em que os desígnios de Álvaro Ribeiro se cumpram, a lição de João Ferreira pode ajudar a mostrar, de modo iluminante, que o problema da filosofia portuguesa, no tocante ao seu aspecto ontológico, isto é, à sua existência, perigosa e lamentavelmente se enuncia, por referência à acepção mais restrita da expressão, como um problema de sobrevivência.

 

5. Persistindo na abordagem dual ao problema, João Ferreira distingue a questão de direito da questão de facto. A primeira «resolve-se no plano da possibilidade das filosofias nacionais, de que a filosofia portuguesa é capítulo especial». A segunda, de solução eminentemente probatória, faz apelo ao «testemunho histórico-crítico» como «critério de aceitação».

Para responder a estas questões, teve o autor o cuidado propedêutico de propor uma definição teleológica da filosofia, a esta assinando o propósito de «tornar mais inteligíveis ao homem os reinos do conhecer, do ser e do valer, dos quais, o mais importante, em prioridade e pressuposição é o reino do ser. A filosofia encara o ser na sua noumenalidade, que apreende no ser concreto, dado em fenomenalidade», sendo, pois, «um caminho para a inteligibilidade do ser, um caminho para a inteligibilidade da vida, do homem e dos seus problemas». Noutras palavras, «a filosofia tende essencialmente a exprimir a visão que o espírito humano pode formular acerca do cosmos, no que ele tem de mais profundo e misterioso, ou seja, na escala dos seres que o integram, na sua origem, natureza, fim e inteligibilidade».  

Por outro prisma analítico, João Ferreira concebe-a ainda, ora «como uma atitude humana», ora, na senda de Ferrater Mora, como «“um conhecimento ou uma série de proposições, quer seja sobre objectos considerados como próprios, quer sobre quaisquer proposições para averiguar o seu sentido ou falta de sentido”», sendo que «estas duas facetas da intenção filosófica dão à filosofia um âmbito que está longe de ser restrito».

 

6. A referência, que vem de ser citada, à intenção filosófica, devolve-nos à questão de direito, que o autor resolve com sólida e aturada argumentação, concluindo pela possibilidade teórica da existência de filosofias nacionais.

Concedendo na justa medida da evidência, não pode João Ferreira deixar de admitir que «a filosofia entra no grupo das ciências apátridas», pois que seja

 

«sua intenção inquirir primariamente o ser enquanto ser (ens ut sic), isto é, por ser a busca desinteressada e conceptualizada do reino ôntico, em seus núcleos totais de essência e existência, é universal. A verdade perseguida pela intenção filosófica é, neste sentido a-espacial e intemporal, exigência natural do espírito humano, que tende a formular síntese de orientação e método para dominar, de posse de categorias universais, o mundo (cosmos).»

 

Mas importa distinguir o objecto da intenção filosófica, que é a verdade, realidade de natureza universal a que o espírito ascensionalmente aspira, do seu sujeito, que, como sua condição sine qua non, é o homem, a pessoa humana.

Em decisiva passagem, escreve João Ferreira:

 

«Se, efectivamente, a verdade filosófica, de direito e de natureza, é universal, a-espacial, intemporal e apátrida, de facto, porém, enquanto pesquisa e formulação humana, ela situa-se, temporaliza-se e espacializa-se. Situando-se, participa da circunstância em que o homem, ao exprimi-la, vive. Temporalizando-se, é tocada pelas condições da terra em que seu teorizador geograficamente vive.

Convém por isso, de todos os modos, sublinhar esta simples verdade fundamental: a filosofia é obra humana. Sendo obra humana, é obra do homem todo. O homem tal qual o conhecemos não é nem puro espírito, nem alma penada em catarse metempsíquica, mas é um ser imerso no mundo, feito de alma e corpo, e unitariamente realizado. Esta realização unitária chama-se pessoa humana

Nesta base, enquanto obra humana, a filosofia acompanha o homem concreto onde quer que ele se situe ou acondicione, comungando, enquanto factura, da base antropológica do seu autor, e sofre assim limitação e influência positiva ou negativa das condições naturais do homem situado.»

 

Percebe-se aonde conduz a constatação desta evidência. Condições comuns como a raça e a língua, individuais como a índole e o temperamento, e históricas, «que podem afectar toda uma época, uma classe ou um grupo», como a religião ou outra concepção do mundo e das coisas, o espírito comum e o estado da cultura da época, a tradição de escolas filosóficas e o estado das ciências particulares, são factores que «determinam em grande parte tanto as questões que se põem, como a mesma formulação dos problemas e as soluções que deles se dão». Assim, escreve João Ferreira, «admitidas as condições antropológicas, sociais e históricas na produção filosófica, abre-se caminho para a tese da existência das filosofias nacionais». E admitir que estas existam – esclarece – «não é admitir a relativização da Verdade».

Relativos serão antes os caminhos que a essa verdade conduzem, pela relação que com ela estabelecem, quais raios de um círculo convergindo da circunferência para o centro.

O adjectivo universal comporta diferentes acepções, que se não opõem. Pela etimologia, exprime a qualidade do que versa para o uno, de um quid que não pode, pois, ainda ser o uno, sob pena de impossibilidade lógica do movimento, isto é, do verbo, que a proposição para, exprimindo direcção ou lugar de destino, ou destinatário, ou intenção, denota. Daí que entre as acepções de universal dicionarizadas encontremos a de algo que provém de tudo ou de todos. Se a análise da totalidade se resolve em plúrimos diferentes com um destino comum, a universalidade surge justamente garantida pela diversidade da alteridade. «Diferença», ensina António Telmo, «é, etimologicamente, o mesmo que irradiação», com o que retomo, uma oitava acima, a geometria do círculo, na imagem que há pouco propus.

 

7. Procurando surpreender a emergência dos nacionalismos filosóficos no movimento que «lançou raízes com o liberalismo e o romantismo», observa João Ferreira: «Para enriquecer o complexo geral da verdade, havia que expor a face concreta dos problemas situados, para que surgissem interpretados na sua realidade». Desta sorte, «a ideia duma verdade supranacional apareceu em oposição à alegria produzida por uma mundivivência de características nacionais, criando-se nos pequenos povos uma confiança própria nos seus destinos intelectuais e na linha característica do pensamento próprio do seu temperamento».

Não será outro o sentimento da Renascença Portuguesa, em que o movimento da Filosofia Portuguesa, na sua especificidade, se filia. A Álvaro Ribeiro, seu mentor, se deve a ênfase depositada na questão da existência de uma filosofia portuguesa. João Ferreira, uma vez solucionada em sentido afirmativo a questão de direito, seguirá de perto o mestre na resposta, igualmente positiva, à questão de facto, sem, contudo, deixar de carrear outros contributos, próprios ou alheios.

Fá-lo operando nova destrinça dual: entre a filosofia como conhecimento e a filosofia como atitude; ou como teoresis e como vivência; ou como ciência e como arte. As sucessivas dicotomias equivalem-se em termos de correspondência, por elas se significando uma filosofia em sentido restrito, ou técnico, e uma filosofia entendida já em sentido amplo, pois a verdade é que «pode existir filosofia, mesmo onde não há rígidas estruturações dialécticas (a dialéctica é um meio de expressar a reflexão filosófica) ou profundas questões metafísicas, reduzidas a sistema». Tributário da dialéctica, o próprio sistema, como observa João Ferreira,

 

«é apenas uma forma de manifestar, em coordenadas, o pensamento filosófico. Nele impera a ordem e a síntese, o que favorece geralmente a didáctica e a comunicação. Entretanto, a filosofia não pára aí, nem é exclusivamente sistema. Há outras articulações, outra forma de manifestação filosófica: a filosofia como atitude e como vivência. Em Portugal, julgamos existirem também as duas formas: a filosofia como conhecimento (conimbricenses, por ex.) e a filosofia como atitude.»

 

Se bem o entendemos, na visão de João Ferreira só imperfeitamente coincidirá esta dicotomia com a que distingue professores e publicistas. Mais importa sublinhar que, apesar de a filosofia-especulação nela encontrar representação, é na «ars vivendi» ou na filosofia como arte de viver que se enquadra a tendência mais forte da filosofia portuguesa.

 

8. O amplo conceito do autor, libertando a filosofia da unicidade expressiva da forma sistemática, permite-lhe integrar no corpus filosófico nacional obras literárias de «grande altura filosófica», entre cujos autores se contam os nomes de Pascoaes, Raul Brandão, Antero, Florbela Espanca, Régio, Torga e Pessoa, plêiade que considera deste modo:

 

«Pela sua qualidade de autores trágicos, para quem a vida é uma interrogação que procuram desvendar como Esfinge, a filosofia aparece no sangue palpitante do próprio problema vital que eles contornam através de uma cálida expressão trágica. São por isso autores ou escritores de interrogação existencial, da corrente vitalista, protótipos da filosofia do concreto, sem coragem de obedecer a cânones rígidos de uma dialéctica transcendental ou coisa do género, mas ricos de intuições e de filosofemas de pureza humana, dignos de assinalar. Apesar de pertencerem mais ao género emotivo e intuitivo do que ao tipo intelectualista e abstracto, entram também no sentido original de filósofos, pois são verdadeiros mendigos da sabedoria, peregrinantes da realidade, encoberta pelo verbo escuro, que esconde a Verdade.»

 

Partindo desta fulgurante passagem, algumas notas se impõem. A primeira é a de que só uma radical, e por isso integral, concepção da filosofia a pode explicar:

 

«A filosofia é verdadeiramente dinâmica. O amor da sabedoria supõe no espírito uma direcção prévia, depois um apego e paixão pela interrogação, uma fixação na admiração (princípio do filosofar, segundo Aristóteles), daqui uma progressão para a dialéctica e por fim, uma aproximação do espírito com a verdade. A filosofia que aprendemos, que se estuda, que se escreve, que se expõe, pode ser metodologicamente apresentada e toma, neste sentido, uma articulação que pela sua altura sistemática e silogística, pode receber o nome de ciência, no sentido moderno (com objecto e método próprios), Mas não será isto uma visão da filosofia ab extrínseco?»

 

Sublinhe-se, todavia, que a esta visão exterior corresponde objectivamente uma coessencial realidade imprescindível à afirmação das filosofias nacionais. Como esclarece João Ferreira,

 

«não se poderá considerar (…) o pensamento implícito ou explícito nas obras literárias como suficiente simpliciter e a se para se poder afirmar a existência de uma filosofia nacional. Para esta se constituir, é necessária uma objectivação mais formal, um corpo mais real e mais claro que só as produções filosóficas, portadoras de temas, de dialéctica e de altura metafísica, genuinamente, podem dar.»

 

No que se lê, supõe-se ou consente-se, afinal, a tese de Álvaro Ribeiro, amplamente desenvolvida por António Telmo, de que cada filósofo tem o seu poeta, o que mais claramente se infere duma outra passagem de Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa:

 

«Se admitimos o pensamento das obras literárias dentro de uma noção ampla de filosofia, consideramos porém que a ânsia perfectiva e simplificativa da razão humana na sondagem da realidade, não pára na intuição, nem na emoção, como aliás a curiosidade científica não se satisfaz com o processo indutivo. O primeiro contacto com a realidade leva a uma sistematização mais pura. Os conhecimentos de primeira mão levam a uma formulação geral e a uma ordenação sistemática dos conhecimentos. Daí nasce a teoria, o sistema, a dialéctica unificadora, a estrutura mental condensada em cânones e outras exigências, também reais, do espírito.»            

 

Estas palavras evocam irresistivelmente Pascoaes, que João Ferreira tanto admira e que algures escreveu que uma verdade, quando vem ao mundo, visita o poeta em primeira mão. Mas intentam superá-lo, à vista de muito do que o vate deixou escrito, notadamente quanto à oposição entre poesia espontânea e poesia culta no primeiro capítulo de Os Poetas Lusíadas. Seja-me permitida, em lance de convergência, uma nova citação, desta feita de António Telmo:

 

«Os nossos poetas situam-se, inocentemente, do lado do irracionalismo. Para eles, a linguagem poética – a sua linguagem –, com as suas estruturas metafóricas, é imediatamente distinta da linguagem da razão, senão oposta. Na medida, porém, em que os poetas, de acordo com um falso bergsonismo, defendem, como o fez Pascoaes, maior projecção e amplitude cognitivas para a poesia, recorrem logo a termos como inspiração ou intuição, contrapondo-as à inteligência como uma faculdade a outra faculdade. Bastar-lhe-ia, contudo, observar que onde quer que o homem escreva, fale ou pense, logo surge o adjectivo e o verbo, sob pena de se ficar mudo ou fascinado pelas imagens fixas que compõem o ser. Este envoûtement corresponde ao que, num plano mais profundo, Pascoal Martins chamou o êxtase de Adão.»

 

9. Na visão de João Ferreira, ampla, generosa e compreensiva, mas dada em rigorosa coerência com as premissas propedêuticas de que parte, «a filosofia nacional alimenta-se, dentro de uma pluralidade fecunda, dos vários quadrantes, que podem fazer dela, em certo sentido, um bloco unitário, ao qual também pertence a literatura com recheio filosófico». É nessa pluralidade fecunda que reside a sua força vital. Pouco importa que uns a reputem dispersiva ou descontínua e outros dela afirmem não possuir «um grupo de pensadores poderosos e originais que tenham exercido acção e influência na marcha geral das ideias». A estas e outras imputações, responde o autor com serena e objectiva ponderação, matizando-as ou restringindo-as por nunca perder de vista «a realidade da própria filosofia». Menos lhe interessando, numa época em que a investigação historiográfica, ainda incipiente, se deparava com um vasto campo de trabalho em ordem ao levantamento dos nossos monumentos filosóficos, ocupar-se do problema axiológico da filosofia portuguesa, isto é, de apurar qual fosse a sua real valia no panorama internacional, João Ferreira desfia, como quem desafia, em dezenas de páginas uma perspectiva histórica das principais fontes da Filosofia Portuguesa, ao mesmo tempo que, considerando dezenas de nomes, mostra topicamente como se pode alcançar uma estruturação e sistematização doutrinal e filosófica, feita sobre autores portugueses, nos diversos domínios basilares do saber filosófico, os mesmos que em 1965, ao longo de um volume ainda hoje interpelante, lhe permitem afirmar a existência, em termos de originalidade ou de aclimação, de uma filosofia portuguesa, da qual, aliás, ensaia caracterizações, em correspondência com a dupla acepção em que toma a expressão.

Chega esse livro até nós como um marco decisivo na abordagem aos problemas da filosofia portuguesa. Decisivo, que não definitivo, e por isso mesmo, como há pouco afirmei, ainda hoje interpelante, pois por ele se pode aferir em que medida e em que sentido entretanto se progrediu.

EDITORIAL.18

20-11-2018 10:30

O tempo dos leitores

Faz hoje cinco anos, era criado o Projecto António Telmo. Vida e Obra. Um lustro depois, a edição, na editora Zéfiro, das Obras Completas do nosso patrono está prestes a alcançar o décimo volume publicado. Capelas Imperfeitas – Dispersos e Inéditos será lançado no próximo mês de Dezembro, em Lisboa, em local e data a anunciar muito em breve.

Esta caminhada só foi possível devido à conjugação de muitos esforços, sendo da mais elementar justiça realçar o dedicado empenhamento da família de António Telmo, a quem saudamos na pessoa de Maria Antónia Vitorino, e da Zéfiro, na pessoa do seu editor, Alexandre Gabriel.

Ao longo destes anos, foram inúmeras as iniciativas públicas que organizámos ou a que nos associámos, no vasto campo da chamada Escola Portuense, alargando o nosso raio de alcance a figuras como Agostinho da Silva, Pascoaes ou António Quadros, entre outras.  

 Deste ponto de vista, 2018 foi um ano de contenção, com maior enfoque no plano do estudo e da edição do espólio de António Telmo. 2019 deverá assinalar o regresso do Projecto, directa ou indirectamente, a uma maior actividade pública. Assim, logo em Janeiro, estaremos empenhados no lançamento do novo número da revista A IDEIA, em boa parte dedicado a Agostinho da Silva, num extenso dossier coordenado por António Cândido Franco, Pedro Martins e Risoleta C. Pinto Pedro. Mas outras actividades estão, desde já, a ser preparadas.

Com a maior parte da obra de António Telmo hoje, de novo e como nunca, acessível ao público, parece ter chegado o tempo dos leitores, os mesmos que têm feito desta página um surpreendente sucesso crescente e solidamente sustentado.   

INÉDITOS. 78

10-11-2018 15:27

SAMPAIO BRUNO

 

Na primeira metade do século XX, e num misterioso acordo com a implantação da República, a literatura portuguesa, (Brasil Mental)………………………., acorda para a verdadeira vida do Espírito e, pela primeira vez, à voz dos poetas pôde responder a palavra de uma filosofia consciente de si, que não permitiu que tudo se perdesse nas mornas cinzas da Cultura. Ninguém, hoje, nega o incomparável valor de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e José Régio, mas há ainda quem queira fazer esquecer os nomes de Leonardo Coimbra, José Marinho e Álvaro Ribeiro. O pecado da filosofia portuguesa foi o de pensar e ser pensada à luz de uma nova ideia de Deus.

A teologia constituiu sempre um domínio que se tinha por intocável. As grandes alterações que, na Europa, sofreram a cosmologia e a antropologia tiveram alguma influência entre nós nos séculos XVIII e XIX, mas, em vez de levarem à formação de uma nova ideia de Deus, prepararam o materialismo ateu e o positivismo católico pelo poder prestigioso da Ciência. Propagandistas das teses científicas e apologetas dos dogmas religiosos defrontaram-se, de início, ferozmente; ajustaram, depois, um pacto de não-agressão; a teologia oficial cedeu, por fim, ao prestígio da Ciência, amoldando-se, modificando-se e degenerando.

Não foi uma nova ideia de Deus que se viu nascer, mas a velha ideia, obrigada a justificar-se perante a antropologia e a cosmologia modernas, deixou que se interpretasse a Revelação de Moisés e a Revelação de Cristo – a Criação do homem e do mundo e a Encarnação de Deus no homem e no mundo –, pelas noções científicas do evolucionismo darwinista, rapidamente fixado pela lei positivista dos três estados. Todos se entenderam no domínio do pensamento e o resultado deste entendimento teve, já nos nossos dias, a sua melhor expressão nos escritos do padre arqueólogo Teillard de Chardin.

Álvaro Ribeiro deu Sampaio Bruno como o fundador da filosofia portuguesa. Com efeito, sem ele não se teria produzido tal qual foi esse prodigioso movimento da Renascença Portuguesa, em que a Águia aparece a simbolizar “a República dos homens no reino de Deus”.

Mais claramente, no seu principal livro, estabelece, pela angelogia, a autonomia e a liberdade do pensamento. A Revelação não terá sido dada uma vez por todas, mas constitui um processo incessante, embora intermitente porque condicionado pela resistência da matéria que só lenta e laboriosamente, pelos sucessivos impulsos, vai recordando a sua origem no Espírito. Sampaio Bruno interpreta a palavra “génio” no sentido que os gregos davam a “daimon” e os persas a “anjo” e é o que lhe permite explicar os descobrimentos feitos pelos homens de génio na perspectiva de uma “demonologia” ou “angelogia” em que a existência de um mundo intermediário ou medianeiro entre a Matéria e o Espírito estabelece a tríade em que se dissolvem as várias espécies de dualismo e de monismo idealistas.

Se o poeta e o filósofo de génio são assistidos por um anjo pela acção de quem “a ideia explode na consciência” o indivíduo fica garantido no seu labor intelectual, sem ter que recorrer a uma autoridade exterior, desde que a observação e a experimentação venham confirmar a verdade dessa ideia. Sem a noção de um mundo intermediário ou caímos num monismo panteísta, como o de Espinosa, em que tudo é Deus, ou num dualismo, como o de Amorim Viana, em que o mundo é dado como Criação do Nada distinto do seu Criador e estabelecido como um sistema mecânico perfeito, cujas leis nem o seu próprio Criador poderá vir alterar.

         

António Telmo

INÉDITOS. 77

21-08-2018 01:24

Para os Diálogos do Mês de Outubro, obra inédita e inacabada que integrará as Capelas Imperfeitas, Volume X das suas Obras Completas, escreveu António Telmo mais do que uma “Explicação”. Exercício do maior interesse para o leitor será comparar a que hoje lhe revelamos, e que parece ter sido a última versão, com essa outra, inicial, que já em 9 de Outubro de 2016 antecipáramos.

 

Explicação das conversas

 

Se os investigadores do obscuro vierem um dia a interessar-se por estas “conversas” não cairão, decerto, no erro de identificar os três interlocutores com Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, juntando um apelido de família a cada um dos nomes individuais para formar os nomes dos três famosos filósofos que, de facto, foram decisivos para a orientação espiritual do autor. O autor sou eu, quem neste momento escreve, António Telmo no catálogo dos literatos. Na verdade, posso considerar-me discípulo de Álvaro Ribeiro, convivente admirativo de José Marinho e um dos factores da tradição filosófica e iniciática que Leonardo Coimbra superiormente conduziu. As “conversas” reflectem essa múltipla sabedoria, mas não há coincidência entre os três interlocutores e os três filósofos, porque as teses e os teoremas passam livremente de uns para os outros, de modo a sedimentar pelo movimento a síntese dos pontos de vista, igualmente viventes, que constituem a essência manifestada da minha vida espiritual. Deve, no entanto, dizer-se que se alguém quiser conhecer o pensamento oculto de Álvaro Ribeiro tem nestas conversas indicadas as suas direcções principais e poderá, a partir dessas indicações, desvendar no maior pensador da actualidade as relações, escondidas nos seus livros, entre a filosofia e a cabala.

O título Filosofia e Cabala nasceu de uma sugestão que ele me fez em 1971 numa carta que me escreveu para Beja[1], onde então me encontrava em exílio, leccionando numa Escola Comercial e Industrial. Vale a pena citar o parágrafo que lança a sugestão.

«Ser-nos-ia agradável que António Telmo viesse a Lisboa falar sobre “Filosofia e Cabala”. Sei que hoje conhece bem esse assunto, especialmente na feição sefardi. Lembro-me das nossas conversas sobre interpretação cabalista das doutrinas de Freud, sobre a polaridade dos sexos e a mediação da libido, o prazer e a morte. Ultimamente, ao retocar nuns textos de Kant, verifiquei que a psicanálise descobre nos estudos do grande filósofo a profundidade do subconsciente judeu. Não deverá ser novidade para a erudição alemã. Certo é, porém, que o pietismo cristão em que o filósofo foi educado pela mãe admite a tradução para o hassidismo polaco. A leitura da obra de Martin Buber permite a fertilidade da comparação.

Kant dá, efectivamente, expressão laica a certas teses do judaísmo. Fichte, Schelling e Hegel são mais goim, pagãos ou cristãos. É útil rever e reler a obra de Kant.» 

            Acontece que, na altura, eu não conhecia a obra de Kant e Álvaro Ribeiro sabia isso. Porque me aconselha então a rever e a reler Kant?

            Tudo se torna claro se virmos em Kant uma cifra do próprio Álvaro Ribeiro. Nesse caso, a obra do meu Mestre esconderá, igualmente, uma profundidade: a do subconsciente judeu. Não, porém, de expressão no hassidismo polaco, mas no sefardismo, a que o início da carta alude, sobretudo ali onde esse sefardismo elabora, pela Cabala, a doutrina da polaridade dos sexos. Todos sabemos que tal doutrina é central na obra de Álvaro Ribeiro. O paralelismo que permite cifrar o nome de Álvaro Ribeiro no nome de Kant é o da educação maternal dos dois filósofos. A mãe de Kant educou-o no pietismo cristão que «admite a tradução para o hassidismo polaco». A mãe de Álvaro Ribeiro educou o filho na religião católica que admitirá a tradução para o cabalismo sefardi. Com efeito, n’A Literatura de José Régio, recorda agradecido «quanto a sua mãe deve na formação dos seus melhores sentimentos e, neófito, ter aprendido as primeiras orações cristãs, para saber a existência de Deus».

A íntima relação entre a Igreja cristã e a Sinagoga judaica só pode ser conhecida através da Cabala. Foi neste sentido que, nos primeiros sete anos de convívio, ele me orientou. Eu vinha da habitual decepção nos jovens inteligentes que, tendo recebido como a maioria dos adolescentes em Portugal, educação católica abandonaram a prática religiosa porque o ensino dos padres contrapunha a inquietação amorosa, apontada como a fonte de todo o pecado, ao sagrado desejo de desvendar os mistérios divinos. Álvaro Ribeiro foi-me abrindo os olhos para a íntima relação entre o amor e o conhecimento, mostrando-me, ao mesmo tempo, que nos dogmas e sacramentos da Igreja Católica se esconde uma doutrina oculta, análoga daquela que a Cabala desvenda pela hermenêutica literal e numérica do Pentateuco e de outros livros do Antigo Testamento, com relevância para o Cântico dos Cânticos. Insistia muito então no facto de o Sacramento do Matrimónio, considerado por São Paulo o magnum sacramentum, ter como ministros não os sacerdotes solteiros mas os próprios nubentes. Aquele e este ensino podem ser seguidos n’A Arte de Filosofar e no prefácio à Verdade e Amor[2] de Soloviev.

Eis o caminho para uma síntese entre as duas religiões. Mais obscuro é o papel da terceira religião semita – a muçulmana. Mais obscuro o papel e mais difíceis os caminhos de conciliação. O leitor atento das conversas do Vale do Infante tem, no entanto, todos os dados que lhe permitem ver claro neste assunto, se souber juntar-lhes a nota, agora, fornecida sobre as relações do pietismo cristão com o hassidismo polaco. A gnoseologia de Kant com o Espaço e o Tempo como formações da nossa sensitividade põe o Homem no centro do Universo; assim no sufismo de um Ibn Arabi o “conhece-te a ti mesmo” condiciona e presume todo o outro conhecimento; assim Cristo aparece nesse mesmo sufismo como Adão redimido. Fácil é agora ver quem, em Portugal, assume a difusão desta doutrina.

Álvaro Ribeiro enaltece o valor filosófico do “conhece-te a ti mesmo”, não por via sufi, mas por via sofista, isto é, através de Anaxágoras[3]. O perigo para ele, donde pode vir o desentendimento, é o de considerar o homem sem a mulher que o completa e complementa. Sem o amor, não há verdadeiro “conhecimento de si próprio”.

Em José se alude, mas somente se alude, a José Marinho. Através dele, pude ter acesso a uma semi-iniciação sufi, cujos trâmites internos passaram despercebidos à maioria dos meus conviventes. O que então me foi dado ver entrou em conflito com o ensino aristotélico de Álvaro Ribeiro. O conhecimento pela sensação, isto é, a ideia de que o espírito só é acessível à sensação, ideia que Platão desfaz no Teeteto e no Sofista, aparecia-me como um bom antídoto contra aquilo que eu designara na Arte Poética por filosofia especulativa, abrindo-me, no domínio da experiência, insuspeitados caminhos. Ele situava-se e operava na relação do pensamento com o ser, subestimada por Álvaro Ribeiro que lhe preferia a relação do pensamento com a acção.

É, todavia, de notar que o autor d’A Razão Animada não defende um racionalismo puro, isto é, que confie inteiramente na razão do homem ou, até, como Leibniz ou Hegel, na razão de Deus. A razão é, para Álvaro Ribeiro, o espírito do homem, porque, entre todos os seres que povoam o Universo, só ele dispõe da palavra; mas sem as notícias que lhe são dadas pela intuição, sem as audácias da experiência que promove a viagem por mundos antes não conhecidos, sem a imaginação que desmatematiza a palavra e a torna mágica e operativa, seria uma pobre e infecunda razão, ilusoriamente contente de si, rolando sobre si própria indefinidamente. Daqui, a possibilidade de diálogo com os poetas e os místicos que, descontentes com o que há de humano, procuram as vias angélicas, – luciferinas ou querubínicas.           

 

António Telmo



[1] N. do O. – Há aqui um lapso de António Telmo. Na realidade, em 1971 o filósofo encontra-se a viver e a trabalhar em Sesimbra.

[2] N. do O. – Em rigor, A Verdade do Amor.

[3] N. do O. – Há lapso de António Telmo, que, por certo, pretendia referir-se a Protágoras.

 

EDITORIAL. 17

21-08-2018 01:16

Um coração aventuroso

 

Faz hoje oito anos que António Telmo partiu para a grande viagem. Procuramos continuar a honrar a sua memória, que sobretudo se nos impõe pela presença discreta, mas soberana, das palavras que o filósofo escreveu, cumprindo sempre o imperativo ético de uma sobriedade que, sem concessões, se impõe pela dedicação constante ao que mais importa. Mas seguindo sempre a estrela que lhe iluminava o caminho do seu coração aventuroso, para aqui se sugerir a obra de um dos escritores que ele mais admirava: Ernst Jünger.

Quase toda a sua obra publicada em vida, a par de um número apreciável de escritos deixados inéditos, se encontra hoje na maioria das livrarias de Portugal. Mas o espólio do filósofo da razão poética continua a reservar-nos surpresas. É o caso dos Diálogos do Mês de Outubro, um livro inacabado, mas que irá surgir reconstituído, de modo a aproximá-lo, tanto quanto possível, do esplendor que nele se vislumbra, em Capelas Imperfeitas, o Volume X das suas Obras Completas, uma recolha de inéditos e dispersos que sairá a lume, no final do ano em curso, com a proverbial chancela da Zéfiro, pela mão entusiasta e competente do editor Alexandre Gabriel. Antes disso, um significativo excerto será dado à estampa no número 22 da revista NOVA ÁGUIA, proficientemente dirigida por Renato Epifânio.

Que se saiba, os Diálogos do Mês de Outubro, compostos na década de 80 para uma versão prematura de Filosofia e Kabbalah, representam a primeira grande tentativa do filósofo de desenvolver o diálogo como modalidade de escrita, num ensejo de que só nos últimos anos da sua criação literária viriam os seus leitores a colher frutos dos mais sedutores. É, também, uma revisitação, por questionamento, esclarecimento e aprofundamento, dos problemas e dos temas, das teses e dos teoremas já estabelecidos em livros anteriores, numa sorte de polifónico drama estático em que se cruzam as vozes de Leonardo/Eudoro, Álvaro e Marinho.

Como nota final, uma palavra de imensa gratidão para a família de António Telmo, e em particular para Maria Antónia Vitorino, dedicada e incansável zeladora do seu legado que faz com que tudo seja possível.

UNIVERSO TÉLMICO. 61

29-07-2018 16:15
 
A transdisciplinaridade e a falta de ventilação académica
 
Eduardo Aroso
 
 

O pensamento sistémico, «tentativa de ordenamento da complexidade» (B. Nicolescu), também ele no seio da física quântica, só é possível por uma espécie de salto qualitativo do conhecimento (ou um outro conhecimento) também designado por Transdisciplinaridade, ignorado por uns tantos e combatido por outros, como convém ao “status quo” arreigado ainda nos muros da reforma pombalina que, diga-se, no seu tempo e ainda posteriormente, foi muito mais do que reformadora. Alguns recentes acontecimentos arrivistas sobre a História de Portugal, à volta do Museu dos Descobrimentos ou da figura do Pe António Vieira, fazem pensar no que pouco se tem notado: da nossa excepcional posição de nação de, mesmo perante pressões várias e o panorama mundial que nos entra diariamente olhos dentro, poder afirmar e mostrar a nossa Condição e Destino (José Marinho). Afirmar, porque mostrar deve pressupor afirmação convincente. Enquanto fundamento cultural estruturante, a possibilidade do pensamento sistémico português, encontra hoje mais condições para tal – ou não tivesse A. Toynbee dado um bom contributo ainda que sintético – tomando o conhecimento da História Universal. Comparar, medir, avaliar, sempre foi a atitude do ser humano na sua relatividade de fazer juízos e teses.

O traço singular do nosso Povo (grafo com maiúscula para distinguir de votantes!), que alguns tentam rebaixar ou ver de um modo difuso, Francisco da Cunha Leão na sua obra chamou-lhe O Enigma Português e Álvaro Ribeiro o explicitou admiravelmente em A Razão Animada. Ao contrário do que possa parecer, temos hoje um palco bem mais amplo para desfazer equívocos de “actores” que entram em cena, não sabendo qual o papel que estão a representar, mesmo que tragam o guião de cor! Esse caminho de desfazer equívocos já foi aberto há muito por figuras várias que hoje, que ao invés de uma devida atitude hermenêutica, como cabe ao saber de nível superior, são completamente ignorados; um atitude que se inscreve aliás num pérfido e mais alargado contexto, como se nota nos alinhamentos ditos informativos (!) e programas culturais, tidos como prioritários sem qualquer fundamento prioritário.

O 1º Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (desconheço se outro aconteceu) teve lugar em Novembro de 1994, em Portugal (Arrábida), presidido por figuras como Edgar Morin, Lima de Freitas e Basarab Nicolescu. Dele saiu o Manifesto da Transdisciplinaridade, o qual, ao contrário do alcance que teve por exemplo a afirmação heliocêntrica de Copérnico e Galileu, não tem movido consciências e docências entre nós. No entanto… ela (Transdisciplinaridade) move-se… creio que, mais ou menos solitariamente, pelo menos no CTEC da Universidade Fernando Pessoa. Falta povoar a nação de gente, como queria o tal rei português. Mas hoje também há falta de povoar certas ideias e ideais. A clássica tríade hegeliana (tese, antítese e síntese) se aplicada ao mundo actual, já não pode resolver-se pela síntese, se esta não for colocada no nível transdisciplinar, saindo do mesmo plano horizontal para se colocar (iniciar)  acima, dado que uma síntese pode ser começo de outra tese. Neste pouco oxigenado estado de coisas, por que razão é que nos corredores académicos e outros não há ventilação do pensamento sistémico e transdisciplinar, não o tomando por interdisciplinaridade e pluridisciplinaridade? Já não é possível fugir «ao dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade». Quando Almeida Garrett disse «das academias, livrai-nos Senhor!», por certo que não o fez ignorando o analfabetismo primário do seu tempo e que urgia dissipar, mas do que infelizmente ainda hoje existe no panorama do presente de costela jesuítica por um lado e marxista por outro.

27-7-2018       
 

INÉDITOS. 76

29-07-2018 16:08

Sobre Álvaro Ribeiro. 01

 

O conceito de filosofia como viagem é muito difícil. O pensamento vai de livro em livro como de porto em porto, aquieta-se por momentos (dias, meses, anos) para de novo partir. Agora é o deserto das águas e a contemplação das estrelas, tomando rumo na alma para novas descobertas.

Nós que lemos um filósofo da viagem procuramos em vão um sistema, mas encontramos mapas e roteiros, instrumentos para marear e, por vezes, um diário de bordo. Tal é o caso de Álvaro Ribeiro, da sua filosofia itinerante, itinerante dum longo percurso que, do primeiro livro para o último, mede precisamente quarenta anos.

Muitas vezes o ouvimos lamentar ironicamente que o crucificado de um certo culto religioso nunca mais morresse, ele que reconheceu em Jesus Cristo o Supremo Filósofo, vítima, como todos os filósofos, da hostilidade e do ódio dos contemporâneos. Insurgiu-se contra Fernando Pessoa por dizer que «nunca teve biblioteca». Nos Evangelhos, por mais de uma vez mostra conhecer perfeita e profundamente os vários livros do Antigo Testamento. Aquele que disse ser o Alfa e o Ómega, o Alef e o Tau, a primeira e a última letra do alfabeto parece, com esse dizer, ter inspirado o nosso filósofo quando escreveu que “não acreditar em Deus é ser analfabeto”.

Quarenta anos andou Moisés pelo deserto, conduzindo o seu povo para longe do Egipto em busca da Terra Prometida. O Egipto é a terra do culto dos mortos, mumificados e guardados na pedra. A Igreja Católica e a Ordem Maçónica estão ambas edificadas sobre a pedra. Álvaro Ribeiro foi educado num colégio de dominicanos, ao qual se refere nas Memórias de um Letrado como a um degredo. Foi, mais tarde, recebido na Maçonaria, donde se evade, ferido por várias humilhações. Todos nós temos o nosso Egipto, a terra dos sábios que conhecem o segredo da morte e da vida.

Com excepção de José Régio, que encheu a sua casa de Portalegre de imagens do Crucificado, ou outros três poetas da tétrada inspirada – Pascoaes, Pessoa e Junqueiro – recordaram repetidamente e por vários modos que o Natal e a Ressurreição são os dois momentos que a tradição portuguesa enaltece. Para Castela a tragédia do Calvário, A Agonia do Cristianismo e Do Sentimento Trágico da Vida, dois livros de Unamuno. O sentimento da Majestade e da Glória divinas é tão vivo no português que os poetas e filósofos de Portugal não suportam nem aceitam os ultrajes que Deus parece receber na figura humana de Cristo. O menino Deus que vem salvar o mundo e Deus Homem que se ergue do túmulo, vencendo o peso das pedras que pareciam encerrá-lo para sempre compõem-se nesse sentimento, no qual a maternidade e a paternidade, bem distintas e caracterizadas, como no pensamento de Álvaro Ribeiro, marcam os dois momentos da epifania.

Os quarenta anos de labor criptográfico que decorrem do primeiro livro para o último do filósofo correspondem a uma marcha no deserto da alma até à visão da Terra Prometida. Morreu sem ter assistido ao levantar da Pátria que sonhou nos seus livros, sem ver realizadas as suas propostas no ensino, na política, na filosofia. Ao traçar o seu perfil pelo de Moisés, não esquecemos a analogia do povo português com o povo judaico, a semelhança das suas reacções para com o homem que lhe apontou os caminhos que libertam da servidão.

 

António Telmo

 

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