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VOZ PASSIVA. 05

19-12-2013 15:03

Prefácio a Sesimbra, o Lugar onde se não morre

António Reis Marques

 

Conhecemos o António Telmo alguns dias depois da sua chegada a Sesimbra, para onde seu pai veio exercer as funções de conservador do Registo Civil. Estávamos então em meados da década de 40 e, tal como todo o país, vivíamos com as carências e as dificuldades resultantes do decurso da segunda guerra mundial, das quais a falta de géneros alimentícios e de combustíveis era das mais graves. Apesar disso foi também uma época de viragem na vida local, que recuperava de um longo e doloroso período de crise económica, devida a escassez de pescado, que culminaria no ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, deixando Sesimbra exangue. De facto, foi após esse trágico acontecimento que não só se verificou um sensível aumento na produção das artes de pesca, mas também se conseguiu a almejada construção do porto que melhorou radicalmente a actividade dos seus pescadores, tonificando assim a débil economia da terra.

 

Viríamos depois a saber, por ele, que seus pais hesitaram na vinda para Sesimbra visto que lhes tinham dado a imagem duma terra aonde era predominante a pobreza da sua gente e, ao mesmo tempo, grassava a temível tuberculose que tantas vidas ia ceifando.

 

Na verdade, a “Piscosa” dos anos 30 tinha sido palco de vários acontecimentos negativos que afectaram gravemente a vida de toda a população, que só conhecia alterações durante a época balnear, com a vinda dos banhistas ou habituais frequentadores da sua praia, cuja estadia dava um notável contributo ao comércio e ao rendimento de muitas famílias que lhes alugavam as casas, influenciando também a maneira de ser e de estar dos seus naturais.

 

Era este o quadro da vida sesimbrense, quando o António Telmo cá chegou. Ainda desconhecido, foi primeiro apontado como o filho do “doutor do Registo” e depois pelo Tó, diminutivo familiar que ele nos consentiu e com que passou a ser tratado. Porque era bom praticante de bilhar, um dos seus entretenimentos favoritos, passou logo a frequentar o desaparecido “Café Central”, o único estabelecimento público que dispunha de uma mesa daquele jogo.

 

Foi assim que conheceu os componentes de uma tertúlia que lá reunia e tinha sido criada por duas das mais distintas figuras da cultura sesimbrense: o super inteligente Rafael Monteiro, que parecia já ter nascido com carta de iniciação, e o não menos dotado Zé Preto, o poeta que melhor soube cantar Sesimbra e as suas gentes. À sua volta juntavam-se alguns rapazes mais novos, possuídos por aquele sentimento cívico e afectivo de pertença a uma comunidade, a um povo, pois as afinidades que os aproximavam tinham por matriz o culto do amor à terra, na fidelidade à essência da ancestral e laureada Póvoa marítima em que nasceram e viviam. Queriam entender o presente em função do conhecimento do passado, fundamental para perspectivar o futuro. Assim, os encontros tinham por objectivo, para além do estudo da origem e da história de Sesimbra, o conhecimento dos seus valores, tradições, usos e costumes, para melhor os saber defender e exaltar através da participação na vida das suas colectividades e instituições mais representativas. Porque eram todos de origem humilde conviviam diariamente com gente verdadeiramente simples, que olha a vida com uma singular filosofia que distingue o essencial do secundário, isso dotou-os de uma certa capacidade de percepção da existência de uma realidade que nos transcende e está subjacente em tudo. Todavia, a época e o contexto social em que viviam não valorizavam o pensamento, o primado do espírito.

 

Foi nesta roda que entrou o António Telmo, o qual, como tão bem disse o Rafael, que era o companheiro mais velho e o guia da tertúlia, passou a ser o seu eixo, ou seja o novo condutor que mudaria a rotação, o movimento da roda, fazendo-a girar por outras vias, abrindo outras perspectivas, ensinando-nos a pensar, a reflectir antes de agir, a fazer-nos entender aquele princípio de que todo o acto criativo é precedido de pensamento, a existência da imagem mental antes da criação.

 

Alguma coisa de distinto era já manifesto naquele jovem, algo circunspecto mas com grande poder de sedução, que não partilhava dos hábitos e pequenos vícios dos rapazes da sua idade, que aborrecia futilidades e era sóbrio nos actos e nas palavras que porém traduziam, na clareza e profundidade dos seus juízos, na lucidez das suas proposições, os sinais de uma grande, rara inteligência. Perceberíamos então a afirmação de Almada Negreiros: “as idades do espírito não têm paralelo com as idades físicas e morais da existência, de modo que uns já chegaram a certos patamares enquanto outros ainda agora se meteram ao caminho”. 

 

E a temática das reuniões que não excluía reflexões pessoais sobre a vida social, cultural e política passou a ter outras vertentes desde o conceito de pátria e de identidade nacional até ao auto conhecimento, às velhas interrogações de quem somos nós, qual a nossa origem e destino, e que mistérios se escondem por trás da nossa humanidade. Para tanto, a todos era exigido uma certa elevação nos diálogos e o uso da linguagem mais digna para se exprimirem.

 

Porque, para além de integrarmos a tertúlia, tínhamos também o privilégio de merecer a sua amizade e intimidade, passeávamos juntos pela beira mar ou pelas cercanias da vila, em conversas em que pequenos episódios do quotidiano se transformavam em lições vivas sobre o mundo que nos rodeia, procurando levar-nos a desvendar as essências que as aparências escondem, a compreendermos aquilo que Carlos Queiroz tão bem definiu na quadra:

 

“Ver só com os olhos
É fácil e vão.
Por dentro das coisas
É que as coisas são.”
 

Nessas deambulações ele ia também descobrindo Sesimbra, através do conhecimento dos seus lugares míticos como a fonte da Califórnia, com os seus “medos” e “encantos”, a serra d’Achada com os seus ermos, a “Pedra Alta”, ponto axial onde apareceu a imagem do Senhor Jesus das Chagas, e o pulsar da vida da terra na sua natural ligação ao mar, com as emblemáticas figuras dos velhos arrais da pesca, descendentes dos navegadores de Quinhentos que, para sua surpresa, mantinham na vida profissional a integridade da jerarquia tradicional de moço ou aprendiz, camarada ou companheiro e arrais ou mestre.

 

Seria contudo junto ao campo de jogos da “Vila Amália”, então afastado da vila, que ele nos faria observar uma das mais interessantes manifestações do mundo natural, que depois viríamos a conhecer melhor até pela sua repetição diária. Estávamos conversando ao entardecer de um dia primaveril quando, de súbito, a quietude do lugar se altera com o ruído da chegada dos pardais que se recolhiam, para o seu repouso nocturno, nos ramos dos altos eucaliptos que circundavam o recinto. Eram às centenas e vinham de todos os lados, em contínuas revoadas e num chilreio frenético que se mantinha mesmo quando já empoleirados.

 

Ia-se aproximando a hora do crepúsculo, e é então que se dá o curioso fenómeno em que, numa simultaneidade impressionante e como se fossem elementos de um coro obedecendo à batuta do maestro, todos os pássaros param a chilreada, tudo se cala e cai no mais completo silêncio.

 

É apenas um instante, mas um instante surpreendente, naquela hora mágica, tão propícia à meditação, quando a chegada da noite obscurece os últimos raios solares, que as aves se calam depois dos seus cânticos de despedida da luz, que se oculta até voltar a raiar na manhã seguinte. E, tal como na hora crepuscular, também nos alvores de um novo dia, no regresso da luz, são essas pequenas e graciosas criaturas do maravilhoso mundo alado que, cantando, nos anunciam esses momentos sublimes em que se dá como que a comunhão da natureza com todos os seres.

 

Em preito de gratidão e admiração aqui deixamos esta evocação de algumas vivências e experiências que partilhámos com o António Telmo, na nossa adolescência nesta terra onde ele viveu, ensinou, pensou.

 

(Escrito em 2011)

DISPERSOS. 04

17-12-2013 12:01

Agostinho da Silva e os Titãs

 

Os anos em que vivemos estão marcados por duas manifestações do ser humano aparentemente contraditórias: o titanismo e o infantilismo. Titânicas são as construções em altura das grandes cidades do mundo, os voos de metal cruzando os espaços, a comunicação das palavras e dos números vencendo enormes distâncias, a multidão inumerável dos automóveis, etc.; mas tudo isto assume a forma de brinquedo pelo modo como os telemóveis, a televisão, os computadores, a Internet se tornam os mais comuns e gozosos entretenimentos dos homens, das mulheres e sobretudo das crianças. Eis, depois do futebol, esse gigantesco movimento lúdico que empolga o mundo e que é a própria manifestação do infantilismo. E há disto um sinal evidente: os calções. Há 50 anos, só os rapazes o usavam e a primeira vez que punham calças o sentimento que vivia o adolescente era o de ser recebido como iniciado na sociedade dos homens.

 

Esta combinação do titanismo com o infantilismo envia-nos para a profecia de Daniel interpretando os pés de ferro e barro do ídolo do sonho de Nabucodonosor como o frágil suporte de toda a construção histórica da humanidade.

 

O barro é, segundo o Génesis, a original matéria de onde pelo sopro de Deus se formou o primeiro homem, o homem na sua infância; o ferro é o metal que simbolicamente caracteriza a última manifestação do ciclo, na velhice do mundo.

 

Agostinho da Silva via tudo isto e muito mais. Via-o em íntima claridade, interpretava-o em profundidade. Mas o impressionante é que, perante o espectáculo de um mundo a desfazer-se, em nítida descida para o abismo, continuava a confiar nos homens e nas mulheres que incitava à valentia, ao denodo, à esperança, a crer que só o bem poderia estar no fim e nisso era um aristotélico, porque segundo o sábio grego “a melhor das quatro causas é a final”.

 

É por este traço, excepcional no nosso tempo, que ele, sendo o filósofo de Portugal e do Brasil, é ao mesmo tempo o filósofo do Mundo. Por ele se distingue das duas posições correntemente tomadas perante a fase em que vivemos de evoluir histórico e que são: ou pensar que estamos no culminar do progresso, que atingimos com a tecnologia e com a electrónica o cume do aperfeiçoamento humano; ou considerar que caminhamos para o abismo e que, mais ano menos ano, mais década menos década, estaremos totalmente perdidos.

 

Agostinho diz as duas coisas ao mesmo tempo, mas, para que o paradoxo se possa sustentar, introduz uma terceira: a de tudo depender da decisão do homem, que pode utilizar a tecnologia e a electrónica para ganhar o ócio, que é o pedaço de liberdade que herdámos do Paraíso. O homem, repete ele muitas vezes, não nasceu para trabalhar mas para contemplar o Santo Nome de Deus e, contemplando, trazer a divina energia que por esse modo obtém para tudo quanto faça, sinta ou pense. A filosofia poética do autor de Considerações (lembremo-nos de que a palavra considerações tem no seu seio a palavra sidério) é, por um dos seus mais relevantes aspectos, um Manifesto Contra o Trabalho. Uma vez derrotado, este deixará um vazio imediatamente preenchido pela actividade poética, se o ensino ordenar o espírito da criança para a realização do que mais importa, para a aceitação activa do imprevisível.

 

Agostinho da Silva vê o perigo. Os computadores podem libertar os humanos do trabalho, mas ao mesmo tempo tornar tudo previsível, como já se começa a ver em meteorologia. Ora, sendo o imprevisível manifestação do Espírito Santo, tornar tudo calculável não será como que um esboço do único pecado imperdoável?

 

Ele tinha um nome por assim dizer secreto. Chamava-se também George, mas este nome só era usado entre os mais íntimos. Era o nome próprio, o nome inalienável.

 

George (do grego Gêourgos) é quem trabalha a Terra, é o grande agricultor do mundo humano. Todavia, não nos deixemos enganar. Agostinho da Silva só valorizava uma espécie de trabalho, aquele que é um paradoxo de si mesmo, em que trabalhar tem por fim libertar do trabalho superando-o infinitamente pela criatividade. É o sentido do que diz em entrevista no Jornal de Notícias (17-11-87): “Foram Portugal e Espanha – sobretudo Portugal – a darem ao mundo o conhecimento de si mesmo. Agora lhes conviria e lhes caberia o papel de dar o conhecimento daquilo que é fundamental nesse Mundo. Toda a gente pode ter aquilo a que chamo de “vida poética”, no sentido de criadora, em qualquer dos domínios: artes, ciência, filosofia, mística. Isso é possível e deveria fazer-se”.

 

Hoje, como está à vista e se sofre na pele, lançou-se sobre os humanos uma rede do tempo que os acorrenta ao trabalho, que os escraviza; rede essa que nem espaços entre os fios consente por onde se escape alguém para aquele modo de vida poética. Só em sonho, dormindo, imaginam fazê-lo. Sabemos, porém, que só somos criadores de algo verdadeiro quando estamos lúcidos e bem despertos.    

 

Mais uma vez não nos deixemos enganar confundido ócio com preguiça e desemprego, o ócio que, segundo agostinho, é o que ainda nos ficou do Paraíso. Os acorrentados a um dia inteiro de trabalho, a uma vida inteira, a uma eternidade, sempre com ele preocupados porque é donde lhes vem o dinheiro com que possam alimentar-se e vestir-se a si e aos seus, é inevitável que temam o desemprego que os entregaria de novo à miséria e eis o motivo por que o espírito calculador que comanda hoje a humanidade faz com que haja sempre uma bem estudada margem de desemprego para que todos se sintam ameaçados. Assiste-se então a esta enormidade: são os próprios escravos a fazer a apologia daquilo que os escraviza.

 

Sic transit mundus. Agostinho da Silva vê-o passar como um rio de águas turbulentas que ignore o mar que o vai absorver. Olha-o tranquilo, embora indignado, pois sabe que sem tranquilidade não há verdadeira bondade. Sabe também, na tranquilidade de Gêourgos, que o dragão se deixa dominar por um leve toque da lança, toque tão suave como nos ouvidos da nossa alma obscura a palavra que ilumina.

 

Estas linhas que foram ficando para trás são o débil eco das sucessivas leituras, do imenso convívio com os livros de Agostinho, e com ele próprio, sobretudo durante os anos em que vivi em Brasília, no Centro por ele fundado de Estudos Portugueses. Ali, com ele ao lado, no Centro de Estudos Clássicos dirigido pelo insigne helenista Eudoro de Sousa, não se era escravo do trabalho. Todos tinham o tempo do seu ócio, uns imaginando com Camões ou com Virgílio, outros procurando compreender a história de Portugal e do Brasil pelo culto do Espírito Santo, outros como o Teodoro, modesto funcionário daquele Centro, criando a Casa Cultural de Taguatinga.

 

Era aqui, nos fins de semana, que Agostinho da Silva ensinava aos pobres de espírito, que todos éramos ou pretendíamos ser, o sebastianismo de Portugal e de Canudos ou a fantástica proeza de S. Jorge dominando o Dragão, e explicava o sentido da bandeira do Brasil, não pelo positivismo de Augusto Comte, mas como uma manifestação de Kidr o Verde, animando do ouro da madrugada a Ordem e o Progresso.

 

Num mundo em que o infantilismo anda de mãos dadas com o titanismo, a Ordem confunde-se com o Comando dos Titãs que escravizam ao trabalho, iludindo com jogos e pantominas as inumeráveis gentes que o Progresso põe on-line. Como sempre fazia, Agostinho lançava o paradoxo, ia encontrar liberdade onde se lia ordem e progresso, ligando movimento e contemplação, num rapto metafísico que nos abria as portas do conhecimento no Clube do Teodoro, em Taguantinga, cidade satélite de Brasília. 

 

António Telmo

DISPERSOS. 03

17-12-2013 11:52

Carta prefacial a Barros Basto – A Miragem Marrana, de Alexandre Teixeira Mendes

 

Meu caro Alexandre Teixeira Mendes

 

Esta carta é uma coisa íntima entre descendentes de marranos ou, como diz no seu livro, de cabalistas da noite e aqui cabe lembrar a árvore da noite de Sampaio Bruno; mas, sendo íntima embora, se achar por bem publicá-la como prefácio do seu interessantíssimo livro, nada haverá a opor da minha parte, porque estão por aí outros, talvez muitos, que saberão viver connosco na intimidade do que deveria ser inefável.

 

Pouco ou quase nada sabia, antes de o ler a si, de Artur Barros Basto. Levantou-o do túmulo em que jazia na minha memória e é agora, graças à inteligência do que escreveu, uma figura admirável de «guerreiro», no duplo sentido material e espiritual do termo.

 

Devo, porém, confessar que o que mais me interessou no seu livro foi a ligação desse «guerreiro» com o movimento heróico da Renascença Portuguesa de Teixeira Rego, de Teixeira de Pascoaes e de Leonardo Coimbra, porque tal ligação poderá trazer muita luz, não só sobre a identidade profunda de Barros Basto, mas, para muitos de modo inesperado, sobre o que realmente foi e é esse heróico movimento sem fim enquanto houver Portugal sem renascer.

 

Digo que poderá trazer muita luz. O seu livro é já o alvor dessa luz. O Alexandre Teixeira Mendes sabe muito bem e di-lo por vários modos, que Portugal, terra das três religiões do livro até D. João Terceiro, tornou-se, pelas sucessivas investidas da Inquisição, o país marrano por excelência, o país secretamente judaico, subconscientemente judaico, embora disso só tenham séria consciência os cabalistas da noite que, desde 1857, durante cento e cinquenta anos, até Pedro Sinde, Pedro Martins, até si (2007) têm sabido compreender o que é o movimento da filosofia portuguesa que Sampaio Bruno fundou e Álvaro Ribeiro criou.

 

Teixeira de Pascoaes, como muito bem viu António Cândido Franco, criou o Marános para cifrar o Portugal Marrano contra aqueles traidores que teimam em ver a luz nas labaredas da Inquisição. Sabemos ambos a que traidores aludo. O cristão-novo é, na origem, um ser dividido, dividido entre a religião de seus pais que é obrigado a renegar e a religião cristã que o forçam a praticar. Desse ser dividido formaram-se vários subprodutos: aqueles que foram incapazes de suportar a tensão tornaram-se ou materialistas ateus ou materialistas católicos, esquecendo (no melhor dos casos) ou odiando (no pior) a religião de sangue; outros tornaram-se judeus secretos, praticando ao mesmo tempo as duas religiões, forçados a serem ao mesmo tempo valentes e hipócritas. Mais e diversos resultados são possíveis. Todavia, aquele que me parece decisivo é o dos que procuram os caminhos difíceis, não daquela dificuldade do marrano que pratica às ocultas a sua verdadeira religião, mas de outra mais profunda dificuldade. São os que o Alexandre Teixeira Mendes me ajudou a ver: os da Renascença Portuguesa, os da Faculdade de Letras de Leonardo Coimbra (com Artur Barros Basto o ensino da língua hebraica), por fim os filósofos portuenses exilados em Lisboa e os que se lhes seguiram, vindos de toda a parte.

 

Nestes, a tensão gera a inquietação e a inquietação é um princípio de movimento silogístico. A tensão é entre dois termos: o judaísmo e o cristianismo; ambos são sentidos como verdadeiros, não na ideia de um prolongar o outro, mas na do segundo ser a antítese do primeiro. Então, ou a inquietação se torna perpétua, sem saída para nada, gerando inacabadas oscilações de alma entre duas luzes ou se transforma no que verdadeiramente ela é, princípio de movimento para uma nova religião: aquela que cada cabalista da noite vê à luz do pensamento como a superior síntese dos dois sublimes contrários.

 

É nesta linha que devemos entender o Novo Deus Infante do Regresso ao Paraíso, a Igreja Lusitana de Sampaio Bruno e de Teixeira de Pascoaes, a Idade do Espírito Santo de António Quadros e de Agostinho da Silva.

 

Este homem extraordinário pensava que a Idade do Espírito Santo deveria necessariamente ser precedida de pão para todos e confiava na tecnologia por esta vir resolver todos os problemas materiais, criando o ócio que, vencida a miséria, não serviria para preguiçar mas para viver em activa contemplação o esplêndido renovado mundo.

 

Na famosa afirmação de Cícero «primo vivere, deinde philosophare» Agostinho da Silva via o seu sentido integral, donde não o devemos acusar de pertencer àquela espécie de cristãos-novos que prestam culto ao Bezerro de Ouro.

 

Por Bezerro de Ouro ou simplesmente Bezerro entendo aqui a Economia, a Deusa global. Dela esperam muitos a resolução de todos os problemas materiais dos homens e das mulheres. Por enquanto, mantêm-se as longas extensões de miséria, pelo que somos levados a pensar que a Economia ou não é uma ciência exacta ou então os que nela são entendidos não acertam com o seu ritmo.

 

Num livro meu recente, do qual saíram por enquanto só cinquenta exemplares, Congeminações de um Neopitagórico, lembro oportunamente a função mágica que Fernando Pessoa atribui à letra S e a asserção que faz de vir essa letra a ser a inicial dos homens intelectualmente e politicamente actuantes para bem ou para mal na vida da Pátria.

 

Com efeito, Sérgio, ainda no tempo de Pessoa, como Sidónio Pais, pelo poeta identificado com D. Sebastião e a que chamou Presidente-Rei, como Salazar, em quem de início acreditou e que depois desprezou foram, por diferentes modos, destacadas figuras de políticos. António Sérgio, explicando toda a nossa gloriosa história medieval com razões economicistas é a cabeça de uma longa série de personalidades cujos nomes começam por S. Será uma curiosidade de almanaque, mas nem por isso menos intrigante essa fileira de nomes: Spínola, Soares, Sá Carneiro, Cavaco Silva, Sampaio, Santana Lopes, Sócrates e outros que de momento não encontro. Estes, porém, são suficientes para mostrar como os cristãos-novos adoradores do Bezerro de Ouro estão, se Fernando Pessoa não erra, sob a influência da misteriosa Ordem da Serpente de que só nos diz um em dez.

 

Agostinho da Silva, também no último nome com S inicial, passou da Faculdade de Letras de Leonardo Coimbra para o grupo da Seara Nova, destoando do republicanismo romântico dos seguidores de Sampaio Bruno e preferindo de longe Fernando Pessoa a Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. A Seara Nova era uma promessa de pão, uma messe, uma missa, uma mensagem dirigida à acção imediata, esteada em razões susceptíveis de serem ensinadas onde houvesse mente de homem. Todavia, Agostinho da Silva foi ao mesmo tempo um grande admirador de Teixeira Rego e por ele, seu mestre de religião na Faculdade de Letras extinta por Salazar, através dele, autor de uma Nova Teoria do Sacrifício, sabia qual virá a ser o destino do Bezerro no dia do Grande Sacrifício com as águias de Deus voando acima do mundo.

 

Meu caro Alexandre Teixeira Mendes, a carta já vai longa e não tem assim grande jeito para servir de prefácio. Termino com uma palavra de remorso. Evoco aqueles católicos como António Quadros e Dalila Pereira da Costa, Carlos Aurélio e Pinharanda Gomes e presto-lhes homenagem como a outros por aí ignorados que caracterizo assim: são católicos pelo espírito que não identificam Deus com a Igreja, que acreditam em Deus para além da Igreja e que por isso devem ser associados à heróica linhagem de republicanos para a qual, como ensinou Leonardo Coimbra, «a filosofia é o órgão da liberdade».

 

Não serve então de prefácio esta carta? É a obra de um marrano, cheia de paradoxos e duplicidades, de desvios súbitos, de contradições, de certezas e de incertezas. Como o seu livro que bem haja! Essa estrada aberta para Sepharad…

 

António Telmo       

DISPERSOS. 02

12-12-2013 16:26

História de Portugal-Israel

 

Quando publiquei a minha “História Secreta de Portugal”, mal supunha que viesse a constituir um êxito editorial e a tornar-se um livro admirado por muita gente. Só Álvaro Ribeiro, numa carta excessivamente amável e elogiosa, se mostrou decepcionado, e vejo hoje que com inteira razão, na medida em que o livro contribuiu para distrair os espíritos, atraindo-os para uma interpretação falsa de Portugal e da sua história, prestigiada pelo fascínio do esotérico. Entre os documentos que guardo religiosamente, há um esboço de História de Portugal traçado pela mão de Álvaro Ribeiro e concertado entre mim e ele à mesa de uma esplanada de Sesimbra alguns anos antes da edição do meu livro, por onde se pode medir, comparando, o desvio da ideia original. “História de Portugal-Israel” viria a ser o título inevitável, se ele ou eu nos tivéssemos dado a desenvolver os sucessivos tópicos que constituem esse esboço. Se não, veja o leitor:

 

I – Astrologia da Península Ibérica.

Aspectos constantes do Céu. Horóscopo.

A Península e a Palestina. Semelhanças.

 

II – Povos primitivos da Península Ibérica.

Invasões e Expulsões.

A Diáspora anterior á morte de Cristo e à destruição do II Templo.

Judeus da Palestina e da Diáspora.

Principais colónias (sinagogas) na Península Ibérica.

 

III – Hebreus e Iberos.

Onde estava situado o Ebro? Andaluzia.

Missão religiosa e missão política do povo eleito.

Convívio com outros povos.

Bilinguismo. Exprimir-se na língua alheia.

O ladino e o mito do Latim vulgar.

 

IV – Diplomacia. Significado étimo.

Duplicidade e ambiguidade.

Reserva e reticência nos dizeres.

A ironia.

O conflito de duas mentalidades.

Psicanálise do judeu na Diáspora.

A alma e o espírito.

 

V – Formas literárias e artísticas desta atitude mental.

A metáfora e o seu contrário, a etimologia.

Interrogatório e inquisição.

 

VI – Condição social dos Judeus na Península Ibérica e, depois, na Monarquia Lusitana.

Três religiões lícitas.

Duas religiões. 1391

Uma religião. 1498 – Reis católicos

 

VII – A Política do Príncipe Perfeito . (Oliveira Martins)

 

António Telmo

DISPERSOS. 01

12-12-2013 16:18

Natureza de Portugal

 

Portugal é uma criação de São Bernardo sobre um fundo que aparece caracterizado por uns como atlante, por outros como céltico, no quadro remoto da primeira civilização megalítica, que se terá expandido posteriormente pelo Sul de França e pela Bretanha.

 

Aquilo que se deve, porém, sobretudo frisar é a sua criação pelo supremo adorador medieval de Nossa Senhora, São Bernardo. Neste sentido, Portugal é uma criação espiritual. Os factores geográficos, históricos, económicos ou outros, pelos quais se tem procurado explicar a sua origem, se os considerarmos independentemente do que tal criação significa, pertencem a um passado morto, sem acção no presente, visível ou invisível.

 

O abade santo veio dar direcção política, isto é, de organização social, à obra de São Bento, transformando o monacato por este fundado, numa vasta rede de Ordens, a partir da de Cister, das quais devemos salientar, a de Cluny, a dos Templários, a de Santiago e a de Calatrava (em Portugal, de Avis).

 

Nele se reuniam espiritualmente os dois poderes, – o religioso e o militar. Por isso mesmo, sem armas ou qualquer força material, punha e dispunha de papas e de reis. Era o verdadeiro representante de Deus, de que dependiam Império e Papado.

 

Dante é, desta ideia de uma Terra governada por um só Imperador e iluminada por uma só religião, o poeta e o teorizador supremo. Na Monarquia propugna a separação dos dois poderes e a sua união por cima. Na sua viagem pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso é sucessivamente conduzido por Virgílio, por Beatriz e, por fim, por São Bernardo que o leva até à plenitude da revelação e do conhecimento de Deus pelo Amor.

 

O lugar irradiante do pensamento activo do Santo era a Borgonha. Daí propagou-se por vastas regiões da Europa, mas, como se vê pela Monarquia de Dante, o fim de tão vasto movimento era o QUINTO IMPÉRIO universal. Ver-se-á adiante que, comparativamente com a orientação dada por São Bernardo ao movimento destinado a instaurar um só Imperador para todas as nações do mundo, o que se está a fazer hoje nesse sentido a partir da unificação da Europa corre o risco de se inverter no Império do AntiCristo. A unidade das diferenças aparecerá como uniformidade pela anulação dos distintos (nos dois sentidos da palavra), pela redução do superior ao inferior, pelo que se chama hoje “nivelamento por baixo”.

 

Como se sabe, as nossas duas primeiras dinastias eram borgonhesas. Entre uma e outra insere-se a casa de Lencastre, aliada dos Franceses senhores da Borgonha, vindo por isso reforçar o movimento inicial dado por D. Afonso Henriques. Os portugueses eram para Ibn Arabi, contemporâneo dos nossos primeiros reis, os borgonheses. No tempo de D. Afonso V, a ideia era a de que Portugal se apoderasse da Península Ibérica ao mesmo tempo que Carlos o Temerário, primo direito do nosso rei, e duque de Borgonha, se apoderaria da França e da Alemanha. A batalha de Cluny pôs fim ao sonho imperial da nobreza borgonhesa. D. João II e D. Manuel I procuram realizá-lo pelo mar.

 

Os Painéis de Nuno Gonçalves, mandados pintar por D. Afonso Quinto, parecem significar a tristeza e a persistência do sonho, embora adiado na sua realização, reflectindo-se no olhar das 60 personagens que os compõem. Ali, no Evangelho de São João, a página mostrada anuncia a vinda do Paracleto num futuro adiado, pois ao mesmo tempo indica um período dominado pelo príncipe deste mundo. Todavia, embora numa oitava inferior, emergiram ao longo do período tenebroso sucessivas tentativas de restaurar o que estava perdido. Neste sentido, é impossível dissociar o movimento político da Restauração pelos quarenta da acção da Companhia de Jesus. A ideia de realização do Império Universal, tal como a sonhou São Bernardo, é retomada, depois de Alcácer Quibir, através do jesuíta Padre António Vieira na sua História do Futuro. A Companhia de Jesus foi, durante a República, vítima de uma campanha cujas senrazões deveriam ser melhor estudadas, sem qualquer reserva mental. Como se depreende dos estudos de Sampaio Bruno, insuspeito porque republicano, os jesuítas foram, em Portugal e na Espanha, os grandes adversários da Inquisição; no entanto, há hoje ainda quem julgue que os dominicanos eram jesuítas, tal a ignorância que campeia por insidiosos processos de natureza histórica.

 

Fernando Pessoa escreveu que o Padre António Vieira é o Imperador da Língua Portuguesa, da língua portuguesa que é a Pátria imperial do poeta e de todos os que, neste como noutros pontos o seguem. Ele figura na Mensagem como um dos nossos profetas. Depois dele, na Mensagem, é como se  ninguém existisse. Só o próprio Fernando Pessoa, o último profeta, surgido no fim para anunciar um Portugal novo.

 

António Telmo           

VOZ PASSIVA. 04

12-12-2013 11:55

Um homem

António Carlos Carvalho


Se a memória não me falha, conhecemo-nos em 1976. O António Telmo foi ter comigo às instalações de «A Capital», onde então eu trabalhava, para me entregar o manuscrito de «História Secreta de Portugal». Trocámos algumas palavras, ali mesmo, no átrio de entrada da sede do jornal e eu recebi das suas mãos o manuscrito de um livro que logo devorei, entusiasmado com a descoberta.

Nessa altura, eu dirigia a colecção Janus da editora Vega, em que desejava publicar obras diferentes sobre temas fora do comum. «História Secreta de Portugal» era exactamente o tipo de obra pretendida. Mas era muito mais do que isso: uma obra pioneira, um rumo novo que se abria entre nós.

Para mim, que alguns anos antes, noutra editora, tinha traduzido «O Mistério das Catedrais», de Fulcanelli, aquele manuscrito de António Telmo era a resposta perfeita à minha interrogação: porque é que não se fazem «leituras» destas a partir dos nossos próprios monumentos, decifrando-os? Pois bem, ali estava então o que eu desejava. Um livro luminoso, que nos abria os olhos para a mensagem do Mosteiro dos Jerónimos.

E assim se publicou «História Secreta de Portugal» na Vega. É verdade que essa edição não nos correu bem, a mim e a António Telmo. Doeu-me e indignou-me a maneira como ele foi maltratado pelo editor – há editores que são verdadeiros predadores, mas só então demos por isso... Passado um ano e tal, o mesmo editor anunciou-me que a colecção Janus ia acabar «porque não se vendia». Afastei-me da Vega em 1978 mas claro que a colecção existe até hoje e continua a reeditar essas obras sem pagar direitos aos autores...
 

Adiante.
 

O António Telmo e eu continuámos a cruzar os nossos caminhos por aí, já sem nenhum vínculo de carácter editorial a ligar-nos, mas com interesses comuns que nos aproximavam. Encontrámo-nos várias vezes em Sesimbra, na casa do Rafael Monteiro, discutindo as excelências da Filosofia e da Religião, cada um de nós batendo-se pela sua dama com a energia que se impunha.
 

Em 1980, assisti, deliciado, no Palácio Foz, à magistral conferência de António Telmo sobre «O Segredo d’ Os Lusíadas». E fui lendo as outras obras que ele ia publicando. Para mim, que nunca fiz parte do grupo da Filosofia Portuguesa mas conheci alguns membros desse grupo, António Telmo era, e continua a ser, o elo da cadeia de transmissão de uma certa forma de pensamento português, neste país cada vez mais à deriva.
 

Lendo o que ele escreve (e relendo, porque somos sempre obrigados a relê-lo) ou ouvindo as suas palavras, aprendo sempre alguma coisa mais. Nele há sempre inovação, o que significa que António Telmo rejuvenesce por dentro. Contador de histórias, os seus contos filosóficos fazem-nos pensar – e acordar. Sem esquecer o seu humor, que nos desarma, a nós que fazemos questão de parecer gente séria e grave.
 

Vejo em António Telmo a figura exemplar do que a terminologia bíblica designa por Zaken, e que é muito mais do que simplesmente o ancião: é o homem que, através da sua experiência, adquriu a sabedoria. De facto, há nele algo do sábio talmudista, aquele que, dialogando consigo e com os outros, encontra sempre algo de novo no que foi dito e repetido até à aparente exaustão

 

Há dias, em troca de mensagens com o Pedro Martins, dizia-lhe eu que sou apenas um farejador, como aqueles cães que buscam seres humanos no meio das ruínas dos sismos. Também eu farejo o Homem no meio das ruínas do nosso tempo. O que não tem nada de novo, de original. A desertificação da humanidade é muito antiga: Moisés «virou-se para um lado e para outro e viu que não havia homem»; David aconselhou ao filho Salomão: «Coragem pois e sê homem»; séculos mais tarde, Diógenes andava com uma lanterna à procura de homens verdadeiros.

 

Essa busca de Moisés, de David e de Diógenes é ainda a nossa, hoje, aliás cada vez mais premente.

 

António Telmo é um desses poucos Homens verdadeiros que me foi dado conhecer.
 

Por isso agradeço a Deus a dádiva e peço-lhe que o guarde por muitos anos, para nos mostrar o Oriente e entender essa luz.

 

(Escrito em 2008)

VOZ PASSIVA. 03

09-12-2013 16:44

OITAVA ILUSTRAÇÃO

que mostra como se escapa à grande deturpação

com uma recensão do livro História Secreta de Portugal

História Secreta de Portugal*

Orlando Vitorino

 


No momento em que se levantam sérias interrogações quanto à possibilidade de sobrevivência de Portugal, eis que surge um livro como este. Livro surpreendente que vem continuar, actualizar, além de a acrescentar com uma singularidade muito significativa, uma tradição de patriotismo que se inicia, talvez, nas obras, por interpretar, do filósofo D. Duarte e do historiador Zurara, para se prolongar até aos nossos dias nas Trovas, do Bandarra e D. João de Castro, no Encoberto, de Bruno, na Mensagem, de Pessoa, e na Arte de Ser Português, de Pascoaes.

 

Ao chegar ao último capítulo desta História Secreta de Portugal, será o leitor informado do propósito do autor: perante a demissão dos “grandes organismos espirituais de ligação do Céu com a Terra” – o autor acabara de designar como tais a Maçonaria e a Igreja Católica – a cada um de nós “resta apenas uma saída: a de ficar só, completamente só em si mesmo e de, nessa solidão, se manter firme, não cedendo um ponto”. Acontece, porém, que, mais radicados nós nela do que nos citados “grandes organismos espirituais” e mais terrena e erradicável do que eles, “há a Pátria”. E o autor demonstra: “Não é por acaso que se nasce português, e misteriosas são as leis das afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?” É, deste modo, próprio da natureza e da existência humana de cada um, pertencer a uma Pátria. Ora “a Pátria somos nós todos, os que vivemos, mas, sobretudo, a cadeia invisível dos antepassados, essa enorme força da espécie que o Anjo marcou na sua génese com uma língua e um determinado sestro, histórico senão transcendente”. História secreta de Portugal é a que procura, nas visíveis pedras dos monumentos, nas audíveis palavras dos poemas, nos manifestos eventos e homens a tais pedras e palavras ligados, esse sestro histórico que, no caso do Portugal, se afigura efectivamente transcendente.

 

Onde estão sinais e segredo, estará a decifração. António Telmo decifra, primeiro, o enunciado do sestro nas pedras do claustro e do portal dos “Jerónimos” que compõem uma imagem cuja legenda – pois não há imagem sem legenda – é pela primeira vez lida. Decifra, depois, o seu significado nas palavras de Os Lusíadas a que dá uma interpretação poética e teológica que deixa na penumbra tudo quanto, em saber literário e historicista, até hoje se disse sobre o grande poema. Decifra, por fim, a sua agonia nos versos de Pascoaes e Pessoa, e aqui demoramos um pouco a notícia deste livro.

 

António Telmo apresenta Fernando Pessoa como o “rectificador da maçonaria” da qual tinha um saber – “a maioria dos seus poemas constituem o desenvolvimento dos ensinamentos maçónicos” – que os maçons há muito perderam trocando-o por artificiais, inadequadas e ridículas interpretações activistas e positivistas. Pessoa refutou e repudiou a tese, comum a Sampaio Bruno e José de Maistre, de que a maçonaria seria uma “organização judaica”: a influência do judaísmo na maçonaria, tal como a do catolicismo, a do protestantismo e a do ateísmo, só se terá dado a partir do século XVIII através da introdução de “graus iniciáticos” que se sobrepuseram aos “graus simbólicos”. Nos “graus simbólicos”, a maçonaria terá sido, sempre segundo a interpretação de Pessoa, o prolongamento da Ordem dos Templários e como tal é que estará no “segredo de Portugal”: a Mensagem é, até ao Valete Fratres do ritual das “lojas” com que encerra, a descrição maçónica, mas de uma maçonaria “rectificada”, da história secreta de Portugal.

 

Pascoaes é-nos apresentado como o “outro” de Pessoa. Sugere António Telmo que há, nos seus versos, “uma excessiva beleza” e que é essa excessiva beleza que torna a maioria dos portugueses hoje incapazes de os entenderem, até de os lerem, aparecendo-lhes eles como um “infindável marulho de som”. Uma das chaves deste livro é a erudita sensibilidade para com os valores estéticos da poesia, que o autor em geral esconde na exposição conceptual das interpretações que faz dos poemas. Essa sábia sensibilidade chega a explodir com um vigor polémico que, todavia, se contém para a não denunciar. É o que acontece nas páginas onde se descreve “a campanha feroz que os sergistas movimentaram contra os grandes poetas do sagrado, Pascoaes, Pessoa e Régio, hostilizados socialmente, à direita e à esquerda da cruz, porque se atreveram a imaginar ou a pensar a ideia de Deus”; ou naquelas outras páginas onde o autor, depois de nos dizer que o “saudosismo foi catalogado como corrente literária para ser esquecido no mar dos medíocres onde se perdem e afundam todas as correntes”, observa: “O papel dos adversários do povo português é este. Não podem fazer outra coisa senão crítica literária ou o análogo.”

 

É na poesia de Pascoaes que o “sagrado” adquire um actual sentido universal. Todo o movimento é composto de progresso e de regresso. E porque não há – como sempre observava José Marinho – “progresso infinito”, para lá de certo limite o progresso cai numa “separação abissal” do princípio que lhe deu origem e só persiste como degradação e perdição. Uma das formas mais patentes e fatais desta degradação, reside na oposição e no ódio à natureza, representados, primacialmente, pelo sistema da filosofia alemã. A esta degradação progressista importa opor a sublimação regressista: “O que sobretudo importa – diz António Telmo – é o encontro do homem consigo na natureza sem ninguém, do homem que por uma transmutação interior se torna capaz de um contacto efectivo com aquilo que a natureza é: o lado oculto das coisas e dos seres. Não só perdeu esse contacto como a possibilidade dele. Pascoaes foi a última tentativa para restabelecer essa possibilidade.”

 

O que se pode entender pelo “homem transmudado” verá o leitor que é “o homem que pensa e conhece com todo o seu ser”; o que se pode entender por natureza, é o que em Pascoes se aprende. “Aprende-se a conhecer na natureza visível o seu duplo oculto. Todos os seres têm o seu duplo, diz-nos Pascoaes, e as sombras constituem o verdadeiro lado das coisas. Por sombra entende ele […] a imagem secreta de cada coisa, que se torna presente ao espírito por uma invocação mágica que nomeia o ser da coisa e os seus atributos: a ideia.”

 

Neste último texto transcrito, encontramos a expressão daquilo que, na abertura desta “notícia”, dissemos ser “a singularidade muito significativa” do livro de António Telmo. Com efeito, as obras de tradição secreta, ocultista ou esotérica, suscitam sempre a suspeita e receio de se tratar de obras onde o pensamento não sai do labirinto, sempre perturbante e muitas vezes belo mas sem finalidade, das combinações, comparações e metáforas, das analogias sem anagogia. Outra suspeita que poderia também suscitar um livro do autor de A Arte Poética – publicada há dez anos para ficar circunscrita ao círculo, ou ao “gueto”, onde se refugia a livre poesia – seria a de se tratar de uma armadilha destinada a atrair caçadores de borboletas, isto é, perseguidores do segredo da alma, neste caso a de uma Pátria, que, ora rastejante ora alada, sucessivamente se esconde para em nova forma surgir e surge para de novo se esconder, e em suas metamorfoses infinitamente repete o mesmo eterno ciclo de progresso e de regresso. Ora em todo este livro, como no texto transcrito, verificará o leitor que António Telmo não ficou nem na imagem muda do saber secreto nem na palavra poética da imaginação sem conceito: – num primeiro momento, a imagem emerge ao espírito por uma invocação mágica, operação na qual reside o pensamento esotérico que – à maneira do amor em Dante – solicita todo o ser do homem; num segundo momento, a invocação adquire substância poética, ou palavra, pois nomeia, dá nome à imagem invocada; num terceiro e último momento, o nome dado à imagem invocada é o nome do “ser da coisa e seus atributos: a ideia”.

 

O saber poético em que culminou o saber esotérico, culmina, por sua vez, no saber filosófico. E ao situar no último momento, sem o qual os outros pouco ou nada são, a filosofia, o leitor decerto evocará, expressa como ela está pela “ideia”, os dois pensadores de extrema oposição que foram os dois filósofos da “ideia”: Hegel e Platão. Não se trata, porém, da ideia de Hegel, que é a ideia de Deus encarnado, do Cristo, cingido como está todo o pensamento hegeliano – sistematização acabada da filosofia nórdica ou moderna – a um penoso comentário pari passu da missa cristã. A ideia, “ser da coisa e seus atributos” – ou ser e saber do ser – aparece aqui como uma interpretação anagógica das sombras de Pascoaes. É pela poesia pontifical, pela função pontifical da poesia, que, por cima e para além das águas já mortas do hegelianismo, a ideia nos prende a Platão que também pôs nas sombras o patente e o secreto.

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*Artigo não assinado, publicado no segundo número da revista Escola Formal, de Julho de 1977.

VOZ PASSIVA. 02

09-12-2013 16:20

António Telmo, Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães Editores /1989*

António Cândido Franco

 

O título deste livro de António Telmo, Filosofia e Kabbalah, poderia na prática ser lido de outro modo: Filosofia e Poesia. Trata-se, com efeito, de uma obra que se organiza sempre em torno das relações entre Filosofia e palavra poética. Nela coexistem assim os estudos e as interpretações dedicados a poetas como Pascoaes, Pessoa e Camões com os trabalhos dedicados a filósofos também portugueses: Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e José Marinho. Esta interacção entre Poesia e Filosofia adquire em António Telmo uma consciência invulgar, que não se limita a encontrar linhas de correspondência entre filósofos e poetas portugueses, num diagrama subtil e muito ajustado (p. 84), mas vai ao ponto de postular a filosofia como arte poética porque tem a metáfora por instrumento. É ao defender que a metáfora é o verdadeiro organon do pensamento que Telmo firma uma verdadeira arte poética. Para o Autor, a metáfora não é apenas uma “rotação de atributos à volta da mesma substância”, mas uma translação do próprio pensamento. Em António Telmo as palavras procuram-se sempre noutras palavras mais subtis – recordemos, neste sentido, que o seu livro de estreia, no já recuado ano de 1963, se chamava justamente Arte Poética e apontava para o entendimento do pensamento a partir da poesia ou, o que vem a dar ao mesmo, da Kabbalah. A possibilidade de substituir esta pela palavra poesia não nos deve surpreender: basta sabermos que a Kabbalah é uma forma específica de encarar a linguagem verbal humana, onde o signo linguístico não é arbitrário e convencional, mas sim natural e não-contratual.

 

Os estudos dedicados no presente volume à poesia de Teixeira de Pascoaes, de Fernando Pessoa e de Camões partem desta perspectiva de translação do sentido e do pensamento, e conseguem excelentes resultados. A leitura do célebre e conhecido soneto “Gomes Leal” de Fernando Pessoa é, sob este aspecto, esclarecedora. António Telmo lê o título do poema como um disfarce ou termo de substituição. Pondo lado a lado o soneto e o horóscopo de Fernando Pessoa, acaba por chegar à conclusão de que o título do poema encobre afinal um auto-retrato do próprio autor. Esta original leitura é um feliz exemplo de como a translação do sentido e do pensamento pode obter excelentes resultados. Também a translação do som – técnica muito antiga, que já Sócrates aconselhava a Hermógenes no Crátilo de Platão – pode alcançar sucessos semelhantes. Assim, quando lê Adamastor como Adão Astral (o Adam Astor) António Telmo estabelece, por translação de som, uma curiosa e original interpretação desse nome e, por consequência, do passo onde ele se encontra. Já Fernando Pessoa, segundo informação do autor de Arte Poética, era exímio praticante do mesmo tipo de exercícios interpretativos, podendo por exemplo o título Mensagem ser lido e interpretado a partir da expressão latina Mens Agitat Molem (cf. p. 168). 

 

Num livro sobre Sampaio Bruno, Joel Serrão refere a seu propósito a existência de dois tipos de fontes, as quais nos parecem poder ser extensivas à totalidade da cultura dum país ou duma língua. As fontes exotéricas são as mais conhecidas e aquelas que, pela facilidade de acesso, dominam o gosto e a moda da época. Pelo contrário, e apesar de resumirem muitas vezes o essencial não só do que passa mas do que permanece, as fontes esotéricas são de aceso difícil, pois requerem um saber operativo: só um escol culto e interessado parece ter conhecimento delas. Nos últimos trinta ou quarenta anos os estudos mais conhecidos sobre a poesia portuguesa clássica ou contemporânea têm sido quase inteiramente dominados pelo uso exaustivo daquilo a que Joel Serrão chama fontes exotéricas – António Telmo é precisamente um dos hermeneutas que prestam atenção às outras fontes da nossa poesia.

 

O uso das fontes esotéricas tem a vantagem de aproximar o intérprete do texto e dos seus vários níveis de sentido. Além disso e apesar de usadas por um escol muito minoritário em relação ao conjunto da população, essas fontes parecem ser responsáveis por quase todos os momentos verdadeiramente marcantes da nossa poesia. A de Herberto Helder é ainda hoje um excelente exemplo da sua vitalidade actuante. Lembremos as suas palavras: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”, palavras que se podiam perfeitamente aproximar de algumas outras de António Telmo. O gosto de trasladar o sentido, tão característico da poesia de Herberto Helder, pode ser vantajosamente aproximado do gosto de trasladar o pensamento que caracteriza a filosofia ou a hermenêutica de António Telmo. Nenhum poeta estará assim tão próximo de António Telmo pois nenhuma poesia formula com tanta evidência aquilo que a filosofia de Telmo postula: a metáfora como instrumento de pensamento. Há neste paralelismo, o mais actual no nosso país entre Filosofia e Poesia, a certeza de que estamos ante um autor que, apesar da obscuridade a que se tem remetido, ou por causa disso mesmo, é dos mais importantes intérpretes da poesia portuguesa e um daqueles que, com mais proveito e originalidade, se movem hoje no campo da hermenêutica literária.

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* Publicado em Colóquio/Letras, n.º 120, Abr. 1991, p. 227-228.

DIÁRIO DE UM FILÓSOFO PITAGÓRICO. 01

09-12-2013 15:17

12 de Fevereiro

A surpresa foi geral. Convidado pelo Venerável a falar sobre um tema à minha escolha, durante alguns minutos dissertei sobre o número 9, que todos sabemos ou devemos saber que constitui o número que domina o Rito Escocês Rectificado do primeiro ao último grau, mas sobretudo o 3.º grau, Mestre Maçon, chamando, porém, a atenção dos que me ouviam para a prancha de traçar, própria deste grau, com o seu quadrado mágico de 1 e 9 que pela associação com a cruz de Santo André produz o nosso alfabeto, cujos elementos se tornam significativos como os vários elementos da Rosa dos Ventos, isto é, como espíritos. O número exacto desses elementos é 26 (2x13), 13 vazios e 13 plenos (como, por exemplo, o A e o B). 26 sopros ou espíritos do ar.


Depois de várias intervenções (do ******, do ****** e da minha) F   criou a surpresa geral mostrando como essa era a nona reunião de 2005, e que estávamos ali precisamente nove irmãos. A sessão terminou com os habituais aplausos feitos com ambas as mãos de todos os presentes e foram 81. Outra coincidência: paguei o que devia em quotas: 81 euros.   


Todos estes acontecimentos constituem mais um acontecimento da minha associação ao número nove, associação que é comum a nós todos, mas que a mim foi particularmente anunciada através da minha filha que entre o sono e a vigília ouviu ser-lhe dito: “O teu pai vai ser associado ao número 9”. Isto na manhã do dia em que fui elevado ao grau de Mestre.

 
António Telmo

FOTOS COM HISTÓRIA(S). 01

09-12-2013 14:48

 

 

Afonso Botelho e António Telmo no Colóquio "Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa", realizado no Porto em 1993 (Arquivo pessoal de Paulo Samuel).

 
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