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VOZ PASSIVA. 98

12-08-2020 09:16

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 



(3) Arte Poética

 

Quando a pergunta a si mesma se ultrapassa

E do pensar a poesia vem,

O valor supremo que a entrelinha faça

Não é zona que se leia com desdém.

 

Da efémera evasão à vã acção,

Todo um grito que metáfora imagina.

E nesse escuro sem cor, sem tradução

Onde a palavra lembrança se ergue e anima,

 

Nem fantasma, sonho ou recordação

Emergem claros despidos de emoção.

É sobre si que o espírito se enrola.

 

E se O que invoca lhe vem ter à mão,

Nem sempre cumpre a evocação

Se não olhar o alto da charola.

UNIVERSO TÉLMICO. 70

10-08-2020 10:11

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

O Mestre, Maria Azenha (arte digital)

____________

 

O Mestre

Maria Azenha

 

Ele era um mendigo que morava na rua.
Numa rua bem conhecida,
Ao pé de minha casa.
De face iluminada,
Como nunca outra pude ver,
Caminhava,
Sem rumo,
De um lugar para outro.
E rendia-me à sua beleza. E aos seus passos de música.
Ele era tão belo como a face de Cristo representada por alguns pintores.
Pude claramente ver  ali, ao vivo, como a chuva fluía
Ao longo das suas vestes
Acompanhando o seu antigo corpo.
Olhava-o com algum pudor.
De volta, ele fixava-me o rosto e mostrava-me a mão
Aberta.

Afinal quem era?
De onde viera?

Impossível saber se era grego ou egípcio ou
De outro lugar qualquer.
Com os seus profundos olhos
– Disso estou certa –
Ele era o meu Mestre.

De roupas longas,
Pés cobertos pelas pontas de um cobertor,
Na escuridão da rua,
Na mais pura noite coberta de estrelas,
Celebrámos a luz do amor.

Não falámos. Talvez comunicássemos numa língua arcaica.

Da última vez que o vi, já com algum esforço,
Parecia apontar para o mistério do fim,
Andando muito devagar.

Encostei-me ao seu ombro, estremeci.
Beijei-lhe o rosto.

 

Um relâmpago abriu o céu de uma ponta a outra.

 

VOZ PASSIVA. 97

09-08-2020 10:49

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Observações sobre a filosofia de António Telmo e a torrente oculta

Da perscrutação pitagórica à kabbalística veraz

Alexandre Teixeira Mendes

 

 

“… o messianismo judaico, (…) tempera com a virtude da esperança a afirmação melancólica de que o homem ainda não é livre”                                                                                                       

                                                        Álvaro Ribeiro, “Meditação Lusíada - Amanhã, V Império” 

                                                        in Tempo Presente - Revista Portuguesa de Cultura, nº 17-18, 

                                                        II ano Set.-Out. 1960, pág. 7

 

                                                 

 

António Telmo é, para muitos dentre nós, justamente tido como dos mais peculiares e clarividentes dos filósofos contemporâneos. Na verdade, o autor de História Secreta de Portugal[1]  é um caso à parte, no sentido de que a sua obra - com eloquentes rasgos - comprometeu-se num caminho de inscrição numa tradição ou numa filiação  “pneumatológica[2] e, por certo, nos recursos de uma “arqui-escrita” e da experiência “arcana”. Podem assim compreender-se as “etapas” e, consequentemente, as “gradações” - “démarches” - de uma obra cujo poder verbal ou, se se preferir, originalidade e coerência intelectual (vínculo “críptico”) subsistem[3]. Não se pode pôr em dúvida o trabalho sobre a “chave” interpretativa[4] - na “conformação” à verdade “escondida” da tradição - e, portanto, a pertinência “simbólica[5]. Pode pois com toda a verdade dizer-se que tende a ser o protótipo, pelo menos em parte, de um singularíssimo pensamento especulativo e operativo (de sentido experiencial) da “hermetica ratio[6]. Trata-se, por isso, de uma imensa e incessante meditação (chamada muito simplesmente “arqueo-filosofia”) na indagação da nossa história como “cifra” e ainda na e(di)lucidação (entre diferentes planos e “conexões”) da identidade portuguesa[7].

 

Desvario, deslocamento

Não há progresso real - por pouco que nisso se pense - em filosofia - pelo menos do nosso ponto de vista - só existem aspectos “cumulativos” e “constâncias” problematológicas por si mesmas.  Supõem-se, por exemplo, como sugerimos, os refinamentos técnicos elucidativos e, particularmente, os contra-exemplos.  “A história da filosofia - poder-se-ia dizer - é descontínua e hetero, tansforma o mundo, como no-lo diz Roberto Casati, a filosofia é necessária, a filosofia acontece”[8].  E, assim, podemos dizer que a filosofia, não raras vezes, será sempre - conforme assinala Martin Heidegger - um desvario. A compreensão deste desvario da atitude pensante, só se pode lograr por um “deslocamento repentino[9]. Se, como acreditamos, em conexão com as formulações de Jacques Bouveresse, “no domínio literário e filosófico, o pensamento procede essencialmente segundo o registo da associação de ideias e que esta é essencialmente criadora e pode criar tudo o que quiser (...)”[10], concluímos, porém, por assim dizer, que cada filósofo cria a sua própria escolástica. Ora, para se entrar no pensamento dos grandes mestres, torna-se fundamental compreender a sua linguagem singular.  Deve, no entanto, referir-se que a filosofia é, por definição, uma arte (o grand récit).

 

Sagrado, “motu próprio

A singularidade e originalidade do nosso filósofo consistiu precisamente em retomar o estudo - numa atitude de obediência filial aos processos interpretativos - na encruzilhada da poética e da hermenêutica - omnipresente - e em parte, rigorosamente, ao que há de secreto e de sagrado na língua e na história portuguesas[11]. Mas a dificuldade amplia-se consideravelmente dado que os seus escritos constituem - de “motu próprio” - um corpus notável (as “Obras Completas” alcançaram, pois, 10 volumes) e, para ser franco, difícil, na sua tangência - , se nos é permitida a expressão -  de ser apreendido, numa palavra: surgem-nos  pontuados pelo  (sub)entender[12].  Sem de forma alguma abarcarmos todos os aspectos da obra de António Telmo, ver-se-á, portanto, que ninguém a pôs em mais evidência que Álvaro Ribeiro[13].  Isto no que respeita, no seu conjunto, à sua ligação à kabbalah hebraica (uma mística da linguagem): isso é indubitável[14]. Rigorosamente na comunhão da kabbalah e do hermetismo, por assim dizer, as suas especulações tributárias do pensamento esoterista, ajuntemos:  a peregrinação teologal pelos tratados “O Zohar” -  “O livro do Esplendor”[15] - do século XIII atribuído a Moisés de Leon mas que é, na verdade, uma obra anónima de séculos tal como a Tanak (Bíblia hebraica) e o Talmude -, ou certos complementos e, por vezes, alguns suplementos-síntese da nova kabbalah de Isaac Luria[16].

  

Ars Regia

António Telmo foi, pois, - voltamos a dizê-lo - um dos grandes pensadores portugueses (carismático e sem equivalentes e, por vezes, subestimado e hostilizado). Com a sua contemporânea portuense, Dalila Pereira da Costa[17], ele mudou a face  da reflexividade filosófica através dos seus ensinamentos e trabalhos sobre o substractum português - que é, pois, sucessivamente,  de um tipo messiânico-sebastianista - e os processos psíquicos -  interpenetração do subconsciente ou do  inconsciente hebraico - na sua verificação directa - aguardando de antemão a “salvação” - o juízo e o clímax – os “sinais do  escathon[18]. O facto novo é aquilo que se poderia chamar “pansofia” kabbalística; a acuidade desta resulta, se quisermos fazer uma leitura positiva e fiel, de que o fim supremo de todo o kabbalista é a união com a divindade (devekuth). Ele concebeu o seu trabalho em termos de Ars Regia dos “Filhos de Hermes”. Contentar-nos-emos com assinalar agora, sem nisso insistir, na disciplini arcani. É portanto necessário que se tenha a ideia do que é o ocultismo - a ciência da revelação divina  - e da aplicação da lei da analogia[19]. “O esoterismo é, na perspectiva, por conseguinte, de René Nelli, uma espécie de filosofia primeira[20].  Na verdade, é necessário não esquecer que todos os esoterismos, como tal, orientais ou ocidentais, longe de rivalizarem, se completam, - ou: primeiro, as “gnoses” -,  acordam sobre a simples obrigação posto ao homem de desenvolver sobretudo um “conhecimento superior”, mais largo, “verdadeiramente espiritual[21].

 

Obra-a-signatura

Julgamos que espontaneamente desabrocha em António Telmo o que poderíamos chamar o espírito da “iluminação” (seguindo as aporias da nova kabbalah)[22], quer para exprimir finalmente a filosofia, quer a vida do pensamento, no recurso à (re)descoberta - o “processus” - da subjectividade ? Sabemos, por exemplo, como reconheceu António Telmo, que o que é próprio da essência do oculto é o aparecer [23]. É preciso, portanto, atermo-nos a uma obra-a-signatura que é insuflada pelo horizonte mitopoiético. Resumamos: o seu ponto de partida é a arte poética e a filosofia que constitui (efectivamente) o seu centro gravitacional do mundo quid specificum. E onde se pressupõe, portanto, o limiar de uma tese primacial da kabbalah: a realidade é conduzida pela palavra. Quando afirmamos que a linguagem poética é linguagem no sentido próprio, como tal, palavra (absolutamente falando) viva[24].  Não é aqui o lugar para abordarmos a teoria metafísica dos estados múltiplos[25]. É certo, porém, que a imagem do nosso pensador vem, pois, associada ao seu neo-pitagorismo hermético e a uma kabbalística veraz, os fundamentos espirituais  - a subentendida “linhagem convivencial” - na  radicação da “escola portuense” -  que aqui mencionamos[26].

 

Philosophia Oculta

Não resta dúvida de que - sob o prisma de determinadas tendências ligadas à Philosophia Oculta[27] - António Telmo focalizou uma certa maneira escatológica de ver o mundo: num vínculo estreito com uma filosofia transcendente e profética da história (o advento messiânico).  Entretanto as  mencionadas especulações intelectuais - insights - ligadas à filologia, uma justificação da teoria declarada da gramática “secreta” da língua portuguesa, que tentou justificar a lógica interna e originária - as propriedades linguísticas submersas e modelares [28]- , e fez avançar os diferentes estudos linguísticos-kabbalísticos que lhe eram consagrados - e, inclusive, uma questão muito discutida - a imagística do percurso português - onde se tende a pôr em evidência uma teoria dos ciclos, das correlacções ocultas e das cifras -  directa e indirectamente -  se des(re)cobre o horóscopo de Portugal -  conforme ao seu objecto - a sua historicidade metafísica, por exemplo, ou os signos categoriais [29].

 

Subentendidos

O principal discípulo de Agostinho da Silva, naquilo que se designou por continuador in-conformista da escola neo-renascentista, que testemunha o afecto conveniente e ao logo de toda a sua vida, é, pois, o timoneiro da semiose hermética. A esta amizade - de “a filia” como “a-filiação” - junta-se a de Álvaro Ribeiro e José Marinho -, será, pouco a pouco, a  afirmação de uma longa colaboração. Os seus excursus parecem-nos simultaneamente sinuosos e precisos, sub-reptícios e assertivos, aqui, porém é importante ressaltar a qualidade dialéctica do seu pensamento unificado e (trans)lúcido (consubstanciando uma tessitura não standart da linguagem e, por conseguinte, de um idioma pleno de subentendidos). De facto, é um pensador clássico e de linha mitológica-hermética inegável que inaugurou um novo procedimento semiótico e compreensivo que vão, assim, a par. O fio condutor de seu trabalho-reflexão concerne, em última análise, a procura da individualidade histórica portuguesa e o retratar os seus traços típicos, reconstruindo o nosso passado histórico - fundamentum in re - traduzindo os “signos-chave” e a “mensagem” explícita - escalonando o seu futuro pela previsão e exactidão dos seus cálculos astrológicos. O que lhe interessava era adoptar o que se pode chamar de recurso às conjunções, quadraturas ou oposições de planetas, isto é, o repositório de enunciações ocultas. Ele tomou desde logo o ponto de vista do filósofo que abarca uma linguagem metafísica, conceitos terminológicos, denominações, configurações. Uma vez admitida a “estrela sobrenatural da filosofia”[30] .

 

(Trans)cursos

No nosso estudo deter-nos-emos, porém, em analisar uma obra plena de formulações e (trans) cursos, que interpela tacitamente o substractum da ciência hermética (sobre) essencial (e não exclusivamente), essa atenção e esse reconhecimento da componente da astrologia, do tarot e da kabbalah judaica, é absolutamente indispensável. Trata-se, sobretudo, de assimilarmos muito sucintamente as suas pesquisas em torno da arte como cifra, revelação e speculum - expressa num bom número de monumentos “raros” e “subtis” - em seu contexto original - veja-se p. e. “O mosteiro dos Jerónimos” - e reflectida numa “senha” ou “simbólica” genuína[31] (em profundidade, redundância e autentificação) que permanece viva e não ultrapassada -  de excelência - aquilo que é signum e figura (na sua “transmutação”, redundância (co) implicante e “tocha” do pensamento alquímico). Ele “acostumou-nos” pouco e pouco à busca incessante da complexio oppositorum - acolhendo a encruzilhada ou a junção de caminhos - a dimensão do pensamento (ambi-polivalente e não bivalente) que se dissemina?

 

Convocare

É essencial “convocare”, na íntegra, o mestre-pensador a priori vinculado ao esoterismo, em sentido lato, aos esquemas ou padrões sapienciais, o porta-voz e o expoente fidelíssimo da última geração (gente de escol) da filosofia portuguesa que nos interessa por agora. Aparece-nos como o auto-didacta de boa família dos acroamáticos e o filólogo da indagação escritural (que insiste sobre a precedência dinâmica da poesia, poético e poemática), o que leva a pôr o problema da estrutura da língua portuguesa. Alinhador de “cifras” (à luz de tácitas reflexões cripto herméticas) foi, acima de tudo, um estudioso meditativo (em esboços sugestivos) da maçonaria e, com frequência, do simbolismo maçónico. E isto leva-nos, no meio de tudo isto, à face do typus melancolicus de um pensador pouco convencional, palladium do oculto (que incorpora os contornos e os elementos de raiz mística e (neo)platónica). Podemos percebê-lo enquanto pitagórico e sincretista, aberto à “metapsíquica”, que busca a quadratura do círculo. No remate final do hermeuta ou do fenomenólogo, esclarecido e coerente, com faculdades e inclinação para os silogismos, claros ou subentendidos, - e daí por diante -, familiarizado com a experiência da reflexão e a indagação metafísica. Ele reflectiu, desde a primeira hora, sobre o templarismo, que exigiria precisar os traços pertinentes para um estudo mais extensivo. Aqui a misteriologia antiga,  a alquimia e a kabbalah judaica. Não obstante ser um sincretista, refractário aos contágios fáceis e à ubiquidade mental, dons específicos para a exegese arquitectural - dialéctica mobil e, naturalmente, rica, que sempre se depara com a especulação geométrica (para reconsiderar da capo toda problemática pitagórica-platónica). Ele é o hermeneuta insigne (na conexão circunscrita do “imperativo herético[32]) e inspirado desde início pelas ciências ocultas e seus corifeus - tendo como ponto focal o campo especulativo da alquimia - e, particularmente, da arte da astrologia - em plena féerie adivinhatória - o qual exprime sobretudo as grandes “conjugações” -, mergulhou directamente em plena “torrente oculta”[33]. Celebrare em latim indica, originariamente, “frequentare”. Celeber do grego kélos significa, como exemplo, transversalmente, calar, “chamar”, “convocar”. No exacto momento em que se nos depara o recolhimento - recolligere, apanhar, agrupar o que estava espalhado ou disperso[34].

  

(Sub)problemas

Não deveríamos nunca negligenciar o livre-pensador na índole e na tradição da escola portuense que meditou, todavia, em profundidade - deliberadamente - sobre a portugalidade e sua fisionomia própria - na sua singularidade e complexidade sacral e simbólica (inesgotável), do nosso inconsciente face à influência hebraica? E a tradição - dir-se-á? - as vias de acesso à pátria enigma (“ideia-directora”, “entelechia”, como se pressume) face a uma (nova) sociedade e a um sistema tecno-científico-económico que se deixou hipnotizar pelo mito do progresso e que permitiu a chamada globalização do espectáculo? Era tarefa pesada[35]. Devoção, pois, ao problema da substância dos ciclos históricos, inclusive a astrologia, e de “armanezar” para o futuro - matematicamente - sinais exclusivos, determinativos. Evidenciou, assim o cremos, o desejo ardente de tudo compreender e toda a sua adesão ao hermetismo no diálogo através e (a) dentro da maçonaria e da alquimia[36] - na confluência das suas vertentes filosóficas-especulativas e espirituais - essa lição específica do profetismo e da ideia messiânica[37].  Podemo-nos aperceber de uma análise fenomenológica-arquétipa e de uma valoração hermenêutica instaurativa - arqueológica - imediatamente traduzível - (pre) fixada? [38] Na primazia, pouco a pouco, aos problemas complexos - cerimoniosos - submetidos a muitas rectificações - dividindo-os primeiramente em vários (sub)problemas?[39]

 

Maneira de vida

O nosso autor assimilou, em todos os seus detalhes, (pelo menos, muito frequentemente), que a filosofia antiga (na sua virtus specifica) era principalmente “uma maneira de vida”. Ela foi exposta, por exemplo, por Pierre Hadot[40]. Verifica-se que existiu um denominador comum às formas de conceber a vida filosófica, pressupunha, em consequência, amiúde, a busca da sagesse, ou, acima desse âmbito, a assumpção de um modo de viver.  Poderíamos, a estes, somar principalmente a arqui-noção de “exercícios espirituais”. Pode parecer à primeira vista, que desde “Arte Poética” (Teoremas, Lisboa, 1963) tenha sido identificado antecipadamente como um “hermeneuta” - quando passa, portanto, de codificador a descodificador -, poderia ser aplicado a diferentes tópicos pormenorizados e específicos estudos em diferentes situações, que requereram unidades descritivas. No entanto, há fortes evidências que indicam que esses mesmos procedimentos adoptados  enfatizaram, de modo geral, a vertente hermética de raiz moderna - de cultor pitagórico[41] e kabbalista - uma vez descoberta uma fonte de motivação e meditação: ela parece estar significativamente relacionado a Luís de Camões e à sua poesia (que tem a vantagem de ser considerada em geral como particularmente neoplatónica), apresenta, decerto,  tensões contraditórias, bem traduz uma estilística e uma temática - sinal ou símbolo da modernidade da tradição - um pendor gnóstico. O aspecto importante neste caso é, por conseguinte, o seu programa de pesquisa. Não podemos falar deliberadamente de Luís de Camões sem nos referirmos a um poeta que possuía uma cultura assimilada e interiorizada. Resta sublinhar, entretanto, que os seus topoi ou tópicos favoritos e a sua poética miraculosa revela um forte pendor vanguardista, ou antes, na assimilação do espírito das letras clássicas e na superação do petraquismo.

 

Vinculum

Em António Telmo não se apresenta propriamente um único tipo de vinculum, há de reafirmar sempre um discurso capaz de se posicionar e superar os “diferendos”. Esclareça-se, desde já, que nas suas cogitatationes descortinamos a influência do hermetismo ou da literatura gnóstica-hermética. Apenas nesse contexto fica evidente um neopitagorismo[42] permanentemente verificado e confrontado com a kabbalah, e vemos de que modo, às vezes, sub-repticiamente, a filosofia aparece-nos como memoria spiritus[43]. No assentar, afinal, “em instantâneos” às correntes herméticas e sobretudo os círculos neo-platónicos e gnósticos, António Telmo foi, antes de tudo, um mestre itinerante, insistente, - com um não-sei-quê de secreto, dissimulado. Ele age como investido - um sábio fraterno e fervoroso - como um “sinal” de magistério extraordinário - expressão de “desbordamento”.

 


[1] Trata-se do seu opus magnum que hoje (re)lemos. Mal saído dos prelos (1977) obteve a maior aceitação e êxito. No meio da produção filosófica desse tempo exigente em questões de sinceridade política e o poder contagiante das propostas “revolucionárias” (redenção futura e total de Portugal - exigida entre os cidadãos - e consciência da necessidade de “mudanças radicais”) - este ensaio criou, ele próprio, um clima de  evidente “desmitização”. História Secreta de Portugal deu, evidentemente, muito que falar. Até porque na sua (des)construção em alicerces astrónicos - esparsa e veladamente - e em que o sistema e o totalitarismo do regime salazarista (o “clericalismo” do Estado Novo) são levados ao “banco dos réus” - procedeu a comentários e deduções do “destino” de Portugal: os factos que estão por vir. É então que o tema da “filosofia portuguesa”, designadamente a sua padronização espiritual, intervém.  Assim afirmado - nada menos - do que esse sentido do oculto - este mistério - da história - apokalyptai, “revelar”. Mas merece ser retida a sua posição dos fins de 1977. A Carta de António Telmo para Álvaro Ribeiro, endereçada de Borba, em 2 de  Dezembro de 1977, marca um clima: “Devemos, quanto a mim, situar-nos no vértice do triângulo e não descer para lutar no plano dos contendores, dominar desse ponto a linha dos opostos, resplandecendo à direita e à esquerda, sem lugar ou tempo que não sejam o lugar e o tempo da ideia” (in Cadernos de Filosofia Extravagante, Interiores, Correspondência Inédita, Zéfiro, Sintra, 2012, p. 137). Em atenção à carta atrás referida por António Telmo a Álvaro Ribeiro registra-se o apego a um ideal compreensivo, engenhoso, adaptável - e portanto claro e indiscutivelmente dialógico (de convivência pura) - que não sucumbe ao processo absolutamente específico e essencialmente conflituoso ou do dissentimento - o teatro político - perfilhando prudentemente aquilo que se convencionou chamar a “apoliteia” predicada por Julius Evola - um encontro mais conseguido com as visionações e as intervenções opostas e circunscrições polémicas  (para verificar ou redigir um argumento da seriedade sob o acervo do lugar e o tempo da ideia). Uma vez admitido o para além do político, é claro que o “engajamento” político permanece marcado pelo “condicional”. “A apolliteia – afirma Julius Evola - deve ser a regra do homem diferenciado” (Le Chemin du Cinabre, Editions Arkatos, Carmagnola, Torino, 1982, pág. 201).  Crer então - com muita facilidade - no pressuposto, por assim dizer, do controlo - tangível e perceptível - dos processos políticos e económicos é um engano. Pois interessa reconhecer que o real e absoluto controle está por inteiro nas mãos de muito pouca gente - nomeadamente as oligarquias financeiras - que por sua vez desfruta da maior parte dos benefícios. Será preciso sublinhar, ao terminar esta nota, que para Milton Friedman, no seu livro Capitalismo e Liberdade, a possibilidade de se obterem lucros é a essência da democracia e, por esse facto, é exigido aos estados uma política trabalhando no objectivo dos interesses do mercado. Os governos devem confinar-se, segundo afirma, inextricavelmente, à protecção da propriedade privada e, por sua vez, a execução de contratos, limitar muito simplesmente o debate político a problemas menores.  Na prática as verdadeiras questões, todavia, de produção e distribuição da riqueza, organização social, devem ser bem mais determinadas pelas forças de mercado. Mas, acima de tudo, devemos reparar em como muitos homens de estado desacreditaram as bases essenciais da condução dos negócios públicos. Lembremos o esplêndido livro de Pierre Mendés-France e Gabriel Ardant A ciência económica e a acção, para compreendermos certos aspectos da ciência económica, como, por exemplo, o que é, no plano teórico e no plano prático, o problema do “equilíbrio” e o problema da “escolha” (Publicações Europa-América, Lisboa, 1955).                        

[2]A palavra pneuma vem da palavra grega que significa “espírito” semelhante ao hebraico “ruah” e latim “spiritus”, também pode significar “respiração”. E por isso, precisamente, a palavra é usada no Novo Testamento e subsequentemente na teologia cristã para significar “alma”. Também é usada nos escritos gnósticos para distinguir aqueles que se libertaram do mundo material por meio de conhecimentos esotéricos (pneumáticos) daqueles que inevitavelmente se deixaram aprisionar no mundo material (os hílicos ou somáticos). Sabemos, por outro lado, o que significa a eficácia pneumática da palavra (é ela provavelmente a origem histórica do tema maçónico da demanda da “palavra perdida”).

[3] Os seus livros exigem que nos assentemos e reflictamos, compreendem notadamente uma prodigiosa exaltação de um hermetismo implícito. Consideremos especialmente o pendor ocultista e esotérico, em conjugação com a metafísica e philantrophia. A palavra ocultismo é de origem latina e oculto significa “escondido”.  Esoterismo é de ascendência grega e significa “reservado aos únicos adeptos”, por conseguinte “escondido” aos outros, aos profanos. Quando se procura traçar o seu desenvolvimento filosófico não é incomum falar-se de um “primeiro”, de um “segundo” e de um “terceiro” António Telmo. A oposição entre estes três momentos de per si parece cristalizar-se nos seus  1) “excursos” astrológicos filosóficos (como é notavelmente exposto na História Secreta de Portugal), 2) deambulações sobre a “mística” neo-pitagórica (os procedimentos algoritmos) e a kabbalah veraz ou, mais precisamente, 3) os estudos conexos directos e recorrentes de Luís de Camões  e a considerar todas as (in)determinações  do “traço”, “différence” e “texto”. A partir de António Telmo outro caminho hermenêutico (de análise e de interpretação criteriosa) se esboçou. Constatamos, portanto, a prevalência de um núcleo de obras onde se descortinam os escritos minuciosos e sóbrios, cuidados e elegantes, sistemáticos, e, com efeito, os estudos avançados e as passagens de redacção (no contexto de uma filosofia especulativa) que encerram ideias e conceitos esquemáticos e parecem (na aparência) meras notas.  Mas é preciso igualmente notar que na sua obra maçonaria e alquimia estão unidas pelo seu conteúdo iniciático-filosófico. Foi António Telmo - como Fulcanelli - um mestre iniciado, um estudioso e, em última análise, uma personalidade instruída intelectualmente nos textos alquímicos e os conhecimentos teóricos desta disciplina e, de igual modo, no esoterismo maçónico. Um sujeito no qual se juntam o exegeta nada-convencional ou então o filósofo contemporâneo - sob o impulso de Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro e José Marinho - , conhecedor das disciplinas transcendentes ou iniciáticas - em geral - e que partilhou um método de explicação da arte hermética, da máxima importância, tomando como base e apoio a descrição e comentário, de cunho rigoroso, sobre símbolos e emblemas ornamentais de diversos monumentos (onde apreendemos p. e. o “registo em pedra” do Mosteiro dos Jerónimos). Existe uma tentação frequente de subestimar a fé, a gnose, que vive precisamente, como todo o conhecimento, de uma visão original.  Se, como já argumentamos, António Telmo mantém os acentos dum autor magistral e inspirado, expõe, em algumas páginas, o essencial dos seus postulados histórico-salvíficos, resume inclusive as suas ideias mestras multifacetadas (um “transbordar” major). Não é fácil perceber o marco dos “distinguo” e, por conseguinte, dos “subdistinguos”.

[4] Neste particular, é elucidativo considerar avant la lettre a prevalência (em um “sentido estrito”) de uma conceptualidade gnóstica - e simultaneamente, como tentamos mostrar, de uma valorização e (re)apropriação hermética - conquanto marca ou re-marca de uma pressuposição metafísica e, consequentemente, onto-escato-teológica.  Reconsideremos muito atentamente o livro A chave dos Lusíadas, Luís de Camões, Prefácio, Paráfrase e Notas por José Agostinho, Livraria Figueirinhas, Porto, s/d. Ver também Marta Nolding Influência Gnóstica na Literatura Portuguesa, Lisboa, Fundação Lusíada, 1997.

[5] Symbolum - nós o sabemos - no sentido de “téssera” e no sentido de “insignia”, estandarte (vexillum). Poder-se-ia classificar de diversas maneiras a “simbólica geral”.  Para nos darmos conta que símbolo, do latim symbolus ou symbolum ou do grego symbolon, da família dos verbos symballein, que significa “montar”, composto por synjunto” e balleinjogar” com referência ao uso antigo de quebrar uma moeda ou outro objecto em duas partes iguais, para usá-lo como meio de reconhecimento. Fica bem assinalar aqui o admirável ensaio de René Alleau A Ciência dos Símbolos, Edições 70, Lisboa, 1982. Refira-se, entretanto, a obra-modelo de Bruno Forte Simbolica ecclesiale. La parola della fede. Introduzione alla simbolica ecclesiale, San Paolo, Milano, 1996.

[6] Importa ter presente o livro de Julius Evola La Tradition Hermétique - Les symboles et la doctrine, l’“art royal hermétique (Éditions Traditionneles Paris, 1975). Podíamos abstermo-nos de definir os atributos do conhecimento da herança da tradição unânime, abrangendo o que foi revelado aos sábios egípcios, persas e caldeus. Assim se explica, precisamente, o uso da mitologia e do rito, o estudo da harmonia, as estrelas, a matemática e a geometria sagradas e dos vários veículos iniciáticos, em geral, permitindo o acesso aos mistérios, vale dizer, o recriar a philosophia perenis.  Todavia projectando, e construindo por sua vez, um corpus de ideias metafísico (todo-poderoso) que constitui propriamente a tradição hermética-alquímica.  Nesta compreensão torna-se difícil delimitar, antes de tudo, a natureza esotérica dos ensinamentos do judaísmo que é expressa pelos termos sod (“secreto”), sythrey Torah (“mistérios da lei”) e outros equivalentes.

[7]Pensamento processual de grande alcance canalizado, entretanto, para o re-pensar e o re-interpretar o “logos” e o “ontos” português - onde poder-se-iam citar os estudos das “conexões arquétipas” e, por conseguinte, do âmbito “imaginal”.  Teremos de fazer o balanço de uma obra - considerável, na nossa escala de observação, irrecusável, - e no quadro da “tradição hermética”.  Afloramos aqui as formações sedimentares de uma metafísica (onde teríamos necessidade de a admitir como sinónimo-apego do “sobrenatural”) e as suas “vias iluminativas”. Podemos assinalar especialmente o uso do processo magistral que os judeus aplicam à interpretação de textos. Convém falar do tikkum, que constitui o processo de leitura para restituir, pouco a pouco, o sentido conveniente.

[8]Prima lezione di filosofia, Editora Laterza, Roma, pág. 6.

[9]La pergunta por la cosa, Editorial Sur, Buenos Aires, 1964, pág. 11.

[10]Prodígios e Vertigens da Analogia, Celta, Oeiras, 2001, pág. 152.

[11]Contentemo-nos em notar que a história escrita ou registrada é essencialmente - desenvolveremos esta ideia lá mais para diante - uma forma de mito. Notaremos em primeiro lugar que os termos “atenção hermenêutica ao que há de secreto e sagrado na língua e na história portuguesas” foram definidos por António Braz Teixeira. V. Intróito in Cadernos de Filosofia Extravagante, Interiores, Correspondência Inédita, Zéfiro, Sintra, 2012, pág. 28. Em segundo lugar, a noção tem um campo de aplicação amplo - e o seu mérito - se, naturalmente, as suas implicações estudadas. Falámos mais acima de um esquadrinhamento da tematização e portanto da teoria (theorien significa literalmente - na acepção, ao menos, de Aristóteles, - “ver”). Há muito para assimilar nos textos poético-visionários e kabbalísticos de António Telmo.  E, então, somos forçados a reconhecer no seu trabalho - aplicado à letra - a “propensão” ou “inclinação” heterodoxa - seguindo os próprios ditames talmúdicos. Refira-se, circunscritamente, o pendor a-cristão-católico mas que não se pode dissociar da “De  eclesia mysterio”  e o “depositum fidei” (depósito da fé) - as fórmulas  ou tentativas de recuperar o cristianismo iniciático e mistagógico.  A este propósito Elémire Zola faz uma observação inteiramente justa: “A função mediadora do intelecto hebreu provêm da aplicação exegética”. La Nube del Tear. Razón e Irraconalidad entre Oriente y Ocidente, Paidós, Barcelona, 2002, pág. 29. Mas, no decurso do seu périplo do saber, na sua condição de pensador e de autor, entra, ainda que isoladamente, em contacto com as correntes ocultistas e os franco-maçons, os “compagnons” da arte real. 

[12]Os “insights” de António Telmo, é verdade, mais do que leituras de circunstância, mostram-se vazados nos moldes das “pautas” esotéricas e da “ciência do oculto”. As linhas mestras desenham-se com clareza: reflexões sobre a herança templária e as tradições templárias, o neo-pitagorismo, Platão e Aristóteles, a kabbalah, os mundos metafísicos, a linguagem e, por conseguinte, o “verbo divino”, o “erro humano” e o mal, o messianismo, o sufismo iraniano, a geometria sagrada, a franco-maçonaria, etc., etc..  Compreender-se-á melhor o que pretendemos expôr, examinando a história da “ciência oculta” ou espiritual. Voltaremos a este assunto. Ver, por ex., Rudolf Steiner, La Science de l’Oculte.

[13]O ponto de partida inicial são, talvez, as verdades filosofais da kabbalah. É urgente denunciar o perigo da classificação de António Telmo como um mero esoterista ou guru, definição, a qual, é, crê-se, mais rígida no seu alcance que o místico, e reaparece aqui como problemática. A obra publicada - onde encontramos pois ensaios, poemas e contos - está repleta, se quisermos, de indicações subtis (não se limitou à mera “estética”). Já por uma tendência profunda da sua natureza - um modus operandi -, António Telmo foi conduzido a ler - extensivamente e com simpatia - nos requisitos das tradições místicas-espirituais - os grandes textos esotéricos. O nosso autor, como C. G. Jung, era um leitor de livros alquímicos. Mas onde encontramos, pelo menos, referências, de forma discriminada, à teoria hermética e a gnose.  Outros exemplos poderiam ser lembrados, especialmente a “gaye science” ou “gay sçavoir”, gaia ciência. Disso resultarão consequências hermenêuticas e interpretativas - que animam o investigador - albergam e promovem a “theoria” da “história” secreta. Notáveis são os seus escritos e palestras sobre Luís de Camões. Surge aqui em particular a sua atitude interpretativa na identificação com os “Fiéis do Amor” - atravancada e como que submersa no cripto-judaísmo no seguimento das teses de Maria Antonieta Soares de Azevedo e de Fiama Hasse Pais Brandão - face aos mal-entendidos convencionais, pode dizer-se sem hesitação, que rejeitam in limine a tese marrana. Partamos especialmente da ficção ou das suas narrativas e contos, assaz ambíguos, numa harmonia razoável, e, como vimos, do seu substrato literário implacável.  Sob todas as “revelações” multiplicadas o mundo se torna um aleph. Como já se sublinhou trata-se da letra inicial do alfabeto hebraico, indicação de que tudo começa - o que é capital -, significa, todavia, o ein soph, o infinito, a divindade. Será necessário referir que as letras gregas “alpha” e “omega” correspondem-se com as letras hebraicas “aleph” e “taw”.

[14]A kabbalah, à qual aludimos em notas anteriores, é, geralmente, traduzida como “tradição” e se refere a um ensino, conhecimento ou sabedoria do ocultismo, que foi recebida por Moisés no Monte Sinai e transmitido de “boca a boca”.  Tem-se partido da noção, que parece exacta, de que ao contrário da Thorá - que é revelação escrita - a kabbalah é evidentemente uma tradição oral. Como quer que seja, pensar como kabbalista quer dizer reflectir, nem pouco mais ou menos, de acordo com um sistema de conhecimento baseado no estudo esotérico da Torah e do Talmude, através do jogo de tensões, combinações e transliterações de letras e palavras. Mas a verdade é que, na kabbalah, cada letra do alfabeto é, por sua natureza, a emanação da própria divindade. E mantém o seu poder que é concedido de uma vez por todas pelo criador. Propõe-se, como se vê, um esquema, ainda, chamado “Árvore da Vida”, consistindo em dez esferas ou sephirot que emanam, contudo, da divindade, da primeira manifestação de Deus (Kether ou Coroa Real) até o plano terrestre (Malkuth ou Reino). Digamos que a kabbalah explica - é pois necessário afirmar - como a realidade começou a expandir-se do mundo do ein-sof (infinito), através dos mundos de adam kadmon (homem primordial), atzilut (nobreza), briá (criação), yetzirá (criatividade) e asyá (acção), para este mundo, assim nos parece, imediato. Conta-nos também como as almas simultaneamente, sistematicamente, “descem” e se “vestem” nos corpos actuais. Todavia, é altura de lembrar que a sageza e as doutrinas kabbalísticas foram introduzidas na maçonaria, até certo ponto, na Inglaterra em tempos elisabeteanos, irradiando conjuntamente nas lojas maçónicas (e, na simples medida em que foram penetradas por elementos especulativos). Finalmente, é importante repetir aqui que esta influência acabou, se preferirmos, por ser perpetuada através de ritos e tradições trazidas para França pelos maçons escoceses exilados no século XVIII. Nela descobrimos um corpo coeso de pensamento filosófico, mas de maneira satisfatória, que reconhece um conceito directriz generalizado de Deus, mas que rejeita uma definição específica de Deus e da fé. De notar que lemos recentemente - com grande relutância e sérias apreensões - alguma coisa mais do que a simples leitura metafórica-simbólica - dois ensaios de grande amplitude do Rev. Walter Begley: I) Biblia Cabalistica or The Cabalistique Bible with introduction, appendizx of curios and bibliography, London, published by David Nutt, 1903; 2) Biblia Anagramática or The Anagrammatic Bible, Edição do Autor, Londes, 1904. Este homem da Igreja e estudioso da Bíblia - no corolário de uma vis imaginativa - centrou-se principalmente no registo cristão em que a língua latina é usada mediante a aplicação da lógica anagramática aos textos mais apropriados e relevantes.

[15]É ver a tradução de Esther Cohen y Ana Castãno Zohar Libro del Esplendor.  A selecção, prólogo e notas ficaram a cargo de Esther Cohen (Azul Editorial, Barcelona, 1999). Há contudo um pequeno volume - em português - o melhor de entre muitas pequenas antologias que podemos apreender na escola de Gershom Scholem: O Zohar, O livro do Espendor, Editorial Estampa, Lisboa, 1994.   Bem diferentes foram, afinal, os estudos sobre o Sefer há Zohar de Gershom Scholem que recapitulam todos os outros. É importante destacar aqui As grandes correntes da mística judaica. Servimo-nos, geralmente, da tradução francesa Les grans courants de la mystique juive, Petit Bibliothéque Payot, Paris, 1983. Convém ler sobretudo os capítulos V e VI. Le Zohar: I Le livre et son auteur; II La doctrine teosóphique du Zohar, págs. 233-355. Ele coloca-nos perante o seu contexto histórico de um texto majestoso que é inclusive tido como “sagrado”. A este respeito - seguindo as observações de George Sassoom - podemos dizer com toda a propriedade que os textos foram escritos pela primeira vez no final do décimo terceiro século por Moisés de Leão. A circulação associadas a cópias - muitas ainda existentes - circularam, como se pode supor, até às primeiras publicações que ficaram disponíveis, em 1559, na Itália, - em Mântua e Cremona. Este processo não se restringiu a estas edições. Christian Knorr von Rosenroth publicou em paralelo o texto em latim Kabbalah Desnudata, porém de forma menos “padronizada”, dado que acrescentou “interpretações “próprias ao latim para tornar o texto mais místico na aparência.  Cf, por exemplo, The Kabbalah Decoded A new translation of the “Ancient of Days”. Texts of the Zohar by George Sassoom, edited by Rodney Dale, Duckworthe, London, 1978, pág. X. Mesmo assim, acentue-se, há quem negue que o Zohar (“irradiação” em hebreu) tenha sido escrito no século XI pelo rabino cabalista Moshé de Léon. Teria sido redigido, dizem-no muitos neófitos judeus, pelo rabino Shimon Bar Yojai (Rashbi), que viveu nos séculos II e III. Mas a verdade é que o seu único propósito é de ser, assim, incontestavelmente, uma espécie de guia espiritual. Como pensam muitos, deixa o campo livre para as pessoas (do ponto de vista não simplesmente individual) alcançarem a origem das suas almas, um caminho, bem entendido, que tem imediatamente, se acaso assim se pode dizer, 125 estágios.

[16]António Telmo não se afasta, no entanto, tal como Sampaio Bruno, de uma investigação formal, exímia, o que é certo, em torno à doutrina do mundo do tikkun ou restauração, o que, concretamente, implica a leitura das metáforas luriânicas (retratação, ruptura dos vasos, elevação das centelhas). Insistimos - no decurso deste curto estudo - em que a doutrina controvertida de Isaac Luria é, de bom grado, a do tsimsun ou da concentração ou contração. Aí o primeiro acto do en-sof - do ser infinito - foi então - na sua visão pertinente - o de retirar-se explicitamente de um espaço místico que lhe pertencia para poder ser ocupado por o mundo - tese aparentemente desconcertante - por si criado. É extremamente instrutivo o conceito de que o universo deixa de ser uma “emanação” para ser uma “contração” divina. Impossível iludir a noção misteriosa de “quebra dos vasos” - donde se funda a origem do mal - que levou Isaac Luria da “Escola de Safed” à doutrina do tikkun olam, reparação do mundo. Também aqui o espírito anseia por retornar à unidade com a “fonte”, tornar-se parte de Deus novamente.

[17]É fácil compreender a excepcional estima que tinha pela autora de Corografia Sagrada, reclusa e de outro mundo, onde tendem a coexistir a poética, a mística e a metafísica, para confirmar uma filosofia da graça e da liberdade - mescla de uma cristologia em correlação com uma pneumologia - , mas, antes de tudo, uma filosofia dissimuladamente esotérica, na aderência à apokatastasisis origeniana, - e até uma visão histórico-salvífica - escathon -, tendo António Telmo desempenhado o papel de “sage” na zelosa promoção da filosofia tão só como, por exemplo, de “exercício espiritual”.

[18]O tipo mais óbvio do “fim dos tempos” - escathon - comum a todas as “religiões políticas” - para lembrar o ponto de vista de Eric Voegelin - não virá apenas, como poderíamos supor, do decreto divino, mas justamente do esforço de uma minoria “consciente” - e sabendo-se que poderá consumar-se, inclusive, num futuro próximo e determinado, uma solução temporal e concreta para o problema do mal. Este mesmo tipo de doutrinas políticas - nos quais se ressurgiu o milenarismo - merecem, deste modo, uma menção especial nas obras de Jakob Taubes, Jacob Talmon, Karl Lowith, Norman Cohn, etc.. Mau grado algumas dificuldades, pode aceitar-se - seguindo Eric Voegelin - que o ideal trans-histórico da gnose - no ponto de apoio de uma espécie de bricolage erudita numa direcção precisa ou num sentido particular que nos remete aos estudos de Hans Jonas, Henri de Lubac, Norman Cohn, Karl Lowitth, - enquanto raciocínio complexo articulado a uma grande narrativa - é uma revelação escatológica. Assim se funda o messianismo - o esquema do reino messiânico - e profetiza, neste contexto, a vinda iminente de um messias, de um imperador dos últimos dias, ou delimitado naquilo que denominamos o milenarismo ou quiliasmo. 

[19]Lembrar-nos-emos que a categorização é fundamental para o pensamento. E com efeito o mecanismo que a realiza é a analogia. Diríamos, simplificando, que a analogia é um mecanismo que permite a percepção implícita do "mesmo" entre duas situações diferentes. Destaque para o notável contributo e exemplo reflexivo de Maurice Debaisieux Analogie & symbolism, Étude critique de l'analogie comparée au symbolisme dans la connaissance métaphysique et religieux, Gabriel Beauchesne, Paris, 1921.

[20]Les grands arcanes de l`hermetisme occidental, Éditions du Rocher, Monaco, 1991, pág. 10.

[21]Nós podemos reforçar esta observação também com o facto de que, em certa medida, “revelação, iniciação, técnicas de purificação interior, desenvolvem os poderes secretos do homem e garantem, post mortem, a sua salvação ou a sua libertação”. Ibidem, pág. 11-12.

[22]É legítimo pensar, por exemplo, que a Torah - do verbo hebraico instruir e o nome luz -, mais do que um livro histórico ou, consequentemente, um livro moral, é, pois, de facto, em contrapartida, um “método” ou (registando-se a indicação) de um “guia” para a correção do “ego”. O termo “luz” na kabbalah é usado, de maneira peremptória e ampla, como “força” que corrige o homem e, por sua vez, no seu substracto “prazer” que preenche o homem que corrigiu o seu “ego”. Seja qual for a visão adoptada nunca poderemos omitir o exame de alguns pontos essenciais da obra de António Telmo que é considerada, a justo título, um exemplo de puro kabbalismo (ciência dos signos e de seus correspondentes).  Digamos que é necessário levar em conta que se alicerça numa mística (conhecimento experimental, de modo geral, de Deus). Essa consideração da experiência verdadeira - mística - supõe o êxtase (a tomar para si uma “plenitude” mediante a experiência do inefável). E onde identificamos, pois, o símbolo que conota o místico: a linguagem (não verbal) - edificante - do silêncio. No que diz respeito à kabbalah (da palavra hebraica QBLH, do verbo leqabel = “receber”, “dar boas-vindas”) podemos referir-nos aqui-e-agora à sabedoria “esotérica” dos rabinos judeus medievais.  Na prática, são mais antigas as doutrinas (a QBLH ou QaBBaLah) sobre as “coisas divinas” (teosofia) ou cosmogonia e antropologia, que foram fundidas numa teologia, somente após o cativeiro dos judeus na Babilónia. Pode-se, pois, defender que a QaBBaLaH original é idêntica à doutrina secreta dos antigos caldeus, os kadesim, astrológos sábios e profetas da Babilónia e também inclui antecipadamente grande parte da sabedoria persa ou “mágica” (magh, no antigo persa, significa “sábio”, sensato). Subscrevendo esta definição, estaríamos inclinados a assinalar que, a sua verdadeira origem, no entanto, é encontrada já, em si mesma, nas revelações místicas, baseadas em experiências transcendentais do divino, depois transmitidas da “boca ao ouvido” (ou seja, do mestre ao discípulo) dentro de uma tradição esotérica desenvolvida através de escolas místico-mistéricas. Didacticamente seria pois legítimo o uso do formulário QBLH ou Qabbalah (Kabbalah) para nos referirmos à experiência mística original e sua transmissão oral, e Cabbalà para indicar, ao invés, a tradição escrita como aparece acima de tudo nos textos dos cabalistas medievais e renascentistas. Aliás, compreende-se que a Cabbalà, portanto, ou “tradição não escrita”, tinha que ser implicitamente uma ciência real básica directa e contínua. Desse vínculo singularíssimo à kabbalah teórica junta-se - nesse espaço correspondente, se possível, - um ramo prático catalisante interessado nas 21 letras do alfabeto hebraico (e, em especial, de acordo com os métodos de Gemara, Notaricom e da Temurah) que não é isento de sons (sílabas, palavras), números e, como que os protótipos, ideias (linguagem ideogramática). Podemos dizer que a cabala, esforçadamente, tem representado - como regra geral - a corrente mística da experiência religiosa hebraica.  Poderemos, pois, notar, na verdade, que os primeiros verdadeiros cabalistas foram os tanaim, os sábios iniciados judeus que apareceram em Jerusalém no início do terceiro século antes da era cristã. Assim também se pode dizer – face ao que estamos examinando - que os livros de Ezequiel, Daniel, Enoch e o Apocalipse - e uns tantos outros assim concebidos - são obras (por decerto privilegiadas) puramente kabbalísticas. Convém ter presente o livro do Genésis que pode ser lido em “chave” cabalística. Hoje, dir-se-ia, que a Torah pode ser considerada uma Qabbalah que Deus “revelou” a Moisés e, em qualquer caso, como a própria mensagem contida nessa recepção (“primeira tradição” ou “tradição original”).

[23]Do Encoberto (Mito Sebástico) in As Linhas Míticas do Pensamento Português, Fundação Lusíada, Lisboa, p. 58.

[24]Observamos o filósofo na encruzilhada da via propriamente inaugurada por Pitágoras. A metafísica é, tornemos a frisar, para António Telmo, o conhecimento supremo, assim, porque é igual a revelação.  De facto, porém, o conhecimento metafísico, no sentido estrito, não pode ser - como anotava René Guénon - divulgado nem na íntegra nem directamente. Deste ponto de vista, e por conseguinte, considera-se que cada religião fornece, como já vimos, as chaves e as regras de exegese metafísica.  Em todo o caso, lembremos que António Telmo foi, peremptoriamente, um autor em que a vocação estética e hermenêutica se autonomizaram. Podemos até acrescentar: ficou preso e acorrentado à interpelação poética e do pensamento e, portanto, ao seu dinamismo bergsoniano e, sobretudo, à inspiração gnóstica, trans-fenomenal. António Telmo postulou, naturalmente, a transformação iniciática do ser humano. Mas compreende-se também o motivo por que sublinha a realização do ser pelo conhecimento (significa a distinção entre conhecimento imediato e conhecimento mediato, o mesmo é dizer, entre conhecimento efectivo e conhecimento simbólico).  Esta inclinação natural pelo pensamento verdadeiramente “iniciático” e tradicional foi acentuada pelos seus estudos, em profundidade, da kabbalah judaica e do esoterismo islâmico persa-iraniano.  A este respeito, é importante notar os “apports” (que se devem reter por se enquadrarem de forma personalizada) de René Guénon, Oswald Wirth, Fulcanelli,  Julius  Evola, Raymond Abellio, Gershom Scholem e Henry Corbin.

[25]Convém citar aqui René Guénon: Les états multiples de l`être, Guy Trédaniel, Éditions Véga, Paris, 1984.

[26]Isso mesmo nos lembra Jesué Pinharanda Gomes no seu extraordinário ensaio A “Escola Portuense” - Uma Introdução Histórica-Filosófica, Caixotim, Porto, 2005. Nunca será demais voltar à sua tese que pressupõe uma teoria do vínculo permanente e ininterrupto - do qual emergem e coexistem entre 1850 e 1936 - como resultado da boa diferenciação plural - um conjunto de espiritualidades tí(tó)picas. Esse vínculo configura uma estrutura dinâmica filosófica que “reflecte” ou “reproduz” esquemas referenciais e constantes variáveis no campo reflexivo (na bivalência ou ambivalência – tendo em conta a delimitação de um corpus matriciado no Porto).  Outros estudos, por não considerarem a teoria dos vínculos - internos - exteriorizados e (re)introjectados - chegam a resultados inconsistentes - ou não conclusivos -, pois  recusam compreensivelmente o assinalamento de um denominador comum. Veja-se p. e. de Afonso Rocha A Escola Portuense em Questão, Porto, Universidade Católica Editora – Porto, 2019. Como podemos observar, o estudo em causa e a tese enunciada - não isenta de riscos dado que permanece fechada em si própria - pode-nos abrir novos caminhos à compreensão do problema. É interessante agora considerar como a actividade múltipla e infinitamente variada da “Escola Portuense” (na sua descendência) pode ser consolidada (de uma vez para sempre) num modelo de unidade absoluta e indivisível? E que pode ser descrito como enraizada num ou outro traço particular de renovação filosófica e de contacto estético de cunho próprio? A verdade é esta: aquilo que correntemente qualificamos de a “Escola Portuense” era e é ainda, como já dissemos, uma filiação “esotérica”. Desenvolveremos, eficazmente, esta ideia lá mais para diante. Para compreendermos onde reside a originalidade de escola portuense a partir de um reportório de autores sucessivamente evocados e estudados  e a estudar -  numa grelha de análise sábia e inspiradora  - que se quer manter e mesmo reter - ver  o livro A Pluralidade na Escola Portuense de Filosofia - O Pensamento Moral e Político de Newton de Macedo de Pedro Baptista (INCM, Lisboa, 2010). Este nosso amigo recentemente falecido manteve, de facto, a noção tradicional e de análise fenomenológica de Pinharanda Gomes - servindo-se do modelo teórico da “Escola Portuense” - para o completar e construir - e outro não existe - um esquema explicativo mais geral, que é, em última instância, a do seu pluralismo e diversidade, ampliando assim o quadro interpretativo. 

[27]Imediatamente se adivinha a imensa amplidão do assunto. Quando se fala do campo iniciático e mágico, é preciso ter presente uma justa noção da atitude “oculta”, no recurso constante à prudência, extrema reserva e a absoluta discrição. Aplicam-se aqui ainda os exemplos caricaturais muitíssimas vezes associados ao gosto vã de falar obscuramente, ex catedra e autoridade, onde prevalecem as vaidades e bagatelas  e, portanto, os discursos “em si” ostentatórios e infalíveis – com as consequências que daí decorrem - que, sob uma forma ou outra, são um invólucro vazio. Trata-se seguramente de nos elevarmos e espiritualizarmos, livrando-nos, em verdade, da opacidade da matéria. Podia falar-se, aliás, do que nos incumbe à depuração, convenhamos, tendo em conta as múltiplas moradas, os resquícios e os desvãos da história?

[28]Salientamos - como “contraponto” - predominantemente filológico e da descrição linguística-estrutural - um dos livros mais notáveis e insubstituíveis - “Estilística da Língua Portuguesa” de M. Rodrigues Lapa, Coimbra Editora, Lda., Coimbra, 11ª edição, Revista pelo Autor, 1984.

[29]   Considera-se aqui, neste sentido, a plataforma, compreendida num sentido lato, das três tradições -  judaica, cristã e islâmica -,  um puzzle, dado, - e, a dizer a verdade, sobre um fundo linguístico e filosófico, por si só, de casuística, de espiral dialéctica e de valências particulares  (através de canais diferentes e - como veremos - pelo cruzamento de diferentes portadores), onde faz sentido re-lembrar o paideuma da reliosidade peninsular. Dessa maneira vem a resultar na tematização “à la limite” - fundada, 1 primo, na observação da arte de filosofar e, 2 secundo, numa interpretação definida dos seus parâmetros crípticos e operativo, teológico e teo-antropológico, - atenta adequadamente à natureza das conexões entre as ideias e resultados de seu pensamento aberto à transcendência oriundos da tradição rabínica, patrística e corânica -  bem como da relação bi-unívoca da palavra poética e literária à palavra filosófica “estilizada” - aceitamos, assim, pois, que a pistis, a gnosis e a sophia encontram o seu ponto de equilíbrio. É também digno de nota que tenha abordado a maçonaria, não apenas o que é o fulcro-originário insubstituível e sin(cr)tético -, que nos chega trazida do fundo dos séculos -, mas, inclusive, progressivamente, o universo “iniciático” (ex. (trans)figurações de pormenor). É inútil discutir aqui, em pormenor, a iniciação, a singularidade do iniciado, que em virtude do ritual, ascende ao mundo superior para se unir à totalidade dos seres, à luz divina da sabedoria.

[30]Do Encoberto (Mito Sebástico) in As Linhas Míticas do Pensamento Português, Fundação Lusíada, Lisboa, p. 55.

[31]“O símbolo - na observação de Gilbert Durand  - é epifania de um mistério”. Cf. La imaginación simbólica (2a. ed.). Biblioteca de filosofía. Buenos Aires, Madrid: Amorrortu editores, 2007.

[32]Tocamos aqui no paradoxo fecundo da noção de heresia, tomando este termo no sentido original de aíresis, que           indica o facto de adoptar justamente per se uma determinada opinião ou ponto de vista para sustentar algo. Sucede também que a sociedade moderna exige que o indivíduo faça uma escolha (sentido primitivo da palavra heresia) em parte deixando a adesão passiva à sua tradição cultural e religiosa, para optar (sobre qualquer assunto) por uma das religiões (e culturas) da sociedade pluralista.

[33]Evidentemente que a astrologia a título individual se enuncia, de facto, no mapa de nascimento. O astrólogo, acolhendo métodos mais seguros e mais acurada lógica, tem, em verdade, a oportunidade de estudar (não obstante) todo o quadro das funções, faculdades e características eventuais da personalidade de uma pessoa (nas gradações sempre do alfabeto astrológico -  assim e em resumo -  parte-se da elaboração de um modelo genérico e variável tendo por base o signo zoodiacal, recorrendo a certos dados, indícios, diferentes e complementares, e procedendo-se, principalmente, às deduções fornecidas pelos diversos aspectos dos planetas). Posto que a literatura teosófica e ocultista opõe, não poucas vezes, o termo personalidade a individualidade. Com efeito: ao primeiro de facto define a natureza sempre mutável e terrestre do homem, enquanto o segundo refere-se à entidade relativamente permanente e espiritual (ou essencial). Pode-se, certamente, falar-se de um corpo doutrinal secreto, do simbolismo hermético e do simbolismo astrológico onde seria de apreciar o seu gosto pela astrologia - como esboço - exaltando a relação da cronologia dos acontecimentos históricos com os trânsitos astrais? Tem-se a consciência clara que a astrologia parece ser formalmente, como se depreende da mensagem colhida pela corrente dos tempos a que aludimos anteriormente, - no seu modus operandi - a sistematização da filosofia cosmológica. Por detrás da teoria astrológica - tão fundamente eivada de lógica e de metafísica - assente nos decanos e nas múltiplas (sub) diviões do zoodíaco - patenteia-se - conforme terminologia de Synesius - um determinismo cósmico. A Astrologia, Lisboa, Livraria Clássica Editora de A.M. Teixeira, 1917, p. 32-33. Mostra, portanto, sinais de vir a declarar-se ciência - opinativa ou declarativa? - é acolhida como articulação de um método oculto - ou não - que eventualmente leva a um levantamento de um quadro (estabelecido dentro de certos parâmetros) em que serão projectados e reconhecidos os próprias posições e conjunções astrais. Poderíamos iniciar o seu estudo - reflectidamente - lendo cada um dos parágrafos do livro - que temos diante de nós e para o qual remetemos ao leitor - Ciro Discepelo Nuova guida all`astrologia, Analisi e interpretazione del tema natale, Armenia, Milano, 1998.

[34]Nada mais difícil que organizar as obras completas de António Telmo - esse extraordinário mestre e amigo - de que fomos ouvintes íntimos (noviços) assistindo (como discípulos inofensivos), com frequência, a magistrais prelecções. E, procedendo assim, para nós, revejo-o erradio e exorbitante, no seu ensino acroamático (ou esotérico).  De resto, ao que já assegurei, o nosso amigo Pedro Sinde devia-nos levar directamente do Porto a Estremoz (muitos fins de semana, sem desvios ou retrocessos, à conquista do bom convívio intelectual).  Outro companheiro afectuoso e filial - Pedro Martins - repetimos - não fez mais, então, após a morte de António Telmo - ocorrida em 21 de Agosto de 2010 - do que recompilar com rectidão - de forma benfazeja e com maestria - as suas obras - (re)descobrindo inéditos e “dispersos” - e apreendendo “de diversos lados” artigos que, de modo geral, voltam a ser objecto de consideração.  Contra este esquecimento de uma opera subtilíssima na contra-corrente da nossa tradição filosófica, de Francisco Sanches a José Marinho, no enfoque do processus histórico português (os elementos conscientes e subconscientes do espírito) e seus significados simbólicos (em todos os seus detalhes) que gostaria de render homenagem com este texto.

[35]Sistematizar o pensamento e as ideias supostas de António Telmo não é uma empresa fácil. Numerosas leituras mostram a importância e a configuração de uma imagem da filosofia - como prescrições in saecula - ao abrigo de um peregrinar incansável - que se casa com uma kabbalística veraz. Essa versatilidade de inspiração, estende-se, ao que já indicámos, à versatilidade de forma.

[36]Creio que se poder dizer que a alquimia se situa ao nível de uma “religião-sabedoria” e que se presenta ou opera através  de uma inevitável concepção criadora, tratando de compreender e conhecer o Espírito e a Criação.

[37]  Profeta vem do grego prophetes, em que pro significa “por” e phetes “falar”. Assim, no grego original, um profeta é alguém que “fala por” outra pessoa. Este sentido é fiel ao significado original hebreu.

[38]Ilustrativo, a este propósito, é, por exemplo, no conjunto dos seus originais, o seu trabalho mais divulgado e de elaboração sistemática História Secreta de Portugal. Nele a filosofia, mercê de um estilo cintilante, associa-se à mente clássica e ao tipo de discurso da clarividência, o messianismo que, mais ou menos acentuadamente, sempre nos caracterizou. Onde se entrecruzam a poesia, poética e poemática ou de apego às questões substantivas arquétipos ou imagens primordiais ou mitologemas (o re-nascimento iniciático e simbólico), porém, a cultura grego-latina gnóstica hermética, o neo-pitagorismo, a kabbalah judaica, bem como a doutrina persa-sufi.

[39]Sub - segundo Manuel Ferreira Patrício - é uma preposição muito importante no elemento do pensamento de António Telmo (Testemunho sobre António Telmo. Passos da Memória in Cadernos de Filosofia Extravagante: António Telmo, Zéfiro, Sintra, 2011, p. 123).  Consideramos aquilo que está sob (sub). Várias vezes foi posta em questão – acto contínuo - o aflorar da realidade subtil que é, como se pode congruentemente dizer, a vida do pensamento.

[40]Recordemos, a este respeito, o extraordinário livro-conversação - na mais chã das linguagens - “La filosofia como modo di vivere conversazioni com Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson, Einaudi, Turim, 2008. Seria pois necessário destacar alguns dos seus mais sugestivos e primorosos ensaios, tais como Exercices Espirituelles et Philosophie Antique, Albin Michel, Paris, 2003; Che cos’è la filosofia antica, Einaudi, Turim, 1998; The Veil of Isis - Essay of the History of the idea of nature, Harvard University Press, Massachts, 2006.

[41]Pitágoras - segundo F.M. Cornford - era tido como um profeta do Apolo mântico e o hierofante de uma revelação sagrada (Principium Sapientae - As origens do pensamento filosófico grego, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2ª edição, 1981, p. 180). Mais: não escreveu nada, tendo sido os neopitagóricos que deram a conhecer os seus ensinamentos, embora já Heródoto e Aristóteles tivessem feito referências a um tal Pitágoras taumaturgo (fazedor de prodígios). Pitágoras - citado acima - foi um inventor de um teorema de geometria, um formulador das leis da teoria musical, e um enunciador de aforismos misteriosos. Um aspecto importante é a sua filosofia da revelação e sistema irredutível ao cristianismo - e a magnitude do ensino religioso.  Assim, a palavra mesma de “filosofia” foi forjada por ele; os seus precursores primitivos eram conhecidos como sophoi - “sábios” -, mas Pitágoras fez-se chamar philosophos -amante do saber” - reconhecido pelo seu amor a um ente superior a todas as coisas.  Os dados indicam que mais venerado que Pitágoras foi o legendário Hermes Trismégisto, Hermes, “três vezes grande”. Sabemos que os dois grossos volumes atribuídos a Hermes -  Asclepius e o Corpus Hermeticum -  são especialmente esclarecedores, e pelo simples facto de constituírem uma “enciclopédia oculta” tratando - no dizer de Jamie James - sistematicamente de astrologia, dos poderes secretos das plantas e dos minerais, dos talismãs para convocar espíritos aéreos e demónios do mundo subterrâneo (e magia para os afastar), bem como da literatura filosófica duma casta pitagórica particular”. Cf. La Musique des sphères, Editions du Rocher, Mónaco, 1993, pág. 141. Destaque, ainda, para o curioso e clássico livro - de que possuímos a edição castelhana - de Amadeo Dacier (1657-1722) - Pitágoras - Las revelaciones de sus símbolos ocultos y los Versos Dorados, Editorial Humanitas, Barcelona, 1999.

[42]A esse respeito ver Pythagorean Knowledge from the Ancient to the Modern World: Askesis, Religion, Science Edited by Almut-Barbara Renger and Alessandro Stavru, 2016, Harrassowitz Verlag -Wiesbaden 2016. Há no livro de Flisha Scott Loomis (1852-1940) - professor de Cleveland, Ohio (EUA) - “The Pythagorean Proposition” - algo de importante mas que deve ser particularmente acentuado. Esquecemos demasiado facilmente que este matemático coleccionou durante mais de 20 anos, de 1907 a 1927, demonstrações deste teorema, agrupou-as e organizou-as num livro, ao qual chamou A Proposição de Pitágoras. A primeira edição, em 1927, continha 230 demonstrações. Na segunda edição, publicada em 1940, este número foi aumentado para 370 demonstrações. Depois do falecimento do autor, o livro foi reimpresso, em 1968, pelo National Council of Teachers of Mathematics. O Professor Loomis classifica as demonstrações do Teorema de Pitágoras, a que já nos referimos, em basicamente dois tipos: provas “algébricas” (baseadas nas relações métricas nos triângulos retângulos) e provas “geométricas” (baseadas em comparações de áreas).  Ver The Pythagorean Proposition, Its Demonstrations Analyzed and Classified and Bibliography of Sources for Data of the Four Kinds. of "Proofs”, Classics of Mathematics Education, 1968, The National Coumcil of Teatchers of Mathematics , Inc.

[43]Passamos agora, é certo, à chamada notação algorítmica ou um programa? O que nos dias de hoje chamaríamos os parâmetros de um procedimento (catalisante ou perscrutante) imergindo portanto em detalhes (sem perder de vista as especificações originais)? E onde não faz diferença, aparentemente, se um argumento é in limite uma variável, uma constante ou uma expressão; o que importa é que tenha valor, e assim por diante? Assim também nós: nessa unidade plural - que nos submerge - que significa sobretudo meditar, sem cessar, sobre a confluência das três grandes tradições monoteístas: hebraica, islâmica e cristã. Digamo-lo, desde já, e tornaremos a dizê-lo continuamente: trata-se de um filósofo metafísico - heterodoxo, sem vacilações, - comprometido, em simultâneo, com o pensamento “esotérico”, por isso mesmo, distintivo.

 

VOZ PASSIVA. 96

06-08-2020 19:36

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 
 

(2) A Terra Prometida

 

E à volta do tapete, o pensador

Restitui ao país, pela cintura,

Ou barzakh, o traço divisor:

Eixo, centro, ocidente e cura.

 

A Mensagem é bem clara e sideral;

Assombroso que ninguém a tenha visto.

Revelar o mistério é mais real:

Cobre e mostra o que fora já previsto.

 

Quais painéis são os livros como indícios

Que o marrano da saudade extrai de si.

E o Anjo de outra esfera congemina

 

Lá em cima, onde não se têm vícios,

Face à força rude e bruta do aqui,

Inspirar ao Poeta santa rima.

 

VOZ PASSIVA. 95

04-08-2020 19:43

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

História Secreta de Portugal (reinvenção da capa da primeira edição)

Cynthia Guimarães Taveira

 

«Há uma história oculta de Portugal. Não dizemos isto no sentido em que de tudo se pode afirmar ter um aspecto oculto.

Pensamos que houve entre nós, senão connosco, uma organização esotérica que, de uma maneira perfeitamente consciente e intencional, procurou a partir desta Pátria, a que deu existência, redimir o mundo do mal e da divisão.

A existência de organizações secretas no mundo medieval é reconhecida unanimemente pelos historiadores, embora divirjam quanto à importância a atribuir-lhes no plano histórico. Uns consideram a sua influência decisiva, enquanto outros nem sequer se lhes referem quando procuram determinar as causas dos acontecimentos. Trabalhando sobre documentos de natureza especificamente historicista, como crónicas, registos notariais, etc., que representam, quase sempre, uma descrição exterior e já muito afastada do centro dos acontecimentos, não podem, evidentemente, por esse caminho, ter qualquer notícia daquilo que, por ser de natureza secreta, nem sequer era pressentido pelos próprios contemporâneos. Se tivessem um real amor da verdade, teriam de reconhecer noutro tipo de documentos a fonte verídica do conhecimento histórico.

Estamos a pensar, como o leitor já o adivinhou, nos vários documentos cifrados existentes na época que constitua objecto de estudo, porque não há outra forma de expressão reveladora daquilo cuja natureza é, por definição, secreto. Em vão procuraremos noutro lado. Não poderíamos, evidentemente, esperar que os outros que não os próprios nos tivessem dito o que só eles sabiam. Dizendo, calavam. Pelo dizer calando se define precisamente a cifra.

A cifra é o decifrável, embora a decifração não possa consistir noutra coisa que não seja a transposição, isto é, a metáfora. Explicada nos termos da língua comum, foge e escapa-se, e quando julgamos ter-lhe apreendido o sentido e mantê-lo preso num ponto já esse sentido está distante noutro ponto, noutro lugar de nós. Daqui a falta de força persuasiva para quem não seja capaz de situar-se no espaço mental feito de evidências em que se movem as metáforas, mas contra os historicistas há sempre o recurso de lhes mostrar que as suas explicações não explicam nada.»

 

António Telmo, in História Secreta de Portugal

VOZ PASSIVA. 94

03-08-2020 10:18

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 

(1) António Telmo

 

Percorre lento o asfalto quente;

Poética, a razão o leva no andar.

Em torno busca em vão algo de gente.

No lidar com fantasmas basta imaginar.

 

Grande é o Sol que de Camões lhe chega,

A Ilha dos Amores é longe e fugidia,

E a luz dourada que a estrela alumia

Assusta o poeta, cuja vista é cega.

 

Relê os versos que de longe vêm,

Algo o impele a olhar além

Do que o vulgo mira com alto desdém.

 

Hermeneuta ou nauta: igual é a arte;

Capitão, poeta: são do mesmo encarte;

Pena ou astrolábio: idêntico estandarte.

 

VOZ PASSIVA. 93

01-08-2020 22:54

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

A luz e as trevas

António Carlos Carvalho

 

«Se não formos um foco de luz, nem a treva poderemos ver porque somos a própria treva» -- escreveu António Telmo em «A Aventura Maçónica».

Dez anos depois de ele nos ter deixado, podemos perceber plenamente a sabedoria dessas palavras, desse aviso muito sério, dessa questão posta a tantos à sua volta, os que não viram nada, afinal, mesmo estando debruçados sobre a sua obra, sobre o seu próprio ombro e ouvindo essas e outras palavras da sua própria boca.

Logo após a sua partida, e ao longo destes dez anos, assistimos estupefactos ao triste e revoltante espectáculo de tantos dos que o seguiam e o acompanhavam a apoucar a sua obra, a desdenhar os seus livros, a audácia do seu pensamento, dizendo até que «qualquer um» poderia ter feito e escrito o mesmo; a procederem como se não tivessem aprendido nada com ele, com o seu exemplo; a fazerem de conta que ele nunca tinha existido; a tentarem «convertê-lo» à força a título póstumo; a tentarem brilhar socialmente à sua custa, intitulando-se seus «amigos» para ficarem bem vistos na fotografia; até houve quem brincasse, dizendo que tinha visto a sua aparição num colóquio feito em sua homenagem…

Enfim, como sempre, o velho defeito nacional, a inveja, de que tanto se queixaram, em vida, tanto Álvaro Ribeiro como António Telmo.

Pelos vistos, nunca perceberam a sua busca incessante da luz, o desejo último de «escrever com sílabas de luz» desse «pensador errante», um dos portugueses «desterrados na sua própria Pátria» que dizia «invocar em vão a luz da luz», percorrendo «a estrada que é um rasgo de luz». E, «entretanto, vamos conversando uns com os outros a ver se nos entendemos» …

Mas não quiseram entender, ou não conseguiram perceber, por cegueira obstinada, o que António Telmo quis dizer e fazer quando ligou Sampaio Bruno a Isaac Lúria, nos seus respectivos pensamentos, filosófico e cabalista, na «ideia de Deus em exílio de si próprio na sua substância procurando reintegrar-se pela recuperação das “parcelas de luz”, por cuja queda na matéria, mais precisamente por cuja queda que faz a matéria se encontra actualmente “diminuído”.» («Viagem a Granada»)

Para compreenderem o significado pleno destas palavras precisavam de ter, pelo menos, um pouco de humildade, essa atitude existencial directamente ligada ao ser íntimo do Homem na sua relação com os outros e com o conhecimento da verdade. A humildade que não é uma virtude moral como as outras, situada no limite onde a ética se torna mística e que é o principal motor da transformação do Homem profano em profeta, visionário ou iluminado – como lembrava Charles Mopsik, um dos autores modernos preferidos de António Telmo.

Sim, a humildade do aprendiz, no seu silêncio, na sua capacidade de admiração, de aprender a ler, no respeito pela palavra escrita – que está aí, publicada, à mão de quem desejar aprender. Se tiver olhos para ver além do seu querido umbigo.

UNIVERSO TÉLMICO. 69

26-07-2020 14:47

O salto no abismo e o rosto do cão[1]

Risoleta C. Pinto Pedro

 

«este salto

mortal

saltado no vazio, ou cão

que sai do rio»

in: Cara de Cão, José Santiago Naud

 

«O verdadeiro escritor [...] está dependente do seu tempo [...]

 é o seu servo mais humilde.

Está amarrado a ele com uma corrente curta e irrompível [...].

Ele é o cão do seu tempo.

Corre pelas terras do seu tempo, fica parado aqui e ali,

aparentemente arbitrário, mas incansável,

receptivo aos assobios vindos de cima [...].

Esse mesmo cão que ao longo de toda a sua vida

anda atrás do seu focinho [...].

É uma exigência cruel, realmente,

e é uma exigência radical.»

in: A Consciência das Palavras, Elias Canetti

 

Talvez sugestionada pelo título de uma das partes deste livro (“Dos Nomes”) ou por alguma outra misteriosa razão daquelas que o coração compreende, mas a mente oculta, fui sendo conduzida, ao longo da leitura deste arrepiantemente belo mapa poético, para a decifração dos nomes.

«Contente como um cão» mesmo não o sendo, recolhi os nomes pela boca e não sei quem foi meu dono que me chamou:

«Porque, sim, talvez, quem sabe

o domínio que tens sobre o teu cão

venha do que nem sequer descobriste,

e trazes em ti como um sigilo, a luz

quando lhe dás um nome

que ele atende.

Soltos

no susto da selva ancestral,

desordenada

memória obscura do instinto,

estes sinais

que caem da tua boca

e ele recolhe no ar como um dono,

ordenam o invisível

que ele não apreende muito bem,

(quem sabe?)

mas obedece.»[2]

Obedeci. Como amável cão, ousei tentar acompanhar os múltiplos saltos sobre o abismo do cão de plumas que habita este livro. Com ventos de cortar a respiração, segui-o com o olhar da metáfora transfigurada pela poderosa pena (ou pluma) de Santiago Naud que quase esmaga, que a seguir ressuscita. 

Alguns passos por certos espaços da minha geografia pessoal convergiram, nos símbolos, com aqueles que aqui fui encontrando, pelo que o mistério da revelação foi o luminoso nevoeiro que me foi orientando na leitura como na vida, durante estes dias em que andei acompanhada pela linguagem desafiadora e sagrada de Santiago Naud (SN).

Este livro é uma viagem com mapa dentro. O mapa é cifrado, mas na liberdade da cifra, apesar de temperada pelo rigor das margens, a viagem torna-se infinita. E o cão não é um animal fixo, mas um ser de passagem, viagem ou transição entre raças, entre estados, entre mundos: «cão de jejum entre a raposa e o lobo», um cão em trânsito entre a terra e os céus («o cão/da via constelada»).

Livro dedicado à esposa, de nome Leda, e aos dois filhos, Marcos e Cristóvão, e em memória de um mestre de grego, o que por si só já diria muito sobre o autor, e foi, neste meu caminho arqueológico pelo coração dos nomes, um sinal. É em parte ao grego que precisamos de ir, no encalço dos inumeráveis sentidos (e não estou a criar uma hipérbole) deste poeta. Muito mais haveria a dizer, mas impossível se revelou, repito, ignorar a influência dos nomes.

Começamos por ficar em estado de alerta a partir dos símbolos pré-anunciados na capa pelo nome e apelido do autor, José Santiago, onde se unem judeu e cristão neste homem de sensibilidade ecuménica; e nos já referidos nomes da dedicatória: Leda, Marcos, Cistóvão. Marcos deriva de Mars, é Marte, portanto oriundo do céu, tal como a constelação com nome do animal que dá título ao livro. A figura evangélica de Marcos concentra unanimidade acerca da sua santidade pelas igrejas católica, ortodoxa e copta, sendo, por esta última, considerado o fundador da igreja de Alexandria, logo, o patriarca. Também à figura mítica Leda não é alheio o mundo celeste, pela atracção de Zeus. Leda tem uma dupla significação, se atendermos a uma origem grega (mulher, esposa), o que é uma feliz redundância no nome próprio da esposa do poeta, felicidade espelhada na outra possível etimologia latina (alegre, risonha); um nome espelho o dela, Leda. A Santiago, aquele cujo corpo deu à costa na Hispânia numa barca, e a Cristóvão, esse outro que, segundo a etimologia grega transportou, levou ou suportou Cristo, regressaremos.

O livro, glossário da vida material e transcendente, foca a atenção das suas palavras nos meses, nas estações do ano e nos nomes, essas entidades de criação.

Livro de uma profunda coragem ao nível do afecto, um nível superior onde estética, amor e coragem se fundem e se tornam na mesma coisa, Cara de cão é uma surpresa, como se fosse impossível concretizar o que realiza, e no entanto aqui está o impossível realizado.

Tentarei seguir o rasto do cão, «bicho/essencial/podendo ser tudo o que não é», fá-lo-ei «como um cão de rastro», prosseguirei junto ao chão, de onde melhor se vêem as constelações, e farejando, assim esperando olhar-lhe o rosto para me ver («o cão/reflete outro cão passando/um outro e outro»). Na fidelidade ao rasto espero encontrar o rosto da fidelidade («e o cão/fiel na cara do dono»). Pegadas e indícios não faltam, basta a atenção:

            «Tudo está

            pesado e medido, sob véus

            que encobrem a inicial

            cara explícita de cão.»

Apesar de «disfarçado/um cão, o astro te olha». A cara é explícita…  («a cara na cara/tu és teu cão, e teu cão/precário aos nós da energia/é o tu ressurgindo/puro de força e magia») para lá dos véus, que tentarei atravessar «como um olho de cão/que contempla». Ainda que tenha de passar pelas «entranhas de cão» e nelas ler como num livro de poemas «iluminado pelo fogo».

Não afirmo que não exista, mas não conheço outro texto que ilumine com a mesma profundidade a presença do cão no mundo, a sua relação com o humano («Usava um/cão, simplesmente/um cão sem corrente, ligado na luz/e no vazio,/atravessando a treva/com toda a humanidade») e com os deuses. Não conheço outro texto «seguido pelo cão» que tanto ilumine o ser humano através do símbolo obscuro e brilhante que é um cão:

            «a cintilação, a fuga, o irromper

            da visão, em que imprevisto o meu cão

            parece ser tudo.»

Esta paradoxal e ambígua relação do humano com o «animal e visionário[3]» está magistralmente aqui disposta. E nenhuma linguagem senão a poesia poderia fazê-lo com este rigor:

            «Estás cioso da tua realidade, mandas

            e não pedes, régio

            te assentas no poder,

            quase um imperador

            quando baixas a ordem no teu cão.

            Ah, que ironia

            podia cintilar o teu nobre animal,

            fiel como escudeiro

            e antigo como um deus,

            se deuses falassem

            ou ladrassem,

            ou pelo menos tu compreendesses as suas falas

            quando sacode o rabo

            e, entre a mão do afago e a cabeça bruta,

            qualquer coisa de certo

            incerta fulgura.»

 

O cão, o rosto e as máscaras é uma das leituras que o monumento poético de SN me suscitou. Num livro de tão generosa poesia, num livro estrela múltipla de inúmeras irradiantes pontas, apenas poderia percorrer uma das luzes. Este foi o caminho que logo de início me foi apontado em Tomar[4] para onde fui arrastada e posteriormente imobilizada junto a uma pintura mural representando S. Cristóvão com cabeça de canídeo. Teimosamente, muitos outros caminhos mentalmente iniciei, a eles recorrentemente regressei e os mesmos repetidamente tive de abandonar ou libertar no céu das ideias. O cão não me largou mais, abocanhou minha pena e foi ele que a conduziu. Com razão, pois não teria sido possível seguir tantos possíveis e paradoxalmente quase infinitos trilhos. E eu já me encontrava num trilho conducente ao infinito. Muitos outros entretanto me surgiram durante a leitura e tive de levar para o mesmo mundo daqueles que soltei. Porque tendiam a criar uma imensidão que o espaço físico que considero razoável para conter a minha expressão neste livro, ao contrário de Cristóvão levando (suportando) Jesus aos ombros, não suportaria. É que esta poesia é quase de se ficar sem respiração, torrente inimaginável de impossível, e no entanto, como se respira melhor quando se entra nela e por ela nos deixamos arrastar.

Começo pela capa, o cão de Goya, duplicado algures no poema:

«brincando o quadro em nós

como se nele

brotasse aquela árvore de inverno

com um cão debaixo.»

Para alguns, o cão de Goya é nada menos que um cão… a afundar-se. Todo o cão, para o seu dono ou amigo, está a afundar-se, porque cada minuto que passa é o drama de menos um minuto com ele, digo, com o Amor. Como quase a afundar-se se encontrou quem já adiante veremos, transportador de Cristo.

Nas narrativas sagradas cristãs, o cão é uma presença importante, desde o cão de Tobias ao de S. Roque, o peregrino. Que nesta enorme moldura também não deixa de estar presente com seu joelho em sangue:

            «Vívido rosto da morte,

            na total decomposição

            os recolho, esses rostos

            desfeitos,

            faço-lhes lamber meu cão,

            que pelo joelho em chaga

            vem fazer o pão do peregrino

            coma túnica erguida

            ao dedo afirmativo.»

Este livro coloca pelo menos (muitas outras contém, mas esta, por introdutória, é incontornável), uma pergunta essencial: de que modo alguém que nunca tenha vivido uma relação de amor com um cão ou com outro ser capaz de dar e receber o amor total  de que só os cães capazes, sente esteticamente este texto? Isto é, a emoção amplia a estética ou o sentimento da estética pode existir sem o conhecimento da emoção?

Será, por isso, necessário amar um cão para compreender o rigor deste retrato?

            «a hora do cão

            mordendo mais forte o punho do dono

            para que a mão se solte

            e deixe que ele salte,

            de repente

            lambendo a sua cara cheio de efusão.»

Nunca nada, que eu conheça, foi escrito sobre cães (e sobre cães e nós e tudo) com esta força demolidora e construtora, arrancadora de torrentes de lágrimas de desgosto e redenção:

            «os olhos

            do teu cão,

            transformado em ti

            lá atrás, quando te correspondeu

            no momento em que lhe disseste: “Vem”,

            e ele saltou no abismo.»

Este cão, ou a sua cara, neste caso não do dono, mas do cão, elevada (ou restituída) à dignidade e importância de um rosto de Janus, é um mapa de orientação no mito, no símbolo, na erudição e no coração, tarefa impossível, contudo aqui materializada. Janus ou «Anfisbena» ou «Exu», os de dupla face. No caso deste poeta, a erudição rebrilha e torna-se uma espécie de novo recurso estilístico, porque perfeitamente integrada no processo poético que, pelo muito talento a dispensaria, mas que com ela requinta a alquimia.

A tripla dedicatória, cujo terceiro nome é Cristóvão, leva-nos misteriosamente até uma pintura mural muito apagada, bastante imperceptível, da extraordinária Charola de Tomar, esse templo de Jerusalém construído pelos mestres templários no coração de Portugal. Aí se vislumbra, com grande esforço de discernimento visual, um São Cristóvão cinocéfalo, o que significa que se insere na tradição do bestiário, porque tem uma cabeça de cão.

São Cristóvão, o pagão que por transportar (ou suportar) sobre os seus ombros Cristo para a outra margem (por isso se sentindo a afundar, como o cão de Goya, o que, se mais razões não houvesse, justificaria totalmente a imagem da capa), margem também associada a outro plano, sagrado ou céu («cão sideral»[5]), é ligado à Ascensão. Não será por acaso que a Cristóvão, Santiago Naud agradece, na dedicatória, «por me suportar». E salvar? Salvar para ser salvo?

A data do fresco de Tomar é irrelevante, porque estamos perante o mistério. Século XIV ou século XII, isto é, muito provavelmente contemporâneo a Gualdim Pais, o Grão-Mestre Templário? As opiniões dividem-se.

Subtil e transcendente, a ligação desta pintura com as viagens de Gualdim Pais, que no médio oriente poderá ter tido contacto com as primeiras representações de S. Cristóvão com cabeça de cão, em Antioquia, onde o santo terá sido martirizado, e deste, a ligação a Goya, o que pinta o cão quase em afundamento, como o arquétipo do santo antes de o ser ou que por isso o foi. Ou de Goya a Santiago Naud. Um Anúbis, uma cara de cão trazida da Idade Média resistindo ao afogamento das águas, das emoções e do tempo, uma imagem, não de crucificação, apesar de conversão de S. Cristóvão à religião não da cruz, mas da ressurreição. Pelo amor. Na arte. É muito curioso que representando o deus egípcio Anúbis, o da cara de cão, a passagem entre duas dimensões ou estados de consciência, isto remeta insistentemente para o barzakh, segundo António Telmo:  

«a palavra pela qual Ibn Arabí e demais sufis do mundo muçulmano significam o entre dois, o mundo intermediário entre dois mundos que, sem ele a harmonizá-los, se excluem. Assim, a linha divisória que passa por Tomar, divide e une o Sul do país ao Norte do país. Todavia, o melhor exemplo é o que nos dá o próprio Ibn Arabí: o da linha que, ao mesmo tempo, separa e une a sombra de um corpo, da luz que a projecta. Não se pode dizer dela que é luz ou que é sombra. Como que existe por um prestígio da nossa imaginação, mas não é uma linha imaginária.»[6]

Linha que simboliza o entre dois «dourado o matreiro espaço/aberto entre cão e lobo./Anúbis/me conduza», como também «anjo/infinito, traçando a linha infinda/entre o humano e o bestial». Difícil não é imaginar o cão correndo sobre esta linha e assim salvando o mundo pelo sentido, da cisão do abismo (ou abysmo[7], como teria preferido Pascoaes): «Definitivo abismo, se/neste espaço cindido/não ponho a correr meu cão:/entre o que eu sou e penso,/ele prega o sentido».

E o sentido é o espaço entre dois, o claro e o sombrio, o ficar e o partir, que ele, o ser que se encontra entre as patas de trás e as patas da frente, conhece melhor do que ninguém:

«intimamente, ergue-se

nas patas de trás, com as duas da frente

ao modo de bruxo antigo

e avança, a cara de cão

nas artimanhas do uivo, se explicando:

Quem sou?

Eu sou aquele que veio

para ficar, porque sou aquele

que vem para partir, quem reúne

o claro e o sombrio»

Esta linha entre dois mundos simbolizada pelo rosto de canídeo, encontra-se, como já dito, na Charola de Tomar onde também eu fui conduzida ou levada, e neste livro de poesia ela está igualmente presente. O mito de Cristóvão é o daquele que atravessa o rio, por isso assim considerado um psicopompo, segundo a etimologia grega o que conduz as almas na viagem para a outra morada, um guia, que pode ser espiritual como Hermes, ou animal,  sendo no caso um misto de humano com animal. Este guia, presente num fresco talvez do século XII do templo de Jerusalém em Tomar, tem para guiar, aí, a viagem mística, viagem que é, neste livro, a via poética. E talvez as vias ou viagens se unam num caminho comum que é o do amor. Ou, melhor dizendo, o da arte ao serviço do amor.

Talvez não seja de menor importância que em termos celestes a constelação de Cão Maior se situe no extremo da estrada de… Santiago[8], nome de santo e de… poeta, que o mesmo é dizer-se, no final da Via Láctea[9]. E mais uma vez as duas vias se encontram, a do céu e a dos que, na terra, percorrem os caminhos sagrados (Santiago, ou como Santiago, peregrino do sagrado na palavra poética) guiados pelos cavaleiros do templo, protectores desses viajantes entre duas vi(d)as.

Independentemente desta minha especulação meta-poética, o poema, ele mesmo, não se escusa à referência, com frequência, às duas constelações do cão: «ou Sirius, imperador/ da própria constelação — incluindo/ Canícula, irmã menor, oculta/ na Virgem bem parida». Constelações ou estradas no céu, Via Láctea ou Campus Stellae que os templários foram seguindo enquanto iam construindo, ao longo do percurso terreno de Santiago[10], templos poligonais irregulares, estrelas densas, inspirados poemas em pedra, como tinham o hábito de semear nas estradas. E nada disto é estranho a Cara de Cão: «um cão e sua cara que atravessam/de leste a oeste e norte a sul/os fixos confins da Via Láctea».

Regressemos, por isso, ao início destes poemas por palavras, que começam iniciando um diálogo poético em diferentes línguas, epígrafes onde o autor cita outros poetas, alguns assim reconhecidos pelo cânone, outros poetas informais, mas reais, porque nas suas bocas houve poesia. Aqui os junta reabilitando Babel, pois estas línguas conversam e entendem-se como que banhadas pelo fogo do Espírito Santo semeando logo aqui, e continuando livro adentro, na sua própria poesia, passagens em espanhol pelo meio do português («donde hay niños, por certo/ como dizia o Lorca, para quem Dios/ es el punto. Disse.»). Quanto aos poemas/epígrafe iniciais, são poemas brevíssimos que têm a força atómica de um haiku, se nos voltarmos para o oriente, ou de um paradoxo, se quisermos honrar a terra do ocidente onde aprendemos a música dos sons, porque nem sempre, nem para tudo necessitamos de cruzar o planeta. Às vezes, no permanecer é que reside a compreensão. Nestas epígrafes poéticas pré-introdutórias onde texto alheio convive com citações de si mesmo, epígrafes preciosas, pois são chaves que nos oferece para penetrar em tão notável castelo de símbolos, mitos[11]e metáforas, o português alterna com o espanhol  com um único poema em inglês, de Oscar Wilde, após o qual, como numa moderna instalação, dispõe um poema em português que partilha com os outros o ser pérola e tem, além disso, a responsabilidade sua de ser chave:

«Além de todo o negror, nada/ pode matar o homem. Sobram sempre/ a cara de cão e um castelo.»[12]

Mais do que uma chave, considerou o poeta, com razão, que necessitaríamos de um chaveiro, e tinha razão. Não é despreparadamente que se entra neste templo. Assim, vários são os autores que acorrem de variados tempos, obras e lugares até nós, leitores, como o magnífico  poema  que se segue, de um camponês cuja intenção não parece ter sido, a avaliar pela informação em nota de rodapé, fazer poesia. E no entanto, foi o que fez:

«Yo sin mis bichos no soy el mismo,/porque mi perro es como mi hijo/y más que mi hijo,/pues mi hijo es él pero mi/perro es yo, y yo y mi perro/somos igualitos.»[13]

 

A generosidade dá, pois, o tom, no início deste livro que busca e acolhe a poesia onde, inesperadamente, ela se mostra, e depois, no borbulhar que se segue, em que os seus próprios poemas jorram como de fonte sagrada, em liberdade que nos parece tão inspirada quanto pensada,[14] num equilíbrio perfeito.

A liberdade («este esforço de ser independente/que o cão sabe, e sobe»), ainda que dentro de um castelo, ou domínio, é um tema que percorre o livro («solto meu cão/no passeio que faço»), a liberdade mental que a fantasia serve e o amor dignifica, por causa da «tendência de reduzi-lo à trela»:

« O meu cão se escapa da trela

e correndo vai por-se nas lindes do bosque»

 

Ainda sobre o nome do cão, importa ter presente que nestes poemas as coisas e as pessoas com seus nomes não se representam a si mesmas, mas inscrevem-se em círculos infinitos, por causa dos símbolos que as acolhem:

« logrou situar

ou definir, nome

entre os nomes — cão,

esta cara, esta sombra,

esta cara, esta luz»

Em termos lexicais, «face» e «cabeça» lideram o vocabulário, neste livro que também acolhe prosa poética, ainda que disposta na página em modo de verso, sendo aqui «cabeça» não apenas a parte superior do corpo, mas a parte superior do ser: «Que espiritual a cabeça!». Imprescindível numa poesia onde sentimos que algo nos «espreita, como um cão». Talvez nós mesmos: « cão/para o homem desde há muito é reflexo,/cara no espelho/sem ilusão da ruga».

Quanto à forma, estes poemas apresentam uma característica muito curiosa que é o facto de, apesar de se tratar de poesia, a maior parte das vezes em verso, revelar algumas características da prosa poética, o que não impede que as sonoridades aí se encontrem em sérios jogos expressivo-musicais, como aliterações e rima interna, criadores de ainda maior profundidade nos sentidos, assim se recolhendo esta prosa à poesia, como um desenho de Escher, ao jeito de uma coluna infinita.

Vejo a coluna deste livro tendo o cão como eixo. Mesmo quando não é mencionado, é uma presença, espécie de grande princípio, quase deus, quase criador:

 «E o cão/ alarga a cara; são duas, Jano/ retorna, e os homens/ enchem o mundo».

Um «Anúbis/ surgido das sombras», o cão torna-se o centro do Universo e uma lente com que o poeta olha o mundo e reflecte sobre o profundo. Embora, por vezes, com alguma nostalgia do olhar baço de Alberto Caeiro: «para que um cão seja cão/ ou, o gato, gato/ e rato, rato — sem/ outra significação que eles mesmos».

Em termos da linguagem poética, é quase em permanente apoteose o constante domínio das formas e dos sentidos e do alquimizar deste casamento, assim criando um superior altar poético perante o qual é impossível não ajoelhar. Num templo cujo traçado, não deixando de ser sagrado, é arrojado. Não deixando de reconhecer e ilustrar as regras canónicas da construção, apresenta uma arquitectura pouco canónica:

   «Também

   assim, macho e fêmea, reúne

                                                 a i-[15]

 nocência da estrela Também

 donde hay niños, por certo

 como dizia o Lorca, para quem Dios

             es el punto. Disse.»

 

É difícil, nesta poesia, quando é mencionada a «estrela», não se pensar em cão. Aqui caracterizado como inocente, o que é reforçado pela chamada de atenção da nota de rodapé.

O mistério («segredo do teu cão») que atravessa os tempos ou os anula, que atravessa os espaços ou os funde, revela, eleva ou desfaz o poder do destino transportando-nos da terra ao cosmos pela prancha de saltar que é um tabuleiro de xadrez, o raio de uma estrela ou o fio de uma aranha. Interrogação perplexa sobre a vida, recuando até à desobediência de Eva, cuja inocência, pela dúvida de interpretação humana acerca do sentido das palavras do Livro, resgata, e assim a todos nós passados, presentes e futuros, salva. Com, como vimos, o cão. A ambiguidade do paradoxo ao nível do sentido é acompanhada, reforçada e apoiada pela ambiguidade da sintaxe, assim criando um tom profético, ao mesmo tempo que nos despe com verdades cruéis que levámos demasiado tempo a esconder.

Assistimos nesta poesia, ao triunfo do entrelaçamento do sagrado com o profano, da infância com o fim, da ficção com a vida, do literal com o transfigurado, do sentido com a forma («e a mão/ não pesa mais o pensar»), da citação com a criação. E a arte de dizer sem afirmar, de evocar sem nomear: «o chapéu-de-cobra/da tua infância, que sabe das coisas fundante/com singeleza e sem filologias», saltando da árvore de Jessé para O Principezinho e daí para o fim do mundo. Ou princípio… visto que é de cobras que se fala («A cobra/circunda o mundo/e guarda o universo»).

Neste universo de Naud os mundos não são estanques, tocam-se, causam-se, recriam-se:

«Ao peso da cabeça

cansativamente posta, a mão

repousa céus mais altos, claridade

irrompendo as trevas de saber.»

Porque: «tudo o que antes era/mente ou indicação/se unifica» enquanto o Poeta questiona a palavra para se aprofundar nela («Criar/ ou crear?/Coisas distintas»), despertando em nós a saudade de outro professor da Universidade de Brasília, António Telmo[16], pela lembranca que estes versos evocam, da sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa.[17]

É esta obra de SN um livro poético de tese, uma Arte Poética entre a ciência, a psicologia e a teologia, denunciando «Os exegetas do sagrado/e os cientistas e seus sistemas,/válidos enquanto vale a hipótese», porque «dizem e querem convencer/que esta é a única linha/ e aquele é o caminho reto», quando, afinal, são «seus muitos caminhos, infindáveis». E é importante que isto seja dito assim cantado, porque «há algum tempo me despachavam na fogueira,/Se eu dissesse». Não é uma poesia alheia aos grandes movimentos da história nem desatenta dos perigos. E neste mundo onde as fogueiras ainda estão quentes, impossível não falar de Deus por cujo mando se incendiaram. Mas como salvar Deus das fogueiras que acendem em seu nome? Se já tudo foi tentado, resta ao poeta inventá-lo e, com humor, salvar o Amor, um dos possíveis nomes do inominável:

«Se eu creio em Deus?/Não posso te dizer que ele seja meu chapa/e venha a conversar na hora do crepúsculo/quando uma suave brisa sopra no jardim,/tomando o chá das cinco e jogando bridge/com fleugma de inglês/sob o leque de palmeiras hindus,/ sem pressa americana. […] Mas nos teus gomos, amor,/ enquanto a hora não chega/não me impeças que eu mexa. Vai!/Deixa-me pois brincando.»

Um hino ao amor e à imperfeição com que a divindade desenhou o mundo, às «brechas/que ele deixou no mundo» onde o deus e os deuses e o diabo criadores e criados representam seus clássicos, repetidos e mais do que conhecidos, estafados papéis, de tão decorados dispensando o papel do ponto.

Ao mesmo tempo, canto de profundo amor deste Deus pelo herói humano, a ponto de com a humanidade partilhar os segredos guardados pelo mítico guarda («um cão ladrava à/multidão/também falando com ela,/muito individualmente:/dois mais dois são cinco»), humanidade jogando com a divindade um jogo desleal por desigual, por isso tanto necessitando do cão[18]: «Deus se debruça ao tabuleiro/a ver movermos as figuras,/como se quiséssemos/ou pudéssemos, e toca de leve/uma que outra, a rir-se/vendo-as cair». Afinal, «a risada de Deus, para o caso que exista/e jogue a realidade/dolorosamente, com o próprio Deus/imaculado em ti». A serpente que volta a enrolar-se. Mas sempre tudo ao nível das hipóteses, porque é o não saber que confere heroísmo ao herói aqui cantado. Que, como todos os heróis, tem de aprender a palmilhar o caminho do meio, aquele que é percorrido depois de conhecer o sim e o não, e as manhas dos poderes num permanente carnaval de disfarce para agradar consoante o esperado: «a arena relativa das tuas ideologias,/antes embandeiradas com a seda dos ricos/e agora embrulhadas no macacão dos pobres,/conforme te convenham as aspas do poder».

Se nem Deus se esconde nestes versos, nem os seus intermediários, nem a ciência, também não o esperaríamos dos ideólogos do tesouro e dos outros poderes, como o do sexo. A força das imagens onde a força das ideias ainda assim permite a música interna nos versos, o lirismo a coexistir com a dor e a denúncia do cinismo do causa…dor: «torrar o saco/nos forros de vinil fingindo natureza/e postos ao passo eunuco/pelo esforço viril de submeter o feminino/com fera delicadeza».

Na sua assumida liberdade de poeta contemporâneo, SN mantém-se contudo ligado ao sentimento lírico por vários poderosos fios: pela rima, como no exemplo anterior, e por todas as formas de expressão musical, como a rima interna: «nas têmporas do tempo,/ puro sangue» e ainda juntando rima externa, interna e repetições sonoras por vezes funcionando simultaneamente como rimas: «o imenso/no incenso».

Vai mais longe, em processos quase fisicamente arriscados, como fazendo inclinar repetidamente, a ameaçar queda, um «que» como tijolo saído da construção, ou gárgula a escorrer, no final dos versos:

« firme em suas quatro patas. Que,

cordeiro ou pomba,

murmuravam no ouvido

as palavras satânicas? Que,

outra antiga ação,

lhe arrancava dos olhos

o para além do teto? Que,

mais que o que do que,

ocultava a imagem? Certo!»

Arriscando ainda mais, usa os versos como metalinguagem onde pensa a língua:

«Ask a question? É isso aí!

Na minha língua, não podes

perguntar perguntas. Fazes

perguntas, ou perguntas

simplesmente»

O Poeta olha através da transparência das coisas com o olhar transfigurador do mágico («outro azul cintila»; «este olho enxerga outro nauta,/ lá»), numa poética para além dos limites da lucidez («pretensamente lúcido»), servida por uma sintaxe onde a aparente incoerência penetra sentidos expandidos («ponho-me a rezar/ao deus que me criei») interpenetrando mundos («faço-me aranha») numa espécie de interseccionismo reinventado para aquilo  que poderíamos designar como uma tentativa de explicação de Deus: «bastaria leve ruptura/de ponto ou linha,/para que o mundo/que é seu/negasse o próprio nome/ou, sem nós,/falecesse de perfeição». Deus, esse ser frágil e dependente da humanidade. Num leito poético muito humano, sensorial («o grito do louco/riscando de vermelho o céu azul»), ainda Deus, o grande dramaturgo («o grito do louco/riscando de vermelho o céu azul») e o cão («cão celeste») é anjo («o cão é a companhia/que volta os nossos olhos para a luz/ou nos compassa o passo»). Este cão acompanha o ser humano («esperando o Menino,/e acompanhado do meu cão») tal como este é acompanhado pelas estações e assim ambos percorrem o tempo a ele se moldando: «o cão/enreda a primavera/com todos os seus excessos». Mas também é companhia de deuses: «o deus retorna/com seu cão».

Há nestes poemas uma espécie de inocentização do mal a que só um cão poderia proceder («na depravação absoluta/um dedo de inocência/tocando o mundo,/a cara de cão, a cara/de homem, a cara/de nada/e a cara do deus/esquecendo o nome na inclusão de tudo»), conferindo a esse mesmo mal um estatuto de naturalidade («às palmas infantis,/a alegria do cão ou do neto/em torno de ti faz-se incontrolável »), sendo isto possível pela presença do cão «no coração», uma outra forma de ganhar coragem para «atravessar neste mundo/como quem viaja em seu quarto».

O cão é, assim, a figura de convite que me conduz na leitura do infinito que é este livro e sem a qual me perderia. Nesta poesia erudita, semeada de citações, alusões a uma imensa herança religiosa, histórica,  cultural, artística, literária, poesia erudita, mas não menos sábia, sigo o trilho do cão, a constelação pela qual me oriento nesta longa via láctea («um cão atravessando os fios da Via Láctea») concorrida em cruzamentos e múltiplas vias: «a remissão inicia/quando começa a compreensão/do cão, da loba, o companheiro/da concha e do bordão/no caminho da estrela».

Cão de guarda e seu aparente estereótipo («um pastor e seu cão»), cão de saber («e isto soube sempre o teu cão») e cão de poder: «Este é o poema/que meu dia ilumina/e meu cão transfigura», o que, perante mim, mais do que justifica a escolha deste caminho:

O cão «sábio» («o meu cão é sábio e diz/o que não diz») e livre («solto da trela»), aquele que «sacode a coleira» é múltiplo e complexo: «bicho/e figura/ou constelação»; cão elemento, cão vento: «cão enrola, na rua/os ventos do seu redemoinho»; cão quase Deus: («até o infinito»; «o grão imemorial, como um cão»). Com sua cauda de poder, participa dos milagres do mundo («o cão transitará o seu caminho/libertando o réptil»); cão transcendente,  ao qual ninguém ou nada apaga o riso, porque pode uivar e ainda que seja «o seu uivo longo e sozinho», não é um monólogo: «outros cães respondem». Este cão que são muitos cães («mil cabeças/na clareza cósmica») e é só um, é acima de tudo o cimo de si, a sua cabeça, aquela que sustenta a cara, que não perde a face. Cara de cão, para além de dupla constelação, como dupla face, é máscara («a cara de cão esculpida»), enigmática («muito minha /mas não compreendes»),  precisamente como a máscara deve ser, por isso sagrada. Então, ainda que a derrota pareça avassaladora e «morto de fome o teu cão», ainda assim:

                           «podes recomeçar

            no campo devastado

a lenta e longa marcha das efemérides

e dos eventos, como um sol

nimbado de lua,

até a reposição das coisas no seu lugar

                     axis mundi

com fatal recuperação da tua dignidade».

Com o eixo do mundo, mais uma vez, agora no seu duplo “i” no centro do poema, como a poesia visual que a esta estética não é alheia tão bem sabe, dispondo o poema como uma obra plástica.

Não é caso único, outros é possível encontrar no desenho do livro, o cão druida e alquimista dispõe geometricamente as palavras sobre a página como o ilustrador sobre a história, como o mago sobre a bancada:

«Enrolado de espiral, aberta na palavra

que ocioso arrancas

do sangue, e armas em cruz

ao ranço fatal da Máquina do Mundo:

Sator arepo              opera rotas

                    TeNet

Rotas opera              arepo sator

                         e

                   viceversa

*

 

Tudo o mais sabiam os druidas

suspendendo antas ou plantando

                   menHirs»

Estando o “i” ou o “e” que se lê “i”, mais uma vez no lugar central, ou da luz.

Tal como outras vezes é o próprio corpo do cão, a bancada do alquimista ou do mago, e o seu lombo o lugar de onde surgem estrelas:

«as cores se apagassem

e, jubilosamente, cintilassem

no lombo escuro

de um cão.»

 

Afinal, pelo meio de todo o mal, fracção e perversão, esta poesia crê e cria a redenção:

« O rei está dentro de ti,

não é exterior

e nunca aos teus pés virá depor

os tesouros terrestres.

Porque os bens tu levas dentro,

estão votados à morte

e na tua semente já mora

            a destruição.»

É o cão, que entre as ruínas de Pompeia e a cruz, eleva madeira e pedras e completa os desenhos apenas esboçados pelos ângulos da cruz, assim criando espirais com que se eleva sobre os autos-de-fé. O cão multiplica as máscaras para se proteger, para poder Ser e salvar a face:

«a cara desse cão, devoluto

nos bosques, antigo

a ladrar para o corvo

e a buscar o castelo,

na voz da mãe dizendo

que a razão de estado

é razão

           de loucura».

É o «Regenerador e seu cão, em campo talado/de novo plantando a vida, superada a morte», pois por baixo dos escombros existe um «menino» que:

«buscava a merenda

na hora do recreio,

da maletinha marrom

saltava a banana de ouro

tresandando o papelão grosso,

onde o fecho fazia trec,

e à imagem do augusto

mordia os sabores do inferno

— metade cheiro de fruta

a iludir o fastio, e na outra metade

a podridão, hora

de voltar aos deveres, vendo Israfel

oculto no ar da aula,

que continuava a soprar.»

Menino que não desiste da Terra Prometida, mas sem «salvadores do mundo»: «Livre-nos, Deus!»

E a cara de cão é, como em S. Cristóvão,  «olho de homem»:

«Como se me fez esta cara de cão? Pois,/como se te fez esse olho de homem». Não há dúvida, são «os olhos/do teu cão,/transformado em ti».

Cão lírico e surpreendente de tão angélico, de tão humano:

«que brota em cima do arco-íris

seguro pelo olho deste cão

no meio do pelo, fixo

em âmbar, fogo, ouro, e posto

a rir»

Por isso continua o Poeta atento ao cão que «Longe,/uivava». O mesmo que, na escola, pelo meio da voz do mestre cada vez mais distante, com a geometria sagrada salva a geometria ensinada e as formas já são presépio e dos arquétipos da antiga gruta salva-se «o touro longínquo,/tangido pelo cão». É que este cão, não deixando de ser animal e como já vimos, humano e anjo, é ao mesmo tempo redundantemente, guardião sagrado do sagrado:

            «como um cão,

            guarde o corpo do santo, ou seja ali

            de Sagres o guardião».

O trilho do cão é o aquático caminho do Santo, o único que é seguro seguir, atravessando rios:

«Soltar, ou alçar, e

por íntima saudade,

que faz estar aqui

o que esteve lá atrás

molhado de futuro,

sacudir a morrinha

como um cão faz com a água

quando sai meio de viés do rio»

Do conhecimento do mito ao reconhecimento aos que, como Yung, designado «o chaveiro do tempo intemporal», possibilitaram que:

«vamos buscar juntos

mais no fundo,

enquanto um cão de plumas

uiva, cintilante e sereno, os compassos

da flauta, mágica

no lado escuro da lua.»

Esta poesia, sendo busca, lanterna no escuro, interrogação, não é a da procura fácil, muito menos linear:

«e, na luz, o cão

devorando a Lua,

ou tu, arvorando o Sol,

o mundo todo se ordene, tim-tim,

            na copa de Baco»

Porque este cão é um prestidigitador cósmico:

 « Em torno, o cão

brincava de arco-íris,

Melquisedec numa ponta

e Tobias, do peixe, na outra.»

Ele tem os segredos celestes:[19]

«uiva o teu cão

arcaico, e sua goela

regulada minuciosamente

ao mecanismo da lua»

Não esquecendo, contudo, as coisas da terra, como o amor entre um homem e uma mulher:

«É claro, se a tomas

como um cão de mostra, e deixas

que ela te tome como um cão de rastro,

na manga ou no mato

não resta escapatória.

Dia mais, dia menos,

estareis como um cão e gato:

em vez do oaristo,

aristos.»

Muito interessante, absolutamente surpreendente e feliz este jogo poético entre «oaristo» e «aristos»,  em que o grego «aristos» num contexto linguístico português pode ser interpretado, na liberdade do poeta, como um plural, contendo por isso em si em forma repetida o melhor, logo uma oposição ou impossibilidade, uma espécie de luta entre dois que pretendem Ser contra o outro. Mostrando como às vezes o amor, ou o «aristos», ao contrário do «oaristo», se apresenta como luta e prisão e mais uma vez é o cão a medida do cárcere, como já o foi da liberdade. Da nossa e da sua. É uma escolha e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade:

            «Eu posso atar o pescoço do cão,

            posso aprisioná-lo

            na sua fome ou na minha palavra

            e meu afeto, posso mantê-lo

            junto de mim até a morte,

            posso retê-lo até,

            seu atavismo entretanto

eu não amarro.»

Talvez por isso, aguardando o veredicto dos deuses em concílio, «o cão ladrava/num canto da esquina,/segurando-se ao uivo».

E nem sempre a sua face é bela: «essa dupla face/de cara monstruosa». Porque «o rio/de leite» tem seu leito «sobre o rio Letes», fatal condição, numa existência onde até o amor é assassino.

É traduzindo talentosamente para a sua linguagem poética Oscar Wild[20] e integrando-o no meio do seu poema que expressa esta tremenda verdade:

«Pois! Todos nós matamos

o que mais amamos.»

 

Destrói as máscaras, como outras vezes retira a própria máscara de mago ou poeta e coloca a máscara de cão: «põe-se a ladrar»; «não pergunta/e, rubro,/limita-se a ofegar em ti/total, com a beleza inteira».

Tempo de ser apenas cão, quando «acompanha» com «seu focinho de bicho» e «segue teu passo». Ou «subitamente para». É o cão na caça, quando «é difícil dizer/quem fareja,/(que é bicho? que é homem?)/unido em tal forma está/quanto vive e morre». Por isso «O cão/nem uiva nem ladra, arfa/à lua em crescente» ou apenas «intempestivo/o cão salta, contente» e «te acompanha».

Este é o cão usando como máscara o seu próprio rosto:

«Pachorrentamente, o cão atravessa o lajedo xadrez

e vem estirar-se ao borralho, onde a cinza cai acesa

nas brasas do velho tronco de carvalho.

E fica assim, o focinho entre as patas

igual a todos os cães».

Aquele cujo sono «demora a morte e o inverno». Embora não haja máscara que os salve do destino comum, homem e cão: «é a paisagem/em que jazes com teu cão/sob este rosto arcaico».

Está o Universo certo desde que não o tome a «ilusão/de tomar um cão por gato/ou caçar com gato em vez de cão».

Aqui está um importante princípio desta arte profética que é o de saber dar os nomes às coisas por conhecer «a indistinção do cão […]/ à suave magia do poente»,  um cão que, com toda a naturalidade, apenas aspirará (ou nem isso…) à poética de um Caeiro, «cão sem análise», como quem

           «assim inteiro,

            do todo me inteirasse,

            inserindo-me em tudo

            quando não mais quisesse reter esse real

            que designo, vão desígnio

            de querer dizer

            o que não se alcança dizer

            e, sem dizê-lo, dobrar as riscas do vário

            no único que nos converge.»

Aspiração de poeta a este olhar translúcido de Caeiro ou cão, cujo mundo seria assim, e Caeiro não o teria descrito melhor:

            «tudo

            somaria a paisagem, íntegra

            que passa, sim, nos olhos de quem passa

            mas continua lá, e fica

            além de mim,

            pois sou eu só

            que vou passando.»

Acontece, porém, que este é o cão dos mitos, um cão «prodígio», o que «olha, com olharsimbolo/reflexo», aquele que é «senhor de dois mundos», «metido entre lobo/e cão,/bem e mal» e «ao lado do diabo», atravessa «as cascas da emoção» e domina os elementos: «troca os elementos/em sua circulação». O cão guerreiro «armado/de escudo e lança». Um cão de olhar profundo, pois não foi ele o que quase conheceu o afundamento sob o peso de um Deus?

Recordemos o ponto de onde partimos, que este «prodigioso» cão é aquele que «alcança as margens, espanejando água», um cão que «nada nas dimensões da peça,/voga seguro/e é, nesta água azul que a tarde derrama,/um campeão vigoroso».

Ele é o símbolo da salvação, o que suportou sobre seus ombros e por isso o salvou, o Salvador. O cão que dá coragem, que no «limite insuportável/de toda a minha capacidade de suportar/o cão gargalha, vindo enredar-se aos meus pés/em silêncio grave» e me permite a segurança ou voltar «para meu repouso» enquanto «um cão ressona». E mesmo quando ali fora «um cão faminto fuça os detritos», «meu cão dormindo recomeça a voar». Ressonando, voa e salva.

Este cão bússula («Meu cão é que me diz,/e uiva dourado: este/Este, a oeste/do Oeste, posto a este/do Este preso a Oeste,/é toda a origem»[21]), não é apenas o ponteiro que reorientando ocidenta o horizonte, é a própria explicação do Começo.

O cão que «se atravessa no caminho» é Hermes, que transporta o Poeta para o «velho café, onde o estudante/comia», numa «tardia peregrinação,/do que és agora, e eras antes», «só porque um cão atravessou teu caminho/enquanto atravessavas a rua/que não era dele,/e se pôs por ali a buscar o rabo/com ganas de morder, num movimento de roda/não sendo nada disso.» E é o «não sendo nada disso» que nos alerta para quão longe estamos já de um olhar opaco à Caeiro. Esse não teria, ao contrário deste, a saudade da liberdade:

«o que há

nos olhos de um cão

que contempla, além de si e do tempo,

é a floresta densa

e o instinto, saudade

de quanto o deixavam livre

as prisões da fome»

Ou de como uma prisão tem sempre uma porta dentro que liberta.

Este livro é um texto impensável, inesperado. O poema rodeia o cão e observa-o por todos os prismas como nenhum cientista conseguiria fazer, mas apenas um grande poeta ou um apaixonado saberia: interroga-o («Que leva a sonhar um cão/olhando, em torno?)»; mede-o («Entre homem e cão, a distância é a mesma/que entre cão e lobo»); empodera-o («Dorme o cão,/e a tua rede embala/o que existe»); usa-o («contemplas teu cão a correr/o espaço, que moves/sempre que o senhor da forja/sofre de ingratidão»); cronometra-o («Esta velocidade de cão/correndo da macega ao bosque,/não há como contar/em medidor mecânico»); olha-o profundamente («e vai/e vem, metade lobo/metade cão, impudico e contente»); ouve-o («Ganha sua voz o meu cão»); atravessa-o, trespassa-o com a visão («a verdade de um cão/há de ser essa cabeça pendida/e essa língua de fora, em marcha/por todas as derrotas»); humaniza-o («o cão, obediente, ao mesmo tempo/distante, humilde e orgulhoso/no seu porte de cão/ajuda a indefinir este crepúsculo/que me envolve»; «Ao sabor da invenção,/construída a ossatura do cão,/de repente é a razão/que ilumina toda de instinto a tua consciência»); reflecte-o (de mim recebe/essa cara dócil»); brinca com ele («Jogo de esconde-esconde/entre mim e o meu cão); entrega-se («Brinco com meu cão!/Ao cair do sol, cansado/volto para casa cheio de brincadeira,/feliz por saber que fiz o meu cão feliz»); perde as ilusões («e vejo, sem ilusão,/que foi meu cão quem brincou comigo»): compreende-o («Entre a obediência de cão/e sua argúcia»); vê-se nele («e um cão, rendido ao confortável,/baixa a cabeça e obedece»); acrescenta-o («Meu cão começa num ponto/encerrado em si, e progride/à medida que o ponto avança/sobre si, a cadência das patas/em curva cada vez mais regular e maior./1, 2, 3, 4 são as patas,/5 é o ponto de reunião,/6, 7, a progressão/e a reflexão não pára»); com ele se pacifica («Chega o cão, serenado»; «com muita tranquilidade e com seu cão»); infinitiza-o («No friso figura o cão,/que reenceta/infinito os círculo»); paradoxiza-se com ele («Eu e o meu cão, próximos/e distantes, somos indefinidos/no limite em que estamos»); une-se a ele na interrogação epistemológica e ontológica («Quanta coisa me separa,/na árvore, do meu eu e do cão!»); relativiza-o («Que sabe um cão,/nas suas sabedorias,/de toda essa tralha abstrata?»); anula-se com ele («não haver mais, nem cão nem homem»); justifica-se ou explica-se com o cão («se eu não estivesse aqui/imperativo, ridículo/como um rei sem trono,/não obstante dando ordens,/tentando compreender/o que me ultrapassa, a tocar/no fugidio,/que esperança haveria para o cão?»); associa-o ao princíoio da incerteza («não se alcança, esse ponto/finito a que chego, e parte sempre/noutra direção, como a corrida/do meu cão»); admira-o («Só meu cão lambe tal perplexidade»); amplia-o («baixas a mão nos lombos do cão,/sobes-lhe a carícia/macia/é a lomba, a loba, a pomba/com dois olhos de cobra trocando de fulgor/nos teus»); absolve-o-o («o cão, todo inocência»)[22]; ama-o («olhos que se cruzam/e compreendem, inteligentes de ternura»); coroa-o («cão/atravessando imperial os arcos do teu paço»); espiritualiza-o («Quem, à fulguração do ouro/ou tons de âmbar fugidio, podia adivinhar/a metafísica que ensina a matéria/e o corpo deste cão?»); eterniza-o («volta sempre esse cão/guardado na memória»); sagra-o («em porte inteiriço/que o torna/porta de templo, antro/de gruta, pedra/e cão/erguido, portentoso/triângulo»; «sagrado como cão»; «Atiro os dados/depondo a coroa na sua cabeça/e, coroado, de cara suja/meu cão vai dormir»); e com ele explica o mundo («e mundo/e homem/não são mais que o novelo redondo,/ou cão/em si enrodilhado, cão também/sem seu nome»).

Esta Poesia é um salto no abismo e o salto no abismo é a libertação da grande grelha ou grade da humanidade, a acusação e a culpa, de que apenas o cão e seu amor animal, total, poderá salvá-la:

«aqui está o teu cão, que

equidistante da macieira

ou tuas teorias

é como um horto de paz

no teu ressentimento.»

 

Nas prateleiras das livrarias imagino este livro numa nova secção para ele inventada, uma disciplina para a aprendizagem da ciência através do amor e da metáfora a que ainda não sei como chamar, mas pela qual fiquei a saber da existência de «fios do coração» e de anjos infinitos e outras maravilhas coexistentes com os demónios deste mundo aflito onde nos movemos e os poetas também.

 

 É difícil a quem se proponha escrever sobre esta poesia, não ceder à tentação de transcrever longas passagens. Porque as ideias se entrelaçam nos versos e a beleza é transversal do primeiro ao último. Cortar o que vem antes ou depois de uma passagem selecionada para ilustrar uma ideia é renunciar à perfeição da beleza. E no entanto assim tem de ser, ou arriscar-nos-íamos ao perigo anteriormente aludido: a que este texto excedesse em páginas o seu próprio objecto de admiração.

 

Santiago Naud é um Poeta (injustamente, para ele, mas sobretudo para nós) ainda não suficientemente conhecido em Portugal. Faço votos para que este livro possa ser distribuído no mercado livreiro português, que aqui seja lido, falado, transmitido. Para nosso bem. Porque não ganhamos um, mas três poetas: um poeta brasileiro reconhecido pelos seus pares, um poeta a escrever em português páginas douradas que desconhecíamos, e um poeta universal que não poderíamos, por mais tempo, ignorar.

 

27 de Setembro de 2017

 



[1] As palavras «abismo», «face», rosto», «cão» são algumas das mais presentes neste livro: «A face para os abismos»; «ele mesmo um abismo»; «Nós somos: o cão, o pastor, o menino,/às margens do rio das águas profundas/ante o espelho liso de líquida negrura...»; etc, etc, etc.

[2] José Santiago NAUD, Cara de Cão. Excepto quando devidamente identificadas, são deste livro, e portanto deste autor, todas as citações no texto.

[3] «eu presto ouvido

à voz cheia do cão, que me fala

de bruxos e navegantes.»

[4] E minhas faço as palavras do poeta:

« Para aqui me trouxeram,

pois mesmo vindo por conta própria

é sempre alguém que nos traz»

[5] Sem deixar de ter corpo, sem deixar de ser matéria:

« o que sabe incidir um cão

quando morde e baba, em nossa mão

quanto sua boca toca e a ultrapassa.»

[6] António TELMO, “Viagem a Granada”, in: Volume VI das Obras Completas: Viagem a Granada seguida de Poesia, Ed. Zéfiro, Sintra, 2016.

[7] Aquando da Reforma Ortográfica de 1911, insurgiu-se Teixeira de Pascoaes: «Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério… Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal». Santiago Naud põe o cão a correr no lugar do y a escorrer.

[8] «figura de cão, atento à chaga aberta

do dono, mostrando o joelho

e o bordão na mão

ao fim da Via.

Sant’Iago!»

[9] « Este cão

maior, pontuando o fim da via

do leite, é transição

entre cão e lobo»

[10] «desunindo as pontas do Caminho de Santiago,

como aquela loba em seu palácio».

[11] «Tobias foi,/tão longe, que hoje/quase me esqueço do meu cão.»

NAUD, Santiago. Ofício Humano. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966.

[12] NAUD, Santiago. Conhecimento a Oeste, Lisboa: Moraes Editores, p. 28, 1974)

[13] Nas palavras de S. Naud: «Explicação de Juan Capittin, camponês argentino da província de Buenos Aires, em conversa com o psicólogo Basílio Benítez, autor do livro Rabia, Indignación, Tristeza – em jaque-mate (1974), que tive o privilégio de ler ainda inédito em 1977».

[14] Numa atitude estético-filosófica a que António Telmo não hesitaria em designar como razão poética.

[15] Estando aqui o “i” colocado quase rigorosamente no lugar que, na árvore da Kabbalah, é atribuído ao “yod”. A propósito deste assunto, refere Pedro Martins: «Na Gramática Secreta da Língua Portuguesa, António Telmo é expresso em referir-se ao i, enquanto yod, posto no lugar de Tipheret, “como um Sol irradiante”, como “a luz ou o seu princípio”. Neste momento, uma correspondência solar é algo que não nos deve já surpreender». Pedro MARTINS, “António Telmo e Teixeira de Pascoaes: Sete Notas e uma Oitava acima, para uma Kabbalah pós- atlâmtica”, in: revista A Ideia, 2015.

[16] «É evidente que existem vários modos de articular os vinte e dois elementos, pelo que é possível multiplicar o número de fonemas da língua portuguesa. Todavia, só aqueles funcionam como traços distintivos. Eles bastam-nos para distinguir umas palavras das outras quanto ao seu significado. Não precisamos de mais nenhum para ser uma língua perfeita e totalmente significativa. Se deixamos de utilizar um deles, toda a fala se corrompe.»

[17] António TELMO, Volume II das Obras CompletasGramática Secreta da Língua Portuguesa precedida de Arte Poética, Ed. Zéfiro, Sintra, 2014.

[18] «cão das plumas», presença recorrente nestes poemas. As plumas são mais do que adormo, são um dos símbolos do poder e transcendência do representante, na terra, do ser divino nos céus:

«Mas teu cão, o negro,

luzidio e distinto

continua nos céus, nobre e incólume,

os gestos como quem nada

e manda,

dono dos ventos ou do aberto,

alto, muito alto,

ao alcance dos olhos

que a tua mão, sem tocá-lo,

toca

além do destino.».

[19] «conhecimento do meu cão

solto com as sabedorias da lua»

[20] No início do livro, como epígrafe:

«yet we all kill the thing we love

by all let this be heard

some do it with a bitter look

some with a flattering word.»

[21] «Há quem habite a origem

como este cão».

[22] «O cão levanta o seu olhar

inocente, inunda-me

de luz»

 

CORRESPONDÊNCIA. 48

26-07-2020 13:44

Carta de Dalila Pereira da Costa para António Telmo, de 12 de Junho de 1977

 

Porto, 12-VI-1977

 

Ex.º Senhor António Telmo

 

                        Com muito gosto de [sic] incumbo hoje da missão que me pediu nosso Amigo, José Santiago Naud: fazer chegar a suas mãos, este poema. Nosso Amigo, quando me escreveu da Argentina, estava já de partida para outro Centro e não mais tinha consigo os endereços dos Amigos: me pediu, assim, para me encarregar aqui de alguns envios. Sua própria morada, António Telmo, me era desconhecida: escrevi a António Quadros, pedindo-a: entretanto, ela me chegou esta semana, mas por outras mãos, (e por outro motivo): pelas de Agostinho da Silva: como vê, a rede está bem tecida: desde o alto. E aqui, na força da fraternidade.

Goze toda a beleza e fidelidade a uma Pátria e a um seu eleito (a quem é dedicado o poema) desta obra que hoje receberá, juntamente com esta minha carta.

E peço, queira aceitar, pela sua própria obra e dedicação a esta Pátria, toda a minha admiração e gratidão: seu servidor bom.

Com os cumprimentos e consideração,

 

[assinatura manuscrita]

Dalila Pereira da Costa

 

[Carta dactilografada, à excepção do local, data e destinatário.]

 

VOZ PASSIVA. 92

26-07-2020 13:00

Damos hoje a conhecer aos leitores uma recensão de Filosofia e Kabbalah até agora omissa na bibliografia passiva de António Telmo. Trata-se de um escrito não assinado, originalmente publicado em A Capital, de 1 de Abril de 1990.  

 

 

Fontes Judaicas - Redescobrir a «Kabbala» pela mão de António Telmo[1]

 

Investigador livre da «kabbalah», assim ortografada por vontade do autor, o escritor e filósofo António Telmo pertence à escola da filosofia portuguesa que se diz, na história das ortodoxias ocidentais, portadora de uma heterodoxia natural. Quer dizer: seria assim como uma coisa de nascença, que ou se tem ou se não tem. E nós, portugueses, temos.

O pensamento de António Telmo não é, portanto, à partida e à letra, acessível ao leigo, suficientemente contaminado pelas ideologias europeias que nos têm invadido através dos séculos dos séculos, ámen. O livre filosofar de António Telmo pressupõe não só uma nomenclatura especial, não encontrável no «marketing» das ideologias que se vendem e fazem vender, mas também um terreno cultural diverso das ideologias dominantes.

Telmo, o filósofo, parece encontrar essa nomenclatura, esse discurso, esse ponto de referência e essa heterodoxia nas fontes judaicas do nosso portuguesismo. No sefardismo «kabbalístico», como dizem as fichas enciclopédicas. E é nesse caudaloso rio do judaísmo ibérico, com sua vertente esotérica sempre latente, que o autor da «Gramática Secreta da Língua Portuguesa» se apoia para a tarefa tremenda e ciclópica que é pensar livremente em Portugal, País de todas as servidões e polícias mentais. Filósofo, para o escritor, é assim apenas o que filosofa, lapalissada que talvez o não seja tanto como parece. É que sendo filósofo «apenas» o que filosofa, isso pressupõe que ele não propõe nem impõe um sistema já arquitectado, o que na prática corresponde à derrocada de todas as escolas, academias, universidades e outros antros do negócio.

 

Nexo estruturante      

Com o livro «Filosofia e Kabbalah» (*), feito de apontamentos aparentemente desconexos, é a linha de liberdade e coerência interior que dá à filosofia de Telmo o seu único nexo estruturante. Não há sistema, há um rio heraclitiano que corre. Em obras anteriores como a «História Secreta de Portugal» e a já citada «Gramática Secreta da Língua Portuguesa», é ainda a vida das palavras e as raízes da língua portuguesa que movem o investigador. Daqui à «Kabbalah» vai um voo de águia.

Assumindo explicitamente a herança do filósofo Álvaro Ribeiro, que considera seu mestre, António Telmo parece adoptar a máxima de José Marinho que orienta hoje outras personalidades da filosofia portuguesa, tanto como o criacionismo de Leonardo Coimbra ou o saudosismo de Pascoaes. «Tudo já foi pensado, agora só precisamos de hermeneutas» teria dito José Marinho. «Mas – replica António Telmo – a hermenêutica é a mediação do visível para o invisível ou, como gostava de exprimir-se o mesmo filósofo, do patente para o oculto.» Daí o seu mergulho nos labirintos cabalísticos, exercício físico que torna esta obra não só salutar e higiénica mas terapêutica no melhor sentido. Só um senão: se o cristianismo era uma doença histórica, a verdade é que o judaísmo, mesmo sefardismo, não ajuda muito à cura. Até pode ser que agrave, como se deve ajuizar pelo capítulo que Telmo dedica, na esteira de Álvaro Ribeiro, à «valorização do sacramento do Matrimónio sobre o sacramento da Ordenação». Livra! Antes o cristianismo devidamente desinfectado, então!

 

Públicas vantagens das secretas cabalas

Publicamente, este pensamento pró-cabalístico tem vantagens higiénicas pelas críticas que faz às teias de aranha das nossas instituições. Ao estudar as «tradições heterodoxas da filosofia portuguesa», por exemplo, o autor da «Filosofia e Kabbalah» tem necessariamente de criticar o «ensino público» e isso faz sempre bem à saúde pública, especialmente mental. «No ensino público onde se dão – segundo o autor – os filósofos atrás uns dos outros, em dois, três meses, esquecendo a profunda, constante, demorada, no entanto instantânea, vivência de toda a vida a pensar, criar e compreender o próprio pensamento. Quem ensina Hegel e o discute, não pode evidentemente confessar aos alunos que o não compreende.» Pois é, António Telmo: há mais quem se queixe do mesmo.

Utópica em vários sentidos, a «démarche» dos filósofos portugueses, entre os quais António Telmo é já figura relevante, defronta-se com uma dificuldade de fundo, entre outras: as influências que nos rodeiam como povo, até ao subconsciente colectivo, não são, infelizmente, Leonardo Coimbra, José Marinho, Bruno, Álvaro Ribeiro, António Quadros, Pascoaes, Agostinho da Silva, Teixeira Rego e muito menos o «Zohar», o livro do esplendor ou a «Poética» de Aristóteles. Somos hoje uns desnacionalizados filhos (às vezes da mãe) de Descartes, Kant, Hegel, Marx, Comte, Freud, Darwin, Pasteur, Pavlov e outras tão grandes aberrações como estas. Afirmar uma «heterodoxia» portuguesa no meio do mercado onde se vendem só estas ideologias, estes ismos, estas ortodoxias que se internacionalizaram, parece tarefa para muitas gerações. Defrontar as «internacionais do Terror» só com o saudosismo de Pascoaes, o criacionismo de Leonardo, o neocabalismo de Telmo, ou até mesmo o neo-hegelianismo de Orlando Vitorino, não será culturalmente suicida?

Os homens da filosofia portuguesa, muito prestáveis no seu conjunto e se lidos com os óculos da complacência, terão no entanto que aguentar, ainda durante muito tempo, a incompreensão e o sorriso irónico da arrogância positivista, vírus muito mais persistente e inoculado na nossa vida mental do que a SIDA.

De anatemizar o positivismo não se esquece António Telmo, ao afirmar: «É uma triste situação a nossa esta de portugueses, de nos vermos obrigados a relegar para a poesia o estudo de tão altos problemas. Ali tudo é admitido, até porque se não toma a sério. Por influência dos positivistas, dando a este termo a máxima extensão, o homem português procede como um ser duplo, cindido entre a “razão” e a “imaginação” e terá de ir buscar à autoridade de uma disciplina estrangeira a convicção de que lhe é permitido meditar em prosa quando verdadeiramente lhe importa. Assim, neste passo, é a Freud que recorremos.» Também aqui, António Telmo, há mais quem se queixe do mesmo.

Digno do melhor pensamento radical-ecologista é o capítulo «Como a perversão na linguagem leva à demência na sociedade», texto extremamente perspicaz deste escritor que, ao publicar «Filosofia e Kabbalah», nos deixa um dos livros mais desafiantes do ensaísmo português nos últimos tempos.

 

____________

(*) «Filosofia e Kabbalah», de António Telmo, Guimarães Editores, Lisboa, 1989.     

    



[1] Nota do editor – Publicado, não assinado, originalmente em A Capital, de 1 de Abril de 1990.


 

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