Blogue

INÉDITOS. 73

07-04-2018 17:31

Igreja Matriz de Arruda dos Vinhos

 

O Sagrado na Arquitectura[1]

 

Dado que o tema que me coube é O Sagrado na Arquitectura, parece-me um bom começo ver do que vou falar, perguntando à palavra sagrado e à palavra arquitectura o que é que significam.

Vejamos, pois, o que nos diz a primeira delas. Sagrado provém de uma raiz antiquíssima, a raiz sec, que, pelas duas consoantes que a constituem, combina em si a ideia de separação e a ideia de ocultação. A ideia de separação está bem clara em secção e sectário. O génio fonético que formou a língua portuguesa, o génio do povo a que pertencemos, transmutou o som c em som g para criar outra palavra que é como que a sua irmã gémea. Falo da palavra segredo. Entre sagrado e segredo há só a diferença das vogais. Mais erudito, porque mais fiel ao formalismo do étimo, é o adjectivo secreto. Dizer o sagrado na arquitectura é quase o mesmo que dizer o secreto na arquitectura.  A diferença de vogais. É como se estivessem referidas uma ao exotérico, a outra ao esotérico, neste caso da arquitectura.

O que é que nos diz a segunda palavra significativa do meu tema? Diz-nos, desde logo, que é formada de duas: arquê e tectura. Ali, interrogando a palavra sagrado tivemos de saber algum latim, tivemos de relacionar, através do português, sacratum e secretum. Aqui, agora, temos de saber algum grego. Como as duas línguas são de origem indo-europeia, entendem-se bem uma com a outra e a nossa com elas, que de ambas deriva.

A primeira parte da palavra é o substantivo arquê, o primeiro a aparecer no Evangelho de São João, que, como sabeis ou não sabeis, começa assim: En arquê sên Lógos, in Principio erat Verbum, no Princípio era o Verbo ou o Lógos. Arquê significa, pois, Princípio, mas, notemo-lo bem, não no sentido de começo, porque a história só aparece ontologicamente depois. É como se lêssemos: no secreto do secreto se originou o Verbo, porque arquê, muito longe de significar começo, é propriamente o arcano dos arcanos, a arca que encerra todas as possibilidades que, postas em acto, formam ininterruptamente o Universo, o arco que lança a flecha de luz.

Só nos falta ver o que é “tectura”. Não existe como vocábulo independente em português, mas vê-se logo a sua afinidade com outras que têm essa existência como textura e tessitura. Deriva do verbo tectainô cujo sentido é este: a arte de construir em madeira.

Assim, a arquitectura, pensando a palavra como um todo, será a arte de construir em madeira segundo o Princípio.

 

António Telmo    



[1] Nota do Editor – Esse texto, que se encontra inédito no espólio de António Telmo, consta de uma folha A4 por si dactilografada e corresponde, seguramente, ao início da comunicação que, sob o mesmo título, o filósofo apresentou à VII Semana de Estudos das Religiões, realizado em 12, 13 e 14 de Novembro de 1997 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A organização do evento foi do Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões daquela Universidade. Na edição do Diário de Notícias de 15 de Novembro daquele ano, a jornalista Antónia de Sousa, também ela oradora naquele encontro com uma comunicação sobre “A Iniciação feminina”, publicou uma reportagem sobre o mesmo, referindo-se à comunicação de Telmo numa caixa, cujo texto transcrevemos:

 

«O manuelino é uma arquitectura feminina

As igrejas portuguesas foram sempre orientadas de nascente para oriente [sic]. “Na arquitectura manuelina dá-se um acontecimento espantoso! Há uma orientação para sul. Verifica-se isso na Torre de Belém, na porta sul da Igreja dos Jerónimos e no Convento de Cristo em Tomar”, afirmou António Telmo, ligando a arquitectura sagrada portuguesa à iniciação feminina.

“Há três imagens femininas de Nossa Senhora, nesses três locais, que estão a olhar para o sul. O sul é a orientação esotérica que permitiu os Descobrimentos. Camões situa a ilha dos Amores no Sul. O manuelino é a arquitectura feminina por natureza”, disse.»

 

VOZ PASSIVA. 81

03-04-2018 12:35
Publicamos hoje a comunicação que Pedro Martins apresentou ao Congresso Internacional sobre o Futurismo que, entre 14 e 17 de Novembro de 2017, teve lugar em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, comemorando o centenário da publicação do Portugal Futurista. Por ela se dá eco de um renovado diálogo entre Fernando Pessoa e António Telmo.
 

António Telmo e Fernando Pessoa: Vanguarda e Tradição ou o direito do avesso

Pedro Martins

 

1. Portugal Futurista foi entre nós um marco miliário da Vanguarda e, simultaneamente, o seu canto do cisne. Move-me, a respeito desta revista, uma aparente perplexidade: a coexistência (ou talvez, melhor dizendo, a convivência), nas suas páginas, do Ultimatum de Álvaro de Campos e de A Múmia, poema esotérico e maçónico de Pessoa ortónimo, conforme a leitura que dele fez António Telmo, no capítulo “Fernando Pessoa, rectificador da Maçonaria” da sua História Secreta de Portugal, obra que aqui consideraremos na versão definitivamente estabelecida em O Horóscopo de Portugal. Como compaginar a Vanguarda, por definição anti-tradicional, com a tradição iniciática, que é a Tradição por antonomásia? O que proponho, ou predisponho, como princípio de uma investigação a aprofundar, é a tese da existência de um contacto estrutural entre as duas realidades, em termos tais que a primeira seja o convexo, ou o direito, do que na segunda será o côncavo, ou o avesso, ambas formando uma só e a mesma realidade, como uma medalha com o seu anverso e o seu reverso. A relação, no quadro da heteronímia, entre Álvaro de Campos e o Pessoa ortónimo, tal como António Telmo a entendeu, permitirá, a final, assim o espero, iluminar o insólito desta minha proposição, porventura audaz.

 

2. Há uma essencial identificação do Modernismo com a Vanguarda. Lembra, a propósito, Fernando Cabral Martins que «o Modernismo, segundo Almada Negreiros, designa a arte e a literatura em torno da Vanguarda portuguesa» (MARTINS, F. C., 2014: 17). O mesmo Almada que, em 1965, afirmara: «Toda modernidade nasce vanguarda» (apud MARTINS, F. C., 2014: 18). Na senda de Cabral Martins, poderemos olhar para a Vanguarda como exemplificação e coração do Modernismo, movimento a que, no caso português, se não deixa de assinalar aspectos contraditórios (cf. MARTINS, F. C., 2014: 19). Almada, por exemplo, como observa ainda o autor citado, «situa-se entre Vanguarda e tradição, entre a busca do original e da origem, do futurista e do arcaico» (MARTINS, F. C., 2014: 20). Em 1957, num artigo sobre Amadeo, revelará que «o “grande pacto” da Vanguarda – Amadeo, Santa-Rita, Almada – foi proferido perante o Ecce Homo, que é uma pintura do Renascimento» (apud MARTINS, F. C., 2014: 20).

Num texto de Fernando Pessoa sobre Orpheu podemos ler: «O termo “futurista” não é aplicável ao conjunto dos artistas de Orpheu, nem, até, a qualquer deles individualmente, ressalvado o caso do pintor Guilherme de Santa-Rita, e lamentáveis episódios de José de Almada Negreiros» (apud MARTINS, F. C., 2014: 22). O mesmo fará valer, com respeito ao conjunto, para os termos “sensacionista”, “interseccionista” e “modernista”, ressalvando somente Pessoa a propriedade desses adjectivos nalguns casos individuais. E conclui: «Os artistas de Orpheu pertencem cada um à escola da sua individualidade própria, não lhes cabendo portanto, em resumo do que acima se disse, designação alguma colectiva.» (apud MARTINS, F. C., 2014: 22)

Numa entrevista a O Dia, de 4 de Dezembro de 1916, Amadeo de Souza-Cardoso dirá afinal o mesmo: «Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos agora a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola.» (apud MARTINS, F. C., 2014: 23) E lembremos ainda Álvaro de Campos, no Ultimatum: «Passae, frouxos que tendes a necessidade de serdes os istas de qualquer ismo!» (CAMPOS, A. de, 1982: 31).

 

3. Passarei agora em revista algumas características nucleares da Vanguarda, seguindo de muito perto o magnífico ensaio – “Para o Estudo do Futurismo Literário em Portugal” – que Teolinda Gersão elaborou para a edição fac-similada do Portugal Futurista (cf. GERSÃO, T., 1982: XX-XXXIX) e problematizando a relação do Futurismo com a Tradição.

a) O antitradicionalismo. O passado está morto e contra ele, em todas as suas formas, se dirige o gesto agressivo de destruição e de recusa. Todavia, no Ultimatum, Álvaro de Campos pergunta: «Onde estão os antigos, as fôrças, os homens, os guias, os guardas?» Para logo responder: «Vão aos cemitérios que hoje são só nomes nas lápides» (CAMPOS, A. de, 1982: 31). Dir-se-ia que Campos proclama precisamente a morte do passado. Mas parece fazê-lo em tom lamentoso. A invectiva que, no texto, se seguirá, e que visa Fouillée, Rodin, Barrès ou Bourget, dirige-se essencialmente ao presente (Rodin morrerá em Novembro de 1917, mês da publicação do Portugal Futurista; dos restantes, só Fouillée tinha já partido).

b) A superação do espaço e do tempo. O automóvel e, sobretudo, o aeroplano, elevando-se acima da terra, superando – negando – o tempo e o espaço, serão temas centrais do Futurismo. Escreve Teolinda Gersão: «O homem futurista sonha ser ubíquo, da mesma forma que sonha superar (dominar) o tempo: num universo em movimento, o passado não existe e o presente que corre é já futuro.» (GERSÃO, T., 1982: XXII)

Deve notar-se que, no termo da realização espiritual própria dos pequenos mistérios, consubstanciada na restauração do estado primordial do Adão terrestre, na regeneração psíquica que o há-de restituir ao glorioso corpo de luz anterior à queda, a experiência do tempo se aproxima já da experiência da eternidade: é feita em termos de simultaneidade, não de sucessão. E Pascoal Martins, no seu Tratado da Reintegração, a propósito do paraíso terrestre, fala-nos misteriosamente de «uma terra erguida acima de todos os sentidos». (PASQUALLYS, M. de, 1979: 46)

Não nos iludamos, porém. Para o Futurismo, deverá o homem transformar-se em máquina. É Marinetti quem ambiciona um homem mecânico com partes substituíveis. Lapidarmente, observa Teolinda Gersão: «inverte-se deste modo a tradição milenar de animização da matéria» (GERSÃO, T., 1982: XXII), que é justamente, acrescente-se, aquilo que, do ponto de vista iniciático, visa a realização espiritual dos pequenos mistérios. René Guénon considera a este respeito uma «regeneração psíquica» (GUÉNON, R., 2002: 210).

c) A abolição do “eu”, da subjectividade, da psicologia. A psicologia humana deverá ser substituída pela «obsessão lírica da matéria», pela «psicologia intuitiva da matéria» (apud GERSÃO, T., 1982: XXIII). O Ultimatum dá-nos vivo eco dessa aspiração, ao proclamar, mediante uma intervenção cirúrgica anti-cristã, três desígnios:

 

- a abolição do dogma da personalidade;

- a abolição do preconceito da individualidade; e

- a abolição do dogma do objectivismo pessoal. (cf. CAMPOS, A., 1982: 33-34)

 

A respeito do primeiro desígnio, escreve Campos: «Devemos, pois, operar a alma, de modo a abri-la à consciência da sua interpenetração com as almas alheias, obtendo assim uma aproximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Syntese da Humanidade.» (CAMPOS, A., 1982: 33)

E a propósito do segundo, começará por afirmar: «É outra ficção teológica – a de que a alma de cada um é una e indivisível.» (ibid.)

É interessante aproximar estas proposições de uma caracterização sumária dos grandes mistérios, os quais, numa primeira fase, visam a realização dos estados superiores do ser: estados supra-humanos e supra-individuais (cf. GUÉNON, R.: 2000: 248), que se diriam o côncavo do convexo que é a abolição da personalidade e da individualidade proposta por Campos.

Nesta fase inicial dos grandes mistérios, o homem, superando a sua individualidade, procurará identificar-se com o Universo, ou seja, com o conjunto dos mundos, que a iconografia tradicional identifica com o Adão Qadmon, o Adão Celeste (cf. BENZIMRA, A.: 2013: 10). Não poderemos ver neste último o avesso de que o Homem-Syntese da Humanidade de Campos constituiria o direito?

Dir-me-ão que as propostas que Campos, partindo daqueles três desígnios, deduz em política, em arte e em filosofia nada têm de iniciático, tantos e tais os apelos que faz à ciência, garantindo absolutamente a vinda da Humanidade dos Engenheiros e proclamando, para um futuro próximo, a criação científica dos Superhomens (cf. CAMPOS, A., 1982: 34).

Mas quando, por exemplo, e como consequência da operação que conduzirá à abolição do dogma da personalidade, propõe em filosofia a abolição do conceito de verdade absoluta para defender que a maior verdade será a soma-síntese-interior do maior número das opiniões verdadeiras que se contradizem umas às outras (cf. CAMPOS, A., 1982: 33), estará ele assim tão distante dos iniciados, que reconhecem uma parte da verdade em cada uma das diversas formas tradicionais? (cf. GUÉNON, R.: 2002a: 65)

d) O primado do objecto. Esta proposição decorre forçosamente da implosão da subjectividade e implica a ruptura com a sintaxe e com a lógica, a supressão do discurso do logos, a eliminação de toda a mediação. Prevalece o substantivo, que traduz o objecto de modo imediato, exprimindo-o em toda a sua força, e o verbo não flexionado, isto é, dado no infinito (cf. GERSÃO, T., 1982: XXIII). Esta atitude é anti-iniciática, se por iniciação pressupusermos, com António Telmo, o exercício operativo de uma razão poética, ou seja, a acção da razão que verbaliza, pensa e confere expressão à experiência do mistério. A tal propósito, escreve o filósofo:

 

(…) onde quer que o homem escreva, fale ou pense, logo surge o adjectivo e o verbo, sob pena de se ficar mudo ou fascinado pelas imagens fixas que compõem o ser. Este envoûtement corresponde ao que, num plano mais profundo, Pascoal Martins chamou o êxtase de Adão. (TELMO, A., 2015: 86)

 

Para o futurismo, todavia, o “eu” cede o seu lugar ao objecto. O homem deixa de ser o centro do mundo. A introspecção autognósica, condição no microcosmo de toda a iniciação, é postergada. Mas, ainda aqui, seria eu tentado a ver uma projecção invertida, pela extrema imersão na matéria, desse máximo de realização espiritual que constitui, no termo dos grandes mistérios, a Libertação Final ou a Identidade Suprema: o pleno restabelecimento da união do homem com a Divindade. (cf. GUÉNON, R.: 2000: 248-249)

e) A analogia. Anote-se, por fim, neste âmbito, a importância de que esta se reveste para um Marinetti: «A analogia», diz ele, «não é mais do que o amor profundo que une as coisas distantes, aparentemente diversas e hostis» (apud GERSÃO, T., 1982: XXIV). Ora, a analogia constitui o método de conhecimento iniciático por excelência; e um esoterista como André Benzimra, a propósito da analogia e das correspondências como métodos de conhecimento hermético, lembra que elas são «o que subsiste da Unidade principial neste mundo da dualidade» (BENZIMRA, A., 2012: 8) E isto

 

porque a semelhança é uma sequela da Unidade de cada vez que dela nos afastamos e torna-se uma simples correspondência, quer dizer, uma semelhança quase apagada quando nos afastamos ainda mais da fonte de todas as coisas. Dito por outras palavras, a lei da analogia afirma que o mundo e o homem – o macrocosmo e o microcosmo – são filhos de Deus e a lei da correspondência diz que os seres e as coisas são irmãos e irmãs. (ibid.)

 

4. Será agora mister que projectemos o nosso olhar sobre o exercício hermenêutico que o poema A Múmia, de Pessoa, suscitou a António Telmo. Para tanto, torna-se conveniente não perder de vista a premissa de que o filósofo parte: nesta, como noutras composições do poeta, estaremos perante «a transposição poética da experiência de determinado ritual» (TELMO, A., 2017: 166). Acto contínuo, Telmo propõe-se «fazer a demonstração deste último ponto» (ibid.), o que irá lograr ao relevar topicamente o que o poeta re-velou nas estrofes do poema. Reincidir na condensação da paráfrase seria dar pálida imagem do labor magistral depositado na desocultação. Daí que a transcrição, bem que extensa, se imponha:

Em A Múmia se rectificam as interpretações sobre o que fosse a “câmara das reflexões”, correntes entre os maçons, a que aludimos no início deste capítulo. Fernando Pessoa restitui-lhe o significado iniciático e imemorial, “que de per si se não explica”, mas paira acima dos novos preconceitos e preocupações. Usa o termo de substituição “alcova”, como Dante usara o termo de «quarto» na Vida Nova. A reflexão tem como tema a morte iniciática:

 

Na alma meu corpo pesa-me

Sinto-me um reposteiro

Pendurado na sala

Onde jaz alguém morto.

 

A repetição da palavra “chove”, senha maçónica que transmitia o significado de uma interdição, exprime a natureza secreta do conteúdo do rito:

 

Na sombra Cleópatra jaz morta

Chove.

 

Embandeiraram o barco de maneira errada.

Chove sempre.

 

Para que olhas tu a cidade longínqua?

Tua alma é a cidade longínqua.

Chove friamente.

 

O neófito, encerrado na “câmara”, onde se apagaram as lâmpadas e há apenas “como uma suspeita de luz”, sente realizar-se em si a passagem da horizontal à vertical, isto é, do esquadro ao compasso. Altera-se o tempo, o espaço e o mundo:

 

Deixo de me incluir

Dentro de mim

 

A última parte do poema está referida à viagem simbólica pelo Templo. Leva, segundo o rito, os olhos vendados. Tudo no contorno de treva adquire vida e olhar; não há objectos e alguém espreita dentro de si e de tudo. O momento final do rito de recepção no grau de aprendiz, em que a espada é apontada ao neófito, é posto em correspondência com a espinha, de que já conhecemos o significado iniciático:

 

A sensação de ser só a espinha.

As espadas. (id., 166-167)

 

5. No termo desta digressão, como entender a coexistência, ou a convivência, do Pessoa ortónimo e de Campos nas páginas do Portugal Futurista? Como entender que Vanguarda e Tradição se assemelhem assim ao direito e ao avesso, ou ao convexo e ao côncavo, de uma mesma realidade, conforme as imagens que propus? Sem pretender avançar uma resposta definitiva, devolvo a palavra a Telmo, na esperança de que nos possa iluminar:

 

Nasceu Álvaro de Campos da “necessidade” de dar sentido ao mundo moderno, que, como já foi lembrado, constituía um obstáculo, em Fernando Pessoa, ao nortear do espírito para a luz, para a luz secreta da vida em direcção à qual se esforçava por fazer convergir todos os elementos e energias da alma. E a alma esquece-se e distrai-se de tudo quanto há de «poético», no exacto sentido da palavra, de todo o naturalmente simbólico, na medida em que, por uma necessidade social, entra para se dissolver na corrente convencional da vida moderna. O Sol e a Lua e todas as estrelas, símbolos nítidos pela exacta relação com Deus e com o grande mistério do abismo, que um Alberto Caeiro podia ainda contemplar na sua quinta do Ribatejo e que um Fernando Pessoa, todo recolhido para dentro, podia ainda pensar na caverna cabalística do espírito, apagam-nos as luzes da cidade, diluem-se no céu fosco e industrial. O comércio, os grandes hotéis cosmopolitas, a dobrada à moda do Porto, os guindastes e os transatlânticos, os grandes salões, as fábricas, os escritórios, os cafés, a literatura, tudo isso e muito mais abrem um abismo entre nós e o cosmos, na sua evidência natural, simbólica e divina, cosmos no qual, antes de tudo isso, o homem se inseria por meio de ritmos e ritos certos como o instinto primitivo da alma. Irrompe dos interstícios fundos da terra o ferro, donde a natureza o elaborava lenta e subtilmente. Arrancado do subsolo, seu lugar natural, quer seja alumínio, zinco ou aço a forma em que o concebamos, tudo invade e subverte. A rotina de hoje substitui o rito de ontem. No caos de sons estrídulos dos atritos fabris ouve-se o coração do ferro batendo, no íntimo mais íntimo do que nos sentimos ser, a grande cadência sinistra de um imenso martelo que nos prega a alma à cruz da vida moderna.

Tal o quadro tantas vezes descrito pelos passadistas. Mas há um Pessoa qualquer que não é uma qualquer pessoa e diz para si: Entrar na rotina e esquecer-se é perder-se; sair dela para um convento, para um deserto, para a morte, é desistir e renunciar. Não se nasce por acaso. “O lugar e a hora são um só” com o astro interior e exterior dominante no horóscopo. E então há que não fugir da corrente actual do tempo, há que montá-la como se monta um tigre e dar-lhe um sentido positivo. Desviar-lhe o curso, como se fosse um Nilo.

O heterónimo Álvaro de Campos nasce dessa necessidade.

Creio que ninguém confundiu até agora com o marxismo a crítica das formas de vida burguesa exercida por Fernando Pessoa através de Álvaro de Campos.

A poesia do autor da Tabacaria (e também a prosa) actua como um dissolvente, pelo escândalo atirado contra o rosto da hipocrisia burguesa, que mantém do sagrado, na Família, na Pátria e na Religião, aquilo que do sagrado sobrevive para não deixar ver e não deixar ser o que nele é fundamental. E a burguesia procede assim por um instinto de classe ou por um instinto da humanidade na fase especial que corresponde à burguesia, instinto que sabe muito bem que, no dia em que aquele fundamental viesse a afirmar-se, tudo ruiria, nada restando do bem-estar social de que desfruta. Álvaro de Campos podia ter sido marxista, se pensasse o fim da humanidade em termos económicos e até em termos sociais. Ele foi, porém, uma criação de Pessoa, e a natureza em que o fantasma seu encarnava, estava de raiz ligada a fins diversos, que insisto em chamar iniciáticos. A vida moderna, fabril e febril, gigantesca e tecnológica, titânica, segundo os marxistas produto do capitalismo e da exploração do trabalho alheio, afigurava-se-lhe capaz de ser sentida e vivida no plano metafísico ou, em termos poéticos, nas suas origens vulcânicas, se a estabilidade e a solidez das instituições burguesas pudessem vir a ser abaladas. Então, a corrente extravasaria e o grande sentido cósmico da civilização moderna revelar-se-ia na hora da morte e do cataclismo pela vivência duma energia indómita. (TELMO, A., 2015: 204-205)

 

 

Para António Telmo, «cada um dos heterónimos é, além de outras coisas, um instrumento de exploração do desconhecido e uma via de realização iniciática» (TELMO, A., 2015: 200). Desta constelação, tal como o filósofo no-la vai apresentar, é indissociável, como sua parte integrante e co-essencial, o próprio Pessoa ortónimo. Já num escrito do seu período formativo, “Notas sobre Teixeira Rego”, publicado em 29 de Setembro de 1955 no Diário de Notícias, havia escrito o autor de Filosofia e Kabbalah:

 

Descobrir a personalidade e a tradição que se escondem e se revelam ou velam repetidamente, constituiu o fim da investigação literária de Teixeira Rego. Assim aconteceu com o problema da personalidade de Bernardim Ribeiro, que ele dizia ser a de Cristóvão Falcão, apoiando a tese de Delfim Guimarães, como também a do filósofo leão Hebreu. Estes três seriam heterónimos do judeu Abarnabel, nome que é anagramático de Bernardim.

O problema dos heterónimos que, como é sabido, tem ocupado para com Fernando Pessoa os modernos investigadores da literatura, relaciona-se com o problema dos pseudónimos. Se, no caso de Fernando Pessoa, este houvesse sido considerado também um heterónimo, diversa teria sido a posição do problema. De resto, personalidade é conceito somente vivo e fecundo dentro de uma teoria evolucionista e, por isso, não nos surpreendem as posições a este problema dadas pelos passadistas. (Telmo, A., 2017a: 50)

 

As referências aos termos personalidade e tradição iluminam-se mutuamente. A personalidade constitui o núcleo integrador ou o cerne aglutinador das diversas personas ou máscaras em que a heteronímia se re-vela ou desenvolve. Essas máscaras são logicamente co-essenciais na ordem da simultaneidade, mas só na ordem da sucessão, dentro de uma teoria evolucionista, recobrarão o seu pleno sentido no todo. Sob pena de incompreensão, a evolução (evolutio = acção de desenrolar pergaminhos; evolvere = desenrolar livros ou pergaminhos) assim pressuposta deve ser etimologicamente aproximada da noção correlata de desenvolvimento, num quadro de introspecção autognósica, qual o definido por Álvaro Ribeiro em A Razão Animada:

 

Ao dizer-se eu, ao distinguir a sua personalidade da sua propriedade. Cada homem reconhece que no desprendimento se dá um desenvolvimento, e que esse desenvolvimento equivale a uma evolução. Alcançaria a nudez essencial ou essente para que tende o movimento evolutivo, se existente não fosse a mediação do meu. As expressões de posse e de propriedade, ainda quando referidas a utensílios e a órgãos, enganam quem não for exercitado pela autognose a levar ao limite a distinção essencial entre o eu e o não-eu. (RIBEIRO, A., 2009: 37)

 

Deste ponto de vista, a tradição mencionada só poderá ser a tradição iniciática. A sabedoria de que esta é depositária e que justamente constitui o objecto da transmissão, ou da traditio, ao iniciado, explicará operativamente a evolução da personalidade re-velada nas personas da constelação heteronímica. Já por mais de uma vez a figura de Pascoal Martins foi referida nestas linhas e, a este propósito, convirá, de passagem assinalar a forte influência do martinismo no pensamento pessoano. (cf. TELMO, António, 2014: 125-128)

 À distância de quase seis décadas, António Telmo, ao considerar o próprio ortónimo como um dos quatro grandes heterónimos de Fernando Pessoa, como que antecipa a leitura hodierna, laboriosa e percuciente, de Fernando Cabral Martins, que integra Pessoa no sistema heteronímico, notadamente pela sua vinculação ao magistério de Caeiro. De entre as várias citações que ilustram esta aproximação, privilegiarei o seguinte excerto:

 

A relação entre Pessoa e Alexandre Search é de simples pseudonímia, e tem apenas que ver com o facto de ser um poeta em inglês. Mas entre Pessoa e Fernando Pessoa a relação é muito mais complexa, e têm que se ler a propósito, por exemplo, além da carta a Casais Monteiro, as passagens das Notas para a Recordação que envolvem a inclusão do ortónimo no grupo dos heterónimos, a polémica entre Fernando Pessoa e Álvaro de Campos na Athena e, ainda, ao tempo de Orpheu (cf. VI.4), a apresentação de Fernando Pessoa como o chefe do Paulismo e Alberto Caeiro como chefe do Sensacionismo. (MARTINS, F. C., 2014: 128) 

 

Os estudiosos de Fernando Pessoa terão proveito em (re)descobrir a profundidade hermenêutica das leituras a que Telmo submeteu a obra do poeta. Verificarão como é destituído de sentido permanecerem de costas voltadas para uma interpretação que, longe de contrariar as suas propostas, as corrobora em lances de aprofundamento. E talvez assim, futuramente, se previnam injustiças como a que a omissão do nome do filósofo no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português lamentavelmente representou.

 

6. Fernando Cabral Martins dá Alberto Caeiro como «o completo avesso de Pessoa» (MARTINS, F. C., 2014: 122). António Telmo já os havia contraposto antiteticamente como os extremos do eixo vertical de uma cruz de que Campos e Reis se constituem, em nova antítese, como o eixo horizontal. Impõe-se, todavia, averbar o esclarecimento do filósofo:

 

Nesta cruz, os opostos são também complementares. Como Fernando Pessoa suscita por antítese Alberto Caeiro, assim Álvaro de Campos põe Ricardo Reis como necessários.

Quem percorrer o círculo dos quatro detém o segredo da totalidade poética. Pode livremente estabelecer a série de correspondências dos termos da “cruz” com os quatro elementos, as quatro estações, os quatro pontos cardeais, os quatro signos fixos. A cruz funciona como uma chave mágica. Os quatro compõem, na harmonia tensa dos opostos, o Homem Universal: Ricardo Reis, o que há em nós de grego e latino lembrando o oriente; Álvaro de Campos, o do Ocidente fim de ciclo e, portanto, do Futuro; Alberto Caeiro, o do Norte onde parece ter estado o Paraíso e onde sempre tem estado o ponto fixo polar e originário; Fernando Pessoa, o que vive nos Infernos, na África da alma. E assim forma também o misterioso Jano Quadrifronte que a Europa desenha geograficamente.

Poderíamos prolongar indefinidamente as analogias. O leitor, se quiser, que o faça sozinho! Não obstante a beleza das operações com imagens e números, é necessário não esquecer os homens que estão por detrás dos símbolos, de modo a determinar oposições e complementaridades cruciais através da psicagogia. (TELMO, A., 2015: 207)   

 

E, pouco adiante, acrescentará:

 

Esta lógica da alma surpreende e espanta. Chego a ter medo que não seja verdadeira, como se o intérprete tivesse caído em qualquer espécie de falso delírio. Os quatro invocam-se uns aos outros, num jogo movente de teses e antíteses tão reais como as de Hegel. E, no fim, o que importa é a unidade progressiva dos quatro, «o equilíbrio das várias potências da alma», para usar a expressão do próprio poeta. Mais ou menos, nem que seja tão-só aparentemente, todos o conseguem pelo predomínio dado ao elemento fixo em nós. Mas Fernando Pessoa desencadeia os elementos e encadeia-os depois num sistema de relações dinâmicas em que cada um se desenvolve livre até onde vai o poder de conhecer. Nunca nenhum poeta o fez assim. Com matemática interna. Por isso os heterónimos, longe de serem um artifício, uma construção arbitrária da imaginação, são, ao invés, tão necessários e quase diria fatais que da sua existência dependia para Fernando Pessoa o desenvolvimento livre da sua experiência humana e sobre-humana e até a perpetuidade ulterior do seu ser consciente.

 

Os últimos períodos deste extracto de “Os heterónimos de Fernando Pessoa”, escrito de imprensa publicado em 1973, e posteriormente reunido Filosofia e Kabbalah, de 1989, se reafirmam a tese télmica do sistema heteronímico como instrumento poético de realização espiritual, ou seja, como expressão literária de uma experiência misteriosa ou iniciática – é-se iniciado nos mistérios –, podem, quanto ao rigor construtivo que neles se enfatiza, ser aproximados de uma outra proposição de Fernando Cabral Martins:

 

Mas os heterónimos dialogam, discutem teoria do conhecimento, definições da arte posições políticas, formas religiosas, conhecem-se no grupo que formam. Toda a fragmentação se resolve num sistema perfeito de relações e diferenças. Todos têm o seu lugar preciso – mesmo o ortónimo. (MARTINS, F. C., 2014: 92) 

 

A possível divergência na franca convergência das asserções dos dois intérpretes está sobretudo em que Telmo, sempre fiel ao norte d’o que mais importa, e assim desinteressado do que apodava de cultural, foi ao âmago de quanto se joga na heteronímia. Sem nunca a maltratar, a sua leitura não se contenta com a epiderme. De certo modo, ou até certo ponto, acompanha o Pessoa ortónimo, esse «novelo embrulhado para dentro», como imprecisamente se lhe refere, citando-o, em Filosofia e Kabbalah (TELMO, A., 2015: 202). É o ortónimo o avesso de que Campos se constitui como o direito, no improvável comércio que entre ambos se estabelece nas páginas do Portugal Futurista. Certo que o nome contrapolar de Pessoa nos “passos da cruz” que se viu ser engendrada por Telmo é Caeiro e não Campos, mas a um e a outro os une a primazia que concedem à exterioridade.

Porém, essa propensão para o exterior, e a recusa da metafísica que a envolve, não podem ser encaradas nos mesmos termos num e noutro caso. Escreve António Telmo: «Alberto Caeiro, mestre de Álvaro de Campos, o da Idade do Ferro, está, por dom inato e iniciação subtil, na Idade do Oiro» (TELMO, A., 2015: 200). Caeiro, que pelo filósofo vimos ser referido ao Norte onde parece ter estado o Paraíso, «porque está antes de o Abismo e da Queda, usa as palavras dos homens como quem não quer e não precisa» (TELMO, A., 2015: 209). Ao contrário de Álvaro de Campos, que em Tabacaria a rejeita em detrimento dos chocolates, o seu mestre recusa a metafísica apenas porque ela lhe seja desnecessária. Só num plano de aparência, que, não obstante, sempre teremos de levar em conta, Alberto Caeiro se encontra referido ao elemento terra, porque, no seu caso, as noções de matéria e de corpo se revestem de uma significação que o Ocidente profano terá dificuldade em aceitar. Um excerto de Benzimra tornará mais evidente o que vem de ser afirmado:

 

Os conceitos de anímico e de corporal têm apenas um valor relativo e a mesma coisa poder-se-ia dizer anímica ou corporal consoante o plano de referência considerado. No fluir temporal, as etapas de solidificação não são todas percorridas de imediato nem de um só golpe. E deste modo, o que para Adão no Éden era corporal, isto é, ocupava o lugar da exterioridade, pertence no homem da nossa época à ordem da interioridade e releva de um plano superior.

É isto que explica que diversas tradições apresentem a natureza corporal dos primeiros tempos como mais fluida, mais subtil e mais radiante do que a matéria à qual estamos acostumados. Elas dão do mundo sensível das origens uma descrição tal que seríamos tentados a daí inferir que a matéria mudou de propriedades ao longo do tempo, quando o que mudou, foi menos a matéria – cujo conceito não pode ser mais impreciso – do que o ponto de vista sobre o que é ou não é corporal, sobre o que é exterior ou detém lugar na interioridade.

O que, no estado edénico, era sentido como invólucro corporal ou exterior foi absorvido para o estado anímico quando Adão e Eva provaram o fruto proibido. Descendo então um grau de Existência, eles foram revestidos de um novo corpo, mais grosseiro do que o precedente, e feito de uma substância inferior. Foi porque se «aperceberam de que estavam nus», que sentiram a vergonha e a confusão e se «cobriram com vestes feitas com folhas de figueira», e depois «com peles de animais». (Benzimra, A., 2013: 322)    

   

Sabida a equívoca duplicidade dos símbolos, o elemento terra, que para Caeiro se constituirá como o signo dominante, deve aqui ser duplamente referido: no plano lógico subjacente ao desenvolvimento que na heteronímia se reflecte, à terra simbólica da densidade corpórea após a Queda; e, num plano ontológico, que o poeta subtilmente re-velou, à terra espiritual onde impera o glorioso corpo de luz de Adão. Neste sentido, é possível afirmar, a partir de António Telmo, uma aparente oposição, mas também uma efectiva complementaridade, entre Caeiro e o Pessoa ortónimo. Desse prisma, o primeiro será o ponto de partida do segundo, mas será também a sua meta, bem que provisória, ou intercalar, pois a coincidência tangencial, numa ascensão espiralada, é apenas aparente: uma ilusão de óptica. O Pessoa ortónimo, «o que vive nos Infernos, na África da alma» (TELMO, A., 2015: 207) – e por isso estará certo referi-lo ao elemento fogo que os relatos visionários nos dão como termo da descida aos infernos –, parece destinado à realização vertical dos grandes mistérios.

 

7. Dito isto, será com efeito Álvaro de Campos o paladino da exterioridade corpórea, tal como esta, na Idade de Ferro em que, com ele, nos encontramos, é usualmente entendida. Nessa medida, Campos pode bem representar o direito de que o Pessoa ortónimo, novelo embrulhado para o lado de dentro, se constitui como o avesso. Desse comércio insólito, porém inconsútil, nos dão notícia as páginas pessoanas por nós consideradas no Portugal Futurista. Do aprofundamento do estudo das relações entre a Vanguarda e a Tradição, que aqui se encetou perfunctoriamente, dependerá, em última análise, a melhor compreensão das tensões interiores que enformam o dinamismo em que se joga a heteronímia pessoana.    

 

 

Bibliografia final

 

BENZIMRA, André (2012). Enquête sur l’existence d’une théorie du temps cyclique en Franc-maçonnerie. Milão: Archè

BENZIMRA, André (2013). Petits et grands dans la kabbale. Paris: Éditions de La Hutte

CAMPOS, Álvaro (1982). «Ultimatum». In: Portugal Futurista – 2.ª edição facsimilada. Lisboa: Contexto, pp. 30-34

GERSÃO, Teolinda (1982). «Para o estudo do futurismo literário em Portugal». In: Portugal Futurista – 2.ª edição facsimilada. Lisboa: Contexto, pp. XXI-XXXIX.

GUÉNON, René (2000). Aperçus Sur L’Initiation. Paris: Éditions Traditionnelles

GUÉNON, René (2002). Symboles de la Science Sacrée. Paris: Gallimard

GUÉNON, René (2002a). Aperçus Sur L’Ésotérisme Chrétien. Paris: Éditions Traditionnelles

MARTINS, Fernando Cabral (2014). Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Lisboa: Assírio & Alvim

PASQUALLYS, Martinets de (1979). Tratado da Reintegração dos Seres Criados. Lisboa: Edições 70

RIBEIRO, Álvaro (2009). A Razão Animada. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda

TELMO, António (2014). A Terra Prometida: Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império. Sintra: Zéfiro

TELMO, António (2015). Filosofia e Kabbalah seguida de Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica e outros estudos. Sintra: Zéfiro

TELMO, António (2017). O Horóscopo de Portugal e escritos afins. Sintra: Zéfiro

TELMO, António (2017a). História Oculta de Portugal precedida de No Meio do Caminho da Vida e Os Meus Prefácios. Sintra: Zéfiro

 

VOZ PASSIVA. 80

03-04-2018 12:21

Da escrita de Risoleta C. Pinto Pedro sobre António Telmo

Eduardo Aroso

 

Há quem leia nas mãos, outros nos olhos, e há muito menos gente a ler o Portugal oculto, muito embora, em alguns contornos, seja visível em pormenores monumentais, na pintura, no pensamento português e na literatura. Risoleta Conceição Pinto Pedro deu à estampa a sua mais recente obra António Telmo, Literatura & Iniciação, que nos chega como um ânimo atento e consciente da leitura de um dos maiores pensadores portugueses do século XX, árduo labor a que poucos se lançam, ou não fosse este um Getsmani perante o “literariamente correcto”! Aventura difícil que só a alma pode ter como regozijo compensador para quem percorre a verdadeira Tradição, quantas vezes labiríntica, mas que, apesar disso, é a única prova real de que há labirinto, enigma que não se pode anular, mas resolver-se (Pessoa diria «cumprir-se») pela única entrada e saída.
Não seria atrevimento, sobretudo pelos últimos escritos de Risoleta, dizer que esta também persiste em não quebrar o subtil fio de Ariadne, na esteira da via sibilina e serviçal que, por exemplo, uma Dalila Pereira da Costa também percorreu, por certo em tempos e contextos de vida diferentes, mas sempre no único e mor contexto que se designa de Portugal, e para alguns de Porto Graal.
O facto da capa de António Telmo, Literatura & Iniciação constar de uma foto, onde vemos o olhar perscrutador de António Telmo, qual radiografia pensante sobre a pedra do Mosteiro dos Jerónimos, sendo um pormenor da obra em causa é contudo algo que não está alheio ao conteúdo do livro. Da sua leitura, ficamos com a serena convicção da autora desta obra poder esclarecer - melhor dizendo, aproximar - o leitor do legado de António Telmo. Como se apresentasse, face a face, o leitor ao filósofo e disso resultasse uma atmosfera mais propícia e apetecível para percorrer a sua obra, começando logo pela linguagem cristalina, muito própria de Risoleta. Esta não cai na tentação do que muitas vezes acontece: pretender dizer o que o autor estudado nunca diria, e nós vemos que os corredores académicos estão cheios disso. O que a autora, serenamente, vai operando em cada página, é trazer o que porventura escape ao leitor numa leitura que não capte com mais facilidade todo o manancial télmico. Uma coisa é certa: Risoleta C. Pinto Pedro move-se (e move-nos), não enjeitando a mesma atmosfera anímico-espiritual na linha fulcral de pensamento do autor de História Secreta de Portugal. A afeição a essa atmosfera é como um horizonte para além do qual se adivinha não uma mas várias Índias, ou a caverna da palavra que ainda nos pode devolver o «pensamento que pensa», o mesmo é dizer para nós que acreditamos que há ainda uma casa ou pátria física e/ou anímica onde se repousa e ganha força para a batalha da vida.
Quanto a essa atmosfera onde Risoleta C. Pinto Pedro se move (e nos move), aí reside o essencial, mas convém dizer que estar no tom, como bem sabem os músicos, não é necessariamente repetir as mesmas frases musicais nota a nota, pois que por variante se pode entender continuar na mesma tonalidade. E se modulação houver, trata-se de dar continuidade ao que não deve ter cisão.

8-3-2018

«OS MEUS PREFÁCIOS». 14

03-01-2018 12:37

Carta prefacial a O Anjo e a Sombra, de Pedro Martins[1]

 

Meu estimado Amigo Pedro Martins

Li pela segunda vez o texto do seu livro e, como da primeira, senti que estava perante um momento decisivo da evolução da alma portuguesa.

A alma portuguesa recolheu-se, como sabe, na filosofia derrotada, tal como a denominou Orlando Vitorino significando com isso que não há hoje condições de levar ao povo o que é do povo e há pois que esperar o dia do Advento, quando a desolação for total.

O Pedro Martins podia ter sido um campeão da filosofia triunfante, se persistisse em pensar sem expectativa pelo declive fácil de uma qualquer carreira universitária ou política. Devo confessar-lhe que, não obstante os laços de amizade que nos puseram a mim e a si colaborantes em vários momentos de expressão cultural e até cultual, não esperava que, de repente, efeito talvez de um fiat lux, emergisse da Sombra da sua alma o Anjo do seu intelecto a dizer-nos as palavras que faziam falta e que ainda não tinham sido ditas sobre Teixeira de Pascoaes e a filosofia portuguesa, a filosofia portuguesa e a redenção de Portugal.

Antes de si, na sua geração, já havia o Pedro Sinde com O Velho da Montanha –  A Doutrina Iniciática de Teixeira de Pascoaes. Mas o Pedro Sinde nasceu já com o sentido do caminho. Bastou-lhe olhar para ver. O seu caso é diferente. Foram-no buscar.

Não me explico de outro modo a transfiguração que, subitamente, recebeu o seu pensamento (veja “o pensamento” como sujeito gramatical). É verdade que ambos conhecemos as estranhas circunstâncias que envolveram a emergência do seu livro. Uma reacção e, depois, o relâmpago.

Hoje, vejo claramente porque lhe foi distribuído o papel de compassar a filosofia portuguesa tendo por ponto fixo Teixeira de Pascoaes e por ponto rotativo o pensamento de Álvaro Ribeiro.

O Pedro Martins trazia atributos que raramente convivem entre si na mesma pessoa: uma clara inteligência, até excessivamente clara a ponto de ser prejudicada pela rapidez do raciocínio; uma capacidade de trabalho perfeitamente adequada ao exercício dessa inteligência; intuição e imaginação; limpidez moral que o punha pronto a combater pelo que se lhe afigurasse ser o bem e a verdade; e era sobretudo atraído pelo “mistério da beleza, primeira e última, da metáfora”, tal como lhe aparecia na arte e na natureza.

Terá sido tal constelação de atributos que decidiu da “escolha”? Creio que sim, embora nestes casos permaneça quase sempre meia oculta a verdadeira causa.

Antes de terminar esta carta, gostaria de deixar um aviso. Eu sei por experiência própria que cada livro que escrevemos é como um espelho em que projectamos o que no momento é o melhor de nós. A luz que ilumina o espelho vem do nosso próprio olhar. Envolve-nos um fascínio que é uma inteira criação da nossa imaginação. Tal envolvimento pode levar à perda do dom de pensar em expectativa.

Mas, sem envolvimento, não há desenvolvimento. De livro para livro, vamos mudando de pele como a cobra até à perfeita desnudificação. Depois, “o mais é com Deus”. Desejo-lhe as maiores felicidades para si e para o seu livro.

 

António Telmo



[1] Pedro Martins, O Anjo e a Sombra – Teixeira de Pascoaes e a Filosofia Portuguesa, s/l, Pena Perfeita, 2007, pp. 11-12.

 

INÉDITOS. 72

03-01-2018 12:23

Consiste a História Oculta de Portugal de António Telmo num conjunto de escritos, alguns deles fragmentários, que se constituiriam como materiais para uma primeira versão da História Secreta de Portugal.  Grande parte desses escritos – os que relevam pelas diferenças que revelam perante a obra saída a lume em 1977 – constituem a terceira e última parte do Volume VIII das Obras Completas de António Telmo, História Oculta de Portugal precedida de No meio do caminho da vida e Os meus prefácios, que será lançado no próximo dia 20, na Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa, em Lisboa, conjuntamente com António Telmo, Literatura e Iniciação – Esboço para uma cartografia sobre pedra cúbica, de Risoleta C. Pinto Pedro, segundo título da Colecção Thomé Nathanael – Estudos Sobre António Telmo.

Da História Oculta de Portugal antecipamos hoje aos leitores mais um dos textos que a integram.

A inveja como agente da degenerescência espiritual[1]

 

As maiores vítimas da inveja são os filósofos, porque a filosofia é uma actividade distinta e onde o valor do homem como indivíduo se afirma sobre os outros valores. Só o indivíduo pensa. Se eu penso, com ilusória boa vontade, admirar um Heidegger, longe na Alemanha, ou um Plotino, longe no tempo, não suporto que o meu vizinho seja um filósofo admirado. Não o posso ver, invejo-o. A inveja, que é coisa da vista, precisa de uma certa distância. É um sofrimento, mas um sofrimento que actua negativamente sobre o objecto que o produz. Se este está longe, mal visível ou invisível, a distância o guarda do turvo olhar. Deus foi morto em Cristo, porque em Cristo se tornou visível. Consiste a inveja, como a língua o diz, em não se poder ver a imagem que nos fascina. Mas para olhar e lançar a energia turva da vontade é precisa uma certa distância, nem mais nem menos, a do meu vizinho, quer se chame Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro ou José Marinho, da rua de Portugal.

A clandestinidade da filosofia seria o modo de evitar a acção nefasta da inveja; fingir-se nada para não ser reduzido a nada e à absoluta inexistência. Mas o filósofo não é legião nem turba. É um indivíduo. Não pode ser filósofo sem ser indivíduo, isto é, indivisível, sustido em si, distinto. O distinto é o que se vê. O igual é o limite para que tende a anulação da vida pelo espírito, a anulação da evidência. É talvez, por isso, que a ave de Minerva, como escreveu Hegel, só voa ao anoitecer, que é como quem diz: a filosofia só aparece no termo de um ciclo. É a evidência do que, até então, estava oculto e oculto actuou e moveu os homens e sua história. Vem finalmente dizer como é, quando tudo parecia ganho contra ela, quando a igualdade dos seres parecia realizada pela anulação dos espíritos, único caminho possível de realizar-se.

Pondere-se este facto simples: de um lado uma língua, a portuguesa, como já se viu, que é o próprio pensamento na complexidade enorme das suas articulações secretas; do outro um povo que ainda não deixou de a falar e que enquanto é apenas memória lhe está ligado em substância. Mas o plano do mundo subtil onde se exerce o acto comum de pensar define-se pela mediocridade das ideias, pela incapacidade de ligar duas ideias e muito menos de deduzir uma terceira. Como é isto possível?

O mesmo fenómeno foi verificado pelos linguistas americanos (um Sapir, um Boas, um Lee-Whorf) que têm estudado as línguas dos povos selvagens. Povos completamente estupidificados falam idiomas que são complicadíssimos sistemas de compreensão do mundo. Como é isto possível?

A hipótese de Sapir é que nenhuma relação substancial existe entre a língua e o povo. Então, quem pensa na língua? Os leonardinos concluíram daqui a existência de uma filosofia portuguesa. Mas não é isto contraditório com o que se disse há pouco, que só o indivíduo pensa? A isto respondem os leonardinos que precisamente porque os indivíduos tendem, simultaneamente com o movimento degenerescente do povo, a não serem indivíduos deixam de ser capazes de pensar pelas categorias da própria língua e apenas conservam os automatismos mais simples e que menos apelo fazem ao esforço de reflexão. Claro que se pode pensar noutra língua que não seja a nossa. Mais tarde ou mais cedo, porém, se homens deixam de pensar a língua que falam, esta acabará por morrer. Restará apenas o escrito. E por isso, a inveja tentará aniquilar também o que está escrito, na sua obra de instauração da morte.           

 

António Telmo



[1] N. do O. – O título é da nossa responsabilidade, mas baseia-se, reproduzindo-a, numa inscrição manuscrita do filósofo, em página autónoma do caderno de apontamentos.

 

VOZ PASSIVA. 79

27-11-2017 15:05

Revisitação dos Jerónimos

(à memória de António Telmo)

Eduardo Aroso

 

Era quase Natal

E eu queria de novo nascer

Em Portugal.

 

Tacteei a pedra, seiva,

Esculpida em pássaro alado.

Nas lajes do chão

Um rumo

De oceano perdido e achado.

 

Era quase Natal

E eu queria de novo nascer

No vero Portugal.

 

Sempre a página aberta

De húmido nevoeiro

E a alma sente sem dizer,

Porque ainda não sabe.

Mas só na corda inteira

Há luz e surge a chave.

 

Era quase Natal

E eu queria de novo nascer

Em Portugal.

 

Olhei ao alto

Mais acima

Do chacra do ego

Querendo desatar

O enigma do nó cego.

 

Era quase Natal

E eu queria tocar a flor

Da pedra-mito de Portugal.

 

26-11-2017

EDITORIAL. 15

20-11-2017 09:32

Quatro anos depois…

…o Projecto António Telmo. Vida e Obra prepara-se para, em conjunto com a editora Zéfiro, lançar o Volume VIII das Obras Completas de António Telmo, História Oculta de Portugal precedida de No meio do caminho da vida e Os meus prefácios, obra que será lançada no próximo dia 15 de Dezembro, ao final da tarde, na Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa, em Lisboa, numa sessão em que igualmente será lançado o livro António Telmo, Literatura e Iniciação, de Risoleta C. Pinto Pedro, naquele que é o segundo título a sair a lume na Colecção Thomé Nathanael – Estudos sobre António Telmo. Já na próxima quinta-feira, dia 23, na sede da AMORC, em Lisboa, prossegue o ciclo As Artes da Misteriosofia, com Sofia A. Carvalho, Rui Lopo, Eduardo Aroso e Maria Azenha. Publicar, estudar e divulgar António Telmo sempre foi e sempre será a nossa missão.   

Quatro anos depois, o Projecto António Telmo. Vida e Obra prepara-se para abraçar outros desafios, percorrer novos caminhos, reinventar o seu futuro, sem nunca perder de vista o rumo que, desde sempre, norteou os seus passos: a vida, a obra e o pensamento do seu patrono.

A todos os que têm tornado este sonho uma realidade, e em particular à família de António Telmo, na pessoa de Maria Antónia Braia Vitorino, a nossa gratidão! Bem-hajam!      

UNIVERSO TÉLMICO. 55

07-10-2017 08:41

Celebrando os 90 anos de João Ferreira, membro do nosso Projecto, e bem assim os do filósofo brasileiro António Paim, Renato Epifânio dirige ao primeiro esta carta, que será publicada no próximo número – o vigésimo – da revista NOVA ÁGUIA, e que aqui, com a devida vénia, antecipamos aos nossos leitores. 

 
 
Carta a João Ferreira
Renato Epifânio
 
 
Caríssimo Amigo,

 

Quero felicitar-te pelos teus vigorosos noventa anos de vida, sem esquecer o título que recebeste igualmente este ano: o de Cidadão Honorário de Brasília, onde vives desde 1968.

 

Lamento que em Portugal não tenha surgido nenhuma iniciativa similar. Sem surpresa, porém. Por cá, esse tipo de títulos só se dá a quem teve as militâncias certas. Se, por exemplo, tivesses sido estalinista, ainda te arriscavas a receber a Ordem da Liberdade. Como insistes em ser leonardino (eles não sabem nem sonham o que isso é…), não tens a menor hipótese.

 

Sei, contudo, que não te moves por esse tipo de ambições. Não te conheço tão bem quanto gostaria, mas conheço-te o suficiente para saber que és um “homem bom”. E olha que quem o diz não é propriamente a pessoa mais optimista no plano antropológico.

 

Conhecemo-nos, tanto quanto me lembro, em 2006, nas Comemorações do Centenário do Nascimento de Agostinho da Silva, pessoa que ambos muito continuamos a admirar e que te convidou para seres Professor na Universidade de Brasília. De então para cá, só nos temos encontrado nos teus raros regressos à Mátria, decerto bem mais raros do que ambos gostaríamos. Mas sem problema: ainda há muita vida à nossa frente.

 

Aproveito a oportunidade para te dizer algo que, julgo, nunca te disse. Um dos livros mais marcantes na minha formação foi o teu “Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa” (Editorial Franciscana, 1965). Sobretudo porque tratas o Problema da Filosofia Portuguesa como deve ser tratado – não como uma “Bandeira” mas como uma “Obra”. E, por isso, nesse teu livro, tens o cuidado de apresentar muita (e boa) Bibliografia.

 

Ambos sabemos, porém, que, tão ou mais importante do que a Obra feita, é a Obra por fazer. Também aí, tens dado o teu importante contributo, ainda que sejas avesso a publicações. Não obstante os reiterados convites, contam-se pelos dedos, por exemplo, os textos que tens publicado na Revista NOVA ÁGUIA. Sendo que sei que esses textos também não são publicados noutros sítios. Mas sem problema: ainda há muita vida à nossa frente e a NOVA ÁGUIA estará sempre disponível para acolher textos teus. Chegámos já ao nº 20 (também sem qualquer reconhecimento institucional), mas contamos chegar muito mais longe.

 

Um dia, como é nosso desejo comum, a Pátria Lusófona cumprir-se-á e honrará, ainda que apenas postumamente, os seus “melhores”. Ambos, bem o sei, estamos absolutamente certos disso – não por um qualquer pré-determinismo histórico, apenas, tão-só, porque essa é a Vontade crescente dessa Fraternidade Lusófona que tu tanto conheces e, sobretudo, tanto amas. Enquanto esse dia, que ainda parece muito longínquo, não chega, aceita o maior Abraço deste teu Amigo, extensivo à Márcia.
 

VOZ PASSIVA. 78

26-09-2017 10:43

António Telmo – considerações sobre a praxis de um iniciado maçon

Rui Arimateia, M M

 

 

ANTÓNIO TELMO Carvalho Vitorino nasceu em Almeida a 2 de Maio de 1927 e faleceu em Évora a 21 de Agosto de 2010.

Foi iniciado Maçon na Resp\ L\ “Quinto Império” da G\L\R\P\, do Rito Escocês Rectificado, em Março de 1998 (E\V\) a Or\ de Lisboa. Foi elevado a M\ M\ em Dezembro do mesmo ano.

Sobre a sua passagem pela Ordem Maçónica, António Telmo deixou-nos inúmeros depoimentos, dispersos pelos seus escritos, nomeadamente os que inspiraram esta comunicação e publicados nos seguintes livros: “História Secreta de Portugal” (1977), “Congeminações de um Neopitagórico” (2006), “A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete” (2011) e “A Terra Prometida” (2014).

Diz-nos ele a certa altura o seguinte, n’Uma Prancha Maçónica:

“Tenho 71 anos. Sou, do ponto de vista profano, o mais velho da nossa respeitável Loja. Tenho 3 anos. Sou, do ponto de vista iniciático, o mais novo desta respeitável Loja. [p.107]

(…).

Pedi para ser iniciado e assim vim a pertencer a este admirável povo maçónico.

Emprego propositadamente a palavra povo. Todos sabemos como a verdadeira sabedoria se conserva e transmite, ao longo dos séculos, e dos milénios, através do povo. Os intelectuais que o têm governado e pretendido ensinar têm vindo a cindi-lo, pouco a pouco, dessa sabedoria. Afrancesaram-no ontem, americanizam-no hoje. O saber esotérico que os homens, as mulheres e as crianças receberam dos iniciados por um processo misterioso, que se conserva nas danças, nos cantos, nos adágios, nas festas, nos jogos e, sobretudo, na língua que ele criou, ele o povo, que dizem analfabeto, degenerou em folclore. (…).

(…).

Gosto de estar entre o povo maçónico e de ser um deles. Sinto que o sou de pleno direito, não porque perfilhe esta ou aquela ideologia, mas porque fui iniciado e passei pelo rito que me abriu a porta do Templo. Não é com orgulho que digo isto, mas sim para expressar que o que define um Mação enquanto Mação é a passagem pelo rito. Se há um ensinamento ou uma doutrina que todos nós devemos seguir e até aplicar no nosso campo de influência social, esse ensinamento ou essa doutrina derivam do próprio rito, onde as palavras, ritualmente proferidas, os tornam suficientemente claros.”  [p.109] 

[in “Uma Prancha Maçónica”, António Telmo, 2014, A Terra Prometida]

 

*

*         *

Dizia Fernando Pessoa num dos seus poemas: “Não procures nem creias: tudo é oculto.”

Também dentro da Maçonaria o oculto impera. Por razões óbvias no que diz respeito à protecção de bens e pessoas devido a regimes totalitários. Por razões ritualísticas tendo em conta a característica iniciática da Ordem.

O Segredo Maçónico está oculto. Cabe a cada um dos Irmãos ou Irmãs desocultá-lo e transmiti-lo quando o momento chegar, compreendê-lo e manifestá-lo através da sua própria linguagem individual e da sua vivência na Loja e no Mundo.

Através dos séculos os Mestres Maçons de outrora conseguiram fazer transmitir aos Mestres Maçons de hoje os Sentidos inefáveis da Arte da Construção, imbuída de segredo maçónico! Este não foi violado, pois continua a fazer sentido através das Iniciações actuais, através de todo um trabalho ritualístico individual e colectivo. Segredo esse que consegue ser um cimento aglutinador de muitos e muitos maçons, unidos entre si e auxiliando na construção de um mundo melhor. Contudo é um segredo simples aquele que é recordado pelo Venerável Mestre em todas as sessões regulares de Loja, quando, reunida a assembleia de maçons na Cadeia de União ritual, transmite:

“Que o amor fraterno una todos os elos desta cadeia simbólica e seja o vínculo imperecível de todos os F\M\ no espaço e no tempo, ligando-nos indissoluvelmente pela tradição iniciática às gerações de irmãos e irmãs que nos precederam e que se prolongarão no futuro.

Estas mãos unidas simbolizam a aliança indestrutível de todos os F\M\ da Terra. (...).”

 

O assim denominado Segredo Maçónico encontra-se revelado: a recepção e a partilha do Amor Fraterno… resta aos Maçons vivê-lo e transmiti-lo!

Não posso deixar de referir a extraordinária mensagem de São João Evangelista, essência última da mensagem mais profunda da Religião Cristã: «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que o daquele que dá a vida pelos amigos.” [“Evangelho Segundo São João”, XV-12]

Igualmente digno de interesse o trecho que podemos ler num Ritual de Iniciação maçónico: “Não se é iniciado pelos outros; iniciamo-nos nós mesmos”.

Voltando a António Telmo e a “Uma Prancha Maçónica”, diz-nos ele que:

 

“(…). Ensinou Aristóteles, na sua Arte Poética, que, nos mistérios de Elêusis, o neófito nada aprendia, mas recebia uma impressão. O ritmo interior que comanda o rito (não me refiro ao cerimonial, que pode ou não acompanhá-lo) envolve o neófito, durante a iniciação, no profundo e inefável mistério que por ele se exprime, envolve-o como uma onda, donde sai atordoado, mas limpo, prende-o numa cadeia magnética [a Egrégora] de que não se libertará jamais, a não ser por cima, se assim o quiser o Grande Arquitecto do Universo. É por isso que se diz que um Mação nunca deixará de o ser, mesmo que abandone a Ordem.(…). [p. 110]

 (…). Imaginemos o nosso espírito como um espelho (…). Para que o espírito, assim concebido como um espelho, receba a verdade são necessárias, pelo menos, três coisas. [1] É necessário que esteja limpo para que não receba turva e distorcida a imagem da verdade; [2] é necessário que entre ele e a verdade não se interponha nenhum obstáculo impeditivo da reflexão; [3] é necessário ainda que seja orientado na direcção da verdade. A iniciação no grau de Aprendiz realiza isto mesmo. A verdade é a luz que brilha no Oriente. Deixamos as jóias cá fora, isto é, as nossas convicções, a fim de que elas não se interponham entre o espelho e a luz da verdade; passamos pelas três regiões elementares, onde nos libertamos das sujidades mentais pelo fogo, das sentimentais pela água, das instintivas pela terra. Por fim, o nosso espírito, tornado uma matéria límpida perfeitamente disponível, é voltado para o Oriente. Pelo compromisso feito à maneira dos Maçãos, o espírito está pronto. Quando o espírito está pronto, a luz [o Mestre] aparece.(…).

(…). A arte é longa e a vida breve.” Ars longa, vita brevis. (…).” [p.111]

[in “Uma Prancha Maçónica”, António Telmo, 2014, A Terra Prometida ]

 

Diga-se de passagem que, em todos os graus maçónicos é sobretudo o conhecimento de Si-Mesmo que é ensinado ao maçon em demanda. E, no mesmo Ritual, mais à frente, vamos encontrar um outro trecho que diz: “O iniciado está só ou, mais exactamente, é único, pois nenhum homem evolui em lugar de outro.”

Para procurarmos e eventualmente encontrarmos o Caminho da Verdadeira Luz, que está oculta, será necessário sabermos o que procurar – procurar “o que importa” – e sabermos o que procurar irá inevitavelmente levar-nos a uma abordagem do real na zona do Auto-Conhecimento, onde a compreensão dos problemas da vida e da morte é indispensável para que alguém se possa situar plenamente, e de facto, na Senda de uma autêntica Busca Espiritual e Maçónica.

Vida e Morte… conceitos que desde a sua Iniciação no Grau de Aprendiz não são estranhos aos Maçons... mas que se vão complexificando durante a peregrinação no Caminho maçónico.

No entanto, há que sublinhar devidamente, este Conhecimento, portador da Verdade e que confere a Libertação e a Paz ao ser humano, “comprometido” com a Sageza das Idades, é incomensurável, omni-abarcante, não limitado, mas só poderá ser percebido pelos que o querem e ousam perceber.

A Demanda começa em cada um de nós. Deus, Aquilo-que-se-quiser-chamar, o fim último da Iniciação, a Luz, o Grande Arquitecto Do Universo, tão procurado, tão aspirado, reside, de facto, em nós próprios. Como é afirmado no Chandogya Upanishad (III-14):

“Este Atman que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de alpista; este Atman, que reside no coração, é ao mesmo tempo, maior que a Terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos reunidos.”

Também Paracelso o afirmou: “Trazemos em nós o centro da natureza.”

Assim, cada um de nós é realmente um centro que efectua a ligação do Céu à Terra através da sua própria escada mística, mais ou menos conscientemente, com mais ou menos intensidade, mas em permanente busca e em contínua evolução.

Neste centro interior e íntimo, poderá, apesar de tudo dominar a cerceadora dualidade da condição humana manifestando-se pelo sofrimento ou pela felicidade, pela paz ou pela guerra, pelo amor ou pelo ódio!... Mas também nesse centro poderemos encontrar e vivenciar a Unidade da Vida e então achamo-nos subitamente num estado onde não é possível encontrar quaisquer referências para se compararem os complementares, para se olharem as contradições, para se apontarem os conceitos antagónicos. Será, no fundo, através deste estado, que acontece uma real percepção da Totalidade, uma autêntica consciencialização da Unidade, da Vida e da Morte, verdadeiros leit-motiv de todo o labor e busca maçónicos. Lembremo-nos do seguinte poema de Fernando Pessoa, que nos aponta o caminho a seguir…

 

                        Oscila o incensório antigo

                        Em fendas e ouro ornamental.

                        Sem atenção, absorto sigo

                         Os passos lentos do ritual.

 

                        Mas são os braços invisíveis

                        E são os cantos que não são

                         E os incensórios de outros níveis

                         Que vê e ouve o coração.

 

                         Ah, sempre que o ritual acerta

                        Seus passos e seus ritmos bem,

                        O ritual que não há desperta

                        E a alma é o que é, não o que tem.

 

                         Oscila o incensório visto,

                         Ouvidos cantos estão no ar,

                         Mas o ritual a que eu assisto

                        É um ritual de relembrar.

 

                        No grande Templo antenatal,

                         Antes de vida e alma e Deus...

                        E o xadrez do chão ritual

                                    É o que é hoje a terra e os céus...

 

22-9-1932

Fernando Pessoa. Poesias Inéditas (1930-1935). .

 Lisboa: Ática, 1955

 

Sobre Fernando Pessoa e a Maçonaria, deixou-nos António Telmo um importante depoimento na sua História Secreta de Portugal:

“(…).

Fernando Pessoa foi o nosso primeiro poeta maçónico e toda a sua obra poética pode e deve ser interpretada como a expressão da viagem iniciática da alma num adepto que não se limita a cumprir os ritos e a estudar o dogma, mas desse cumprimento e desse estudo tira todas as consequências nos vários planos de vivência do ser. Assim, os heterónimos podem ser vistos como uma aplicação do «dom das línguas» ou um exercício destinado a produzir esse dom; a maioria dos poemas constituem o desenvolvimento de ensinamentos maçónicos e, por vezes, o próprio Fernando Pessoa não deixa de o assinalar por meio de epígrafes (caso do Eros e Psiche e de No Túmulo de Christian Rosencreutz); outros ainda, como por exemplo A Múmia, são a transposição poética da experiência de determinado ritual.

(…).

A obra de Fernando Pessoa vale não só por si, mas também por marcar um comportamento maçónico excepcional no seu tempo. Através dele, a Maçonaria regressa à sua origem ou, pelo menos, aparece como a legítima continuadora da Ordem do templo. (…).

Pela Mensagem, Fernando Pessoa rectifica, à luz de princípios maçónicos recuperados, a história de Portugal. (…).”     

[in Telmo, 1977, pp.116-118].

A dramatização ritualística na Maçonaria é constituída por pensamento e sonho, no sentido de construção de um Arquétipo Sagrado, de uma Egrégora. No fundo trata-se de construir em nós mesmos um templo e um tempo originais, no sentido mítico e espiritual. Através do jogo da dramatização, connosco próprios e com o outro, abrimos canais psicológicos que permitirão o fluir de energias vivificadoras e transformadoras cujo resultado será a assunção do homem novo, neste caso do maçon, do construtor, do seguidor do Mestre Hiram, o vencedor da morte!

A palavra ritual, no fundo não tem forma cristalizada, antes remete para uma linguagem única e universal que cada maçon, no acto de escutar, no acto autêntico e criador da atenção ritualística, transforma em vivência e em Amor.

*

*      *

Dizia-nos há algum tempo o eminente médico Daniel Serrão, num dos seus escritos que: “O futuro do Homem é viver num Universo colectivo de inteligências comunicantes onde não haverá nem mestres que ensinem, nem discípulos que aprendam. Todos aprenderão com todos.” 

A frase anterior poderia constituir uma das ideias-força do pensamento não só de António Telmo mas também de Agostinho da Silva e de toda uma plêiade de escritores e de pensadores que honram com os seus trabalhos e reflexões a língua e a filosofia portuguesas, e onde poderemos adivinhar, latente, a famosa tríade da Revolução Francesa e adoptada pela Franco-Maçonaria: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

António Telmo, foi de facto um homem livre e de livre pensamento ao serviço da Obra!

A imensa riqueza do legado filosófico de Telmo é, de facto, a constatação da liberdade que nos dá para até ele chegarmos e a surpresa que experimentamos quando reconhecemos que, no final da Obra, estaremos todos de mãos dadas, tal Cadeia de União Simbólica, porque a sua finalidade última, é o Encontro com a Unidade e a Unicidade da Vida e a certeza de que a Vida vencerá a Morte!

Assim, olhando com “olhos de ver” a obra de António Telmo, intuímos que se encontra “contaminada” com a tríade filosófica atrás referida – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – que imediatamente nos coloca num registo de compreensão enquadrada numa “Escola de Pensamento” cujo fio condutor nos leva pelo menos até aos antigos Mistérios da Filosofia Perene da Idade Média, de Roma e da Grécia… a Escola Universal dos Livres Pensadores Franco Maçons.

António Telmo compreendeu realmente a importância da iniciação, do mistério, do segredo e do silêncio em Maçonaria, quando nos refere, na sua História Secreta de Portugal, que estamos “num mundo onde a presença do mistério impõe que nada se possa realmente saber fora dos termos desse mistério. Assim, os mais lúcidos e imprudentes não desistiam de procurar a palavra perdida da Sabedoria.”

Que, acrescento, será coincidente com a palavra perdida dos maçons, cujo objectivo último de cada um será o seu reencontro com essa Palavra Perdida... a Palavra Divina, segundo Fernando Pessoa. Atentemos à profunda máxima Socrática: “Homem, conhece-te a ti próprio! E, conhecendo-te, conhecerás o Universo e os próprios Deuses!”.

Num outro texto de António Telmo, poderemos ler:

“(...) É espantoso como foi possível conservar, ao longo dos séculos, inalteráveis, no que lhes é essencial, ritos e símbolos maçónicos, quando enormes forças, cá dentro como lá fora, tudo têm feito para os adulterar e corromper! (...).”

[in Telmo, A Terra Prometida, 2014, pág.108]

*

*         *

António Telmo, como era seu costume com todas as filosofias que abordava, enquanto Maçon foi autocrítico em relação à própria práxis maçónica que conhecia.

Interessante este Diálogo entre Frei Anselmo e Noviço, que ele nos deixou e que foi publicado na “Aventura Maçónica”:

“(...).

Lês, escreves e isso está bem. No resto do tempo que te fica, procedes como toda a gente, como um autómato. Deixas-te emporcalhar pelos jornais e pela televisão. É um “deixa andar” continuado. De nada serviu termos-te conduzido para uma agremiação de neopitagóricos, onde simbolicamente desceste ao reino das trevas e daí te ergueste para a luz.

Falas com as pessoas como se elas não tivessem rosto; se atentasses, como é devido, na forma do rosto daquele ou daquela com quem conversas, se chegasses a ver nele a expressão de um mistério e de uma luz que, por dentro, ilumina esse mistério, não darias tanta importância ao que não és, àquilo em que és igual a todos os outros.

(...).”

[in Telmo, 2011, p. 27]

António Telmo, tal como Fernando Pessoa, tinham semelhante opinião acerca da Iniciação: uma vez maçon, sempre maçon; uma vez Iniciado, para sempre Iniciado.

Declarava António Telmo que:

            (...). Na Loja estamos perante um mistério, mais do que isso, fazemos parte desse mistério. Emprego a palavra mistério no seu sentido original e não na acepção que popularmente recebeu de insólito e contrário ao curso natural dos fenómenos. No seu sentido original, a palavra deve ser referida à sua raíz mu, comum a outras palavras como mudo, murmúrio, mito e místico. Ao pronunciarmos o fonema m, fechamos os lábios. Fechamos a entrada da caverna bucal, que é o lugar do Verbo. (...).

Tendo em conta esta etimologia de mistério, não é difícil ver que o ensino aqui se faz pelo silêncio, um silêncio que se torna significativo, no que ele tem de mais profundo, pelas indicações subtis, por aquilo que há de menos discursivo nos ritos e nos símbolos. Os sinais, os toques, as letras e os nomes são talvez o que melhor exprime o que pretendo significar com o termo de “indicações subtis.

(...).”   [pp.63-64].

*

*         *

 (...). Toda a simbólica da iniciação até à recepção da Luz mostra-nos que devemos considerar aqueles que nos guiam por entre obstáculos no meio das trevas, não como indivíduos, mas como personalidades representativas do que há de mais interior e de mais profundo em nós. Durante a minha iniciação, senti-os como os senhores do caminho e não como homens de carne e osso. (...).

A passagem do mundo profano para o mundo sagrado constitui o momento que decide de tudo. É um começo de que se pode tomar consciência no domínio do ser pela percepção de que se ficou definitivamente ligado à “única coisa que importa”. (...).

No começo é que está tudo. E aqueles que, depois de terem recebido a iniciação, se esquecem de a renovar em si por um acto interior do espírito, são como alguém que acordou para a manhã e se deixou adormecer de novo, trazendo para a vivência do dia todo o sono que julgaria ter deixado na cama. Todo o percurso iniciático, do primeiro ao último grau, se lhe quisermos atribuir alguma realidade, terá de ser visto como um renovar, por entre descontinuidades, do começo. Começo esse que pode ser reproduzido lá fora pela presença a si próprio nos vários momentos da vida, sobretudo naqueles que parecem mais distantes da “única coisa que importa.     

(...).  [pp.80-81].

(...) Cada Maçon é um Templo, por isso, onde quer que esteja, está o Templo. Não devemos, portanto, reduzir ao trabalho de Loja a nossa actividade, dividindo-nos em dois comportamentos, um exterior e outro interior, como se, uma vez lá fora, já não existisse “o que mais importa”. Tal atitude, comum a muitos Maçons pouco esclarecidos, leva a acentuar a dualidade que julgávamos ter sido resolvida pela Iniciação. Eis porque me parece oportuno o seguinte conselho: na Loja, devemos subordinar o nosso interior ao que se passa exteriormente; fora da Loja, pelo contrário, subordinar o que se passa exteriormente ao nosso interior. Há um ensinamento oriental que diz o seguinte:

As aves, mesmo quando andam longe dos ovos, continuam a chocá-los.

(…).” 

[in Telmo, 2011, p.83]

Como corolário deste conjunto de reflexões Télmicas sobre a Iniciação e sobre o ensinar e o aprender nesta Escola de Vida, que é a Maçonaria Universal, terminava com as sábias palavras da grande sabedoria da Tradição Africana, afirmadas por Tierno Bokar Salif, da Ordem Muçulmana de Tijaniyya, de Bandiagara no Mali:

 

“Se queres saber quem sou,

Se queres que te ensine o que sei,

Deixa um pouco de ser o que tu és

E esquece o que sabes.”

 

*

*         *

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

 

1.       MARTINS, Pedro – UM ANTÓNIO TELMO – MARRANISMO, KABBALAH E MAÇONARIA, ‘Colecção Thomé Nathanael’, Zéfiro-Edições e Actividades Culturais, L.da, Sintra, 2015.

 

2.       TELMO, António – A AVENTURA MAÇÓNICA – VIAGENS À VOLTA DE UM TAPETE, ‘Hyram Colecção Maçónica’, Zéfiro-Edições e Actividades Culturais, L.da, Sintra, 2011.

 

3.       TELMO, António – A TERRA PROMETIDA – MAÇONARIA, KABBALAH, MARTINISMO & QUINTO IMPÉRIO, ‘Obras Completas de António Telmo’, Volume I, Zéfiro-Edições e Actividades Culturais, L.da, Sintra, 2014.

 

4.       TELMO, António – CONGEMINAÇÕES DE UM NEOPITAGÓRICO, Ed. Al-Barzakh, Vale de Lázaro, 2006.

 

5.       TELMO, António – HISTÓRIA SECRETA DE PORTUGAL, Col. ‘Janus’ n.º6, Editorial Vega, Lisboa, 1977.

 

_____________________________

 

 

 

Rui Arimateia (M\M\), a Or\ de Évora, 21 de Setembro de 2017 (E\

UNIVERSO TÉLMICO. 54

26-09-2017 10:33

Agostinho da Silva: retrato do filósofo enquanto drama*

Pedro Martins

 

Confesso-vos que não fui feliz na escolha deste título. Não creio que Agostinho possa caber num retrato, que é uma imagem fixada na imobilidade e se presta à veneração dos altares, o que ele, por certo, lamentaria.  

Com palavras suas direi agora, do que em seguida vos vou dizer, que não descobri nada: vem tudo em Cortesão.   

O historiador definiu o homem português segundo três virtudes básicas: a hombridade, a inquietação e a plasticidade amorável.

A hombridade, comum a todos os iberos, não é apenas um sentimento de independência individual; significa também a consciência austera da dignidade humana e do valor do indivíduo e traduz-se em inteireza de carácter e afirmação intimorata da virtude e da verdade.

No castelhano, esta hombridade exaspera-se e desvia-se até à afirmação amoral do indivíduo; no homem português, combina-se com a plasticidade amorável, que dá ao espírito, exaltado pelo amor, uma capacidade eminentemente compreensiva, tanto para comunicar como para apreender. É um dom de simpatia e comunicação cordial que lhe permite dar e receber, sem alterar o seu fundo próprio.

Foi o que sucedeu no Japão, onde os portugueses deram bem mais do que receberam, mas de onde acabaram expulsos, por se terem recusado a abjurar a sua fé cristã.

A inquietação, comum aos povos ibéricos de raiz semita, ganha uma tonalidade específica no português: é ela que explica a sua hombridade plástica, por confronto com a hombridade rígida do castelhano.

Hombridade, inquietação, plasticidade amorável: eis Agostinho, como sabemos pela biografia, de muito recomendável leitura, que dele escreveu António Cândido Franco e pelo livro de Risoleta Pinto Pedro sobre a alegre inquietação da sua literatura.

Logo em 1957, em Reflexão, Agostinho fará notar que, ao invés da França, «do lado de Espanha ninguém sacrifica a personalidade à convivência», para depois observar que a maior façanha de Portugal foi ter resistido a Castela, para assim poder cumprir o seu dever de ser católico: isto é, fraternal e universal.

Daqui parte o seu ecumenismo. Por longos anos, a busca da unidade será para o filósofo mero proselitismo de conversão a um cristianismo vincadamente paraclético: a partir da unidade essencial do Espírito, procura desenvolver a universalidade significada na etimologia da palavra católico.

Como escreveu Álvaro Ribeiro, «a teologia, em Portugal, não é exclusiva, nem predominantemente cristologia». Em 1964, em “Ecúmena”, afirma Agostinho: «A razão voluntária essencial de me ver católico não seria a existência de um Deus Pai ou de um Deus Filho; seria a crença no Deus Espírito Santo». E, pouco adiante, acrescenta: «é o Espírito quem torna todas as regiões aceitáveis, embora só seja verdadeiro o cristianismo, porque só o cristianismo o põe como Deus; e, se fordes fiéis a este culto do Espírito, podereis ir ao encontro de qualquer religião e qualquer religião poderá vir a vós, porque continuareis fiéis ao essencial do cristianismo.» 

A primeira parte desta última citação é inaceitável; a segunda permite compreender o drama do filósofo, na medida em que lhe revela a preocupação de permanecer português: receber do outro, sim, mas sem que isso implique a perda de uma identidade que, antes de mais, é religiosa.

Já em Reflexão, de modo revelador, Agostinho distinguira os Portugueses de Judeus e Mouros. Com condescendência, lembrara, porém, como os homens de nação assim tornados estrangeiros assistiam reverentemente a esse culto do Espírito Santo que, nas suas palavras, «descera em novo Pentecostes sobre a nação portuguesa, sagrando-a para seu apostolado».

Este Agostinho brasileiro, homem de Igreja que persegue ardentemente o desígnio da Fraternidade, alerta-nos para os riscos heterodoxos: quem pensa com audácia e argúcia, tende a agir sem caridade perante os menos aptos dos seus irmãos. Deve, pois, obedecer com humildade à hierarquia, o que tanto vale para um Lutero como para Joaquim de Flora, a quem, por mais de uma vez, criticará Agostinho o anúncio do fim da Igreja e de uma terceira revelação no palco da História. Na sua visão, «foram os portugueses mais largos e se fixaram no Cristo, como verdadeiro e último profeta», enquanto o calabrês foi estreito «por não ver que, na ida de Jesus para que o Espírito viesse, nada mais se estava afirmando que a perfeita espiritualidade do Consolador».

Foi isto escrito em 1964, e Agostinho, no seu afã de arrebatar ao Islão o selo da profecia, chamando a Cristo verdadeiro e último profeta não pode deixar de evocar a primitiva Igreja judeo-cristã de Jerusalém, chefiada por Tiago, o Justo, que professava a cristo-angelologia do Verus Propheta, arquétipo celeste sucessivamente manifestado na héptada do mistério: Henoch, Noé, Abraão, Isaac, Jacob, Moisés e Jesus, este último o derradeiro suporte terrestre das hierofanias do Adão Celeste. Sabemos de tudo isto por O Paradoxo do Monoteísmo, de Henry Corbin, autor que Agostinho bem conhecia e recomendou a António Telmo, para que o discípulo pudesse erguer a sua prodigiosa desocultação de Camões; mas não sabemos se a leitura de um outro livro do francês – No Islão Persa – o não terá levado a reconciliar-se com Joaquim.

Na verdade, Corbin, ao interpretar Flora, reconduz ao mistério íntimo de cada alma, e não à imanência da causalidade histórica, a sucessão da Igreja de Pedro pela Igreja de João própria da Idade do Espírito Santo: «É que o tempo existencial» – escreve Corbin – «quebra a trama do tempo histórico para cada alma que penetra no mundo do Espírito e antecipa o mistério da morte».

Pela antecipação do mistério da morte se pode definir a mística, domínio a que Agostinho assimila a quinta-essência da religião, pela inefável experiência que supera a oposição entre sujeito e objecto. Inferior à religião é a teologia, que o filósofo não pode distinguir com segurança da filosofia. Por certo tem apenas que «filosofia separada de teologia é invenção do Diabo»; e aqui convirá lembrar, de novo com Álvaro Ribeiro, que «incorre no perigo de não compreender o pensamento português quem levar ao extremo a distinção e a separação, talvez válidas para culturas estrangeiras, entre filosofia e teologia».

A teologia é critério que permite aferir o desenvolvimento do desígnio ecuménico de Agostinho. Na Educação de Portugal, escrita em 1970, já sob o influxo invencível da Liberdade, propõe, para não mais a abandonar, a igualdade de tratamento teológico e político de todas as religiões, concebidas como os vários aspectos da religião do Espírito, cujo Evangelho, definitivo, terá por língua o Português. Não se trata agora de desenvolver a plena vocação universal do cristianismo, mas de considerar uma nova religião. Como, no ano seguinte, dirá em “Nota a cinco fascículos”: «foi até agora a Igreja Católica uma parte da Igreja Cristã; consistirá fundamentalmente a metanoia em ver a Igreja Cristã como uma parte da Igreja Católica, de quem sejam outros componentes os anglicanos e os budistas»

Porém, ainda em 1971, em Goa – Cadernos Teológicos, o seu heterónimo Frei G. H. desconcerta-nos, ao afirmar da religião do Espírito Santo: «é coisa que acho nunca poderá haver, embora se lhe possa prestar culto dentro de outras religiões», pois «o Espírito Santo é o centro abstracto, o ponto simultaneamente ideal e existente, só pensado e real, em que se encontram todas as religiões; como o ponto importante e indispensável de uma roda é exactamente aquele que nela se não move, assim toda a actividade religiosa vem do Espirito, nenhuma religião é sem ele concebível e todas a ele se dirigem».

Três anos depois, será com aparente relutância que Agostinho escreve “Sobre Ideia de Deus”, texto em que a influência de Sampaio Bruno vai muito para além do título. Com efeito, o que pensa sobre esta matéria reproduz a teologia de Frei G. H. E acrescenta:

 

«Mas há outra razão que me tem feito guardar silêncio sobre o assunto, imitando o que fez aquele lendário, ou não, rei romano, ou etrusco, que para o fim da vida adorava a deusa Tácita, e não imitando os mestres zen para consumo da Califórnia, que, com as melhores intenções do mundo e aumentando ao mesmo tempo a felicidade espiritual de Mr. Jones e o depósito no banco, nos declaram que sobre o Absoluto nada há que dizer, e o dizem abundantemente em volumes anuais desprendidos e gordos. É que efectivamente só podemos falar do que é relativo».   

 

E que nos diz ele a este propósito?

Não nos devemos iludir com a aparência de algum vocabulário vinculado à teologia cristã. Agostinho pensa como um cabalista. Ao distinguir Deus, ou o Espírito, ou o Absoluto, da pessoa do Pai, o filósofo põe a Trindade como uma emanação, pois, conforme escreve, «o mundo explode de Deus, ou Deus explode em mundo», e um cabalista falaria aqui do Ein Sof e da árvore das sephiroth que o manifesta. Na verdade, a ideia da criação ex nihilo é incompatível com um Deus absoluto de cuja totalidade nem mesmo o mal Agostinho se permitirá excluir, e um cabalista falaria aqui de Geburah. E ao lembrar que, em física, a expansão e a contracção do Universo são simultâneas, evoca o modelo cosmogónico da actividade divina que, segundo a Cabala, tornou enfim viável a existência do mundo.

É bom que se fale aqui de esoterismo, ou não confessasse o ecuménico Frei G. H. o seu desejo de ir aprender sufismo em Ormuz; e não entrevisse Agostinho um deus imanente em cada homem. Quando, em Educação de Portugal, proclama que «ecumenismo não é contrato, é vida», e «lhe serão sacramentos símbolos só», e considera «todas as religiões como os vários aspectos» da religião do Espírito, antecipa e amplia o Contributo maçónico para o diálogo entre as religiões do Livro, estudo em que André Benzimra intenta recuperar o grande segredo de reconciliação desses Templários tão do apreço de Agostinho que bebiam o mesmo vinho dos sufis e dos cabalistas.

O diálogo, quase nunca ensaiado, do seu ecumenismo religioso com a gnose da iniciação poderá ser proveitoso. Só o esoterismo, que considera os princípios, permite realmente a superação dos dogmas. Se, como Agostinho imagina, «Deus brilha no reverso das medalhas exactamente como no anverso», e se o esotérico está para o interior como o exotérico para o exterior, talvez em tudo isto se vislumbre um sentido preciso para o convento ecuménico de Frei G. H., onde de cada um se espera que se aprofunde tanto na sua religião que encontre as dos outros.  

Extremamente ambicioso foi esse ecumenismo, ao pretender abarcar o candomblé, o agnosticismo e o ateísmo, quando se poderia ter cingido ao que, então como hoje, lhe estaria mais próximo e seria mais urgente: o conflito entre judeus e árabes. Mas a verdade é que Agostinho, na sua prospectiva da década de 70, quase sempre omite o judaísmo; e já nos anos 50, em Reflexão, chegara a recuperar, com evidente acrimónia, a polémica teológica cristã medieval contra os judeus. Ainda aqui, por um presumível recalcamento marrano, revela-se Agostinho medularmente português. Pena foi que não tivesse podido relacionar «os desterrados religiosos» que foram construir o Brasil com a difusão perene, em terras de Vera Cruz, do culto do Divino, para o que lhe faltou conhecer os estudos paulistas de Anita Novinsky e ter prestado atenção ao que Moisés Espírito Santo lhe poderia mostrar.

A fazer fé em Frei G. H., duas convicções parecem mover Agostinho nos vastos territórios que vimos percorrendo: «uma, a central, alicerçada, além de tudo, pelo que meditei no candomblé da Casa da grande Olga de Alaketu, e que é a da Fé que me liga às crenças joaquimitas e, portanto, às mais puras das dos nossos povos de origem portuguesa ou ao português aculturados; a segunda, periférica, a de procurá-la e encontrá-la em todas as religiões, quer as do Deus Ausente, quer as do Deus Presente.»

Nesta relação, necessariamente hierárquica, entre o centro e a periferia, de novo se confrontam o «rijo cerne da hombridade» propagado pela irradiação da plasticidade e a tendência dissolvente do que, nesta, é já receptividade. Entre avanços e recuos, todo o drama hesitante de Agostinho da Silva, de que fomos colhendo sinais, se joga aqui.

Bem mais do que as filosofias dadas aos prelos, prezava ele as «vidas filosóficas». Neste sentido, o testemunho com que quase termino será da maior relevância, se nos lembrarmos de que, para Agostinho, pelo «Filho, divino, sacrificado e salvador», pôde o homem «na sua dor ter companhia»:

 

Um dia, recebi em casa um telefonema de um senhor que se dizia filho de Agostinho da Silva e que, soube-o depois, exercia o múnus de Professor Universitário no Brasil. Diz-me quem era e o que pretendia: “o meu pai sempre nos pediu que não o deixássemos morrer sozinho. Com isto queria significar que desejaria um sacerdote nos últimos momentos da sua vida”. E acrescentou: “tendo em conta as conversas que tínhamos a seu respeito, julgo que ficaria contente, se o sacerdote fosse você”. Claro que disponibilizei-me de imediato (fosse quem fosse o Agostinho que precisasse de mim). Apresentei-me logo no Hospital S. Francisco Xavier. Sorriu, tomou a minha mão e mostrou vontade de falar o que, naquele momento, já lhe era impossível. Mantive com ele um diálogo gestual, que resultou em pleno. No fim, com o seu consentimento, administrei-lhe a Unção dos Doentes e dei-lhe a Absolvição geral. Não tenho capacidade para exprimir a emoção e a alegria dos dois.

 

São palavras de Dom Manuel da Silva Martins, Bispo, hoje Emérito, de Setúbal. Por elas porventura se verifica que, no fim da vida, Agostinho refluiu ao «rijo cerne da hombridade», o qual, como ensinou Cortesão, significa «inteireza de carácter, tenacidade e fidelidade a todas as tradições da terra e de uma cultura multissecular».

Foi Agostinho aquilo que era. E assim se se cumpriu Português.

 

* Comunicação apresentada ao "Dia Literário Agostinho da Silva", que se realizou no dia 24 de Setembro de 2017, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém.

<< 3 | 4 | 5 | 6 | 7 >>