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INÉDITOS. 98

07-10-2020 10:29

O que é a filosofia?*

 

Talvez alguns preferissem falar de “espiritualidade portuguesa”, na condição do adjectivo definir, caracterizar e singularizar uma espiritualidade, a aceitar o termo de “filosofia portuguesa”, que, pelo menos à partida, exclui outras tão significativas manifestações do espírito, como, e em primeiro lugar, a manifestação pela poesia.

Eis porque convirá perguntar, para responder, o que é a filosofia. O adjectivo “portuguesa”, se não significa “em Portugal” obriga-nos a encontrar qualquer coisa de comum – concepção, visão, modo ou estilo de pensar – nos vários filósofos e também nos poetas – e também nos poetas, se atribuirmos à palavra filosofia o seu significado esotérico que recebeu de Pitágoras e desligando-a da acepção vulgar, adoptada no ensino oficial, que na filosofia vê uma certa forma de pôr o pensamento. Se pensadores como, por exemplo, Leonardo Coimbra não são aceites como filósofos porque articulam silogismos de imagens, é caso para perguntar em que espécie ou género de comunicação pelo verbo os situaremos, já que formalmente também não é lícito dizê-los poetas. Para os classificar, são propostas expressões híbridas, de compromisso, como “filosofia poética”, “filosofia literária” ou “filosofia mística”. 

 

António Telmo

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* Nota do editor - O título é da nossa responsabilidade.    

 

VOZ PASSIVA. 115

28-09-2020 12:23

António Telmo e António Quadros ou a sombra que ilumina

(no décimo aniversário da partida do autor de História Secreta de Portugal)(1)

Pedro Martins

 

A costumada indiferença dos areópagos bem-pensantes ignorou a efeméride, assinalada a 21 de Agosto; mas, uma década após a sua partida, António Telmo continua bem presente na memória daqueles espíritos inquietos que ainda procuram o que mais importa. O filósofo da razão poética devolveu o direito de cidade ao pensamento da tradição iniciática no século XX português, reatando uma cadeia que com Fernando Pessoa só aparentemente se perdera. Se o nacionalismo místico que ele proclamava tem sido a fonte inesperada de grandes equívocos ideológicos e religiosos, que aliás persistem em enlear o cerne autêntico da filosofia portuguesa, teremos fatalmente de reconhecer que a ideação operativa do seu cabalismo judeo-cristão estará muito longe de agradar, sequer de poder interessar, a um situacionismo cultural que voga entre a dominância insidiosa e despudorada de um politicamente correcto assistido pelo braço armado escolar, e em vias de se tornar pensamento único, e a vacuidade mediática de um circuito fechado que engendra génios de pechisbeque para a efemeridade voraz do mainstream.

De extrema lucidez, e em avançado curso de publicação na editora Zéfiro, a obra de António Telmo anuncia toda esta desolação para a denunciar, precedendo em algumas décadas um paroxismo que só agora parece insinuar-se. É uma obra patriótica e fecunda, grávida de futuro. Atenta aos símbolos e aos sinais, dialoga como nenhuma outra com os livros apolíneos de António Quadros, seu dilecto amigo e condiscípulo no magistério filosófico de Álvaro Ribeiro e José Marinho. Pessoalmente, se um testemunho me é aqui concedido, tenho sérias dificuldades em pensar a História Secreta de Portugal à margem do Portugal, Razão e Mistério, agora enfim ressurgido na sua plenitude, pela simples razão de terem ambos entrado de rompante numa mesma época decisiva da minha vida. As suas páginas são como as folhas perenes daquelas árvores que envolvem a frescura das fontes. Uma sombra que ilumina.

 

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(1) Nota do editor - Publicado originalmente na Newsletter de Setembro de 2020 da Fundação António Quadros.

VOZ PASSIVA. 114

28-09-2020 11:59

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 

 

(10) Contos Secretos

 

Dos segredos, não sei que decifrar,

Se o escritor na vida se inspirar.

Entre o trevo e o bilhar, pôs o poeta

Que da pena fez vara de profeta.

 

Dois irmãos juntou: Janus Dioscuros,

E do três fez o dois por alquimia.

Da arte do olhar pura magia

Com que pintou a sua Dama de Ouros.

 

No Hades se encontrou Natanael

Pela Escola de Atenas transportado.

Duvidoso Tomé ficou do outro lado.

 

Encheu páginas de ficção fiel

Ao real por ele imaginado.

História Sonhada, o seu pensar lavrado.

 

8 de Julho de 2020

 

UNIVERSO TÉLMICO. 71

28-09-2020 11:43

Homenagem ao professor José Santiago Naud, um dos fundadores da UnB[1]

Rozana Naves e Henryk Siewierski

 

Na última segunda-feira, dia 20 de julho de 2020, faleceu o professor José Santiago Naud, poucos dias antes do seu 90º aniversário. Nascido em 24 de julho de 1930, na cidade de Santiago (RS), e licenciado em Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Professor Santiago Naud foi pioneiro de Brasília, para onde se transferiu após ser selecionado em concurso nacional para inaugurar o ensino de nível médio na nova capital. Convidado, em março de 1962, por Cyro dos Anjos, diretor do então Instituto Central de Letras da Universidade de Brasília (ICL/UnB), passou a integrar o corpo docente da UnB, tornando-se um dos seus fundadores.

Na UnB, esteve ligado ao Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, dirigido pelo professor Agostinho da Silva, com quem compartilhava inovadoras ideias educacionais, contribuindo para a sua concretização na prática universitária. Participou, ainda, da criação da Federação Espírita do Distrito Federal, da Associação Nacional de Escritores e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. 

Lecionou literatura portuguesa e brasileira em várias universidades estrangeiras, entre as quais a Universidade de Yale e a de Los Angeles. Entre 1973 e 1985, dirigiu, como representante do Ministério das Relações Exteriores, centros de estudos e de cultura brasileiros em La Paz (Bolívia), Rosário (Argentina), Panamá e México.

É autor de uma extensa e original obra poética e de vários ensaios críticos, como Hinos Cotidianos (1960), A Geometria das Águas (1963), Ofício Humano (1966), Verbo Intranquilo (1967), Pedra Azteca (1985), Vez de Eros (1987), Memórias de Signos (1993) e Antologia Pessoal (2001), entre outros. Os seus livros de poemas foram publicados na Argentina, no Panamá, no México e em Portugal.


Reintegrado à UnB em 1990, atuou como professor no Departamento de Teoria Literária e Literaturas (TEL) e no Núcleo de Estudos Portugueses do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam), tendo participado de vários projetos de estudos literários e de tradução. Com o seu profundo conhecimento da herança poética e filosófica universal, e de língua portuguesa em particular, compartilhado generosamente com os estudantes e colegas, enriqueceu substancialmente os programas dos cursos do Instituto de Letras. Aposentado, continuava em contato e colaboração com a UnB, principalmente no âmbito da Cátedra Agostinho da Silva do Instituto de Letras.

Sempre atencioso e aberto ao diálogo, sabia valorizar e incentivar trabalhos dos colegas. O lado espiritual do seu pensamento se associava a uma prática da vida solidária e a uma busca insaciável do conhecimento, verdades da ciência e da fé, tornando a convivência com ele um dom singular.

Seu afeto e consideração para com o Instituto de Letras da Universidade de Brasília se expressaram fortemente no evento de comemoração dos 50 anos deste Instituto, realizado em 2012, em que nos honrou com a sua presença vibrante e entusiasmada. Gostaríamos de homenageá-lo a partir de um de seus poemas, que tem como temática a morte. Sem dúvida, ao Professor José Santiago Naud caberá a glória do legado que deixa ao Instituto de Letras, à UnB e ao país, razão pela qual seguirá vivo na memória afetiva dos que o conheceram e com ele conviveram e na nossa memória institucional.

 

DA MORTE

 

A morte joga no descampado

o seu jogo de dados

mas é no íntimo de nós

no âmago

que os pontos contam.

Ela funda

                 no fundo de nós

sua raiz fecunda –

no ventre

como bicho faminto

no coração

como casa sem gente

na mente

como causa de causas sem motivo.

É a nossa companheira

                                       longinquamente

desde o berço

e muito antes ainda

pois quando nos embalava

ao doce enlevo da mãe

já modulava o canto

                                 antiquíssimo

marcando o mais certo encontro conosco

para a miséria

ou para a glória.



[1] Nota do Editor - Texto originalmente publicado, em 1 de Agosto de 2020, na página oficial na Internet da Universidade de Brasília, de que os autores são professores. Henryk Siwierski é também membro do Projecto António Telmo. Vida e Obra.  

 

 

VOZ PASSIVA. 113

22-09-2020 12:29

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro


 

(9) O Horóscopo de Portugal

 

O homem pensa e não conhece,

Interdito lhe é o bom pensar.

Pensa que pensa, e não como parece,

Por arrogante das estrelas se apartar.

 

Tal não é o filósofo do infinito

Que vê Portugal um só de três.

Um quarto ascenderá com nosso grito

Quando a alma colectiva sair desta mudez.

 

Após leitura atenta e demorada

Dos sinais astrais espalhados pelos céus,

Mesmo não sendo a incógnita afastada,

 

A anos-luz está dos selectos europeus:

Sabe o Sol e Portugal, os dois sinónimos

De um mistério escondido nos Jerónimos.

 

VOZ PASSIVA. 112

07-09-2020 09:49

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 


 

(8) Capelas Imperfeitas

 

Imperfeitas as capelas exemplares

Onde afrescos despertam dialogais

E Narciso persiste com seus pares

Ensinando agudo olhar além taipais.

 

É com lupa bondosa e implacável

Que medíocre cegueira mostra ao mundo,

Como escola informal em tom notável,

Buscando o Génio com rigor fecundo.

 

Propondo-se escrever em branco incêndio

A vivência interior de seus iguais

É com Régio, esse converso arrais

 

Que Ribeiro salva de torpe vilipêndio

e cruza memórias, ao olhar banais,

com teoremas pintados em murais.

 

VOZ PASSIVA. 111

31-08-2020 21:10

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

António Telmo, um homem singular

(Testemunho em verso ao jeito popular)

Maria Antónia Braia Vitorino

De caminhar

Calmo e lento,

Desatento

Ao cumprimento

Não ouvido,

Distraído

A olhar a beleza

Da árvore, da flor:

A Natureza!

Sem ambição

Do que é vão

Amava a Filosofia

Que fez dele escritor.

Simples, sem vaidade,

Gostava desta cidade

Onde foi professor.

Convivente,

Apreciava a companhia

P’ra conversar com humor.

Seus hobbies: caçar e bilhar.

Era alguém diferente

Do habitual.

Espírito livre, aberto,

Discreto mas “inquieto”

A dialogar

C’o pensamento.

Um ser ILUMINADO

Que olhava Além

Um mundo IMAGINAL

Pr’alcançar o ESSENCIAL.

Inteligência invulgar

De um saber vasto e pensado.

Uma eloquência

Excepcional!!

De suprema intuição,

Num ápice, a solução!

Sem pedir, nem procurar,

Convidado p’ra professor

Dentro e fora do país

A fundar uma Escola

Que dirigiu como quis.

Granjeou uma reputação

Que o levou a inspector

Da Educação

Durante a Revolução.

Uma Escola simpática

E a mais democrática

Que Agostinho encontrou

Dentre as que visitou.

Em merecimento

Sesimbra seu nome deu

A uma rua.

Também Estremoz

Onde viveu e morreu

Numa rua sua

Seu nome pôs.

VOZ PASSIVA. 110

31-08-2020 20:10

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 

(7) Páginas Autobiográficas

 

Não sei se fui o que recordo ali:

Menino em fuga com leão ao colo,

Dado por Deus na África onde ardi,

Antes de ver avô rumar ao solo

 

Em Almeida, onde nascera antes.

A Senhora da Manta que não vi,

Ocupou por nítidos instantes

O menino assustado que sorri

 

E hoje envia ao fantasma de então

Memória, luz, compaixão, perdão,

Desenhando ainda na parede branca

 

De minha tia em Alter-do-Chão,

Com ervinha verde e trémula mão,

O quadrado que o mal dizima e espanta.

VOZ PASSIVA. 109

24-08-2020 22:25

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Duplo decálogo

Miguel Real

 

O DECÁLOGO TELMIANO

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição primitiva de uma sabedoria vinculadora da ligação entre a cultura oriental e cultura ocidental (Dalila Pereira da Costa);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição oculta vinculada à mensagem espiritual presente no Evangelho de São João, posteriormente subvertida pela Igreja de São Pedro (Pedro Martins);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição prisciliana da Igreja Lusitana (T. de Pascoaes, Sampaio Bruno);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição da Ordem do Templo (os templários), transformada por D. Dinis em Ordem de Cristo – fautora da empresa dos Descobrimentos;

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da religião do Livro (judaísmo, cristianismo e muçulmanismo) anterior aos finais do século XV (expulsão de judeus e mouros);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da mensagem paracletiana do abade Joaquim de Fiori ou da III Idade do Mundo (o Império do Espírito Santo de Agostinho da Silva);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da teoria do V Império (Bandarra, pe. António Vieira e Fernando Pessoa);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo dos “Fiéis do Amor” (Camões, Grão Vasco, Sampaio Bruno);

 

  1. – Portugal como nação-eleita da História do Futuro, de pe. António Vieira;

 

  1. – Portugal como nação-eleita de Os Lusíadas, de Camões, e de Mensagem, de Fernando Pessoa.

 

 

 

SEGUNDO DECÁLOGO

 

ANTÓNIO TELMO – O CONTINUADOR DE PESSOA

 

O vento perguntou a Fernando Pessoa?

  1. – Quem, Pessoa, seguiu o teu caminho da serpente?
  2. – Quem, Pessoa, seguiu os teus estudos sobre a Kabbalaah?
  3. – Quem, Pessoa, seguiu os teus estudos sobre a Rosa-Cruz e o Rosicrucianismo?
  4. – Quem, Pessoa, voltou a desenvolver os teus estudos sobre a Filosofia Hermética?
  5. – Quem, Pessoa, foi de novo Iniciado, neófito, dos rituais antigos?
  6. – Quem, Pessoa, se tornou cristão gnóstico?
  7. – Quem, Pessoa, desenvolveu de novo o sexto e secreto sentido?
  8. – Quem, Pessoa, se devotou intensamente ao ocultismo, tornando-o a sua filosofia principal?
  9. – Quem, Pessoa, celebrou de novo o Templo e o templarismo?
  10. – Quem, Pessoa, cantou de novo o Quinto Império camoniano e vieirino?

 

E Fernando Pessoa respondeu ao vento:

 

- Só conheço um pensador português que o tivesse feito: A. T., as suas iniciais. Por vezes, lendo-o nas alturas, confundo os seus escritos com os de uma senhora do Porto: D.P.C., as suas iniciais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VOZ PASSIVA. 108

24-08-2020 21:25

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 

 

(6) Luís de Camões e o Segredo dos Lusíadas

 

É outra a ilha, outro é o mito.

Hermeneuta, nauta e cavaleiro

Ouve de longe de Camões o grito

Do poeta vagalume, do guerreiro:

 

“Que leia mais do que vê escrito”!

É difícil escrever com Roma à frente!

A verdade do Amor só sai em grito,

Soletrada ao contrário pelo crente.

 

Esconder o que escondeu, não é de ateu,

Mas de quem nessa ilha viu o céu.

Se a imagem da mulher desperta Deus,

 

Que dizer destas deusas, Prometeu?

É de amor a cantiga, esconde o véu,

Revelando ocultamente o gineceu.

 

 

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