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«OS MEUS PREFÁCIOS». 15

03-06-2018 11:54

Prefácio, com texto adicional na contracapa, a A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, de Rodrigo Sobral Cunha[1]

 

Neste livro, Rodrigo Cunha tirou uma história de outra história como quem tirasse uma pérola do seu engaste de ouro. Talvez nada mais esteja hoje ao nosso alcance do que tirar histórias de histórias. Porém, ao fazê-lo, se na primeira história há verdade e a soubermos ver, continuamos a engendrar segundo o espírito e poderemos, talvez, olhar o que está para além de nós. Não será este o caso de Rodrigo Cunha?

A História Verdadeira de Aladino, compreendida através do que seu autor nos diz dos liliputianos, anões e gigantes, à luz do raio, que lhe coube, da lâmpada maravilhosa, não virá convencer os incrédulos, desta, tão actual, impressionante profecia:

 

«Sobre os traços de Seth nascerá o último ser engendrado do género humano. Ele será portador dos seus segredos. Depois, não haverá mais filhos entre os humanos, porque ele é o Selo dos engendrados.

Com ele, nascerá uma irmã. Ela virá ao mundo antes dele, e ele depois dela, a sua cabeça junto aos seus pés.

O lugar desse nascimento será a China e a sua língua será a dos povos deste país.

Em seguida, a esterilidade espalhar-se-á entre os homens; as uniões sem progénie multiplicar-se-ão.

Chamará os homens para Deus, mas ninguém o ouvirá.

Quando Deus, o Altíssimo, o fizer morrer e Ele tenha feito morrer os crentes do seu tempo, aqueles que restarem serão como bestas, sem consideração pelo que é lícito e pelo que não o é. Agirão governados pela natureza, dominados por instintos que nem o Intelecto nem a Lei controlarão. É sobre eles que se levantará a Hora.»

 

Segundo estas palavras de Ibn’Arabî, o último descendente de Seth nascerá, como vem de ler-se, na China. O mágico negro foi lá que adivinhou Aladino e a sua lâmpada e veio de extremo a extremo da terra até ao Império do Meio, para, uma vez de posse da lâmpada, poder dominar o mundo, fazer dele o seu globo, uma farsa macaqueada do Quinto Império. No momento exacto em que estava prestes a consegui-lo, uma criança negou-lhe esse poder. Aladino não lhe entregou a lâmpada. Pouco foi preciso depois para que nesse mesmo mundo, que é o nosso, reinasse a Bondade e a Beleza.

E também a Verdade, porque tudo será um Milagre da Luz.

É essa mesma luz que perpassa, remota, nas páginas admiráveis em que Rodrigo pretende contar-nos a Verdadeira História de Aladino.

 

Texto publicado na contracapa do livro

 

«Pediu-me o autor de A Verdadeira História de Aladino que a fizesse preceder de umas palavras mágicas capazes de abrirem uma Introdução, isto é, uma Porta ou Janela para aqueles que não sejam capazes de entrar pelos telhados. A verdade é que, depois, a lermos a essa história tirada de outra história, sentimo-nos como Aladino nos jardins subterrâneos e o autor aparece-nos como o Mágico Africano, pois ao pôr no fecho dela a palavra exclamativa “Continua!” faz o equivalente ao que aquele fez ao colocar de novo a pedra para que o jovem jamais de lá pudesse sair. Mas as palavras do autor têm a qualidade de um ritmo superior e funcionam como o anel de poder e de guarda que o Mestre deu ao discípulo e assim abre-se em nós a perspectiva de continuar a história maravilhosa dentro da nossa alma, pois o “Continua!” é uma pedra que se abre, uma pedra que se levanta, fazendo com que nos sintamos impregnados do santo desejo de encontrarmos nos subterrâneos dessa alma a lâmpada maravilhosa.»

 

António Telmo



[1] Nota do Editor – Publicado originalmente em Rodrigo Sobral Cunha, A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, Sintra, Zéfiro, 2009, pp. 7-8.


 

 

 

UNIVERSO TÉLMICO. 59

03-06-2018 11:38

Com transcrição, organização, introdução e notas de Pedro Martins, nove cartas inéditas de Agostinho da Silva para Joel Serrão serão publicadas no próximo número da revista de cultura libertária A IDEIA, em boa parte dedicado à figura do Estranhíssimo Colosso, num vastíssimo dossier com coordenação editorial de António Cândido Franco, Pedro Martins, Risoleta C. Pinto Pedro e Rui Lopo. Em pré-publicação, adiantamos hoje aos nossos leitores uma dessas missivas.

 

Agostinho da Silva[1]

8.12.75

 

Caríssimo Dr. Joel

Desta vez, com muita pena minha, não houve “Conversação da Quintola”[2], porque me foi um fim-de-semana muito confuso, e estou a ver que o outro próximo vai na mesma. De algum modo me consolei escrevendo a nosso Ramón Piñeiro[3] e assegurando-lhe que o Amigo não esquece a Galiza e seu grande futuro papel. Leu o artigo do Oliveira Marques[4], no Expresso de sábado? Não fala nisso, mas claro que Santiago é a chave da questão: a maneira de “pôr o guizo ao gato”. Um grande abraço do Agostinho



[1] Nome impresso em timbre.

[2] Referência à residência de Joel Serrão na Quintola de Santana, na freguesia rural do concelho de Sesimbra. Por esta menção se comprova enfim o que em Agostinho da Silva em Sesimbra, à falta de testemunhos ou documentos, somente se aventara, ainda que com um elevado grau de probabilidade: o convívio sesimbrense de Agostinho da Silva e Joel Serrão.

[3] Filósofo, ensaísta e político galego, nascido em 1915 e que viria a falecer em 1990, em Santiago de Compostela. Acérrimo defensor da autonomia da Galiza e da afirmação dos valores linguísticos e culturais desta “nacionalidade histórica”, a sua amizade com Agostinho, que por certo assumiu feição convivial quando o português se deslocava à Galiza, evidencia-se também no plano da correspondência epistolar – cfr. também, infra, Carta V – e deixa-se ainda documentar na biblioteca pessoal do filósofo português, onde, de Piñeiro, se encontra o livro Filosofia da Saudade, galáxia ensaio e investigación, Vigo, Editorial Galaxia, 1984, com a seguinte dedicatória manuscrita: Para o Prof. Agostinho da Silva, en homenaxe de admiración sincera e de amistade certa de Ramón Piñeiro, Campostela, 4-X-84.

[4] António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques. Nasceu no Estoril, em 1933, vindo a falecer em Lisboa, em 23 de Janeiro de 2007. Historiador, professor universitário e maçon, foi colega de Joel Serrão no corpo docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

 

VOZ PASSIVA. 83

13-05-2018 13:36

Para uma reintegração[1]

Dalila Pereira da Costa

 

Até fins do século XV, houve em Portugal como em toda a Península Ibérica, a partilha na textura cultural e civilizacional, da sabedoria contida e transmitida nas três etnias e tradições de sua humanidade, cristã, judaica e islâmica: como tesouro da Tradição, única e primordial, sob três formas e seus símbolos específicos. Ou como três ramos duma mesma árvore comum onde corre a mesma seiva vivificante. Com o banimento do ramo judaico e islâmico sob o radicalismo da elite visigótica católica, uma cisão e esquecimento dessa Tradição se deu, que nestes quatro séculos se tem mostrado destrutiva nas suas consequências: perda da antiga harmonia dessa humanidade peninsular e nela, da portuguesa e sua mensagem e missão no mundo. Será esta catástrofe que Américo Castro analisou e declarou nos seus livros, tal o De La Edade Conflictiva.     

Entre nós, António Telmo vai realizando o acto de unir as três partes desse tesouro perdido, soterrado ou desbaratado; ou unir de novo os três ramos dum só tronco comum. Procurar, aqui e além ou desenterrar e unir, pedaço a pedaço os fragmentos desse todo há muito separado. Trabalho de hermenêutica, mais do que exegese; e que no seu fim será a tentativa de procurar a palavra perdida, na secretude do seu silêncio. Depois desses longos séculos de traição de si mesma, na busca de modelos ou encarnações alheias e destrutivas, a alma portuguesa tem, num filho da sua antiga Lusitânia, o mistagogo tentando que ela se reencontre na sua identidade, una e tripartida: a que lhe permitiu no seu passado sua plena realização ou cumprimento do seu dever, como mandato divino, sobre a terra.

Através da história, simbólica, língua, poesia, história portuguesa, os livros de António Telmo, como aquele que justamente acaba de surgir, Filosofia e Kabbalah, serão, e pretenderão ser, como chamadas, apelos de resposta inadiável, a essa alma extraviada, para um seu acto de «conhece-te a ti mesmo» - tal o dístico do frontão do templo de Delfos, ou as palavras do mestrado de Sócrates: como primeiro e necessário passo de todo o caminho de iniciação ou sabedoria: e actuante no mundo como missão futura.

Para esse apelo, houve uma prévia leitura do oculto, nas diversas manifestações dessa alma como sua vontade, projecto, manifestado, ou falhado nos seus tempos de sono, ou fuga do real.

 

Porto, 30 Março 1990             



[1] Publicado em Arca do Verbo, Ano III – 1.ª Série, n.º 110, in O Setubalense, de 20 de Fevereiro de 1991.

 

VOZ PASSIVA. 82

13-05-2018 13:09

A palavra perdida[1]

Afonso Botelho

 

Foi Álvaro Ribeiro – sabemo-lo bem – quem se preocupou em acentuar que o positivismo não se constituiu em escola filosófica.

A minha geração, que comprovou a função intermédia deste movimento, não terá ainda hoje dificuldade em verificar que a sua intervenção no desenvolvimento doutrinário, na edificação institucional, na argumentação filosófica persiste em se insinuar no pensamento como uma lei redutora, tal qual a que Leonardo Coimbra definiu por coisificação.    

Se o positivismo possui este poder de infiltração e persistência não foram suficientes os esforços os nossos Mestres nem o respaldo da doutrina criacionista para libertar o pensamento da acção entrópica. Aliás, a intervenção do pensamento essencialmente positivista faz-se sentir no acto poético de pensar e na própria raiz da livre criação.

Ora na refutação das teses e normas positivistas, sistematicamente feita de Leonardo Coimbra ao movimento do 57, só a obra superiormente inteligente de António Telmo erradica aquela perversa acção anti-poética. Com efeito, desde 1963 e com a Arte Poética que este filósofo percorre os caminhos sempre iluminados da imaginação e da intuição na procura das energias espirituais transmitindo realidade àquelas coisas «que o positivismo relegou para o campo da superstição».

O pensamento adormecido dos portugueses necessitava deste despertar do sono plúmbeo de modo a reconhecer o que lhe tem estado oculto nas formas históricas, na génese da língua, nos sinais da religião e na própria tradição filosófica.

Ao longo de trinta anos António Telmo tem pensado por nós e para nós, desvelando o secreto em tudo o que esquecidamente tomávamos apenas por oculto.

    



[1] Publicado em Arca do Verbo, Ano III – 1.ª Série, n.º 110, in O Setubalense, de 20 de Fevereiro de 1991.

 

INÉDITOS. 75

06-05-2018 18:40

Uma prancha do grau de Aprendiz[1]

 

À partida, para que as minhas palavras fiquem bem claras nesta Loja perfeitamente iluminada, devo dizer que não pretendo com elas ensinar o que quer que seja, pelo que as afirmações que pareça fazer são, na realidade, proposições ou propostas, mais dirigidas a mim próprio do que a quem me queira ouvir.

No dia em que fui recebido na Loja Quinto Império e em sessões ulteriores, vieram do Venerável Mestre e de outros respeitáveis Mestres palavras que destacavam uma sabedoria que me é atribuída, com maior ou menor verdade, só porque sou autor de alguns livros em que procurei dar da língua, da literatura e da história portuguesas uma nova visão à luz do esoterismo. Tal sabedoria, dado que seja lícito designar assim o que é um mero saber teórico, deixei-a lá fora no momento em que me despojei de todos os metais. Ela foi-me restituída, mas para que faça dela um uso diferente do que fazia antes.

E, dentro desse uso, está a atenção que devo prestar ao que se passa na Loja, de modo a tomar perfeita consciência do que é o meu lugar, um lugar situado ao Norte e que devo compreender pelas seguintes palavras de Dante, no primeiro canto do Purgatório: «Ó gentes que habitais o Norte, como lamento a vossa viuvez por não poderdes contemplar as estrelas flamejantes do Cruzeiro do Sul.»

É que o meu saber, se algum tenho e se alguma coisa vale, foi todo adquirido lá fora, no mundo profano, e aqui só terá algum sentido no dia em que o saiba transformar num saber iniciático, o que equivale a uma completa transubstanciação da sua natureza. Tal só é possível ascendendo pelos degraus da escada que conduz ao Templo. Segundo me parece e se me afigura certo, neste lugar onde por entre trevas imagino a luz total, as iniciações que abrem acesso aos superiores graus conferem pelo rito em cada um deles uma qualidade que nenhuma sabedoria profana pode superar, até porque, como disse, a sabedoria que lhe corresponde é de uma natureza inteiramente diferente da que podemos adquirir por caminhos profanos. Se assim não fosse, nada do que aqui se passa teria qualquer sentido.

Isto significa que o saber que alguém tenha adquirido por esses caminhos lá de fora, como é o caso, para dar exemplos, de um professor universitário ou de um cientista laureado, não só nada tem que ver com o que aqui se aprende como constitui até um impedimento, por ser uma falsa luz, à iluminação pela luz verdadeira. Para o conseguir, a alma teve de se adaptar àquelas condições sem as quais não se trepa no mundo exterior social, condições sobretudo de ordem mental, onde se criam vícios do entendimento muitas vezes difíceis de extirpar. Nessa adaptação a alma sofre múltiplas deformações, uma das quais é a convicção de que está mais apta do que outras, menos cultas, de compreender o mundo misterioso em que foi recebido. Ora todos nós sabemos que para esta recepção se foi previamente reduzido à condição de nem nu nem vestido. A iniciação, pelas viagens simbólicas, operou nova redução, que teve por resultado pôr a alma do recipiendário num estado comparável ao da matéria pura e indiferenciada, que a fizesse sensível à influência transcendente da luz. Assim um espelho deve oferecer uma superfície lisa e polida para que nele se forme a imagem que a luz transporta.

Como observou o Venerável Mestre que presidiu no Oriente à minha iniciação, aos graus que se realizam na ordem do ser e às funções que se assumem na ordem do aparecer não é necessário que corresponda na ordem mental qualquer distinção ou privilégio, pois, ensinava ele, aquilo de que se trata é de conservar e de transmitir uma influência espiritual e de tornar presentes os grandes significados pelos quais se manifesta a sabedoria do Grande Arquitecto do Universo. Perante esta presença supranormal o que é que vale o nosso demasiado humano saber? Perante ela não somos todos demasiado humanos?

Eu observo do Norte o “quadrado longo”, que nos situa aqui, distribuindo-nos por graus e funções. Vejo que, no domínio das funções, o Venerável Mestre, o Irmão Secretário, o Irmão Tesoureiro e os dois primeiros Vigilantes, compõem a figura do pentagrama e que o Irmão Orador, pela palavra, e o Irmão Mestre de Cerimónias, pelo movimento do corpo, criam as ligações e as correntes que tornam esse pentagrama um símbolo vivente. Verifico que os Aprendizes estão colocados no Norte, os Companheiros no Sul e os Mestres no Oriente. Os dois Vigilantes, situados a ocidente, fazem, enquanto guardiões, a cobertura da Loja por onde ela poderia estar sujeita às influências profanas e dirigem o trabalho dos obreiros menores.

O indivíduo que assume transitoriamente esta ou aquela função é comparável ao actor que desempenha um papel no teatro. Desde que represente bem esse papel, para o que evidentemente terá de ter certas qualidades excepcionais, nele veremos Hamlet ou o Rei Lear e a carga de significação que estas personagens transportam nada tem que ver com a qualidade do indivíduo que lhes dá forma.

No catecismo para o grau de Aprendiz, não está dito que os três primeiros degraus, que o neófito teve de subir durante a iniciação, correspondem à Poesia, à Música e à Arte do Desenho como as artes que ele deve praticar para se poder libertar das escabrosidades da pedra bruta que arrastou durante a vida enquanto profano. Não está dito, mas julgo ser bom que ele o saiba, sem o que o seu trabalho de desbaste não se pode efectuar eficazmente.

Fazer versos, compor músicas ou tocá-las e desenhar são actividades ao alcance de qualquer profano que tenha aptidão para tal. Também aqui não devemos confundir o que se ensina nas escolas públicas com o que constitui a intimidade dos nossos mistérios. Os exemplos de homens como Teixeira de Pascoaes, Wolfgang Mozart e Albrecht Dürer não devem enganar-nos. Por este ou aquele modo estiveram ligados a uma organização iniciática, sabendo-se para os exemplos citados que essa organização era a Maçonaria. A poesia de Fernando Pessoa não se explica em uma relação análoga e, por isso mesmo, os investigadores que estudam seriamente a sua obra, (…)[2], se interrogam sobre a natureza exacta dessa relação. A ligação a uma organização iniciática permite explicar a universalidade das respectivas obras, mas isso não quer dizer que tenha sido ali que tenham aprendido a fazer versos, a compor músicas e a desenhar ou pintar.

Por Poesia, por Música e por Arte de Desenhar teremos de entender outra coisa, precisamente o que não está ao alcance do profano. Ora, o que é que não está ao alcance do profano? Precisamente o rito, com tudo o que nele se inclui e por ele se anima de uma significação activa na relação do estar com o ser, de estar aqui com o ser no mundo sobrenatural, enigmático e misterioso que é o domínio transcendental do Grande Arquitecto do Universo. Eu digo o rito e não os símbolos, porque estes só são verdadeiramente símbolos quando nele integrados. Por isso mesmo, eles podem ser postos lá fora, aparecerem em livros ou me fotografias onde dificilmente deixarão de ser mais do que letra morta. Poder-se-á objectar que também o rito pode ser transposto para o exterior por alguém que se tenha suficientemente informado de todo o processo que o constitui. Não será um rito, mas uma paródia de rito, porque lhe falta a transmissão da Baraka, fundado no poder que, de cadeia em cadeia, o Venerável Mestre recebe do Grande Arquitecto do Universo. 

 

António Telmo 

  

[1] Nota do editor – Texto encontrado inédito no espólio de António Telmo. O título é da nossa responsabilidade.

[2] Nota do editor – Suprimimos uma brevíssima passagem do texto, no estrito respeito pela reserva da identidade de um maçon que nela é referido.     

 

INÉDITOS. 74

02-05-2018 09:38

No dia em que celebraria 91 anos se ainda estivesse fisicamente entre nós, assinalamos o aniversário do nosso patrono com a publicação de um excerto inédito de Uma Loja de São João, estudo que fará parte integrante do Volume IX das suas Obras Completas, A Aventura Maçónica e outros textos sobre a Arte Real, que será lançado, com a chancela da Zéfiro, no próximo dia 20 de Junho, pelas 18:30, no Museu Maçónico Português. Prefaciado por Risoleta C. Pinto Pedro, este novo volume será apresentado, no seu lançamento, por António Carlos Carvalho.

Uma Loja São João: Entrada ou intróito

 

Estremoz é, no seu traçado medieval, uma cidade rodeada por muralhas, aberta para o exterior por quatro portas, a dos Currais, a de Évora, a de Santo António e a de Santa Catarina, a padroeira da filosofia. Há, porém, uma quinta porta, que não se vê, no centro da cidade. Dela só se lhe conhece o nome: a Porta Nova. Contíguo ao Rossio, o vasto largo, hoje de Marquês de Pombal, outrora de São João, como se vê pela lápide que o identifica, está o Largo da Porta Nova, mas em vão procuramos; de porta antiga, destacada nada vemos. O seu maior edifício e o mais antigo é o que parece ter sido um convento, com um claustro e belos azulejos lá dentro. De uma das suas janelas, no primeiro andar, foi anunciado ao povo de Estremoz a queda da Monarquia e por isso o largo recebeu o nome oficial de Largo da República. No rés-do-chão é hoje a sede da Sociedade Recreativa Popular Estremocense, conhecida precisamente por Porta Nova. Há, de facto, lá dentro, habitualmente fechada para o exterior que não nos diz nada, uma grande e magnífica porta, aquela mesmo que poderia ilustrar a capa deste livro. Mas ninguém liga o nome à coisa, talvez porque cada um tem na ideia uma porta do tipo das quatro que se abrem nas muralhas.

Por ela se entrava para um santuário numa vasta sala, hoje utilizada para jogar o bilhar e as cartas, ler os jornais e, ocasionalmente, para ver na televisão um desafio de futebol. Do santuário restam os belos azulejos do século XVIII que cobrem parte da abóbada e das paredes.

A Porta Nova é, pois, uma porta para o interior, o que condiz admiravelmente com ser a quinta. O interior é, como se disse, um santuário, o que só há alguns anos se tornou possível imaginar. Durante mais de uma centena de anos, os azulejos estiveram tapados por uma espessa camada de caliça que o acaso de umas obras de restauro levantou, pondo à vista uma das maiores maravilhas da nossa arte simbólica. Quis o Desígnio que o  sócio n.º da Sociedade Recreativa Popular Estremocense estivesse lá quando se deu o descobrimento dos azulejos. Eu mesmo, o autor deste livro, filósofo nas horas livres, praticante de bilhar e professor de língua portuguesa nas horas presas.

O espantoso é que, onde outros vêem com razão uma igreja, ele veja uma Loja de São João do século XVIII e, mais extraordinário ainda, o lugar sagrado onde celebrava os seus ritos um ramo da misteriosa Ordem Templária ou Ordem da Serpente ou Ordem Sebastianista, nas três designações pelas quais a fez conhecer ao mundo o misterioso poeta Fernando Pessoa. Isto ir-se-á mostrando à medida que estas páginas vão sendo escritas. Claro que não escrevo para historiadores, mas para poetas. “A poesia é mais verdadeira do que a história”, ensinou Aristóteles, mas para tanto é necessário que a poesia esteja fundada numa verdade superior à da história, pois só esta é digna do seu nome. A história deverá servilmente encontrar e apresentar os documentos provativos de uma verdade que, por si mesma, não seria capaz de conceber. E aqui fica bem citar Agostinho da Silva quando diz que primeiro faz-se a teoria, depois logo se arranjam os documentos.

Eu sei que me vão dar por um espírito de imaginação desvairada e que, se me tomarem outros minimamente a sério, aparecerão a afirmar, com documentos ou sem eles, que, diga-se o que se quiser dizer, do que se trata é de uma antiga igreja, católica, apostólica, romana, como se, a ser assim, fosse impossível conciliar este facto com o de serem as imagens impressas nos azulejos a simbólica de uma Loja de São João. A coisa admirável é que, aqui, estão maravilhosamente associadas Igreja Católica e Maçonaria.

Neste sentido, o que importa desde logo ver é se, nessa simbólica se exprime o pensamento de uma Fraternidade, deixando para depois saber que tipo de Fraternidade, na relação do exotérico com o esotérico. Nada mais fácil. A obra está assinada. Podem ver-se na parte inferior do manto da segunda personagem, ao lado esquerdo de São João Baptista, três letras bem visíveis, F. MI, que são a abreviatura de Fraternidade da Misericórdia. A personagem tem sobre o peito uma cruz semelhante à templária. Não devemos atribuir ao acaso a sua escolha para portador da assinatura.

Tudo está em saber o que eram eram, em toda a sua extensão e em toda a sua profundidade, as Misericórdias fundadas por D. Leonor. Recordo o seguinte: A Rainha (representada à direita de São João nos azulejos) era irmã do Duque de Viseu, assassinado pelo Rei, D. João II; era também irmã de D. Manuel I; pertencia, pois, àquele grupo de nobres ligados à memória de D. Afonso V que D. João II desbaratou, matando e prendendo. Alguns deles conseguiram fugir para Espanha, entre os quais Isaac Abarnabel. Quem era Isaac Abarnabel? O Hermes Trimegisto, segundo os judeus. Cabalista e sábio tinha sido o conselheiro de D. Afonso V e o seu mestre espiritual. Era pai de Bernardim Ribeiro, o da Menina e Moça, o Leão Hebreu italiano. 

Estes factos sugerem curiosas hipóteses. Mas não há nada tão incerto como a história. Pois se nós não sabemos o que se passa detrás dos acontecimentos políticos de hoje, que garantia oferecem as explicações dos historiadores com seus métodos científicos pretendendo indicar as causas de acontecimentos remotos? Os documentos só falam do que está à vista. Contra os documentos há todos os argumentos. Tudo o que do passado interessa verdadeiramente saber só o pode revelar o estudo daquilo que os historiadores põem de parte: a literatura, a arquitectura, a pintura, as lendas, desde que a mesma luz nos ilumine a decifrar o que foi cifrado.

Na Misericórdia de Sesimbra, há um quadro de Gregório Lopes (século XVI), contemporâneo da sua fundação, com Nossa Senhora de largo manto azul, aberto a abraçar o mundo e, de um e de outro lado, o clero e a nobreza, tudo como aqui, até à figuração das sete virtudes na peanha acima da qual se eleva. Aliás, este arquétipo parece ser comum a todas as Misericórdias do país. Mas, no quadro de Gregório Lopes, há um pormenor inquietante para o beatério, não para os que ainda sabem o que é o catolicismo e a sua sabedoria. A figura mais próxima de Nossa Senhora da Misericórdia é um homem do povo, entendendo por povo a terceira classe medieval. Está ajoelhado sobre o joelho esquerdo; a perna direita, em postura de esquadro, tem a calça arregaçada acima do joelho. É o que, ainda hoje, se pode observar na Maçonaria: o modo de ajoelhar, a altura da calça, a adoração da aurora que se levanta no Oriente. O candidato a Aprendiz ajoelha assim perante o altar do Venerável.

A Maçonaria em Portugal no século XVI! Como é isto possível?

Mas a Maçonaria em Portugal no século XVIII é um facto que não pode ser escamoteado. Abriram-se-lhe as portas com o Marquês de Pombal. Porque não haveria, então, uma Loja em Estremoz?

Houve, de facto, em Estremoz, uma Loja a funcionar no primeiro andar do edifício da Porta Nova, mesmo por cima da sala dos azulejos no segundo piso, mas nos fins do século XIX e princípios do século XX. Era conhecida exteriormente por Centro Revolucionário Republicano. Foram os maçons que anunciaram ao povo a implantação da República.

Isto, porém, pouco tem que ver com o que me proponho mostrar. A Maçonaria inspiradora do Centro Revolucionário Republicano é uma Maçonaria importada de França. A ideia que lanço é a da existência no século XVIII, senão até hoje, de uma Maçonaria caracterizadamente portuguesa e é para isso que servem os azulejos. Os mesmos símbolos, de um modo geral, devem, porém, aparecer numa e noutra, porque ambas derivam, embora por caminhos diferentes e diferentes paisagens de alma, da mesma origem remota. Adiante se tentará explicar por que misteriosas razões a nossa ficou até agora coberta ou encoberta.

Não é apenas um pormenor, como no quadro de Gregório Lopes, que dá força àquela ideia. Todas as indicações simbólicas apontam para a hipótese de que, em Estremoz, estamos perante o que foi uma Loja de São João, na linha das Misericórdias fundadas por D. Leonor. 

 

António Telmo  

UNIVERSO TÉLMICO. 58

27-04-2018 12:34

Um fragmento da II parte de Vida Conversável, obra ainda inédita que resultou do registo de uma longa conversa de Agostinho da Silva com Henryk Siewierski,  antecedido  de uma nota introdutória assinada por este amigo polaco de Agostinho, é uma das valiosíssimas colaborações que vão integrar o próximo número da revista de cultura libertária A Ideia, especialmente dedicado à vida e à obra do autor de Conversação com Diotima e que será lançada no final do ano em curso, com coordenação editorial de António Cândido Franco, Pedro Martins, Risoleta C. Pinto Pedro e Rui Lopo. Em pré-publicação, antecipamos hoje aos nossos leitores um excerto dessa notável peça.

Vida Conversável

Fragmento da II parte (inédita)

Agostinho da Silva

com Henryk Siewierski

 

NOTA INTRODUTÓRIA

 

O texto aqui reproduzido integra segunda parte, ainda inédita, do livro Vida conversável, uma longa entrevista com Agostinho da Silva, conduzida e gravada nos últimos meses de 1985 e primeiros de 1986, em Lisboa. A primeira parte foi publicada pelo Núcleo dos Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, em 1994 e, logo em seguida pela editora Assírio & Alvim, de Lisboa. Somente em 2014 apareceu perdido na passagem dos séculos e nas desventuras editoriais o texto datilografado da segunda parte. Atualmente a Vida conversável aguarda a sua publicação na íntegra.

Concluída a gravação, na primavera de 1986, Agostinho da Silva quis que o seu interlocutor dispusesse do texto das conversas de forma que acharia melhor. Tomei a liberdade de retirar do texto as minhas perguntas, comentários, provocações, já suficientemente presentes nas respostas, e dessa forma deixar correr a fala do Professor, não interromper nem fragmentar o seu fluxo, preservar ao máximo o caráter oral e o estilo individual do discurso que resiste a quaisquer interferências na sua exigente e envolvente sintaxe. Espero que desta forma o Leitor possa presenciar, também como o ouvinte, esse discurso inacabado e indisciplinado sobre tudo, em que a retrospecção da vida, a reflexão e a experiência revivida de busca do saber se confundem e complementam, e talvez o mais importante aconteça entre os domínios da ciência e da poesia, da física e da metafísica, em diálogo com o mundo e com o outro, além dos sistemas limitados pelos dogmas e preconceitos. 

 

Brasília, 25 de março de 2018.

                                                                                  Henryk Siewierski

 

 

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47.

 

Seriedade com que uma criança brinca. No templo budista em Tóquio. Toynbee e o futuro do mundo. Herdeiros do Cristo e do Maomé. Entender os outros no Oriente e no Ocidente.  A busca da unidade fundamental pelo europeu. China, Brasil, Japão. Fernando Pessoa – a unidade e a pluralidade. O fenômeno e o numeno. O verbo ser. Tempo e eternidade. Homem – filho de Deus.

 

A começar da tal história de Tóquio, neste livrinho do Nietzsche reencontrei uma frase que eu já conhecia de qualquer outro lado e que me parece muito importante, na qual ele diz que um homem atinge o máximo de maturidade na sua vida quando tem a seriedade com que uma criança brinca.

Ora, muito bem. Eu estava a ouvir uma história de Tóquio e estava a pensar naquilo que me contou do seu Miguel brincar em português. Quando o Miguel está inteiramente sério, segundo Nietzsche, isto é, quando não é um heterônimo na casa onde fala polaco, quando é ele mesmo no máximo da sua maturidade de 6 anos, no máximo de sua seriedade, o nosso amigo fala português, não aquele português do diálogo com que ele fala com os meninos da escola, mas um português do monólogo consigo próprio. Esse é um ponto muito importante. Quer dizer, se quando estamos plenos na vida, nós não estamos a ter uma linguagem connosco. Por enquanto, o menino está tendo uma linguagem falada, ele fala em português. Provavelmente, um pouco mais tarde, o menino brinca sem falar, possivelmente é o que vai suceder. E, quando ele for homem e estiver no máximo da seriedade, ele porventura não fala, ele vai abolir todos os heterônimos, porque ele falar quando brinca ainda é de certo modo um reflexo do heterônimo que ele é na escola. Um dia, quando ele estiver inteiramente sério, apaga todos os heterônimos e fará uma coisa que não tem linguagem para ele.

Quando eu estava na tal história do templo em Tóquio, eu realmente estava a falar alguma linguagem ou estava a ser mudo numa verdadeira linguagem? Eu estava realmente a ser dois ou três heterônimos. Estava ser um português ou brasileiro, um brasileiro em Tóquio, num país estrangeiro e, portanto, vendo as coisas com certa estranheza, achando muito interessante o som do sino e o som da moeda batendo na madeira. E ao mesmo tempo estava com as lembranças das minhas origens. Era um brasileiro em Tóquio, mas era também um português, pequeno, rezando as orações que a mãe em Barca d’Alva me tinha ensinado. Mas, na realidade, eu porventura estava silencioso. O íntimo de tudo não era eu estar a dizer as orações – até não sei se as dizia em voz alta se não –, nem tocar o sino, nem lançar a moeda. Eu estava de fato sendo ali plenamente religioso com o íntimo de cada uma daquelas coisas tão diferentes. Porque naquele templo já devia estar misturado culto dos antepassados e religião do Buda – primeira mistura. E a outra mistura que eu estava fazer era realmente a de uma religião que não era nem sequer um catolicismo ocidental, que era um catolicismo da minha mãe que porventura não seria um catolicismo muito ortodoxo, porque não me lembro por exemplo de ela ir à missa, de maneira que já devia ser um catolicismo meio avariado pelos mouros lá de baixo porque ela era originária do Algarve. Não nasceu no Algarve, nasceu em Lisboa, mas a minha avó, mãe dela, era realmente do Algarve, de maneira que aquele catolicismo dela já devia estar temperado. Além disso ela tinha tido uma experiência de Brasil, onde também não podemos garantir que o catolicismo seja perfeitamente ortodoxo. Bem, era, portanto, uma coisa qualquer que, no entanto, ela exprimia pelas orações que fazem parte do breviário, fazem parte da catequese de qualquer católico, mas provavelmente havia um silêncio interno fundamental.

Então, quando nós falamos desses homens todos que cita o nosso amigo Toynbee – nesta parte do Civilization on Trial que citou, em que ele diz que os nossos próprios descendentes não vão ser simplesmente ocidentais como nós, mas vão ser os herdeiros de Confúcio e Lao Tse, de Cristo e Maomé, de Lenine e Ghandi, etc. –, nós vemos evidentemente que não é aquilo que ele diz pelas suas palavras o que tem importância. Quando nós pensamos nas guerras que houve entre cristãos e mouros, entre muçulmanos e cristãos, as mais violentas que têm havido no mundo, e evidente que nós não pensamos que sejamos ao mesmo tempo herdeiros duma contradição. Mas é possivel que, à medida que nós nos vamos afastando no tempo, que vamos vendo a história mais longínqua se comecem esbatendo aquelas coisas que caracterizam cada uma dessas personalidades, para ficar apenas o fundamental. Exatamente como há diferença quando nós estamos junto dum homem e ele nos aparece com todas as suas características agradáveis ou desagradáveis, mas, à medida que nos afastamos dele, à medida que ele se afasta de nós e aquilo que é propriamente individual nele se vai esbatendo, fica apenas um pouco mais longe um ser humano, homem ou mulher, depois alguma coisa que era um vulto que sabemos não é um leão nem um elefante, é realmente uma pessoa, é um homem, e isso pode ser uma tranquilidade quando ele está misturado noutros seres… Se eu estou perdido no deserto e me aparecem bichos que não me interessam nada porque podem atacar e de repente aparece uma silhueta de homem lá no horizonte, a vida nova entrou imediatamente em mim. Eu não sei se aquele homem é mouro, se não é mouro, se me vai bater, se me vai matar, se me vai roubar, não sei absolutamente nada, mas pode haver uma esperança porque apareceu uma figura humana. Então, é possível que, à medida que nós nos afastamos do ponto da história em que eles estiveram, as coisas mudem. Quer dizer que nós tínhamos o homem fundamentalmente e não a sua circunstância. Quando se diz que cada pessoa é o que é mais a sua circunstância por adaptação, por harmonia ou por combate, não importa, ele e a sua circunstância, é possível que, à maneira que a história vai estando longínqua para nós, a circunstância desapareça ou apenas sirva para pôr em relevo umas determinadas características que nos dizem mais que as outras características que foram simplesmente o tempo dele.

UNIVERSO TÉLMICO. 57

17-04-2018 15:43

Em pré-publicação, antecipamos aos leitores o prefácio que António Cândido Franco escreveu para Uma Vida de Herói: Morte e Transfiguração de Jaime Cortesão, de Pedro Martins, que será lançado no próximo dia 4 de Julho, no Museu Maçónico Português, em Lisboa.

Prefácio a Uma Vida de Herói: morte e transfiguração de Jaime Cortesão, de Pedro Martins

António Cândido Franco

 

Pedro Martins neste seu novo trabalho não se afasta da sua linha anterior – ler o que há de mais vital e vivo nas manifestações da cultura portuguesa a partir dum estrato iniciático, que é anterior às religiões e que lhes sobreviveu muitas vezes à margem ou mesmo em franco antagonismo.

Isto deu já proveitosos frutos na leitura duma pintura ainda tão mal conhecida como a de Vasco Fernandes, o autor dos painéis do Retábulo da Sé de Viseu, coevo de Gil Vicente e de Bernardim e sobre o qual tão pouco se sabe.

Com idênticas chaves de leitura – experiência e saber iniciáticos – ele consegue agora uma cerrada e prodigiosa interpretação de parte da obra de Jaime Cortesão e que fica desde já a ser, pela inteligência, finura e teimosia com que cinge as letras, um marco assinalável de progressão nos estudos sobre a poesia e o teatro do autor.

 Só agora, após este trabalho, estamos em condições de começar a vislumbrar as verdadeiras dimensões duma obra poética e dramática que sem a simbologia iniciática ficava amputada dum espírito essencial que em muito contribui para a sua altura e o seu desmedido valor.

Cortesão é um dos grandes escritores do século XX português e este livro de Pedro Martins, escrito numa era sombria de morte e de esquecimento, contribui como nenhum outro até hoje para lhe restituir a aura de grandeza e de luz que tem.

UNIVERSO TÉLMICO. 56

11-04-2018 10:47

Uma entrevista a José Flórido, conduzida por Risoleta C. Pinto Pedro e tendo Agostinho da Silva como pano de fundo, é uma das peças notáveis que vão integrar o próximo número da revista de cultura libertária A Ideia, especialmente dedicado à vida e à obra do autor de Conversação com Diotima e que será lançada no final do ano em curso, com coordenação editorial de António Cândido Franco, Pedro Martins, Risoleta C. Pinto Pedro e Rui Lopo. Em pré-publicação, antecipamos hoje aos nossos leitores um excerto dessa entrevista.

José Flórido, um dos seus livros tem por título Reencontrar Agostinho da Silva, sabendo-se que o encontro inicial se deu através de José Marinho, no IADE. Em que ano aconteceu e que impressão lhe fica desse primeiro momento?

Não costumo ser muito preciso no que diz respeito a datas... Mas, o encontro inicial aconteceu por volta de 1969 ou 1970, no IADE, onde se realizaram colóquios em que participaram diversos filósofos, entre eles, evidentemente, o Agostinho da Silva e o José Marinho.  Antes da realização do primeiro desses colóquios, vi, a determinada altura, entrar na sala um homem de aspecto muito modesto. Parecia até um campónio. Mas irradiava simpatia e serenidade. Era o Agostinho. Cumprimentou as pessoas... e, depois, dirigindo-se a mim, perguntou: "E este senhor, quem é?" O Marinho fez a apresentação. E o Agostinho, que não me conhecia de parte alguma, fixou-me durante alguns instantes, com aquele seu ar contemplativo e misterioso, e saiu-se com esta: "Tem graça. Era mesmo consigo que eu queria falar...

Houve de facto entre nós uma empatia imediata. E nesse momento, senti-me, talvez, na presença de um irmão mais velho... E, a partir daí, creio que muitas coisas interessantes na minha vida foram acontecendo... Talvez fosse a intervenção do "Espírito Santo"... como ele costumava dizer.

                                                                             

Como era, na sua visão, a relação de Marinho com Agostinho e vice-versa? Recorda algum episódio digno de registo?

Tinham grande respeito e admiração um pelo outro. Eram duas figuras ímpares da nossa cultura. O Agostinho punha sempre em evidência a dimensão intelectual e espiritual do José Marinho."O José Marinho é indispensável", dizia. E o José Marinho procedia do mesmo modo, não deixando, às vezes, de reconhecer em Agostinho "um certo orgulho"... E houve até quem visse neles uma certa rivalidade... Mas, são pontos de vista... Eu não acredito nisso. Não me parece correto falar de rivalidade entre pessoas desse nível superior de inteligência e de cultura... Porém, no dia em que se realizou  um desses colóquios,  recordo o profundo diálogo que se estabeleceu entre eles, creio que a propósito da missão de Portugal no Mundo...  Como houve alguns pontos de discordância, o Marinho, então, delicadamente, para não prolongar demasiadamente o diálogo, rematou deste modo: "Muito bem muito bem. Não há dúvida que argumentou muito bem... Eu respondo-lhe para a semana."

 

Marinho disse que o senhor (na altura muito jovem) «soube demasiadamente cedo certas coisas». De Álvaro Ribeiro recebeu uma advertência por alguma irreverência da idade. E Agostinho, alguma vez lhe dirigiu algum comentário desse tipo? Ou de outro?

                Sim... na verdade, o Marinho considerou que haveria um preço a pagar pelo facto de eu, sendo ainda muito jovem, ter intuído certas verdades metafísicas, que me permitiram fazer uma leitura, ainda que incompleta (mas que ele, até certo ponto, aceitou) do seu célebre livro, "A Teoria do Ser e da Verdade". Naquela altura, não compreendi essa advertência... Mas, hoje, compreendo que tudo deve ter o seu tempo certo...E talvez a minha idade não fosse ainda a idade própria da  metafísica... E o preço a pagar por essa antecipação, seria talvez o desinteresse ou mesmo o alheamento por determinados aspectos da vida, (e mesmo da cultura), necessários, e  habitualmente mais próximos da idade que eu tinha nessa altura. Reconheço agora que o Marinho sabia o que estava a dizer... Quanto ao Álvaro, embora nunca me tenha sentido em muita sintonia com o seu pensamento... foi muito importante o contributo que ele deu à língua portuguesa.  Mas, quando conheci o Agostinho já tinha um pouco mais de maturidade... O que não quer dizer que não merecesse da sua parte alguns reparos... Porém, o Agostinho, ainda que estivesse atento às nossas insuficiências, preferia sempre evidenciar os aspectos positivos das pessoas, afirmando mesmo que se o que há de superior em nós for estimulado e desenvolvido, o que possa haver de inferior acabará por ser a pouco e pouco eliminado... Por isso, o Agostinho, ainda que fosse um Mestre, nunca se quis assumir como tal. Por diversas vezes, assumiu, ou pareceu até assumir, o papel de discípulo, agradecendo as nossas intervenções e partindo delas para chegar a um maior aprofundamento das suas ideias. Chegou até a dizer que "tinha aprendido muito com os analfabetos"... Afinal, como diz um provérbio latino, Homo bonus semper tiro (o homem bom é sempre recruta).

INÉDITOS. 73

07-04-2018 17:31

Igreja Matriz de Arruda dos Vinhos

 

O Sagrado na Arquitectura[1]

 

Dado que o tema que me coube é O Sagrado na Arquitectura, parece-me um bom começo ver do que vou falar, perguntando à palavra sagrado e à palavra arquitectura o que é que significam.

Vejamos, pois, o que nos diz a primeira delas. Sagrado provém de uma raiz antiquíssima, a raiz sec, que, pelas duas consoantes que a constituem, combina em si a ideia de separação e a ideia de ocultação. A ideia de separação está bem clara em secção e sectário. O génio fonético que formou a língua portuguesa, o génio do povo a que pertencemos, transmutou o som c em som g para criar outra palavra que é como que a sua irmã gémea. Falo da palavra segredo. Entre sagrado e segredo há só a diferença das vogais. Mais erudito, porque mais fiel ao formalismo do étimo, é o adjectivo secreto. Dizer o sagrado na arquitectura é quase o mesmo que dizer o secreto na arquitectura.  A diferença de vogais. É como se estivessem referidas uma ao exotérico, a outra ao esotérico, neste caso da arquitectura.

O que é que nos diz a segunda palavra significativa do meu tema? Diz-nos, desde logo, que é formada de duas: arquê e tectura. Ali, interrogando a palavra sagrado tivemos de saber algum latim, tivemos de relacionar, através do português, sacratum e secretum. Aqui, agora, temos de saber algum grego. Como as duas línguas são de origem indo-europeia, entendem-se bem uma com a outra e a nossa com elas, que de ambas deriva.

A primeira parte da palavra é o substantivo arquê, o primeiro a aparecer no Evangelho de São João, que, como sabeis ou não sabeis, começa assim: En arquê sên Lógos, in Principio erat Verbum, no Princípio era o Verbo ou o Lógos. Arquê significa, pois, Princípio, mas, notemo-lo bem, não no sentido de começo, porque a história só aparece ontologicamente depois. É como se lêssemos: no secreto do secreto se originou o Verbo, porque arquê, muito longe de significar começo, é propriamente o arcano dos arcanos, a arca que encerra todas as possibilidades que, postas em acto, formam ininterruptamente o Universo, o arco que lança a flecha de luz.

Só nos falta ver o que é “tectura”. Não existe como vocábulo independente em português, mas vê-se logo a sua afinidade com outras que têm essa existência como textura e tessitura. Deriva do verbo tectainô cujo sentido é este: a arte de construir em madeira.

Assim, a arquitectura, pensando a palavra como um todo, será a arte de construir em madeira segundo o Princípio.

 

António Telmo    



[1] Nota do Editor – Esse texto, que se encontra inédito no espólio de António Telmo, consta de uma folha A4 por si dactilografada e corresponde, seguramente, ao início da comunicação que, sob o mesmo título, o filósofo apresentou à VII Semana de Estudos das Religiões, realizado em 12, 13 e 14 de Novembro de 1997 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A organização do evento foi do Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões daquela Universidade. Na edição do Diário de Notícias de 15 de Novembro daquele ano, a jornalista Antónia de Sousa, também ela oradora naquele encontro com uma comunicação sobre “A Iniciação feminina”, publicou uma reportagem sobre o mesmo, referindo-se à comunicação de Telmo numa caixa, cujo texto transcrevemos:

 

«O manuelino é uma arquitectura feminina

As igrejas portuguesas foram sempre orientadas de nascente para oriente [sic]. “Na arquitectura manuelina dá-se um acontecimento espantoso! Há uma orientação para sul. Verifica-se isso na Torre de Belém, na porta sul da Igreja dos Jerónimos e no Convento de Cristo em Tomar”, afirmou António Telmo, ligando a arquitectura sagrada portuguesa à iniciação feminina.

“Há três imagens femininas de Nossa Senhora, nesses três locais, que estão a olhar para o sul. O sul é a orientação esotérica que permitiu os Descobrimentos. Camões situa a ilha dos Amores no Sul. O manuelino é a arquitectura feminina por natureza”, disse.»

 

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