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VOZ PASSIVA. 04

12-12-2013 11:55

Um homem

António Carlos Carvalho


Se a memória não me falha, conhecemo-nos em 1976. O António Telmo foi ter comigo às instalações de «A Capital», onde então eu trabalhava, para me entregar o manuscrito de «História Secreta de Portugal». Trocámos algumas palavras, ali mesmo, no átrio de entrada da sede do jornal e eu recebi das suas mãos o manuscrito de um livro que logo devorei, entusiasmado com a descoberta.

Nessa altura, eu dirigia a colecção Janus da editora Vega, em que desejava publicar obras diferentes sobre temas fora do comum. «História Secreta de Portugal» era exactamente o tipo de obra pretendida. Mas era muito mais do que isso: uma obra pioneira, um rumo novo que se abria entre nós.

Para mim, que alguns anos antes, noutra editora, tinha traduzido «O Mistério das Catedrais», de Fulcanelli, aquele manuscrito de António Telmo era a resposta perfeita à minha interrogação: porque é que não se fazem «leituras» destas a partir dos nossos próprios monumentos, decifrando-os? Pois bem, ali estava então o que eu desejava. Um livro luminoso, que nos abria os olhos para a mensagem do Mosteiro dos Jerónimos.

E assim se publicou «História Secreta de Portugal» na Vega. É verdade que essa edição não nos correu bem, a mim e a António Telmo. Doeu-me e indignou-me a maneira como ele foi maltratado pelo editor – há editores que são verdadeiros predadores, mas só então demos por isso... Passado um ano e tal, o mesmo editor anunciou-me que a colecção Janus ia acabar «porque não se vendia». Afastei-me da Vega em 1978 mas claro que a colecção existe até hoje e continua a reeditar essas obras sem pagar direitos aos autores...
 

Adiante.
 

O António Telmo e eu continuámos a cruzar os nossos caminhos por aí, já sem nenhum vínculo de carácter editorial a ligar-nos, mas com interesses comuns que nos aproximavam. Encontrámo-nos várias vezes em Sesimbra, na casa do Rafael Monteiro, discutindo as excelências da Filosofia e da Religião, cada um de nós batendo-se pela sua dama com a energia que se impunha.
 

Em 1980, assisti, deliciado, no Palácio Foz, à magistral conferência de António Telmo sobre «O Segredo d’ Os Lusíadas». E fui lendo as outras obras que ele ia publicando. Para mim, que nunca fiz parte do grupo da Filosofia Portuguesa mas conheci alguns membros desse grupo, António Telmo era, e continua a ser, o elo da cadeia de transmissão de uma certa forma de pensamento português, neste país cada vez mais à deriva.
 

Lendo o que ele escreve (e relendo, porque somos sempre obrigados a relê-lo) ou ouvindo as suas palavras, aprendo sempre alguma coisa mais. Nele há sempre inovação, o que significa que António Telmo rejuvenesce por dentro. Contador de histórias, os seus contos filosóficos fazem-nos pensar – e acordar. Sem esquecer o seu humor, que nos desarma, a nós que fazemos questão de parecer gente séria e grave.
 

Vejo em António Telmo a figura exemplar do que a terminologia bíblica designa por Zaken, e que é muito mais do que simplesmente o ancião: é o homem que, através da sua experiência, adquriu a sabedoria. De facto, há nele algo do sábio talmudista, aquele que, dialogando consigo e com os outros, encontra sempre algo de novo no que foi dito e repetido até à aparente exaustão

 

Há dias, em troca de mensagens com o Pedro Martins, dizia-lhe eu que sou apenas um farejador, como aqueles cães que buscam seres humanos no meio das ruínas dos sismos. Também eu farejo o Homem no meio das ruínas do nosso tempo. O que não tem nada de novo, de original. A desertificação da humanidade é muito antiga: Moisés «virou-se para um lado e para outro e viu que não havia homem»; David aconselhou ao filho Salomão: «Coragem pois e sê homem»; séculos mais tarde, Diógenes andava com uma lanterna à procura de homens verdadeiros.

 

Essa busca de Moisés, de David e de Diógenes é ainda a nossa, hoje, aliás cada vez mais premente.

 

António Telmo é um desses poucos Homens verdadeiros que me foi dado conhecer.
 

Por isso agradeço a Deus a dádiva e peço-lhe que o guarde por muitos anos, para nos mostrar o Oriente e entender essa luz.

 

(Escrito em 2008)

VOZ PASSIVA. 03

09-12-2013 16:44

OITAVA ILUSTRAÇÃO

que mostra como se escapa à grande deturpação

com uma recensão do livro História Secreta de Portugal

História Secreta de Portugal*

Orlando Vitorino

 


No momento em que se levantam sérias interrogações quanto à possibilidade de sobrevivência de Portugal, eis que surge um livro como este. Livro surpreendente que vem continuar, actualizar, além de a acrescentar com uma singularidade muito significativa, uma tradição de patriotismo que se inicia, talvez, nas obras, por interpretar, do filósofo D. Duarte e do historiador Zurara, para se prolongar até aos nossos dias nas Trovas, do Bandarra e D. João de Castro, no Encoberto, de Bruno, na Mensagem, de Pessoa, e na Arte de Ser Português, de Pascoaes.

 

Ao chegar ao último capítulo desta História Secreta de Portugal, será o leitor informado do propósito do autor: perante a demissão dos “grandes organismos espirituais de ligação do Céu com a Terra” – o autor acabara de designar como tais a Maçonaria e a Igreja Católica – a cada um de nós “resta apenas uma saída: a de ficar só, completamente só em si mesmo e de, nessa solidão, se manter firme, não cedendo um ponto”. Acontece, porém, que, mais radicados nós nela do que nos citados “grandes organismos espirituais” e mais terrena e erradicável do que eles, “há a Pátria”. E o autor demonstra: “Não é por acaso que se nasce português, e misteriosas são as leis das afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?” É, deste modo, próprio da natureza e da existência humana de cada um, pertencer a uma Pátria. Ora “a Pátria somos nós todos, os que vivemos, mas, sobretudo, a cadeia invisível dos antepassados, essa enorme força da espécie que o Anjo marcou na sua génese com uma língua e um determinado sestro, histórico senão transcendente”. História secreta de Portugal é a que procura, nas visíveis pedras dos monumentos, nas audíveis palavras dos poemas, nos manifestos eventos e homens a tais pedras e palavras ligados, esse sestro histórico que, no caso do Portugal, se afigura efectivamente transcendente.

 

Onde estão sinais e segredo, estará a decifração. António Telmo decifra, primeiro, o enunciado do sestro nas pedras do claustro e do portal dos “Jerónimos” que compõem uma imagem cuja legenda – pois não há imagem sem legenda – é pela primeira vez lida. Decifra, depois, o seu significado nas palavras de Os Lusíadas a que dá uma interpretação poética e teológica que deixa na penumbra tudo quanto, em saber literário e historicista, até hoje se disse sobre o grande poema. Decifra, por fim, a sua agonia nos versos de Pascoaes e Pessoa, e aqui demoramos um pouco a notícia deste livro.

 

António Telmo apresenta Fernando Pessoa como o “rectificador da maçonaria” da qual tinha um saber – “a maioria dos seus poemas constituem o desenvolvimento dos ensinamentos maçónicos” – que os maçons há muito perderam trocando-o por artificiais, inadequadas e ridículas interpretações activistas e positivistas. Pessoa refutou e repudiou a tese, comum a Sampaio Bruno e José de Maistre, de que a maçonaria seria uma “organização judaica”: a influência do judaísmo na maçonaria, tal como a do catolicismo, a do protestantismo e a do ateísmo, só se terá dado a partir do século XVIII através da introdução de “graus iniciáticos” que se sobrepuseram aos “graus simbólicos”. Nos “graus simbólicos”, a maçonaria terá sido, sempre segundo a interpretação de Pessoa, o prolongamento da Ordem dos Templários e como tal é que estará no “segredo de Portugal”: a Mensagem é, até ao Valete Fratres do ritual das “lojas” com que encerra, a descrição maçónica, mas de uma maçonaria “rectificada”, da história secreta de Portugal.

 

Pascoaes é-nos apresentado como o “outro” de Pessoa. Sugere António Telmo que há, nos seus versos, “uma excessiva beleza” e que é essa excessiva beleza que torna a maioria dos portugueses hoje incapazes de os entenderem, até de os lerem, aparecendo-lhes eles como um “infindável marulho de som”. Uma das chaves deste livro é a erudita sensibilidade para com os valores estéticos da poesia, que o autor em geral esconde na exposição conceptual das interpretações que faz dos poemas. Essa sábia sensibilidade chega a explodir com um vigor polémico que, todavia, se contém para a não denunciar. É o que acontece nas páginas onde se descreve “a campanha feroz que os sergistas movimentaram contra os grandes poetas do sagrado, Pascoaes, Pessoa e Régio, hostilizados socialmente, à direita e à esquerda da cruz, porque se atreveram a imaginar ou a pensar a ideia de Deus”; ou naquelas outras páginas onde o autor, depois de nos dizer que o “saudosismo foi catalogado como corrente literária para ser esquecido no mar dos medíocres onde se perdem e afundam todas as correntes”, observa: “O papel dos adversários do povo português é este. Não podem fazer outra coisa senão crítica literária ou o análogo.”

 

É na poesia de Pascoaes que o “sagrado” adquire um actual sentido universal. Todo o movimento é composto de progresso e de regresso. E porque não há – como sempre observava José Marinho – “progresso infinito”, para lá de certo limite o progresso cai numa “separação abissal” do princípio que lhe deu origem e só persiste como degradação e perdição. Uma das formas mais patentes e fatais desta degradação, reside na oposição e no ódio à natureza, representados, primacialmente, pelo sistema da filosofia alemã. A esta degradação progressista importa opor a sublimação regressista: “O que sobretudo importa – diz António Telmo – é o encontro do homem consigo na natureza sem ninguém, do homem que por uma transmutação interior se torna capaz de um contacto efectivo com aquilo que a natureza é: o lado oculto das coisas e dos seres. Não só perdeu esse contacto como a possibilidade dele. Pascoaes foi a última tentativa para restabelecer essa possibilidade.”

 

O que se pode entender pelo “homem transmudado” verá o leitor que é “o homem que pensa e conhece com todo o seu ser”; o que se pode entender por natureza, é o que em Pascoes se aprende. “Aprende-se a conhecer na natureza visível o seu duplo oculto. Todos os seres têm o seu duplo, diz-nos Pascoaes, e as sombras constituem o verdadeiro lado das coisas. Por sombra entende ele […] a imagem secreta de cada coisa, que se torna presente ao espírito por uma invocação mágica que nomeia o ser da coisa e os seus atributos: a ideia.”

 

Neste último texto transcrito, encontramos a expressão daquilo que, na abertura desta “notícia”, dissemos ser “a singularidade muito significativa” do livro de António Telmo. Com efeito, as obras de tradição secreta, ocultista ou esotérica, suscitam sempre a suspeita e receio de se tratar de obras onde o pensamento não sai do labirinto, sempre perturbante e muitas vezes belo mas sem finalidade, das combinações, comparações e metáforas, das analogias sem anagogia. Outra suspeita que poderia também suscitar um livro do autor de A Arte Poética – publicada há dez anos para ficar circunscrita ao círculo, ou ao “gueto”, onde se refugia a livre poesia – seria a de se tratar de uma armadilha destinada a atrair caçadores de borboletas, isto é, perseguidores do segredo da alma, neste caso a de uma Pátria, que, ora rastejante ora alada, sucessivamente se esconde para em nova forma surgir e surge para de novo se esconder, e em suas metamorfoses infinitamente repete o mesmo eterno ciclo de progresso e de regresso. Ora em todo este livro, como no texto transcrito, verificará o leitor que António Telmo não ficou nem na imagem muda do saber secreto nem na palavra poética da imaginação sem conceito: – num primeiro momento, a imagem emerge ao espírito por uma invocação mágica, operação na qual reside o pensamento esotérico que – à maneira do amor em Dante – solicita todo o ser do homem; num segundo momento, a invocação adquire substância poética, ou palavra, pois nomeia, dá nome à imagem invocada; num terceiro e último momento, o nome dado à imagem invocada é o nome do “ser da coisa e seus atributos: a ideia”.

 

O saber poético em que culminou o saber esotérico, culmina, por sua vez, no saber filosófico. E ao situar no último momento, sem o qual os outros pouco ou nada são, a filosofia, o leitor decerto evocará, expressa como ela está pela “ideia”, os dois pensadores de extrema oposição que foram os dois filósofos da “ideia”: Hegel e Platão. Não se trata, porém, da ideia de Hegel, que é a ideia de Deus encarnado, do Cristo, cingido como está todo o pensamento hegeliano – sistematização acabada da filosofia nórdica ou moderna – a um penoso comentário pari passu da missa cristã. A ideia, “ser da coisa e seus atributos” – ou ser e saber do ser – aparece aqui como uma interpretação anagógica das sombras de Pascoaes. É pela poesia pontifical, pela função pontifical da poesia, que, por cima e para além das águas já mortas do hegelianismo, a ideia nos prende a Platão que também pôs nas sombras o patente e o secreto.

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*Artigo não assinado, publicado no segundo número da revista Escola Formal, de Julho de 1977.

VOZ PASSIVA. 02

09-12-2013 16:20

António Telmo, Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães Editores /1989*

António Cândido Franco

 

O título deste livro de António Telmo, Filosofia e Kabbalah, poderia na prática ser lido de outro modo: Filosofia e Poesia. Trata-se, com efeito, de uma obra que se organiza sempre em torno das relações entre Filosofia e palavra poética. Nela coexistem assim os estudos e as interpretações dedicados a poetas como Pascoaes, Pessoa e Camões com os trabalhos dedicados a filósofos também portugueses: Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e José Marinho. Esta interacção entre Poesia e Filosofia adquire em António Telmo uma consciência invulgar, que não se limita a encontrar linhas de correspondência entre filósofos e poetas portugueses, num diagrama subtil e muito ajustado (p. 84), mas vai ao ponto de postular a filosofia como arte poética porque tem a metáfora por instrumento. É ao defender que a metáfora é o verdadeiro organon do pensamento que Telmo firma uma verdadeira arte poética. Para o Autor, a metáfora não é apenas uma “rotação de atributos à volta da mesma substância”, mas uma translação do próprio pensamento. Em António Telmo as palavras procuram-se sempre noutras palavras mais subtis – recordemos, neste sentido, que o seu livro de estreia, no já recuado ano de 1963, se chamava justamente Arte Poética e apontava para o entendimento do pensamento a partir da poesia ou, o que vem a dar ao mesmo, da Kabbalah. A possibilidade de substituir esta pela palavra poesia não nos deve surpreender: basta sabermos que a Kabbalah é uma forma específica de encarar a linguagem verbal humana, onde o signo linguístico não é arbitrário e convencional, mas sim natural e não-contratual.

 

Os estudos dedicados no presente volume à poesia de Teixeira de Pascoaes, de Fernando Pessoa e de Camões partem desta perspectiva de translação do sentido e do pensamento, e conseguem excelentes resultados. A leitura do célebre e conhecido soneto “Gomes Leal” de Fernando Pessoa é, sob este aspecto, esclarecedora. António Telmo lê o título do poema como um disfarce ou termo de substituição. Pondo lado a lado o soneto e o horóscopo de Fernando Pessoa, acaba por chegar à conclusão de que o título do poema encobre afinal um auto-retrato do próprio autor. Esta original leitura é um feliz exemplo de como a translação do sentido e do pensamento pode obter excelentes resultados. Também a translação do som – técnica muito antiga, que já Sócrates aconselhava a Hermógenes no Crátilo de Platão – pode alcançar sucessos semelhantes. Assim, quando lê Adamastor como Adão Astral (o Adam Astor) António Telmo estabelece, por translação de som, uma curiosa e original interpretação desse nome e, por consequência, do passo onde ele se encontra. Já Fernando Pessoa, segundo informação do autor de Arte Poética, era exímio praticante do mesmo tipo de exercícios interpretativos, podendo por exemplo o título Mensagem ser lido e interpretado a partir da expressão latina Mens Agitat Molem (cf. p. 168). 

 

Num livro sobre Sampaio Bruno, Joel Serrão refere a seu propósito a existência de dois tipos de fontes, as quais nos parecem poder ser extensivas à totalidade da cultura dum país ou duma língua. As fontes exotéricas são as mais conhecidas e aquelas que, pela facilidade de acesso, dominam o gosto e a moda da época. Pelo contrário, e apesar de resumirem muitas vezes o essencial não só do que passa mas do que permanece, as fontes esotéricas são de aceso difícil, pois requerem um saber operativo: só um escol culto e interessado parece ter conhecimento delas. Nos últimos trinta ou quarenta anos os estudos mais conhecidos sobre a poesia portuguesa clássica ou contemporânea têm sido quase inteiramente dominados pelo uso exaustivo daquilo a que Joel Serrão chama fontes exotéricas – António Telmo é precisamente um dos hermeneutas que prestam atenção às outras fontes da nossa poesia.

 

O uso das fontes esotéricas tem a vantagem de aproximar o intérprete do texto e dos seus vários níveis de sentido. Além disso e apesar de usadas por um escol muito minoritário em relação ao conjunto da população, essas fontes parecem ser responsáveis por quase todos os momentos verdadeiramente marcantes da nossa poesia. A de Herberto Helder é ainda hoje um excelente exemplo da sua vitalidade actuante. Lembremos as suas palavras: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”, palavras que se podiam perfeitamente aproximar de algumas outras de António Telmo. O gosto de trasladar o sentido, tão característico da poesia de Herberto Helder, pode ser vantajosamente aproximado do gosto de trasladar o pensamento que caracteriza a filosofia ou a hermenêutica de António Telmo. Nenhum poeta estará assim tão próximo de António Telmo pois nenhuma poesia formula com tanta evidência aquilo que a filosofia de Telmo postula: a metáfora como instrumento de pensamento. Há neste paralelismo, o mais actual no nosso país entre Filosofia e Poesia, a certeza de que estamos ante um autor que, apesar da obscuridade a que se tem remetido, ou por causa disso mesmo, é dos mais importantes intérpretes da poesia portuguesa e um daqueles que, com mais proveito e originalidade, se movem hoje no campo da hermenêutica literária.

____________  

* Publicado em Colóquio/Letras, n.º 120, Abr. 1991, p. 227-228.

DIÁRIO DE UM FILÓSOFO PITAGÓRICO. 01

09-12-2013 15:17

12 de Fevereiro

A surpresa foi geral. Convidado pelo Venerável a falar sobre um tema à minha escolha, durante alguns minutos dissertei sobre o número 9, que todos sabemos ou devemos saber que constitui o número que domina o Rito Escocês Rectificado do primeiro ao último grau, mas sobretudo o 3.º grau, Mestre Maçon, chamando, porém, a atenção dos que me ouviam para a prancha de traçar, própria deste grau, com o seu quadrado mágico de 1 e 9 que pela associação com a cruz de Santo André produz o nosso alfabeto, cujos elementos se tornam significativos como os vários elementos da Rosa dos Ventos, isto é, como espíritos. O número exacto desses elementos é 26 (2x13), 13 vazios e 13 plenos (como, por exemplo, o A e o B). 26 sopros ou espíritos do ar.


Depois de várias intervenções (do ******, do ****** e da minha) F   criou a surpresa geral mostrando como essa era a nona reunião de 2005, e que estávamos ali precisamente nove irmãos. A sessão terminou com os habituais aplausos feitos com ambas as mãos de todos os presentes e foram 81. Outra coincidência: paguei o que devia em quotas: 81 euros.   


Todos estes acontecimentos constituem mais um acontecimento da minha associação ao número nove, associação que é comum a nós todos, mas que a mim foi particularmente anunciada através da minha filha que entre o sono e a vigília ouviu ser-lhe dito: “O teu pai vai ser associado ao número 9”. Isto na manhã do dia em que fui elevado ao grau de Mestre.

 
António Telmo

FOTOS COM HISTÓRIA(S). 01

09-12-2013 14:48

 

 

Afonso Botelho e António Telmo no Colóquio "Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa", realizado no Porto em 1993 (Arquivo pessoal de Paulo Samuel).

 

POEMAS. 01

09-12-2013 12:25
(poema inédito)
 













Ave, sombra que pairas sobre o lago
Que sabes sem saber a dor que trago,

Sejas sinal benigno ou aziago

Venhas pelo diabo ou por Santiago,
Gaivota ou abibe, íbis egipcíaco,
Má ideia no sonho do arcedíaco,
Quimérica criação do demoníaco,
Irreal forma do Ser único e triádico,
Sejas quem sejas, só na vil demência
P’lo fio subtil da minha íntima essência
Destruo o masoquista e anulo o sádico.

António Telmo

(fotografia, inédita, do arquivo pessoal de Paulo Samuel)
 

VOZ PASSIVA. 01

09-12-2013 12:06

António Telmo: a visão esotérica do pensamento português

Miguel Real

 

Entre os diversos pensadores vinculados as teses da "Filosofia Portuguesa", António Telmo é o que mais se encerra no universo simbólico ocultista. Mais do que uma visão providencialista da história de Portugal, de sentido milenarista, como as defendidas pelas obras de Agostinho da Silva, António Quadros ou Dalila Pereira da Costa, António Telmo constrói uma filosofia solitária fundada na totalidade das tendências ocultistas  e  herméticas da civilização ocidental, criando uma das mais singulares casas do pensamento do Portugal dos finais do século XX. Atraído pela leitura cultural esotérica, a obra de António Telmo encontra-se envolvida por um espírito de suspeição, própria do seu universo simbólico, como os títulos de alguns dos seus livros o indicam explicitamente: História Secreta de Portugal, Horóscopo  de Portugal, Gramática Secreta da Língua Portuguesa e Filosofia e Kabala, revelando, de um modo subtil, os arcanos profundos da cultura portuguesa de um modo como nunca fora  feito em Portugal.

Neste  sentido, a singularidade do pensamento de António Telmo para a configuração geral do pensamento português na segunda metade do século XX reside, justamente, na integração que opera do pensamento esotérico no seio da cultura portuguesa, dando a este um cunho de cidadania que, preso a grupos voluntariamente marginais ou clandestinos, até então lhe tinha sido recusado. Este, indubitavelmente, o grande contributo de António Telmo para a cultura e o pensamento portugueses - trazer sem complexos a visão esotérica para a casa do pensamento português.

 

Sublinhamos a sua visão da história cultural do país, explicitada em  A História Secreta de Portugal[1], já que constitui  um importantíssimo contributo para o pensamento português dos finais do século XX.

Profundamente influenciado pelo pensamento de Fernando Pessoa, António Telmo considera existir uma história “secreta” providencial portuguesa, feita de mistérios e cifras, paralela à historiografia oficial dominante, a qual, no seu entender, une as perspectivas só aparentemente contraditórias de “Teófilo Braga [o positivismo historiográfico] para Salazar e de Salazar, através de [Marcello] Caetano, para Vasco Gonçalves [primeiro-ministro de tendência marxista de governos provisórios post-25 de Abril de 1974]”:

 

Compreende-se assim que os políticos e seus serviços, neste últimos cento e um anos, divididos entre si, na medida em que defendem aspectos diferentes da mesma ideia (as numerosas conversões à política de um partido e a deserção de outros, e a facilidade de despir e vestir, conforme as circunstâncias, a cor política constituem o sinal de que nenhuma diferença radical opõe democratas-cristãos, sociais-democratas e comunistas), se conluiem e acertem uns com os outros, quase por instinto, quando no horizonte cultural da Pátria surge a luz de uma doutrina portadora de uma visão superior da vida e da história [a doutrina providencialista e messiânica]. Este nosso livro pretender dar alguns dos aspectos fundamentais dessa visão que, até agora, se exceptuarmos alguns apontamentos de Sampaio Bruno [refere-se ao livro póstumo Os Cavaleiros do Amor] e de outros pensadores[2] onde ela se demorou breves instantes, apenas recebeu uma expressão cifrada [no sentido de “misteriosa”].[3]

 

António Telmo considera que a realização providencialista de Portugal foi interrompida no reinado de D. Manuel I, findando neste reinado o que designa por “Ciclo Heróico ou dos Reis” da História de Portugal. Por deveras original, tem um notável interesse para a história do pensamento português contemporâneo a sua divisão da história de Portugal:

 

Neste nosso livro, procurámos determinar os ciclos da história de Portugal, como se a imagem perseguida pelo tempo fosse a do Quinto Império. Dividimo-la no ciclo heróico ou dos reis, no ciclo do clero e no ciclo do povo, de acordo com o esquema dos estados sociais do mundo medievo. O ciclo do povo coincide, no seu termo, com a implantação da República e principia com o Marquês de Pombal, quando a Igreja Católica perde o favor político a favor da Maçonaria. O ciclo do clero começa em D. Manuel e define-se como tal como D. João III e o estabelecimento da Inquisição. Depois de 1910, não se nos representa novo ciclo, mas surge um período de indeterminação, dominando pela ideia de plebe. Entendemos por plebe as formas degenerescentes que assumem os três estados sociais – nobreza, clero e povo. Neste período, o princípio monárquico da história de Portugal está apenas confiado aos poetas e filósofos da profecia.

A unidade, que comanda de início ao termo todo o processo é, como dissemos, a ideia de Quinto Império, mas se, no ciclo dos reis, é a ideia pura (...), aparece no segundo ciclo, já pela voz de Camões e, sobretudo, em D. João de Castro e António Vieira, como o domínio da Cristandade sobre todo o universo, no terceiro ciclo essa ideia entra em progressiva degenerescência até configurar-se no socialismo.[4]

 

A identidade nacional permanece intemporalmente presa das características determinantes do “ciclo dos reis”, como operador do projecto templário,  findando definitivamente como possibilidade material realizadora em Alcácer-Quibir (1578), prosseguindo desde então em Portugal com existência “apenas em forma fantasmática”[5], representando, seja o clero, seja o povo, um abastardamento ou uma degenerescência da ideia fundadora e mantenedora de Portugal. Princípio e fim da história de Portugal, a ideia de Quinto Império é tomada na actualidade por António Telmo, não no sentido material, político e militar que lhe atribuiu padre António Vieira, mas no sentido simbólico, cultural e espiritual dado por Fernando Pessoa em Mensagem. Por via de uma análise demorada dos adereços sagrados do portal sul e do claustro do mosteiro dos Jerónimos, a partir de indicações lidas nos livros dos espiritualistas franceses René Guenon e Julius Evola, António Telmo encontra a comprovação das suas ideias sobre o Quinto Império e o período magno dos reis na efígie do navegador Nicolau Coelho, na qual se representariam, interpretadas esotericamente, a “iniciação” do próprio Nicolau Coelho, constituída analogicamente como “iniciação” de Portugal, dupla “iniciação” que, devidos aos inúmeros pormenores escultóricos e arquitectónicos, nos dispensamos de aqui repetir. Importante é de referir que seria cerca do ano de 1513, data da entrega do novo mosteiro à ordem dos Jerónimos, que findaria o ciclo heróico de Portugal.

Do mesmo modo que o mosteiro dos Jerónimos, Os Lusíadas constituiriam o poema “esotérico” em que se inscreve a história “oculta” de Portugal tendo como motor a realização do Quinto Império, ou seja, como unidade absoluta ontológica que tudo enlaça, fundindo e não separando, ou, dito ao modo de António Telmo, o reino do “Amor”, expressão de “unida esfera”, princípio e fim de tudo, simbolizada no poder imperial de D. Manuel (a esfera armilar) e na nova forma geográfica da Terra. Camões seria, assim, um “fiel do Amor”, em que esta palavra tanto significa o laço ontológico que une toda a história de Portugal como, igualmente, lida ao contrário, a procura de uma nova “Roma”, não a cristã e papal, mas a portuguesa, perpetuando assim a tradição esotérica templária, centrando a sua epopeia no “Ilha dos Amores”, instância supranatural abolidora do tempo e do espaço e configuradora da dimensão da eternidade no seio do tempo.

Jerónimos em pedra e Os Lusíadas em verso, ambos os monumentos, interpretados simbolicamente, melhor dito “ocultamente” e “iniciaticamente”, exprimem e cristalizam o momento fundante e finalizante da identidade cultural portuguesa. Porém, Camões, vivendo já sob o reinado de D. João III a D. Sebastião, da “apagada e vil tristeza” em que se tornara Portugal já canta na sua epopeia:

 

Os Lusíadas são, de facto, como alguém disse, o Velho Testamento de Portugal, esse povo tríplice: cristão, judeu e árabe. A partir de 1513, forma-se uma sociedade corrupta, semimorta, sem ideal, apagada, vil e austera. Os judeus que não fugiram do país tiveram de converter-se ao catolicismo. As pessoas tornam-se inquietas, temerosas, divididas entre duas crenças. Ser-se inteligente é considerado pela Inquisição o principal indício de judaísmo.

É, porém, o que há de cripto-judaico, inconsciente ou não, que em 1755 se tornará dominante, dando início ao terceiro ciclo da nossa história, o ciclo do povo que, pela Maçonaria, conservará ainda algumas reminiscências  do ciclo dos reis. O Padre António Vieira representa a tentativa, com a sua actividade política e missionária, e com a sua História do Futuro, de restituir ao catolicismo a dignidade do Império. Anos antes, uma organização a que não seria alheia a actividade de António Vieira, lançara as profecias do sapateiro Eanes Bandarra, onde se antevisiona a vitória final da Igreja Católica através do regresso do Imperador do mundo. Tudo isto é irreal, como dirá mais tarde Fernando Pessoa, mas constitui a projecção na perturbação dos espíritos de qualquer coisa de muito sério, da qual Luís de Camões parece ter tido ainda um conhecimento real [o da concretização material do Quinto Império como motor dos Descobrimentos].[6]

 

Vivendo hoje um período de "indeterminação", Portugal, representado pelos seus poetas, especialmente pela obra de Fernando Pessoa, espera o regresso d'O Encoberto, que, revelando-se, activará o advento do Quinto Império, princípio e finalidade da existência de Portugal.

 

 


[1] António Telmo, História Secreta de Portugal , Lisboa, Vega, 1977, cf. Pedro Martins, "Nota Editorial" a História Secreta de Portugal, Sintra, Zéfiro, 2013, edição donde citaremos.

[2] Note-se que António Quadros ainda não lançara os seus dois volumes de Portugal. Razão e Mistério, 1986 e 1987; porventura António Telmo referir-se-á a Dalila Pereira da Costa, cujo texto sobre a saudade, em edição conjunta com Pinharanda Gomes, saíra no ano anterior, 1976, bem como o seu livro sobre O Esoterismo em Fernando Pessoa, de 1971. É evidentemente possível que o autor se refira aos dois livros de Agostinho da Silva Um Fernando Pessoa e Reflexão à margem da Literatura Portuguesa, dos finais da década de 50.

[3] António Telmo, op. cit., p. 30 - 31.

[4] Idem, ibidem, p. 35.

[5] Idem, ibidem, p. 34.

[6] Idem, ibidem, p. 100.

 

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