VOZ PASSIVA. 141
1976, A Evolução dos Cravos
(Libreto para ópera com música de Vítor Rua)
Risoleta C. Pinto Pedro
I ACTO
A um canto não muito iluminado da cena ainda oculta, do lado esquerdo do palco, uma mesa de oráculo com uma bola de cristal destacando-se pelo brilho. De um lado e do outro da mesa, oráculo e consulente apresentam-se de perfil. O oráculo tem uma máscara estereotipada de mago. O consulente apresenta uma face que poderia ser a de qualquer homem português. Por cima deste pequeno cenário, letras luminosas ostentam o nome do lugar e do oráculo: ORÁCULO OUROBORUS. Uma imagem encima as letras, representando o arquétipo: a serpente mordendo a cauda. O consulente tem o rosto melancolicamente apoiado na mão.
Oráculo: Que faz o filósofo aqui? Que quer de mim, com ar de dor, ó pensador?
Consulente: Nada pretendo! Emendo: enviado sou. Por amizade, enfim, vim. Não acredito no que do futuro diz. (Com desprezo) É pó de giz.
Oráculo: Como?, se nada eu disse? (Em tom de revelação) O chamado foi meu.
Consulente (Com escárnio, apontando): Ridícula!, a bola de pretensa luz comprada em Taiwan…
Oráculo: Ela sabe coisas que o filósofo, de inteligente mente, não entende.
Consulente (Ironicamente): Não percamos mais tempo, já que aqui estou… quer aproveitar para… doutrinar?
Oráculo: Posso dizer-lhe, mas não acredita…
Consulente: Tente, tente… vá!, valente!
Oráculo (em tom muito grave): Você é o único homem capaz de derrubar… Salazar! Só… com seu pensar!
Consulente (levanta-se e atira ao chão a cadeira): Está a brincar! Olhe que dá azar!
Oráculo (mantendo a calma e conservando-se sentado): Nunca falei tão a sério! Está a postos, o cemitério!
Consulente (Indignado): Sabe o que diz? Nunca desejei e não desejo a morte de ninguém! (Mudando de tom) Desejo, isso sim, simbólica, claro, uma queda da cadeira onde se mantém…
Oráculo (em aparte): O filósofo já vê mais do que o oráculo!
Consulente (em aparte): O homem é doido perigoso. E doido eu, que cá vim! Nem estou em mim! (Afastando-se e despedindo-se com um gesto vago) Passe bem!
Oráculo: Não se esqueça: você é o único homem capaz de derrubar Salazar, mas… (solenemente e bem alto) não o faça!
Consulente (Esboçando o gesto de voltar atrás, mas saindo): Chamar-lhe louco é pouco! (Bate com a porta).
Oráculo (Sonhador. Misterioso. Acariciando a bola.): Milhares, cantando, o farão por si. Não suje as mãos nem a mente. Eles têm cravos.
(Vai-se iluminando o lado direito do palco, com exactamente o mesmo gabinete do oráculo. Este conserva a máscara estereotipada de mago, o consulente tem uma máscara de rosto onde é imediatamente identificável o perfil de Salazar. O ditador tem um corpo normal, mas a cabeça-máscara é enorme, desproporcionada. A cadeira onde se senta dá-lhe um ar ridículo por infantilmente pequena, tanto quanto a cabeça, por ser titanicamente grande.)
Oráculo (em aparte, para o público): Aqui se consuma a queda. O ditador vai saber o que ninguém lhe quer dizer.
Salazar (Coloca uma das mãos sobre a bola em jeito teatral de posse e estende a outra ao oráculo): Oráculo, oráculo meu! No teu cristal vês alguém mais patriota do que eu?
Oráculo (Retira ostensiva e quase violentamente a mão de Salazar de cima da bola, e segura a outra mão, que olha atentamente, mostrando um ar ao mesmo tempo maravilhado e espantado): Não!!!
Salazar (triunfal): Eu sabia!
Oráculo: Espere, sim, não… (o ditador vai-se remexendo na minúscula cadeira, desconfortável) vejo um homem… mas, ao contrário de si, não tem mãos de sangue. Sozinho, fica exangue! (Recuando subitamente, e derrubando a sua cadeira, foge, e já parcialmente fora de cena, grita): Não vejo só um homem! … vejo milhares, vejo milhões! E cantam com mãos limpas, perfumadas com flores!
(Salazar contorce-se horrendamente e cai da minúscula cadeira, ficando inerte no chão. Apaga-se a luz).