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DISPERSOS. 17

03-04-2019 12:28

No dia em que se completa um quarto de século sobre a partida de Agostinho da Silva, publicamos, em homenagem ao Estranhíssimo Colosso, um dos testemunhos que sobre ele nos deixou António Telmo, e que aliás irá integrar o capítulo "Agostinho da Silva, o último discípulo de Leonardo Coimbra" do próximo volume, que será o XI, das suas Obras Completas, A Verdade do Amor precedida de Adriana, que será lançado ainda no decorrer do presente semestre. Chamamos a atenção do leitor para as notas ao texto, onde damos conta da posição do Professor João Ferreira, que nele é mencionado e do teor do mesmo diverge, impugnando vários aspectos factuais do respectivo testemunho.

Três histórias verídicas[1]

 

Primeira História:

J. F., ex-núncio apostólico da Guiné[2], com no bolso uma carta antiga do Cardeal Cerejeira convidando-o para Reitor da projectada Universidade Católica de Lisboa, doutorado em Filosofia pela Universidade de Lovaina[3], autor de livros notáveis de filosofia franciscana, estava, há alguns meses, desempregado da Igreja no dia em pediu ao Agostinho da Silva, de passagem por Portugal, que lhe arranjasse trabalho no Brasil.

Havia, no meio das árvores do cerrado de Brasília, um edifício inacabado que fora projectado para nele se instalar a Universidade de Teologia. Ficara pelo primeiro piso. Tinha a forma de um grande barco e a planície à volta era um mar. Por cima era como se fosse o convés, onde, a toda a volta, estavam esboçadas umas paredes que formavam como que pequenos camarotes, mas que Agostinho da Silva interpretava como as celas de um convento ou lugares de oração.

Eu e ele todas as manhãs subíamos por uma escada em espiral ao convés do navio e, como num rito, cada vez que aí íamos, o almirante do pensamento dizia ao seu imediato estas palavras memoráveis:

«Ali, naquela cela, ficará um budista, ali um cristão, naquela ali um muçulmano, na seguinte um judeu e, para cada uma das outras, imagine a religião que quiser. Será a primeira Universidade de Teologia porque aqui convergirão para o Uno todas as religiões. Foi o que os portugueses sonharam com a escola de Sagres.»

O pedido de J.F. veio na mesma corrente. O ex-núncio apostólico da Guiné partiu para o Brasil, viagem paga, a fim de fundar a Universidade[4].

Todavia, ali chegado, Agostinho da Silva nunca mais lhe disse nada, depois de lhe ter assegurado moradia e mantimento. Passaram-se longos dias, um trazia outro e o outro coisa nenhuma até que o futuro fundador não aguentou mais e, dirigindo-se-lhe, perguntou:

– Senhor Professor, quando é que pensa que se deve dar início à criação da Faculdade de Teologia? Não foi para isso que vim para o Brasil?

– Exactamente. – Respondeu Agostinho da Silva –. Foi para fundar a Universidade de Teologia que veio para o Brasil. Qual é a dificuldade? Olhe, meu amigo, vá até ao meio do cerrado, sente-se numa pedra e pense em Deus. Fica fundada a Universidade de Teologia.

J.F. saiu desolado desta conversa[5], mas não demorou muito tempo que, pelos caminhos do mundo, o empregássemos como professor de Literatura[6].  

 

Segunda História:

Na Universidade de Brasília, era frequente os alunos chegarem atrasados às aulas. Ninguém os castigava por isso. Sofriam menos tempo as aulas do que os alunos do resto do mundo.

A aula que, nessa manhã, Agostinho ia dar tinha por tema a navegação à bolina física e metafísica. Não estava lá nenhum aluno, já depois do toque. Quando chegaram os primeiros, dez minutos depois, viram espantados que o professor estava a falar para as carteiras e que nem sequer se interrompeu quando eles entraram, prosseguindo por aí fora na sua navegação. Pela primeira vez, aqueles rapazes sentiram que não estavam ali obrigados.

 

Terceira História:

Um dia ficou doente de morrer. Os médicos disseram-lhe:

– O senhor tem uma doença que leva fatalmente à morte. Há, todavia, uma injecção que o pode salvar, mas essa injecção ou salva ou mata. Neste caso, o doente é quem decide: arriscar-se à injecção ou durar mais alguns meses.

– Venha a injecção. – Disse Agostinho da Silva.

O enfermeiro enganou-se e, em vez de uma dose, deu duas. O doente entrou em coma. Mas, lá por dentro de si começou a ver uma roda a girar. Rodava a grande velocidade, movimentando-se por círculos concêntricos, cada um com a sua cor. Teve, então, a certeza de que se conseguisse fazer parar a roda não morreria e ficaria salvo. Pôs nessa ideia toda a intenção. A roda parou.

Esta história foi-me contada pelo próprio.

 

Estas três histórias mostram que o pensamento pode criar, comunicar e dar a vida. O pensamento é como um nada ao pé da solidez das coisas e da agressividade da quantidade. Vemos as ruas cheias de pessoas, movendo-se em todos os sentidos, cada uma levada pela sua emoção. Num campo de futebol ou durante uma manifestação política é a humanidade que pesa. Não reparamos na brisa que agita os ramos das árvores e desfralda as bandeiras. Mas toda essa gente vive daquele elemento de onde a brisa nasce e que é invisível e imponderável como se fosse um nada. Agostinho da Silva conhecia como ninguém a suprema importância da brisa. Não foram só os seus livros e os seus discursos que receberam a inspiração do Espírito. Vivia extravagantemente a vida. Tudo o que para nós é exterior era para ele interior. Durante os três anos que convivi diariamente com Agostinho da Silva não precisei de ler os seus livros e de ouvir as suas conferências para saber para onde nos levava.

 

António Telmo



[1] Nota do editor – Publicado originalmente em A Phala, n.º 38, Julho/Agosto de 1994, p. 20.

[2] Nota do editor – António Telmo refere-se a João Ferreira (n. 1927, Agunchos, Ribeira de Pena), hoje Professor aposentado da Universidade de Brasília, na qual ingressou em 1968, após convite de Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa. A respeito deste e de outros escritos em que António Telmo o menciona (nomeadamente o texto seguinte do presente volume e a entrevista à revista Ler – Livros e Leitores, de 1998, conduzida por Francisco José Viegas, já publicada no Volume VI destas Obras Completas (Viagem a Granada seguida de Poesia, pp. 95-107) o depoimento que nos foi prestado por João Ferreira contraria, em vários aspectos, a versão apresentada por António Telmo. Assim, desde logo, João Ferreira nunca foi núncio apostólico. Na Guiné-Bissau, foi Director-Geral, residente em Bissau, de todas as escolas, rudimentares, primárias, técnicas e de formação de professores de primeiro grau da Prefeitura Apostólica daquela província ultramarina, num total de cerca de 500, entre 10 de Junho de 1963 e 10 de agosto de 1965. 

[3] Nota do editor – Na verdade, foi na Pontifícia Universidade Antoniana de Roma que João Ferreira, em 10 de Dezembro de 1953, defendeu a sua tese de doutoramento intitulada Petrus Hispanus eiusque positio psychologica relate ad Avicennam [Pedro Hispano e a sua posição doutrinal em psicologia relativamente a Avicena].

[4] Nota do editor – João Ferreira afirma que nunca Agostinho lhe falou de teologia nem de cargos teológicos nem de uma Faculdade de Teologia.

[5] Nota do editor – Cf. a nota anterior: a versão de João Ferreira contraria este relato.

[6] Nota do editor – Segundo João Ferreira, Agostinho da Silva foi sempre a pessoa mais participativa, mais atenta, mais lutadora, mais amiga, para o colocar na Universidade. Sempre quis a sua presença na Universidade, lutando por ela como ninguém.

 

UNIVERSO TÉLMICO. 63

26-03-2019 12:02

Gilberto Pinhal e o milagre de Alalaia

Pedro Martins

 

Que a arte é longa e a vida breve, eis uma verdade há muito sabida, que o caso doloroso do sesimbrense Gilberto Pinhal nos vem agora sublinhar. Partiu quando o século ia a meio, com 23 anos, às mãos de uma tísica, essa tesoura das parcas, que, pouco antes, já cortara o fio subtil do confrade Zé Preto. Com eles e com Rafael Monteiro, Manuel José Palmeirim, António Telmo, António Reis Marques e Francisco Reis Marques, teve Sesimbra a sua mais notável geração de homens de letras, da história à poesia, do jornalismo à filosofia.

Pescador e graduado da Mocidade Portuguesa, cujo Centro de Marinharia fora chamado a comandar em Lisboa, Gilberto Cerqueira Pinhal foi sobretudo um «misto de poeta e marinheiro, e por isso alma bem portuguesa», como dele afirma, judicioso, quem o evoca na edição de O Sesimbrense de 12 de Novembro de 1950, seis dias após a sua morte. Não vem assinado, o obituário, mas não custa supor, e será mesmo de admitir, que tenha sido Rafael a escrevê-lo.        

Gilberto Pinhal, que usava assinar com o pseudónimo Palma Gil, deixou-nos alguns poemas, entre eles o extraordinário Alalaia – Poema do Mar, saído a lume em folheto e posto a concurso em Siracusa. É sobre ele que vos irei falar. Bastaria este poema, como realmente bastou, para que nunca devêssemos esquecer quem o compôs.

É Alalaia a versão poética de uma lenda sesimbrense, tal como esta, naqueles anos, lhe terá chegado pela tradição oral. Disso mesmo parece dar conta ao narrar que «o velho pescador desfia ao neto / o rosário já de seu avô».

Lenda vem de legenda, palavra que significa o que deve ser lido.

Que deve, pois, ser lido em Alalaia? Isto é: como deve ser lido? 

A primeira pregunta a fazer é esta: o que é a Alalaia? 

Pode dizer-se que é uma ilha.

Pelo menos, a isso nos autoriza o Professor João Chagas, no artigo que em 1999 publicou no Jornal de Sesimbra e que em 2005, enquanto editor da Sesimbra Eventos, tive a honra de republicar no derradeiro número desta agenda cultural, que foi também o último de um díptico dedicado aos mitos e às lendas de Sesimbra. Particularmente lúcida foi a relação que este nosso saudoso Amigo nele então sugeriu entre a Ilha do Amor de Camões e a Alalaia. Como se vai perceber.

Onde fica essa ilha, a Alalaia? Os mareantes que a procuram, esclarece Palma Gil, vogam «através dos espaços, sem rumo, sem norte, sem fim», buscam «essa terra que para lá do Sol fica». Esta é uma coordenada repetida, várias vezes, ao longo do poema. Mas o poeta também nos diz que «Alalaia jaz / no seio do mar, / Envolta em mistério oculto, / negada aos olhos do Mundo».

Parece haver aqui uma contradição. Mas não passa de mera aparência, se ali tomarmos o Sol e o mar como símbolos. O símbolo, ensina Álvaro Ribeiro, é a metade sensível de uma realidade insensível, isto é, de uma realidade que não pode ser alcançada pelos sentidos. Temos assim duas imagens que nos remetem para uma realidade de outra ordem.

A verdade é que Alalaia não fica neste nosso mundo. Está situada num outro mundo, do qual poderemos até, talvez, dizer que é o outro mundo.

E a este respeito será muito importante observar que a visão da Alalaia é não raro precedida de uma atitude religiosa. Isso mesmo se verifica logo nos quatro primeiros versos do poema: «Correu no céu o sinal / em abrir luminoso do horizonte / ao dobrar dos joelhos / dos homens quedados em oração».

Gilberto Pinhal persiste nesta ideia com uma outra imagem: «Alalaia, morreste / e existes no sonho das gentes, / para lá da bruma intransponível, / que o homem quer desvendar. / Alalaia existe, / no arrebol do Sol nascente, / quando, ao largar da rede, / ao “lavacão”, / os barretes mostram cabelos, / e os lábios deixam sair uma oração».

Surge aqui um dado novo, que se vai revelar do maior significado: a visão da Alalaia dá-se de manhã.

Não creio que essa circunstância seja um acaso, pois o nosso poeta parece frisá-la pela insistência: «Envolta em nuvens de alvo linho, / quando a lua, amortalhada, agonizou, / a terra floriu / no calor da divindade, / no nascer dos raios fecundantes / do Sol abrasador». No verso imediatamente seguinte, revela Gilberto: «Era nascida Alalaia».  E, poucas estrofes adiante, irá escrever: «… e a manhã rompia /em pinceladas de rosada aurora! / É dia, vai recomeçar Alalaia! / … e o dia vinha, / e a noite vinha, / e o Sol passava, / e a lua banhava beijos e abraços, / e a terra era céu / de beleza, de clareza, / no mistério eterno do dia nascente»

Palma Gil afirma agora, referindo-se à Alalaia, cuja visão surge sempre ao raiar da aurora, que a terra era céu de beleza, de clareza. Não será, por isso, errado ver na Alalaia uma terra celeste, o que aliás é coerente com a minha afirmação de que ela é já um outro mundo. Quero com isto dizer que a Alalaia não é o mundo físico ou natural, em que estamos e que se oferece às nossas percepções sensoriais, mas um mundo situado já fora do espaço e do tempo. Assim, a Alalaia, tal como o poeta a vai descrevendo, é «a terra bela, / de mar tranquilo, de homens puros / de vida eterna»; é também a terra «do sol eterno»; e é ainda «o sonho eterno que os barcos correm, / de mar em mar, / em busca do ignoto».

O sol eterno a que Gilberto se refere é, pois, o sol da Alalaia, isto é, será já o sol daquela terra que fica para lá do sol desta terra, que é ainda o nosso mundo. Antes de tentar conferir a todos estes dados uma unidade de sentido, irei, uma vez mais, procurar explorar aquela dualidade no poema de Gilberto Pinhal.

Da Alalaia diz-nos ele, por exemplo, o seguinte: «Foi ali / que as florestas deram faunos; / bergantins de magia pisaram lagos prateados / de homens de arcaboiços bronzeados / em halos de esplendor infindo, / sobre as areias morenas aurifulgindo, / filhos de fadas, / que as vagas taparam / no rebentar do infernal marulho.»  Mais à frente, revela: «Era nascida a Alalaia, / a terra bela, / de mar tranquilo, de homens puros / de vida eterna, no cantar dolente das Nereidas – voz de Neptuno, / que Anfitrite espalhava / pelas dunas sossegadas; sono embalador de felicidade, / que Diana deixou no seu dócil passo, / em busca de Febo, / em procura de maior claridade… / e a luz irradiava, / do altar à vela, que rasgava céus, / do mar ao moinho, que cortava ventos. / A terra colorida / era o princípio de Júpiter, / o cantar da alvorada da eterna vida.»

Estas duas passagens suscitam três observações.

A primeira diz respeito à nota de tranquilidade, quando não de quietude, que nos é sugerida por alguns versos do segundo excerto, em que, como acabámos de ver, se fala de: mar tranquilo; cantar dolente; dunas sossegadas; sono embalador; dócil passo. A própria noção de eternidade, pressuposta neste excerto, remete-nos para um tempo imóvel, em que tudo é simultâneo, em que nada obedece já à lei da sucessão.

Outra nota da maior importância, e aliás decisiva, é o facto de os seres e as coisas parecerem difundir uma luz que lhes não é exterior, que lhes não vem de fora, mas que tem neles próprios a sua origem: os homens aparecem-nos envoltos em halos de esplendor infindo; e as areias, apesar de morenas, refulgem em dourado. Dir-se-ia, pois, que comungam dessa luz que, nas palavras do poeta, irradia do altar à vela e do mar ao moinho.

Por último, deve notar-se que Palma Gil chama à Alalaia terra colorida. E era dessa terra, conta-nos ele, depois, no poema, «que a gaivota, núncia marinha, / trazia notícia estranha, / às areias tórridas, / da terra sem cor e sem fé / das gentes exaustas, / dos campos incolores, /  do mar tenebroso, / dos penedos agrestes, das flores bravias; / Sol sem calor, / de luz mortiça; / vida sem brilho, no aço nu / da lança maldita, / que a Cruz não esqueceu…»

O contraste entre os dois mundos não poderia ser mais evidente: na cor, na luz e no calor. E também na fé, ou na falta dela. Já vimos que a visão da Alalaia depende da adopção prévia de uma atitude religiosa. Assim, não será de estranhar que a ausência de uma tal atitude, por falta de fé, impeça essa visão.

Uma terceira passagem do poema, que corresponde a toda uma estrofe, permite condensar em síntese o que as duas anteriores mostravam: «ALALAIA!, ALALAIA! / de bosques ridentes / de “ziziphus marinhos, / de esmeraldas irisadas, / de Lotos divinos, / que teus filhos ofertaram, / deixando p’ra trás do rumo, / o esquecimento da vida terrena… / luz branca a pairar / nos lagos serenos da tua paz; / tanger bronzeado / do sino a repicar, / em melodiosa  ode de recolhimento, / a clamar, da tua gente, / uma prece infinda…»

Eis, pois, de novo, a paz e a luz, e a prece que a elas conduz. Que pensar de tudo isto?

A chave que nos abre as portas de Alalaia, iremos encontrá-la em António Telmo e na leitura hermenêutica que nos propõe de Os Lusíadas, no seu Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões.

Vou assim socorrer-me deste seu livro, nascido de uma descoberta espantosa: as inúmeras coincidências, que o filósofo verificou existirem, entre a descrição da Ilha do Amor que aparece no célebre Canto Nono da epopeia e uma pintura pertencente a um manuscrito tardio (do fim do século XIV) do sul da Pérsia, que encontrou reproduzida no livro Sufi de Laleh Baktiar. Esclareça-se, desde já, que a palavra sufi designa, na tradição muçulmana, o iniciado. O sufismo é o esoterismo islâmico, do mesmo modo que a Kabbalah é o esoterismo judaico.

A Ilha de Camões a que Telmo alude no título do seu livro é, pois, a Ilha do Amor e tem, desde logo, em comum com a Alalaia o ser uma ilha. Mas as coincidências não ficam por aqui. Tal como no poema de Gilberto Pinhal, são marinheiros ou mareantes aqueles que a avistam e alcançam. E, tal como no poema sesimbrense, há a sublinhar o facto, que António Telmo acentua, de «a Ilha surgir aos olhos dos navegadores quando a Aurora se levanta. Os versos são estes:

 

Houveram vista da Ilha namorada

Rompendo pelo céu a mãe formosa

De Memnónio, suave e deleitosa.

                                   (Canto IX, 51)».

 

À terra colorida de Alalaia parece poder corresponder a «Ilha angélica pintada» de Camões. Escreve António Telmo:

 

«Esta expressão, na estrofe 89 do Canto IX, envia-nos para outras expressões, convergentes, de que salientamos estas duas: «ínsula divina ornada de esmaltado e verde arreio» (estrofe 21), «formosos outeiros… que do gramíneo esmalte se adornavam» (estrofe 54). O brilho próprio da pintura persa é o da ilha pintada e esmaltada: «as coisas segregam luz.» «Pintada» não significa ali «descrita». Significa que a ilha é uma pintura.»    

 

Na Ilha do Amor, como António Telmo realça, a luz que ilumina as coisas «não vem do exterior, de um foco luminoso – sol, lua ou lâmpada –, foco exterior ao objecto iluminado. Vem do objecto que é iluminado. Também este ensinamento se encontra no Canto IX:

 

Para julgar, difícil cousa fora,

No céu vendo e na terra as mesmas cores,

Se dava às flores cor a bela Aurora,

Ou se lha dão a ela as belas flores.

                                               (Canto IX, 61)»

 

Como é evidente, não poderei aqui reproduzir pari passu toda a demonstração de António Telmo, o modo como, ponto por ponto, compara a Ilha do Amor do Canto Nono de Os Lusíadas com a pintura persa, estabelecendo sucessivas correspondências entre as duas obras, ou como, a partir de um documento do esoterismo islâmico de raiz iraniana, chega ao zoroastrismo, essa tradição matricial da Pérsia que tanto influenciou os três monoteísmos abraâmicos: judaísmo, cristianismo  e Islão.

O que me importou foi assinalar os pontos de convergência – e não são poucos – entre Camões, tal como Telmo o leu, e o nosso Palma Gil. Por essa via nos fomos já aproximando do sentido mais elevado do poema Alalaia, de forma a mostrar que a sua mensagem tem um sentido iniciático e que, por conseguinte, estaremos diante de uma autêntica obra de arte, não apenas pela beleza estilística dos seus versos, que todos, nesta sala, saberão decerto reconhecer e admirar, mas também por dar expressão a um pensamento ancestral e fecundo que responde aos anseios de uma humanidade decaída e em busca da redenção.

Entre esses pontos de convergência, retomo agora o da visão auroral da Ilha, que no nosso caso toma o nome de Alalaia. «Este tipo de conhecimento», ensina António Telmo, «recebeu no hermetismo da Renascença o nome de cognitio matutina, por oposição à cognitio vespertina, o conhecimento do homem exterior e da exterioridade das coisas. O conhecimento matutino, oriental («Portugueses somos do Ocidente / Vimos buscando as terras do Oriente ou as terras da Aurora») é o homem de luz, ao aceder «à morada que segrega a sua própria luz».

A cognitio matutina será então o conhecimento do homem interior e da interioridade das coisas. É, pois, uma gnose e uma autognose, o conhecimento do que em nós e no mundo é interior, oculto, secreto; e pressupõe uma iniciação. Não é um conhecimento pelo corpo e pelos seus sentidos, porque estes só nos permitem conhecer o mundo exterior; é um conhecimento pela alma ou, mais precisamente, por aquela sua faculdade, aquele seu órgão subtil de percepção, adormecido na maioria dos homens, a que se dá o nome de imaginação, acrescentando-se-lhe o epíteto de criadora para que se não confunda com a fantasia. É que, ao contrário do que sucede com esta última, como ensina António Telmo, que tenho vindo a seguir, «a realidade que por ela é percebida é objectiva, no sentido de que se a alguém se revela, outro nas mesmas condições verá o mesmo. A única diferença para com o mundo sensível, com o que aí é visto e logo contado por distintos observadores, consiste em que, além, a visão fixa um universo movente. A ilha de Vénus movia-se pelas águas, docemente empurrada pelo poder da Deusa, «como o vento leva branca vela» mas, logo que os nautas a viram e se lhe dirigem, torna-se firme e imóvel».

Diante desta longa citação, começo pelo seu final, para relembrar algo que já assinalei: também a visão da Alalaia nos é dada, pelo menos tendencialmente, em termos de imobilidade. Na transposição para a linguagem iniciática e esotérica de Henry Corbin, adoptada por António Telmo, essa visão é a do mundus imaginalis, um mundo que «não é fantasia ou mentira nascida na mente, mas um mundo tão real como o sensível, intermediário dele para com o mundo inteligível».

Numa primeira fase, a que os antigos gregos chamavam os pequenos mistérios, todo o trabalho iniciático aspira à reintegração do homem decaído neste mundo intermediário ou subtil. Fala-se, então, a este propósito, na restauração do estado primordial ou na restituição a Adão, símbolo da humanidade decaída após a expulsão do paraíso terrestre, do seu glorioso corpo de luz. Se for possível demonstrar que Gilberto Pinhal concebeu a Alalaia como esse paraíso, terei praticamente concluída a demonstração da tese subjacente à minha leitura.

Peço, por isso, a vossa atenção para uma estrofe do poema onde se reencontram alguns versos já nossos conhecidos: «Verga-te, ó tempo! / que o mistério vai passar, / levando na crista da onda / o Eden dos homens, através dos espaços, sem rumo, / sem norte, sem fim. / O Eden que os homens hão-de procurar / e que jamais encontrarão».

Creio que a demonstração ficou feita. Estamos já num plano superior ao do tempo e do espaço: é o Eden, o Paraíso. Será possível alcançá-lo? E como?

Muito importante é a afirmação de que o mistério, ao passar, leva na crista da onda o Eden dos homens. O emprego do termo mistério denota o rigor da propriedade expressiva: refere a iniciação. E a alusiva identificação desse mistério com a viagem de navegação revela que esta, no seu sentido mais alto, cifra simbolicamente a demanda dessa iniciação. Tal foi aliás a significação superior que António Telmo assinalou n’Os Lusíadas.

Alguns outros versos de Gilberto sugerem que o paraíso foi outrora perdido: «ALALAIA! ALALAIA! / dos ventos do mar, / do belo e puro que o homem quis / e que Deus vedou ao homem; / és o sonho que refulge, / que o mundo ambiciona, / que o homem sente e não vê.»

Insisto: será possível alcançá-lo, a esse paraíso? Estes versos de Palma Gil, no seu aparente pessimismo, parecem responder negativamente.  Os que se lhes seguem, e que são aliás os derradeiros do poema, não consentem maior esperança: «ALALAIA!, / és o mundo belo e puro, / terra de sonho e magia / para lá do Sol, / a viver em cada coração. / ALALAIA, / vê-se… e não existe! / ALALAIA, / existe… / …e não se vê.»

Ficamos desconcertados perante uma realidade que ora nos foge ora nos ilude. Mas a ilusão é só nossa. E somos nós quem falta à chamada, que é afinal a do moço chamador, se à imortal balada de Zé Preto, já aqui evocado pela voz soberana de Mestre António Reis Marques, símbolo vivo da geração que hoje celebramos, se à imortal balada, dizia eu, restituirmos a sua altíssima significação primacial. É que essa chamada é para o mar e é para a morte. O mar como via ou caminho da iniciação, a morte como símbolo da mudança de estado que conduz a um segundo nascimento. «O chamamento essencial», na interpretação de António Telmo, num inédito que O Sesimbrense publicou em Julho passado. E por isso «o moço conhece, / da noite, os segredos. / Não teme fantasmas / E fala com os medos». O moço é um ocultista improvável, saído das páginas de As Sombras de Pascoaes, esse sublime mago do Marão em cuja leitura Telmo, vindo da Arruda, terra das bruxas, e entrado na roda de que se tornou o eixo, como belamente escreveu Rafael, iniciou os seus conviventes.   

Alalaia vê-se, e não existe, porque a sua visão é já a de um mundo cuja existência se situa num plano que os nossos sentidos não alcançam. E por isso ela existe, e não se vê. Pascoal Martins, um grande iniciado do século XVIII, judeu, cabalista e maçon de provável origem portuguesa, chamava misteriosamente ao paraíso terrestre a terra erguida acima de todos os sentidos.

Tem razão Palma Gil no seu pessimismo, que não chega a ser definitivo. Diz tudo quando escreve estes versos: «O ouro cegou olhos, / arrasou barcos, destruiu homens; / o ouro brilhou no Mundo! / De vante à ré, / nas fustas e caravelas, / soou a harpa do Demo, / que Cileneu tangia; / de mar a mar, / de cabo a cabo, / em vozear de trovão, / reboou o som maldito, / por entre o estertor das bombardas, / de amura a amura, / às camarinhas… / O ouro brilhou! / e as terras caíam, rendidas, / às velas dominadoras; / mas Alalaia, / o sonho, / continuou… / …para lá do mar impenetrável, / té que o alvor foi mais brilhante! /As naus tocaram praias de Alalaia! /As naus cobriram mares de Alalaia! / E Alalaia ficou… / na frente das proas / …nos olhos dos mareantes, /saudosos e estranhos / Alalaia à vista!, / no grito absorto / do gageiro descrente / …os barcos rodaram, / em bordo de bolina… / e, no pôr do Sol, / a terra afundou-se / aos homens de ambição».

No pôr do Sol, a terra afundou-se aos homens de ambição. Já sabemos o que entender pelo pôr do sol. É a cognitio vespertina, o conhecimento ocidental do homem e do mundo na sua exterioridade, levado ao extremo pela ambição material que cega. Alalaia existe e não se vê. Por isso o poeta, uma vez mais, nos dará notícia, do cesto da gávea, «do sol eterno, / da vida pura / do paraíso, fugido às mãos da ambição».

Resta-nos esperar por um milagre? Só ele nos levará à Alalaia?

Milagre é propriamente este poema, surgido em circunstâncias sociais, económicas e culturais que, à partida, o tornariam improvável, ou mesmo impossível. Tributário da influência de Rafael e sem paralelo na produção do seu autor, somente a Balada do Moço Chamador de Zé Preto, e alguns poemas sesimbrenses de Telmo com ele poderão enfileirar, pela sabedoria, pela beleza e pela força, no pódio do Parnaso exíguo da Piscosa. Que se saiba não foi Gilberto Pinhal um iniciado, e por isso Alalaia parece vir dar alguma razão a René Guénon quando explica a presença, no folclore, de aspectos da tradição esotérica pela necessidade que os iniciados, perante circunstâncias adversas, sentiam de a perpetuar nas criações populares, assim tornadas suas depositárias inconscientes. A esta luz, que me parece poder sustentar uma hipótese razoável, o que de mais espantoso se verifica na lenda da Alalaia, tal como Gilberto Pinhal a fixou no seu poema, são a extensão e a profundidade com que o ensinamento tradicional que ele revela pôde chegar até ao poeta e, por ele, até nós. Não são ruínas, muito menos destroços. Quase se diria uma casa pronta a habitar. E a este propósito conviria começar por verificar, dadas as ressonâncias fonéticas, que relação poderá existir entre a expressão árabe Laa ilaha ill-Allah (não há deus senão Alá), testemunho de fé do monoteísmo islâmico, fórmula empegada no chamamento à oração e no início das orações, e a nossa Alalaia. Se àquela a expurgarmos das asperezas da sua pronúncia original, teremos la-i-la-i-la-la. Talvez então Alalaia exista e se deixe ver.

DOS LIVROS. 62

22-03-2019 11:32

José Preto

 

As três parcas estão postas no inferno.

Ali domina a divindade virgem

Tendo na fronte escrito o Nome eterno,

De todos os nomes a secreta origem.

 

Lê nel’o amante o nome suave e terno

Da sua amada. As setas o atingem

Na manhã, quando pasma, ante o externo

Rosto da aurora a quem as rosas tingem.

 

Sesimbra, a parca oculta corta o fio

Do novelo da vida do teu poeta

Quando o Toiro muge com o cio,

 

Da natureza amoroso. Eis tudo nasce!

E o poeta morto jaz da tripla seta.

Com o sol de Maio a vida a el’ faz-se.

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada seguida de Poesia, 2016)

 

DOS LIVROS. 61

06-03-2019 16:28

Zé Preto. Foto publicada por Joaquim Diogo no blogue Salvaterrazimbra

 

 

Zé Preto*

 

Acontece-nos, às vezes, perguntar se há um sentido e qual em termos conhecido determinada pessoa que passou pela nossa vida como um meteoro de sombra, riscou-lhe o céu de luz e se apagou. Digo meteoro de sombra porque o passado é, como o Hades descrito por Homero, um lugar de imagens e sombras. Digo meteoro porque todas as almas são luzes que desceram a iluminar a matéria que as entenebreceu.

José Preto passou pela minha vida e eu passei pela sua. Eu passei, nos meus anos moços de entusiasmo pelo conhecimento nascente, talvez para lhe emprestar o Fédon de Platão, o Fédon ou sobre a imortalidade da alma.

Havia também o Gilberto Pinhal, o outro poeta de Sesimbra, como ele esperando a morte inevitável dos tuberculosos. A penicilina ainda não tinha sido descoberta. Era estranho! O rosto do Gilberto, a sua cabeça assemelhava-se até à coincidência com a de Rodolfo Steiner, tal como aparece num dos livros dele que, então, nós líamos. Apareceu-me, depois, em sonhos e ainda hoje o vejo, tal como o vi alguns dias depois de ter morrido, mais nitidamente do que, ao lembrá-lo, na vida real. A nossa pálida memória diurna é a superfície ou o eco de uma memória mais funda, em nós ínsita, onde os seres são realmente existentes. Às vezes aparecem inesperadamente. Onde, em que lugar, em que tempo os trazemos connosco? Ou não seremos nós que estamos nesse lugar e não tomamos consciência disso, do mesmo modo que eu, estando como estou neste mundo, em que sou e vivo, mal me apercebo dele?

Da leitura do Fédon nasceu a poesia “O Moço Chamador”. É uma balada de mar e morte. O chamamento essencial.

 

Antonio Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e inéditos, 2019)


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* O título é da nossa responsabilidade.

ÁLVARO RIBEIRO E «A LITERATURA DE JOSÉ RÉGIO», 50 ANOS DEPOIS. 01

01-03-2019 11:12

Ao reler então as obras do autor de A Chaga do Lado fui paulatina e interminantemente revogando a interpretação decorrente de pretéritas leituras e, tão perturbado como quem assistisse ao milagre de uma cruz se transformar numa estrela, risquei palavras erróneas que substituí por frases certas aperfeiçoando, como creio, os escólios de outrora que reverdeceram a nova luz.

Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio

 

 

O medo indistinto ao sobrenatural que assiste no íntimo de uma comunidade esotérica ou o receio «dos homens com face de demónio», qual teria sido o motivo que levou Álvaro Ribeiro a explicitar o seu judaísmo somente aos 64 anos num livro que trazia projectado «há mais de três decénios»?

António Telmo, Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica

 

 

Há meio século, corria o ano de 1969, após décadas de maturada e atribulada elaboração, Álvaro Ribeiro dava enfim a lume, com a chancela da Sociedade de Expansão Cultural, A Literatura de José Régio, um livro que o seu discípulo António Telmo viria a considerar a chave de uma cifra que é toda a obra que a precede e prepara. No dia em que se comemora o seu 114.º aniversário, iniciamos a publicação, que se prolongará ao longo do ano em curso, de um dossier temático sobre a efeméride, em que se divulgarão vários excertos da obra, bem como palavras que Telmo e outros sobre ela escreveram, e ainda alguma correspondência que documenta a sua elaboração e recepção. Um longo ensaio de muitas dezenas de páginas, da autoria de Pedro Martins, centrado no livro de 1969 e intitulado O Judaísmo na Cultura Portuguesa: o caso de Álvaro Ribeiro, será dado à estampa no livro Tabula Rasa - II Festival Literário de Fátima, que em breve será editado pela Zéfiro, com o selo da Colecção Nova Águia.   

 

«Fascinado efectivamente pelo patriotismo eloquente e apostólico de Leonardo Coimbra, hesitava eu todavia em segui-lo, intimidado perante a leitura de seus livros incomparáveis, onde se efectuava a polémica mais notável contra todas as doutrinas que erroneamente assentam na falsa hipótese de que no princípio era o cáos. Acontecia, porém, que a minha alma sempre preocupada com a vida religiosa, que sobrepunha à cultura filosófica e à curiosidade literária, estava então incapaz de compreender a historificação positivista da teologia francesa em três capítulos, três estados e três factos correspondentes à tríade Deus, Cristo, Igreja. Cansado de ouvir ou ler, nas orações homiléticas e nos artigos jornalísticos, as frases contundentes de que a Igreja proíbe, a Igreja reprova, a Igreja condena, perguntava-me perplexo se tal ignorância era professada por homens católicos e por mulheres católicas, consultava e estudava a documentação eclesiástica, recorria a livros estrangeiros, e no fim verificava que as ciências proibidas não iam contra a vontade da Igreja, a doutrina de Cristo, a ideia de Deus.

A heresia, significando etimologicamente procura de outra fé, deixou de me intimidar, quanto mais o exemplo de Leonardo Coimbra nos assegurava confiança no melhor caminho, já que o filósofo, relacionando sempre a liberdade com o amor, nos dava uma interpretação do cristianismo que transcendia os limites da dogmática católica.» 

Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio, página 29.

 
 

CORRESPONDÊNCIA. 45

01-03-2019 10:53

ÁLVARO RIBEIRO, 114 ANOS DEPOIS!

No dia em que se comemora o 114.º aniversário do nascimento de Álvaro Ribeiro, publicamos a carta, hoje à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal, que em 19 de Janeiro de 1959, a partir de Beja, António Telmo escreveu ao filósofo do seu alvoroço, meu terceiro e verdadeiro mestre, conforme a dedicatória por si aposta aos Diálogos do Mês de Outubro, que, tal como o epistolário entre Álvaro e Telmo, foram integralmente publicados no Volume X das Obras Completas de António Telmo, Capelas Imperfeitas, recentemente editado pela Zéfiro com o apoio institucional e científico do nosso Projecto.

Carta de António Telmo para Álvaro Ribeiro, de 19 de Janeiro de 1959

 

19/1/59

 

Sr. Dr. Álvaro Ribeiro

Meu amigo

 

Começo a convencer-me que se não pratico assiduamente “este género de literatura, feminil e adolescente”, a razão não reside numa incompatibilidade de temperamento, mas numa certa cobardia, (ou timidez), pois continuo a ser adolescente, apesar dos meus trinta anos, adolescência que disfarço mal ocultando a 1.ª pessoa do pronome pessoal. Assim comecei a carta.

O sr. Dr., isto é, o Álvaro Ribeiro, é aqui conhecido. O Director da Escola, a quem emprestei a Escola Formal, há dias, falou-me em si, durante uma conversa, em que outro professor elogiava o Delfim Santos, como a maior personalidade dos nossos meios intelectuais. O 1.º capítulo, que ele até agora leu, entusiasmou-o. Conhecia sòmente os seus artigos e já mandou vir os restantes livros. Em nada contribuí para esta evocação do seu nome. Ele conhece a actividade do Quadros, em prol das suas ideias.

Disse-lhe na última carta que tinha deixado de escrever. As ideias, às quais não dou o movimento do verbo, por razões que o sr. Dr. conhece tão bem como eu, ainda por vezes vêm anunciar-se. A minha vida foi toda um engano. Esperei imenso: em mim. Julguei-me, muitas vezes, uma[1] inteligência de escol. Resta-me o consolo dos medíocres: – ter convivido, em fraterna amizade, com homens superiores. Por isso as minhas cartas não têm interesse de maior e nas minhas palavras haverá sómente o traço viril de uma ironia amarga, e de um despeito calmo em relação àqueles que me queimaram, em efígie, acendendo fogueiras nas encruzilhadas. Sabe a quem me refiro e desculpe lembrar-lhe o rei Lear, de dentro desta escura mania da perseguição.

O vermelho transmite maior vigor ao que escrevo, mas temo maçá-lo com os meus queixumes e a minha pessoa. Desculpe-me, o meu amigo. Gostaria que me escrevesse, acredite e que me desse notícias da Conchita e da Sr.ª D. Angelina, por quem tenho uma grande amizade.

Da última vez que estive com a sua mãi mais uma vez o verifiquei.

É Domingo e escrevo dum café. Certamente, nesta mesma altura, encontra-se o sr. Dr. na Brasileira, ou na nova leitaria das Avenidas Novas. Os mesmos temas, as mesmas conversas: imagino bem. Como compreendo que goste tanto das mulheres! A sua vida interior que durante tanto tempo constituiu para mim um enigma, torna-se agora mais acessível nos seus segredos.

Felicidades para todos do

António Telmo

   

[Espólios N9/1047]



[1] Nota do Editor – Desta palavra, inclusive, em diante e até ao final da carta, António Telmo escreverá com tinta vermelha.

 

DISPERSOS. 16

26-02-2019 11:43

O Último Discípulo de Leonardo Coimbra[1]

 

Todos vão lamentar a morte de Agostinho da Silva e irá, decerto, dizer-se que perdemos um grande espírito. Neste momento, Portugal poderá ganhá-lo tornando seu tudo quanto escreveu. Não se pode considerá-lo somente um escritor. Ele era também um livre-pensador precisamente por ser não ateu. Como tal, exprimiu-se como um homem de acção.

Tive a sorte de conviver com ele diariamente, durante três anos, e fiquei impressionadíssimo com o seu comportamento, desinteressado, raro, porque pressupunha a iluminação do espírito nos mínimos actos e gestos, na vida dos sentimentos.

Agostinho da Silva foi o último discípulo de Leonardo Coimbra. Assim se fecha um ciclo. E como todo o ciclo é uma espiral, só agora ele poderá ser vivido e pensado como uma sugestão e abertura para o infinito.

 

António Telmo



[1] Nota do Editor – O título é da nossa responsabilidade. Publicado originalmente, como um de quatro “Testemunhos” [na morte de Agostinho da Silva], em Diário de Notícias, ano 130.º, n.º 45667, Lisboa, 4 de Abril de 1994, p. 34.

 

 

 

DOS LIVROS. 60

20-02-2019 11:17

 

Álvaro Ribeiro na Cotovia, em Sesimbra, cerca de 1970

 

O Problema da Filosofia Portuguesa*

 

A obra de Álvaro Ribeiro abre propriamente com O Problema da Filosofia Portuguesa. Tendo observado e sofrido o espectáculo da servidão intelectual dos portugueses, servidão a que estariam e estarão sempre condenados se não viessem ou não vierem a adquirir consciência de um pensamento especulativo próprio que seja, ao mesmo tempo, uma missão, o filósofo propõe que, na Universidade, se forme uma escola de filosofia portuguesa e indica os meios que é necessário movimentar para se atingir tão alto fim. Portugal tem um pensamento próprio, porque, se assim não fosse, não constituiria uma comunidade com um destino histórico, mas, ainda envolto na literatura, no direito, nas artes da pedra, da cor e do som, na sabedoria popular ou na sua tríplice expressão religiosa, só com Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra começou a adquirir consciência de si na filosofia. Traça, por isso, as linhas mestras sobre as quais se haja de compor a Escola de Filosofia Portuguesa. Para tanto, há que libertar a Universidade do seu estado de subserviência aos inimigos do pensamento original, criando as condições duma actividade especulativa do génio português.  

 

António Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e inéditos, 2019)
 

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* O título é da nossa responsabilidade.

INÉDITOS. 81

28-01-2019 11:29

Código de honra do cidadão livre

 

1.º Não me esquecer nunca de mim em qualquer situação, de modo a ser sempre responsável dos meus pensamentos, palavras e actos.

2.º Não se trata do que se entende habitualmente por responsabilidade moral. Bons ou maus pensamentos, por exemplo, é em mim que eles nascem e progridem, evoluem e morrem. Aqui a presença a mim mesmo pode ser, e é, a de alguém que assiste aos seus próprios pensamentos como se fossem de outro, mas eu sou ainda responsável por esse outro que deixei instalar em mim. Responsável, quer dizer, que respondo por ele e não que me desculpo com ele. Se, ao pensar, falar e fazer me esqueço de mim, sou como se não fosse, sigo como se não permanecesse no movimento que os transporta. E como os outros são vários a instalar-se, vivo sem identidade, como um autómato. Agredi alguém? Não tive culpa, não fui eu. Vejo depois o de que deveria ter consciência no momento. E, tendo consciência, assistir impávido ao movimento do monstro que agride, reconhecer que ele é em mim realmente existente. Dir-se-á que assim se aceita o mal. “Não resistir ao mal” disse Jesus. A verdade é que este é o único caminho de libertação do mal. Se reajo contra o “monstro” que quer agredir, ele cresce e aumenta de força. Se não tomo consciência dele em mim, apodera-se inteiramente do meu ser.

O que acontece se não resisto ao mal, estando eu presente a mim mesmo? “Mais vale experimentá-lo que julgá-lo”. Mas julgando é de supor que a energia, que pela minha entrega ou pela minha resistência, animava inteiramente o monstro, lhe falta e a vontade ou força que o animava pode ser captada para fins mais nobres.     

 

António Telmo

INÉDITOS. 80

06-01-2019 13:12

Carta Segunda

 

Leonardo Coimbra não quer que a humanidade seja depois de Cristo o que foi antes de Cristo e por isso repudia a tragédia grega. Deveria também repudiar o teatro de Shakespeare. Mas a redenção da humanidade e, segundo Orígenes, de todo o Universo, é feita através da tragédia de Deus que, aliás, a Igreja Católica repete em simbólica presença todas as semanas. “O mal não é por si só suficiente para que por ele se explique o Universo” escreve contra A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Todavia, foi suficiente para provocar a morte humana de Deus. E como o segundo Édipo (Édipo em Colona) nos mostra o herói trágico, que a fatalidade no primeiro Édipo (Édipo Rei), levou ao desterro e à cegueira dotado do poder miraculoso de curar (Cristo ressuscitado), assim a ressurreição de Cristo não foi sem a celebração pela humanidade que o crucificou do mistério do mal.

Se na existência do mal, não houver algo de radical, isto é, se o mal não estiver nas raízes do mundo não se compreenderá a necessidade da encarnação de Deus. Essa raiz é também a de que brotou a humanidade porque é a figura do homem que Deus assume pelo Filho. Daqui a importância do homem na Divina Comédia que levou Orígenes a dizer que a Divina Tragédia repercutiu infinitamente e tremendamente nas esferas angélicas e arquiangélicas do Universo.

Há que reconhecer que os gregos perpetuavam pela tragédia uma antiquíssima tradição, conhecida e sabida de todos os povos do mundo. A teoria da tragédia exposta por Aristóteles na Poética é a teoria do sacrifício que Leonardo Coimbra já medita no seu primeiro livro. Só nos tempos modernos a arte da palavra se tornou uma ocupação de literatos.

 

António Telmo

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