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CORRESPONDÊNCIA. 04

30-01-2014 09:54

CORRESPONDÊNCIA DE REBELO GONÇALVES PARA ANTÓNIO TELMO. 04

 

Lisboa, 31 de Outubro de 1968.

 

                    Meu caro António Telmo:

 

            Não fazia ideia de que estivesse agora mais perto de Lisboa. Supunha que se mantivesse em Brasília, donde me escreveu a sua penúltima carta.

            Estamos de acordo, meu bom Amigo. Aquilo não é país no qual se possa confiar. É um país que tudo promete e nada cumpre, pelo menos no que respeita ao que promete a Portugal. Por isso mesmo, desliguei-o da minha actividade intelectual e universitária, de tal forma que, tendo fundado em Coimbra a «Brasilia» e em Lisboa a «Euphrosyne», subintitulada «Revista Luso-Brasileira de Cultura Clássica», acabei por considerar unicamente portuguesa a segunda série desta última publicação. Não quero mais intimidade com um povo que faz dos tratados farrapos de papel e que só na aparência nos dedica amizade.

            Desejo-lhe as maiores felicidades na sua permanência em Granada. Que dela colha os melhores frutos!

            A Maria Isabel, que lhe manda cordiais lembranças, continua muito satisfeita no seu lugar de bibliotecária da Fundação Gulbenkian. Oxalá assim estivesse também o meu filho, que, coitado, lá está em Cabinda, em clima dos mais inóspitos do mundo, próprio para gorilas, mas não para seres humanos, a seguir o seu fadário militar, como capitão de infantaria. É já a terceira comissão de serviço obrigatória que cumpre no Ultramar. Quando é que isto acabará, meu bom Amigo?

            Aproveito este ensejo para lhe repetir, meu caro António Telmo, que o recordo sempre com muita admiração intelectual, com muita consideração moral e com muita amizade. E pode crer que a sua sincera e tão desinteressada dedicação a este seu velho professor é dos melhores prémios que a minha carreira universitária, por vezes tão atormentada por incompreensões e injustiças, pôde proporcionar-me.

            Há tempo falei a seu irmão Orlando (a quem, como sabe, também muito admiro), numa sessão da Academia das Ciências, mas foi, como se costuma dizer, de raspão. Mal pude pedir-lhe notícias suas.

 

            Com um grande abraço, faz votos pelo seu completo bem-estar e pelo de todos os seus o sempre

 

                                                                                             Seu m.to adm.ºr, am.º e grato

 

                                                                                                                        Rebelo Gonçalves.

 

 

 

INÉDITOS. 02

29-01-2014 11:45

Não Não sabemos ao certo onde terá tido lugar a conversa entre Rafael Monteiro e Agostinho da Silva, cujo excerto brevíssimo se me deparou agora, guardado num dos proverbiais cadernos de apontamentos de António Telmo. Bem oportuna se revelou, porém, a descoberta, levando por destino certo o capítulo sétimo de Agostinho da Silva em Sesimbra, inteiramente dedicado à extraordinária relação de amizade que Rafael e Agostinho puderam manter durante mais de duas décadas. Verdadeiramente, não sabemos sequer se António Telmo teria querido escrever mais do que ali deixou escrito, e assim, porventura, interrompido. Não tem mal. À conversa, podemos imaginá-la travada na casa veneranda de Rafael, no Castelo de Sesimbra, numa daquelas gloriosas tardes de sábado em que por lá também apareciam António Telmo e António Reis Marques para discretearem sobre Deus, a Pátria e o Universo. E quanto à escrita, é outrossim bem possível que Telmo nada mais tivesse pretendido acrescentar à incisa concisão do fulgor que, lapidar, ressuma das parcas linhas manuscritas. O leitor percebe logo porquê…

  

Pedro Martins

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De um caderno de apontamentos: excerto de um diálogo entre Rafael Monteiro e Agostinho da Silva

 

Rafael – Sabe o senhor? Eu em geral tenho o dinheiro para o próprio dia e às vezes para o dia seguinte.

 

A. Silva – Isso é bom. Comigo acontece uma coisa semelhante. Em geral, só tenho dinheiro para a véspera.

 

António Telmo

DISPERSOS. 05

26-01-2014 20:49

Eis um interessante disperso télmico de temática sesimbrense que se escapou por entre as malhas da rede com que em 2011 se organizou Sesimbra, o lugar onde se não morre, volume de edição municipal onde então se reuniram os escritos sesimbrenses de António Telmo. O artigo foi publicado em 1965, na edição de O Sesimbrense comemorativa do 8.º centenário da conquista de Sesimbra aos mouros -- o jornal saiu a lume no exacto dia em que, segundo a crónica, D Afonso Henriques, oitocentos anos antes, tomara o velho burgo acastelado --, e oferece-nos um documento particularmente importante do ponto de vista autobiográfico. Por estes dias em que Telmo está prestes a mudar decisivamente o rumo da sua vida --  em Outubro desse ano conhecerá Maria Antónia na Escola Preparatória de Estremoz e em Fevereiro do ano seguinte encontra-se já em Brasília, com Eudoro e Agostinho, tudo conforme a previsão rigorosa de Hórus --, o filósofo esclarece cabalmente a relação de pertença à camonina Piscosa, elogia, de alguma sorte, o dinamismo sedutor de uma Sesimbra vivendo então a Idade de Ouro turística, revisita as amizades de sua juvenil convivência, num universo povoado de sortilégios e mistérios, e exalta o belvedere deslumbrante da Serra da Achada que, décadas depois, lhe há-de motivar a quadra singela, mas profunda, do pórtico aposto às Congeminações de um Neopitagórico -- poético testemunho arrábido que ora garante o assomo da memória télmica na iminente reedição, pelo Centro de Estudos Bocageanos, da antologia A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, organizada por António Mateus Vilhena e Daniel Pires, com apresentação aprazada para a Biblioteca Municipal de Sesimbra no próximo dia 22 de Março, pelas 15:00.

 

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Sesimbra[1]

 

 

Há vinte anos que vivemos nesta vila com oito séculos de existência!

 

Em vinte anos deve ter sofrido mais modificações do que em oito séculos! É fantástico!

 

Poder-se-á dizer que só o castelo permanece tal como então, inexpugnável. Naquelas pedras está toda a história de Sesimbra.

 

Há também o mar. O mar e o castelo põem frente a frente o homem e a natureza.

 

Nestes vinte anos, surge o Espadarte, o Náutico, o Hotel do Mar.

 

Nós éramos rapazes e íamos até às sombras da Califórnia: eu, o António e o Francisco Reis Marques, o Jaime e o Rafael, o José Preto e o Gilberto, tão parecido com o Rudolfo Steiner. Conversámos de duendes e de bruxas. O mar era o som fundo das nossas vozes. Havia em tudo aquilo a antiguidade do homem e da natureza.

 

Hoje, porém, os fantasmas foram exorcizados pela luz fria dos edifícios novos. É outro mundo, com belas raparigas estendidas ao sol. Os cabelos claros das estrangeiras afastaram as sombras. Por trás de tudo está a figura imensa de D. Afonso Henriques, o Conquistador!

 

O que é que está na nossa frente?

 

Falarei daquela nova estrada, ainda imperfeita, que começando numa rua de Santana, atravessa a Serra da Achada, onde já houve perdizes, e vai entrar na vila pelo lado da Califórnia, ali onde está o Bairro dos Pescadores. Porque eu creio que o mais importante para qualquer progresso, material ou espiritual, são as estradas. Depois virão as casas, as pousadas e os hotéis. E esta, a que atravessa aquela Serra onde ainda há caçadores, é muito mais bela do que a actual. Só lhe falta a largura e o piso necessários por onde deslizarão, sem ruído, os carros dos visitantes. Hoje, porque ainda é estreita e de mau piso, deslizam por lá, sem ruído, os carros dos namorados.

 

Sesimbra tem de ser uma vila progressiva porque está ao pé do mar. E o mar, com o seu mistério solene, incita ao sonho.

 

Do alto do Castelo, os grandes antepassados mergulham nele a vista.

 

Invoquemo-los, na hora que passa!

 

António Telmo

 

[1] O Sesimbrense, ano 39, n.º 420, Sesimbra, 21 de Fevereiro de 1965, p. 3.

 

CORRESPONDÊNCIA. 03

22-01-2014 11:39

CORRESPONDÊNCIA DE REBELO GONÇALVES PARA ANTÓNIO TELMO. 03

 

P. S. – No caso de vir a Lisboa em Junho ou Julho, agradecia-lhe o favor de me prevenir com alguma antecedência, a fim de combinarmos bem o dia, a hora e o local de encontro.
 
                                               Mafra, 18-V-1963
 
                                        Meu caro Vitorino:
 
            De todo o coração agradeço a sua nova carta, assim como o amável empréstimo da revista «Organon». Muito interessante o trabalho do nosso amigo Eudoro de Sousa: traz a marca da lucidez e da segurança, uma e outra bem características do autor.
            Tem-me à sua inteira disposição para, com todo o gosto, me ocupar da sua dissertação de licenciatura. Pelo que toca, porém, à indicação de um tema, parecia-me conveniente conversarmos: uma troca directa de impressões sempre será preferível à comunicação epistolar.
            Não poderia o meu caro Vitorino, uma vez liberto das suas obrigações docentes deste ano lectivo, aproveitar uma vinda a Lisboa para conversarmos sobre o assunto? Na mesma altura, falaríamos a respeito da assinatura da “Euphrosyne”.
            A Maria Isabel de novo se lhe recomenda.
            Com os melhores votos de bem-estar, reexprimo-lhe a minha firme amizade e a minha afectuosa admiração, e peço-lhe aceite um abraço do
                                                                                  Seu velho e dedicado amigo
                                                                                  Rebelo Gonçalves. 
 


[em papel timbrado da revista EVPROSYNE
Revista Luso-Brasileira de Filologia Clássica
Director
Professor Rebelo Gonçalves
*
Pinheiro – Mafra
PORTUGAL]

INÉDITOS. 01

18-01-2014 16:35

Seja qual for o ponto de vista em que se coloque -- o teorético, o biográfico ou o histórico --, o leitor deste extraordinário escrito inédito de António Telmo não deixará de se dar conta de que está perante um texto da maior importância. Saída do espólio do autor de Arte Poética, a carta dirigida, mas nunca enviada, ao irmão do seu signatário -- o filósofo Orlando Vitorino --, cujo objecto incide em boa parte sobre a história da tradição judaica, surge agora comentada pela voz autorizada de António Carlos Carvalho, e inaugura uma das linhas de força do projecto António Telmo. Vida e Obra: a publicação de inéditos ou dispersos télmicos nunca antes reunidos em livro, adrede acompanhada daquele módico de estudo que a sua apresentação ao leitor requer. Pelo meio, damos a conhecer o escrito de Orlando que motivou a missiva.

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Ao Orlando Vitorino sobre “O Processo das Presidenciais 86”

António Telmo

 

Recebi a tua Epystola ad Parvos, à qual quiseste dar a forma de novela (no sentido que Álvaro Ribeiro dá à palavra na Razão Animada), li-a encantado de uma ponta a outra, (o episódio de Borba, por exemplo, é uma obra prima do género literário) (…). A apresentação tipográfica (papel, formato, capa, etc.) é uma maravilha condizente.

 

Um dos valores da tua inteligência sem par é o sentido das relações imediatas, preconizado por Leibniz, o sentido da evidência da verdade. A verdade é, em si, o que é evidente; basta olhar, mas os homens não seguem o caminho mais breve entre dois pontos reais e, cegos para si e para Deus, procuram no futuro ou no passado, no oculto e no remoto, o que é necessariamente presente aqui e agora, porque a verdade do espírito não se pode conceber senão como acto puro invencível, que elimina eternamente a distância e todo o intervalo. E é por isso que a fenomenologia do mal só pode constituir uma ilusão teatral ou uma novela ridiculamente diabólica, cujos efeitos nefastos se desfazem mostrando: basta tirar umas tábuas, deixar correr o espectáculo com o ceno à vista e, terminado quando, com o vermos, o quisermos terminado, voltar a pôr os “bonecos” na caixa onde se guardam as coisas inúteis.

 

[VARIANTE A:] Infelizmente não pude fruir um prazer intelectual análogo, ao ler o capítulo sobre “Os Camitas” (p. 33). Quando passei a idade dos 14 anos, que é, segundo os talmudistas, a idade em que é permitido ao rapaz ler e estudar o Pentateuco, tive-te como meu primeiro mestre. Depois seguiu-se o Eudoro de Sousa, o José Marinho, o Álvaro Ribeiro, o Agostinho da Silva e o Max Hölzer, que me prepararam, passando como quem não quer, para conhecer o único e verdadeiro mestre, de cujo nome o meu, teu Pai, pôs o remoto sinal etimológico ao baptizar-me de Telmo e até os que gostam de utilizar um diminutivo serviram, sem saber, a mesma ideia. Recordo nitidamente preceitos e ensinamentos dessa época distante, em Arruda dos Vinhos, quando o Anjo do Bem passou a assistir-me ao meu lado direito. Um deles era, e é, o seguinte: “Nunca devemos combater uma doutrina apresentando-a na sua forma degradada”. Efectivamente, o espíri- (…)[1]

 

[VARIANTE B:] De todo o livro, aquilo que mais directamente me interessou foi o capítulo sobre “Os Camitas”, porque também eu pertenço ao número dos ocultistas, nascidos do “desprezo para com os activistas políticos e da agressividade para com a vazia cultura oficial”. E aqui também gostei de concordar com o repúdio do guénonismo, embora esse repúdio, pela minha parte, seja por razões contrárias às tuas, porque assenta no facto de ele representar uma corrente adversa ao ocultismo, no qual René Guénon via, como viu no bergsonismo, na filosofia alemã e em Goethe e não só na ciência ocidental, um fenómeno de origem diabólica, para o que muito contribuiu certamente a sua educação familiar católica, decisiva na posição polémica que tomou em relação à Maçonaria em que foi iniciado e que mereceu os aplausos calorosos dos eclesiásticos que, na época, dominavam a burguesia francesa. Os agrupamentos que se formam à volta de René Guénon não são mais do que a manifestação desviada de um catolicismo subconsciente que tem vergonha de se mostrar tal qual é a si próprio.

 

O ocultismo ou o que correctamente se pode entender por esta palavra recentemente criada é o domínio das Ciências Ocultas. O estudo e a prática da magia invocatória aparece, no Fausto, antes do pacto com o diabo. Aquele que Deus, no Prólogo, considera o seu primeiro servidor, “que O procura ardentemente na obscuridade e quer, em breve, conduzir para a luz” só depois, pelo pacto com o diabo, arrisca a sua alma. O espírito do mal é o espírito que nega, mas é também ele quem restitui ao velho sábio a juventude perdida, lhe dá o amor das mulheres e o poder político junto do Imperador; o que o salva é o conhecimento, que soube manter e aumentar através das vicissitudes do mal. Se o pacto pode ser interpretado só como simbólico, parece querer-nos dizer Goethe que os homens superiores têm todos uma inquietante e misteriosa ligação com o espírito do mal, mais ou menos consciente, consoante o grau. Ela é bem evidente em Leonardo Coimbra e em Teixeira de Pascoais, descarada em Fernando Pessoa, profundamente reflectida em Álvaro Ribeiro e Sampaio Bruno, constantemente poetizada em José Régio, dramática em José Marinho. Sem luciferismo não há arte, de filosofar ou outra, mas o estudo das Ciências Ocultas faz-se sob a inspiração do Espírito Santo. Pelo menos, se mais não tivéssemos, bastar-nos-ia para o saber “A Tempestade” de Shakespeare. Compreende-se assim que Álvaro Ribeiro tenha escrito nos últimos anos de vida que só as Ciências Ocultas são capazes de nos descobrir a verdade. (Prefácio ao livro de Conceição Silva sobre “O Mistério dos Painéis”).

 

De facto, como tu dizes, carecemos de uma interpretação de Pascoais e de Leonardo Coimbra, em que o pensamento destes dois homens surja como a finalidade que “o ocultismo procura” e que tu defines, para o primeiro, como uma sabedoria, criada “desde a origem e para além da erudição, em símbolos poéticos com vivida experiência e conceptualizada intuição”.

 

Quando pões nesta sabedoria a razão do patriotismo, cuja exigência os ocultistas recebem imediatamente de Fernando Pessoa, como foi talvez o meu caso na História Secreta, e estabeleces como condição de aprofundamento, mais real, desse patriotismo o pensar Pascoais e Leonardo, evocas O Encoberto de Sampaio Bruno e, em meu entender, com perfeita razão, porque O Encoberto é, como se vê no final de A Ideia de Deus, o Messias dos cristãos novos, Senhor das Ciências deste e do outro mundo.

 

Custa-me dizer-to, (“Irmão de Orlando, mas mais irmão dos que sabem”), mas a tua interpretação de O Encoberto é incompleta e não tão correcta quanto pretende ser. Nunca Sampaio Bruno poderia ter identificado judeus e camitas. “Os judeus, – escreves – dividiram-se em semitas, ou descendentes de Sem, e camitas, ou descendentes de Cam, o filho que não honrou seu Pai”; Sem e Cam, com Japhet, são filhos de Noé e só muito tempo depois aparece Abraão, que vem do outro lado do rio, e dá origem, por isso mesmo, aos hebreus; Abraão é da linhagem de Sem e é a razão por que os seus descendentes são semitas; Israel é o nome que Deus pôs a Jacob; a designação de judeus julgo provir do nome da principal tribo israelita, a tribo de Judá. Os filhos de Noé são relativos aos vários ramos em que se dividiu a humanidade. Os semitas, que honravam Pai e Mãe seguindo o preceito de Moisés eram odiados pelos povos descendentes de Cam que não honrou seu Pai. A não correcção é importante, não por ser incorrecção, mas porque desvia a exacta interpretação do Encoberto que tem de procurar-se precisamente na oposição dos camitas aos semitas (estes, judeus e árabes); com Abraão acabaram os sacrifícios humanos, já que Isaac foi substituído por um animal, com Cristo, que representa Caim e não Abel, os sacrifícios animais foram substituídos pelas espécies vegetais do pão e do vinho. A Inquisição, filha de um catolicismo africano (palavras de Bruno), repõe, em nome de Cristo, os sacrifícios humanos. Os Reis e os Sacerdotes assistiam jubilosos ao suplício das vítimas por entre os apupos de gozo dos camitas. Os Jesuítas, ainda segundo Sampaio Bruno, combateram a Inquisição porque a Companhia se tinha organizado a partir dum grupo de conversos, possivelmente, não o diz Bruno, de conversos árabes, se a semelhança entre os exercícios espirituais de Santo Inácio e os exercícios espirituais sufis é, como mostra o jesuíta espanhol Asín Palacios, um facto inegável. Em Portugal, predomina o cristão-novo de origem judaica e em Espanha o cristão-novo de origem islâmica. Em Álvaro Ribeiro a filosofia portuguesa tem como missão realizar a síntese católica das três tradições.

 

São direcções que ficaram por explorar na tua interpretação e por isso a disse incompleta. Não é, porém, um pequeno capítulo que vem diminuir o valor do teu livro. O seu êxito também não sofrerá com isso. Em Portugal, entre as pessoas que escrevem, só eu e tu sabemos um pouco melhor do que os outros “a única coisa que importa”. Oxalá outros apareçam melhores do que nós e eu não posso deixar de admirar a inteligência que, através dos teus escritos políticos, abre caminho à consciencialização da nossa mediocridade geral e à exigência de filosofar como convém.

 

Do teu irmão           

António Telmo

 

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Os Camitas[2]

Orlando Vitorino

 

 

Na segunda conferência da noite, limitei-me a chamar a atenção para a exigência de uma correcta leitura da interpretação que Sampaio Bruno, em O ENCOBERTO, faz, não tanto do sebastianismo, como da decadência histórica dos Portugueses.

 

Há hoje entre nós numerosos ocultistas, fenómeno que, além de extensivo a diversos povos europeus, é o equivalente intelectual do revivescer da religiosidade por desprezo para com os activistas políticos e por agressividade para com a vazia cultura oficial. Esses ocultistas de origem e expressão intelectual chegam a organizar-se em agrupamentos “tradicionais”, como os de simbologia “templária”, realizam cerimónias e simpósios internacionais a que dão, paradoxalmente, a mais desocultante publicidade e ocupam, ainda mais paradoxalmente, cátedras universitárias. A sua via de iniciação mais frequente é a obra do francês René Guénon, obra de leitura muito fácil e sugestiva, sobretudo para adolescentes. Constitui ela um constante e azedo, embora fundamentado e justificável, requisitório contra a civilização ocidental, que reduz ao que resultou da ciência moderna, considerando-a uma profanação desvirtualizadora mas substituindo-lhe um sistema de rememorações orientalistas que desenvolve em círculos viciosos de semelhanças, sincretismos e identidades simbólicas. Os iniciados são, deste modo, levados a afastar, das imagens e dos símbolos, os conceitos e as noções, ou seja, a filosofia e o pensamento. Ficam a braços com símbolos vazios e imagens sem legenda. Ficam ignorando que a única iniciação intelectual na verdade que a religião guarda ou de que dá imagem e símbolo, é a filosofia, e disso temos o mais eloquente exemplo na biografia espiritual de Leonardo Coimbra da qual Santana Dionísio acaba de publicar o admirável e indispensável guia.

    

O inspirador sempre presente e exaltado dos nossos ocultistas é Fernando Pessoa. O ocultismo de Fernando Pessoa é de carácter erudito ou, como ele próprio dizia da erudição, parasitário, mas revela-se com originalidade na poetização de uma imagética para a história de Portugal. O que o ocultismo procura como sua finalidade é o que, não Pessoa (e ele bem o sabia e disse), mas Pascoaes, criou desde a origem e para além da erudição, em símbolos poéticos com vivida experiência e conceptualizada intuição. Os nossos ocultistas preferem, porém, o poeta-artista (para empregar uma distinção de Régio), que vai da imagem para o conceito, ao poeta-pensador, que vai do conceito para a imagem. E porque ao poeta-artista muitas vezes acontece ficar pelo caminho, se dispensam eles de seguir o caminho até ao fim.

 

Esta nebulosa de ocultistas poderá evanescer-se. Mas entretanto afirmou uma exigência de patriotismo que recebeu imediatamente de Pessoa, procurando agora transitar dele a Sampaio Bruno. Enquanto não ascender a Pascoaes e, de Pascoaes, a Leonardo, carece de uma correcta interpretação do autor de O ENCOBERTO, que começou já a ser preparada no 1.º volume do livro de António Quadros, PORTUGAL, RAZÃO E MISTÉRIO.

 

Sampaio Bruno não é um sebastianista, como muitos entendem. Pelo contrário: o sebastianismo afigura-se a Bruno uma expressão degradada de um messianismo universal. E o que, no seu livro, constitui o primordial elemento para a interpretação ou a filosofia da história de Portugal é, primeiro, o predomínio dos judeus que se instalaram tão profundamente entre nós que neles estão nossas raízes espirituais e étnicas; é, depois, o conflito entre camitas e semitas que dilacera a diáspora hebraica e se manifesta, explicando-a, na lenta, mas funda decadência dos Portugueses, desde o Séc. XVI até nossos dias. Dessa decadência, vê Sampaio Bruno que o segredo se encontra nas razões e fins que teve a Inquisição, estabelecida entre nós quase ao mesmo tempo em que se deu a enigmática expulsão dos judeus e o aparecimento do sebastianismo. Para aquém dos Autos-de-Fé e do Santo Ofício, para aquém da sua abolição, muito para aquém, a Inquisição ficou-nos no sangue. Há, em cada Português, um inquisidor, um inquiridor, um juiz. A nossa inteligência imediata é judicativa e nossa acção procede por juízos. A filosofia portuguesa, da qual Bruno foi o precursor senão, como entendia Álvaro Ribeiro, o fundador, é, porém, o contrário e o remédio dessa idiossincrasia degradante. Demonstra-nos e descreve-nos Santana Dionísio como Leonardo Coimbra opunha à inteligência judicativa a razão compreensiva e a bondade. José Marinho dava, a um dos seus primeiros ensaios, o título de NÃO JULGARÁS, ao mesmo tempo que denunciava o vício judicativo dos orientadores da “cultura oficial”, como António Sérgio. E Álvaro Ribeiro negava, em termos sistemáticos, o valor lógico do juízo.

 

Como, porém, identificar Inquisição e Judaísmo? Não foram eles, precisamente, irredutíveis opostos e inimigos? É o que Bruno explica. Segundo ele, certos sectores da Coroa, ou do Estado, como da mesma Igreja, contrariaram, primeiro, o estabelecimento da Inquisição; depois, os Reis e a Igreja chegaram a decidir pôr-lhe fim. Quem os impediu foi o povo. Bruno determina melhor: foi o povo de Lisboa e do sul do país. Autos-de-Fé, houve-os em Lisboa, mal chegaram a Coimbra e, ao avançarem sobre o Porto, depararam com a repugnância, a indignação e a oposição invencível das populações que assim impediram a sua realização, ao contrário do que acontecia na capital onde eram espectáculos jubilosos para os populares. Como entender? Diz-nos Bruno que assim:

 

Os judeus dividiram-se em semitas, ou descendentes de Sem, e camitas, ou descendentes de Cam, o filho que não honrou seu Pai. Um ódio sem tréguas os divide. Os camitas expandiram-se pela África do Norte e um ramo deles instalou-se na metade sul de Portugal. Foram eles que sustentaram, contra Deus, contra a Coroa e contra a Igreja, os Autos-de-Fé em que eram queimados, não os judeus indiscriminadamente, mas os semitas.

 

Esta distinção entre semitas e camitas é, digamos, viva e presente, nos países africanos. A população dominante na Argélia socialista de hoje, reconhece-se, afirma-se e orgulha-se como camita. Na África Central, no Congo por exemplo, singularizam-se as tribos negras cruzadas de camitas, como aquela a que pertencia Lumumba que, nos anos 60, abriu as portas ao socialismo russo. Depois dos Autos-de-Fé, depois dessa obsessão de julgar e inquirir, ou “levantar inquéritos” a tudo e a nada, os camitas do velho republicano, democrata e sábio que foi Sampaio Bruno, recorrem agora ao socialismo?

 

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Comentário

António Carlos Carvalho

 

Três considerações prévias:

  1. O movimento da Filosofia Portuguesa, precisamente porque é movimento em vez de sistema, não prescreve nenhum pensamento único, antes pelo contrário, defende e cultiva o pensamento livre de homens livres e a diversidade de pontos de vista sobre a Humanidade e os mistérios da Criação;
  2. A Bíblia continua a ser um volume encadernado que convém que figure nas prateleiras bem à vista mas que geralmente não é lido e, quando o é – fenómeno raro --, geralmente é mal entendido, sobretudo porque essa leitura, numa tradução duvidosa, não é, como deveria ser, acompanhada pelos comentários (a tradição oral depois compilada no Talmude, aliás queimado às carroças cheias, durante séculos, nas praças europeias, incluindo algumas portuguesas);
  3. Precisamente de acordo com os comentários, mas contemporâneos, do sábio Léon Askenazi, a mesma Bíblia pode ser entendida como uma recorrente insistência sobre a necessária construção da irmandade ou fraternidade, tomando como exemplos as histórias de Caim e Abel, de Sem, Jafet e Cam, de Abraham e Loth, de Isaac e Ismael, de Jacob e Esaú, de José e dos seus irmãos, de Moisés, Aaron e Miriam.

 

Vem a propósito recordar tudo isto quando lemos agora esta carta escrita por António Telmo, mas não enviada, para Orlando Vitorino. Dois irmãos, dois filósofos, cada um com a sua visão própria, neste caso, do sentido profundo da História de Portugal vista à luz de um dos relatos bíblicos que envolve justamente dois irmãos, Sem e Cam (e também um terceiro, Jafet, embora não aqui referido) e os seus descendentes. Orlando Vitorino recorrera a «O Encoberto», de Sampaio Bruno, para afirmar, numa sua obra, que os judeus dividiram-se em semitas e camitas, «conflito entre camitas e semitas que dilacera a diáspora hebraica e se manifesta, explicando-a, na lenta mas funda decadência dos portugueses.»

 

António Telmo, na sua carta-resposta (variante A) começa por elogiar o irmão, lembrando, significativamente, que aos 14 anos -- a idade em que, segundo os talmudistas, é permitido ler e estudar o Pentateuco --, o tivera como primeiro mestre, e depois (variante B) afirma que também ele, Telmo, pertence ao número dos ocultistas, desprezados pelo irmão no seu texto; o estudo das Ciências Ocultas, sublinha, faz-se sob a inspiração do Espírito Santo, e elas são, segundo Álvaro Ribeiro, capazes de nos descobrir a verdade; e mais: «o ocultismo procura a sabedoria, razão do patriotismo, cuja exigência os ocultistas receberam imediatamente de Fernando Pessoa, como foi talvez o meu caso na História Secreta». E acrescenta: «O Encoberto é, como se vê no final de A Ideia de Deus, o Messias dos cristãos-novos, Senhor das Ciências deste e do outro mundo».

 

E tal como na tradição judaica o filho deve respeitar o Pai mas mais ainda o sábio, Telmo, «irmão de Orlando, mas mais irmão dos que sabem», fiel a esse princípio, vê-se obrigado a dizer ao irmão que a sua interpretação de O Encoberto é «incompleta e não tão correcta quanto pretende ser» -- de facto, «nunca Bruno poderia ter identificado judeus e camitas». (E realmente não o faz: leia-se o que Bruno realmente escreveu nas páginas 159 a 161 da reedição de 1999 da Lello – e, já agora, esqueçamos o infeliz prefácio dessa mesma reedição). Sem, Cam e Jafet são filhos de Noé; só muito depois (dez gerações mais tarde) surge Abraham, «que vem do outro lado do rio e que dá origem por isso mesmo aos hebreus»; os semitas constituem a linhagem de Sem; a designação «judeus» vem da tribo de Judá; os camitas vêm de Cam, aquele que não honrou o seu Pai; há portanto uma oposição entre camitas e semitas, na exacta interpretação de O Encoberto; e que, se Abraham acabou com os sacrifícios humanos, a Inquição repôs esses sacrifícios, para gozo dos camitas. E tendo reposto a verdade dos textos, Telmo elogia novamente o irmão. E, tal como Jacob-Israel e Esaú, Telmo e Orlando seguiram depois os seus respectivos caminhos diferentes.

 

Pelo seu tom desassombrado, esta carta incita-me a levar mais longe o comentário. Recordemos o contexto da história de Sem e de Cam – e de Jafet, os três filhos de Noé.

 

Depois do Dilúvio, uma nova humanidade recomeça o seu caminho através destas três figuras: Sem (Shem), o «Nome»; Cam (Ham), o «quente»; e Jafet (a Beleza, o antepassado dos Gregos). Noé planta uma vinha, faz vinho, embriaga-se e expõe a sua nudez; Cam vê a nudez do Pai e incita os irmãos a partilhar dessa visão profanadora (algumas interpretações do texto bíblico vão ao ponto de sugerir que Cam castrou o Pai... porque desejava ser ele próprio o pai, o princípio de uma identidade nova, Canaã); no entanto, Sem e Jafet cobrem a nudez paterna com um manto simbólico; Cam viola uma das sete leis noaquitas (anunciadoras dos futuros Dez Mandamentos (Palavras) do Sinai), a que proíbe a mutilação de um ser vivo; de qualquer modo, lembra Raphael Draï, o exibicionismo etílico do pai e o voyeurismo castrador do filho representam uma regressão, uma reconstituição da humanidade anterior ao Dilúvio, um desafio feito a Deus e à sua Aliança (simbolizada pelo arco-íris). Cabe então ao Nome (Sem) e à Beleza (Jafet) repararem o mal feito: cobrindo com o manto do símbolo a nudez do Pai, afirmam já aqui o elemento novo que será depois proclamado no Sinai: Honra, isto é, «veste» o teu pai e a tua mãe para que os teus dias se prolonguem. Este é o quinto mandamento, curiosamente figurando na lista dos cinco mandamentos referentes a Deus, na primeira das Tábuas.

 

Refira-se ainda que uma tradução mais cuidadosa do texto desta narrativa mostra-nos  que Noé, ao acordar do seu torpor alcoolizado e apercebendo-se do que Cam lhe fez, proclama: «Isolado seja Canaã, escravo do escravo, será devolvido aos seus irmãos» (não se trata propriamente de uma «maldição» lançada sobre o filho de Cam, mas antes de uma ausência de bênção, da bênção dada por Noé a Sem, «Bendito seja o Eterno, Deus de Shem»; Canaã deverá ser servidor dos seus irmãos para que estes, os descendentes de Sem e Jafet, o ajudem a encontrar a humanidade plena perdida). Em vez de «raças» (que é coisa de cães e de cavalos, mas não de gente), devemos antes ver nestas três personagens, Sem, Cam e Jafet, a figuração de três linhagens espirituais, presentes ainda hoje, mesmo entre nós. Quantos camitas há por aí cheios de si mesmos, alheios à herança paterna (da pátria) e vivendo apenas de acordo com os seus impulsos espontâneos, julgando que tudo lhes é devido e que podem viver alheios à presença do Nome e da Beleza (outro dos nomes divinos)?

 

E quando Noé acrescenta «E habite Jafet nas tendas de Sem», fica formulada a esperança de que Jafet, ou seja, os Gregos, venham a habitar as tendas em que a Presença divina se manifesta. Efectivamente, de que serve a Beleza sem o Nome? O que é a Filosofia se não for portadora de uma herança profética? Convém ter sempre presente o que aconteceu no século VI anterior à nossa era comum: terminado o ciclo da profecia em Israel, começou o ciclo da filosofia na Grécia. Como se fosse uma passagem de testemunho para um novo ciclo da História. E se nós somos filhos de Atenas e de Roma, também o somos de Jerusalém. Temos três raízes, para a coisa ser perfeita, e não apenas duas.

 

Por outro lado, sabendo nós que os poetas herdaram o espírito profético, então a Filosofia Portuguesa, enquanto arte poética, tem o dever de buscar essa raiz e escutar a sua voz inspirada – e nesse sentido, por muito que isso custe ou cause incómodo a alguns, devemos mais a Jerusalém do que a Atenas ou a Roma. Por isso Álvaro Ribeiro e António Telmo falavam do nosso subconsciente hebraico...

 


[1] Nota do editor: Aparentemente, e ressalvando a possibilidade de extravio de alguma folha do conjunto dactilografado, António Telmo interrompeu aqui, no final da primeira folha A4 do dactiloscrito, o desenvolvimento de ideias que o referido capítulo sobre “Os Camitas” do livro de Orlando Vitorino lhe suscitava, para iniciar uma nova reflexão sobre o mesmo capítulo na folha seguinte.

[2] In Orlando Vitorino, O Processo das Presidenciais 86, Lisboa, 1986, pp. 33-34.

 

VOZ PASSIVA. 11

17-01-2014 11:34

De António Carlos Carvalho, membro do projecto António Telmo. Vida e Obra de quem, já na próxima semana, vamos publicar o comentário ao inédito télmico sobre O Processo das Presidenciais de 86, de Orlando Vitorino, publicamos hoje o texto da comunicação que apresentou ao Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo", promovido em 14 e 15 de Fevereiro de 2011 em Lisboa pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira.

 

____________

 

Os nomes de António Telmo

António Carlos Carvalho

 

António Telmo tratava sempre cada um de nós pelo nome completo, nome próprio e apelido -- não dizia «Você» ou «Tu».

 

Lembro-me que essa foi uma das coisas que mais me surpreendeu nele, esse sublinhar do nome num tempo em que a importância é dada aos números que todos nós temos, que nos são atribuídos e é por eles que nos identificam, e não pelo nome que recebemos ao nascermos -- tal é o absurdo --, esse nome que nos deram e que se cola a nós ao ponto de a ele respondermos, de reconhecermos o seu poder de apelo.

 

«Habitamos um nome, como habitamos uma casa.»

 

António Telmo ensinou-nos que existe «uma íntima relação entre o nome de uma pessoa e o que ela viveu ou pensou» («Congeminações de um Neo-Pitagórico»).

 

«Os nomes actuam sobre a alma e até sobre o pensamento dos homens que os recebem ao nascer e de acordo com o rito.»

 

António Telmo aprendeu essa importância do nome com o mestre Álvaro Ribeiro, logo no seu segundo encontro. Álvaro Ribeiro disse-lhe então: «Lembre-se sempre de que António Telmo há só um», «é preciso conhecer o ser que tem o seu nome e não outro» (in «Teoremas de Filosofia», 12).

 

Muito mais tarde, evocando o mestre, António Telmo escreveu: «Se soubermos estar atentos aos nomes daqueles que Leonardo Coimbra designou como “a monstruosa variedade dos contemplativos” e que nós diremos “prodigiosa”, o nome de Álvaro Ribeiro aparecer-nos-á bem significativo. Álvaro foi na verdade o mestre do alvoroço.» («Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa»)

 

«O nome em princípio representa a essência sobrenatural do indivíduo.»

 

Ele próprio interrogou o significado do seu nome, como sabemos:

 

«António, Anthos Noû, a flor do intelecto, que é como quem diz, a sua parte suprema que atrai a influência do céu. Telmo, uma forma da palavra Hermes, de Thélêmos, vontade, desejo, aspiração.»

 

E nós, pelo nosso lado, poderíamos acrescentar, seguindo os seus ensinamentos de termos um olhar e um ouvido atentos à letra e ao som, que em António e Telmo nos parece repetida a letra T, a letra grega Tau e cruz de Santo André, o pai dos monges, o eremita do deserto; que no A de António encontramos o Alef e o Alfa, a estilização da cabeça do Touro, que era também o signo astrológico de António Telmo, esse signo que era o domicílio principal de Vénus/Afrodite, a deusa do Amor – e António Telmo, tal como Álvaro Ribeiro, muito escreveu sobre o Amor e a sua Verdade; que dizendo Telmo é impossível não pensar no famoso «Fogo de Santelmo», esse estranho penacho luminoso no cimo das vergas e mastros dos barcos ou uma chama à superfície das ondas.

 

E concluir que António Telmo foi também isso: um insólito sinal de luz e de fogo no meio desta tempestade em que vivemos.

 

Mas António Telmo não se contentou em investigar a essência do nome com que assinava: desdobrando-se «para se ensinar a si próprio», à maneira de Pessoa, e jogando kabbalísticamente com os anagramas à maneira de Samuel Usque e Teixeira Rego, criou um certo Thomé Nathaniel para com ele dialogar e depois explicou assim esses nomes:

 

«Eu tirei-o das letras do meu nome e pu-lo a ser como se fosse a essência da minha alma, o amigo um dia anunciado da minha essência. Thomé Nathaniel é anagrama de António Telmo mas possui virtudes que em mim são imperfeitas, como se patenteia pelos dois H que o constituem, dois sopros ou modos de vida espiritual unificados pelo divino El da última sílaba do nome.»

 

«Thomé Nathaniel é um dos discípulos actuais de Hermes, antiquário em Estremoz. As nossas relações pessoais tinham sido determinadas pelo mistério dos nomes. O seu nome é o anagrama do meu. Uma relação anagramática dos nomes, anagramática quer dizer, cujas letras se dirigiam conjuntamente para o alto.»

 

E nós podemos acrescentar que se Tomé ou Tomás foi um dos Doze, o Dídimo ou Gémeo, o incrédulo do «ver para crer» que depois teria ido pregar para a Índia, Natanael significa «Deus deu» ou «dom de Deus».

 

E, já agora -- o que António Telmo nunca referiu por pudor ou temor --, que EL, Deus, está escondido no nome de Telmo, um nome teóforo.

 

Ora toda esta questão dos nomes é, afinal de contas, como sabemos, uma questão tão velha como a da humanidade: no Génesis, a linguagem torna-se nomeação, conhecer é nomear, e isso é confiado ao Homem, o único ser que dá ele próprio um nome ao seu semelhante; é Adam (que não é um nome) que dá nome aos animais -- e aqui podemos especular se essa nomeação é simplesmente uma classificação zoológica, chamar gato ao gato, ou se será um verdadeiro nome dado a cada animal. (A verdade é que lá em casa cada um dos nossos vinte e um gatos tem nome próprio e reconhece-o como seu: reagem quando os chamamos. Não sei como mas é mesmo assim…)

 

Caim e Abel não recebem nomes, um é «adquirido» e o outro é «vão», «orvalho», «inconsistente», e é então o terceiro irmão, Seth, a primeira criança chamada «filho» na Bíblia, que recebe um nome, um «shem» («shem» vem de «sham», além, dimensão horizontal, aquela onde o olhar ascendente se une à linha de encontro entre terra e céus, «shamaim»), e Shem ou Sem, como também sabemos, é um dos filhos de Noé, daquele de quem todos nós somos descendentes, e que dista dez gerações de Seth. Noé, que indicou a Japhet, o antepassado dos Gregos, que devia residir «nas tendas de Shem», o antepassado dos Semitas.

 

Um bom conselho para a conciliação de Atenas com Jerusalém – como António Telmo procurou fazer nas suas obras.

 

António Telmo, tendo nascido no Reino da Quantidade, pertencia na verdade ao Reino da Identidade.

 

Deus chamava os seus profetas, Abraham ou Moisés, pelos nomes. E eles respondiam: «Hineni», «Eis-me aqui, aqui estou.»

 

O nome é um apelo, um chamamento, um convite à escuta, e não à visão, na solidão do deserto.

 

Neste outro deserto em que nos encontramos, de cada vez que António Telmo nos tratava pelo nome estava também a chamar-nos à responsabilidade do nome que carregamos como um peso ou como uma vocação.

 

A decisão é nossa.

 

Ele, António Telmo, cumpriu o seu papel.

 

 

VOZ PASSIVA. 10

15-01-2014 09:08

Mais um livro de António Telmo*

Rafael Monteiro, sob o pseudónimo de Frei Mínimo

 

 

António Telmo (dr. António Telmo Vitorino) acaba de publicar, na «Guimarães», de Lisboa, mais um trabalho de sua autoria: «Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões», obra sábia e polémica – como todas as deste autor, ao qual devemos, nós, portugueses, a já quasi clássica História Secreta de Portugal e a famosa Gramática Secreta da Língua Portuguesa – escrito inspirado que durante muitos anos irá merecer estudo atento a cabalistas e filólogos.

 

António Telmo sempre se afirmou discípulo de José Marinho e Álvaro Ribeiro, grandes filósofos portugueses que a morte há pouco tempo afastou do nosso convívio. Quando na Universidade de Brasília exerceu o Mestrado, António Telmo aprendeu e conviveu com outro grande mestre: Agostinho da Silva, agora felizmente entre nós. (A cada um destes três Mestres dedicou A. Telmo três dos seus livros, acto de reconhecimento pouco comum entre escritores). Destes homens invulgares foi discípulo dilecto e, do real mestrado que exerceram, o mais qualificado, o mais nobre.

 

*

 

Fiel ao pensamento de Sampaio Bruno, de Leonardo Coimbra e de Álvaro Ribeiro, António Telmo continua a tradição filosófica defendia por aqueles altos pensadores: filósofo e filólogo, talvez haja ultrapassado o conhecimento dos seus Mestres em alguns estádios do saber. Defendendo, e outros com ele, corresponder o esoterismo de hoje à teologia medieval, mercê da patente decadência das igrejas, António Telmo é alto expoente do pensamento religioso português.

 

O «Desembarque dos Maniqueus» ilumina surpreendentemente algumas das mais belas estâncias dos «Lusíadas», nosso Livro Sagrado. Camões surge-nos, embora oculto, liberto dos negros véus com que durante séculos procurara, escondê-lo – ora por razões de Estado, ora pela sem razão de uma Fé. Alguém já escreveu ter sido necessário esperar 400 anos por António Telmo para conhecer Camões!

 

O «Desembarque dos Maniqueus» é, presumimos, a primeira obra de interpretação gnóstica do nosso tempo; nela Camões surge-nos como um ser universal.

 

Neste trabalho o autor procurou estabelecer um paralelismo entre a imaginação de Camões e a de Zoroastro, e convida os homens a meditar, reflectir, para que, conhecendo-se, possam ascender aos mundos superiores.

 

Oxalá todos pudéssemos desembarcar na «Ilha» – dos Amores, ou outra, se é que todas não são «Ilhas de Amor»…

 

Ao autor, velho amigo desta terra, os nossos parabéns.

____________

* Publicado na edição de 30 de Abril de 1982 do mensário sesimbrense Raio de Luz.

 

CORRESPONDÊNCIA. 02

14-01-2014 10:52

CORRESPONDÊNCIA DE REBELO GONÇALVES PARA ANTÓNIO TELMO. 02

 

Mafra, 25 – II – 1963
 
Meu caro António Telmo:
           
            A sua estimada carta de 13 do corrente deve ter chegado à Faculdade em 14; mas só anteontem, sábado, chegou às minhas mãos. Descuido de um empregado que costuma ser cuidadoso, mas que não o foi desta vez, deixando esquecida numa gaveta vária correspondência endereçada ao meu nome nas últimas semanas.
            Como pode calcular, tive grande satisfação com a leitura da sua carta. O meu bom Amigo sabe muitíssimo bem quanto o aprecio pelos seus méritos intelectuais e quanto o estimo pelas suas nobres qualidades de carácter. E não ignora também, porque por várias vezes o tenho dito a amigos comuns, que conservo gratíssimas recordações da nossa afectuosa convivência na velha Faculdade da Rua do Arco (a Jesus).
            O que me conta do tal director desgostou-me, mas não me surpreendeu. Javardos desses são em número avultado na nossa terra e, quando menos nos precavemos, surpreendem-nos com festinhas das suas mimosas patas… Ainda há dias soube o que isso é, embora os meus cinquenta e cinco outonos me dessem alguma esperança de estar livre de tais bestiagas.
            Muito estimei saber que está agora disposto a dar as últimas arrancadas para a conclusão do seu curso. E pode, como é óbvio, contar comigo para tudo o que esteja ao meu alcance. Logo após a reabertura das aulas, comunicarei com os professores de Hist. de Port. I e de Pré-História. Depois, quando for oportuno, comunicarei com o de Hist. da Civil. Grega.
            Li e muito gostei (digo-o sem sombra de intenção lisonjeadora) do seu artigo sobre «Como Traduzir Henri Bergson». Aguardarei, pois, com todo o interesse, o prometido livro sobre a «Arte Poética» do mesmo filósofo francês. Entretanto, vou-lhe dizendo que quem é capaz desses cometimentos não terá dificuldade em preparar uma dissertação de licenciatura no campo da literatura grega ou no da latina.
            Do nosso amigo Eudoro de Sousa há muitos anos que não tenho notícias. Depois da promessa, nunca cumprida, de um artigo para a minha Euphrosyne (revista de filologia clássica de que estou já  preparando o 4.º volume), parou a correspondência entre nós. Suponho, no entanto, que ele esteja ainda, como professor contratado de Língua e Literatura Grega, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Florianópolis (Santa Catarina).
            A Maria Isabel, que recorda sempre com muita consideração o seu antigo e lealíssimo condiscípulo António Telmo de Carvalho Vitorino, está agora na Biblioteca da Reitoria da Universidade, cuja organização lhe coube. Saiu da Torre do Tombo para lá. Nunca esteve, porém, em Coimbra (senão a tirar o curso de bibliotecário).
            Já me ia esquecendo de lhe enviar felicitações pelo seu casamento. Aceite-as com a amizade de sempre, acompanhadas de cordialíssimos votos pela constante ventura do casal e dos herdeiros (?).
            Cumprimentos e lembranças da Maria Isabel e um afectuoso abraço do
 
                                                                                              Seu velho amigo, muito
                                                                                              admirador, dedicado e grato,          
    
                                                                                              Rebelo Gonçalves. 
 

POEMAS. 02

13-01-2014 11:31
 
Ao Senhor dos Mundos

 

Senhor Deus da Luz, seja concedido

Que num ponto concentre o sol difuso 

Neste meu ser inquieto e dividido 

Onde, se olho, é só treva e caos confuso. 

Toda essa luz esparsa o mago fuso 

Do pensamento a busca, em si perdido, 

E o fio de oiro ao acaso recolhido 

Quebra-se contra o ser opaco e ocluso. 

Concentre-se a luz num ponto! Dá-me a lente 

Com que punha, em criança, a arder a palha 

E fazia um incêndio grande e ardente! 

Dá-me o poder da Fé, puro e sem falha! 

De uma fé que se move e pensa e sente 

E ouve dizer baixinho: “Deus nos valha!”

 

António Telmo

«OS MEUS PREFÁCIOS». 01

12-01-2014 11:03

Mais do que um desejo, foi um desígnio de António Telmo: o filósofo intentou criar, intitulando-a, isto é: nomeando-a, uma recolha dos seus escritos prefaciais ou posfaciais, conforme alguns dos amigos puderam testemunhar, numa conversa havida no seu escritório, em Estremoz, num dos últimos anos da sua vida. Ciente das reponsabilidades que assumiu, mormente no âmbito da edição das Obras Completas de António Telmo, a que irá assegurar o apoio científico, o projecto António Telmo. Vida e Obra inicia hoje a acção que conduza à concretização daquele desígnio do seu patrono.

 

DUAS CARTAS-PREFÁCIO A O VELHO DA MONTANHA, DE PEDRO SINDE[1]

[António Telmo com Pedro Sinde, em 24 de Novembro de 2007, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, na sessão de lançamento de Contos Secretos (Tartaruga, 2007), da autoria do primeiro. Esta sessão antecedeu a realização do colóquio A Filosofia Portuguesa Hoje, com que se encerrou o ciclo No Signo do 7 – 150 anos de Filosofia Portuguesa. O fotógrafo foi João Augusto Aldeia.]

____________

 

Estremoz

9 de Junho de 1998

 

Meu Caro Pedro

 

            Recebi o seu livro que muito agradeço e a sua carta. Fiz uma primeira leitura. Quando nos encontrarmos de novo aqui em Estremoz e em Julho já terei feito as três leituras que nunca deixo de fazer dos livros que me ensinam.

            Vejo agora que foi bom não ter respondido à sua primeira carta que li 3 x 3. Vejo que foi bom porque o longo silêncio entre os dois criou, como provam as notícias do “outro mundo” que me chegaram de si hoje, um mais alto lugar para o diálogo que lembra na sua dedicatória.

            Ontem, pus sobre a minha mesa de “bateleur” essa sua primeira carta, na intenção de lhe escrever hoje. Hoje, recebi o seu livro e uma nova carta.

            A generalidade dos livros sobre os poetas são apenas uma “coisa mental” que nenhuma “experiência” ilumina. Reflectem, não refractam, a poesia que estudam. Não a recebem na própria água à luz do sol. Reflectem, repetem o que anteriormente se lhes patenteia. Neste seu livro, a sua alma está lá refractando a de Pascoaes.

            […]

           Precisam de “conversar” aqueles que se encontram envolvidos no mesmo “inter-esse”. Por muito que nos seja dado saber, nada sabemos; como V. diz: “dissemos muito e, contudo, não dissemos nada”.

            […]

 

                                                                                  Um grande abraço do

                                                                                              António Telmo 

 

* * *

 

Estremoz

Noite do dia 17 de Agosto

 

Meu estimado Amigo

 

            […]

            Fiz hoje a terceira leitura [do capítulo «A Alquimia da Saudade»], pelo que a inteligência do texto se iluminou pela memória. Desta vez, o que mais me impressionou foi o que escreveu depois de ter escrito, depois daquela paragem [passagem?] da quadriga puxada por três cavalos: essência e substância (duas rédeas); intelecto e memória (outras duas); transmutação e transformação. O auriga segurando as três pelo do meio. Eis como se pode ter por suporte o Guénon e fazer uma coisa puramente própria. A razão vai comandando as analogias para desocultar e manifestar o significado das imagens pelo qual a saudade se revela como a Shekina.

            Mas, como disse, o que mais me impressionou foi o que vem depois, precisamente o seguinte: “O caminho mais estável é, contudo, aquele que, avançando gradualmente por dissolução e coagulação sucessivas, por graduais conquistas, sabe que o vazio, a ausência que se sente interiormente é a ausência do Paraíso, é a lonjura em que estamos situados ou sitiados hoje” (e por aí fora até à palavra “pássaro”).

            Chama-lhe aviso e muito bem, porque as pessoas não estão avisadas disso, de que o que sentem como desolação não as deve deprimir ou iludir com vivências alheias ao próprio ser, fabricadas pelo diabo. Ficam por si a saber que, sendo essa desolação a ausência do Paraíso, é pelo sentimento dessa ausência que o podem tornar presente, desde que tenham a força de, na desolação do deserto, suportarem a insolação e o seu esplendor.

            […]

 

                                                                                  Seu amigo e admirador

 

                                                                                  António Telmo

 


[1] Pedro Sinde, O Velho da Montanha: a doutrina iniciática de Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Hugin, 2000, pp. 13 e ss.

 

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