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DOS LIVROS. 61

06-03-2019 16:28

Zé Preto. Foto publicada por Joaquim Diogo no blogue Salvaterrazimbra

 

 

Zé Preto*

 

Acontece-nos, às vezes, perguntar se há um sentido e qual em termos conhecido determinada pessoa que passou pela nossa vida como um meteoro de sombra, riscou-lhe o céu de luz e se apagou. Digo meteoro de sombra porque o passado é, como o Hades descrito por Homero, um lugar de imagens e sombras. Digo meteoro porque todas as almas são luzes que desceram a iluminar a matéria que as entenebreceu.

José Preto passou pela minha vida e eu passei pela sua. Eu passei, nos meus anos moços de entusiasmo pelo conhecimento nascente, talvez para lhe emprestar o Fédon de Platão, o Fédon ou sobre a imortalidade da alma.

Havia também o Gilberto Pinhal, o outro poeta de Sesimbra, como ele esperando a morte inevitável dos tuberculosos. A penicilina ainda não tinha sido descoberta. Era estranho! O rosto do Gilberto, a sua cabeça assemelhava-se até à coincidência com a de Rodolfo Steiner, tal como aparece num dos livros dele que, então, nós líamos. Apareceu-me, depois, em sonhos e ainda hoje o vejo, tal como o vi alguns dias depois de ter morrido, mais nitidamente do que, ao lembrá-lo, na vida real. A nossa pálida memória diurna é a superfície ou o eco de uma memória mais funda, em nós ínsita, onde os seres são realmente existentes. Às vezes aparecem inesperadamente. Onde, em que lugar, em que tempo os trazemos connosco? Ou não seremos nós que estamos nesse lugar e não tomamos consciência disso, do mesmo modo que eu, estando como estou neste mundo, em que sou e vivo, mal me apercebo dele?

Da leitura do Fédon nasceu a poesia “O Moço Chamador”. É uma balada de mar e morte. O chamamento essencial.

 

Antonio Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e inéditos, 2019)


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* O título é da nossa responsabilidade.

ÁLVARO RIBEIRO E «A LITERATURA DE JOSÉ RÉGIO», 50 ANOS DEPOIS. 01

01-03-2019 11:12

Ao reler então as obras do autor de A Chaga do Lado fui paulatina e interminantemente revogando a interpretação decorrente de pretéritas leituras e, tão perturbado como quem assistisse ao milagre de uma cruz se transformar numa estrela, risquei palavras erróneas que substituí por frases certas aperfeiçoando, como creio, os escólios de outrora que reverdeceram a nova luz.

Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio

 

 

O medo indistinto ao sobrenatural que assiste no íntimo de uma comunidade esotérica ou o receio «dos homens com face de demónio», qual teria sido o motivo que levou Álvaro Ribeiro a explicitar o seu judaísmo somente aos 64 anos num livro que trazia projectado «há mais de três decénios»?

António Telmo, Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica

 

 

Há meio século, corria o ano de 1969, após décadas de maturada e atribulada elaboração, Álvaro Ribeiro dava enfim a lume, com a chancela da Sociedade de Expansão Cultural, A Literatura de José Régio, um livro que o seu discípulo António Telmo viria a considerar a chave de uma cifra que é toda a obra que a precede e prepara. No dia em que se comemora o seu 114.º aniversário, iniciamos a publicação, que se prolongará ao longo do ano em curso, de um dossier temático sobre a efeméride, em que se divulgarão vários excertos da obra, bem como palavras que Telmo e outros sobre ela escreveram, e ainda alguma correspondência que documenta a sua elaboração e recepção. Um longo ensaio de muitas dezenas de páginas, da autoria de Pedro Martins, centrado no livro de 1969 e intitulado O Judaísmo na Cultura Portuguesa: o caso de Álvaro Ribeiro, será dado à estampa no livro Tabula Rasa - II Festival Literário de Fátima, que em breve será editado pela Zéfiro, com o selo da Colecção Nova Águia.   

 

«Fascinado efectivamente pelo patriotismo eloquente e apostólico de Leonardo Coimbra, hesitava eu todavia em segui-lo, intimidado perante a leitura de seus livros incomparáveis, onde se efectuava a polémica mais notável contra todas as doutrinas que erroneamente assentam na falsa hipótese de que no princípio era o cáos. Acontecia, porém, que a minha alma sempre preocupada com a vida religiosa, que sobrepunha à cultura filosófica e à curiosidade literária, estava então incapaz de compreender a historificação positivista da teologia francesa em três capítulos, três estados e três factos correspondentes à tríade Deus, Cristo, Igreja. Cansado de ouvir ou ler, nas orações homiléticas e nos artigos jornalísticos, as frases contundentes de que a Igreja proíbe, a Igreja reprova, a Igreja condena, perguntava-me perplexo se tal ignorância era professada por homens católicos e por mulheres católicas, consultava e estudava a documentação eclesiástica, recorria a livros estrangeiros, e no fim verificava que as ciências proibidas não iam contra a vontade da Igreja, a doutrina de Cristo, a ideia de Deus.

A heresia, significando etimologicamente procura de outra fé, deixou de me intimidar, quanto mais o exemplo de Leonardo Coimbra nos assegurava confiança no melhor caminho, já que o filósofo, relacionando sempre a liberdade com o amor, nos dava uma interpretação do cristianismo que transcendia os limites da dogmática católica.» 

Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio, página 29.

 
 

CORRESPONDÊNCIA. 45

01-03-2019 10:53

ÁLVARO RIBEIRO, 114 ANOS DEPOIS!

No dia em que se comemora o 114.º aniversário do nascimento de Álvaro Ribeiro, publicamos a carta, hoje à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal, que em 19 de Janeiro de 1959, a partir de Beja, António Telmo escreveu ao filósofo do seu alvoroço, meu terceiro e verdadeiro mestre, conforme a dedicatória por si aposta aos Diálogos do Mês de Outubro, que, tal como o epistolário entre Álvaro e Telmo, foram integralmente publicados no Volume X das Obras Completas de António Telmo, Capelas Imperfeitas, recentemente editado pela Zéfiro com o apoio institucional e científico do nosso Projecto.

Carta de António Telmo para Álvaro Ribeiro, de 19 de Janeiro de 1959

 

19/1/59

 

Sr. Dr. Álvaro Ribeiro

Meu amigo

 

Começo a convencer-me que se não pratico assiduamente “este género de literatura, feminil e adolescente”, a razão não reside numa incompatibilidade de temperamento, mas numa certa cobardia, (ou timidez), pois continuo a ser adolescente, apesar dos meus trinta anos, adolescência que disfarço mal ocultando a 1.ª pessoa do pronome pessoal. Assim comecei a carta.

O sr. Dr., isto é, o Álvaro Ribeiro, é aqui conhecido. O Director da Escola, a quem emprestei a Escola Formal, há dias, falou-me em si, durante uma conversa, em que outro professor elogiava o Delfim Santos, como a maior personalidade dos nossos meios intelectuais. O 1.º capítulo, que ele até agora leu, entusiasmou-o. Conhecia sòmente os seus artigos e já mandou vir os restantes livros. Em nada contribuí para esta evocação do seu nome. Ele conhece a actividade do Quadros, em prol das suas ideias.

Disse-lhe na última carta que tinha deixado de escrever. As ideias, às quais não dou o movimento do verbo, por razões que o sr. Dr. conhece tão bem como eu, ainda por vezes vêm anunciar-se. A minha vida foi toda um engano. Esperei imenso: em mim. Julguei-me, muitas vezes, uma[1] inteligência de escol. Resta-me o consolo dos medíocres: – ter convivido, em fraterna amizade, com homens superiores. Por isso as minhas cartas não têm interesse de maior e nas minhas palavras haverá sómente o traço viril de uma ironia amarga, e de um despeito calmo em relação àqueles que me queimaram, em efígie, acendendo fogueiras nas encruzilhadas. Sabe a quem me refiro e desculpe lembrar-lhe o rei Lear, de dentro desta escura mania da perseguição.

O vermelho transmite maior vigor ao que escrevo, mas temo maçá-lo com os meus queixumes e a minha pessoa. Desculpe-me, o meu amigo. Gostaria que me escrevesse, acredite e que me desse notícias da Conchita e da Sr.ª D. Angelina, por quem tenho uma grande amizade.

Da última vez que estive com a sua mãi mais uma vez o verifiquei.

É Domingo e escrevo dum café. Certamente, nesta mesma altura, encontra-se o sr. Dr. na Brasileira, ou na nova leitaria das Avenidas Novas. Os mesmos temas, as mesmas conversas: imagino bem. Como compreendo que goste tanto das mulheres! A sua vida interior que durante tanto tempo constituiu para mim um enigma, torna-se agora mais acessível nos seus segredos.

Felicidades para todos do

António Telmo

   

[Espólios N9/1047]



[1] Nota do Editor – Desta palavra, inclusive, em diante e até ao final da carta, António Telmo escreverá com tinta vermelha.

 

DISPERSOS. 16

26-02-2019 11:43

O Último Discípulo de Leonardo Coimbra[1]

 

Todos vão lamentar a morte de Agostinho da Silva e irá, decerto, dizer-se que perdemos um grande espírito. Neste momento, Portugal poderá ganhá-lo tornando seu tudo quanto escreveu. Não se pode considerá-lo somente um escritor. Ele era também um livre-pensador precisamente por ser não ateu. Como tal, exprimiu-se como um homem de acção.

Tive a sorte de conviver com ele diariamente, durante três anos, e fiquei impressionadíssimo com o seu comportamento, desinteressado, raro, porque pressupunha a iluminação do espírito nos mínimos actos e gestos, na vida dos sentimentos.

Agostinho da Silva foi o último discípulo de Leonardo Coimbra. Assim se fecha um ciclo. E como todo o ciclo é uma espiral, só agora ele poderá ser vivido e pensado como uma sugestão e abertura para o infinito.

 

António Telmo



[1] Nota do Editor – O título é da nossa responsabilidade. Publicado originalmente, como um de quatro “Testemunhos” [na morte de Agostinho da Silva], em Diário de Notícias, ano 130.º, n.º 45667, Lisboa, 4 de Abril de 1994, p. 34.

 

 

 

DOS LIVROS. 60

20-02-2019 11:17

 

Álvaro Ribeiro na Cotovia, em Sesimbra, cerca de 1970

 

O Problema da Filosofia Portuguesa*

 

A obra de Álvaro Ribeiro abre propriamente com O Problema da Filosofia Portuguesa. Tendo observado e sofrido o espectáculo da servidão intelectual dos portugueses, servidão a que estariam e estarão sempre condenados se não viessem ou não vierem a adquirir consciência de um pensamento especulativo próprio que seja, ao mesmo tempo, uma missão, o filósofo propõe que, na Universidade, se forme uma escola de filosofia portuguesa e indica os meios que é necessário movimentar para se atingir tão alto fim. Portugal tem um pensamento próprio, porque, se assim não fosse, não constituiria uma comunidade com um destino histórico, mas, ainda envolto na literatura, no direito, nas artes da pedra, da cor e do som, na sabedoria popular ou na sua tríplice expressão religiosa, só com Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra começou a adquirir consciência de si na filosofia. Traça, por isso, as linhas mestras sobre as quais se haja de compor a Escola de Filosofia Portuguesa. Para tanto, há que libertar a Universidade do seu estado de subserviência aos inimigos do pensamento original, criando as condições duma actividade especulativa do génio português.  

 

António Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e inéditos, 2019)
 

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* O título é da nossa responsabilidade.

INÉDITOS. 81

28-01-2019 11:29

Código de honra do cidadão livre

 

1.º Não me esquecer nunca de mim em qualquer situação, de modo a ser sempre responsável dos meus pensamentos, palavras e actos.

2.º Não se trata do que se entende habitualmente por responsabilidade moral. Bons ou maus pensamentos, por exemplo, é em mim que eles nascem e progridem, evoluem e morrem. Aqui a presença a mim mesmo pode ser, e é, a de alguém que assiste aos seus próprios pensamentos como se fossem de outro, mas eu sou ainda responsável por esse outro que deixei instalar em mim. Responsável, quer dizer, que respondo por ele e não que me desculpo com ele. Se, ao pensar, falar e fazer me esqueço de mim, sou como se não fosse, sigo como se não permanecesse no movimento que os transporta. E como os outros são vários a instalar-se, vivo sem identidade, como um autómato. Agredi alguém? Não tive culpa, não fui eu. Vejo depois o de que deveria ter consciência no momento. E, tendo consciência, assistir impávido ao movimento do monstro que agride, reconhecer que ele é em mim realmente existente. Dir-se-á que assim se aceita o mal. “Não resistir ao mal” disse Jesus. A verdade é que este é o único caminho de libertação do mal. Se reajo contra o “monstro” que quer agredir, ele cresce e aumenta de força. Se não tomo consciência dele em mim, apodera-se inteiramente do meu ser.

O que acontece se não resisto ao mal, estando eu presente a mim mesmo? “Mais vale experimentá-lo que julgá-lo”. Mas julgando é de supor que a energia, que pela minha entrega ou pela minha resistência, animava inteiramente o monstro, lhe falta e a vontade ou força que o animava pode ser captada para fins mais nobres.     

 

António Telmo

INÉDITOS. 80

06-01-2019 13:12

Carta Segunda

 

Leonardo Coimbra não quer que a humanidade seja depois de Cristo o que foi antes de Cristo e por isso repudia a tragédia grega. Deveria também repudiar o teatro de Shakespeare. Mas a redenção da humanidade e, segundo Orígenes, de todo o Universo, é feita através da tragédia de Deus que, aliás, a Igreja Católica repete em simbólica presença todas as semanas. “O mal não é por si só suficiente para que por ele se explique o Universo” escreve contra A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Todavia, foi suficiente para provocar a morte humana de Deus. E como o segundo Édipo (Édipo em Colona) nos mostra o herói trágico, que a fatalidade no primeiro Édipo (Édipo Rei), levou ao desterro e à cegueira dotado do poder miraculoso de curar (Cristo ressuscitado), assim a ressurreição de Cristo não foi sem a celebração pela humanidade que o crucificou do mistério do mal.

Se na existência do mal, não houver algo de radical, isto é, se o mal não estiver nas raízes do mundo não se compreenderá a necessidade da encarnação de Deus. Essa raiz é também a de que brotou a humanidade porque é a figura do homem que Deus assume pelo Filho. Daqui a importância do homem na Divina Comédia que levou Orígenes a dizer que a Divina Tragédia repercutiu infinitamente e tremendamente nas esferas angélicas e arquiangélicas do Universo.

Há que reconhecer que os gregos perpetuavam pela tragédia uma antiquíssima tradição, conhecida e sabida de todos os povos do mundo. A teoria da tragédia exposta por Aristóteles na Poética é a teoria do sacrifício que Leonardo Coimbra já medita no seu primeiro livro. Só nos tempos modernos a arte da palavra se tornou uma ocupação de literatos.

 

António Telmo

INÉDITOS. 79

18-12-2018 11:57

Da heresia*

 

Há que distinguir a “heresia” que significa escolha e é, portanto, uma forma de liberdade conciliável com a ortodoxia, de “luciferismo” em que a luz que o espírito conduz se afirma como autosubsistente. A filosofia portuguesa não é luciferina nem satanista, porque tem como princípio a ideia de Deus. Não é satanista porque não consagra nem diviniza o sensível, separando-o do seu princípio espiritual.

É muito difícil não haver “escolha” num povo servido por três tradições. Dizer, por exemplo, que Cristo foi um profeta, se é herético do ponto de vista católico, não o é do ponto islâmico. Do ponto de vista hebraico, isto é, do Velho Testamento, não se põe esse problema, que é posterior ao estabelecimento da Tradição. A filosofia portuguesa tende a ver no cristianismo um aperfeiçoamento do mosaísmo e não uma nova religião diferente ou oposta à primeira.   

 

António Telmo

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* Título da responsabilidade do editor.

UNIVERSO TÉLMICO. 62

28-11-2018 15:12

Publicamos hoje “Da Pluralidade Fecunda: João Ferreira e a Filosofia Portuguesa”, texto da comunicação que Pedro Martins apresentou ao XII Colóquio Tobias Barreto, no passado dia 13 do corrente mês, no Palácio da Independência em Lisboa. É um olhar sobre o livro pioneiro e clássico deste insigne membro do nosso Projecto, que é hoje o decano do movimento da Filosofia Portuguesa.  

Da Pluralidade Fecunda: João Ferreira e a Filosofia Portuguesa

Pedro Martins

 

1. Entre 1957 e 1961, João Ferreira publicou em Itinerarium, Revista Portuguesa de Filosofia e Diário Ilustrado uma série de estudos que, «sob a pressão dos amigos», veio a reunir em Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa, editado em 1965. À distância de meio século, este livro do emérito Professor da Universidade de Brasília permanece como referência no correspondente domínio, na senda dessa obra seminal que foi O Problema da Filosofia Portuguesa, publicada por Álvaro Ribeiro em 1943.

Não sabemos o que nele mais admirar: se a serenidade, a elevação e a elegância com que o autor participa num debate não raro marcado pelo acinte de surdas polémicas; se a clareza didáctica da sua prosa límpida e a erudição actualizada que o enformam; se a ponderação, o equilíbrio e a lucidez dos juízos formulados; se a genuína atitude de paixão filosófica que o determina; se o espírito de missão e serviço que, com sentido prospectivo, o motiva.

 

2. Em larga medida, as páginas de Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa obedecem frutiferamente a um desenvolvimento analítico, dicotómico ou dual, mas não dualista, das matérias que aborda ou das questões a que responde.

A este respeito, e antes de mais, convém que se saiba do que se fala quando se fala de filosofia portuguesa. Para João Ferreira, a expressão comporta dois sentidos diferentes, numa relação de género e espécie.

Em sentido amplo, filosofia portuguesa «significa o conteúdo doutrinal da nossa história filosófica e abrange a filosofia cultivada pelos portugueses durante a sua sobrevivência histórica como tal». Por um lado, consideram-se os «monumentos literários dos autores» em que essa filosofia se concretiza como «corpo histórico» a partir do qual pode objectivamente ser estudada. Por outro, atende-se ainda à sua «feição vivencial formulável», «latente no espírito do povo e na consciência individual dos que se consagram à problemática filosófica». À dicotomia assim enunciada, corresponde a destrinça entre uma «filosofia explícita» e uma «filosofia implícita», que constituem a «dupla face» da filosofia portuguesa na sua mais ampla acepção.

 

3. Mas há ainda que tomar o termo num sentido mais restrito, pelo qual se significa já «a atitude mental e cultural de alguns pensadores livres, com fundo filosófico e cultural, os quais reunidos em torno dum símbolo comum, que é Sampaio Bruno[,] advogam a existência, originalidade e a supremacia da filosofia portuguesa sobre as outras filosofias e a sua missão na condução do povo português para o futuro».

Fundada por Sampaio Bruno, trata-se, nas palavras de Álvaro Ribeiro, que João Ferreira cita e traduz, «da corrente “dos livres pensadores religiosos, tão afastada do positivismo agnóstico como do catolicismo ortodoxo e colocada fora do ensino das instituições públicas». Evidentemente, é «por direito próprio, no que tem de conteúdo e afirmação filosófica», que este segundo sentido «fica naturalmente incluído» no primeiro, «ecuménico e universal», da expressão filosofia portuguesa, que designa «o pensamento filosófico pátrio diferenciado e característico», em referência «às formas históricas e vivenciais da filosofia portuguesa, incarnadas na existência temporal da velha casa lusitana».

 

4. Ainda que João Ferreira o não diga abertamente, não será ousado supor que estas duas dicotomias – filosofia portuguesa em sentido amplo e em sentido restrito; face explícita e face implícita da expressão na sua acepção mais vasta – possam ser aproximadas, nos termos variáveis de uma sobreposição tendencial, de outra que logo nos propõe, ao distinguir professores de publicistas:

 

«Os primeiros, com uma função docente oficial, são geralmente de espírito universalista, procurando estar atentos às novidades exteriores para se manterem ao nível das melhores produções estrangeiras, informando os seus alunos dos temas, problemas, métodos e resultados do estrangeiro culto. Os segundos, pensadores livres ou independentes, sem responsabilidade oficial de ensino, inspirando-se em temas de livre escolha, não impostos pelos programas, nacionais, circunscritos, procuram corresponder a uma linha histórica e caracteriológica da nação em nome da qual filosofam. Esta disjunção, demasiado evidente para que a passássemos adiante, reúne e comporta dum lado a filosofia universitária e doutro, a filosofia a-universitária. Ambas, porém, representam, no esforço comum do país, dois momentos funcionais.»         

  

Se esta distinção permite já antecipar, no desenvolvimento da obra, a questão da extensão do próprio conceito de filosofia, facto é que, nas palavras do autor,

 

«ambos concorrem para um despique útil à revitalização filosófica do país, pois enquanto os professores vão lutando por que o pensamento não se feche numa insularidade asfixiante e provinciana, os publicistas, de sua vez, vão lembrando que não podemos ir à busca de nós fora de nós, lamentando simultaneamente a conversão do pensamento dos portugueses às formas estrangeiras e a importação não assimilada».  

 

Sublinho as ideias de concorrência e de despique que, se não impedem o diálogo ou a colaboração entre os dois grupos, não será de crer que consintam a cooperação em termos que possam conduzir à confusão ou dissolução do grupo dos publicistas, no qual naturalmente se inclui o movimento da Filosofia Portuguesa, no grupo dos professores, por assimilação ou desvirtuamento, com ou sem mediação confessional. Esta observação não pode deixar de se mostrar de vital importância para um movimento de livres-pensadores religiosos que, pela voz da sua mais alta figura, se afirma equidistante do positivismo agnóstico e do catolicismo ortodoxo e se coloca fora do ensino das instituições públicas.

À distância de cinco décadas, e enquanto não chegar o tempo em que os desígnios de Álvaro Ribeiro se cumpram, a lição de João Ferreira pode ajudar a mostrar, de modo iluminante, que o problema da filosofia portuguesa, no tocante ao seu aspecto ontológico, isto é, à sua existência, perigosa e lamentavelmente se enuncia, por referência à acepção mais restrita da expressão, como um problema de sobrevivência.

 

5. Persistindo na abordagem dual ao problema, João Ferreira distingue a questão de direito da questão de facto. A primeira «resolve-se no plano da possibilidade das filosofias nacionais, de que a filosofia portuguesa é capítulo especial». A segunda, de solução eminentemente probatória, faz apelo ao «testemunho histórico-crítico» como «critério de aceitação».

Para responder a estas questões, teve o autor o cuidado propedêutico de propor uma definição teleológica da filosofia, a esta assinando o propósito de «tornar mais inteligíveis ao homem os reinos do conhecer, do ser e do valer, dos quais, o mais importante, em prioridade e pressuposição é o reino do ser. A filosofia encara o ser na sua noumenalidade, que apreende no ser concreto, dado em fenomenalidade», sendo, pois, «um caminho para a inteligibilidade do ser, um caminho para a inteligibilidade da vida, do homem e dos seus problemas». Noutras palavras, «a filosofia tende essencialmente a exprimir a visão que o espírito humano pode formular acerca do cosmos, no que ele tem de mais profundo e misterioso, ou seja, na escala dos seres que o integram, na sua origem, natureza, fim e inteligibilidade».  

Por outro prisma analítico, João Ferreira concebe-a ainda, ora «como uma atitude humana», ora, na senda de Ferrater Mora, como «“um conhecimento ou uma série de proposições, quer seja sobre objectos considerados como próprios, quer sobre quaisquer proposições para averiguar o seu sentido ou falta de sentido”», sendo que «estas duas facetas da intenção filosófica dão à filosofia um âmbito que está longe de ser restrito».

 

6. A referência, que vem de ser citada, à intenção filosófica, devolve-nos à questão de direito, que o autor resolve com sólida e aturada argumentação, concluindo pela possibilidade teórica da existência de filosofias nacionais.

Concedendo na justa medida da evidência, não pode João Ferreira deixar de admitir que «a filosofia entra no grupo das ciências apátridas», pois que seja

 

«sua intenção inquirir primariamente o ser enquanto ser (ens ut sic), isto é, por ser a busca desinteressada e conceptualizada do reino ôntico, em seus núcleos totais de essência e existência, é universal. A verdade perseguida pela intenção filosófica é, neste sentido a-espacial e intemporal, exigência natural do espírito humano, que tende a formular síntese de orientação e método para dominar, de posse de categorias universais, o mundo (cosmos).»

 

Mas importa distinguir o objecto da intenção filosófica, que é a verdade, realidade de natureza universal a que o espírito ascensionalmente aspira, do seu sujeito, que, como sua condição sine qua non, é o homem, a pessoa humana.

Em decisiva passagem, escreve João Ferreira:

 

«Se, efectivamente, a verdade filosófica, de direito e de natureza, é universal, a-espacial, intemporal e apátrida, de facto, porém, enquanto pesquisa e formulação humana, ela situa-se, temporaliza-se e espacializa-se. Situando-se, participa da circunstância em que o homem, ao exprimi-la, vive. Temporalizando-se, é tocada pelas condições da terra em que seu teorizador geograficamente vive.

Convém por isso, de todos os modos, sublinhar esta simples verdade fundamental: a filosofia é obra humana. Sendo obra humana, é obra do homem todo. O homem tal qual o conhecemos não é nem puro espírito, nem alma penada em catarse metempsíquica, mas é um ser imerso no mundo, feito de alma e corpo, e unitariamente realizado. Esta realização unitária chama-se pessoa humana

Nesta base, enquanto obra humana, a filosofia acompanha o homem concreto onde quer que ele se situe ou acondicione, comungando, enquanto factura, da base antropológica do seu autor, e sofre assim limitação e influência positiva ou negativa das condições naturais do homem situado.»

 

Percebe-se aonde conduz a constatação desta evidência. Condições comuns como a raça e a língua, individuais como a índole e o temperamento, e históricas, «que podem afectar toda uma época, uma classe ou um grupo», como a religião ou outra concepção do mundo e das coisas, o espírito comum e o estado da cultura da época, a tradição de escolas filosóficas e o estado das ciências particulares, são factores que «determinam em grande parte tanto as questões que se põem, como a mesma formulação dos problemas e as soluções que deles se dão». Assim, escreve João Ferreira, «admitidas as condições antropológicas, sociais e históricas na produção filosófica, abre-se caminho para a tese da existência das filosofias nacionais». E admitir que estas existam – esclarece – «não é admitir a relativização da Verdade».

Relativos serão antes os caminhos que a essa verdade conduzem, pela relação que com ela estabelecem, quais raios de um círculo convergindo da circunferência para o centro.

O adjectivo universal comporta diferentes acepções, que se não opõem. Pela etimologia, exprime a qualidade do que versa para o uno, de um quid que não pode, pois, ainda ser o uno, sob pena de impossibilidade lógica do movimento, isto é, do verbo, que a proposição para, exprimindo direcção ou lugar de destino, ou destinatário, ou intenção, denota. Daí que entre as acepções de universal dicionarizadas encontremos a de algo que provém de tudo ou de todos. Se a análise da totalidade se resolve em plúrimos diferentes com um destino comum, a universalidade surge justamente garantida pela diversidade da alteridade. «Diferença», ensina António Telmo, «é, etimologicamente, o mesmo que irradiação», com o que retomo, uma oitava acima, a geometria do círculo, na imagem que há pouco propus.

 

7. Procurando surpreender a emergência dos nacionalismos filosóficos no movimento que «lançou raízes com o liberalismo e o romantismo», observa João Ferreira: «Para enriquecer o complexo geral da verdade, havia que expor a face concreta dos problemas situados, para que surgissem interpretados na sua realidade». Desta sorte, «a ideia duma verdade supranacional apareceu em oposição à alegria produzida por uma mundivivência de características nacionais, criando-se nos pequenos povos uma confiança própria nos seus destinos intelectuais e na linha característica do pensamento próprio do seu temperamento».

Não será outro o sentimento da Renascença Portuguesa, em que o movimento da Filosofia Portuguesa, na sua especificidade, se filia. A Álvaro Ribeiro, seu mentor, se deve a ênfase depositada na questão da existência de uma filosofia portuguesa. João Ferreira, uma vez solucionada em sentido afirmativo a questão de direito, seguirá de perto o mestre na resposta, igualmente positiva, à questão de facto, sem, contudo, deixar de carrear outros contributos, próprios ou alheios.

Fá-lo operando nova destrinça dual: entre a filosofia como conhecimento e a filosofia como atitude; ou como teoresis e como vivência; ou como ciência e como arte. As sucessivas dicotomias equivalem-se em termos de correspondência, por elas se significando uma filosofia em sentido restrito, ou técnico, e uma filosofia entendida já em sentido amplo, pois a verdade é que «pode existir filosofia, mesmo onde não há rígidas estruturações dialécticas (a dialéctica é um meio de expressar a reflexão filosófica) ou profundas questões metafísicas, reduzidas a sistema». Tributário da dialéctica, o próprio sistema, como observa João Ferreira,

 

«é apenas uma forma de manifestar, em coordenadas, o pensamento filosófico. Nele impera a ordem e a síntese, o que favorece geralmente a didáctica e a comunicação. Entretanto, a filosofia não pára aí, nem é exclusivamente sistema. Há outras articulações, outra forma de manifestação filosófica: a filosofia como atitude e como vivência. Em Portugal, julgamos existirem também as duas formas: a filosofia como conhecimento (conimbricenses, por ex.) e a filosofia como atitude.»

 

Se bem o entendemos, na visão de João Ferreira só imperfeitamente coincidirá esta dicotomia com a que distingue professores e publicistas. Mais importa sublinhar que, apesar de a filosofia-especulação nela encontrar representação, é na «ars vivendi» ou na filosofia como arte de viver que se enquadra a tendência mais forte da filosofia portuguesa.

 

8. O amplo conceito do autor, libertando a filosofia da unicidade expressiva da forma sistemática, permite-lhe integrar no corpus filosófico nacional obras literárias de «grande altura filosófica», entre cujos autores se contam os nomes de Pascoaes, Raul Brandão, Antero, Florbela Espanca, Régio, Torga e Pessoa, plêiade que considera deste modo:

 

«Pela sua qualidade de autores trágicos, para quem a vida é uma interrogação que procuram desvendar como Esfinge, a filosofia aparece no sangue palpitante do próprio problema vital que eles contornam através de uma cálida expressão trágica. São por isso autores ou escritores de interrogação existencial, da corrente vitalista, protótipos da filosofia do concreto, sem coragem de obedecer a cânones rígidos de uma dialéctica transcendental ou coisa do género, mas ricos de intuições e de filosofemas de pureza humana, dignos de assinalar. Apesar de pertencerem mais ao género emotivo e intuitivo do que ao tipo intelectualista e abstracto, entram também no sentido original de filósofos, pois são verdadeiros mendigos da sabedoria, peregrinantes da realidade, encoberta pelo verbo escuro, que esconde a Verdade.»

 

Partindo desta fulgurante passagem, algumas notas se impõem. A primeira é a de que só uma radical, e por isso integral, concepção da filosofia a pode explicar:

 

«A filosofia é verdadeiramente dinâmica. O amor da sabedoria supõe no espírito uma direcção prévia, depois um apego e paixão pela interrogação, uma fixação na admiração (princípio do filosofar, segundo Aristóteles), daqui uma progressão para a dialéctica e por fim, uma aproximação do espírito com a verdade. A filosofia que aprendemos, que se estuda, que se escreve, que se expõe, pode ser metodologicamente apresentada e toma, neste sentido, uma articulação que pela sua altura sistemática e silogística, pode receber o nome de ciência, no sentido moderno (com objecto e método próprios), Mas não será isto uma visão da filosofia ab extrínseco?»

 

Sublinhe-se, todavia, que a esta visão exterior corresponde objectivamente uma coessencial realidade imprescindível à afirmação das filosofias nacionais. Como esclarece João Ferreira,

 

«não se poderá considerar (…) o pensamento implícito ou explícito nas obras literárias como suficiente simpliciter e a se para se poder afirmar a existência de uma filosofia nacional. Para esta se constituir, é necessária uma objectivação mais formal, um corpo mais real e mais claro que só as produções filosóficas, portadoras de temas, de dialéctica e de altura metafísica, genuinamente, podem dar.»

 

No que se lê, supõe-se ou consente-se, afinal, a tese de Álvaro Ribeiro, amplamente desenvolvida por António Telmo, de que cada filósofo tem o seu poeta, o que mais claramente se infere duma outra passagem de Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa:

 

«Se admitimos o pensamento das obras literárias dentro de uma noção ampla de filosofia, consideramos porém que a ânsia perfectiva e simplificativa da razão humana na sondagem da realidade, não pára na intuição, nem na emoção, como aliás a curiosidade científica não se satisfaz com o processo indutivo. O primeiro contacto com a realidade leva a uma sistematização mais pura. Os conhecimentos de primeira mão levam a uma formulação geral e a uma ordenação sistemática dos conhecimentos. Daí nasce a teoria, o sistema, a dialéctica unificadora, a estrutura mental condensada em cânones e outras exigências, também reais, do espírito.»            

 

Estas palavras evocam irresistivelmente Pascoaes, que João Ferreira tanto admira e que algures escreveu que uma verdade, quando vem ao mundo, visita o poeta em primeira mão. Mas intentam superá-lo, à vista de muito do que o vate deixou escrito, notadamente quanto à oposição entre poesia espontânea e poesia culta no primeiro capítulo de Os Poetas Lusíadas. Seja-me permitida, em lance de convergência, uma nova citação, desta feita de António Telmo:

 

«Os nossos poetas situam-se, inocentemente, do lado do irracionalismo. Para eles, a linguagem poética – a sua linguagem –, com as suas estruturas metafóricas, é imediatamente distinta da linguagem da razão, senão oposta. Na medida, porém, em que os poetas, de acordo com um falso bergsonismo, defendem, como o fez Pascoaes, maior projecção e amplitude cognitivas para a poesia, recorrem logo a termos como inspiração ou intuição, contrapondo-as à inteligência como uma faculdade a outra faculdade. Bastar-lhe-ia, contudo, observar que onde quer que o homem escreva, fale ou pense, logo surge o adjectivo e o verbo, sob pena de se ficar mudo ou fascinado pelas imagens fixas que compõem o ser. Este envoûtement corresponde ao que, num plano mais profundo, Pascoal Martins chamou o êxtase de Adão.»

 

9. Na visão de João Ferreira, ampla, generosa e compreensiva, mas dada em rigorosa coerência com as premissas propedêuticas de que parte, «a filosofia nacional alimenta-se, dentro de uma pluralidade fecunda, dos vários quadrantes, que podem fazer dela, em certo sentido, um bloco unitário, ao qual também pertence a literatura com recheio filosófico». É nessa pluralidade fecunda que reside a sua força vital. Pouco importa que uns a reputem dispersiva ou descontínua e outros dela afirmem não possuir «um grupo de pensadores poderosos e originais que tenham exercido acção e influência na marcha geral das ideias». A estas e outras imputações, responde o autor com serena e objectiva ponderação, matizando-as ou restringindo-as por nunca perder de vista «a realidade da própria filosofia». Menos lhe interessando, numa época em que a investigação historiográfica, ainda incipiente, se deparava com um vasto campo de trabalho em ordem ao levantamento dos nossos monumentos filosóficos, ocupar-se do problema axiológico da filosofia portuguesa, isto é, de apurar qual fosse a sua real valia no panorama internacional, João Ferreira desfia, como quem desafia, em dezenas de páginas uma perspectiva histórica das principais fontes da Filosofia Portuguesa, ao mesmo tempo que, considerando dezenas de nomes, mostra topicamente como se pode alcançar uma estruturação e sistematização doutrinal e filosófica, feita sobre autores portugueses, nos diversos domínios basilares do saber filosófico, os mesmos que em 1965, ao longo de um volume ainda hoje interpelante, lhe permitem afirmar a existência, em termos de originalidade ou de aclimação, de uma filosofia portuguesa, da qual, aliás, ensaia caracterizações, em correspondência com a dupla acepção em que toma a expressão.

Chega esse livro até nós como um marco decisivo na abordagem aos problemas da filosofia portuguesa. Decisivo, que não definitivo, e por isso mesmo, como há pouco afirmei, ainda hoje interpelante, pois por ele se pode aferir em que medida e em que sentido entretanto se progrediu.

EDITORIAL.18

20-11-2018 10:30

O tempo dos leitores

Faz hoje cinco anos, era criado o Projecto António Telmo. Vida e Obra. Um lustro depois, a edição, na editora Zéfiro, das Obras Completas do nosso patrono está prestes a alcançar o décimo volume publicado. Capelas Imperfeitas – Dispersos e Inéditos será lançado no próximo mês de Dezembro, em Lisboa, em local e data a anunciar muito em breve.

Esta caminhada só foi possível devido à conjugação de muitos esforços, sendo da mais elementar justiça realçar o dedicado empenhamento da família de António Telmo, a quem saudamos na pessoa de Maria Antónia Vitorino, e da Zéfiro, na pessoa do seu editor, Alexandre Gabriel.

Ao longo destes anos, foram inúmeras as iniciativas públicas que organizámos ou a que nos associámos, no vasto campo da chamada Escola Portuense, alargando o nosso raio de alcance a figuras como Agostinho da Silva, Pascoaes ou António Quadros, entre outras.  

 Deste ponto de vista, 2018 foi um ano de contenção, com maior enfoque no plano do estudo e da edição do espólio de António Telmo. 2019 deverá assinalar o regresso do Projecto, directa ou indirectamente, a uma maior actividade pública. Assim, logo em Janeiro, estaremos empenhados no lançamento do novo número da revista A IDEIA, em boa parte dedicado a Agostinho da Silva, num extenso dossier coordenado por António Cândido Franco, Pedro Martins e Risoleta C. Pinto Pedro. Mas outras actividades estão, desde já, a ser preparadas.

Com a maior parte da obra de António Telmo hoje, de novo e como nunca, acessível ao público, parece ter chegado o tempo dos leitores, os mesmos que têm feito desta página um surpreendente sucesso crescente e solidamente sustentado.   

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