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DOS LIVROS. 06

03-04-2014 00:21

No 20.º aniversário da partida de Agostinho da Silva...

[Agostinho da Silva na Universidade de Brasília, fotografado por António Telmo]

 

 

De uma conferência de 19-V-06 (6.ª Feira) na Associação Agostinho da Silva

 

Fuimus simul in Garlandia. Estivemos juntos em Brasília. Eu nem sequer ainda licenciado, com o mais insigne helenista e o supremo latinista lusobrasileiro Eudoro de Sousa, o exímio tradutor da Poética de Aristóteles e o Agostinho da Silva que traduzia um texto do latim para o português com a velocidade do pensamento.

Não exagero. Um dia, deparei com um não sei quê numa ode de Horácio que me feriu a alma de espanto e, como Agostinho da Silva estivesse por ali, quis que ele participasse comigo do mesmo espanto. Pegou no livro, correu a ode com o olhar e, devolvendo-mo, interpretou cada verso, c ada palavra, até cada fonema da ode perturbadora.

De outra vez, pedi-lhe que me explicasse, pelo que ao latim dizia respeito, um passo difícil de Tácito. A pergunta que lhe pus caiu, por um destes acasos inexplicáveis, na sua única zona de ignorância. Tirou das estantes uns livros e pôs-se a estudar o assunto. Passados uns minutos, voltou para junto de mim, disse-me como a coisa era e, esfregando as palmas das mãos uma pela outra, exclamou com um ar de gaiato: «Agora já ninguém me ganha. Era o que me faltava saber do latim.»

A simplicidade na complexidade é o que caracteriza o homem superior. Daí a tentação que todos sentimos perante essa complexidade que logo nos é evidente de a reduzirmos a uma ideia simples que nos dê o homem todo feito e quase sempre à medida dos nossos pequenos ideais. Alguns têm procurado ver em Agostinho da Silva apenas o homem de acção, o político, o comprometido com este ou aquele sentimento geral e, porque geral, sem a nota pura da singularidade. Assim, há quem queira ver nele só o monárquico que confessou ser perante as câmaras da televisão ou então só o comunista, que nunca confessou ser, mas que se deduz da sua apologia do municipalismo medieval. Uns vêem nele o católico, outros o heresiarca; uns o místico, outros um dos epígonos, no domínio do pensamento, da ciência moderna. Agostinho da Silva é isto tudo e muito mais, e também muito menos, porque terá sido, durante a vida, no modo como a viveu e pensou, um dos homens que mais de perto esteve de realizar o ideal do «pobre de espírito» de que nos fala Cristo no Evangelho, sabido como, para pedir a dádiva divina do espírito, necessário é que nos sintamos nada, mas um nada que é tudo, supremo paradoxo!

 

António Telmo

 

(Publicado em Congeminações de um Neopitagórico, 2006/2009)

«OS MEUS PREFÁCIOS». 04

02-04-2014 11:40

[SOBRE OS SONHOS] POSFÁCIO A ARTE DE SONHAR, DE ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO[1]

 

Estremoz

s/d [Setembro de 1993]

 

Meu Caro António Cândido Franco

 

[…]

Dizem que o sonho é uma produção da alma, o mundo que a alma se cria em si mesma. E quem o diz (os leibnizianos, por exemplo, com a ideação das “mónadas sem janelas”) pensa igualmente para com o estado de vigília. Aqui, os acontecimentos, por exemplo, são também produções e manifestações da actividade da alma do indivíduo a quem acontecem. É, de facto, muito difícil distinguir o sonho da vigília. Nele há espaço e há tempo, matéria e resistência, dor e prazer, como na vida em que julgamos estar acordados. E, se estivermos atentos aos fenómenos da vigília, nem a grande capacidade de metamorfose que caracteriza o sonho constitui uma diferença decisiva, isto é, que cinda um estado do outro. Embora haja a possibilidade de o sonhador ter consciência de si, influindo deliberadamente no próprio sonho, o que é comum é que saibamos do que sonhámos lembrando e daí o engano de pensarmos que foi uma ilusão, uma fantasmagoria subjectiva. Mas se, exercendo aquela possibilidade, formos capazes de nos lembrar sonhando o que fizemos durante o dia em que estávamos acordados, então será o sonho que nos aparecerá como real e a vigília como fantasmagórica.

Quando eu tinha vinte e tantos anos, aconteceu-me o seguinte. Tinha acabado de me deitar e, antes de me voltar para a esquerda ou para a direita, de súbito uma força entrou pelas pontas dos meus pés e percorreu o meu corpo todo, subindo por mim acima e saindo pela “coroa” da cabeça. O movimento, como uma onda poderosa, era acompanhado de um som maravilhoso de guizos, que se detinha subitamente logo que a força saía. Mas passados momentos de absoluto silêncio, o processo repetia-se e no plexo solar era como se a alma se separasse do corpo.

No Egipto havia uma prova de iniciação em que os guizos constituíam um elemento fundamental. Onde foi a sua imaginação secreta buscar isso dos guizos vegetais?

É que se o sonho, como dizem, é uma criação da própria alma, como é que se opera a comunicação entre as mónadas? Não, evidentemente, dentro da excepção, por uma relação de causa a efeito que é a única que admitem a ciência e o senso comum. Temos de falar então de harmonia pré-estabelecida ou de simpatia de todas as partes do universo no seu voltarem-se para o uno.

[…]

António Telmo



[1] António Cândido Franco, Arte de Sonhar: 87 sonhos com Teixeira de Pascoaes, Évora, Casa do Sul, 2001, pp. 121-122.

 

CORRESPONDÊNCIA. 06

01-04-2014 15:43

CORRESPONDÊNCIA DE ÁLVARO RIBEIRO PARA ANTÓNIO TELMO. 01



 

Lisboa, 30 de Outubro de 1958

 

 

Meu caro António Telmo:

 

Muito agradeço o favor da sua carta, porque sei ter sido uma das raras pessoas a quem V. quis dar essa expressão de amizade. Muito obrigado.

Sei que V. não gosta de cultivar a epistolografia, género adolescente e feminil de literatura, mas agora leio com tristeza a notícia do seu intempestivo desvio da carreira literária. Ao pensar que em 1959 vai ser celebrado em França, e no resto do mundo culto, o centenário do nascimento de H. Bergson, lamento que V. cesse os seus prometidos trabalhos, em que muitos de nós víamos uma segura esperança.

Quanto a mim, que no escrever para o público, ou para o futuro, encontro alívio de inconfessados sofrimentos ou digna reparação de conhecidas injustiças, não me envergonho de dizer que estou coligindo mais notas para o próximo livro ou opúsculo. Disse-lhe já que estou meditando na filosofia do jogo, que é a filosofia do comércio, e não me esqueço de que tive ocasião de lhe pedir o favor de me emprestar um livro clássico sobre o assunto. Mantenho, todavia, esse pedido.

O meu livro sobre a “Escola Formal” ainda não foi dado à luz, e tenho já a certeza de que só depois de distribuído em todo o País me será lícito obter exemplares para ofertas aos amigos. É assim a avareza da casa editora.

Nesta Lisboa dos cafés vão-se desmoronando as tertúlias, em consequência das invejas e das intrigas. Há duas semanas que não vejo o António Quadros. As conversas habituais causam desânimo. O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe...

Na madrugada de 13, minha Mãe sofreu uma queda. Já não se levanta da cama; passa as tardes, e principalmente as noites, a gemer. Sofre muito. O médico manda suspender este medicamento, experimenta outro, e assim sucessivamente. Para a Conchita, significa isto tudo uma inexplicável provação: falta-lhe a piedade religiosa.

Para completar a amargura deste fim de ano, a Junta Central das Casas do Povo é transferida para outro local, onde cessam as liberdades de que gozámos durante os últimos tempos.

Creia, meu caro António Telmo, que recebi a notícia da sua adaptação a Beja com a esperança de que ainda melhores caminhos lhe dê Deus. Abraça-o o amigo grato

Álvaro Ribeiro

DISPERSOS. 09

31-03-2014 11:29

[Ernst Jünger]

 

O número 13: página de autobiografia espiritual*

 

 

14 de Outubro de 1998

 

Ontem, dia 13, encontrei, sem que o procurasse, o texto de que precisava, desde que, há quatro anos, colhi no meu quintal um trevo de quatro folhas. Foi tão importante este encontro como o do trevo. Ambos são como o início e o fecho de um ciclo de vida. Mais uma vez a significação tornou interior e actuante o que, não obstante o seu carácter insólito, não diferia pela sua opaca exterioridade de tudo quanto vamos vendo no decurso dos dias.

O texto é de Ernst Jünger. “Um trevo de quatro folhas traz felicidade. Todavia, há uma condição, que o encontremos sem o termos procurado.” Ignorava esta condição. Vejo que no meu caso ela se deu. Lia no meu quintal o Homem de Luz de Henry Corbin. Ao suspender a leitura por uns momentos., o meu olhar caiu num trevo de quatro folhas, bem distinto num tufo que se amontoava à volta de uma roseira.

“Julgaremos estar perante um paradoxo e, no entanto, muitas pessoas têm o dom de descobrir trevos de quatro folhas sem que estivessem à procura deles. A minha mãe era uma dessas pessoas. Muitas vezes, passeando com ela ao longo de um campo de trevos, baixava-se para colher um de quatro folhas. Eu punha-me à procura, mas, apesar de todos os meus esforços, nunca consegui encontrar um que fosse portador da felicidade.”

Em rapaz, eu e outros da minha idade, por muito que o tentássemos, nunca nos foi dado encontrar a excepcional planta. Fi-lo muitas vezes depois. Cheguei a convencer-me que não existia o trevo de quatro folhas e que a tradição popular queria apenas significar com isso que a felicidade é impossível.

“Conheci – prossegue Ernst Jünger – outras pessoas que tinham adquirido esta faculdade. “Adquirido” não é, a bem dizer, a expressão justa; é antes um dom que se manifestou um belo dia. Data importante para elas.”

Data importante, pois, para mim. Importante por se ter manifestado o dom e não porque, depois disso, tenha acontecido alguma coisa que se pudesse interpretar como a vinda da felicidade. Tudo continuou a correr tranquilamente como antes.

“Desde que a “procura” me deixou

Aprendi a encontrar.

Desde que um ventre me fez frente

Navego com todos os ventos.”

“Nietzsche chamou a estes versos “A Minha Felicidade”. Os dois primeiros são ambos aplicáveis aos trevos de quatro folhas, os dois últimos dão a receita da arte da descoberta: a equanimidade.”

No meu caso, o encontro com o trevo de quatro folhas associa-se ao número treze que, desde aí, durante os quatro anos que entretanto passaram, começou a perseguir-me e a marcar acontecimentos e seres à minha volta. A página em que, ao acaso, o guardei era a 113. Ter-se-á fechado um ciclo de vida com o texto de Ernst Jünger, que me apareceu no dia 13 de Outubro? Ou terei de ver nele o portador do sentido que por mim mesmo não era capaz de ver naquele encontro e na repetida emergência do 13, factos que, não obstante o seu carácter insólito e excepcional, me apareceram envolvidos de invencível e opaca exterioridade? Não será, juntando uma coisa a outra, que um novo ciclo de vida se abre pela revelação desse sentido?

O trevo de quatro folhas é 1+3. Não é propriamente um trevo, mas qualquer coisa como um quadrevo.

Em todas as emergências do número treze, a mais espantosa é a seguinte. Desde a publicação da História Secreta de Portugal, caí nas redes do prestígio. Desde então tenho recebido cartas e visitas de muitos desconhecidos que seria capaz de esperar me viessem procurar para aprender qualquer coisa de mim. É, porém, divertido, observar que todas essas pessoas se põem a ensinar-me. Leio as suas cartas e, salvo um ou outro caso, não respondo; se vêm ver-me, escuto-os placidamente e, em geral, não voltam a procurar-me.

Ultimamente, recebi de um desses desconhecidos por três vezes uma série enorme de poemas patrióticos, católicos, messianistas, claros de dizer, mas sem a força da metáfora vidente. Nenhuma mensagem em prosa os acompanhava, talvez porque os fez a pensar em mim, que aliás, interpela aqui e além. Todavia, na última desses três cartas, havia uma página em A-4, onde estava escrito só o seguinte: Dedução do número 13 pelo três e pelo quatro e umas contas arbitrárias mostrando o procedimento dedutivo. Apesar de quanto isto me aparece como estranho e digno de atenção, não respondi. Responderei?

 

António Telmo

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* Título da responsabilidade do editor.

INÉDITOS. 09

28-03-2014 09:46

Dos símbolos[1]

 

A incapacidade de pensar por outro modo que não seja o que tudo compreende por relações mecânicas, se pode dar a ilusão de inteligência onde não há a vida do espírito ou nem sequer a vida, revela-se, pelo contrário, como opacidade quando tal modo aparece a descrever e a circunscrever aqueles domínios que se caracterizam pela ausência de relações mecânicas na produção dos fenómenos. É o caso do esoterismo. Observamos aqui, naqueles que hoje parecem incumbidos de o destruir divulgando-o, que se nega ao pensamento ou ao espírito qualquer eficácia ou até realidade se não o interpretarmos como energia ou força ou vibração actuando sobre a matéria ou sendo essa mesma matéria actuando sobre si por diferenças de nível ou de tensão.

Ninguém nesse domínio aceita ou reconhece o sobrenatural como aquilo cujas leis são inacessíveis à Física, isto é, que sejam outras que as leis da natureza e somente acessíveis a uma espécie de intuição que seja, ao mesmo tempo, a revelação de outra coisa. Por isto mesmo é que os símbolos (e a natureza é símbolo da sobrenatureza) constituem a linguagem de acesso ao que sem eles permanecerá abscôndito.

Só neste sentido se pode dizer que a poesia é superior à história e a metafísica à física. O diálogo da razão com o que se intui simbolicamente é o que verdadeiramente constitui a filosofia. Pela imaginação as metáforas compõem-se com os conceitos para formar a poesia. Mas o modo como os esoteristas que vimos referindo pensam os símbolos, se é lícito e próprio falar aqui de pensamento, ou é um jogo infantil em que pelo fio das associações por semelhança se prolongam indefinidamente as comparações ou decai novamente na tenebrosa redução do superior ao inferior, como quando se diz, por exemplo, que Cristo é o símbolo do sol ou na indefinição do superior, como quando se diz, ao invés, que Cristo é o sol espiritual de que o sol físico é o símbolo. O verdadeiro caminho, neste último caso, seria o de ver no sol físico o sol espiritual por um modo de o olhar de que só os contemplativos têm o segredo. 

Daqui se compreende que o que quer que se consideremos (pois tudo é símbolo) vemo-lo sempre depois de se ter produzido, o nosso ser está sempre em atraso em relação ao fiat do ser. Um símbolo vive-se ou não se vive, explica-lo é perdê-lo. Só há um processo de vencer esta dificuldade, é o de descer à fonte do nosso próprio ser.

 

António Telmo



[1] Título da responsabilidade do editor.

 

VERDES ANOS. 03

26-03-2014 13:02

O princípio de individuação na literatura[1]

 

Triste ideia, sem dúvida, faria da poesia aquele que nela apenas visse uma cinematografia do sentimento. É certo que, quando se fala de «pensamento», raras vezes se anuncia aquela actividade invisível que nos envolve, domina e exalta sempre que lemos um grande poeta. Quando de «pensamento» falamos, temos em mente uma ideia de arranjo e composição, de discernimento e análise de imagens e, nesse sentido, nos exprimimos ao declarar, por exemplo, Antero de Quental um poeta filósofo. Mas a poesia não é comparável à cinematografia. Resulta de uma actividade secreta invisível e subtilmente audível e, por isso, se projecta primeiro em ritmos, depois em imagens, por fim em figuras, que constantemente se dissolvem durante a leitura em alta voz.

Não é possível negar a existência do pensamento sem reduzir a literatura a figura contingente. E com efeito, os estudos literários em que transparece ou se afirma essa negação denunciam-se cúmplices da sociologia positivista. Alguns positivistas, como o linguista francês Belly, chegam até a propugnar a eliminação da poesia do mundo social e só devemos admirar-lhe a coerência se subentendemos nesse desejo o intento mais fundo de combater a filosofia.

A corrente positivista, que domina em superfície a nossa cultura, aparece ligada a outras anteriores, tais o iluminismo e o humanismo da Renascença. Na história da cultura portuguesa, tais correntes, entre si comutadas, não impedem, contudo, a originalidade da nossa literatura. Para Fernando Pessoa, consumado o ciclo das descobertas marítimas, retomou-se um movimento de descobrimento no invisível, de que a epopeia última será a expressão suprema.

À filologia incumbe imprimir-se uma orientação eficaz no domínio do pensamento. Quem queira estudar a filologia portuguesa desde os inícios até hoje, ganha, sem dúvida, mais em considerar os escritos de natureza artística do que em cingir-se aos trabalhos compostos por linguistas. Diz-se que a filologia como ciência é recente, o que só pode interpretar-se como afirmação de que passou pela classificação das ciências positivas. A palavra «ciência» já se não impõe como se impunha e, por isso, deixou de actuar eficientemente como instrumento de propaganda e domínio positivistas, a não ser, evidentemente, nas zonas sempre retardadas da vulgaridade. Todas as vezes que a filologia é apresentada como novidade científica, não só se veda qualquer possível verdade dos estudos anteriores, como se contraria a liberdade de pensar a filologia noutra direcção, porventura mais fecunda.

Se os efeitos que o escritor produz e se configuram em beleza manifestam a actividade das causas, não surpreendem ninguém os limites duma sistematização filológica que para se constituir teve de negar os difíceis caminhos da hermenêutica. A hermenêutica não se cinge somente aos textos literários, mas é também uma interpretação filológica das várias expressões da actividade plástica. No problema das relações da filosofia com as artes manuais, das causas com os efeitos, a filologia fornece a fórmula de solução. O artista plástico que compõe conforme vê, e não conforme ouve ou imagina, na fase de imitação acreditará na mediação geométrica e matemática da sua arte para a filosofia, em inconsciente oposição ao ensino de Aristóteles. A oposição à estética aristotélica explica também a predominância na escultura de representações do corpo humano e a supremacia dos estudos anatómicos sobre os biológicos na Escola de Belas Artes.   

As artes plásticas mais divulgadas, arquitectura, escultura e pintura, na medida em que se cindem da biologia, tornam-se representações do visível tendentes a isolar a luz em figuras poliédricas definitivas. Será talvez a Oração à Luz a poesia mais própria para ser meditada por plásticos. Para Guerra Junqueiro, a luz é uma energia ou uma força, não é mera representação passiva; energia ou força que percorre invisivelmente a natureza e se redime em oração e pensamento, no fenómeno transcendente da maternidade natural. Fixar a luz, como fazem plásticos, em formas geométricas perfeitas, acabadas ou passadas, cujo paradigma é a figura humana, equivale a produzir um fascínio que impede a assunção invisível do pensamento.               

A cultura humanística estatifica e estratifica os poetas e, ao estudar os recíprocos reflexos, a que chama influências, utiliza um jogo de espelhos, com mestria de ilusionista para quem a luz é sem segredo. Já vários escritores pensam que Camões foi ultrapassado por Pascoais, por Junqueiro ou por Pessoa. Não há, todavia, dúvidas que os quatro são superiores. Superiores, quer dizer, poetas que em versos exprimem o sobrenatural. E o que vimos dizendo no decorrer destas linhas, que a literatura, enquanto sistema de artes verbais, sempre se refere àquela realidade, de que a palavra é o meio revelador, da figura para a imagem e da imagem para o ritmo.

A desconfiança para com o poder revelador da literatura, revelador em sentido substantivo, anda ligada à decadência do princípio de individuação, como sua consequência. Quando tal princípio é desatendido pelo modernismo transparece sobretudo no romance, em seu aspecto relativo ao tratamento dos caracteres. Estes, no escritor de tradição humanista, são tomados como tipos gerais, e é em função de características de natureza social que são descritas a fisionomia, a linguagem, os gestos, o vestuário, todos os actos do personagem. Sociedade opõe-se a colectividade. Inábeis sempre que se trata de coleccionar e distinguir, de reconhecer o princípio de individuação, omitem os romancistas nos personagens os actos que melhor revelam as potências singulares. No primeiro momento, o princípio de individuação aparece como uma negação, classificável pela escala dos sentimentos negativos, que culmina no orgulho e, enquanto tal, ainda constitui objecto do romance modernista. No segundo momento é já a promessa duma infinita dádiva. Evite-se, porém, considerar este momento como negação do primeiro. Não é a sua negação, mas a sua antítese, isto é, posto em vez da tese que aquele representa, pois o inicial obscurecimento produzido pela negatividade do sentimento contém em si o princípio da luz e da liberdade. No terceiro momento transforma-se em movimentada e libertada energia, pelo socorro da colectividade, que elegeu alguém único no seu princípio e, nessa promoção, lhe deu os meios de nobilitação.

Não se percebem claramente os motivos, as razões ou os fins que levam muitos a menosprezar o grande romancista que é Somerset Maugham. Quem leu as «Férias do Natal» a pouco tempo do «Nome de Guerra» de Almada Negreiros não pôde deixar de notar o paralelismo dos entrechos nos quais uma mulher conduz o protagonista de metamorfose em metamorfose pelos ciclos da vida. Recordamos aqui o «Nome de Guerra» porque é talvez o único livro entre nós nos últimos trinta anos que merece o nome de romance.

 

António Telmo

    


[1] Diário Popular, suplemento Letras-Artes, ano XIV, n.º 5006, Lisboa, 12 de Setembro de 1956, pp. 7 e 15.

 

DOS LIVROS. 05

25-03-2014 16:16

O mito do Encoberto*

 

O mito do Encoberto em Portugal conta-se em poucas palavras. Durante a batalha derradeira, em Alcácer-Quibir, D. Sebastião morre sem deixar cadáver atrás de si e, em novo corpo, mora agora numa ilha bem-aventurada donde regressará numa manhã de nevoeiro para ressuscitar o seu povo que é o seu exército, o que foi derrotado e o que somos nós todos sempre que confiamos na estrela sobrenatural da filosofia.

O mito tem quatro momentos: a batalha, a ressurreição do Rei que é para nós o seu desaparecimento, a ilha que foi habitar e o seu regresso numa manhã de nevoeiro. Meditemos cada um destes momentos sem os degradarmos ao nível da história. Cumpriremos assim um dos principais preceitos aristotélicos da Poética. Fazendo-o, ergueremos a história, quando for caso disso, à altura da poesia.

 

A BATALHA

 

O nome de Sebastião é, como todos os nomes aziagos, isto é, como todos os nomes com sestro, portador de glória conseguida com desgraça. Quem o baptizou ou ignorava certamente o preceito antigo de que o nome de Sebastião não deve ser dado aos reis, talvez porque signifique o que só pode ser dito de Deus. Deriva de sébas, palavra grega que envolve as ideias de veneração e de terror religioso.

A preparação da batalha foi longa e meticulosa. Ninguém deve defrontar a morte e a imortalidade que vem no seu seio sem uma longa preparação que, tanto para o guerreiro como para o filósofo, que é uma outra espécie de guerreiro, se faz harmonizando a teoria com a prática no próximo e no distante. Depois, “tudo o mais é com Deus”. No fragor da batalha, foi a voz de um anjo que se ouviu mandando parar, quando, senão se parasse, ela estaria ganha. Não importa que o anjo tenha gritado pela boca de um espanhol ou de um traidor. D. Sebastião, ao ver tudo perdido, ao ver o exército deter-se e recuar, continuou a avançar em espírito. Mas já o seu corpo estava repassado de espanto e encobriu-se na nuvem.

 

A ILHA

 

Como disse aqui ontem o Orlando Vitorino, os Descobrimentos não tiveram por fim a conquista das rotas comerciais, a não ser que nelas vejamos etimologicamente as rodas de Mercúrio, daquele Mercúrio que é, segundo Camões, o Espírito Santo revelando-se a Vasco da Gama. O fim dos Descobrimentos foi, na verdade, o inesperado encontro com a Ilha dos Amores.

É essa mesma Ilha aquela onde reside o Rei.

Numa das notas escritas por Fernando Pessoa sobre o sebastianismo, o poeta impõe a si próprio o seguinte: “É preciso ver o que significa a Ilha”. Aprendemos da Escola: “Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Na terminologia dos filósofos uma ilha é um absoluto, o ab-soluto ou então, recordando Leibnitz e Leonardo Coimbra que o segue, uma mónada representativa do Universo. Um ponto de vista que tem, em relação aos pontos de vista a partir dos quais abrangemos um panorama, esta importantíssima diferença: a de o objecto da visão ser produzido pelo próprio ponto que o apreende. Uma estrela é uma ilha cercada de todos os lados pelo infinito, mas é a sua luz que cria a visibilidade.

A mónada é propriamente o indivisível, isto é, o indivíduo, quando o compreendemos pela imagem da ilha, não este ser inquieto e dividido, não este egoísmo que somos, este pedaço onde se quebra o tempo. Eis o sentido em que a mónada é a mónada sem lugar nem tempo. Cada um de nós a é na sua altitude profunda e por isso Fernando Pessoa pôde pensar que D. Sebastião regressou à terra dos «egoismos» em 1888, data do nascimento do poeta.

O mundo encoberto, presente por toda a parte como uma ilha que pode surgir inesperadamente em qualquer ponto do percurso da nossa navegação, não é o mundo vazio de vida dos nossos pobres conceitos. Swedenborg viu-o como uma terra em que os vivos, que são os nossos mortos ou de que nós somos a imagem morta, nascem, casam-se, viajam, amam e até têm os seus Cafés onde se encontram formando tertúlias de pensamento. “Os Anjos também investigam”, escreveu Leibnitz.

Cada um de nós ao morrer encontra do lado de dentro aquilo que se foi formando no seu subconsciente por dejecto, no seu supraconsciente por assunção. Levamos connosco o nosso Inferno e o nosso Paraíso. Só os heróis têm a revelação da Ilha com os seus três outeiros, as suas aves, as suas flores e as suas águas onde o Amor abre o acesso ao Paraíso, onde a mónada se conhece enquanto mónada na forma de “um globo diáfano e profundo”.

 

O ENCOBERTO

 

O contrário de encobrir é descobrir, mas é no descobrimento que nasce o encoberto, os Descobrimentos precedem e preparam a ocultação do Rei.

Encoberto sugere esotérico. Hoje, é corrente falar-se de «esoterismo» como sinónimo de «ocultismo», depois que Éliphas Levi escreveu pela primeira vez esta palavra. Por este caminho, até a confusão de esoterismo com satanismo é possível dentro da conhecida homologação de ciências ocultas com ciências malditas. A verdade, porém, é que o «ocultismo», na sua acepção vulgar, nem sequer chega aos calcanhares do «exoterismo».

Esotérico é um relativo. Relativo a exotérico, segundo a quarta categoria indicada por Aristóteles. Não é um substantivo (primeira categoria), mas um comparativo, o que sabe muito bem quem conhece um mínimo de grego. Teros é desinência do comparativo.

Esotérico significa, por conseguinte, “mais dentro” e não digo “mais interior” porque a terminação -ior é desinência do comparativo latino. Interior significa propriamente “mais dentro” e essa palavra sim é que é sinónima de esotérico. Exotérico é o mesmo que “mais fora”. Como é que foi possível opor exotérico a esotérico, quando, pelo contrário, um não pode existir sem o outro?

O que fica dito não constitui apenas uma distinção linguística. Repare-se só no seguinte para avaliar a importância da distinção: quem combate o esoterismo cristão por isso mesmo combate o cristianismo ali como ele nos aparece, por exemplo na Religião Católica, como um sistema exotérico.

Se admitirmos com Álvaro Ribeiro que não há filosofia sem teologia, ficamos a saber que o «meio» ou, como dizia Hegel, o «éter» da filosofia está na relação do esotérico com o exotérico.

A filosofia é a vida do pensamento como fenómeno da luz. A inteligência é o meio onde a luz se torna consciente de si e é a esse movimento que José Marinho chama “a descoberta da subjectividade”. A inteligência é, porém, um fenómeno universal que toma progressivamente consciência de si do exotérico para o esotérico e daí que a descoberta da subjectividade venha a ser o caminho, sempre percorrido jamais percorrido, para a perfeita objectividade que só é a forma como Deus pensa o mundo que criou. Objectividade é, neste caso e só neste caso, sinónimo de verdade.

A nuvem encobre o sol como o exoterismo o esoterismo. Se a nuvem passasse, teríamos de desviar a vista para não ficarmos cegos.

Por isso o Rei regressará numa manhã de nevoeiro.

 

O REGRESSO  

 

Fernando Pessoa e Sampaio Bruno interpretaram o nevoeiro da manhã do regresso como o estado de extrema degradação mental que se foi progressivamente adensando, no país, a partir da derrota de Alcácer-Quibir, estado que precede e anuncia a vinda do Rei, em Bruno do “novo Cristo cujos milagres são argumentos”. Há, porém outra interpretação que não subordina o mito à história. É a de conceber o nevoeiro, já repassado de sol, como um caos cintilante, a forma que a alma expectante assume no momento em que imagina o surgir do sol levante.

Na definição que abre a Ética, Espinoza escreveu: “Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a sua existência”. O que nos interessa nesta definição nuclear de toda a filosofia do filósofo português desterrado na Holanda não é a relação que ela possa ter com a prova ontológica da existência de Deus. O que nesta definição nos fascina é o facto de o definido, isto é, a substância que é causa de si mesma dever ser concebida em analogia com a luz. A luz é, com efeito, aquilo cuja essência é o aparecer. O que é próprio da essência do oculto é o aparecer. Não é o que se esconde, mas o que nos escondem e de que a primeira notícia em nós é a formação do “caos cintilante”.

Aqueles que, sempre que ouvem proferir a palavra oculto ou a palavra esotérico, sentem acordar em si ecos de um reino tenebroso deveriam libertar-se da própria treva que os não deixa ver. Veriam talvez então que o encoberto é o lugar da luz esplendorosa de que a luz sensível é véu sobre véu. Numa perfeita diafaneidade do nosso ser íntimo, o regresso pode ser vivido hic et nunc. Mas aí também o longe de nós se revelará. A demanda do Encoberto é sem fim.

Eis o que me ocorreu dizer em tão boa companhia como a vossa. Falei de pé, porque é de pé que se deve evocar o Rei. Sentado, só num cavalo branco e em Alcácer-Quibir.

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)



Ler mais: https://antonio-telmo-vida-e-obra.webnode.pt/news/dos-livros-04/

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)

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* Comunicação aperesentada ao Colóquio sobre “As Linhas Míticas do Pensamento Português” realizado no Ateneu Comercial do Porto.

VOZ PASSIVA. 17

21-03-2014 10:53

Presença de António Quadros, no dia em que se completam 21 anos sobre a sua partida...  

António Telmo, filósofo da razão estética*

António Quadros

 

Conheci-o há pelo menos quarenta anos na «Universidade» da Filosofia Portuguesa, como ele atraído pelo magistério marginal de Álvaro Ribeiro e José Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra, para quem a filosofia não era um modo de vida, mas um modo de ser…

Essa «Universidade» informal teve como sedes, primeiro o Café Palladium, onde ainda apareciam às vezes o Casais Monteiro, o Jorge de Sena, o Eudoro de Sousa, o José Blanc de Portugal, o António Banha de Andrade, o Eduardo Salgueiro ou o Domingos Monteiro, depois a Brasileira do Rossio, onde assentou arraial durante os anos em que nós lançámos com entusiasmo e espírito de desafio o Acto, o 57, a Espiral, anos em que aqueles nossos mestres saudosos publicaram, o primeiro A Arte de Filosofar (em 1955) e A Razão Animada (em 1957), o segundo a Teoria do Ser e da Verdade (em 1961). Mais tarde, outros cafés tomaram o lugar daqueles, o Colonial na Almirante Reis ou o Estrelas Brilhantes em Campo de Ourique…

Nesses cafés, nossos jardins de Akademos, nos juntávamos António Telmo e o seu irmão Orlando Vitorino, Afonso Botelho, Fernando Sylvan, Jorge Preto, Luís Espírito Santo, Luís Furtado, um pouco mais tarde Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira, Romeu de Melo, Joaquim Braga, além de outros infelizmente já desaparecidos, como Francisco da Cunha Leão, Amorim de Carvalho, Luís Zuzarte, Francisco Sottomayor, Fernando Morgado, Alexandre Coelho ou Rui Vitorino, irmão de António Telmo e Orlando Vitorino, todos então rapazes que, fascinados, pela primeira vez deparavam com uma filosofia viva, não escolar.

Em cada um de nós se desenhava uma vocação, uma tendência, que sobretudo Álvaro Ribeiro estimulava de um modo subtil, mais inteligente que insistente. Quanto a António Telmo, veio a ser o que de todos nós levou mais longe o conhecimento gnóstico, o conhecimento do que está escondido e é inacessível pelas vias da percepção sensível, da ciência positiva e da erudição livresca.

Dizia Álvaro Ribeiro que a arte de filosofar (arte porque queria acentuar o papel da criação mental, da imaginação, da intuição e da indução) procurava o conhecimento pela tripla via gnósica, pística e sófica. O que António Telmo buscou toda a sua vida foi, não unicamente uma gnose (como o tentam os ocultistas e os esoteristas), mas uma harmonia entre a gnose e a razão ou melhor, a sophia ou a sabedoria abonada pela exigência intelectual da razão teórica.

É um filósofo da razão estética. É um decifrador de escritas perdidas, a da poesia de Dante, de Camões, de Pascoaes ou de Pessoa, a da simbologia iniciática dos Jerónimos, a da língua portuguesa e da sua gramática secreta, a do saber antiquíssimo expresso no pensamento de Bruno, de Leonardo, de Álvaro ou de Marinho, a da relação de uma filosofia que não é a filosofia das Universidades oficiais, com uma cabala que também não é a cabala dos esotéricos sem filosofia.

Depois dos anos da juventude, na Universidade dos cafés, António Telmo é um fugitivo dos grandes centros urbanos, procurando o sossego e o silêncio para melhor guardar a sua autonomia. Beja, Brasília (para onde o levou Agostinho da Silva), Estremoz, são lugares do seu itinerário existencial, mas o característico da sua inteligência invulgar, é a capacidade para atravessar ou penetrar para lá das camadas sobrepostas da cultura morta em que «coisamos» os nossos saberes satisfeitos.

Calmo por fora, parco em palavras, autor de livros pequenos e densos, poucos imaginam a rapidez do seu movimento mental: chegamos, já lá esteve; alcançamo-lo, já subiu mais uns degraus; quando publica um livro, é sempre o inesperado; é um heterodoxo, mas em nome de uma fidelidade ao essencial.

Sempre desdenhou de honrarias, de títulos, de «posições na vida». É ignorado pelos universitários, mas o que estes sabem é o por ele há tempos sabido que nem se dá ao trabalho de o referir. Alguns gostariam que ele escrevesse mais, explicasse melhor, desenvolvesse as sugestões e os enigmas que apenas esboça. Mas ele prefere propor-nos charadas. Que as decifremos nós, como ele próprio a decifrou. Esse é o acto genésico de filosofar. Começa por uma hermenêutica, pela arte de Hermes.

Pensará talvez António Telmo (nunca mo disse) que não vale a pena escrever para os desatentos, para os desinteressados e para os filisteus. Que não é pedagogo, quer dizer, que não é o escravo que leva pela mão os meninos até junto do mestre. Mas ele não é um pedagogo porque é verdadeiramente um mestre. Como Leonardo, como Álvaro e Marinho.

António Telmo escreveu, no prefácio do seu último livro, Filosofia e Kabbalah, que a razão é um órgão para o conhecimento mas as suas articulações não coincidem com a realidade. Por isso a razão não pode dispensar a comunicação com o desconhecido, que a poesia, a música e as artes plásticas procuram estabelecer.

Englobante pois da razão e das artes, o pensamento é como a ave Fénix, uma energia, um fogo, uma actividade do espírito que todas as manhãs renasce das próprias cinzas…

Escassas embora, estas duas citações desenham já o perfil do filósofo. Interiorizou como poucos a herança de Álvaro Ribeiro: a de um pensador da arte de filosofar e da razão animada, explorando vias que ele próprio abriu, no trânsito da autognose para a heterognose, do conhecimento do espírito no eu para o conhecimento do espírito no além-eu.

 

Janeiro de 1991

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* Publicado originalmente na edição de 13 de Fevereiro de 1991 de O Setubalense, no suplemento de artes e letras «Arca do Verbo», coordenado por João Carlos Raposo Nunes.

 

INÉDITOS. 08

20-03-2014 09:16

[Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes]

 

A Interpretação de Leonardo Coimbra

 

Era a Faculdade de Letras da Universidade do Porto uma escola de Cabala? Que nos diz sobre o assunto Álvaro Ribeiro?

A resposta é de grande interesse para nós, porque, se for afirmativa, poderá explicar a origem da orientação cabalista do pensamento do nosso filósofo e abrirá uma nova perspectiva sobre a natureza de um ensino que, vinte anos mais tarde, viria a exprimir-se no movimento da filosofia portuguesa. Como é sabido, todo o movimento de natureza espiritual, na medida em que se afasta da origem, não só vai “perdendo a forma” que o caracterizava como, em dado momento, troca de sinal algébrico, invertendo todos os valores. O exemplo mais claro e mais notável é o do cristianismo que, na época da Inquisição, se volta contra si próprio em nome de Cristo. É, por isso, que importa regressar, de vez em quando, às origens e procurar no ímpeto de sempre a enteléquia do movimento.

Dado o modo cifrado próprio da prosa de Álvaro Ribeiro, no cultivo sábio da “prudência”, são raras as alusões mais claras à doutrina oculta no ensino que recebeu de Leonardo Coimbra, Teixeira Rego e Aarão de Lacerda. Podemos, no entanto, encontrar, aqui e ali, uma dessas alusões. A mais significativa, pela sua generalidade, é aquela em que nos diz ter constituído a Faculdade de Letras da Universidade do Porto “o exemplo de como uma sociedade secreta pode perfeitamente funcionar sem deixar de estar aberta ao público”. O que qualifica de secreta uma sociedade é, como Dante ensina, a doutrina escondida. Que doutrina era essa? Era a Cabala?

Álvaro Ribeiro explica a conversão de Leonardo Coimbra pelo modelo do romancista francês Huysmans, que ingressa num movimento trapista no fim de uma viagem espiritual “pelo espiritismo, pela teosofia, pela gnose e pela Cabala”. Noutro lugar das Memórias de um Letrado aponta a decisiva influência sobre Bruno e Leonardo do grande matemático e cabalista polaco Hoëné Wronski. Escreve também que “o educador Leonardo Coimbra atribuía ao estudo da alma, ou seja, à psicologia racional, à psicologia experimental, e à metapsíquica, ou parapsicologia, um valor e uma função de superioridade sobre todos os outros estímulos disciplinares” (110, v. II). A doutrinação d’A Luta pela Imortalidade não terá apenas constituído um momento efémero da evolução do pensador, mas terá sido vertida nas formas pelas quais exercia o seu magistério oral.

Como veremos no estudo que a Leonardo Coimbra dedicamos neste livro, a analogia que é o método por excelência das Ciências Ocultas e da Cabala constitui o primeiro método da sua aventura filosófica. O discípulo não deixa de frisar, repetidamente, a importância central da analogia no pensamento do mestre. “Consciente da função criadora do verbo” função “de Alta Magia”, conhecia Leonardo Coimbra “o poder mágico da palavra benéfica ou maléfica”. A magia foi por ele depurada “de todo o natural barbarismo pela acção sublimante do espírito”, pois “viu bem a intenção poética da oração mental e da oração ritual, precursora dos sacramentos litúrgicos” (116, v. II).

Entre Deus e o homem, há o mundo dos anjos. É à comunicação dos entes sobrenaturais, ao modo como o Intelecto Activo elabora os dados da comunicação que se deve a criação científica, filosófica ou religiosa. As palavras de Leonardo Coimbra que Álvaro Ribeiro cita são as seguintes: “Só os criadores de uma atitude sua, científica, filosófica ou religiosa, sentem a chegada dos mensageiros da dimensão espiritual: a sua comunicação na centelha do “Intelecto Activo”. É de notar o emprego do termo aristotélico num pensador vulgarmente interpretado como platonista. Quem visava Leonardo Coimbra com a sua crítica do aristotelismo?

Mais do que o platonismo, ou o aristotelismo oculto, Álvaro Ribeiro pretende mostrar a relação do pensamento leonardino com o positivismo de Augusto Comte.

O principal problema que terá de defrontar o estudioso de filosofia portuguesa é o da coexistência nessa filosofia do sobrenaturalismo com o positivismo. O positivismo foi pelo próprio Álvaro Ribeiro apresentado, nos primeiros livros, como um obstáculo à filosofia e a toda a literatura que seja, como teorizou Teixeira Rego, na sequência de Sampaio Bruno, “a expressão do sobrenatural”.

O positivismo dos factos contra os argumentos não pode, evidentemente, ser adoptado por nenhuma filosofia. A lei dos três estados, interpretada como abolição da teologia, também não se vê como possa ser perfilhada por uma filosofia, como a nossa, que tem por último e supremo fim o conhecimento de Deus. Álvaro Ribeiro, substituindo o adjectivo “teológico” pelo adjectivo “mitológico”, pensando “mitologia” onde Augusto Comte escreve “teologia”, estabeleceu melhor correspondência entre os três momentos seriados na lei e as idades do homem: puerícia, adolescência e adultidade, no curso de uma vida ou no curso da história, embora, para esta, mantenha o reparo de Bruno de que os três estados podem coexistir na mesma época.

A idade positiva é, como se sabe, aquela que a humanidade atingiu pelo descobrimento e desenvolvimento da ciência. A classificação comteana das ciências estrutura o programa de filosofia para os liceus elaborado por Leonardo Coimbra durante a sua efémera passagem pelo Ministério da Educação. A filosofia não é aí considerada uma disciplina de letras, mas “a unificação activa de todos os conhecimentos” adquiridos no curso de ciências. Esta unificação é possível porque ela constitui a ciência dos princípios, e doutrina do sobrenatural “na centelha do Intelecto Activo”. O programa ou progresso dos estudos científicos é o seguinte: Matemática, Física, Química, Biologia, Psicologia e Sociologia. Na Sociologia se incluem “a actividade estética e a actividade moral”.

A Faculdade de Letras do Porto representa-se-nos neste momento como uma escola da Cabala que tem por suporte o positivismo de Augusto Comte.

Se lermos com atenção o texto do programa, que Álvaro Ribeiro teve o cuidado de publicar no fim do segundo volume das Memórias de um Letrado, deparamos com uma constante no ensino das várias disciplinas: para a Física – “o valor da analogia na organização da experiência física”; para a Química – “a analogia química e a relação com a indução”; para a Biologia – “a analogia em biologia sistemática”; para a Psicologia – “a indução, a dedução e a analogia nos estados psicológicos”. Na segunda parte do programa, propriamente referido à filosofia e titulada de “Os Problemas Filosóficos”, entre as alíneas sobre “O problema metafísico” a referida constante aparece de novo: “A analogia, seu valor de conhecimento e seu alcance para a apreensão da realidade”.

A analogia é o método da Cabala e das Ciências Ocultas. Ela é, porém, um movimento da palavra ou do verbo, o seu movimento ascendente pela escada ou escala das categorias e das sephiroth. Assim se compreende que Álvaro Ribeiro, apesar de enaltecer o valor do programa, o critique por não incluir as disciplinas do Trivium: gramática, retórica e dialéctica. A hierarquia das ciências, adoptada por Leonardo Coimbra, é também uma escala, que sobe do estado do corpo cosmológico, necessariamente figurativo, pelo das relações íntimas ou químicas desses corpos, para o domínio da vida e da alma (biologia) e depois para o mundo do espírito (sociologia) culminando na concepção artística do mundo. A filosofia virá, no termo, unificar activamente todos os conhecimentos. A filosofia é a pura e suprema analogia.

A sociologia oferece o perigo, ao culminar a hierarquia das ciências, de ser confundida com a teologia.

 

António Telmo              

DOS LIVROS. 04

19-03-2014 09:56

António Quadros, a Lua e a Primavera

 

        Estamos aqui reunidos celebrando o pensamento de António Quadros para o tornar presente na nossa lembrança e na nossa saudade. Nesta época da televisão em que todas as noites nos expomos sem vergonha ou defesa, ao bombardeamento da imagem, é bom, de vez em quando, não morrer de todo relendo um conto tradicional, não para regressar à infância, mas para nele vermos como a imagem pode ser um símbolo para os homens, quando a luz não é manipulada pelos computadores, mas se revela nas formas da verdade.

            “Era uma vez uma princesa que, ao descer, logo vieram sete fadas. Cada uma delas dotou-a com uma virtude, mas a sétima marcou o seu destino de infortúnio.”

            Eis que entramos no reino dos mitos e dos símbolos.

            Só as almas superiores concentram sobre si, ao nascerem para a vida, os sete poderes fatais, significados pelos planetas.

            António Quadros era um espírito superior. No horóscopo que dele fez Vasco da Gama Rodrigues, o signo de Câncer na casa Segunda está povoado de estrelas juntas olhando o recém-nascido. A Lua no seu domicílio domina o céu.

            António Quadros não gostou do horóscopo, viu com incómodo que ele o caracterizava como um espírito lunar. E não se libertou desse desgosto mesmo quando outros astrólogos lhe lembraram que a Lua é o espelho do Sol e lhe mostraram que a conjunção de tantos astros no mesmo lugar do horóscopo era o sinal de um destino superior.

            Morreu exactamente na hora em que teve início a Primavera de 1993, ali onde a roda do tempo recebe o impulso de luz que o liberta do nocturno Inverno. Refere René Guénon que os iniciados escolhem esse dia para morrer porque assim propiciam que a viagem no outro mundo se inaugure em condições altamente favoráveis. António Quadros não era um iniciado, mas Deus, queremos todos pensar, terá escolhido por ele. Assim seja!

            Mais misterioso é o facto de Agostinho da Silva ter pedido para o levarem do hospital para casa onde queria passar o Domingo de Páscoa, dia em que de facto partiu.

            A obra de António Quadros é uma obra de reflexão. Não é um filósofo operativo, um filósofo que não confunde a categoria de paixão com a categoria de acção. Reflectiu, com muitas vezes perfeita limpidez, as doutrinas solares dos seus mestres, cuja luz encheu daquela suavidade que a torna suportável e até aceitável pelas almas inferiores que a noite dominada pela televisão envolve. Por vezes há manchas nessa reflexão, como a do excessivo valor que atribuiu à doutrina do inconsciente de Carl Jung.

            Esta doutrina aparece a explicar e a defender o mito do Encoberto contra a grosseria de António Sérgio. É sobre o livro de António Quadros Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista que diremos qualquer coisa nos poucos minutos que a cada um de nós são concedidos. Espero que essa coisa qualquer seja a coisa que se quer.

            Neste livro, como em Portugal, Razão e Mistério, o mito aparece a interpretar a história, mas é sempre a história que decide do sentido do mito através da política. O mito do Encoberto é a forma que em Portugal assumiu o messianismo, mas, se no judaísmo a espera do Messias degenerou no marxismo e na utopia da sociedade sem classes, aqui, em Portugal, país onde manda Cristo, é a unidade católica, que harmoniza mas não destrói as diferenças dos indivíduos, das classes e dos povos, aquilo que aparece prometido no regresso do Rei e que, sem dúvida, estará confiado à Idade do Espírito Santo. Em consequência, António Quadros não se limitou a criticar e a refutar o optimismo progressista de Marx e seus sequazes, mas repudiou também o pessimismo dos esoteristas, apesar da simpatia que eles lhe mereciam, cuja doutrina resume deste modo: “O albedo do Quinto Império virá assim depois das fases alquímicas de putrefactio e nigredo; a luz do Espírito Santo, após a putrefacção e a morte ritual de todo um povo. A terra portuguesa, queimada, gasta, desperdiçada, a wasteland, povoada de hollow men, de homens vazios, é um Calvário, onde um povo-Messias, um povo-D. Sebastião, um povo-Cristo, é crucificado para ressuscitar em glória e salvar a humanidade. Este é, para Abellio, o mais subtil sentido do sebastianismo e do Quinto Império.“

            Se eu tivesse vindo aqui com a intenção somente de expor a mitosofia de António Quadros (era assim que ele gostava de exprimir-se), já há muito que estaria empregado numa universidade. Toda a interpretação que não vai para além de si própria é uma redução, porque é nisso que consiste a objectividade científica, conservando-se dentro dos seus limites. Prefiro ler Leonardo Coimbra e ouvir as suas palavras à saída da fonte, mesmo que o não compreenda, do que lê-lo simplificado numa apreensão mais ou menos correcta. Se o autor disse o que disse naquelas palavras, outras palavras desdizem necessariamente o que ele disse. Antes a fantasia subjectiva dos que atiram ao lado de Leonardo Coimbra e, ao irem procurar o que disseram, descobrem um mundo maravilhoso. Por muito respeito que nos mereçam os estudos de um filósofo que só são científicos quando deixamos a alma em casa, é bom, de vez em quando, que sigamos o movimento da nossa imaginação.

            Todos sabemos que o espiritismo é uma aberração, mas comportarmo-nos perante os mortos, com quem convivemos e que amámos em vida, como se tivessem passado a inexistentes e fossem hoje um nada, além de estúpido é imoral. Por isso Álvaro Ribeiro, quando José Marinho partiu, falava dele, nos meses sucessivos em que permaneceu entre nós, como se não tivesse morrido e em tais termos e com tal verdade que alguns julgaram que pelo seu cérebro perpassasse a asa da alucinação.

            Façamos o mesmo com António Quadros!

            Eu discuti com ele enquanto preparava esta evocação do seu pensamento. O que lhe disse foi mais ou menos o seguinte.

            “O meu amigo, levado pelo seu inteligente e corajoso patriotismo, compromete excessivamente o mito do Encoberto com a história política de Portugal. O sebastianismo, como movimento social, é apenas um aspecto menor desse mito. Com o Bandarra o sebastianismo foi anterior a si próprio porque as Trovas foram publicadas antes de Alcácer-Quibir. Você dirá que as profecias do sapateiro de Trancoso nasceram de condições históricas socialmente análogas às que permitiram mais tarde, depois do descalabro da batalha, criar pelo inconsciente colectivo a ideia de um rei eternamente vivo. Se observarmos, porém, que ao mito do Encoberto corresponde uma sabedoria do Encoberto, de que a filosofia portuguesa foi até si a explicitação actual, terá de situar essa sabedoria muito antes do Bandarra com o nascimento da Ordem do Templo como Portugal. No reinado de D. Dinis, as condições sociais eram completamente diferentes. Havia um país pleno de força e de confiança em si próprio e, no entanto, todas as Cantigas de Amigo têm por tema a demanda do Encoberto.

 

            Ai flores, ai flores do verde pino

            Se sabedes novas do meu amigo

            Ai Deus y u é ?

 

            O Encoberto aparece aqui significado por três vogais: i u e. Y u é, que quer dizer, como sabe, e onde está ? O verde pino deve ser interpretado, em sintonia com a ilha verde em que habita o Rei, como a comunidade gnóstica e as flores como os seres iluminados supremos. A pinha, símbolo sempre presente na arquitectura manuelina, sendo o fruto dessas flores concentra em si ocultas as sementes na forma vegetal duma chama.

            Quando o Padre António Vieira desocultou o Encoberto apresentando-o como D. João IV, quando interpretou o Fuão das Trovas do Bandarra, como João Duque de Bragança, o sebastianismo, no sentido que lhe dou de uma sabedoria esotérica, acabou e a Pátria entrou em decadência até esta miséria do nosso tempo em que o deus que cultuamos é o deus Mamon. A revelação do oculto não pode ser histórica. O oculto só se revela à alma.“

            António Quadros ouviu-me com aquele jeito tão seu de quem não se sabe se está a ouvir mas que é o modo próprio de quem segue a sua estrela interior e disse-me brandamente : “Está bem. Mas tudo isso não invalida o que eu exponho no meu livro. Os Antónios Sérgios continuam aí“. 

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)

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