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VOZ PASSIVA. 09

10-01-2014 08:35

De Rui Lopo, membro do projecto António Telmo. Vida e Obra que vai transcrever e anotar, para o suplemento télmico do próximo número da revista de cultura libertária A IDEIA, a correspondência de Dalila Pereira da Costa e de José Marinho para António Telmo, publicamos agora o texto da comunicação que apresentou ao Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo", promovido em 14 e 15 de Fevereiro de 2011 em Lisboa pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira.  

 

____________

 

 

Significado e Valor da Filosofia na Obra de António Telmo - Em diálogo com José Marinho

Rui Lopo

 

a Interrogação não é só o princípio da filosofia

mas também o seu fim.

O mais alto grau da interrogação será assim

a sabedoria divina ou Sofia,

aquela actividade a que Álvaro Ribeiro chamou

“o conhecimento especulativo do Absoluto”[1]

 

 

I

Avaliar o significado da noção de filosofia de um autor passa não só por percorrer as expressas definições deste termo que na sua obra se apresentem, por constatar a amplitude do espectro semântico dos usos que à palavra conceda, mas também por inferir qual seja o seu estatuto e função partindo das fontes de que parta, dos modos como a pratica e das relações que estabeleça com outras atitudes anímicas ou intelectivas.

 

Neste breve estudo pretendemos mostrar sucintamente que – em consonância com o modo particular como habita a cultura filosófica – António Telmo pratica e propõe uma ampla e singular concepção de filosofia. Procuraremos assim demonstrar as dificuldades inerentes a essa mesma amplitude, afrontando também as eventuais ambiguidades e tensões que nela se vivam ou que ela em seus intérpretes suscite.

 

Assim, em primeiro lugar, há que notar que nesta obra rara no panorama da cultura portuguesa (como o seria em qualquer outra, mas é a esta que em primeiro lugar a referimos por pertença imediata e pela detida atenção que a ela dedica) a filosofia não corresponde a um género literário determinado ou sequer a um registo textual específico, mas sobretudo radica numa atitude e numa experiência.

 

Quem da longa e polícroma história da filosofia universal se ocupe saberá que é das relações com o que lhe é exterior que a filosofia se tem sempre constituído; que é das margens desta disciplina e das transgressões dos métodos – epocal ou circunstancialmente – impostos que surgem novas concepções e tantas e tão marcantes correntes e autores. Que seria do pitagorismo sem a relação constante à matemática, do platonismo sem a remissão à geometria, do aristotelismo sem a gramática ou a física, da filosofia clássica grega sem a tragédia? E como medir com exactidão e clareza o real influxo das concepções religiosas mistéricas sobre as grandes ideias (conceitos e concepções) da filosofia helénica (recordemos o célebre passo em que Sócrates diz a Ménon que melhor o entenderia se se quedasse e assistisse aos rituais eleusinos), dos pré-socráticos aos cínicos, dos estóicos aos neoplatónicos?

 

Já na idade moderna e contemporânea, quantas vezes não temos assistido ao anúncio e diagnóstico de inúmeras crises da filosofia, correlativas e derivadas dos dispersivos e fragmentantes cortes epistémicos que novas áreas disciplinares têm aberto, mas também a originais contaminações feitas de sínteses e encontros com o que seja o outro da filosofia: como pensar a filosofia clássica alemã sem o encontro com a história e toda a filosofia contemporânea sem o decisivo confronto com a economia política, com a psicanálise, com a arte e a literatura, com o cinema, com as ciências da vida e as neurociências, com a tecnologia, com o enorme acervo que a etnografia de todos os povos tem revelado, com os patrimónios sapienciais, culturais e literários dos povos não europeus cuja imprevista grandeza e diversidade começamos hoje a vislumbrar?

 

 

II

Neste quadro breve que acabámos de traçar talvez melhor se compreenda o surgimento da figura de António Telmo como alguém que demonstra a coragem dos pioneiros, dos que assumem a errância como inerente à viagem e não temem formular hipóteses que outros desconsiderarão como ridículas, extravagantes ou simplesmente extra-filosóficas, caminhando na direcção de novas sínteses cuja amplidão se anseia mas cujos contornos ainda hoje se não vislumbram. 

 

Se a filosofia (…) tem de ser filosofia para ser ela própria, não poderá todavia deixar de correlacionar-se intimamente com todo o outro, na ordem do espírito ou da multímoda realidade, e terá de ser de algum modo esse outro para poder regressar autenticamente a si. O análogo, com mais ponderada exigência se impõe quando, excluído o primado da religião e da poesia, se atribua primado à relação com as ciências. Sendo assim, se na sua relação com o vário saber tem a filosofia de tornar-se de algum ou alguns modos outra do que é, só consistirá para dar sentido a todo e qualquer saber se se mantiver autónoma e apta sempre a regressar a si própria.[2]

 

É José Marinho quem assim nos previne e adverte acerca do duplo movimento de trânsito e recurso que a cada momento ao início do filosofar corresponde. A outração da filosofia é condição do seu consequente regresso a si, em aprofundamento e expansão. Os nexos com o exterior (na ordem do espírito ou da realidade), as articulações que geram redes constelantes e as apropriações mais ou menos vorazes a que ela se entrega constituem, paradoxalmente, elementos da sua mesma singularidade, autonomia e auto-subsistência.

 

António Telmo considera José Marinho como seu Mestre e a ele dedica três marcantes textos, que constam como capítulos de Filosofia e Kabbalah[3]. Estes textos demonstram o cariz experiencial, viajante e visionário do texto da Teoria do Ser e da Verdade. Telmo procura demonstrar como a leitura da Teoria é ela própria libertadora e como a prática de atenção que ela impõe suscita uma experiência de auto-gnose. A filosofia é por Telmo aceite como Teoria, no sentido que Marinho confere ao termo, como visão, e visão tida num limite. Todo o pensar liberta nesta viagem insituada. E é tão significativa, do ponto de vista histórico-cultural e erudito, a recorrência da metáfora da viagem na literatura poética ou filosófica portuguesa (nomeadamente em Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro ou Marinho, referências primaciais de Telmo) quão irrelevante tal dado se afigura perante o seu poder transmutador como experiência.

 

Telmo irá repetir diversas vezes a assunção de filosofia como viagem (e o seu praticante como errante sem casa própria, percorrendo ínvios caminhos, ainda que receptor de auspiciosos sinais e símbolos). Além do seu estatuto de viagem, é também como arte especial de viajar que a filosofia deve ser entendida. Esta é uma ideia que encontramos expressa em Álvaro Ribeiro, mas que também nos surge em textos muito precoces de José Marinho, como Sedentário e Nómada, redigido entre 1932-35, no inédito Significado e Valor da Metafísica, também da década de trinta e, decisivamente, na própria Teoria vista como Viagem insituada, viagem na qual nasce o próprio viajante[4], viagem do desconhecido para o conhecido e deste para um novo desconhecido de grau superior, uma vez que o próprio sentir de que se parte é imediatamente experimentado como misterioso e desconhecido, mediante a experiência (descoberta do sentido da interioridade e consequente descoberta da subjectividade) da interrogação fundamental, que não só contribui para dissolver as ilusórias visões dualizantes que apartam o mundo sensível do inteligível como se estatui como princípio e fim da mais autêntica filosofia[5]. Se a filosofia é entendida como viagem e como arte de viajar, é assim desde já paradoxalmente equacionável como processo e representação de um processo. É com vista neste paradoxo que percorreremos outras acepções e ocorrências de filosofia nesta obra.

 

Vemos bem como é convergente com Marinho o esforço Telmiano de salvar a razão para a filosofia e estabelecer a filosofia pela razão, distinguindo todavia o que chama “razão compreensiva” e o que chama “razão judicativa”[6] e distinguindo filosofia e mística para melhor as saber articular:

 

Confundem alguns a via sacra da “santa filosofia” com qualquer via devocional – judaica, católica ou islâmica – e interpretam o superior dialogo dos filósofos como um conflito de religiões, de pontos de vista religiosos. José Marinho não é um pensador místico porque nunca disse, escreveu ou pensou que a razão, isto é, o raciocínio não constitui a forma da filosofia, mas ensinou demoradamente que, somente quando não se interroga sobre si e vai inconsciente de si e do seu enigma, se impede de cumprir a finalidade para a qual autenticamente existe: a de promover os raciocínios sobre a verdade e sobre o ser que fazem eclodir, em dado momento a interrogação. A interrogação é sim para José Marinho [e não se trata aqui de o divulgar, mas de o apresentar como pensamento actuante e vivo] o princípio da filosofia, e ela é, bem longe e bem pura de toda a mistura sentimental, o supremo acto do intelecto. Após ter feito eclodir a interrogação, a razão não se demite. Mais sábia e lúcida agora, reitera a cada novo momento o processo, além de se assumir especulativamente para reflectir as luzes do inteligível que a interrogação revela. Daqui o erro de opor pensamento racionalista a pensamento místico [7].

 

Segundo Telmo, já em Leonardo radicaria a atitude de confluência de poesia e filosofia, mística e racionalidade, fundamentação e errância. Da identificação do pensamento com a experiência dependeria a sua fruição como liberdade, autonomia e aventura:

a filosofia aparece como o órgão da liberdade. A filosofia é, em Leonardo Coimbra, isto mesmo: rasgar caminhos, ir ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos e pensar o mistério da vida e da morte com o próprio pensamento. Daqui o valor da experiência e o conceito de que o pensamento é a experiência[8].  

 

A paradoxal identificação de pensamento e experiência explica a utilização de expressões diádicas (aparentemente) auto-contraditórias tanto por parte de Marinho, tantas vezes assumido como mestre, como por parte de António Telmo e explica que no acervo cultural e sapiencial universalmente humano estes autores procurem aquela sabedoria viva que antecede e excede a, e sucede à, filosofia:

Temos lutado, quanto podemos (…), contra o preconceito da filosofia como coisa sapiente e livresca. Não há filosofia sem ideias viventes e as ideias viventes estão nos homens viventes ou nos que, tendo passado da face do mundo, vivem ainda. (…) Como é então que a filosofia, com todas as suas conotações humanas e transcendentes, tarda em assumir com toda a fundura e vastidão seu humano e mais que humano afã?[9]

 

A desconfiança face à letra morta da filosofia patrimonial explicará a renitência em relação a uma historiografia que, atenta aos factos atestados, omite o que os funda ou supere, como também face a um culturalismo que se meça pela erudição bibliográfica, por oposição a uma outra noção de filosofia como algo de vivo e sempre excessivo ou excedente:

Transfere-se com os livros o que é cultural e histórico. A filosofia, essa, está radicada nos homens que filosofam ou naquilo que os move, solicita e inspira[10].

 

A filosofia academicamente estabelecida situar-se-ia ao nível de uma relação patente de transferência de informação entre um professor e um aluno, enquanto para Marinho e depois, para Telmo, outra atitude, simultaneamente vista como tradicional e renovadora, se oferece na relação entre Mestre e discípulo, onde mais se processa o que é oculto:

Todo o ensino resulta de uma relação entre o que inicia e ensina e o que aprende. Nas formas de tal relação é a da mãe e do filho a mais misteriosa, mais acessível a do professor e do aluno, na mediação se situando a do Mestre e discípulo com sua fecunda enigmática[11].

 

Não nos parece pois carecer de oportunidade relembrar estes passos de Marinho em Filosofia: ensino ou iniciação dedicados à díade de mestre e discípulo, tema que ecoará longamente na obra de Telmo[12].

 

Assim, em diversos passos espalhados ao longo da sua polícroma obra, Telmo se debruça sobre a questão da noção de filosofia, mas é nos dois capítulos de Filosofia e Kabbalah dedicados a José Marinho que se apresentam maiores as convergências e afinidades entre os dois autores que também consistem na assunção especulativa do legado de um Mestre.

 

O significado e valor que António Telmo atribui à filosofia são tributários do legado magistral de Marinho e da longa meditação do exercício filosófico inerente e subjacente à Teoria, no quadro de uma antropologia situada[13] e na permanente tensão entre ensino e iniciação, articulável com uma teoria da linguagem e da poesia (recordemos ser Telmo autor de uma Arte Poética, de uma Gramática Secreta além de em inúmeros outros textos se debruçar sobre a língua e a linguagem) de raiz alvarina. E embora Telmo privilegie como terrenos de reflexão a linguagem e a história de Portugal (sendo os poetas, e principalmente Camões[14], o lugar de encontro desses dois planos de actuação, como aliás vemos suceder na obra de Dalila Pereira da Costa e Agostinho da Silva), os domínios especulativos puros ou teoréticos, como preferimos chamar-lhes, surgem na sua obra com nítida marca de água marinha[15].

 

É porventura difícil abarcar a diversidade de géneros literários que o autor cultiva, (do poema ao conto, do ensaio ao teatro, do aforismo à epistolografia aberta ou aos registos de intervenções orais), assim como a tão inaudita variedade dos seus recursos estilísticos, rara no discurso a que habitualmente se reserva o adjectivo de filosófico. Mas não incorre em qualquer incoerência quem assim actua movido por uma concepção da filosofia como arte (e não apenas como filosofia da arte, que seria situação bem diversa, em grau e natureza), o que explica a recusa de uma verdade fechada e a abertura ao imprevisível e ao desconhecido própria da criatividade artística.

 

Citemos, da sibilina introdução de Filosofia e Kabbalah:

Álvaro Ribeiro ensinava que a filosofia é uma arte especial de viajar. Ela não virá dizer, de uma vez por todas (…) o que é a verdade: a razão é um organon, um órgão para o conhecimento, mas as suas articulações não coincidem com a realidade. Mas da comunicação com o desconhecido, que a poesia, a música e as artes plásticas procuram estabelecer, cada uma a seu modo e segundo a sua espécie, não pode abdicar o pensamento que é, aliás, quem as move e sustenta.

O pensamento tem o seu rito próprio para comunicar com o desconhecido, distinto em cada homem e em cada povo, e assume em cada homem e em cada povo uma forma peculiar[16].

 

A Kabbalah funcionaria assim como chave universalizante da poesia e da arte, via de acesso ao grau de verdade já adquirida:

Não é que não haja uma ciência que represente o já adquirido no conhecimento da verdade e também os poetas e demais artistas não devem ignorá-la: essa ciência é a kabbalah, como o foi também para a filosofia alemã, de Jacob Bohme e Kant até Fichte, Schelling e Hegel. Ela é a Coisa, a Nossa Coisa, o objecto constante do nosso estudo, o que nos irmana com os outros povos e seus pensadores[17].

 

Essa ciência será a kabbalah e outros nobres saberes como o maniqueísmo, cabala, astrologia, esoterismo, martinismo, tarot, magia, poderão e deverão ser convocados… Mais até do que procurar a radicação concreta e individualizada da filosofia portuguesa e da filosofia de língua portuguesa, retemos da proposta telmiana o singular afinco de se estabelecerem inesperadas confrontações até aqui nunca intentadas, como de se ler Leonardo Coimbra à luz do sufismo, Bruno (e Camões) à luz do maniqueísmo, Pascoaes da gnose, Pessoa à luz da Kabbalah... E mesmo que tais comparações possam ser consideradas cientificamente inconsistentes ou de difícil demonstração analítica ou documental, elas contribuem paradoxalmente – por aprofundamento de uma tradição nacional singular – para a compreensão da universalidade do pensar, na constituição de uma filosofia mundial, feita da confrontação de dados tão díspares provindos de autores entre si distanciados, de correntes diversas, de disciplinas sem pontos de toque, de períodos apartados no tempo.

 

Cultor e intérprete dessa tradição, mas atento ao tempo como forma necessária de manifestação e desmultiplicação do espírito, Telmo reserva contudo a abertura ao imprevisível, signo do futuro:

O pensamento é, porém, como a ave Fénix, uma energia, um fogo, uma actividade do espírito que todas as manhãs renasce das próprias cinzas, não se sabendo em que forma, na multiplicação infinita da mesma essência.[18]

 

Estamos já em condições de compreender porque Telmo tão ciosamente distingue interpretação de hermenêutica. Aquela reconduz o desconhecido para o conhecido, sendo afim da exegese e da divulgação e conotando-se com o exercício historiográfico, cultural e pedagógico, tratando de simplificar o que é complexo, de utilizar palavras mais pobres para traduzir conceitos mais amplos e traduzir ideias de lato espectro em noções de circunscrito alcance; enquanto a hermenêutica, de cariz anagógico, procuraria patentear o oculto. A hermenêutica teria assim por fim não o transacto, o pensado ou já visto, mas a viagem do texto ao arquétipo, definido como fonte do espírito. Daí que Telmo considere maximamente irónico a proclamação de Marinho de que tudo estaria pensado, sendo hora agora de os hermeneutas actuarem, jogando com as expectativas de seus auditores que julgavam que ele é que estaria confundindo a actividade superior (a pretensa criação) com a inferior (a explicitante interpretação):

A originalidade em filosofia ou poesia não está, como se vê, na apresentação de doutrinas diferentes, mas sim no modo como cada um aumentou de Espírito o mesmo processo, como exerceu a sua própria acção espiritual, com palavras novas nascidas de uma experiência singular.[19]

 

Notemos ainda que a policromia dos saberes e tradições convocadas corresponde àquela irregularidade já notada (etimologicamente compreendida como ausência da regra conforme ao pensar comum: i-regula) como desconcertante signo estilístico. Vejam-se as significativas palavras de José Marinho, a pretexto de Sampaio Bruno, e que com justeza se aplicariam à obra de António Telmo:

quisemos pôr branda mas firme advertência a todos quantos só admitem como filosofia a filosofia científica, ou coisa por tal jeito e que, adeptos da conceituosa e fácil forma, suspeitam de todo o monstruoso e inumano mas divino e sumamente lógico conúbio de filosofia e poesia ou filosofia e mítica[20].

 

O trabalho de Telmo consistiu em abrir um caminho que outros terão de percorrer, aprofundar, solidificar ou infirmar. As suas hipóteses, desafios e propostas não poderão, todavia, ser ignoradas como inexistentes. Essas possibilidades tornaram-se acessíveis aos cultores da filosofia como teoria: visão e viagem, e assim se prossegue uma tradição que, reivindicando embora a tradição do aristotelismo português, se reveste de uma importância acrescida medida pelo facto de nela se poder procurar a relação ou razão de harmonia entre o consciente cristão e o subconsciente hebraico, a qual, segundo o autor, em Portugal, tudo explicará[21].

 

Surge pois um outro vector de equação do que seja a filosofia sob a figura da filosofia portuguesa, a filosofia situada numa história e numa cultura:

 

A filosofia portuguesa terá por fim realizar a síntese católica das três tradições [judaica, cristã e islâmica][22].

 

A filosofia portuguesa surge ainda ao autor como consciência e conhecimento dos ciclos históricos:

 

A relação da filosofia com a Pátria, para ser real ou concreta. terá de movimentar a mediação de um escol ou de uma escola que interprete, adapte e renove a tradição secular, essa sim difusa nas várias formas de sentir popular e directamente dimanando das nossas origens étnicas e espirituais.[23]

 

Neste âmbito, que aqui só indicamos topicamente e não desenvolveremos, a figura de Leonardo surge como magistral. Telmo regista algumas observações sobre a desconsideração do carácter filosófico da obra leonardina (tida por mística), historiando ainda o esforço com vista ao combate e dissolução do movimento lançado por Álvaro Ribeiro, lembrando as objecções segundo as quais não seriam de filosofia aqueles livros em que a razão estaria subordinada à imaginação e à intuição

 

Não há, nem haverá autêntica poesia como não há nem houve autêntica ciência sem a, remota ou próxima, experiência das origens a que, com intuitos de menorização, se dá o nome de “mística”. Mas os puros místicos, aqueles que renunciam a pensar, orgulhosos de uma experiência inefável de união com o divino, são também hostis à filosofia, ao pensamento e à razão, mesmo quando esta, como repetia José Marinho, se interroga sobre si própria e procura garantir-se pela relação com o Espírito. Mística é uma nobre palavra, que exprime uma ideia clara e distinta. Pelo seu étimo grego equivale a “iniciática”. O erro está nesta obscura confusão provocada pelos inimigos da filosofia, em supor que a razão é um dado natural e não uma forma de pensamento próprio e só possível naqueles que conhecem que sobre o Mistério se lhes abriu um novo sentido [segundo a expressão leonardina]. O pensamento próprio do corpo físico, que serve os seus interesses, não é nem nunca será razão: é um órgão formador de respostas automáticas aos estímulos. A razão somente é possível quando há já uma nova forma de sentir o mundo, quando a emergência de novos sentidos permite que se fale analogicamente de um corpo subtil; é, por assim dizer, o cérebro próprio desse corpo. Antes disso, sim, é que tudo quanto se diga é palavreado e fogo-fátuo[24].

 

 

III

Vimos a filosofia surgir-nos como um nobre saber, como experiência, como aprofundamento auto-gnósico, como auto-transformação, como par ordenado contrário e correlativo de erudição e de história da filosofia ou da cultura (filosofia viva versus filosofia livresca), como via sapiencial, como modo de relacionar opostos, como tradição, como iniciação, como hermenêutica (por oposição a interpretação e exegese), (como método analógico e anagógico) como síntese de tradições culturais e religiosas, como atitude compreensiva, como viagem, como arte de viajar, como arte, como filosofia nacional, radicada e singularizada, dada numa relação de mestre a discípulo, e até como prática orante religativa e redentora:

O poeta ou filósofo exerce o direito, em que acredita como no valor de um sacramento, de uma relação individual com o invisível sobrenatural em que a poesia ou a filosofia tanto podem dispensar a mediação do Livro, do Rito e do Dogma como fazer deles um suporte para o livre exercício do pensamento. Álvaro Ribeiro, José Régio e Leonardo Coimbra estão no segundo caso; José Marinho, Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes no primeiro. O que lhes é comum é o modo de entender a oração como uma forma poética ou filosófica de acção sobre o mundo espiritual capaz de acelerar o processo colectivo de redenção[25].

 

 


[1] António Telmo, Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães editores, 1989, p. 124. 

[2] Filosofia, ensino ou iniciação, Lisboa, Instituto Gulbenkian de Ciência – Centro de Investigação Pedagógica, 1972, pp. 94-95.

[3] Ed. cit., “Dois filósofos portuenses e a simbólica do Porto”, pp. 117-121; “O pensamento iniciático de José Marinho”, pp. 121-127 e “Teoria do instante em José Marinho”, pp. 128-132.

[4] Noção de Marinho explicitamente citada, referida e assumida em Filosofia e Kabbalah, pp. 118-119.

[5] Permanece todavia encoberto o próprio sentido profundo do pensar, embora se pressinta já tal sentido como correspondendo a uma interrogação fundamental que se descobrirá como uma das instâncias mais decisivas do propósito teorético e que implicará uma renovada e renovadora meditação sobre o amor e a , como experiências que o pensamento repetido não logra aprofundar ou exaurir (a ciência do amor e da fé que os não esgota, mas expõe a sua correlativa opacidade e transparência como momentos em que o homem é para si por assunção do seu ser e saber):

Não cabe no teorético propósito a minuciosa, infindável e ilusória ciência da alma e do homem, mas mostrar gradualmente como é dado passar do sentido da interioridade para o sentido da subjectividade.

[6] Cf. Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p. 129.

[7] Cf. Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p. 124.

[8] “Regresso ao paraíso”, p. 139 de Filosofia e Kabbalah, ed. cit.

[9] Marinho, Filosofia, Ensino ou Iniciação, ed. cit., p. 10.

[10] Marinho, Filosofia, Ensino ou Iniciação, ed. cit, p. 11.

[11] Marinho, Filosofia, Ensino ou Iniciação, ed. cit. p. 60.

[12] Tema este bem próprio da tradição convivial que ficou conhecida como “filosofia portuguesa”, dos discípulos de Leonardo Coimbra e seus continuadores.

[13] Elementos para uma Antropologia Situada, Cadernos do Centro de Investigação Pedagógica nº 4, Lisboa, FCG, 1966.

[14] Ver a recente compilação Obras Completas de António Telmo, Volume I, Luís de Camões, Estremoz, Al-Barzakh, 2010.

[15] E não podemos deixar de lembrar a distinção entre filosofia operativa e especulativa para a qual um intérprete tão lúcido como Joaquim Domingues chama a atenção em estudo precisamente intitulado Arte poética, inserto em António Telmo e as Gerações Novas, Lisboa, Hugin, 2003.

[16] É deste pressuposto que decorrerá a noção do autor de filosofia portuguesa e até a noção de que o próprio progresso da razão dependerá, entre nós, dos estudos de língua portuguesa, particularmente de estilística da língua. Cf. Filosofia e Kabbalah, ed. cit. p.43.

[17] Op. cit., p. 10-11.

[18] Op. cit., p. 10-11.

[19] Filosofia e Kabbalah, p.89.

[20] “Sampaio Bruno” in Estudos Sobre o Pensamento Português Contemporâneo, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1981, pp. 81-82 e p. 83.

[21] Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p. 9.

[22]Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p. 81.

[23] Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p.97.

[24] Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p. 86-87.

[25] Filosofia e Kabbalah, ed. cit., p. 85. Cf. a citação de Leonardo na página 87 da mesma obra: O pensamento filosófico é a única oração eficaz.

 

CORRESPONDÊNCIA. 01

09-01-2014 09:26

Francisco da Luz Rebelo Gonçalves, que nasceu em Santarém em 1907 e viria a falecer em 1982, foi professor de António Telmo no curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciatura que o autor de Arte Poética só tardiamente concluiria. Entre ambos viria a firmar-se uma profunda amizade, pautada pela enorme admiração que filólogo e filósofo reciprocamente se votavam, e de que as quatro cartas que se guardam no espólio de António Telmo permitem dar um importante testemunho. Datada de 10 de Junho de 1956, a primeira, que hoje publicamos, traz interessante referência ao artigo télmico "Laços da Filologia para a Poesia" (um estudo de Rebelo Gonçalves surge neste mencionado com implícito encómio), com que, no passado domingo, iniciámos a rubrica VERDES ANOS, onde se reunirão os dispersos télmicos do período formativo. 

 

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CARTAS DE REBELO GONÇALVES PARA ANTÓNIO TELMO. 01


S/l, 10 de Junho de 1956.
 
                        Meu caro Vitorino:
 
            Estou a dever-lhe dois abraços: um, de agradecimento pela nova gentileza com que se dignou distinguir-me; outro, de parabéns pelo belíssimo feixe de reflexões sobre «Laços da Filologia para a Poesia» que tive a satisfação de ler em 24 de Maio e onde me vi citado com muita generosidade e simpatia.
            Como não pude dar-lhos na passada 6.ª-feira (estive no Teatro da Trindade com imenso gosto, mas não o vi), daqui lhos dou, com a sincera estima e o devotado abraço do


                                                                                              Seu
                                                                                                          Rebelo Gonçalves.

 

[em papel timbrado de
F. REBELO GONÇALVES
Professor da Universidade de Lisboa
Largo do Pinheiro, 8
Mafra]

VOZ PASSIVA. 08

07-01-2014 09:39

Nenhum lugar é sem sombra
Para António Telmo, Mestre Hermético

Jesus Carlos

 

O Mestre sentou-se à beira do caminho, e disse:
– Cheguei ao final da minha jornada. Adeus.
– Os discípulos, que o seguiam, olharam incrédulos e perdidos.
– Mestre, mas este lugar parece igual a qualquer outro! – Era quase um coro de desânimo.
– E é.
– Não compreendemos.
– Não há nada para compreender. Estou velho, tenho as pernas cansadas, e vou ficar debaixo desta sombra até que a morte me leve. – O Mestre cerrou os olhos, e encostou as costas ao tronco rugoso da árvore.
– E nós? Que faremos? – Era quase um coro de almas danadas e sem rumo.
– Sigam a vossa vida, e respeitem-na. Não façam mal a ninguém, e procurem o Espírito em todas as coisas… numa pedra, nos vermes que limpam o mundo.
– Mestre, e por qual caminho deveremos prosseguir? – Replicou um dos discípulos num tom altissonante de príncipe herdeiro que procura o reino.
– Escolham um. Este era o meu caminho.
– Mestre, e como saberemos a quem seguir? – Murmurou o mais franzino de todos.
– Como souberam seguir-me? Adeus. Deixem-me repousar.
– Mestre, e que diremos ao mundo? – Implorou hesitante aquele que parecia um camponês.
– Digam que nenhum lugar é sem sombra.

 

22 de Agosto de 2010

VERDES ANOS. 01

05-01-2014 21:10

Iniciamos hoje a publicação da rubrica "Verdes Anos", onde, tal como havíamos anunciado, iremos facultar aos leitores os dispersos do período formativo de António Telmo, num arco temporal que, convencionalmente, se poderá considerar dilatado até à partida do filósofo para Brasília, em Fevereiro de 1966. São dezenas de textos desconhecidos, inatendidos, dispersos por periódicos como o Diário de Notícias, o Diário Popular, o 57, o Mensário das Casas do Povo, A Bem da Língua Portuguesa ou Clave, entre outros. Nunca até hoje reunidos em livro, revelam-nos por vezes um autor que busca seguramente a liberdade do estilo e acusa sobretudo a magistral influição de seu mestre Álvaro Ribeiro (na foto). Elencados cronologicamente, os artigos serão arquivados em item próprio da secção Dispersos.

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LAÇOS DA FILOLOGIA PARA A POESIA[1]

 

I) POESIA, ARTE FILOLÓGICA – Com o modernismo, os poetas deixaram aos humanistas o estudo e o ensino da sua ciência, se, efectivamente, a poesia é, como sempre foi geralmente admitido por todas as tradições, uma arte filológica. O humanismo, cujos princípios se situam na Renascença, tudo fez para que a filologia deixasse de ser uma actividade do pensamento criador. Com ele, a orientação disciplinar passou a dirigir-se para a apreensão de conhecimentos, previamente fixados, na matéria e na forma. O ensino é, porém, iniciação num método livre e pessoal de indagação das verdades superiores. A verdade não está fixa, é causa invisível que perseguimos em caminhos vários, por meio de interrogações, conjecturas, hipóteses, pelo exercício mental dum sistema móvel de imagens que actua como mediador.

 

O que distinguiu Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa como poetas, deriva em grande parte de saberem ser a poesia uma arte filológica. Sinal disso está na atitude que ambos tomaram, o segundo através do menos conhecido dos seus heterónimos, para com a filologia ensinada pelos humanistas.

 

II) QUANTIDADE E QUALIDADE – Uma das mais eficientes armas deste humanismo tem sido a estilística. É possível construir, dedutivamente, as diversas figuras de estilo e formar um sistema exterior aplicável às diversas literaturas e respectivos idiomas. Para com estas, tal sistema fixo de relações quantitativas funciona como uma máquina que as devora. As figuras são geralmente definidas como «a parte pelo todo», «o efeito pela causa», «o consequente pelo antecedente», e assim sucessivamente, o que equivale a substituir a linguagem poética pela linguagem positiva e, portanto, a negar a poesia.

 

Em lugar de «figuras» digamos «formas», digamos e pensemos e logo o método indutivo aparece com o propício meio de investigação filológica. As figuras de retórica ou de estilo não são adornos, ornatos, artifícios, mas formas substanciais, imagens íntimas, forças imanentes em incessante actividade, captáveis pela intuição de que a indução é o processo exterior. O que produz a ilusão de que são formas fixas, fictícias, fingidas, em fim, figuras, é o poder negativo que o homem tem de representar a língua pela escrita. A expressão gráfica representa a transitória submissão do verbo à letra.

 

III) LÍNGUA E CIFRA – Quem observe a língua portuguesa nas suas formas populares, isto é, como hoje existe antes de ser trabalhada pelo espírito latino, deparará com cifras surpreendentes. Filólogo é aquele que tem «queda» para decifrar, para impregnar de luz as cifras. Nem sempre se repara nesta coisa curiosa: as letras de um livro são insignificantes enquanto não as iluminarmos do nosso pensamento; o que quer dizer que são cifras, zeros de valor atributável consoante a posição. A vária combinação das letras modifica o sentido em direcção e profundidade.   

 

 IV) O ESPÍRITO LATINO E O GÉNIO DA LÍNGUA. Sobre esta língua que é a nossa o espírito latino teceu aquele véu de rígidas figuras. Facto geralmente admitido pelos historiadores que reconhecem as diferenças que, por exemplo, separam Fernão Lopes de João de Barros é, todavia, encarado como um progresso e, portanto, situado num ponto da nossa história literária. Mas a verdade é existir um génio português, que sempre capta, apreende, agarra a língua para lhe imprimir as suas formas. É mais certo dizer que, se hoje não falamos latim ou francês, deve-se à vontade poderosa desse génio que a si conforma todos os elementos estranhos.

 

Não é negar o progresso da língua dizer que houve evolução subterrânea, isto é, substantiva, dizer, em suma, que o verbo sempre animou o substantivo. Ver na latinização da língua um progresso, pelo qual se eliminam formas arcaicas de expressão, equivale a negar a existência da nacionalidade. Persistem as formas arcaicas, mas é tanto mais difícil vê-las quanto mais dificuldade há em descobri-las.

 

V) ARISTÓTELES E O MODERNISMO. Aristóteles é ainda hoje um autor ao qual recorrem com proveito quantos estudam as questões de poética modernista. Quem consultar a tradução que da «Poética» nos deu Eudoro de Sousa verificará que para o filósofo a poesia não é fenómeno de sentimento, mas fenómeno de pensamento. Com razão dedicou o tradutor o seu trabalho ao sr. dr. Rebelo Gonçalves, que, no seu estudo «A Língua Portuguesa no Ensino Secundário», ensina a função intelectual da estilística.

 

Afastados da tradição aristotélica, os poetas modernistas continuam a pensar que a poesia é a expressão de sentimentos. Todavia, se as palavras é que transmitem significação e efectividade cósmica e divina aos sentimentos, a educação poética consistirá no ensino da língua, da linguagem, do diálogo, da comunicação.   

 

VI) POÉTICA E METÁFORA. Alenta o modernismo a convicção de que a poesia resulta da exaltação dos sentimentos. Negação da poesia é negação da metáfora. Desta partem todas as formas estilísticas e para ela confluem. Assim, a etimologia só se revela fecunda quando acompanhada de intuição metafórica, quando pensada no lugar espiritual em que se encontram a significação sensível com a supra-sensível. Toda a iluminação resulta de um contacto eléctrico que estabelece uma corrente que se perde se não encontra palavras condutoras. Há metáforas tão luminosas que cegam o poeta e ou o transportam à epopeia ou o prostram no lirismo. Conduzir o espírito de metáfora em metáfora até à suprema iluminação é o fim da educação poética. 

 

António Telmo



[1] Diário de Notícias, ano 92, n.º 32417, Lisboa, 24 de Maio de 1956, pp. 7 e 8.

 

VOZ PASSIVA. 07

03-01-2014 10:56

Inteligência e bondade*

Elísio Gala

 

- Você tem boa cara.

 

Eis as primeiras palavras que de viva voz ouvi ao Dr. António Telmo, há já muitos anos atrás, num restaurante que penso já não existe – a Mimosa do Camões. Tratava-se do jantar comemorativo do lançamento do primeiro número da nova revista de filosofia – Leonardo. Ali se reuniam num mesmo amor da Pátria, os jovens redactores da nova revista e os mestres lidos – quantas vezes mal lidos, se atendermos à lição de Pascoaes sobre o significado de ler bem – e admirados: Orlando Vitorino, António Telmo, Pinharanda Gomes, Afonso Botelho, António Quadros, isto só para falar dos que mais me formaram enquanto homem, pela vida e pela obra.

 

Como habitualmente, escutei. As palavras que estes homens admirados proferiram, o modo como o faziam, a virtualidade e virtude que delas emergiam, a luz com que esclareciam fundamentando e firmando as teses e os teoremas, a ânsia de absoluto que em nós – os mais jovens – instilavam, o modo livre e desinteressado como o faziam, tornavam-nos mais homens, faziam-nos crescer, bater o coração mais alto e longe, numa demanda que sendo a de Portugal, ia Além.

 

Como habitualmente, também, ocupei um dos lugares mais distantes dos mestres. A razão de um tal comportamento, radicava para mim, no facto de ser o mais novo – e portanto de dar a primazia aos mais velhos – e de me considerar o menos sabedor – e portanto de dar também a primazia aos que melhor exprimiam ou apresentavam as interrogações moventes do pensamento e da imaginação. A distância, se era para mim manifestação de uma certa timidez, nascida da imensa admiração nutrida por estes homens, era também para mim, garantia de um apuramento auditivo. Ouvia tudo com a máxima atenção e procurava tudo guardar; sem esforço o fazia, porque as palavras, sabia-as de cor, de coração, tais as palavras nascidas no amor.

 

O Dr. António Telmo dirigia-se para a porta, a fim de fazer a viagem de regresso a Estremoz. Eis senão quando, me distingue entre alguns dos convivas com a sua atenção. Levantei-me, apertando-lhe a mão que me estendera – após ter feito a afirmação a que aludi no início deste escrito – e ainda me presenteou com a alegria de afirmar ter apreciado o meu texto. O Dr. António Telmo foi assim um dos meus primeiros “espelhos”, isto é, uma daquelas pessoas significativas que nos permitem olhar para nós. A nossa vida parece depender em parte, do modo como algumas pessoas interpretam as manifestações da nossa fisionomia. O modo como o fazem, permite-nos ganhar uma progressiva autonomia, capacidade de escolha e de descoberta dos nossos talentos. Como se todo o nosso esforço de saber e de iluminação se passasse a concentrar nesse encontro da nossa forma com a nossa figura. A lembrança da infância e das brincadeiras que então nos davam prazer, são uma das chaves desse encontro.

 

Sempre a lembrança, a memória, a luta contra o esquecimento. É Álvaro Ribeiro quem algures afirma que os paraísos perdidos, são os paraísos das palavras perdidas, não dadas ou pior esquecidas. A importância dada ao esquecimento por Álvaro Ribeiro era tamanha, que sugeria ser preferível inventar uma mentira do que confessar o esquecimento. Conhecedor da dialéctica do discurso amoroso, e do naturalismo sentimentalista que continua a caracterizar o tempo actual, chama-nos a atenção para a importância da memória e do raciocínio na relação com a mulher. Para aferir da verdade das palavras e da sua consonância com os comportamentos, sempre a mulher se manifesta mais sabedora da memória das palavras trocadas e no “teste” a quem a pretende, elegerá aquele que se distinguir entre os demais por alguma espécie de superioridade. A fidelidade às palavras trocadas e não esquecidas constituirá sempre elemento fundamental no firmar da relação amorosa.

 

Sabemos, por leitura de alguns clássicos, da importância da memória e do esquecimento. A Ulisses, oferece a deusa Calipso, a imortalidade, e a sua beleza… bastava-lhe tomar a bebida do esquecimento. Platão fala-nos do rio do Letes, do qual os que mais bebem no trânsito para esta vida, se tornam os mais esquecidos, sendo que os filósofos são os que melhor se lembram da vida perdurável, por pouco ou nada terem bebido dessa água. Na demanda do Graal, muitos são os cavaleiros que se perdem, que se desorientam, alguns chegam mesmo a beber da bebida que a feiticeira Morgana lhes oferece… e tornam-se autómatos, ao serviço de um poder que os encerra na armadura vestida para lutar contra o mal e agora tornada prisão…

 

Numa das suas obras o Dr. António Telmo afirma a necessidade de cada um se constituir como uma ilha… e toda a sua obra é, no fundo, uma luta contra o esquecimento. Toda ela é um imenso exercício do novo e da novidade, por isso a sua obra é, podemos dizer, tão sã e inclassificável. A possibilidade de fazer de cada vez de modo diferente, de nos revelar diferentes aspectos da realidade e cada realidade em seus múltiplos aspectos, são para mim indícios de uma obra que nos ensina a treinar a capacidade inventiva e auto-crítica, a não nos queixarmos e sobretudo a que os outros não se queixem de nós.

 

A nossa sociedade é cada vez mais mediática, manipuladora e supostamente comunicacional. De entre os inúmeros problemas que se colocam actualmente às pessoas – onda de sentimentalismo, embotar do raciocínio, incapacidade de adiar as recompensas, incapacidade de identificação das emoções próprias – um que surge com particular acuidade é a chamada necessidade de transparência. Lembro um episódio em casa do Dr. António Telmo. Perscrutando no meu olhar o espanto ou o encantamento do profano perante a magia do esotérico, apontou para uma prateleira no seu escritório e disse: aqui tem à sua frente, todo o esoterismo. Maior transparência não podia haver. Mantendo com a transparência do dizer, a inviolabilidade do espaço luminoso da imaginação, ensinava-me, penso eu, a garantir a pouca liberdade que nos resta neste imenso Big Brother em que vivemos. Outras lições a retirar desse gesto e dessas palavras: não deixar que nos adivinhem os pensamentos, para nos mantermos livres; o sonho e a imaginação é que nos permitem viver no meio das circunstanciais adversidades; a arte, alimentada pela imaginação, existe para que nos possamos esconder enquanto nos mostramos; é na subtileza das palavras que podemos construir novos mundos.

 

Inteligência e bondade são na obra de António Telmo conceitos e ideias permutáveis. Quando o olho, vejo um homem bom. Quando o oiço, escuto um homem inteligente.

 

Dr. António Telmo… o senhor tem muito boa cara!

 

(Escrito em 2009)

VOZ PASSIVA. 06

02-01-2014 11:00

Locais sagrados abandonados*

Eduardo Aroso

 

Manuel Breda Simões em «Tomar – o Templo e o Império do Graal», citando J. Markale, diz- nos que «um lugar sagrado permanece sempre sagrado mesmo que a religião tenha mudado». Esta afirmação – dela comungando muitos estudiosos do sagrado – faz-nos interrogar se a nação portuguesa, entendida como providencialismo histórico, não terá esse carácter sagrado na figura do Encoberto, a despeito de todas as metamorfoses histórias, e porventura até à sua suprema realização, isto é, se considerarmos o que vai do Milagre de Ourique ao verso pessoano «Senhor, falta cumprir-se Portugal!». António Telmo não se esqueceu de lembrar que os antigos locais sagrados abandonados, em tempos de degradação, já têm servido para a mais baixa magia. Aqui podemos encontrar algum paradoxo entre a afirmação de Telmo e Markale, aliás, na evidência do que se tornou Portugal. Mas tudo isto faz parte do nosso nevoeiro…

____________

* Excerto de artigo a publicar na rubrica "Registos", no n.º 13 da revista Nova Águia, a sair no 1.º semestre de 2014.

 

FOTOS COM HISTÓRIA(S). 02

30-12-2013 10:06

António Telmo, D. Maria Antónia (esposa) e Eduardo Aroso, no dia 18 de Maio de 2003, no escritório do filósofo, em Estremoz. Pode ver-se um painel de azulejos representando a Rainha Santa, figura carismática da nossa História, que nos juntou anos antes em Alenquer, terra onde (re)conheci António Telmo. Senhora das rosas e do pão, que viria a ser tema central de uma extensa carta que Telmo me endereçou, e publicada na sua obra póstuma A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete. Nesse belo dia de Maio, quase no exacto tempo litúrgico do Espírito Santo, presentes estavam também os poetas e companheiros do Gresfoz (Grupo de Estudos Figueira da Foz) Raúl Traveira e Manuela de Azevedo, e ainda João Lopes Tavares e Roque Brás de Oliveira. Recordo que na agradável conversa, a dado momento, falando-se de Agostinho da Silva, li, de pé, o sublime poema «Paráclito» do brasileiro Jorge de Lima, que Agostinho bem conheceu.

 

Também como fruto desta deslocação de Coimbra à terra onde Santa Isabel expirou pela última vez para o mundo terreno, dando-nos todavia um sopro que ainda hoje permanece, escrevi um pequeno texto, publicado mais tarde em Cadernos de Filosofia Extravagante, intitulado «Visita à casa de António Telmo, em Estremoz, neste Temp(l)o do Espírito Santo».

 

Recordo, com saudade, que logo após a recepção do texto o pensador me telefonou, e dado o título na palavra «Temp(l)o», começou por me agradecer, referindo-se à minha excessiva generosidade. Certo é que quando se despediu de nós, à porta de sua casa, num cair de tarde ornado de um aroma de rosas que por ali passava, disse: - Sei que vocês vieram pelo espírito…

 

Eduardo Aroso

VOZ PASSIVA. 05

19-12-2013 15:03

Prefácio a Sesimbra, o Lugar onde se não morre

António Reis Marques

 

Conhecemos o António Telmo alguns dias depois da sua chegada a Sesimbra, para onde seu pai veio exercer as funções de conservador do Registo Civil. Estávamos então em meados da década de 40 e, tal como todo o país, vivíamos com as carências e as dificuldades resultantes do decurso da segunda guerra mundial, das quais a falta de géneros alimentícios e de combustíveis era das mais graves. Apesar disso foi também uma época de viragem na vida local, que recuperava de um longo e doloroso período de crise económica, devida a escassez de pescado, que culminaria no ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, deixando Sesimbra exangue. De facto, foi após esse trágico acontecimento que não só se verificou um sensível aumento na produção das artes de pesca, mas também se conseguiu a almejada construção do porto que melhorou radicalmente a actividade dos seus pescadores, tonificando assim a débil economia da terra.

 

Viríamos depois a saber, por ele, que seus pais hesitaram na vinda para Sesimbra visto que lhes tinham dado a imagem duma terra aonde era predominante a pobreza da sua gente e, ao mesmo tempo, grassava a temível tuberculose que tantas vidas ia ceifando.

 

Na verdade, a “Piscosa” dos anos 30 tinha sido palco de vários acontecimentos negativos que afectaram gravemente a vida de toda a população, que só conhecia alterações durante a época balnear, com a vinda dos banhistas ou habituais frequentadores da sua praia, cuja estadia dava um notável contributo ao comércio e ao rendimento de muitas famílias que lhes alugavam as casas, influenciando também a maneira de ser e de estar dos seus naturais.

 

Era este o quadro da vida sesimbrense, quando o António Telmo cá chegou. Ainda desconhecido, foi primeiro apontado como o filho do “doutor do Registo” e depois pelo Tó, diminutivo familiar que ele nos consentiu e com que passou a ser tratado. Porque era bom praticante de bilhar, um dos seus entretenimentos favoritos, passou logo a frequentar o desaparecido “Café Central”, o único estabelecimento público que dispunha de uma mesa daquele jogo.

 

Foi assim que conheceu os componentes de uma tertúlia que lá reunia e tinha sido criada por duas das mais distintas figuras da cultura sesimbrense: o super inteligente Rafael Monteiro, que parecia já ter nascido com carta de iniciação, e o não menos dotado Zé Preto, o poeta que melhor soube cantar Sesimbra e as suas gentes. À sua volta juntavam-se alguns rapazes mais novos, possuídos por aquele sentimento cívico e afectivo de pertença a uma comunidade, a um povo, pois as afinidades que os aproximavam tinham por matriz o culto do amor à terra, na fidelidade à essência da ancestral e laureada Póvoa marítima em que nasceram e viviam. Queriam entender o presente em função do conhecimento do passado, fundamental para perspectivar o futuro. Assim, os encontros tinham por objectivo, para além do estudo da origem e da história de Sesimbra, o conhecimento dos seus valores, tradições, usos e costumes, para melhor os saber defender e exaltar através da participação na vida das suas colectividades e instituições mais representativas. Porque eram todos de origem humilde conviviam diariamente com gente verdadeiramente simples, que olha a vida com uma singular filosofia que distingue o essencial do secundário, isso dotou-os de uma certa capacidade de percepção da existência de uma realidade que nos transcende e está subjacente em tudo. Todavia, a época e o contexto social em que viviam não valorizavam o pensamento, o primado do espírito.

 

Foi nesta roda que entrou o António Telmo, o qual, como tão bem disse o Rafael, que era o companheiro mais velho e o guia da tertúlia, passou a ser o seu eixo, ou seja o novo condutor que mudaria a rotação, o movimento da roda, fazendo-a girar por outras vias, abrindo outras perspectivas, ensinando-nos a pensar, a reflectir antes de agir, a fazer-nos entender aquele princípio de que todo o acto criativo é precedido de pensamento, a existência da imagem mental antes da criação.

 

Alguma coisa de distinto era já manifesto naquele jovem, algo circunspecto mas com grande poder de sedução, que não partilhava dos hábitos e pequenos vícios dos rapazes da sua idade, que aborrecia futilidades e era sóbrio nos actos e nas palavras que porém traduziam, na clareza e profundidade dos seus juízos, na lucidez das suas proposições, os sinais de uma grande, rara inteligência. Perceberíamos então a afirmação de Almada Negreiros: “as idades do espírito não têm paralelo com as idades físicas e morais da existência, de modo que uns já chegaram a certos patamares enquanto outros ainda agora se meteram ao caminho”. 

 

E a temática das reuniões que não excluía reflexões pessoais sobre a vida social, cultural e política passou a ter outras vertentes desde o conceito de pátria e de identidade nacional até ao auto conhecimento, às velhas interrogações de quem somos nós, qual a nossa origem e destino, e que mistérios se escondem por trás da nossa humanidade. Para tanto, a todos era exigido uma certa elevação nos diálogos e o uso da linguagem mais digna para se exprimirem.

 

Porque, para além de integrarmos a tertúlia, tínhamos também o privilégio de merecer a sua amizade e intimidade, passeávamos juntos pela beira mar ou pelas cercanias da vila, em conversas em que pequenos episódios do quotidiano se transformavam em lições vivas sobre o mundo que nos rodeia, procurando levar-nos a desvendar as essências que as aparências escondem, a compreendermos aquilo que Carlos Queiroz tão bem definiu na quadra:

 

“Ver só com os olhos
É fácil e vão.
Por dentro das coisas
É que as coisas são.”
 

Nessas deambulações ele ia também descobrindo Sesimbra, através do conhecimento dos seus lugares míticos como a fonte da Califórnia, com os seus “medos” e “encantos”, a serra d’Achada com os seus ermos, a “Pedra Alta”, ponto axial onde apareceu a imagem do Senhor Jesus das Chagas, e o pulsar da vida da terra na sua natural ligação ao mar, com as emblemáticas figuras dos velhos arrais da pesca, descendentes dos navegadores de Quinhentos que, para sua surpresa, mantinham na vida profissional a integridade da jerarquia tradicional de moço ou aprendiz, camarada ou companheiro e arrais ou mestre.

 

Seria contudo junto ao campo de jogos da “Vila Amália”, então afastado da vila, que ele nos faria observar uma das mais interessantes manifestações do mundo natural, que depois viríamos a conhecer melhor até pela sua repetição diária. Estávamos conversando ao entardecer de um dia primaveril quando, de súbito, a quietude do lugar se altera com o ruído da chegada dos pardais que se recolhiam, para o seu repouso nocturno, nos ramos dos altos eucaliptos que circundavam o recinto. Eram às centenas e vinham de todos os lados, em contínuas revoadas e num chilreio frenético que se mantinha mesmo quando já empoleirados.

 

Ia-se aproximando a hora do crepúsculo, e é então que se dá o curioso fenómeno em que, numa simultaneidade impressionante e como se fossem elementos de um coro obedecendo à batuta do maestro, todos os pássaros param a chilreada, tudo se cala e cai no mais completo silêncio.

 

É apenas um instante, mas um instante surpreendente, naquela hora mágica, tão propícia à meditação, quando a chegada da noite obscurece os últimos raios solares, que as aves se calam depois dos seus cânticos de despedida da luz, que se oculta até voltar a raiar na manhã seguinte. E, tal como na hora crepuscular, também nos alvores de um novo dia, no regresso da luz, são essas pequenas e graciosas criaturas do maravilhoso mundo alado que, cantando, nos anunciam esses momentos sublimes em que se dá como que a comunhão da natureza com todos os seres.

 

Em preito de gratidão e admiração aqui deixamos esta evocação de algumas vivências e experiências que partilhámos com o António Telmo, na nossa adolescência nesta terra onde ele viveu, ensinou, pensou.

 

(Escrito em 2011)

DISPERSOS. 04

17-12-2013 12:01

Agostinho da Silva e os Titãs

 

Os anos em que vivemos estão marcados por duas manifestações do ser humano aparentemente contraditórias: o titanismo e o infantilismo. Titânicas são as construções em altura das grandes cidades do mundo, os voos de metal cruzando os espaços, a comunicação das palavras e dos números vencendo enormes distâncias, a multidão inumerável dos automóveis, etc.; mas tudo isto assume a forma de brinquedo pelo modo como os telemóveis, a televisão, os computadores, a Internet se tornam os mais comuns e gozosos entretenimentos dos homens, das mulheres e sobretudo das crianças. Eis, depois do futebol, esse gigantesco movimento lúdico que empolga o mundo e que é a própria manifestação do infantilismo. E há disto um sinal evidente: os calções. Há 50 anos, só os rapazes o usavam e a primeira vez que punham calças o sentimento que vivia o adolescente era o de ser recebido como iniciado na sociedade dos homens.

 

Esta combinação do titanismo com o infantilismo envia-nos para a profecia de Daniel interpretando os pés de ferro e barro do ídolo do sonho de Nabucodonosor como o frágil suporte de toda a construção histórica da humanidade.

 

O barro é, segundo o Génesis, a original matéria de onde pelo sopro de Deus se formou o primeiro homem, o homem na sua infância; o ferro é o metal que simbolicamente caracteriza a última manifestação do ciclo, na velhice do mundo.

 

Agostinho da Silva via tudo isto e muito mais. Via-o em íntima claridade, interpretava-o em profundidade. Mas o impressionante é que, perante o espectáculo de um mundo a desfazer-se, em nítida descida para o abismo, continuava a confiar nos homens e nas mulheres que incitava à valentia, ao denodo, à esperança, a crer que só o bem poderia estar no fim e nisso era um aristotélico, porque segundo o sábio grego “a melhor das quatro causas é a final”.

 

É por este traço, excepcional no nosso tempo, que ele, sendo o filósofo de Portugal e do Brasil, é ao mesmo tempo o filósofo do Mundo. Por ele se distingue das duas posições correntemente tomadas perante a fase em que vivemos de evoluir histórico e que são: ou pensar que estamos no culminar do progresso, que atingimos com a tecnologia e com a electrónica o cume do aperfeiçoamento humano; ou considerar que caminhamos para o abismo e que, mais ano menos ano, mais década menos década, estaremos totalmente perdidos.

 

Agostinho diz as duas coisas ao mesmo tempo, mas, para que o paradoxo se possa sustentar, introduz uma terceira: a de tudo depender da decisão do homem, que pode utilizar a tecnologia e a electrónica para ganhar o ócio, que é o pedaço de liberdade que herdámos do Paraíso. O homem, repete ele muitas vezes, não nasceu para trabalhar mas para contemplar o Santo Nome de Deus e, contemplando, trazer a divina energia que por esse modo obtém para tudo quanto faça, sinta ou pense. A filosofia poética do autor de Considerações (lembremo-nos de que a palavra considerações tem no seu seio a palavra sidério) é, por um dos seus mais relevantes aspectos, um Manifesto Contra o Trabalho. Uma vez derrotado, este deixará um vazio imediatamente preenchido pela actividade poética, se o ensino ordenar o espírito da criança para a realização do que mais importa, para a aceitação activa do imprevisível.

 

Agostinho da Silva vê o perigo. Os computadores podem libertar os humanos do trabalho, mas ao mesmo tempo tornar tudo previsível, como já se começa a ver em meteorologia. Ora, sendo o imprevisível manifestação do Espírito Santo, tornar tudo calculável não será como que um esboço do único pecado imperdoável?

 

Ele tinha um nome por assim dizer secreto. Chamava-se também George, mas este nome só era usado entre os mais íntimos. Era o nome próprio, o nome inalienável.

 

George (do grego Gêourgos) é quem trabalha a Terra, é o grande agricultor do mundo humano. Todavia, não nos deixemos enganar. Agostinho da Silva só valorizava uma espécie de trabalho, aquele que é um paradoxo de si mesmo, em que trabalhar tem por fim libertar do trabalho superando-o infinitamente pela criatividade. É o sentido do que diz em entrevista no Jornal de Notícias (17-11-87): “Foram Portugal e Espanha – sobretudo Portugal – a darem ao mundo o conhecimento de si mesmo. Agora lhes conviria e lhes caberia o papel de dar o conhecimento daquilo que é fundamental nesse Mundo. Toda a gente pode ter aquilo a que chamo de “vida poética”, no sentido de criadora, em qualquer dos domínios: artes, ciência, filosofia, mística. Isso é possível e deveria fazer-se”.

 

Hoje, como está à vista e se sofre na pele, lançou-se sobre os humanos uma rede do tempo que os acorrenta ao trabalho, que os escraviza; rede essa que nem espaços entre os fios consente por onde se escape alguém para aquele modo de vida poética. Só em sonho, dormindo, imaginam fazê-lo. Sabemos, porém, que só somos criadores de algo verdadeiro quando estamos lúcidos e bem despertos.    

 

Mais uma vez não nos deixemos enganar confundido ócio com preguiça e desemprego, o ócio que, segundo agostinho, é o que ainda nos ficou do Paraíso. Os acorrentados a um dia inteiro de trabalho, a uma vida inteira, a uma eternidade, sempre com ele preocupados porque é donde lhes vem o dinheiro com que possam alimentar-se e vestir-se a si e aos seus, é inevitável que temam o desemprego que os entregaria de novo à miséria e eis o motivo por que o espírito calculador que comanda hoje a humanidade faz com que haja sempre uma bem estudada margem de desemprego para que todos se sintam ameaçados. Assiste-se então a esta enormidade: são os próprios escravos a fazer a apologia daquilo que os escraviza.

 

Sic transit mundus. Agostinho da Silva vê-o passar como um rio de águas turbulentas que ignore o mar que o vai absorver. Olha-o tranquilo, embora indignado, pois sabe que sem tranquilidade não há verdadeira bondade. Sabe também, na tranquilidade de Gêourgos, que o dragão se deixa dominar por um leve toque da lança, toque tão suave como nos ouvidos da nossa alma obscura a palavra que ilumina.

 

Estas linhas que foram ficando para trás são o débil eco das sucessivas leituras, do imenso convívio com os livros de Agostinho, e com ele próprio, sobretudo durante os anos em que vivi em Brasília, no Centro por ele fundado de Estudos Portugueses. Ali, com ele ao lado, no Centro de Estudos Clássicos dirigido pelo insigne helenista Eudoro de Sousa, não se era escravo do trabalho. Todos tinham o tempo do seu ócio, uns imaginando com Camões ou com Virgílio, outros procurando compreender a história de Portugal e do Brasil pelo culto do Espírito Santo, outros como o Teodoro, modesto funcionário daquele Centro, criando a Casa Cultural de Taguatinga.

 

Era aqui, nos fins de semana, que Agostinho da Silva ensinava aos pobres de espírito, que todos éramos ou pretendíamos ser, o sebastianismo de Portugal e de Canudos ou a fantástica proeza de S. Jorge dominando o Dragão, e explicava o sentido da bandeira do Brasil, não pelo positivismo de Augusto Comte, mas como uma manifestação de Kidr o Verde, animando do ouro da madrugada a Ordem e o Progresso.

 

Num mundo em que o infantilismo anda de mãos dadas com o titanismo, a Ordem confunde-se com o Comando dos Titãs que escravizam ao trabalho, iludindo com jogos e pantominas as inumeráveis gentes que o Progresso põe on-line. Como sempre fazia, Agostinho lançava o paradoxo, ia encontrar liberdade onde se lia ordem e progresso, ligando movimento e contemplação, num rapto metafísico que nos abria as portas do conhecimento no Clube do Teodoro, em Taguantinga, cidade satélite de Brasília. 

 

António Telmo

DISPERSOS. 03

17-12-2013 11:52

Carta prefacial a Barros Basto – A Miragem Marrana, de Alexandre Teixeira Mendes

 

Meu caro Alexandre Teixeira Mendes

 

Esta carta é uma coisa íntima entre descendentes de marranos ou, como diz no seu livro, de cabalistas da noite e aqui cabe lembrar a árvore da noite de Sampaio Bruno; mas, sendo íntima embora, se achar por bem publicá-la como prefácio do seu interessantíssimo livro, nada haverá a opor da minha parte, porque estão por aí outros, talvez muitos, que saberão viver connosco na intimidade do que deveria ser inefável.

 

Pouco ou quase nada sabia, antes de o ler a si, de Artur Barros Basto. Levantou-o do túmulo em que jazia na minha memória e é agora, graças à inteligência do que escreveu, uma figura admirável de «guerreiro», no duplo sentido material e espiritual do termo.

 

Devo, porém, confessar que o que mais me interessou no seu livro foi a ligação desse «guerreiro» com o movimento heróico da Renascença Portuguesa de Teixeira Rego, de Teixeira de Pascoaes e de Leonardo Coimbra, porque tal ligação poderá trazer muita luz, não só sobre a identidade profunda de Barros Basto, mas, para muitos de modo inesperado, sobre o que realmente foi e é esse heróico movimento sem fim enquanto houver Portugal sem renascer.

 

Digo que poderá trazer muita luz. O seu livro é já o alvor dessa luz. O Alexandre Teixeira Mendes sabe muito bem e di-lo por vários modos, que Portugal, terra das três religiões do livro até D. João Terceiro, tornou-se, pelas sucessivas investidas da Inquisição, o país marrano por excelência, o país secretamente judaico, subconscientemente judaico, embora disso só tenham séria consciência os cabalistas da noite que, desde 1857, durante cento e cinquenta anos, até Pedro Sinde, Pedro Martins, até si (2007) têm sabido compreender o que é o movimento da filosofia portuguesa que Sampaio Bruno fundou e Álvaro Ribeiro criou.

 

Teixeira de Pascoaes, como muito bem viu António Cândido Franco, criou o Marános para cifrar o Portugal Marrano contra aqueles traidores que teimam em ver a luz nas labaredas da Inquisição. Sabemos ambos a que traidores aludo. O cristão-novo é, na origem, um ser dividido, dividido entre a religião de seus pais que é obrigado a renegar e a religião cristã que o forçam a praticar. Desse ser dividido formaram-se vários subprodutos: aqueles que foram incapazes de suportar a tensão tornaram-se ou materialistas ateus ou materialistas católicos, esquecendo (no melhor dos casos) ou odiando (no pior) a religião de sangue; outros tornaram-se judeus secretos, praticando ao mesmo tempo as duas religiões, forçados a serem ao mesmo tempo valentes e hipócritas. Mais e diversos resultados são possíveis. Todavia, aquele que me parece decisivo é o dos que procuram os caminhos difíceis, não daquela dificuldade do marrano que pratica às ocultas a sua verdadeira religião, mas de outra mais profunda dificuldade. São os que o Alexandre Teixeira Mendes me ajudou a ver: os da Renascença Portuguesa, os da Faculdade de Letras de Leonardo Coimbra (com Artur Barros Basto o ensino da língua hebraica), por fim os filósofos portuenses exilados em Lisboa e os que se lhes seguiram, vindos de toda a parte.

 

Nestes, a tensão gera a inquietação e a inquietação é um princípio de movimento silogístico. A tensão é entre dois termos: o judaísmo e o cristianismo; ambos são sentidos como verdadeiros, não na ideia de um prolongar o outro, mas na do segundo ser a antítese do primeiro. Então, ou a inquietação se torna perpétua, sem saída para nada, gerando inacabadas oscilações de alma entre duas luzes ou se transforma no que verdadeiramente ela é, princípio de movimento para uma nova religião: aquela que cada cabalista da noite vê à luz do pensamento como a superior síntese dos dois sublimes contrários.

 

É nesta linha que devemos entender o Novo Deus Infante do Regresso ao Paraíso, a Igreja Lusitana de Sampaio Bruno e de Teixeira de Pascoaes, a Idade do Espírito Santo de António Quadros e de Agostinho da Silva.

 

Este homem extraordinário pensava que a Idade do Espírito Santo deveria necessariamente ser precedida de pão para todos e confiava na tecnologia por esta vir resolver todos os problemas materiais, criando o ócio que, vencida a miséria, não serviria para preguiçar mas para viver em activa contemplação o esplêndido renovado mundo.

 

Na famosa afirmação de Cícero «primo vivere, deinde philosophare» Agostinho da Silva via o seu sentido integral, donde não o devemos acusar de pertencer àquela espécie de cristãos-novos que prestam culto ao Bezerro de Ouro.

 

Por Bezerro de Ouro ou simplesmente Bezerro entendo aqui a Economia, a Deusa global. Dela esperam muitos a resolução de todos os problemas materiais dos homens e das mulheres. Por enquanto, mantêm-se as longas extensões de miséria, pelo que somos levados a pensar que a Economia ou não é uma ciência exacta ou então os que nela são entendidos não acertam com o seu ritmo.

 

Num livro meu recente, do qual saíram por enquanto só cinquenta exemplares, Congeminações de um Neopitagórico, lembro oportunamente a função mágica que Fernando Pessoa atribui à letra S e a asserção que faz de vir essa letra a ser a inicial dos homens intelectualmente e politicamente actuantes para bem ou para mal na vida da Pátria.

 

Com efeito, Sérgio, ainda no tempo de Pessoa, como Sidónio Pais, pelo poeta identificado com D. Sebastião e a que chamou Presidente-Rei, como Salazar, em quem de início acreditou e que depois desprezou foram, por diferentes modos, destacadas figuras de políticos. António Sérgio, explicando toda a nossa gloriosa história medieval com razões economicistas é a cabeça de uma longa série de personalidades cujos nomes começam por S. Será uma curiosidade de almanaque, mas nem por isso menos intrigante essa fileira de nomes: Spínola, Soares, Sá Carneiro, Cavaco Silva, Sampaio, Santana Lopes, Sócrates e outros que de momento não encontro. Estes, porém, são suficientes para mostrar como os cristãos-novos adoradores do Bezerro de Ouro estão, se Fernando Pessoa não erra, sob a influência da misteriosa Ordem da Serpente de que só nos diz um em dez.

 

Agostinho da Silva, também no último nome com S inicial, passou da Faculdade de Letras de Leonardo Coimbra para o grupo da Seara Nova, destoando do republicanismo romântico dos seguidores de Sampaio Bruno e preferindo de longe Fernando Pessoa a Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. A Seara Nova era uma promessa de pão, uma messe, uma missa, uma mensagem dirigida à acção imediata, esteada em razões susceptíveis de serem ensinadas onde houvesse mente de homem. Todavia, Agostinho da Silva foi ao mesmo tempo um grande admirador de Teixeira Rego e por ele, seu mestre de religião na Faculdade de Letras extinta por Salazar, através dele, autor de uma Nova Teoria do Sacrifício, sabia qual virá a ser o destino do Bezerro no dia do Grande Sacrifício com as águias de Deus voando acima do mundo.

 

Meu caro Alexandre Teixeira Mendes, a carta já vai longa e não tem assim grande jeito para servir de prefácio. Termino com uma palavra de remorso. Evoco aqueles católicos como António Quadros e Dalila Pereira da Costa, Carlos Aurélio e Pinharanda Gomes e presto-lhes homenagem como a outros por aí ignorados que caracterizo assim: são católicos pelo espírito que não identificam Deus com a Igreja, que acreditam em Deus para além da Igreja e que por isso devem ser associados à heróica linhagem de republicanos para a qual, como ensinou Leonardo Coimbra, «a filosofia é o órgão da liberdade».

 

Não serve então de prefácio esta carta? É a obra de um marrano, cheia de paradoxos e duplicidades, de desvios súbitos, de contradições, de certezas e de incertezas. Como o seu livro que bem haja! Essa estrada aberta para Sepharad…

 

António Telmo       

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