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CORRESPONDÊNCIA. 78
17-01-2026 09:00CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 15

Estremoz De António Telmo para António Cândido Franco 28 de Agosto 2001
No De Divinatione, Cícero compara a interpretação dos sonhos à interpretação das imagens de uma poesia. Dá inúmeros exemplos de sonhos que se apresentaram como vaticínios. Claro que isto não garante os dicionários de sonhos, como o de Artemidoro. Os médicos também utilizam um dicionário de doenças com os respectivos medicamentos; mas os medicamentos não são para as doenças, são para os doentes e estes são tantos quantos os biliões de seres humanos. Se, como ensina Aristóteles, “só há ciência do geral”, então a sabedoria é outra quando o que está em questão é o particular.
Todos estes dias que passaram depois da sua última carta, escrita em 4 de Agosto de 2001, tenho estado à espera de notícias do sonho que deverá ter tido sobre o espelho por ter decidido tê-lo. Ou ficou à espera que eu lhe escrevesse ou não resultou a invocação ou, se resultou, não quer contar-me o que aconteceu.
Veja o que eu li em consequência da sua Arte de Sonhar: o já referido De Divinatione, e Amélia do Gérard de Nerval, os Tales of Power de Carlos Castaneda (não a Art of Dreaming que não fui capaz de levar ao fim) a Autobiografia de Carl Jung, Dalila e Swedenborg sobre os sonhos, o capítulo de Ibn Kaldûn sobre os mesmos e outros mais. Por aqui pode calcular o impacto do seu livro sobre mim. Claro que, para cá[1] do fascínio que ele é por ser como é, o facto de incluir um sonho comigo (devo esquecer o outro de tão sucinto?) e de findar ou quase por uma minha carta terá contribuído para que viesse, como veio, a presar o meu tempo. Mas é apenas uma contribuição. Há o espanto: como foi possível sonhar deliberadamente com Pascoaes durante tantas noites. Eu tenho a mesma experiência, mas esporádica. Não digo que menos relevante. Todavia, a linha das minhas vivências no “mundo imaginal” superior é cortada por grandes espaços de tempo vazios. Valerá talvez a pena contá-las um dia. Algumas são descritas explicitamente nos meus livros: na Dama de Ouros e nos Dioscuros[2] por exemplo. Mas faltam as mais importantes, até agora guardadas em mim talvez por uma espécie de pudor metamnésico[?]: não dever contar o que só a mim e a Deus diz respeito. O que é que pensa sobre este comportamento? Gostaria que me respondesse aqui.
Da sua carta destaco o seguinte: “Há um contraste vivíssimo, dentro do sonho, entre o apagado pátio onde tudo se passa e o momento em que o espelho é descoberto. Há uma explosão de luz no momento em que o espelho é encontrado. O que eu pretendo ao recordar um sonho destes é acreditar que ele se passa num plano inalterável e sem fronteiras, onde eu e o António Telmo supra-existimos, e no qual é possível estabelecer continuidade”.
O António Cândido vê no verde do hieróglifo e no azul fosforescente elementos de ligação entre os dois sonhos, este que agora teve e o que pôs na Arte de Sonhar. Mas reparou certamente que há outros. Em ambos temos um quarto em que o recebo na minha casa; há em ambos um pátio; no primeiro, o quarto projecta-se onde falta uma parede para florestas e abismo, no segundo há um espelho onde esplende a visão do infinito. O primeiro sonho é na Graça, onde o António Cândido viveu a sua infância, ou muito perto da Graça; o segundo acontece num monte do Alentejo, onde agora vive e onde está a sua Cuba e os seus antepassados. Em ambos, a minha casa, onde tenho um quarto especial para si, está ligada com o espaço e o tempo da sua vida. São dados muito concretos e que vêm dar razão ao que das suas palavras sublinhei acima. Fico ansioso por saber o que ainda terá a dizer-me sobre o assunto. E não demore tanto como da última vez.
Hoje, sabe?, é a correspondência consigo, com o Pedro Sinde e com o Joaquim Domingues aquilo que vai enchendo a minha solidão intelectual. Fiquei, pois, muito contente com o que me conta sobre a segunda leitura e naquelas condições (a viagem!) do livro do Pedro Sinde. Contente sobretudo pela ressonância que em si obteve: “É um livro fabuloso, que é um milagre ter aparecido no seio de uma cultura pateta de vanguarda ou não.” (…)
Bem, meu estimado Amigo. Sem acompanhamento do cigarro (deixei há muito de fumar) a carta já vai longa. Abraça-o com a amizade de sempre o
António Telmo
[1] N. do O. – Palavra de leitura equívoca no original manuscrito. Admitimos igualmente a hipótese, se bem que pouco provável dado o contexto, de António Telmo ter escrito “lá”.
[2] N. do O. – Dois dos Contos de António Telmo.
CORRESPONDÊNCIA. 77
17-01-2026 09:00Carta de Max Hölzer para António Telmo de 6 de junho de 1978

Paris, le 6 juin 78
Cher António Telmo,
Je vous remercie vivement de votre lettre. Je n’en doutais pas que votre intérêt et la force, comme vous le dites, qui vous portent vers l’attitude et le travail vont en augmentant. Formant de plus en plus un point central en nous, rien n’en est à séparer, et tout l’influence, non pas « directement », horizontalement, mais par « quelque chose » supérieure, en la plupart de cas « cachée », si nous avons « accepté ».
Je vois bien ce que vous dites.
Vous trouvez dans « Views from the Real World », p. 187/188 un passage qui indique la possibilité, la virtualité du travail (de plus en plus) subtil. « One piece of bread I eat, another I throw away… ». Il serait à chercher la liaison entre tout ce qui est dit là (187/188) de telle manière qu’elle trouve l’écho dans la conduite du travail même.
Si vous cherchez à faire les « exercices » et les études de plus en plus dans l’état renouvelé de l’expérience, vous constaterez que l’accès change soi-disant du « côté » qu’il devient plus « libre ».
A approfondir, toujours, « l’acceptation » -- peut-elle, et comment, devenir active ?
Je n’essayais pas seulement, dans les dernières réunions, de vous suggérer un travail plus subtil, mais aussi de comprendre plus « subtilement » tout ce qui est arrivé, et que nous avons fait (où ce qui était manqué n’a pas une moindre importance, pour cette compréhension, que ce qui nous a semblé « accompli »).
J’écris en même temps à Francisco ; ce que je dis sur le travail dans les lettres peut se compléter. – Je ne veux pas répéter les choses qui font encore très incertaine la date de ma prochaine venue. Brigitte et moi, nous ne pouvons pas venir ensemble au mois de juillet, je le regrette beaucoup. Si mon prochain retour devrait être reporté pour plus tard, il est d’autant plus nécessaire que vous maintenez tous un travail vraiment compréhensif -- la situation générale, de plus en plus dégagées [sic] des aspects illusoires, est très propice dans ce sens.—
Je vous embrasse, et tous mes vœux –
Max Holzer
Ce que je voulais vous signaler que, comme en Alchimie, où tous gestes, conduits, règles sont à observer aussi strictement comme un rite qui est expression et voilement en même temps, l’expérience est absolument imprévisible, neuve ; sans d’être une surprise dans le sens commun, pour qui s’y engage. Aucune expérience antérieure peut faire deviner l’expérience, et non plus, naturellement, aucune « description » des autres qui l’ont vécu. C’est là que nous nous faisons « sourds ». –
Le cinéaste est Peter Brook.
UNIVERSO TÉLMICO. 80
17-01-2026 09:00Passam 250 anos da morte de João Daniel, “Camões dos trópicos”
Henryk Siewierski*
No dia 19 de janeiro de 1776 morre no Forte de São Julião da Barra, ali recluso por 14 anos, Padre João Daniel, jesuíta português, missionário na Amazônia, autor do monumental Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas, obra chamada por Leandro Tocantins de “Bíblia Ecológica da Amazônia”[1].

Forte de São Julião da Barra
Nascido em 1722, em Travaços, perto de Viseu, João Daniel entra, aos 17 anos, na Companhia de Jesus em Lisboa e, em 1741, parte para o Brasil, onde, depois de dez anos de estudos, é ordenado padre e começa o trabalho missionário entre os índios da Amazônia. Em 1757, na onda das perseguições pombalinas, mas ainda dois anos antes da carta régia que decretou a expulsão de Companhia de Jesus de Portugal e de todas as suas possessões ultramarinas, é deportado para Portugal, junto com nove outros missionários, e preso no Forte de Almeida. Quatro anos depois é transferido para a Torre de São Julião da Barra, em Oeiras, onde morre em 19 de janeiro de 1776. Como o motivo da sua prisão e extradição, é apontada a discordância do Diretório dos Índios, uma lei editada em 1755 pelo Marques de Pombal, e implementada pelo seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governado do Grão-Pará. De fato, a obra do Padre João Daniel escrita depois, na prisão, pode ser considerada também uma resposta ao Diretório que extinguia o trabalho missionário dos jesuítas nos aldeamentos[2].
No decorrer dos seus 16 anos vividos na Amazônia, João Daniel fazia uma intensa e interdisciplinar pesquisa de campo, colhendo os dados sobre a geografia, o clima, a fauna, a flora e os povos daquela região. Certamente não deve ter sido apenas uma ocupação à margem das atividades religiosas do missionário, mas a sua parte integral, se o conhecimento assim reunido e guardado nos arquivos da memória iria se tornar fonte de uma obra monumental, escrita ao longo dos 18 anos nas prisões de Lisboa.
Tesouro é uma narrativa, um tratado e uma enciclopédia de mil e duzentas páginas em manuscrito, registro de quase tudo que no século XVIII foi possível saber sobre Amazônia, um relatório de um missionário e descobridor do tesouro da Amazônia. Foram muitos os que viajaram ao sabor ou contra a corrente do grande rio e seus afluentes em busca do tesouro. O Padre João Daniel descobriu o tesouro maior, a própria Amazônia. Tomar posse desse tesouro, apropriar-se dele, enriquecer, não era para ele outra coisa a não ser o seu conhecimento, o mais amplo e mais preciso possível, bem como compartilhar dessa riqueza com os outros.
A obra do Padre João Daniel, que só no século XIX viu a luz do dia, somente há cinquenta anos foi publicada com as suas seis partes divididas em dois volumes. Desde 1810 o manuscrito das primeiras cinco partes do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde foi trazido por Dom João VI em 1808. A sexta parte foi perdida e encontrada depois na Biblioteca de Évora. Nos anos 1820, 1840 e 1878 a obra foi publicada em edições parciais. Somente em 1976 a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro estabeleceu e publicou todas as partes conhecidas do manuscrito, reeditadas em 2004 pela editora Contraponto[3]. Mas ainda não foi a versão completa do Tesouro, uma vez que poucos anos depois foram descobertos no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, por Antonio Porro, os capítulos da Terceira Parte, faltantes nas edições anteriores[4].
O primeiro volume da edição de 2004 compõe a summa do conhecimento de geografia, fauna, flora, minerais, história e dos povos da Amazônia. O segundo é dedicado às questões relacionadas às missões, agricultura, pesca, navegação, comércio, indústria a e organização da vida social.
As descrições da natureza e dos seus fenômenos, das paisagens, da fauna e flora e das diversas curiosidades comprovam o olho e o ouvido sensíveis do observador, mas também uma postura do leitor para quem a terra era um grande livro. Ele descreve o que tinha visto e, ao mesmo tempo, lê, interpreta a seu modo o que não pode ser visto, mas que se nos apresenta através dos signos da escrita da terra ou da memória dos seus habitantes. Fazem parte do tesouro da Amazônia os mitos e lendas ali encontrados, entre eles as histórias sobre os homens-peixes que vivem nos rios e saem à noite para espantar os pescadores, sobre a Pedra Maravilhosa, que tem em si todas as pedras preciosas, sobre o lago dourado e o outro, que transforma em pedra cada um que ousasse nele entrar. O Padre Daniel está aberto a mais do que captam os sentidos e a razão e, por isso, ao registrar as histórias maravilhosas dos povos da Amazônia, não manifesta a descrença, mas costuma tomar o lado das verdades que elas representam.
Esta atitude manifesta-se também nas relações do autor do Tesouro com os índios da Amazônia. Ele não esconde a distância que o separa deles, os considera como os que vivem “à lei da natureza, sem Deus, sem Lei e sem Rei, conforme a vontade de cada um” [I,318][5]. Mas, ao mesmo tempo, toma decididamente o lado dos nativos, defendendo a sua dignidade humana e denunciando todas as formas de escravidão, bem como os métodos de evangelização a qualquer preço, inclusive o da renegação dos princípios cristãos com o uso das manhas da retórica e o tratamento instrumental dos convertidos.
Nas partes quinta e sexta da sua obra, o Padre João Daniel propõe novos métodos da agricultura, extração, pesca e comunicação, as invenções que objetivam facilitar a vida dos moradores da Amazônia e contribuir para o desenvolvimento dessa região. Fazem parte dessas invenções as que podem facilitar e melhorar a navegação fluvial, assim como as ideias de aproveitamento de marés para mover os moinhos, os projetos de bombas, aquedutos, máquinas para cortar madeira e engenhos de açúcar.
Várias vezes o autor menciona de passagem a sua situação do prisioneiro „enterrado vivo” e pede ao leitor a compreensão pelas faltas provocadas pelas condições em que escreve. Alguns estudiosos já se perguntavam como poderia João Daniel, nas condições tão adversas do seu longo cativeiro, sem ter acesso às fontes, privado constantemente até de papel e tinta, ter produzido uma obra tão bem documentada, tão extensa e rica em detalhes. Há quem desconfiasse que a obra foi escrita ainda na Amazônia[6]. Mas no próprio texto é possível encontrar os argumentos contrários a essa hipótese, como as lacunas e faltas de dados, o que não iria ocorrer se o autor tivesse acesso às fontes bibliográficas. Ao longo da narração da obra encontramos também vários trechos metanarrativos que descrevem a situação do autor e que servem de justificativa para a escassez ou falta de alguns dados:
(...) faltam-me as notícias por me faltarem os livros, onde os curiosos as poderão ler, enquanto eu gemendo e chorando opresso com o peso da minha cruz, submergido, e enterrado vivo no funesto sepulcro, e subterrânea cova da minha prisão, vou pedindo a Deus piedade, e misericórdia; e que com a sua se digne santificar a minha cruz. [I, 54]
Por outro lado, em vários momentos da obra, o grau de detalhamento e as citações de outros autores, inclusive com as referências bibliográficas exatas, pode levar à conclusão de que pelo menos algumas partes do Tesouro foram escritas ainda na Amazônia ou que o autor teve acesso às suas anotações feitas antes de ser preso[7].
Depois de transferido para o Forte de São Julião, ele teve companhia de outros padres expulsos da Amazônia, com os quais podia trocar as recordações e conferir os dados[8]. No decorrer da narração do Tesouro, encontramos várias citações dos relatos e informações fornecidos por eles, como, por exemplo, quando cita o testemunho de um missionário da China “que também para aqui veio preso” [I,527], ou conta história de um missionário companheiro do cárcere, que foi vizinho na missão [II,69].
É impossível definir hoje com precisão todas as fontes bibliográficas da obra do Padre João Daniel, e o grau de contribuição dos outros presos. Porém, não resta dúvida de que a principal fonte foi a própria vivência e a busca de todo o conhecimento possível sobre a Amazônia, uma terra eleita como a pátria que foi forçado a deixar.
O Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas do Padre João Daniel reúne todas as características da produção missionária, jesuítica em particular, da época: a curiosidade pelo outro, a sua descrição e avaliação em função da obra evangelizadora, recordação saudosa da igreja que estava sendo construída, e – ao contrário de muitas outras obras escritas depois da expulsão – alimentação da esperança de que essa construção continuará e que as experiências vividas devem servir de incentivo e de preparação para os futuros missionários. As descrições do universo amazônico na obra do Padre João Daniel servem, sem dúvida, para o conhecimento e compreensão da população nativa visando a sua conversão ao cristianismo. Mas elas servem e objetivam também, a transformação desse universo numa Terra de Promissão também no sentido social, econômico e político. Por esses e outros motivos, como os elementos meta-narrativos que evidenciam a dramática situação do escritor, como a crítica dos métodos de evangelização e de colonização em vigor, como o extraordinário arquivo da memória, o Tesouro de João Daniel se apresenta como uma das mais completas e mais misteriosas obras do gênero, uma fonte inigualável de conhecimento da Amazônia do século XVIII.
Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas representa também um dos mais significativos atos de resistência ao terror pombalino e um forte argumento contra as suas justificativas da expulsão e da punição dos jesuítas. O outro “diretório” do Padre Daniel não foi menos avançado do que O diretório dos índios do Marquês de Pombal, mas com certeza estava fundamentado no maior conhecimento da Amazônia e dos seus povos. O ódio à Companhia de Jesus e a ânsia pelo poder absoluto levaram esse ministro de D. José I a eliminar os que podiam ser os seus melhores aliados no processo de colonização baseado no reconhecimento da racionalidade e capacidade dos povos nativos e no potencial libertário e civilizatório da ação educativa.
Embora no tempo que passou desde a missão do Padre João Daniel no Grão-Pará e Maranhão, da missão não interrompida nem nas masmorras de Portugal, surgiram tantas outras descrições do mundo amazônico, apesar de que hoje se saiba bem mais do que guarda o seu Tesouro e de que as suas invenções não têm mais chance de aplicação, o valor desta obra não é apenas o valor histórico. A riqueza da linguagem e da imaginação, a dimensão interdisciplinar, a base firme da experiência, do estudo e da meditação, o reconhecimento do valor da biodiversidade e da dignidade do outro, a opção pelo desenvolvimento sustentável, fazem com que o Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas mereça ser chamado hoje “a Bíblia Ecológica da Amazônia” e o seu autor “Camões dos trópicos”.
Há duzentos e setenta anos depois da sua expulsão da Amazônia, o Padre João Daniel continua sendo um aliado daqueles que não só veem naquela terra os tesouros, mas, antes de tudo, reconhecem a própria Amazônia como um tesouro que não pode ser perdido.
* Professor da Universidade de Brasília (UnB), autor de Livro do Rio máximo do Padre João Daniel. São Paulo: EDUC 2012.
[1] TOCANTINS, Leandro, Bíblia ecológica do Padre João Daniel”. Introdução a Padre João Daniel, Tesouro Descoberto no Rio Amazonas, “Anais da Biblioteca Nacional”, 1975, vol. 95, t. I. No mesmo texto o autor chama Padre João Daniel de “Camões dos trópicos”.
[2] QUADROS, Eduardo Gusmão de. Luzes e sombras sobra a alma nativa: dois jesuítas expulsos da Amazônia. In https://www.ifch.unicamp.br/ihb/Textos/GT48Eduardo.pdf
[3] DANIEL, João Pe., Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. Apresentação de Vicente Salles. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004, Vol. 1- 2.
[4] PORRO, João. Um „tesouro” redescoberto: os capítulos inéditos da Amazônia de Pe. João Daniel. „Revista do Instituto de Estudos Brasileiros”, 2006, n. 43, p. 127-147.
[5] DANIEL, João Pe. Op. cit. Todas as citações do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas serão localizadas como esta – com o número do volume (romano) e o número da página (árabe) em colchetes.
[6] PAPAVERO, Nelson. Relíquia do século 18. “Ciência Hoje”, v. 35, 2004, no. 208, p. 77.
[7] Por exemplo, ao falar dos homens marinhos, faz referência precisa ao livro de Frei Benito Geronimo Feijoo, Theatro Crítico Universal, o Discursos vários em todo gênero de matérias, para desengaño de errores comunes, Madrid, 1738: “Dos homens marinhos fala Feijó no 6 Tom. Discurso 7º” [I,120].
[8] PORRO, Antonio. Uma Enciclopédia Amazônica. “Revista do Instituto de Estudos Brasileiros”, 2006, n. 43, p. 223-224.
CORRESPONDÊNCIA. 76
06-10-2025 15:26Carta de Max Hölzer para António Telmo de 29 de Março de 1978
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Mon cher António Telmo,
Maintenant je peux disposer un peu plus libre du prochain temps : si tout va bien, j’arriverai le 12 avril, le matin, avec le Sud-express, à Lisbonne (l’heure exacte dépend d’un éventuel changement de l’heure après le 1er avril). J’ai l’intention de rester su moins trois semaines.
Il serait bien si nous pouvions nous voir, aussi pour des réunions respectives (avec Fr. S. et C. H.) la fin de cette même semaine. Je sais que vous avez fixé la date prochaine des réunions une semaine avant, mais il m’est impossible de venir plus tôt sans couper le travail ici. Qui était difficile mais « bon » depuis mon retour le 15 mars.
Dans ma lettre de l’Autriche, je n’avais pas « élucidé » les malentendus que j’avais provoqués par mes indications sur « l’exercice » que je vous ai proposé. (C’est simplement debout, les mains tendues sous l’eau coulant du robinet, que vous deviez le faire, sans aucune « position » autrement prise.
Il me tardait de vous revoir. J’espère que vous et votre femme et vos enfants vont tous bien traversé l’hiver !
Je vous embrasse --
Max H.
CORRESPONDÊNCIA. 75
23-09-2025 13:14
Carta de António Telmo para Francisco Soares, de 26 de Dezembro de 1995
Estremoz, 26 de Dezembro de 1995
Meu caro Amigo
É-me grato acusar a recepção do seu livro[1] e dar notícia da minha sua leitura na quadra do Natal, pois assim posso desejar-lhe as maiores felicidades materiais e intelectuais para o ano de 1996, e fazer votos que tão bela reflexão sobre a Monarquia encontre leitores tão atentos e dedicados como eu e obtenha a ressonância que o seu valor merece.
Dizia Álvaro Ribeiro que pensar consiste em pesar as palavras, de modo a que a filologia se torne aventurosamente filosofia. O seu texto é o perfeito exemplo disso. A Pátria em exílio ressurge em escritos como o seu.
Tenciono fazer outras leituras. Não calcula como fico contente por ver que homens como o Francisco Soares, o António Cândido Franco ou o Paulo Borges, erguendo a alma ao espírito, forcejam por criar uma escola de Filosofia Portuguesa num meio que lhe é radicalmente adverso.
Vamos ver se, em breve, o vou visitar a Évora-Monte.
Até lá, um abraço do
António Telmo
CORRESPONDÊNCIA. 74
21-08-2025 15:18CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 14
Estremoz
24-11-89
Meu caro Amigo
Li, de seguida, fraternal e interessadamente, todo “O Mar e o Marão”[1]. Antes, porém, de falarmos sobre o que importa, devo-lhe uma explicação do meu silêncio depois da sua última carta.
Procurei o livro de Joseph de Maistre no caos dos meus livros dos outros e, como não consegui encontrá-lo para lho enviar, esperei que, mais tarde ou mais cedo, aparecesse, coisa que arreliadoramente não aconteceu ainda. Como não emprestei o livro a ninguém, tê-lo-ei eu deixado esquecido em qualquer parte? Quanto aos originais que me enviou, o silêncio deixou-lhe certamente toda a liberdade. A revista Princípio, aliás feita, não se publica já. Causa próxima: ficarmos sem resposta às perguntas à Fiama que quisemos entrevistar. A minha amizade e admiração por ela permanecem, no entanto, inalteráveis.
Voltemos ao mar e ao Marão. Uma amiga minha assistiu à sua conferência no Iade e ao colóquio que se lhe seguiu e falou-me com entusiasmo de si e da sua comunicação, mostrando-se indignada com o modo como o trataram, no colóquio, os cristãos-novos envergonhados[2]. Tive pena de não ter podido estar lá.
Seríamos dois marranos corajosos num momento difícil da arte diplomática, porque a filosofia portuguesa aparece, nos Jorges Pretos[3], a defender teses que lhe são contrárias.
Passei o seu estudo a um dos meus próximos, o João Rêgo[4], que ficou impressionado e pretende contactar consigo.
Pelo que me diz respeito, tudo me falou no seu escrito e, sobretudo, a felicidade como se movimenta em themuria. A identificação de Marános com marrano, sendo uma chave falsa, abriu-lhe a porta do melhor entendimento de Pascoaes. O erro está no início de todos os descobrimentos. V. conhece já todos os segredos cabalistas do primeiro grau, como, por exemplo, a repetida criação de novo do mesmo pensamento, de que são maravilhosa manifestação as páginas poéticas do seu escrito.
O António Cândido Franco espanta-me por ter chegado de fora da filosofia portuguesa em ressonância perfeita com o que ela tem de melhor. Não há, porém, na sua reflexão nenhuma referência de Álvaro Ribeiro. Será que ainda não encontrou a chave para o ler?
Um grande abraço do companheiro
António Telmo
[1] N. do O. - Livro de António Cândido Franco, publicado em 1989. Na sua origem esteve uma conferência subordinada àquele mesmo título e proferida, em 20 de Junho desse ano, no IADE, a convite do seu Director, o filósofo António Quadros.
[2] N. do O. – Referência à controvérsia gerada pela conferência de António Cândido Franco, desde logo no período de debate com a assistência que se lhe seguiu. Também na imprensa escrita se colheram ecos dessa celeuma: no semanário Expresso, o jornalista António Cabrita publicou uma reportagem crítica da conferência.
[3] N. do O. – Diplomata. Discípulo de Álvaro Ribeiro e José Marinho, com estudos publicados nos domínios da Filosofia, da História e da Heráldica. Jorge Preto interpelou António Cândido Franco no debate que se seguiu à conferência em apreço.
[4] N. do O. – Membro do círculo de António Telmo. Médico. Nasceu em 1957 e faleceu em 2007, vítima de um acidente de aviação. Publicou a antologia, por si organizada e apresentada, A Medicina em Álvaro Ribeiro (1992). Postumamente, mas logo em 2007, saiu a lume Contos da Coluna de Meio.
EDITORIAL. 34
21-08-2025 15:08A memória vivente
Passam hoje quinze anos sobre a partida de António Telmo para a Grande Viagem.

E hoje mesmo, num arquivo de Lisboa, teve continuidade o trabalho de investigação que Pedro Martins e Risoleta C. Pinto Pedro estão a realizar há já dez anos e que, assim se espera, irá culminar, em 2027, na edição de uma biografia do filósofo da razão poética. Hoje mesmo, pois, António Telmo renasceu um pouco mais para a memória vivente dos homens.
Acreditamos que algumas surpresas advirão dessa obra. Estamos certos de que permitirá um conhecimento mais profundo, e mais rigoroso, da vida no nosso patrono. A cada um, porém, o seu retrato, único e inconfundível, de António Telmo.
VOZ PASSIVA. 147
13-06-2025 11:22
HISTÓRIA SECRETA DE PORTUGAL, António Telmo*
Paulo Pereira
Foi com este livro que a Vega se estreou no plano editorial; agora reeditado, aparece em situação curiosamente simbólica, já que esta editora procede, de momento, a um esforço sério de relançamento. A actual edição repete a primeira integralmente, perdendo-se, porém, a qualidade, já de si escassa das fotografias originais; em contrapartida, ganhou uma nova capa de excelente grafismo.
A obra em apreço data de 1977, ano importante para o campo da «história mítica», da especulação esotérica e dos conhecimentos de âmbito «tradicional» entre nós; já que foi este texto de António Telmo, bem urdido e sem sensacionalismos, que suscitou o reganho de interesse por este meio de aproximação heterodoxa às evidências materiais e espirituais do passado, de resto bem mais sérios do que à primeira vista parecem (e contra o que alguns detractores, ajudados por charlatães e escudados no argumento ideológico, gostam de fazer crer).
António Telmo situa-se na linha de Julius Evola e René Guénon, «patriarcas» dos estudos tradicionais na perspectiva ocidental, integrando-os, todavia, na corrente da Filosofia Portuguesa. Através da interpretação mítico-simbólica, reconstitui uma «ciclologia» da História de Portugal (Ciclo dos Reis, do Clero e do Povo), relendo os seus mais significativos testemunhos culturais, como sejam a poesia galaico-portuguesa, a simbologia manuelina e o Mosteiro dos Jerónimos (assim pela primeira vez interrogados), Camões, Vieira ou Pessoa. É bem evidente o empenhamento «prospectivo» e «escatológico» do autor, claramente antimaterialista. Mas quer se concorde ou não com este finalismo histórico, o certo é que as reflexões de Telmo permanecem, em muitos domínios, sedutoras. (Vega, colecção «Janus»-Série História, 1986, 166 págs., 750$00).
______________________
* Publicado em Expresso (A Revista), de 29 de Novembro de 1986, p. 11-R.
CORRESPONDÊNCIA. 73
18-05-2025 12:16Carta de Max Hölzer para António Telmo de 12 de Março de 1978
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Abtei Seckau, le 12 mars 1978
Mon cher ami, votre lettre m’a accompagné, fidèlement, mais jusqu’â ce « maintenant » dans une assez grande cellule des Bénédictins, entourée de montagnes qui vont vers le nord d’une hauteur majestueuse encore couverte de neige, -- mais là encore le temps est bref – jusqu’à ce « maintenant » je ne pouvais pas vous répondre. Bien merci, donc, pour votre lettre ! Ce que vous m’écriviez sur votre manière de « lire » et de l’entendement m’a touché, ma montré que votre regard, ou si je peux le dire ainsi, la direction de votre regard a changé. Et si tôt. Et vous le dites très bien : « pergunta que só agora formulo » et « em relação ao estado de alma”, “compreensão sempre adiada”, et qui est pourtant vue. Toujours mise en question, comme nous-mêmes, non pas un « doute », mais par ce qui nous dépasse, notre inconnu.
Vous trouvez la clé pour le chapitre sur les Influences en cherchant à comprendre pourquoi on doit être passif pour la « libération » des nous, et « combattif » dans le cas des autres, et ce qui nous « advient » en moyen de l’âme ou de l’autre conduite.
Ce sont plus que trente ans que je n’étais pas ici – les vieux amis sont morts. Le temps est bref, deux jours et demi, mais je me suis exposé à tant des impressions que je ne pourrai les clarifier que dans le futur.
Les réliefs [sic] sur la colonne dont je vous envoie une photographie répondent peut-être à vote description de votre état d’âme évoqué para la lecture et indépendamment d’elle.
Demain commence le « long retour » par le train.
Je vous embrasse et vous communique mes vœux cordiaux pour vous, votre famille, et le travail.
Max H.
VOZ PASSIVA. 146
18-05-2025 11:18
Filosofia e Kabbalah de António Telmo – Guimarães Editores, 1989*
D. S. Bruno
Quer estejamos ou não directamente empenhados na filosofia oculta, aquela que constitui uma das margens do possível filosofar, o indagar nos limites a relação do homem com o cosmos na plenitude intransigente de colocar sempre a interrogação como valor supremo, os livros de António Telmo constituem uma salutar demanda desses mistérios a que nunca vamos dando resposta mas que nos pressionam sempre para a interrogação do que não tem vindo a ser satisfatoriamente problematizado. Autor de algumas obras de inteligente questionamento das omissões da nossa cultura oficial, nomeadamente em História Secreta de Portugal, O Segredo d’Os Lusíadas e Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, «kabbalista» devoto no fascinante inquérito linguístico de Gramática Secreta da Língua Portuguesa, aqui o temos de novo a interrogar incomodamente os nossos saberes feitos, numa colectânea de ensaios que, começando com as relações do caçador com o seu cão, passa pela gnose no seu sentido hermético, aborda a língua e os seus não ditos e a filosofia de tradição nacional, terminando por inquirições sobre a nossa grande poesia da demanda, nomeadamente a de Fernando Pessoa e de Camões, mas sem esquecer os «mistérios» de Gomes Leal, que ocultam a verdade cósmica do ser Pessoa. Se o positivismo científico não sai avançado de uma obra como esta, a pesquisa em torno do simbólico só pode ser beneficiada por ela.
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* Publicado em Diário de Notícias, de 1 de Abril de 1990.
