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VOZ PASSIVA. 16

17-03-2014 09:07
de António Quadros Ferro, neto de António Quadros e membro do nosso projecto, sobre a Correspondência entre António Telmo e António Quadros, comunicação apresentada ao Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo", realizado em 14 e 15 de Fevereiro de 2011, no Palácio da Independência, em Lisboa, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, já documentada no III volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Sublinhe-se que esse precioso acervo epistolar, transcrito por Afonso Cautela (cartas de António Telmo) e Pedro Martins  (cartas de António Quadros), com revisão e organização geral de Mafalda Ferro e Pedro Martins,  se encontra em vias de publicação no V volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante.

Ler mais: https://antonio-telmo-vida-e-obra.webnode.pt/news/antonio-quadros-evocado-pelo-projecto-antonio-telmo-vida-e-obra-ao-longo-da-proxima-semana-/
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de António Quadros Ferro, neto de António Quadros e membro do nosso projecto, sobre a Correspondência entre António Telmo e António Quadros, comunicação apresentada ao Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo", realizado em 14 e 15 de Fevereiro de 2011, no Palácio da Independência, em Lisboa, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, já documentada no III volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Sublinhe-se que esse precioso acervo epistolar, transcrito por Afonso Cautela (cartas de António Telmo) e Pedro Martins  (cartas de António Quadros), com revisão e organização geral de Mafalda Ferro e Pedro Martins,  se encontra em vias de publicação no V volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante.

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Na semana em que se assinala o 21.º aniversário da morte de António Quadros, publicamos hoje, de António Quadros Ferro, neto do autor de O Movimento do Homem e membro do projecto António Telmo. Vida e Obra, o seu estudo sobre a "Correspondência entre António Telmo e António Quadros", comunicação apresentada ao Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo", realizado em 14 e 15 de Fevereiro de 2011, no Palácio da Independência, em Lisboa, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, já documentada no III volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Sublinhe-se que esse precioso acervo epistolar, transcrito por Afonso Cautela (cartas de António Telmo) e Pedro Martins  (cartas de António Quadros), com revisão e organização geral de Mafalda Ferro e Pedro Martins,  se encontra em vias de publicação no V volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante.

 

 Correspondência entre António Telmo e António Quadros

António Quadros Ferro

 

Em vias de terminar a organização da correspondência de António Quadros, não posso deixar de aproveitar esta oportunidade para fazer uma breve descrição do conteúdo deste acervo que, desde 2008, a Fundação António Quadros preserva no seu espólio.

Note-se que, à partida, qualquer descrição como esta depende de critérios pessoais ou autorais, mais ou menos subjectivos, sendo que o que se descreve provém daquilo que se escolhe ou daquilo que se exclui, do que se relativiza ou enfatiza, em suma, do que voluntária ou involuntariamente se regista.

Por outro lado, e porque não se trata de um descrição técnica, a riqueza deste espólio merece mais do que uma avaliação genérica que confira a si própria limites, mas antes de uma reflexão que, não perdendo de vista aqueles dados, seja capaz de fazer uma leitura tão ou mais abrangente do que a particularidade dos números nos sugere. De qualquer forma, importa notar que a correspondência reunida compreende um período que começa em 1944, tinha António Quadros apenas 21 anos de idade e termina em 1993, no ano da sua morte. São cerca de 1200 cartas de 450 autores portugueses e estrangeiros. Poetas, escritores e filósofos, como José Régio, Herberto Helder, Teixeira de Pascoaes, Sophia de Mello Breyner, Mircea Eliade, Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Sant’Anna Dionísio, Delfim Santos, entre muitos outros.

O epistolário de António Quadros (1923−1993) com António Telmo[1] (1927−2010) compreende mais de 35 anos de amizade e respeito mútuos. São 30 cartas, enviadas de Lisboa para Estremoz e vice-versa, que documentam o que está para além das obras e do pensamento de cada um. O que hoje vou procurar trazer a lume, e que urge transmitir, para além de pretender ilustrar os momentos mais significativos da actividade filosófica de António Quadros e António Telmo, complementa o estudo possível do pensamento dos dois filósofos e ultrapassa, em muitos aspectos, a compreensão das afinidades e diferenças especulativas entre um e outro pensador.

O primeiro contacto de António Telmo com a Filosofia Portuguesa acontece através de Orlando Vitorino (1922-2003), irmão do autor de Arte Poética, e fundador dos fascículos de cultura Acto com António Quadros, em 1951. Orlando Vitorino recebe lições particulares de José Marinho, em Arruda-dos-Vinhos, onde os irmãos viviam com a família. Nessa altura, António Telmo era uma criança de catorze ou quinze anos de idade e só mais tarde viria a compreender a importância futura, dir-se-ia eterna, do que na sua casa estava a acontecer. Era um momento decisivo na vida dos dois irmãos, era o início de tudo o que de extraordinário aconteceu depois.

Alguns anos mais tarde, António Telmo, também através do irmão Orlando, ouve pela primeira falar na tertúlia que Marinho e Álvaro Ribeiro, discípulos de Leonardo Coimbra no Porto, organizavam em Lisboa e apressa-se a juntar-se àqueles que viriam ser seus mestres para toda a vida.

Sabemos que António Telmo se interessa desde muito novo pelas letras. Começa a estudar sozinho aos dez anos de idade, preparando-se para os exames que vem fazer à capital. Ainda assim, esta autonomia, segundo conta numa entrevista, revela-se pouco útil enquanto estudante universitário. Demora demasiado tempo a tirar o curso de Letras, por, segundo conta, ter sido demasiados anos auto-didacta. No entanto, apesar desta confissão, António Telmo nunca perderia esse gosto pela autonomia e, sobretudo, pela liberdade própria do seu pensar, liberdade essa, também largamente protagonizada pelo seu irmão Orlando.

Em qualquer dos casos, o primeiro encontro de António Telmo com António Quadros, só acontece em Lisboa no café Palladium ou, talvez, na Brasileira do Rossio. É ali que Álvaro Ribeiro e José Marinho criam a Universidade da Filosofia Portuguesa e onde se encontram, durante mais de 30 anos, algumas das figuras mais importantes da cultura portuguesa do séc. XX.

A poucos metros dali, com galáxias a separá-los e milhares de anos-luz pelo meio, no Café Gelo, havia, com homens de índole diferente ou até oposta, outra tertúlia a acontecer. Eram Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, António José Forte, Herberto Helder, entre outros, altos representantes do nosso surrealismo e, alguns deles, heróis marginais, com maior ou menor mérito.

A vocação espiritual de António Telmo, encontrava na prelecção alvarina, e não no vizinho teatro surrealista, a companhia necessária para, mais tarde, realizar uma obra única, que ao longo dos anos não escapou aos elogios de António Quadros, também discípulo de Álvaro Ribeiro e continuador da Arte de Filosofar. A propedêutica cultural e filosófica de ambos, é, aliás, evidente nas suas obras, como um acto de manifesta continuidade dos temas nucleares da obra de Álvaro Ribeiro. Tanto para António Quadros como para António Telmo a filosofia é uma arte e jamais poderia ser ciência. Por isso, na perspectiva filosófica de ambos estava a existencialidade da língua portuguesa, expressa, nomeadamente, em ensaios de filosofia da história e na crítica ao positivismo que ao longo dos anos foram desenvolvendo.

Se de António Telmo, António Quadros, recebe dezasseis cartas, já de Orlando Vitorino, recebe apenas uma. A relação dos dois irmãos com António Quadros não foi idêntica, como o intercâmbio epistolar o demonstra, mas ambos despenharam papéis extraordinariamente relevantes na sua vida. De qualquer forma, é com Orlando Vitorino que António Quadros funda o Acto, do qual sairão dois números, entre 1951 e 1952. Apesar do fim prematuro desta publicação, este foi apenas o inicio de uma longa e fecunda prática filosófica realizada por estes pensadores, sob o importante magistério de Álvaro Ribeiro e José Marinho.

Já António Telmo, manteve uma longa e riquíssima correspondência com o autor de Portugal Razão e Mistério. O contacto entre os dois teria sido mais próximo, não tivesse António Quadros alguma relutância em deslocar-se a Estremoz, onde António Telmo vivia e leccionava a disciplina de Português. São vários os convites para que o visitasse, ao ponto de António Telmo, escrever a António Quadros, com ironia, dizendo: “Olhe que a Áustria é bem mais longe. Acabarei por ter de abraçá-lo aí em Lisboa ou Cascais.”

Num artigo, publicado em 1991, António Telmo é descrito por António Quadros, como “um fugitivo dos grandes centros urbanos, procurando o sossego e o silêncio para melhor guardar a sua autonomia.”

A verdade é que, apesar disto, António Quadros foi um dos mais importantes interlocutores de António Telmo. Em 1977, ano em que Orlando Vitorino cria, com Afonso Botelho, a revista Escola Formal, António Telmo publica História Secreta de Portugal, obra que António Quadros recebe com entusiasmo e que lhe suscitaria, por via epistolar, uma interessante reflexão, que, embora, nem sempre coincidente, revela a proximidade programática traçada pelos dois escritores. Nessa carta, António Quadros elogia a capacidade de António Telmo para compreender a história de Portugal, em especial as questões relacionadas com as ordens do Templo e de Cristo. Mas não deixa de questionar a periodificação escolhida pelo autor, por ser limitada no tempo e, por conseguinte, não considerar a história de Portugal antes do séc. XVI, antes da fundação da nacionalidade ou da criação da ordem de Cristo. Na perspectiva de Quadros, faltava ainda à História Secreta de Portugal, um estudo sobre a importância do Culto Popular do Espírito Santo e das teorias joaquimitas, matéria que o próprio viria a desenvolver exaustivamente em Portugal Razão e Mistério, publicado dez anos depois.

Em 1981, é a vez António Telmo felicitar António Quadros depois deste publicar o ensaio Fernando Pessoa, A Obra e o Homem, considerando-a uma obra prima de biografia espiritual e reconhecendo que o seu autor soube distanciar-se daquilo com que parecia estar identificado. Estamos longe da primeira fase do movimento da filosofia portuguesa, que termina com o fim do jornal 57 em 1962. Foram anos difíceis para o grupo, pelas críticas a que foram submetidos, mas, nada que se comparasse com o que, nesse ano, abalou toda a geração. Morre Álvaro Ribeiro e os discípulos perdem a sua maior referência. Curioso é notar, que, na única carta que Orlando Vitorino envia a António Quadros, tinha este acabado de publicar Introdução à Filosofia da História (1982) o autor da Refutação da Filosofia Triunfante, deixe transparecer o peso da responsabilidade que o magistério de Álvaro Ribeiro e José Marinho exerceria sobre todos: “com 50, 60, anos ainda escrevemos como se fossemos jovens e discípulos”.

Um ano depois, e apesar do sucedido, António Telmo não mostra sinais de fraqueza. Tinha acabado de ler A Patrologia Lusitana (1983) de Pinharanda Gomes, e escreve com entusiasmo a António Quadros, dizendo que “Os adversários da filosofia portuguesa terão de se haver comigo e com ele, cuja periodicidade de publicação de livros é verdadeiramente espantosa.”

António Telmo, que já em Arte Poética, via a filosofia como uma “actividade de progressiva consciencialização das formas que actuam no corpo, em graus cada vez mais profundos”, transmitia agora a António Quadros, a esperança no labor filosófico de ambos e na capacidade espiritual que tinham para prosseguir na senda alvarina.

Entre 1986 e 1987, António Quadros publica os dois volumes de Portugal Razão e Mistério, obra que motiva o maior número de cartas trocadas entre os dois pensadores. Depois do primeiro livro, no dia 31 de Maio de 1986, António Telmo, coloca António Quadros ao lado de Álvaro Ribeiro e José Marinho, como um dos mais importantes pensadores portugueses do século XX. Apesar disto, revela a frustração pelo pouco eco que a filosofia portuguesa tem em Portugal, mesmo aquela que é protagonizada pelos seus melhores intérpretes. Conta ainda, que, José Marinho, pouco antes de morrer dissera que “Se tiver de voltar de novo à vida, peço a Deus para não nascer português. É um povo de vesânicos. Houvesse o Álvaro Ribeiro nascido na França, na Alemanha, na Inglaterra e seria hoje admirado como o maior filósofo da actualidade.” Já Álvaro Ribeiro, numa carta dirigida a António Telmo terá dito que se houver uma lei que nos mande regressar à Terra, “pedirei a Deus que me poupe à obrigação de voltar a ser português.”

Em resposta a esta carta, António Quadros, a propósito das palavras amargas de Marinho e Ribeiro, apressa-se a dizer que é necessário distinguir o país-virtual, do país sociológico. No dia 22 de Janeiro de 1987, António Telmo, depois de, em várias linhas, desconsiderar o seu livro História Secreta de Portugal, diz, não ver ninguém, a não ser António Quadros, capaz de acompanhar Álvaro Ribeiro. Nesta altura, começa a pairar sobre António Quadros, mas também entre os restantes homens do grupo da Filosofia Portuguesa, o fantasma do III volume de Portugal Razão e Mistério.

A cada nova carta, a mesma pergunta. Para quando o terceiro livro. Para quando?

Uns dias depois, António Quadros escreve: “Só peço a Deus que me dê tempo, força e cabeça para concluir as obras que tenho projectadas. O terceiro e quarto volume de Portugal Razão e Mistério; um livro sobre a filosofia portuguesa, de Bruno a Orlando; um outro livro, sobre O Primeiro Modernismo Português […] e ainda outros que tenho na cabeça.”. Destes, só viria a publicar os dois últimos ensaios e chegaria a confessar, uns dias depois, devido ao cansaço provocado pelos recentes problemas de saúde, não estar à altura do projecto. No final da carta pergunta: “Será que conseguiremos o mínimo de convergência? E será que conseguirei […] ir para a frente com o meu projecto, que pode prejudicar os livros planeados?”

A reposta de António Telmo não tarda e no diz 2 de Fevereiro escreve: “Estamos todos no fim da viagem e já […] ninguém quer mudar, ceder de pontos de vista: isso seria negar o que julgamos ter sido ser o nosso destino espiritual. Quem é capaz de nascer de novo aos 60, aos 70 anos? Há, todavia, pontos e até linhas comuns. Não será possível, com elas, traçar uma figura que satisfaça todos? Cada um de nós, no fundo, tem o desejo e a ideia de fazer uma revista sozinho, com vários heterónimos ou pseudónimos, daí o desentendimento inevitável. Nos jovens o que unifica é o sentimento, isto é, o desejo sem a ideia.”

Dois meses depois, em Abril, António Telmo principia a sua carta desta forma: “Meu caro Amigo, estamos na última fase da nossa vida e todos temos pressa em dizer a palavra definitiva. Sinto-o em si, ao ler as suas últimas cartas. Perdemos o medo. Agora já não há nada a aprender com os outros homens. Só Deus nos pode ensinar. Se, ao dizermos, dissermos o erro, a culpa não é nossa. Se dissermos alguma verdade que seja para bem dos que vierem depois. Mas somos responsáveis porque queremos ser valentes, ter valor, ter saúde.”

Em Junho, volta a escrever a António Quadros sobre Portugal Razão e Mistério, referindo-se ao segundo volume como a reflexão mais completa, mais rica e uma das mais inteligentes sobre História de Portugal, só comparável ao pensamento de Sampaio Bruno e uma ou outra excepção. No final da carta relembra: “Ocorre-me a vaga lembrança ou pressentimento, neste mesmo instante, de que o António se chama Gabriel, ou estou enganado?”

Na última carta que envia a António Quadros nesse ano, diz: “Hoje mesmo levantei-me às cinco horas e vi que a saudação de todos os seres naturais ao espírito nascente do Sol não é apenas um fenómeno de componentes físicas. A percepção íntima da natureza pela ideia cristã de companhia ainda é, como ensinou Leonardo Coimbra, o melhor modo para mim de conceber directamente o Espírito Puro, que o paganismo parece ter ignorado ou, pelo menos, só confusamente percebido.”

Os problemas de saúde de António Quadros agravam-se. A partir de 1990 a troca de correspondência com António Telmo diminui. É de lamentar a perca de parte de uma missiva enviada no dia 22 de Março de 1990, onde António Quadros diz estar a braços com uma espécie de bloqueio interior, devido ao receio de que o III volume de Portugal Razão e Mistério não tenha a repercussão dos dois primeiros livros.

A verdade é que, nesse ano, António Quadros estreia-se no romance e publica Uma Frescura de Asas, onde descreve os sintomas de uma angina de peito que sentira dois anos antes, numa ficção espiritual sobre os últimos dias de vida de Sampaio Bruno. Entre 1990 e 1991 prosseguem por via epistolar os contactos de António Quadros com António Telmo. Em carta enviada de Estremoz no dia 6 de Março de 1990, António Telmo lamenta novamente não ter ainda recebido o livro que formaria o tríptico de Portugal, Razão e Mistério e confessa ainda que António Quadros é um dos raros espíritos com quem convive superiormente. Uns dias depois, aconselha António Quadros, a “entrever” o III volume de Portugal Razão e Mistério, “de modo a amar escrevê-lo”. Estas foram as suas últimas palavras a António Quadros, escritas em carta. Num longo balanço da actividade filosófica dos dois escritores e da amizade e admiração que nutriam um pelo outro, António Quadros perguntara, uns dias antes:

“Que seria de nós, sem essa presença invisível dos mestres, aguilhões do nosso espírito, alimentando a nossa perpétua insatisfação? Por mim, continuo a conversar com eles, e se eles me dizem que fiz pouco, que quase nada fiz, então sou obrigado a continuar…” e continua, “Apesar destas diferenças, em ambos há o interesse pela poesia, pela simbólica artística, pelo oculto e pela filosofia em todas as suas formas (mas sobretudo por uma filosofia de Espírito), sendo também de notar que, ao contrário da maioria dos nossos companheiros, reconhecemos os nossos mestres, Leonardo e Bruno, Pascoaes e Pessoa, Álvaro e Marinho, integrando-os, com as suas antinomias, na nossa vivencialidade gnóstica.”

O fim deste epistolário data de Fevereiro de 1991. É uma carta de agradecimento, mas onde António Quadros, descreve a luta que sentia para escrever o III vol. de Portugal Razão e Mistério. Nesta altura, escrevia, riscava tudo, rasgava páginas, voltava ao início e mudava até o nome do livro, para ver se o conseguia escrever. Não conseguia. Não conseguiu.

A António Telmo, confessava o que até hoje não se sabia: apenas escrevera o prólogo.

Tratava-se de um longo texto, já dactilografado, evocando o seu próprio itinerário: a faculdade; o ideal português; o 57; os mestres Álvaro Ribeiro e José Marinho; os encontros com Mircea Eliade na juventude e o grupo da filosofia portuguesa – entre outros: Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, Dalila Pereira da Costa, Orlando Vitorino e António Telmo. Era, enfim, uma despedida, em forma de homenagem, um sentido adeus a todos os seus amigos, de quem já sentia saudade.

António Quadros morre no dia 21 de Março de 1993 e em Outubro de 1995 António Telmo participa na homenagem de despedida. A sua comunicação, que também é um pequeno estudo sobre mito e símbolo no pensamento de António Quadros, começa assim: “Estamos todos aqui reunidos celebrando o pensamento de António Quadros para o tornar presente na nossa lembrança e na nossa saudade.”

Estou certo que, se hoje António Quadros estivesse vivo, estaria aqui nesta homenagem, no dia em que nos reunimos e celebramos o pensamento de António Telmo para o tornar presente na nossa lembrança e na nossa saudade.


15 de Fevereiro de 11

 


[1] António Telmo Carvalho Vitorino nasceu em Almeida, Beira Alta, a 2 de Maio de 1927. Foi, a convite de Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa, durante três anos, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Brasília. Mais tarde, dirigiu a Biblioteca de Sesimbra e leccionou a disciplina de Português em Estremoz. Publicou, entre outras obras,  Arte Poética  (1963),  História Secreta de Portugal (1977),  Gramática Secreta da Língua portuguesa (1981) e Filosofia e Kabbalah (1989). Morreu no dia 21 de Agosto de 2010.

 

INÉDITOS. 07

16-03-2014 12:20

São onze páginas manuscritas num bloco de apontamentos de António Telmo que agora se revelam, inéditas, ao leitor, provindas do seu espólio. Encerram o presumível esboço, necessariamente inconcluso, de um escrito (ou livro) que o filósofo intitulou Autobiografia e Sobrenatural. Nele se contam episódios vários, vividos ao longo de décadas, em diversos lugares do seu itinerário biográfico. Trata-se de brevíssimos quadros narrativos onde os sucessos oníricos e as indicações astrológicas se entrecruzam e preponderam. Numa dessas páginas, de escrita seca, despojadamente fotográfica, Telmo limita-se a remeter para passagens já publicadas nos seus livros; noutras, deixa notas auxiliares da composição e apontamentos para mais tarde desenvolver. Num destes últimos tópicos, que diferenciadamente se transcrevem em itálico e entre parêntesis rectos, uma operação aritmética de subtracção, tendente ao cálculo de um determinado ano, permite datar a feitura do conjunto: o ano de 2008.   

Autobiografia e sobrenatural

 

 

Premonição

1945. Em Sesimbra, com 18 anos. Convívio frequente à volta de uma mesa no café com tuberculosos, seus amigos.

            Distinta, natural, uma voz interior pela noite: “Não estejas melancólico se não entuberculizas”.

 

Os guizos

1955. Em Lisboa, no meu quarto de estudante. Uma vez deitado, fiquei, antes de me voltar para o lado para adormecer, a olhar para cima. De repente, um som estridente de guizos entrou fisicamente (ou sentido como tal) pelos dedos dos pés e veio subindo pelo corpo até sair pelo occiput evanescendo-se. Todavia, passados alguns instantes, de novo o mesmo som entrando pelos pés e saindo pela cabeça. Quando passava pela zona do plexo solar, tinha a sensação tremenda de que me estavam arrancando a alma.

            Veio ainda terceira vez, mas desta vez a passagem por essa região do plexo solar tornou-se ainda mais assustadora. Não continuou para cima, porque rezei a Avé Maria. Desapareceu logo ali. Depois tudo ficou calmo de uma imensa serenidade. 

 

2.ª Premonição

1958. Em Beja, onde era professor pela primeira vez. Tornei-me caçador.

            Convidado para uma coutada, durante a noite sonhei que mataria 24 perdizes.

            Enquanto comíamos a açorda matinal, contei o sonho aos outros caçadores. Como era um novato, riram-se de mim. Quando a caçada terminou, eu tinha 23 perdizes. Estava empatado com o mais exímio dos outros caçadores. Este disse-me: Vamos desempatar. Quem matar primeiro uma peça, ganhou. Se for uma codorniz vale uma perdiz.

            Cumpriu-se o sonho. Nenhum deles falou no acerto da premonição. O sobrenatural assustava aqueles caçadores.   

 

O Maggid

1963 (1). Évora. A mesma voz que ouvira em Sesimbra, eram exactamente três horas da noite acordava-me para me dizer: “O soneto sobre Gomes Leal de Fernando Pessoa não é o horóscopo de Gomes Leal, mas o horóscopo de Fernando Pessoa”.

            Tinha aprendido a traçar horóscopos quatro horas antes com o José Luís Conceição Silva. Uma colega, dias antes, quando foi do meu aniversário a 2 de Maio, tinha-me oferecido o livro A Vida e a Obra de Fernando Pessoa por João Gaspar Simões. Nele encontrei a data do nascimento do poeta, com a indispensável hora.

            Em Filosofia e Kabbalah mostro pormenorizadamente que a voz tinha razão.  

 

Astrologia

1978. O primeiro horóscopo que fiz foi o meu, naturalmente. Vi, ou supus ver, através dele que a progressão do Sol criava em 1978 uma quadratura com Urano que significava, em meu entender, a minha morte.

            Pensei nisso durante anos, mas fiz por me esquecer à medida que a data se aproximava, o que consegui.

            Vinha de Lisboa para Estremoz. O vidro do carro do lado esquerdo deixava passar o ar por uma estreita fresta. De súbito adormeci ao volante. O leve som no vidro transformou-se no som de um vento de tempestade. Acordou-me. Ia precisamente a sair da estrada. Um golpe de volante e o perigo passou.

            Dois dias depois: vinha de Beja para Estremoz, com pressa (130 Kms. à hora) para assistir, como orientador, à aula de uma colega. Entre o cruzamento para São Manços e Reguengos de Monsaraz, o carro despistou-se, embateu contra uma berma alta ao lado de um sobreiro, caiu de lado e endireitou-se. O pára-brisas foi expelido para longe para fora da estrada, mas não se partiu. Chovia e o campo estava lamacento.

            Não me lembro do susto, mas deve ter sido violento. Deu-se certamente quando o carro mudou de direcção, incontrolado, indo bater contra a berma. Assisti, depois, a tudo tranquilamente, sem qualquer sombra de medo. Deve ter durado 2 ou 3 segundos a trajectória do carro até ao embate. Tudo se passou, porém, donde eu assistia, devagarinho. “Vamos ver, pensei, se o carro não bate contra a árvore!” Ao capotar, disse para mim mesmo, enquanto me via caindo contra o vidro à minha direita: “Oxalá não enfie a cabeça no vidro!” Voltou o carro à posição inicial, sobre as quatro rodas e eu vim do vidro para o meu lugar de condutor. Desejei: “Deus queira que não bata com a cabeça no volante! Não bati. Fiquei sentado na posição de condutor. Atordoado, saí do carro. Vinham correndo para mim dois homens:

            – “Há alguém dentro do carro?”

            – “Não.”

            –  “E você?”

            –  “Julgo que estou bem.”

            –  “Que sorte! Foi espectacular!”

 

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[Na reflexão falar que não se vê de cima

Falar sobre a astrologia

A opinião de Hölzer: V. foi salvo.]

 

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[2008

    42

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1966

 

Mostrar como neste segundo sonho há um pormenor que não coincide com os acontecimentos]    

 

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O astrólogo

1965 (2). Em Lisboa, sozinho num quarto. O Rafael Monteiro procurou-me e insistiu comigo para que eu fosse ao astrólogo e vidente Hórus. Acedi, depois de alguma resistência.

            O homem disse-me que em 21 de Fevereiro do ano seguinte (estávamos em Agosto de 1965) eu iria para o Brasil, que encontraria no dia 1 de Outubro (também de 1965) a mulher com quem casaria, a mãe dos meus filhos, que não tinha que fazer nada para conseguir sucessivos êxitos na vida, que dissesse sempre que sim aos convites que me viessem a fazer.

            No fim disse-me:

            – Só não sei quem é você.

            Respondi: – Sou Professor.

            – Também me interesso por ocultismo.

            – Não, não é nada disso.

            Tudo quanto anunciou cumpriu-se exactamente.

 

Terceira premonição

O desastre

1978. Outra premonição. Novamente em sonho. Vejo-me no carro e numa estrada antes de Borba. Penso que tenho tempo para ultrapassar antes de uma curva. Aparece um carro. Travo. O meu bate ao de leve na frente do carro que pretendia ultrapassar. Insultam-me. Sigo, já livre de tudo aquilo, em direcção a Vila Viçosa.

            Sonhei isto pela manhã. Era um sábado. Reunia-me, como de costume, com a minha tertúlia de Vila Viçosa. Quando seguia para lá, no mesmo lugar deu-se exactamente o que o sonho anunciou. Só a pequena pancada no outro carro não se verificou.  

 

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[O quadro da Cintia] (3)

 

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José Marinho

1975. Às três horas da noite, acordei. Sentia-me inquieto. A inquietação chegou a tal ponto que me levantei e passeei pelo quarto até sentir que era capaz de voltar a deitar-me e de adormecer.

            De manhã, telefonaram-me de Lisboa.

            – O José Marinho morreu.

            – A que horas? Quando?

            – Às três horas da noite.

            Vim imediatamente para Lisboa. O seu corpo estava sozinho na cave de uma igreja.

 

As Águias…

(contado em Horóscopo de Portugal)

19…

 

As Árvores são Chamas

 (contado em Teoremas de Filosofia)

19…

 

A Alucinação Visual

 (contado em Viagem a Granada)

19…

 

A Fogueira de São João

19… Dei uma aula em Évora, na Universidade, a pedido do António Cândido Franco. No dia de São João.

            Uma porta da sala dava para um pequeno claustro, onde se viam as cinzas de uma fogueira. Quando comecei a falar, alguém disse:

            – A fogueira acendeu-se.

            Quando acabei de falar, a mesma pessoa exclamou: A fogueira apagou-se.

 

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[Sonhos verdadeiros e sonhos falsos

A imagem total, sem aparecimento sucessivo das imagens, à medida que vão sendo lembradas.]

 

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O Álvaro Ribeiro não morreu

19… Três dias depois de ter acompanhado os restos mortais do saudoso filósofo, tive um sonho nítido como uma fotografia.

            Uma esplanada num recinto com arcos, numa espécie de claustro onde se tinham posto mesas. Álvaro Ribeiro era a única pessoa que ali estava quando eu cheguei. Estava sentado a um canto com o seu fato castanho. Aproximei-me e pus-me a falar com alguma presunção. Tirou do bolso a sua bela caneta tão minha conhecida, olhou para mim com alguma censura no olhar e fez como se estivesse a escrever.

            Interpretei: Deixa-te de conversas. Escreve!

            Afastei-me envergonhado. Ao lado havia um corredor como há nos claustros, onde encontrei o F. Sottomayor. Escondemo-nos atrás de uma coluna, donde podíamos ver o Álvaro Ribeiro sem sermos vistos. Um homem aparentando 30 ou 35 anos, de fato completo mas pobre, estava agora onde eu tinha estado de pé a falar com ele, que o ouvia agradado.

            – Estava vendo?, disse eu para o Francisco Sottomayor, fomos todos enganados. O Álvaro Ribeiro está vivo. Enganou-nos simulando o seu funeral.

            Numa porta, ao fundo do corredor estava o Espírito Santo, um dos nossos condiscípulos. Dei-lhe logo a notícia de que o Álvaro Ribeiro nos tinha enganando, que estava vivo.

            – Ah!, exclamou o Espírito Santo, só agora é que o sabem? Ainda ontem estava no Café Colonial.

 

            Contei no dia seguinte o sonho ao Francisco. Disse-me, com espanto de ambos, que o marido da Conchita, afilhada do filósofo, tinha tido um sonho análogo, onde se mostrava que tínhamos sido todos enganados.

 

António Telmo   


 

(1) 1961 no original manuscrito. Há, porém, lapso manifesto de António Telmo na fixação do ano, que é o de 1963 (nota do editor).
(2) 1966 no original manuscrito. Há, porém, lapso manifesto de António Telmo na fixação do ano, que é o de 1965 (nota do editor).
(3) Aliás Cynthia. António Telmo refere-se à pintora, sua amiga, Cynthia Guimarães Taveira (nota do editor).

 

DOS LIVROS. 03

12-03-2014 20:45

O pensamento ocultista e revolucionário de Álvaro Ribeiro

 

Em 1979, num dos últimos escritos, o filósofo, não temendo já que o proibam de viver, deixa, bem claro, o que pensa sobre a questão religiosa:

“Só os estudiosos sinceros das ciências ocultas – melhor, das causas ou qualidades ocultas –, se mostraram capazes de, por sanção ou por oração, relacionarem o espírito humano com o espírito divino. A arte de filosofar é, por conseguinte, uma actualização constante das provas da existência de Deus. A Igreja Católica, hoje mais perplexa que ontem, ou talvez mais prudente, terá de aceitar, enfim, o messianismo de S. João Evangelista e de Joaquim de Floris, libertando a liturgia de praxes e de dogmas que representam rotinas pretéritas, já insignificantes ou talvez hipócritas.

No parágrafo seguinte, chama “livres pensadores religiosos” àqueles para quem, como diz, a arte de filosofar é o estudo sincero das causas ocultas.

Vinte e quatro anos antes, em 1955, num artigo que publicou na Revista do Norte com o título significativo Sampaio Bruno e a Verdade Oculta caracteriza assim o livre-pensador:

“Recebemos do século passado o preconceito erróneo de que livre-pensador é o homem capaz de pensar sem a mínima referência aos assuntos religiosos, que o verdadeiro e autêntico livre-pensador é afinal o ateu.”

“Livre-pensador é o homem capaz de pensar livremente os valores – o bom, o belo e o vero –  e mais ainda aquilo que os unifica e afinal garante. O problema do infinito incita o livre-pensador a meditar heroicamente a difícil temática religiosa. Nisso está o mérito ; nisso está a dificuldade ; nisso está o perigo ; porque o livre-pensador, ao contrário do positivista, avança por um domínio delimitado pelos escolásticos, mas acelera a evolução espiritual da Humanidade.

Sampaio Bruno não começou por ser livre-pensador. Sofreu a pressão dos sofismas dominantes no ambiente cultural da cidade do Porto, aceitou iludido as teses negativistas do voluntarismo germânico até ao dia em que, iluminado ou iniciado, converteu em doutrina diferente as generosas aspirações da sua mocidade.”

O mais surpreendente neste artigo sobre Sampaio Bruno é o que vem depois: a caracterização do autor de A Questão Religiosa como pensador católico através dos ensinamentos esotéricos, conjectura Álvaro Ribeiro, que terá recebido, no exílio em Paris, de Joséphin Péladan. Esta ideia de que a filosofia portuguesa, fundada por Bruno, tem por base uma tradição esotérica indissociável do catolicismo encontramo-la, no mesmo ano de 1955, claramente expressa n’A Arte de Filosofar:

“A tradição portuguesa, a esperança de que o Cristianismo reintegrará o Homem e a Natureza no Reino de Deus, durante o século XVIII passa a exprimir-se em termos diferentes dos que ficaram estabelecidos na nomenclatura da teologia católica e da filosofia aristotélica. A obra de Pascoal Martins, vertida maravilhosamente na cultura da Europa Central, dá-nos uma síntese, ainda hoje admirável das tradições peninsulares.”

A generalização do ensino de Pascoal Martins, que Sampaio Bruno identifica como português e cristão-novo, é conhecida pelo nome de martinismo. O martinismo seria, segundo Álvaro Ribeiro, uma expressão da constante sabedoria esotérica que, no passado, se estabelecera nos termos da teologia católica e da filosofia aristotélica. Dante terá sido o medianeiro:

“Convém aproximar a doutrina dos três planos teológicos – Inferno, Purgatório, Paraíso – com a doutrina dos quatro elementos, incluída na cosmologia de Aristóteles. Se o simbolismo da terra é inferior ao simbolismo da água, se o simbolismo pagão da agricultura é inferior ao simbolismo cristão da pescaria, se o simbolismo do túmulo é inferior ao simbolismo da nave, a navegação portuguesa, utilizando os elementos superiores da física, correspondia à tradição de mais fluido e subtil simbolismo. A Terra é uma nave, e as viagens em demanda do Oriente pelo Ocidente visaram a promessa cristã de reintegração do Homem e da Natureza no plano original.”

A superação do simbolismo do túmulo pelo simbolismo da nave na Igreja de Cristo têm, nestas linhas, um sentido que, despido do prestígio das imagens, será aquele mesmo que, em 1979, vinte e quatro anos mais tarde, aparecerá no prefácio ao livro de Conceição Silva sobre Os Painéis das Janelas Verdes.

O último dos doze livros de Álvaro Ribeiro foi As Memórias de um Letrado. O primeiro volume tem a data de 1977, o terceiro a data de 1980. O seu verdadeiro nome é, pelo que foi dito e pelo que virá a dizer-se, Memórias de um Kabbalista. Letrado é, como a palavra o significa, aquele que tem o conhecimento das letras, mas tal conhecimento é, na sua forma superior, a própria Kabbalah. Como se sabe, este é o nome hebraico para tradição. Todavia, a remota antiguidade que os kabbalistas lhe atribuem, é negada pela erudição ao dá-la como nascida na Península Ibérica, no século XII.

O problema da filosofia portuguesa poderá somente ser vencido quando ficar bem estabelecida a existência de uma tradição sófica portuguesa, isto é, a existência de uma comunidade espiritual invisível, através de Portugal procurando “acelerar a evolução da Humanidade”. Dos seus efeitos, visíveis na arte, na política e na religião, apenas os filósofos iluminados ou iniciados serão capazes de tomar consciência como efeitos de causas ocultas activas. Álvaro Ribeiro identificava, como vimos, a tradição portuguesa com a Kabbalah e atribuía-lhe o poder de realizar a síntese católica das três tradições religiosas peninsulares.

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)

VOZ PASSIVA. 15

10-03-2014 08:47

O peso da palavra 

António Cagica Rapaz

 

Se vos disser que aos doze anos beneficiei de aulas particulares ministradas por António Telmo, ninguém se admirará se, a seguir, revelar que tive a nota mais alta do país no exame escrito de Filosofia do antigo 7º ano, em 1962.

Obtive exactamente 18,5 valores, o mesmo tendo conseguido uma outra aluna com quem dividi o prémio de quinhentos escudos.

Importa, porém, acrescentar que os ensinamentos que recebi diziam respeito à forma mais expedita de bem aplicar os cirúrgicos efeitos, puxar com precisão ou juntar num canto as três bolas do bilhar, arte em que António Telmo era já um executante primoroso, aliando uma técnica apurada a uma imaginação exuberante e a um total desprezo pela comezinha avidez da vitória nas provincianas competições.

Estávamos na segunda metade da década de 50, em Sesimbra, e eu revelava algum tímido jeito para a coisa quando o futuro grande filósofo teve a bondade de me dar umas lições cuja particularidade maior era ser o mestre a pagar a hora do seu bolso. A instrução teve o seu início no café Ribamar onde a tertúlia intelectual tinha lugar, e prosseguiu no café Central, teatro das grandes representações às três tabelas.

Mais tarde, troquei as bolas do bilhar por outras maiores, de coiro, e o taco por botas de futebol a que hoje gente evoluída chama chuteiras.

O ainda jovem Telmo seguiu o seu caminho até atingir a projecção que sabemos e de que os seus amigos tanto se orgulham, por tudo e porque ele continua a espalhar a palavra do conhecimento e a iluminar as mentes de quantos o lêem, é certo, mas particularmente dos bem-aventurados que têm o privilégio de o escutar.

Contrariamente ao que se poderia esperar, não segui Filosofia.

Na altura, o 7º ano era o fim do meu percurso escolar, o limite da bolsa dos meus pais, e o acesso à Faculdade só aconteceu graças às tais bolas de coiro que me roubavam o tempo e pouco espaço deixavam para leituras e reflexão.

E foi assim, ao pontapé, que acabei por alcançar um canudo de Filologia Românica, bagagem modesta que acabei por nunca levar para qualquer sala de aula já que a minha vida profissional foi feita na aviação comercial, carreira que nem o astrólogo Horus (que o António Telmo tão bem e também conheceu) foi capaz de prever.

As voltas da vida nunca me afastaram muito de Sesimbra, apesar de ter vivido 19 anos em França, e fui mantendo contactos com alguns amigos comuns, como os irmãos Reis Marques e, mais recentemente, o Pedro Martins.

Não estou aqui para debater nem suscitar reflexões, a tanto não me atrevo. Sou um espectador ocasional das extravagâncias da vossa Filosofia e já me sinto honrado por poder assistir e fingir que percebo.

Não me choca a ideia de que o pensamento português tenha a sua origem nas tradições judaica, cristã e islâmica, admito de bom grado que sim.

Nem arrasto por aí as correntes joaquimitas, embora me impressione a exegese xiita, quase tanto como a tradição cabalista.

Já me sinto perplexo perante a dúvida que paira sobre a eventualidade de Jesus ter ou não sido assistido pelos anjos.

E parece-me perfeitamente legítimo que alguém possa interrogar-se sobre a existência de uma Filosofia intrinsecamente portuguesa.

Na minha condição de profano, ao assistir a alguns colóquios, fica-me a impressão de haver ali uma espécie de jogo, um pouco à imagem do que Sant’Anna Dionísio diz de Pascoaes ao classificá-lo como um espírito dialéctico que afirma e nega na mesma frase e até na mesma palavra, saltando de heresia em heresia.

E acho estranho que, apesar de tanta sapiência, os filósofos dêem mostras de tanta inquietação, não parecendo que tenham conseguido alcançar a serenidade e a paz própria de quem deveria saber de onde viemos e, sobretudo, para onde vamos. Porque, afinal, o que se passa entretanto, esta passagem efémera, pouca importância tem.

Confesso que o que mais me agrada é aquele momento delicado, no final, quando da sala não parece surgir qualquer intervenção, a menor pergunta, e nos fica a sensação de que os diversos oradores estiveram ali a perder o seu tempo.

Felizmente, para todos nós, levanta-se o António Telmo e faz duas ou três observações, com ar de quem pede desculpa por se intrometer, e lança uma luz nova sobre o tema.

Todos nós podemos fazer leituras, coligir informação, preparar textos de apoio, mas o grande talento, o que define e caracteriza os maiores é a capacidade de pensar com profundidade e com originalidade, de arrancar sabe-se lá de onde um ângulo original, um raio luminoso, uma centelha de excelência.

Há pessoas assim, que nos transmitem a sensação de tudo saberem, de nos surpreenderem com uma palavra, uma frase que, depois de solta, nos parece evidente, mas que nunca cruzara o nosso pobre espírito.

Depois há o timbre da voz, denso e seguro, e o tom, arrastado, tranquilo, desprendido, próprio de quem não precisa de mais evidência.

É o vagaroso pôr-do-sol alentejano, o peso da sabedoria, o calor da partilha simples e suave do conhecimento, tomai e ouvi, estas são as palavras do Mestre…

INÉDITOS. 06

07-03-2014 10:25

Irreverente, audaz, desassombrado, revisitando criticamente, mas ludicamente (pelo superior exercício do jogo), a sua História Secreta de Portugal, admitindo que há nela erros vários (espantoso gesto de humildade este, num tempo de homens infalíveis, pois que cheios de certezas!), eis António Telmo com a sua "Epístola aos Hieronimitas", mais um inédito saído do espólio do filósofo, aqui comentado por António Carlos Carvalho.     

Epístola aos Hieronimitas

 

Como manda a cortesia, começo por me apresentar. Católico praticante se houvesse Igreja, maçon sem Loja e Português sem Pátria, tudo isto sou anonimamente. Dir-me-á que fica sem saber nada de mim: o nome, a morada, o lugar de nascimento, a idade. Acha v. que se determina quem seja uma pessoa pelo seu bilhete de identidade? Na verdade, não estou nada interessado em que me responda, depois de ter lido esta carta. Se vier a concordar com o que nela digo, poderá aproveitá-la para escrever um novo livro sobre o Mosteiro dos Jerónimos. Como na sociedade em que vivemos está proibido o anonimato para qualquer publicação, ponha como nome de autor o seu. Imagine que, por qualquer motivo, a polícia o queira identificar, na intenção de saber quem é o homem que escreveu um livro que não é politicamente correcto. Consultará a ficha que regista no computador todos os dados sobre si. Por esse processo, identificou realmente o autor do livro?

Claro que não há esse perigo, porque aquilo de que lhe vou falar está fora da zona vigiada pela polícia. É coisa para intelectuais, mais ou menos loucos, mas inofensivos, pelo que não há também da parte do Estado qualquer interesse em encerrá-los num manicómio. Pois o que é que tem que ver com o mundo o Mosteiro dos Jerónimos, além de servir o turismo? É um lugar de solenidades? Óptimo. O livro será bom para uma e outra coisa.

Não foi, porém, para dizer estas inanidades que resolvi escrever-lhe. Li, há vinte anos, a sua História Secreta de Portugal, li agora o seu Horóscopo de Portugal. Não concordo com a explicação que v. dá do claustro dos Jerónimos e dos seus símbolos, de Portugal e do seu destino. Não concordo, não é bem a palavra. Gostaria que houvesse mais luz no que escreve, uma luz que, deixando mais ou menos tudo como o põe, o iluminasse revelando uma ideia completamente diferente da sua.

Por favor, não me tome por um Superior Desconhecido. Sou, como lhe disse, um maçon selvagem sem Loja, não sou Iniciado, nunca passei debaixo das espadas. Sou um qualquer Nicolau Coelho, sem rosa no ombro e sem laço ligando-o a uma superior organização.

Comparei-me ao Nicolau Coelho e, tem graça, é precisamente por aqui que convém começar a minha lição.

Diz v. na p. 47 da História Secreta de Portugal: “A observação atenta e pormenorizada das efígies dos quatro navegadores da face sul revela entre a de Nicolau Coelho e as dos outros três diferenças assaz estranhas, incompreensíveis fora da nossa interpretação. É o caso que os bustos de Vasco da Gama, Paulo da Gama e Pedro Álvares Cabral estão circunscritos por cornucópias, enquanto o de Nicolau Coelho está posto dentro de um círculo “rude, tosco e informe”; os chapéus dos primeiros estão presos ao alto por um laço; só Nicolau Coelho não ostenta no ombro a rosa iniciática.” Segue-se a afirmação de que isto é assim porque Nicolau Coelho não seria como os outros um iniciado, como se deduz das seguintes linhas de Mircea Eliade, citadas numa oportuna nota: “Quatro pontos definem a iniciação dos châmanes: 1. A vocação iniciática é o resultado de uma escolha divina; 2. Esta escolha é comunicada ao futuro châmane na imagem de um fio que desce do céu e poisa sobre a sua cabeça; 3. A descida do fio tem o carácter duma fatalidade, como se o destino fosse repentinamente revelado; 4. Com efeito, a pessoa escolhida sente que perdeu a liberdade individual: sente-se cativa, ligada pela vontade de Outro, encadeada.”     

Até aqui tudo está certo. Não há também refutação possível do argumento que deduz uma significação esotérica para o claustro a partir da irregularidade que é na sucessão das efígies dos navegadores a efígie de Nicolau Coelho. Se a inteligência que guiou a mão do escultor tivesse obedecido apenas a uma finalidade estética, não se compreenderia uma diferença tão marcada. Do mesmo modo poderia v. ter confundido os “estetas” mostrando-lhes o absurdo, do ponto de vista deles, de as cinco chagas aparecerem duas vezes repetidas na série dos vinte medalhões.

Aliás, nas criações artísticas de carácter iniciático há sempre uma irregularidade que é a chave capaz de abrir o entendimento do observador contemplativo para o sentido que nelas se encobriu.

Tudo está, pois, certo. O que não está certo é a conclusão a que v. chega: “estamos aqui perante a própria iniciação do navegador Nicolau Coelho.”

O leitor do seu livro conhece a história que, depois, v. urdiu indo até ao ponto de identificar o lugar onde Nicolau Coelho foi “recebido”, uma ermida na zona de Palmela em cuja pedra de fecho da abóbada está impressa uma efígie, já com os atributos iniciáticos na qual imagina a figuração do próprio Nicolau Coelho. A razão que apresenta não é razão: pessoas consultadas por si acharam os dois rostos muito parecidos. Isto envergonha-o, mas se quiser escrever o tal livro escusa de o referir.

Eu não digo que a ermida não fosse uma loja, isto é, um lugar de manifestação do logos. Tudo o indica: o chão em xadrez, a fonte no sítio do altar, a irradiação oitavada das estrias, etc. Como pode acontecer em todos os lugares outrora santificados, v. mesmo lhe experimentou a força naquela visita que ali fez com um amigo e no que se seguiu depois. Estou-me referindo ao que descreve no capítulo Fenómenos Misteriosos, acrescentado à primeira edição da História Secreta.

O que eu digo é que o que se representa a toda a volta do Claustro não pode ser a iniciação de Nicolau Coelho porque é absurdo que se subordinasse todo o sentido do Claustro a um acontecimento que, tendo embora relativa importância, está muito longe de poder explicar o carácter iniciático dos Descobrimentos, que é, julgo eu, a afirmação primacial do seu livro.

Por que é que não vemos a coisa de uma maneira simples e directa? Estão ali três navegadores fitando de frente o Sol: dois são iniciados, o terceiro não é. Contudo, apesar de não o ser, fita também o Sol. Deve admitir que isto constitui um sinal de esperança para todos nós que não somos iniciados.

Eu sei que esta história do Nicolau Coelho recebendo a iniciação à pressa, numa ermida longe lá nas terras de Vasco da Gama, uma misteriosa ermida cabalística, e recebendo-a antes de partir para a Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, na qualidade de comandante da Bérrio e o mais que nela v. inclui é o que, em boa parte, explica o êxito editorial do seu livro em leitores educados quotidianamente pela televisão de mistura com publicações marcadas por um esoterismo fantasioso, quando não tenebroso, quase sempre de proveniência americana.

Claro que leitores deste tipo não podem ter reparado nos erros frequentes que v. comete ao longo do livro, como esse imperdoável, aliás corrigido em Horóscopo de Portugal, que dá o Sul como correspondente à Primavera, quando o é ao Verão, o Ocidente como correspondente ao Inverno quando o é ao Outono, e assim para os outros dois pontos cardeais sucessivamente. Se esta correspondência, em vez de estar numa das últimas páginas, na 155, estivesse numa das primeiras, eu teria posto de parte o livro e não teria chegado a conhecer as coisas preciosas que ali se dizem.

 

António Telmo

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Comentário    

António Carlos Carvalho

 

Comecemos pelo título, insólito, lembrando obviamente as epístolas doutrinárias de Paulo de Tarso às comunidades de cristãos seus seguidores. Mas quem são os hieronimitas? Esta é a designação dos monges da Ordem de S. Jerónimo, aos quais, aliás, foi confiado o Mosteiro de Santa Maria de Belém. Mas há muito que não há ali monges: há fiéis das missas, há turistas, há convidados de casamentos e baptizados e de algumas cerimónias oficiais ou então melómanos que vão assistir a concertos. Mas não monges.

Então quem são os hieronimitas aos quais esta curiosa epístola se dirige? Creio que somos nós, os que ficámos definitivamente ligados ao Mosteiro dos Jerónimos desde que lemos a «História Secreta de Portugal» e com essa leitura tivemos uma espécie de revelação e de desvendamento acerca do significado da nossa História, do carácter iniciático dos Descobrimentos mas também do simbolismo inscrito nas pedras desse monumento. A partir dessa leitura não era mais possível olhar para o mosteiro sem ver aí os sinais que António Telmo nos apontava nas pedras centenárias.

E, falando só por mim, que tive o privilégio de ler o manuscrito, esse livro pioneiro de Telmo abriu-me também os olhos para outros monumentos que tantos portugueses ilustres e geralmente anónimos nos deixaram como lugares de meditação sobre o nosso destino como Pátria e como Povo. Mas sempre tomando os Jerónimos, lidos por Telmo, como ponto de referência essencial. 

«História Secreta de Portugal» foi de facto, e continua a ser, para muitos de nós, a descoberta de António Telmo e de um monumento até então olhado mas não visto nem lido. Então, nesse sentido, ficámos todos «hieronimitas». E esta epístola é realmente para nós e poderá ter sido escrita em 1997, a avaliar pelo que o seu autor escreve.

Mas como quase todos os textos de António Telmo só são simples na aparência e na verdade encerram diversos níveis e exigências de leitura, esta epístola também não escapa à regra. Em vez de se dirigir a um colectivo de «hieronimitas» assume logo a forma de uma carta pessoal de «alguém», anónimo, para o autor de «História Secreta de Portugal»: esse alguém diz ser «católico praticante se houvesse Igreja» (imagino já a perplexidade e o incómodo que isto poderá causar em certos meios...), «maçon sem Loja» (idem, idem) e «português sem pátria» (afirmação perfeitamente coerente com o que se afirma no livro). Alguém que sublinha que não se determina quem seja uma pessoa pelo seu bilhete de identidade – o mistério do nome e do ser não se circunscreve nem se desvenda num documento oficial --, sendo, todavia, todos nós obrigados a viver num tempo em que o anonimato é proibido. E esse «maçon selvagem sem Loja, não iniciado, um qualquer Nicolau Coelho», diz ainda ao nosso autor que, se concordar com a carta, pode até escrever um novo livro sobre o Mosteiro dos Jerónimos...

Pelo meio, fazendo notar que nas criações artísticas de carácter iniciático há sempre uma irregularidade que é a chave para se entender o seu sentido encoberto (como se vê no claustro dos Jerónimos), o autor da carta contesta que a iniciação de Nicolau Coelho esteja representada no claustro ou que a tal capela em Palmela seja o lugar dessa mesma iniciação; atribui o êxito editorial do livro a um interesse fácil por essa mesma iniciação entre leitores educados pela TV e pelo esoterismo fantasioso de proveniência americana; e até fala de «erros frequentes ao longo do livro», salientando as falsas atribuições do Sul e do Ocidente à Primavera e ao Inverno respectivamente (mas não vai mais além). Em contrapartida, sublinha que no livro se dizem «coisas preciosas».

Parece-me evidente que estamos perante uma importante reflexão – sob a forma de uma carta de si para si próprio – de António Telmo sobre a sua própria «História Secreta», que ele vê, vinte anos depois, como um livro nunca fechado e concluído, por um lado, e até mesmo necessitando de correcções. Além de ser um livro que se afastou do plano inicial congeminado juntamente com o mestre Álvaro Ribeiro (sabemos já isso através do inédito entretanto divulgado nas páginas deste projecto).

Provavelmente (assim poderemos esperar) haverá no espólio de António Telmo mais textos sobre o seu livro e a sua leitura dos Jerónimos. Mas para nós, «hieronimitas», o fundamental foi dito e escrito nas páginas da «História Secreta», nesse ano de 1977. Páginas luminosas, irradiantes de luz, como o Sol representado naquele medalhão do lado Sul do claustro. Esta «Epístola» e outros inéditos que entretanto apareçam e sejam publicados são centelhas dessa mesma luz e um incitamento para a nossa própria viagem de descobrimento. Uma viagem sem fim.

INÉDITOS. 05

05-03-2014 09:56

O trabalho que vem sendo desenvolvido no espólio télmico pelo projecto António Telmo. Vida e Obra traduz-se já em frutos vários e visíveis, sem nunca se perder de vista a empresa sumamente importante que é a edição das Obras Completas do filósofo. Oferece-se agora aos leitores o primeiro de três escritos autobiográficos de António Telmo com particular incidência astrológica. Os outros dois serão aqui em breve publicados. Todos foram já estudados e comentados por Eduardo Aroso, membro deste projecto particularmente autorizado no domínio da Astrologia. Daí, também, que este tríptico surja antecedido de uma Introdução versando "António Telmo e a Astrologia", que desde já abre perspectivas para a conferência que, sobre o tema, e com este título, Eduardo Aroso irá proferir na Biblioteca Municipal de Sesimbra, na quinta TARDE TÉLMICA deste ano, em 25 de Outubro. 

António Telmo e a Astrologia. Introdução

Eduardo Aroso

 

Se considerarmos o que António Telmo escreveu sobre astrologia, vemos que o filósofo, nesta matéria, foi não só um intuitivo como alguém que, de um ponto de vista da lógica estelar, discorria com fluência na interpretação tantas vezes labiríntica da roda, onde não é fácil ver o essencial: os movimentos da alma e do ser incarnado nos acontecimentos da vida terrena. E nisto convém já descartar alguma “ganga” associada à interpretação dos astros, como, por exemplo, a questão do falso conceito de “fatalismo” e de prognóstico. Um roteiro que nos é dado (inevitavelmente pelo acto do nascimento) pode ser seguido totalmente ou não. Na planta de uma casa algumas modificações podem ser feitas, perante o que se projectou inicialmente, não alterando a estrutura principal. A maior ou menor ondulação do mar diz-nos da certeza de haver movimento e a hora da preia-mar calcula-se com base na determinação do ciclo, independentemente da existência ou não de pessoas na praia. Podemos dizer que, em síntese, é isto o significado de um horóscopo de nascimento.

Projectando-se hoje na astropsicologia séria, como é o caso da «transpersonal psychology», a convergência da milenar gnose astrológica ou antigo arcano e a «arte de filosofar» (como disse certeiramente Álvaro Ribeiro, intitulando uma das suas obras fulcrais), a hermenêutica da Cabala e ainda outros atributos que não vêm agora ao caso, fazem de António Telmo uma figura carismática no movimento da filosofia portuguesa. Apesar da nossa tradição astrológica (com excepção de um Fernando Pessoa que a estudou e praticou, de um Mário de Saa, que se centrou em Camões, e de alguns investigadores no campo histórico, como Manuel J. Gandra), no que toca aos espaços da filosofia enquanto interrogação, não consta que a astrologia tenha sido aflorada nas tertúlias das gerações do pensamento português do último século, Ou, se o foi, escasseiam os registos.)

Para além do tratamento aturado e medular que no seu pensamento AntónioTelmo deu à Cabala, a atracção pelo significado dos astros, numa espécie de sinergia filosofia-astrologia (ramos de conhecimento diversos e antigos e que não necessitam de se misturar para dar força ou se justificarem mutuamente), e ainda que o pensador não tenha feito «cavalo de batalha» da segunda, fazem dele uma presença singular. Este facto leva-nos necessariamente a questionar se, por isto, ou também por isto, o filósofo de Estremoz se posicionou naturalmente, como talvez nenhum outro, enquanto elemento polarizador para as gerações novas. Neste ponto, ver-se-á futuramente também a importância do signo de Leão no ascendente do seu horóscopo, bem como Neptuno em conjunção.

Se pretendêssemos uma simples ideia, um breve excerto de algum texto do filósofo que desse sentido ao sentido que há num horóscopo (espelhar, numa linguagem simbólica, a imagem do céu enquanto roteiro celeste para nossa vida, e partindo da interpretação deste para um significado subtil mas em conexão com percurso individual ou destino) o seguinte excerto de Arte Poética seria um deles: «o movimento da filosofia deverá consistir, pois, não em fugir para um mundo suprassensível, mas em tomar consciência da imensa força na qual vivemos e somos, - em encontrar o dissolvente universal.» Ou seja, a interpretação da linguagem do horóscopo leva-nos a tomar consciência dessa «imensa força» singular (projecto pessoal ou destino) que está em cada ser humano, através do sensível (acontecimentos da vida), afinal, os efeitos. Por estes, podemos, subtil mas não menos verdadeiramente, chegar a certas causas e a um melhor entendimento do nosso viver. «Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu». Fernando Pessoa – aqui, e sempre sem necessitar de justificar a astrologia com a poesia ou outra forma de conhecimento – dá-nos, ainda que seja no colectivo, essa imagem do que é um horóscopo, perspectiva, neste caso, bem mais sublime do que vulgarmente se tem. Isto é, se o trajecto de cada um neste mundo deve interpretar, e depois seguir, a mensagem do céu ou relação do homem com o Criador, plasmada no horóscopo, também o céu se espelha por certo numa vida virtuosa, sábia e santa. Ou como disse Frei Agostinho da Cruz «Verei o Criador nas criaturas». Este céu que Deus espelhou no «mar sem fim» é o signo Peixes, que Pessoa colocou no alto ou também chamado Meio-do-céu do horóscopo de Portugal. Peixes, signo aquoso e universal, o último do zodíaco que, por isso mesmo, se liga ou religa ao primeiro, Carneiro, o de todos os começos. Afinal, o nosso ouroboros.

 

28-2-2014

 

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Na casa de meu Pai, éramos três irmãos*

 

Na casa de meu Pai, éramos três irmãos. Na verdade houve quatro. O primeiro morreu nos primeiros meses de vida, de modo que o segundo, Orlando, passou a ocupar o lugar do primogénito. Eis por que me posso considerar o terceiro filho. O outro dos meus irmãos chama-se Rui: recebeu o nome do falecido.

Nasci às duas horas da tarde do dia 2 de Maio de 1927, com o Sol em Toiro e o ascendente no grau 24 de Leão. A casa nona, que os astrólogos designam pela casa da filosofia e relacionam com a grande viagem, estava ocupada pelo Sol, pela Lua e por Mercúrio; Urano explosivo em Carneiro na casa oitava; Júpiter em Peixes, bem domiciliado; Marte, débil, na undécima casa; Saturno na quarta casa; Vénus resplendente em Toiro na décima casa; Neptuno[1]

Meu irmão Orlando, mais velho cinco anos do que eu, por uma associação invulgar de acontecimentos, viria a ser aluno e depois discípulo de José Marinho. A casa de meu Pai, no ano em que ele foi estudar para Lisboa na Faculdade de Letras, estava em Arruda dos Vinhos. Esta entrada de meu irmão no grupo dos discípulos de Leonardo Coimbra, chegados há poucos anos do Porto, abriria também a mim as portas da filosofia. Liguei-me muito mais intimamente a Álvaro Ribeiro, a quem me liga ainda hoje e me ligará sempre a mais profunda gratidão.

Toda a gente que conhece o Orlando Vitorino, por o ter lido ou por o ter ouvido, sabe que se trata de um dos espíritos mais lúcidos do nosso tempo e ninguém será capaz, sem remorso, de lhe negar a fruição de uma inteligência superior. Encontrei da sua parte, não obstante, uma constante hostilidade dentro do grupo. A minha carreira de escritor tornou-se dificílima. Ele não fazia mais do que obedecer à inexorável lei que opõe o primogénito ao benjamim, àquele que representa na família o princípio da revolta e do renovo. O conhecimento desta lei, pela leitura do Antigo Testamento e dos contos tradicionais, ajudou-me muito a manter uma certa impassibilidade, ao mesmo tempo que me incitava a realizar o meu destino de filósofo.

É deslumbrante observar como a condição de primogénito se reflecte no pensamento de Orlando Vitorino. A admirável criação de Deus é sem quebra ou falha. O mal não tem existência real. O fim do homem é assumir-se como a inteligência que compreende o mundo criado. Há, neste sentido, movimentos periféricos de degradação da inteligência, explícitos no socialismo, por exemplo, pela submissão dela no colectivismo da mediocridade. O papel do homem é conservar, bem alta e nítida, a luz que reflecte o esplendor da criação, promovendo o valor do indivíduo. A liberdade tem nesta visão o sentido que, em economia, se exprime pelo liberalismo e, em filosofia, pelo exercício do pensamento. O filósofo assume-se aqui como o primogénito de Deus.

Os caminhos para que, no meu torpor mental desses anos moços, tendia o meu espírito eram os difíceis e perigosos caminhos da gnose. Nunca quis ser um homem de pensamento, mas um homem de conhecimento. O pensamento haveria de ser, tanto como o sentimento ou a sensação, um órgão de conhecimento. Daqui não me ser difícil formar a ideia de um corpo subtil degradado no corpo físico, admitir consequentemente a queda, se não de Deus, pelo menos de uma parte de Deus, “pars divinae mentis”. O órgão do conhecimento é todo o corpo: pensamento, sentimento, sensação são solidários no acto de gnose. Sem restabelecimento do estado original, anterior à queda, isto é, sem formação do corpo subtil e luminoso, a obscuridade das sensações e dos sentimentos, o seu torpor determinam as categorias e formas do pensamento.

O grupo de filosofia portuguesa reunia-se nesse tempo na Brasileira do Rossio, hoje, como a maioria dos cafés, transformada em banco. Vale a pena descrevê-la, uma vez que muitos leitores já não puderam conhecê-la. É hoje em mim uma impressão de duas colunas de mármore castanho e brilhante da Arrábida numa casa comprida, escura e cheia do fumo dos cigarros. De um e de outro lado, espelhos paralelos multiplicavam as suas imagens até ao infinito. Supúnhamos ser uma antiga loja maçónica e os mais novos, na sua fantasia de adolescentes, viam no facto de ali ser o lugar de reunião da filosofia portuguesa uma escolha intencional dos mais velhos.

Constava que Álvaro Ribeiro era maçon. Para nós, a Maçonaria que, mais tarde, viria a patentear-se-nos como uma organização política de práticas e fins medíocres, era um lugar misterioso do espírito, que continha, envolvida de grande segredo, o ensinamento primeiro e último. Esta falsa noção actuava como um catalisador. Não seria, pois, possível atingir o verdadeiro conhecimento através dos livros e da reflexão própria. Eu não aprendera ainda a separar o homem social do homem real, sobretudo ou muito menos naqueles com quem privava diariamente. Conhecemos uma pessoa por um nome que nada nos diz na medida em que serve apenas para a determinar na multidão indefinida das outras pessoas; ligamo-la a uma família, a uma profissão, a um meio social; atribuímos-lhe mais ou menos valor; relacionamo-la principalmente connosco, com os nossos interesses, prezando-a ou desprezando-a conforme actua em relação ao sentimento que vivemos da nossa própria importância.

Era ainda o sentimento da nossa própria importância que funcionava na criação de um falso mistério à volta da pessoa de Álvaro Ribeiro. A possibilidade de virmos a ser iniciados na Maçonaria através dele tornara-o prestigioso e prodigioso a nossos olhos. Púnhamos assim véus sobre véus a esconder o verdadeiro mistério que é o do ser singular, tal como é em si, na relação vivente com a insondável origem donde todos os seres provêm e perdíamos assim a possibilidade de nos conhecermos, perscrutando-nos, na mesma insondável relação.

Todavia, eu gostava de subir o Chiado lentamente, porque era um espanto a singularidade de cada rosto, olhado numa espécie instintiva de dupla atenção. Todos aqueles rostos, um a um, sobretudo os olhos, emergiam repentinamente do desconhecido que me habitava.

Uma tarde, já depois do pôr do sol, encostava-me, ocioso e distraído, a uma parede da Calçada do Combro, observando vagamente as pessoas que passavam. Toda a minha vida tem sido este ócio e este torpor mental, esta penumbra de adormecimento, onde, de vez em quando, se acendem luzes e passa, alheio de si, o pensamento. Era a hora em que as alunas de uma Escola Comercial regressavam a casa, nas suas batas brancas. Olhei, mais demoradamente, para uma rapariga de cabelos ruivos, de pele muito branca e, de repente, conheci a sensação estranha de estar a viver aquele momento pela segunda vez: o lugar, a hora do dia, aquelas pessoas que passavam naqueles mesmos sítios e com aqueles mesmos movimentos, eu encostado e a rapariga, nos mínimos pormenores, eu tinha já visto ali. Segui Helena que se deixou seguir. Não casámos, porque a nossa história era do outro mundo.

Este fenómeno é bem conhecido de psicólogos, parapsicólogos, espíritas, teósofos, de toda essa fauna humana que [as] almas seduziu e engana. Henrique Bergson dedica-lhe um capítulo da “Energia Espiritual”.

 

António Telmo

 

* Título da responsabilidade do editor.

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Comentário

Eduardo Aroso

 

DE UM TEXTO ONDE ANTÓNIO TELMO FALA DO SEU HORÓSCOPO, DA SUA FAMÍLIA E DAS TERTÚLIAS DA FILOSOFIA PORTUGUESA

 

Para além do que é comum saber-se, o dia, o mês, o ano e o local onde se nasce, António Telmo diz-nos a hora em que veio ao mundo, indicação preciosa para levantar com exactidão o horóscopo. Portanto, às 14 h de 2-5-1927, em Almeida, Portugal. Seria interessante averiguar onde foi buscar esta informação; se da respectiva certidão, se da boca da sua mãe. Dados que nem sempre batem certo entre si. Todavia, os acontecimentos da vida do filósofo (assunto aflorado, em parte, já à frente) permitem dizer que essa hora, se não absolutamente certa, deve ser muito aproximada. Por isso, António Telmo sabia o grau do seu Ascendente (24) do signo de Leão, bem como a posição dos planetas nas casas (ou domicílios) do horóscopo, que indicam as várias actividades do ser humano. Por exemplo, refere-se à posição do Sol, e cito, na «casa nona, que os astrólogos designam pela casa da filosofia e relacionam com a grande viagem». Telmo, provavelmente por não o querer fazer (mas, por certo, sabendo-o), é de crer que omite o seguinte pormenor importante: sendo esta casa (9ª) a das viagens longas, o mesmo é dizer as relações com povos e países estrangeiros, vemos claramente a linha de causa-efeito na sua vida – viveu em Espanha e no Brasil e, sobretudo neste, contactou com mestres (que a 9ª casa também rege) como Agostinho da Silva e Eudoro de Souza, entre outros, episódios que marcaram profundamente a sua vida, sendo que o significado desta casa refere-se também à própria capacidade de ensinar a um nível superior. Note-se que, nesta casa, seguindo a observação do filósofo, para além do Sol se encontram a Lua e Mercúrio, este último relacionado com a comunicação e as viagens.

Com a palavra Neptuno António Telmo inicia uma frase que não conclui, não se sabendo as razões. No entanto, a posição do planeta é importante por estar junto do Ascendente, isto é, a um dos quatro pontos da chamada cruz, sendo os restantes, o ponto oposto ou complementar o Descendente, o Meio-do-Céu e o Fundo-do-Céu. A conjunção de Neptuno no Ascendente (também por este se relacionar muito particularmente com o corpo físico/energético) confere um alto grau de sensibilidade física, psíquica e espiritual, pelo que E. Bacher designou esta situação típica como a «capacidade de instrumentalização» por forças transcendentes e, em última análise, divinas, para uma actividade de ordem superior. Não sendo todavia o caso do filósofo autor de História Secreta de Portugal, esta configuração astral em certos indivíduos pode servir de veículo a situações negativas, a qual a pessoa poderá não controlar. Assim, com Neptuno nesta posição e no signo de Leão (chefia, poder irradiante, expressão luminosa ou “realeza de espírito”, etc) é fácil começar a ver, astrologicamente, o perfil do filósofo. Há 4 signos cardinais, 4 fixos e 4 comuns ou mutáveis. Os fixos correspondem ao meio das estações: Touro/Maio, Leão/Agosto, Escorpião/Novembro e Aquário/Fevereiro. Telmo nasceu com o Sol e com a Lua em Touro (na Lua Nova). Touro, elemento terra, dá firmeza e estabilidade a tudo o que sob ele se faça. Junte-se a isto o que se disse sobre a natureza de Leão, e entendemos essa auréola que foi reunindo à sua volta um grupo cada vez maior de discípulos e amigos.

 

Lua Nova de Peixes, 2014

 


[1] Este parágrafo termina aqui, com a frase por concluir e sem qualquer sinal de pontuação.

 

«OS MEUS PREFÁCIOS». 03

04-03-2014 22:34

No dia do aniversário natalício de Dalila Pereira da Costa, amiga com quem António Telmo manteve amplo convívio espiritual (bem patente nas cartas que a escritora portuense lhe endereçou, e que, com transcrição, comentário e anotações de Rui Lopo, serão publicadas no suplemento télmico do próximo número duplo da revista de cultura libertária A IDEIA), recuperamos o escrito posfacial que o filósofo da razão poética dedicou a um dos livros porventura menos conhecidos de Dalila, Mensagens do Anjo da Aurora, que contou também com um prefácio de António Cândido Franco. A tábua de Gregório Lopes a que Telmo se refere é o esplendoroso painel onde se representa Nossa Senhora da Misericórdia, hoje à guarda do Museu Municipal de Sesimbra, e patente no núcleo museológico da Capela do Espírito Santo dos Mareantes. Em Março de 1984, sobre e perante este quadro, então na Santa Casa da Misericórdia de Sesimbra, proferiu António Telmo uma notável conferência, cuja súmula, publicada por António Reis Marques, do projecto António Telmo. Vida e Obra, na edição de Março de 1984 de O Sesimbrense, viria a ser arquivada em Sesimbra, o lugar onde se não morre, livro póstumo editado em 2011 pela Câmara Municipal de Sesimbra. No espólio de António Telmo encontra-se uma gravação da referida conferência, de que o nosso projecto oportunamente se irá ocupar.   

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POSFÁCIO A MENSAGENS DO ANJO DA AURORA, DE DALILA PEREIRA DA COSTA[1]

 

Tenho diante de mim, enquanto escrevo esta breve introdução, o quadro de Gregório Lopes onde o pintor representou a aurora na forma de Nossa Senhora da Misericórdia com o seu largo manto azul escuro aberto como as asas de um anjo. Representou a aurora como Virgem do Manto ou a Virgem Nossa Senhora como a aurora. Escrevo aurora com letra inicial minúscula para que se veja bem que é a aurora mesma e não alegoria, a dos dedos róseos dos cantares de Homero. A aurora dá que pensar e raros são os que, como a Dalila, vêm nela o Anjo.

A luz manifesta-se a oriente e da negridão da noite surge primeiro o branco da alvorada e depois a aurora rubra mãe do ouro que é o sol. Ali, no horizonte a nascente, se pintam as três fases alquímicas de fabricação do ouro: a obra ao negro, a obra ao branco e a obra ao vermelho. Mas Nossa Senhora, tal como a pintou há cinco séculos Gregório Lopes, está diante de mim para que eu não me esqueça que ela é o essencial sem o qual a natureza não teria qualquer sentido. Ela não recebe o sentido da natureza.

Sobre a cabeça inclinada levemente para a direita tem a coroa de oiro e áurea é a auréola ou a aura que repete na forma o oval do seu rosto. E numa ondulante fita, em cima e de lado a lado do quadro está escrito: AB INFANTIA MEA CREVIT MECUM MISERACIO ET AB UTERE MATRIS MEAE EGRESSA EST MECUM.

O leitor não estranhou decerto que tenham vindo a aparecer em torno da Ideia que estamos contemplando tantas palavras em que está presente a raiz AUR: aurora, áureo, auréola, aurum. Se lhes juntarmos a palavra aures que é como em latim se dizem os ouvidos, ao sabermos que aur é a palavra hebraica para luz (sim senhor, senhores comparativistas), pasmaremos com o sublime ensino da língua que dá a luz da origem como audível, mais do que como visível. Sabia-o muito bem Goethe que, no início do segundo Fausto, põe este herói do conhecimento, de súbito acordado pela luz da manhã, a exclamar perante o sol que nasce: “Que estrondo!” Numa das suas conversas com Eckerman, veio a explicar que o maravilhoso som ouvido o ouviu por ter contemplado muitas e muitas vezes o nascer do Sol, por ter estado muitas vezes voltado para o Oriente, que, na palavra, é marcado pela mesma raiz AUR.

Também nós deveríamos levantar-nos cedo e procurar um lugar de onde pudéssemos assistir à formação da aurora. Esta seria a melhor introdução ao livro de Dalila. Pelo menos ficaríamos a fazer uma ideia do que possam ser as Mensagens do Anjo que nos dispusemos a ler.         

 

António Telmo



[1] Dalila Pereira da Costa, Mensagens do Anjo da Aurora, Lisboa, Hugin, 2000, pp. 147 a 149.

 

DISPERSOS. 08

03-03-2014 08:58

Completaram-se no passado sábado, 1 de Março, 109 anos sobre o nascimento de Álvaro Ribeiro, mestre por excelência de António Telmo, mestre daqueles que sabem. Aqui o recordamos com palavras do discípulo. Trata-se da comunicação apresentada ao Colóquio A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro, realizado em 5 e 6 de Março de 2005, no Auditório Conde de Ferreira, em Sesimbra, e publicada em Teoremas de Filosofia, n.º 12, Porto, Outono de 2005.   

Apresentação de Álvaro Ribeiro aos Sesimbrenses

 

Compreende-se que a organização desta homenagem a Álvaro Ribeiro me tenha escolhido a mim para fazer a sua apresentação, isto é, para tornar o filósofo presente entre nós como um ser vivente e não como forma abstracta de pensamento. Compreende-se, porque de todos os que aqui vêm falar sobre ele e que com ele conviveram eu sou o mais antigo, aquele que durante muitos anos privou com ele e que sempre o procurou seguir em tudo quanto escreveu, embora por caminhos próprios, que não quer dizer que sejam os melhores.

Álvaro Ribeiro é (com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra. Não o mais notado. O mais notado, embora também notável, é Agostinho da Silva, já um dia homenageado nesta mesma sala. A sua vida decorreu obscura, repartida entre o modesto trabalho de ganha-pão e o estudo, isto é, o desejo que realmente importa satisfazer um dia. Exprimo-me assim, porque estudo, do latim studium, significa o desejo por excelência.

Não tinha o dom da palavra oral, talvez por ser tímido, talvez por ter sido perturbado no sentimento de segurança e de confiança nos seus próximos durante a adolescência, enquanto viveu aprisionado num colégio de padres em França. Dizemo-lo porque o lemos num dos volumes do seu livro Memórias de um Letrado. Mas o que vamos contar e que mostra a extraordinária inteligência que a sua timidez escondia não foi ele que no-lo disse, mas outro discípulo sublime de Leonardo Coimbra, José Marinho. O episódio revela ao mesmo tempo a presciência de Leonardo Coimbra e já diremos ou se verá porquê.

No último exame do seu Curso na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, apresentou-se perante um júri formado por Leonardo como presidente e dois outros professores que não podemos identificar. Durante o interrogatório feito por Leonardo Coimbra, o jovem estudante praticamente pouco disse. Não encontrava as palavras para o seu pensamento, hesitava, tartamudeava, fazia gestos.

Terminado o exame, os três professores conferenciaram, apresentando uns aos outros as respectivas classificações. Duas notas eram, como seria de esperar, negativas e aqueles que as atribuíram nem queriam acreditar quando Leonardo Coimbra lhes comunicou que tinha dado vinte valores.

- Vinte valores!, exclamaram eles. – Mas o rapaz não disse praticamente nada!

E Leonardo Coimbra:

- Não o disse com palavras. E então os gestos?

A verdade é que estava ali a ser julgado um dos maiores pensadores de todos os tempos. Leonardo Coimbra foi quem soube classificar.

Conheci o Álvaro Ribeiro junto ao elevador do Lavra, no Largo da Anunciada, em Lisboa. Subia-se por ali até ao Campo dos Mártires da Pátria. Se soubermos estar atentos, e temos a obrigação de estarmos sempre atentos, verificaremos sem dúvida que o primeiro encontro entre duas pessoas que virá a ser muito importante e até decisivo para ambas, seja um homem e uma mulher que virão a pertencer-se como marido e esposa, sejam dois homens dos quais um deles abrirá ao outro o caminho de união com o conhecimento de Deus são encontros sempre acompanhados de circunstâncias que se podem e devem interpretar como símbolos. Encontrei-me pela primeira vez com o Álvaro Ribeiro no Largo da Anunciada e daí ascendemos até ao Campo dos Mártires da Pátria. Não é difícil ver a significação destas circunstâncias.

O Largo era o da Anunciada, ao anoitecer daquele dia e também do mundo.

Eu ia com o meu irmão mais velho, o Orlando Vitorino, que muitos de vocês conheceram, e foi ele que me apresentou o grande pensador, em cuja tertúlia militava.

Não me estendeu a mão. Acenou levemente com a cabeça cumprimentando-me. Não me prestou a mínima atenção enquanto subíamos no elevador. E lá em cima, depois de uma acesa conversa com o meu irmão, despediu-se igualmente com um ligeiro aceno da cabeça.

Eu sabia que estava ali um dos homens mais inteligentes de Portugal. Fiquei triste pela indiferença que mostrou comigo, mas no fundo de mim continuei imperturbado, pois era dali, desse fundo do meu ser que eu contemplava a estrela sobrenatural que nos conduz a todos na Estrada Régia.

Três dias depois, entrei na Brasileira do Rossio, um café de gente perdida onde Álvaro Ribeiro tinha o seu Liceu Aristotélico de filosofia portuguesa. O filósofo estava sentado a uma mesa a olhar. Nesse tempo ainda se podia olhar imaginando o infinito (exercício que se recomenda), porque estávamos livres desses pequenos écrans ruidosos que se interpõem entre nós e o mundo (de Deus) verdadeiramente real.

Para meu espanto, minha surpresa e minha alegria fez um gesto chamando-me para a sua mesa. Tinha-me reconhecido!

E ainda foi maior o meu assombro quando me tratou pelo meu próprio nome. Assim que me sentei e após um curto silêncio perguntou-me: “O António Telmo o que é que acha que é a imaginação?”

Reflecti e disse: “Bem. Nós olhamos para o que está à nossa volta. Recolhemos a imagem de um objecto, de um ser no nosso espírito e, se somos imaginativos, transformamos essa imagem, tornamo-la significativa de uma ideia, fazemos com ela um poema.”

Sorriu com agrado e pôs em mim aquilo que viria a ser o germe de tudo quanto escrevi, pensei e vivi até hoje:

“Não é exactamente isso. A imaginação não é isso. A imaginação cria o seu próprio mundo, é senhora do seu próprio mundo, não depende do mundo sensível, do mundo que nos rodeia. Não é o mundo sensível que a produz, servindo-lhe de base. É ela que faz que haja o mundo sensível.”

Foi sobretudo esta última frase que se apoderou da minha inteligência e não a deixou mais sossegar. É a imaginação que faz que haja o mundo sensível. Como é isto? Perguntava-me. Até onde terei de ir em viagem da alma para compreender isto?

Nessa manhã, ele disse-me ainda:

“Quando tirar a licenciatura (anda na Universidade, não anda?) lembre-se sempre de que António Telmo há só um e que o título de doutor é como uma alcunha que se põe a muita gente. Há quem tenha vaidade em ser doutor e daí se segue que nunca procurará conhecer-se a si próprio, conhecer o ser que tem o seu nome e não outro, conhecer-se ali onde o seu espírito procura não ser dominado pela sua imaginação, mas fazer dela o seu trono.”

Foi assim que fui recebido como aprendiz de filosofia no Liceu que funcionava na Brasileira do Rossio.

Mas eu não venho aqui falar de mim e, se falei, foi porque, através de mim, mostrei o que num homem superior é o amor ao próximo. Não me propus traçar a biografia do grande pensador, mas, já que fui convidado pelos organizadores desta comemoração para dizer algumas palavras sobretudo àqueles que de Álvaro Ribeiro só conhecem o nome, contarei ainda um acontecimento da sua vida em que de novo se revela o seu amor ao próximo, desta vez não do mestre para o futuro discípulo, mas do filho para a mãe.

Ele via a mãe como uma pessoa angélica e pura. Aliás, o nome de sua mãe dava-lhe razão. Chamava-se Angelina Cândida.

Um dia, em consequência de um abalo interior a que os médicos chamam, não sei se com propriedade, um acidente cárdio-vascular, esta senhora perdeu a língua portuguesa. Eu digo perdeu a língua portuguesa, porque continuou a falar sem a mínima falha a língua francesa que tinha aprendido e praticado durante uma longa estadia em França. A ser verdade que a memória de uma língua está localizada nos neurónios do cérebro como num computador, a rotura vascular foi de uma precisão cirúrgica. Digo isto ironicamente. Quem leu Álvaro Ribeiro sabe que ele não aceitava a hipótese que localiza o pensamento no cérebro e, portanto, também não uma língua, pois ela é essencialmente pensamento.

Sentou-se na cama ao pé da mãe e começou a ensinar-lhe a língua portuguesa. O B a Ba. Durou muitos dias o ensino, mas por fim a língua portuguesa foi recuperada, regressou ao seu trono naquela alma. Só por má vontade não se vê neste acontecimento um sinal de que o pensamento, como o filósofo asseverava, é inlocalizável na matéria. Não há órgãos da fala, repetia ele baseando-se nas mais recentes descobertas da filologia e da fisiologia. Não há órgãos da fala. Do mesmo modo que os joelhos não se fizeram para rezar e as mãos para tocar piano, assim os órgãos pelos quais comemos, bebemos e respiramos não se fizeram para falar.

Álvaro Ribeiro pensou e escreveu numa época em que já se preparava, nos meios culturais, a integração de Portugal na Europa e a consequente servidão que, a pretexto de uma necessitação económica, invadisse todos os domínios de influência popular. Ao postular a existência de uma filosofia portuguesa, ao proclamar que um povo que não pensa por si próprio perde fatalmente a soberania, que a soberania só por extensão reside no poder do dinheiro, que reside sim sobretudo no poder da inteligência e da imaginação, suscitou contra si o ódio dos bem pensantes do país que tudo fizeram para que o seu nome fosse apagado.

Estamos aqui hoje, passados quase setenta anos sobre a publicação d’ O Problema da Filosofia Portuguesa, livro que abriu a estrada para o que é a verdadeira liberdade de pensamento, que é o pensar por si próprio. Passados quase setenta anos, todos começámos a ver que só pelo Espírito que, como disse Camões, os pescadores têm por Santo será possível levantar a Pátria do chão.

Foi com uma secreta intenção que, de entre o muito que conheci da vida de Álvaro Ribeiro, escolhi três acontecimentos apenas. Três e não mais e também não menos. O número necessário para que do silogismo não se decaia na estatística.

O primeiro episódio é o da relação do discípulo com o mestre, isto é, de Álvaro Ribeiro com Leonardo Coimbra; o segundo episódio é o dele, enquanto Mestre, com o seu discípulo; o terceiro episódio é o da sua relação com a Mãe.

Nos três há isto de comum: a relação do filósofo com a língua portuguesa. E o facto de essa relação ter sido tão difícil no plano da oralidade é o que certamente explica que o pensador, fazendo de uma fraqueza uma força, fizesse passar o pensamento pela filologia para que, através dela, se tornasse filosofia, filosofia que é um esplendor da ideia.

Então, para ele, tudo quanto existe, e tudo quanto é, é a criação ou, se preferirdes, a manifestação de uma palavra original e que é luz e vida e que está com Deus no princípio dos princípios, no que em todos os começos é começo. Por isso mesmo, se compreendermos com a profundidade e o respeito e a exactidão que nasce de uma imaginação disciplinada pela arte, se compreendermos só que seja uma língua e essa língua é antes de tudo o mais a nossa, poderemos ver como todo o universo é uma maravilhosa organização sintáctica, em que as formas manifestadas são na relação dos verbos com substantivos e adjectivos, dotados de energias vibrando múltiplas como fonemas no som primordial. O homem é uma palavra, com os seus predicados próprios, a mulher outra palavra de superior predicação, o amor é o verbo que se conjuga pela imaginação infinita de um e de outro. Este exemplo basta, se não é o mais importante, para que utilizemos ao falar e ao escrever e sobretudo ao pensar as palavras fundadas na etimologia que é a de cada uma e, sem desviar das leis de Deus tais como se manifestam na Natureza, levantar de raiz a árvore da imaginação humana pela arte de poetar e pela arte de filosofar, isto é em suma, pela arte de amar.

Há um livro de Oscar Wilde que tem por título A Importância de se Chamar Ernesto. Falou-me Álvaro Ribeiro, quando o ouvi pela primeira vez, da importância de me chamar António Telmo. Direi agora da importância de se chamar Álvaro Ribeiro.

Quem nasce recebe um nome. Apresentar, segundo o uso social, consiste em dizer o nome da pessoa que se apresenta a outra pessoa ou a outras pessoas que também estão presentes. Álvaro Ribeiro não está aqui presente em corpo. Juntaremos ao seu corpo o que ele significa, ele esse nome, para começarmos a ter o filósofo presente em espírito.

Diz-se popularmente que “é pior enganar-se no nome do que na pessoa”. É que o nome em princípio representa a essência sobrenatural do indivíduo, pelo sacramento do baptismo lançado no mundo para se desenvolver naturalmente. Emprego a palavra “desenvolver” no sentido que Fernando Pessoa pensou para o poema Iniciação.

O nome exemplar é o de Wolfgang Goethe. Poderíamos também lembrar os irmãos Lumière que puseram pelo cinema as fotografias em movimento, ou Bell, o inventor do telefone. Mas com o nome de Goethe descemos mais fundo. O autor do Fausto sabia, através de Herder, que lhe serviu de modelo para a criação de Mefistófeles, que o seu salto do lobo (Wolfgang) ligava sobre o abismo pelas cores a treva e a luz. Herder brincava com os fonemas de Goethe, Goetia e Gott.

Devemos, pois, sempre que nos propomos tornar conhecido um autor, alguém que conseguiu ser ele próprio, começar por imaginar no seu nome. Alvaro Ribeiro escrevia assim mesmo o seu nome de autor, sem acento na primeira sílaba da esdrúxula Álvaro, para que a ideia de luz nascente, de alva, de alvor, de alvorada e de alvoroço fosse a enteléquia da corrente filosófica capaz de remover os portugueses, do ribeiro ao rio e do rio ao mar, ligando-os de novo ao seu destino atlântico.

Eis, por este caminho, que não sou eu, mas o filósofo que se apresenta a si próprio. Em vários momentos dos seus livros, ele dá a inquietação como o estado de alma próprio de quem cultiva “a ciência que se procura”, desde que essa inquietação se revista da forma do alvoroço.

Assim, por exemplo, em Apologia e Filosofia: “Quem for dotado daquele senso linguístico que caracteriza os verdadeiros poetas, saberá que muitas palavras portuguesas, como, por exemplo, saudade e alvoroço representam vivências fundamentais que, fenomenologicamente estudadas, abrem caminho para noções ou estimulam a peculiaridade do nosso pensar.”

De alva ou alba e alvor, antes de chegarmos a alvorada, alvoroço e alvorecer, podemos, por movimento de letras, chegar a um feixe de noções vivenciais como valor, lavor e louvar que encaminham o espírito para ora et labora, famoso preceito de alquimia. O ORA ET LABORA poderia figurar como a legenda do brasão de Alvaro Ribeiro, se nestes tempos do fim ainda persistisse a tradição de ser conferida nobreza a quem se distingue na guerra santa da filosofia.

 

António Telmo

 

DOS LIVROS. 02

28-02-2014 10:40

De um caderno de apontamentos. 01

 

A ideia de que a electrónica funciona hoje como o sistema nervoso da humanidade traz outra: a de que há um cérebro capaz de mexer todos os cordelinhos. O seu aparelho ósseo-muscular foi montado durante o século XIX e tem vindo a ser constantemente aperfeiçoado. Poderíamos estender a analogia a todos os órgãos. É, porém, analogia? Não estamos perante um facto?

Isto quanto ao macrocosmos designado como humanidade. No microcosmos, cada indivíduo é igualmente tratado como uma máquina, cada vez mais subordinada ao sistema geral, na medida em que a máquina vier a ser integrada na rede geral dos computadores. Para a medicina, por enquanto, é um arranjo de peças, substituídas por outras retiradas por outros indivíduos, vivos ou mortos. Aqui, o ideal perseguido é a substituição completa no mesmo ser de todas as peças. Já se tenta implantar braços e pernas de cadáveres nos amputados. A alma passeará um corpo morto, animará um cadáver.

O que parece, porém, que representaria o triunfo da explicação mecanicista da vida e da concepção de um mundo sem espírito deverá ser interpretado como o triunfo daquilo que é negado: a individuação. O homem continuará a ser o mesmo nos seus recessos profundos, a vida nele não cessará apesar da implantação da morte. Não é menos um horror, mas, uma vez mais, a única, primeira e última realidade é o ser essencial de cada homem. Nas operações, permanece para além da anestesia, dotado de um poder comparável ao da ressurreição. A anestesia tem por fim evitar a dor, o protesto do ser durante a transplantação.

Esta palavra transplantação avisa-nos, porém, de que o homem é concebido como um mecanismo vegetal. É o que se verifica pela clonagem, pela qual se realiza o que, nas plantas, é a propagação por estaca.

No Yoga, hoje tão propagado simultaneamente com outros prodígios, o homem é reduzido à sua condição vegetal pela prática da imobilização do tronco, suportada na raiz pelo plano do ânus e das pernas compostas em nó, e pela evacuação do pensamento consciente de si. Aqui, a anestesia do animal produz a estesia da planta, esse vago sentir obscuro e indeterminado que, na natureza, é uma espécie de remota consciência da inteligência que, nos recessos da terra, busca a luz e a flor.

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)

DISPERSOS. 07

25-02-2014 09:16

O Encoberto, de Bruno[1]

 

            O esquema traçado constitui a teia através da qual se desenvolve a trama desta obra-prima da história de Portugal. O leitor, se o mantiver presente no espírito durante a leitura de tão complicado livro, não terá grande dificuldade em orientar-se nos caminhos bruninos, – sinuosos e entrecruzados. Julgamos dar nele a imagem operativa que animou e articulou o pensamento de Bruno. No entanto, o próprio esquema necessita de ser explicado e fundamentado.

            Comece-se pelo “sebastianismo” no vértice inferior onde se tocam as duas linhas principais de acção política. O Encoberto é para Sampaio Bruno o Reino de Deus por fim revelado na República dos Homens. Por vicissitude histórica a ideia do encoberto assumiu-se entre nós incorporada no anúncio do regresso de D. Sebastião que viria estender pelo mundo o Reino já fundado de Cristo. Será a ideia católica, tal como a viveu, por exemplo, o Padre António Vieira.

            Todavia, parece querer dizer-nos Bruno que o movimento sebastianista, organizado em torno das profecias de Gonçalo Eanes Bandarra, foi uma criação judaica, de fundo messiânico, lançada contra a Inquisição. Chega mesmo a sugerir, nas últimas páginas do livro, que as profecias não se refeririam a D. Sebastião, como mais tarde um D. João de Castro e um Padre António Vieira viriam dizer, mas aludiam à acção de David Reubeni, misterioso judeu alemão, que terá estado em Portugal no reinado de D. João III, era protegido pelo Papa Clemente VII, dizia-se vindo do Oriente, de onde o enviara o Preste João, e tentara converter ao judaísmo o próprio imperador Carlos V através do seu discípulo Salomão Malcho, o português Diogo Pires.

            O “sebastianismo” surge-nos assim com um duplo sentido e o não ter em conta que umas vezes está ao serviço da ideia católica de domínio universal e outras vezes da ideia judaica de fraternidade universal, ali posta a esperança num homem, herói ou santo, aqui no acesso de todos os homens. O segundo sentido terá sido animado e movimentado por uma organização secreta, depois conhecida cá fora por Maçonaria, tornada activa em Portugal, segundo o mesmo Bruno, no tempo de D. João III, por intervenção do referido David Reubeni, que já ostentava um avental com os sacros símbolos da Ordem. Quase simultâneo foi o aparecimento da Companhia de Jesus.

            Compreende-se, pois, a energia mental que o nosso historiador põe em negar, contra outros notáveis historiadores maçons, a filiação da Ordem nos Templários, servindo-se até do testemunho insuspeito do Conde Joseph de Maistre para mostrar que ela é nos princípios, meios e fins estruturalmente judaica. Este Conde Joseph de Maistre, superfamoso defensor da Igreja Católica, foi iniciado numa loja maçónica martinista e desempenhou na organização importantíssimo papel. Privou com o iluminado Saint-Martin, o promotor da tríade Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Saint-Martin foi o ilustre discípulo de Pascoal Martins, judeu português, que se diz também enviado do Oriente, e fundador, como o nome o diz, do martinismo. Toda a revolução francesa está animada pelo ímpeto contido na famosa tríade.

            Dois séculos antes, houve em Valência, na vizinha Espanha, uma série de insurreições populares à volta de sucessivos encubiertos queimados uns após outros pela Inquisição, que durante vários anos alimentaram a chama da revolta. Defendem já as ideias e as emoções que, mais tarde, se tornariam vitoriosas com a Revolução Francesa. O primeiro encubierto é, como David Reubeni, uma misteriosa figura de judeu.

            Para Sampaio Bruno, o ódio ao judeu em que comungavam não só os dirigentes da catolicidade mas também o povo ululante durante os autos de fé tem como base um conflito étnico remotíssimo. Sucessivas ondas de camitas terão povoado o território português, provindas de África. Este povo camita – do qual os berberes – terá sido vencido pelos hebreus e ter-se-á espalhado pelo norte de África. O que fundamentalmente o caracteriza é o culto pelos sacrifícios humanos por cremação, culto que revivesce nos autos de fé. O catolicismo dominante na Península Ibérica será, pois, um catolicismo africano, fanático e cruel e, por isso, a Sampaio Bruno afigura-se-lhe perfeitamente ridícula a tese de Oliveira Martins que vê no sebastianismo a expressão da alma idealista e sonhadora de todo um povo. O leitor que tenha a paciência de ler toda a documentação apresentada neste livro descrevendo o comportamento popular durante os autos de fé, em uníssono com as acções dos dirigentes, não deixará de sentir-se pelo menos impressionado de pertencer a semelhante Pátria.

            O Encoberto não é, pois, um livro que satisfaça o patriotismo ingénuo de tantos portugueses. Põe-nos perante a realidade da nossa própria natureza, no que ela tem de sinistra e tenebrosa. Sampaio Bruno não é porém um maniqueu, no sentido deturpado da palavra, que é o que vê no maniqueísmo um dualismo do bem e do mal. É um gnóstico, embora do tipo não cristão. O mal é, para ele, um mistério e só a iluminação divina que traz consigo a progressiva reintegração no uno das parcelas divididas poderá finalmente libertar-nos do mal. Daqui o elogio do socialismo como forma de teodiceia. Assim como no alto, pela kabbalah, a Igreja se ligará à Maçonaria (assim pretendia David Reubeni), também em baixo o socialismo abrangerá tanto camitas como semitas no mesmo movimento de aperfeiçoamento moral.

            Podemos discordar de Sampaio Bruno, mostrando como o socialismo constitui uma degenerescência da Maçonaria. Aqueles que, de um ponto de vista esotérico ou simplesmente religioso, formam uma imagem minorativa da Maçonaria porque o socialismo ateu ou igualitário dela derive ou nela se fundamente, deveriam pensar que, também para os católicos, os caminhos sinuosos do clero não alteram a perpétua verdade da Igreja fundada por Pedro. Todavia, Sampaio Bruno vê no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria. Assim como Leonardo Coimbra dizia ser a “mecânica” o socorro de Deus enviado ao Nada, quererá talvez significar Sampaio Bruno que o socialismo constitui o socorro que o todo homogéneo dos seres integrados envia ao nada dos seres decaídos. O fim da Maçonaria no plano político será assim a participação dos membros dispersos e dilacerados da humanidade numa grande e luminosa unidade interior. Nem um só homem poderá ficar fora do processo universal de realização da Bondade. Todos os homens, pela democracia, serão chamados a cooperar activamente na política, assumindo-se cada um como uma parcela luminosa do universo, pois, enquanto emanação superior, conquanto esquecida de si, possui a potencial dignidade de um “sacerdote-rei” maçon, de um arquitecto. Há então que correr o risco que consiste na subversão dos elementos superiores pelos elementos inferiores. Mais do que o risco, há que viver essa subversão sem a cobardia do egoísmo, a não ser que se aceite a ideia pessimista de que para sempre haverá divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os que podem e os que não podem.

            Neste ponto, cremos ter dado as indicações necessárias. Deixamos ao leitor o cuidado do melhor. Antes de terminar, poremos ainda um aviso quanto ao estilo de Bruno.

            Este livro só pode desvendar-se pela inteligência que a memória dá ou pela memória que a inteligência ilumina. O leitor que, logo nas primeiras páginas, não sinta que está perante um livro secreto ou “encoberto”, como de si mesmo ele diz no título, e que, em consequência, siga por essa estrada das frases e dos períodos desatento ao que já percorreu e desinteressado pelo que vai percorrer ainda ou ficará a meio caminho, enfastiado e confuso, ou chegará ao fim sem nada ter visto de essencial. Tudo nele se liga e tudo está posto a seu tempo e no lugar exacto. É uma fantástica, rigorosa, realista construção mental.

            Em geral, quando lemos, arrumamo-nos ao sentido imediato e deixamo-nos conduzir pela cintilação fácil das palavras. Sampaio Bruno não deixa. Logo no período, se não na frase, troca as habituais relações dos termos do discurso, introduz parêntesis, emprega formas estranhas e desusadas de dizer, amontoa citações, demora propositadamente o ponto final, obriga-nos enfim a um esforço de memória que, a ser feito, nos torna mais ágeis de inteligência. Por ali não se vai desatento e adormecido. As sucessivas barreiras exigem um leitor corajoso e que confie na final revelação de um segredo.      

 

António Telmo


[1] Messianismo Português, colóquio realizado na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra, no dia 23 de Outubro de 2004, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005, pp. 39 a 45.

 

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