Etiquetas
Blogue
VOZ PASSIVA. 149
17-01-2026 13:14Gramática e História
Risoleta C. Pinto Pedro

O filósofo que nos apresenta uma gramática da autoria de uma espanhola, Pilar Vásquez Cuesta, escrita em espanhol e editada em Madrid, como sendo a melhor gramática do português, viveu, na sua idade adulta, no Alentejo, sendo-lhe por isso fácil visitar e aí se fornecer de livros, a Livraria Universitas, em Badajoz.
Mas se recuarmos à proximidade do nascimento do futuro filósofo, está-se no cume das inquietações do país, por causa do problema do provimento de pão ao povo; os campos não produzem o trigo necessário. Ele não sentiria este efeito, a situação em Lisboa era a mais crítica e a família não sofria necessidades, embora a nível nacional se tornasse imperiosa e urgente a importação de trigo.
Consultando a História de Portugal de Oliveira Marques, saberemos que em 1925, dois anos antes do nascer, o ministro da Agricultura do governo de esquerda de José Domingues dos Santos apresenta, no Parlamento, um “Projecto de lei da Organização Rural”, que indicava um repovoamento rural com uma reforma agrária moderada, que silenciava a desapropriação. O governo caiu antes da aprovação do projecto. Os governos que se seguiram, mais à direita, não lhe deram prosseguimento.
Em 1927 nasce António Telmo. No mesmo ano duplica o número de automóveis em relação a 1924. O nosso biografado irá adquirir o seu primeiro carro por alturas do serviço militar.
O número de localidades servidas por telégrafo quadruplicou também em relação a 1924, e em 1925 um diploma legitima, protege e estimula ainda mais, a marinha mercante nacional, o que irá ter uma fundamental importância quando, dois anos depois, a família de Telmo partir para Angola.
Subiremos à árvore, ainda não a da Cabala, cujos ramos tanto o atraíram, cujas raízes tão bem regou, de cujo jardim tão bem cuidou, para no-la mostrar no seu brilho de safiras. A nossa árvore é a da genealogia, para tentarmos compreender, procurando nos ramos onde a História se entrelaça com as histórias, a raiz da grandeza do génio.
Em Fevereiro de 1927, como já dito o ano do seu natal, aconteceu uma revolta, a primeira tentativa, com alguma consistência, para derrubar a ditadura após o Golpe de 28 de Maio de 1926. A esta revolta há quem chame rebelião militar e terá durado sete dias. O centro da acção foi o Porto, porque aí estava o coração do comando e foi lá que se desenrolaram escaramuças, mas Lisboa juntou-se à revolução. Três meses antes do nascimento do herói cuja narrativa iniciamos, a dar o tom à vida que se desenrolará lúcida e inconformista, como uma revolução que se ergue, silenciosa, contra a escuridão. O aparente insucesso da revolta de Fevereiro foi, apenas, uma das etapas da não desistência de uma sempre presente, mas às vezes oculta, resistência. O preço deste episódio foi alto, rendição e prisões, dezenas de mortos e centenas de feridos no Porto e em Lisboa. Foi o general Adalberto Gastão de Sousa Dias quem liderou este primeiro gesto do chamado Reviralhismo, sucessão de movimentos insurrecionários para o derrube do regime.
Entretanto nasce, dentro de uma fortificação com forma aproximada à estrela de Salomão, o bebé a quem mais tarde alguém viria a revelar, em ambiente reservado, que poderia ser destinado a um notável papel, tendo acrescentado um conselho, que por ora manteremos em segredo.
17 de Janeiro de 2026.
VOZ PASSIVA. 148
17-01-2026 09:00A mentirada
Pedro Martins

1. Por mais de uma vez escutei a António Telmo a palavra saborosa que substancia o título deste escrito. Disse-me o filósofo que a haurira nas andanças vocabulares transtaganas; e com ela designava os desvirtuamentos do movimento da filosofia portuguesa patenteados, no plano político como no religioso, por alguns dos seus condiscípulos e seguidores.
Resulta difícil discernir uma dimensão política no pensamento filosófico deste livre-pensador religioso. Mais curial será reconhecer no gnóstico que também foi algumas atitudes políticas que, pela firmeza do rumo, o nobilitam como um cultor da Liberdade.
A concretização de tal desígnio torna-se, porém, premente: um número recente da revista Superinteressante, supostamente dedicado à portugalidade, amalgamou três escritos de Telmo com alguns ensaios de interpretação filosófica sobre o ser português de que, não raro, ressuma um devocionismo fanático com laivos de autoritarismo. Não admira, pois, que os editores hajam trazido para a capa da publicação o Padrão dos Descobrimentos de Cottinelli Telmo. Independentemente da valia artística do monumento, e do seu direito de cidade, ninguém, por certo, desconhecerá que o padrão foi um expoente da Exposição do Mundo Português, valendo, por isso, como símbolo do Estado Novo.
Mas António Telmo não cabe nos labirintos do mago das Finanças, esse “menino mimado do Vaticano”, como justamente chamou a Salazar o seu biógrafo Yves Léonard. Com um módico de boa boa-fé e outro tanto de instrução, percebe-se o que quis Telmo significar ao verberar na História Secreta de Portugal a paródia mnésica do salazarismo, essa falsa vivência dos valores patrióticos.
Ler, como algures se lê na revista, que Agostinho da Silva foi incomodado pelo Estado Novo releva, por certo, de uma outra incomodidade que somente a frequência do divã de Freud poderá mitigar. Afinal de contas, foi só passar pelo catre da enxovia do Aljube, pernoita chique a valer e então muito em voga, e seguir de rota batida para os trópicos de Vera Cruz num exílio assaz voluntário.
Ficamos ainda a saber, a pretexto dos malefícios do positivismo, que a Seara Nova, com as suas costas largas de décadas (tão largas que nela coube, por muitos anos e por direito próprio, um Sant’Anna Dionísio a defender Leonardo Coimbra e a publicar os seus próprios livros), teria hostilizado Pascoaes, Pessoa e Régio. Essa mesma Seara de quem Telmo, porém, pôde belamente escrever que «era uma promessa de pão, uma messe, uma missa, uma mensagem dirigida à acção imediata, esteada em razões susceptíveis de serem ensinadas onde houvesse mente de homem» (2014: 100). No mesmo texto em que verbera «aqueles traidores que teimam em ver a luz nas labaredas da Inquisição» (Idem: 98).
Tanto a Seara hostilizou Pascoaes que, pasme-se, deu chancela à segunda edição da Vida Etérea e revelou as cartas que o vate escrevera a Suzanne Jeusse, tradutora francesa do longo poema mítico de 1912! Para começo, não está mal… 
De Pessoa, publicou a Seara postumamente, em 1937, o fabuloso poema anti-salazarista intitulado “Liberdade”, que nos fala do prazer de não cumprir um dever, de ter um livro para ler e não o fazer. Neste caso, não foram propriamente livros, mas, na ordem das muitas dezenas, senão centenas, os números da Seara Nova que ficaram por ler. Só assim se explica não ter havido do plumitivo a percepção de que José Régio, anos a fio, foi figura de proa da Seara e só a abandonou num gesto de compromisso – imagine-se! – com António Sérgio.
Foi aliás com a chancela seareira que o sobredito Sant’Anna publicou em 1953 O Poeta, essa ave metafísica, livro sobre Pascoaes em que o autor, não raro, recorre a frases deste. Como essas, preciosas, que lhe escutou sobre a conversão de Leonardo Coimbra, lamentando o vate de Gatão que o filósofo criacionista o houvesse feito na ocasião em que o fez: «Se estivesse um governo anti-religioso, duro, avermelhado, – está bem; a sua atitude seria justificada e heróica. Assim, – foi o diabo…» (1953: 31-32)
2. Será por certo mais fácil procurar saber o que não foi Telmo em política, na medida em que procurou desenlear a filosofia portuguesa dos liames abusivos com que alguns pretenderam jungir ao reaccionarismo uma tradição filosófica politicamente liberal e de livres-pensadores religiosos.
Telmo tinha consciência do pecado original. Em 1988, numa carta que não sabemos se chegou a seguir para Francisco Moraes Sarmento, director da revista Leonardo, mas cujo dactiloscrito surge firmado pelo seu próprio punho, mostra estar ciente do «proveito que os adversários do livre-pensamento podem tirar da confusão estabelecida pela conversão final ao catolicismo do pensador “obreiro”, desviando subtilmente a interpretação da sua filosofia da linha de impulso que Álvaro Ribeiro situou em Sampaio Bruno. Tudo está aqui neste desvio subtil. Não me parece que a orientação geral ou dominante da Revista possa, sem contradição, incluir entre os filósofos de filosofia portuguesa Sampaio Bruno, aceitando o ensino de Álvaro Ribeiro que o dá como “fundador”, isto é, como aquele que estabeleceu os princípios que fundam essa mesma filosofia».
A conversão de Leonardo ocorre em plena ascensão do salazarismo; e o Estado Novo, mais do que um regime fascista como o italiano (de cujo paradigma, não obstante, irá recolher alguns traços fundamentais), é um regime autoritário de radicação católica: Salazar, nada atreito ao cesarismo pagão que unge o Duce, chega ao poder, como ministro das Finanças, em Abril de 1928, para não mais o largar até à fatídica queda quatro décadas depois, como militante proeminente do Centro Católico Português, um partido nacionalista, anti-liberal e anti-socialista (Léonard, 2023: 70). Prevalecendo sobre a Igreja, na pirâmide do regime, restará apenas, em última instância, a pessoa imensa e inexorável do ditador.
A confusão não se deu, porém, na geração dos discípulos de Leonardo. Álvaro Ribeiro, para quem o mestre havia convertido na ortodoxia católica a Saudade, interpretada em termos judeo-cristãos (a precisão técnica desta expressão conotada com o ebionismo remete-nos para a mais lídima tradição herética nacional) (2005: 139), confessa-se impedido, dez anos depois da morte de Leonardo, por força de divergências profundas, especialmente em teologia, de estudar a obra deste e de escrever sem mácula um estudo sobre o seu pensamento (2004: 298). A sua vinculação, ao dealbar a década de 30, ao movimento da Renovação Democrática permite creditá-lo como um dos primeiros opositores ao Estado Novo, em cujo funcionalismo público irá modestamente sobreviver com a solércia, não raro incompreendida, do marrano que sempre foi, e que se não converteu, nas suas próprias palavras, «à religião da maioria» (1969: 20). Daí que, quando, nas palavras de Telmo, já não temia que o proibissem de viver, houvesse vindo exortar a Igreja Católica a «aceitar, enfim, o messianismo de S. João Evangelista e de Joaquim de Floris, libertando a liturgia de praxes e de dogmas que representam rotinas pretéritas, já insignificantes ou talvez hipócritas» (2005: 304).
Obra de fundo sobre Leonardo virá José Marinho a escrevê-la, não sem antes haver caído em desgraça perante o salazarismo. «Em 1937», como lembra Jorge Croce Rivera, «e por ter protestado pela inclusão do seu nome sem seu consentimento num telegrama de repúdio pelo atentado anarquista ao presidente do Conselho de Ministros, Marinho foi preso por alguns meses no Aljube, sendo-lhe retirada, após a libertação, a licença de ensino» (2000: 217). Antes mesmo de incomodar Agostinho, a ditadura incomodava Marinho, poderia quiçá ter escrito o plumitivo paliativo da Superinteressante.
Do “Estranhíssimo Colosso”, a história da sua passagem pelo Aljube é hoje assaz conhecida e, em lance de paralelismo com a de Marinho, encontra já antecedentes na sua recusa, dois anos antes, enquanto funcionário público, em assinar a declaração imposta pela Lei Cabral, que visava sobretudo atingir a Maçonaria e o Partido Comunista. Como Marinho, Agostinho quer ter a primeira e derradeira palavra sobre o núcleo irredutível da sua pessoa, e não que outros pensem, digam ou ajam por ele. Se a queda em desgraça leva Marinho a cruzar-se, em Arruda dos Vinhos, com os caminhos de Telmo, pois que ali passe a deslocar-se, como explicador particular de seu irmão Orlando Vitorino, ao dealbar a década de 40, a deriva de Agostinho para os trópicos prepara o encontro, duas décadas depois, em Brasília, com o filósofo da arte poética, para cuja universidade Eudoro de Sousa o chamará a leccionar.
Telmo, em escrito dado à estampa, pela primeira vez, nas páginas desta revista, explica a aparente animadversão de Agostinho para com a filosofia portuguesa e para com Leonardo pelo facto de o ensino deste haver sido «falsamente interpretado sobretudo pelos discípulos dos discípulos como de direita» (2018: 175). Assim, «era preciso levedar a “esquerda”», e isso teve de ser feito por quem, mais do que qualquer outro dos discípulos de Leonardo, dele herdara «o poder de comunicar de viva voz o verbo do espírito, o fascínio pela matemática e pela física nas suas mais altas expressões modernas, o franciscanismo, a conversão ao catolicismo, o sentido da fraternidade de todos os seres, o misticismo e o universalismo» (Idem: 174).
A carta, acima citada, de António Telmo para Moraes Sarmento parte de um episódio que este último teria revelado: «o senhor bispo fulano de tal» advertira a Leonardo, através de Pinharanda Gomes, «sobre o perigo, já visível, de ela se tornar um órgão do anticlericalismo». Telmo supõe, então, que a sua colaboração na revista haja sido envolvida na advertência episcopal; e, visando aquele seu condiscípulo, prossegue: «a intriga, no nobre sentido da relação a três, estabeleceu-a o autor desse livro subreptício e subversivamente antipatriótico “História da Filosofia Hebraica”».
Na visão do filósofo, o artigo sobre Leonardo, que escrevera para o primeiro número da revista «logo provocou a censura eclesiástica, através da carta de Barrilaro Ruas»: «Nos livros que até agora publiquei e nos escritos que se vão dispersando por revistas e jornais deixei claramente expressa uma interpretação de filosofia portuguesa de raiz brunina e, por isso, incompatível, no domínio da religião, da política e do ensino com a que é dominante entre vós.»
A fractura é já evidente; mas duas décadas depois ganha contornos mais nítidos, em carta, datada de 12 de Novembro de 2007, para o próprio Pinharanda, que, em anterior missiva, repreendera Telmo por este, imprecisamente, haver imputado a Salazar o encerramento da Faculdade de Letras do Porto. Telmo não gosta e responde-lhe à letra:
«Quando eu era moço e andava lá pela tertúlia de filosofia portuguesa, ouvi dizer que tinha sido Salazar a fechar a Faculdade pela qual tudo conhecemos do que verdadeiramente conhecemos. Não foi Salazar, nem ninguém por ele mandado. Sei-o agora por si. Peço-lhe desculpa do engano. Não peço à memória de Salazar, pois me parece que não me engano desta vez lembrando que foi, quando ele era Primeiro Ministro e Presidente do Conselho, que se deu a prisão de José Marinho e lhe foi tirado o pão da boca das filhas, pois o impediram de continuar a ensinar nas escolas do Estado. Andou, depois, calcorreando ruas, de casa em casa a dar explicações, até que, muitos anos passados, o Orlando, que Deus haja, lhe arranjou emprego na Gulbenkian. Ironia do destino. Estranho favor da Providência! Foi por ter sido impedido de ensinar nas escolas do Estado Novo que veio até Arruda dos Vinhos para onde o solicitaram, a fim de dar explicações de filosofia ao futuro enorme filósofo Orlando Victorino. Disto beneficiámos todos. Eu e o Pinharanda também. Por alguém ser contra a FILOSOFIA PORTUGUESA; ESTA CRESCEU E AUMENTOU. Por ser contra, quem? Sem dúvida, o diabo que protege os estúpidos.»
«Meu caro Pinharanda, meu Amigo, com toda a franqueza, eu acho que o engano não foi assim tão mau, embora seja condenável por não corresponder à verdade. Acho que não foi assim tão mau, porque os nossos inimigos situados em grande parte entre os materialistas ateus politicamente de esquerda gostam de fazer passar por fascistas Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e até já o fizeram com o Agostinho da Silva quando ele veio do Brasil e constava que se tinha convertido ao catolicismo. Mas o que caracteriza o ensino destes homens e dos que o acompanham, entre os quais me situo e gosto de o situar a si, é o amor da liberdade e da verdade, ambas incompatíveis com o positivismo salazarista e com o materialismo dos anti-salazaristas de esquerda ou de direita. Somos livres e, se não somos, devemos sê-lo.»
Desfazer a confusão emergente do pecado original, cujas consequências se sentirão sobretudo a partir da década de 50, eis o propósito, firme e constante, de Telmo. Tarefa árdua, mas não impossível, ainda se, em plano eminentemente político, o liberalismo de Orlando Vitorino, amplamente esteado no pensamento de Friedrich Hayek, nos não deve fazer perder de vista a viva simpatia que o autor de O Caminho para a Servidão nutria por Salazar e pelo seu regime, chegando mesmo, em 1962, a enviar-lhe um exemplar da sua obra A Constituição da Liberdade, e a manifestar-lhe a esperança de que um tal «esboço preliminar de novos princípios constitucionais possa ajudá-lo nos seus esforços de conceber uma constituição protegida dos abusos da democracia» (apud Léonard, 2023: 363). Como refere Yves Léonard, autor de que me venho servindo, Hayek esclarecerá mais tarde que a sua ideia consiste em concentrar «o poder nas mãos de uma elite cuidadosamente selecionada, ao abrigo da influência das massas» (Idem: ibidem).
3. No Verão de 1965, com arrepiante exactidão, o astrólogo e quirólogo Horus predissera a António Telmo alguns acontecimentos decisivos da sua vida pessoal e profissional que o curso dos meses se encarregaria de confirmar; e, não sem assombro, revelou-lhe ser ele o único homem que poderia derrubar Salazar, exortando-o, porém, a que o não fizesse.
Em 1962, quando leccionava na Escola Industrial e Comercial de Beja, Telmo vira-se exonerado, conforme acta de 31 de Janeiro daquele ano, do cargo de Adjunto do Director dos Serviços de Concursos Literários do Centro da Mocidade Portuguesa, por mor de 14 faltas injustificadas, pois que o filósofo se recusasse sistematicamente a colaborar com aquele Centro, deixando de comparecer a aulas que eram obrigatórias. A bravata trouxe-lhe ainda outras consequências desagradáveis: não haver obtido, como classificação de serviço, no ano lectivo de 1961-62, mais do que um sofrível “Suficiente”, segundo reza uma outra acta, agora do Conselho Escolar daquele estabelecimento, de 11 de Agosto. Esta classificação era raríssima: nos anos anteriores sempre Telmo fora classificado com um “Bom”.
A ida para o Brasil estivera entre os vaticínios de Horus. Ao cabo de uma estada de dois anos e meio, desencantado com o país irmão e receando os efeitos da Ditadura Militar que dele se apoderara, Telmo e a família regressam a Portugal. Aterram na Portela em 26 de Julho de 1968. Mas, de início, o regresso estivera previsto para 1 de Agosto, data da queda de Salazar. Telmo obedecia a Horus…
No ano lectivo de 1971-72, Telmo vai fundar e dirigir a Escola Preparatória do Redondo, à qual, não sem orgulho, se referirá, mais tarde, como a primeira escola democrática do país, graças às inovações pedagógicas que ali incrementa e ao sentido, profundamente humanista, que norteará este seu projecto. Em carta de 4 de Maio de 1972, Agostinho da Silva dar-lhe-á conta da espantosa impressão que a visita à escola lhe motivara: «Já para não falar de mim, Maria Violante veio entusiasmada com sua Escola – a da liberdade, da familiaridade, da criação. Acho que há que acrescentar o louvor da sua pedagogia de gente adulta, inteligente e corajosa, coisa rara por estes lados. Suponho, pelo que vimos, que sua Escola será do melhor que jamais se fez» (2014: 108).
A tríade enunciada por Agostinho descreve a realidade com exactidão. António Telmo estimulara o convívio entre docentes e discentes, sem solução de continuidade entre a sala de aula e o refeitório. Uma cantina tinha sido posta a funcionar rapidamente e o refeitório era simultaneamente utilizado por professores e alunos, que tomavam as suas refeições em mesas comuns sem qualquer espécie de discriminação e com o evidente propósito pedagógico de prolongar até às refeições o ensino de saber comer e estar à mesa. Alunos e professores utilizavam igualmente as salas comuns de convívio, de trabalho e de lazer. No mais, o filósofo opera uma autêntica revolução, interditando estrita e definitivamente os castigos corporais aos alunos e promovendo iniciativas que vão desde a criação de um jornal à organização de actividades comuns entre estabelecimentos escolares congéneres de povoações vizinhas, passando pela recepção a vultos importantes, que vinham de visita à escola, como o caso, já apontado, de Agostinho e também o de Hernâni Cidade, redondense ilustre.
O processo de fundação do estabelecimento não isentou António Telmo de dissabores e sobressaltos com as autoridades locais e governamentais do Estado Novo. Num rincão pejado de grandes latifundiários e homens bem escanhoados, a barba cerrada que então usava era um alarmante indício de bolchevismo. Como o próprio nos conta, em entrevista à revista LER – Livros e Leitores: «Quando vim do Brasil, usava barba. E o ministério de Veiga Simão pediu-me para ir fundar a escola do Redondo. E eu vim. Nesse tempo ainda se fundavam escolas – agora abrem-se escolas. E quem ia fundar uma escola tinha, também, de escolher os professores, etc. Quando lá cheguei, apareceram-me os políticos da terra a impor os professores, mas eu não deixei. Entre os que escolhi, pelo menos dois eram contra a situação, o que, aliado às minhas barbas, fez com que isto chegasse ao Governador Civil e, depois, ao ministério. Lá fui eu a Lisboa. O director-geral [Dr. Rogério Fernandes] perguntou-me: «Você é a favor da situação?» E eu disse: «Não, sou contra.» E ele perguntou-me o mesmo que vocês agora: «Mas pertence a alguma coisa?» e eu disse que não. «Então, volte lá para o Redondo, que tem o nosso apoio», respondeu-me ele. A partir daí não tive mais problemas» (2016: 116).
Logo após o 25 de Abril, o nome de Telmo surgirá a encabeçar as assinaturas de um grupo de democratas de Sesimbra que «vem manifestar o seu incondicional apoio e adesão ao programa político apresentado pela Junta de Salvação Nacional». Dessa Sesimbra que, pelo seu empenhamento, verá desfilar nas suas ruas Vitorino Salomé e o grupo de Cantadores do Redondo, actuação musical que contou também, como nos testemunha António Couvinha, com a participação de Zeca Afonso.
Por contraste com as demais figuras de proa da geração do 57, tudo isto torna Telmo um vulto sem par. “Você é diferente deles” – sussurrar-lhe-á Joel Serrão, depois de o escutar no decurso de uma mesa-redonda subordinada ao tema “Leonardo Coimbra e a Filosofia Portuguesa”, realizada no Porto, em 12 de Abril de 1983, por ocasião das comemorações do centenário do filósofo criacionista, em que um e outro coincidem com Fernando Sylvan, José Augusto Seabra, António Quadros, Afonso Botelho e António Braz Teixeira.
4. Tudo isto são apenas gestos e atitudes, decerto nobilíssimos, mas insuficientes para esclarecerem o seu pensamento político. Ainda assim, a História Secreta de Portugal, obra publicada com êxito estrondoso na Primavera de 1977, no rescaldo de uma revolução que o autor realmente desejara e a que visava agora conferir a orientação superior de um sentido espiritual, será o lugar da sua obra que, a um tal respeito, melhor nos pode servir. Desígnio ali postulado vem a ser, como n’O Encoberto de Sampaio Bruno, o da unidade na liberdade, assegurada pelo governo do melhor, ou seja, por um regime aristocrático polarizado na figura do Rei, tal como Dante Alighieri propugnara na sua Monarquia, o que está longe de se poder confundir com as monarquias existentes, que ou «são uma paródia, ou não são legítimas ou constituem uma evocação» (2013: 143).

Neste sentido, e dentro da concepção cíclica que Telmo desenvolveu naquela obra, será talvez possível buscar na tradição iniciática um horizonte de esperança, por ser ela que, em última instância, sustenta, permeia e vivifica o pensamento político do florentino.
A perda do poder pela Igreja Católica a favor da Maçonaria havia assinalado, com Pombal, o início do terceiro ciclo da nossa história: o do povo. Não desconhece, porém, o filósofo que a Ordem Maçónica, que durante algum tempo ainda pudera assegurar as condições requeridas para a iniciação, havia sido minada de fora para dentro e reduzida, no dogma e no ritual, a um mínimo facilmente neutralizável. No capítulo que no livro, referido ao ciclo do povo, dedica a “Fernando Pessoa, Rectificador da Maçonaria”, se, por um lado, mostra como o positivismo veio desvirtuar a experiência espiritual das lojas, não deixará, por outro, de vislumbrar na Maçonaria, na senda de António Carlos Carvalho, talvez «o que passe deste ciclo para o seguinte, assegurando a transição através dos elementos incorruptíveis que contém» (Idem: 119). Nessa mesma Maçonaria que, tornada dominante no início do ciclo do povo, conservava ainda algumas reminiscências do ciclo dos reis: à gibelina e templária monarquia portuguesa, em meio de excomunhões e interditos papais, muito conviera a doutrinação dantesca e o remoto fundo sapiencial em que esta se inscrevia.
Mas o derradeiro capítulo da História Secreta, pelo reconhecimento de condições as mais adversas, por hostis, à iniciação, parece um convite desalentado ao isolamento individual, mero apelo à reclusão estóica de cada um em si mesmo. Poderemos, porém, entrever neste desenlace a proposição de um tempo suspenso, como espera ou esperança de estrelas propícias. Significativamente intitulado “Últimas reflexões de um profano”, o derradeiro acto da História Secreta aponta já, por isso mesmo, para a vitriólica câmara de reflexão e para o que nela precede e prepara a mudança de estado pela morte iniciática. Posto que insuladas, as mónadas, pelo comum propósito que as reúne, formarão um arquipélago…
No ano seguinte, em 1978, por indicação de Álvaro Ribeiro e a pedido de José Valle de Figueiredo, escreve António Telmo um prefácio destinado à reedição, pelas Edições do Templo, de O Encoberto, de Bruno.
Na leitura de Telmo, Bruno faz n’O Encoberto o elogio do socialismo, essa degenerescência da Maçonaria, como forma de teodiceia. Mas, ainda que, por mor dessa degradação, se possa discordar do portuense; ou que da Ordem Maçónica se forme uma imagem minorativa precisamente «porque o socialismo ateu ou igualitário dela derive ou nela se fundamente» (2014: 152), o filósofo, judicioso, fará notar que, «também para os católicos, os caminhos sinuosos do clero não alteram a perpétua verdade da Igreja fundada por Pedro» (Idem: ibidem).
A verdade é que Sampaio Bruno, adentro de uma angelologia que fora já a de Dante, «vê no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria» (Ibidem), com o que se quererá talvez significar «que o socialismo constitui o socorro que o todo homogéneo dos seres integrados envia ao nada dos seres decaídos. O fim da Maçonaria no plano político será assim a participação dos membros dispersos e dilacerados da humanidade numa grande e luminosa unidade interior. Nem um só homem poderá ficar fora do processo universal de realização da Bondade. Todos os homens, pela democracia, serão chamados a cooperar activamente na política, assumindo-se cada um como uma parcela luminosa do universo, pois, enquanto emanação superior, conquanto esquecida de si, possui a potencial dignidade de um “sacerdote-rei” maçon, de um arquitecto. Há então que correr o risco que consiste na subversão dos elementos superiores pelos elementos inferiores. Mais do que o risco, há que viver essa subversão sem a cobardia do egoísmo, a não ser que se aceite a ideia pessimista de que para sempre haverá divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os que podem e os que não podem» (Idem: 152-153).
A importância decisiva do trecho impõe tão longa transcrição. A reedição de O Encoberto, porém, gorou-se, e com ela a saída a lume do escrito de Telmo; mas o filósofo parece jamais ter deixado de pensar o que nele mentara. Comprova-o o facto de o haver recuperado e enviado para publicação no livrinho Messianismo Português que a Fundação Lusíada, em 2005, dará à estampa, modo de documentar o colóquio que, sob aquele título genérico, tivera lugar em Coimbra, em Outubro do ano anterior. Por esta época, ainda Telmo mantém plenamente a prática maçónica na Loja Teixeira de Pascoaes, cuja criação obedecera ao seu desígnio de conferir operatividade iniciática, pela desinência martinista do Rito Escocês Rectificado, ao pensamento filosófico da tradição portuguesa, na senda de Bruno, Junqueiro e Pascoaes.
5. Alguns dos fautores da mentirada que continua a envolver o movimento da filosofia portuguesa, fiados no título de uma sua obra publicada a título póstumo, têm pretendido fazer crer que a iniciação maçónica de António Telmo mais não foi do que uma aventura inconsequente, e mesmo deletéria, no caminho do filósofo.
Se fossem intelectualmente honestos, teriam estes lamentáveis ultramontanos de postular que o filósofo jamais se desencantou com a tradição maçónica, com o seu ritual, com o seu simbolismo, com o seu ideário. Poderá, é certo, António Telmo ter ficado entristecido com o que, por vezes, presenciou em loja ou fora dela, em ágape ou nos passos perdidos. Mas o que quer que haja sido, não o impediu de, em 2009, já afastado do templo, ter dado para reedição, ao editor Alexandre Gabriel, as suas Congeminações de um Neopitagórico, título que é, nem mais nem menos, do que o termo de substituição para Reflexões de um Maçon ou coisa que o valha, como, de resto, o mostram as suas páginas. Desde logo as da “Introdução”, descarada projecção de uma loja maçónica sob a égide da tradição filosófica portuguesa, em que aos onze lugares preenchidos pelos irmãos se acrescenta um décimo segundo, cadeira vaga aguardando quem nela quiser, puder e souber vir sentar-se; mas também as da “Carta ao Pedro Sinde – Um dos Doze”, ou ainda as da fabulosa sequência de diálogos que, entre o marranismo, a Kabbalah e o gnosticismo, ali exprimem o ânimo conciliador da Ordem Maçónica.
Também A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete foi entregue pelo próprio Telmo a Alexandre Gabriel poucos meses antes de partir. O livro pode ter saído póstumo, mas as ideias que veicula manteve-as o seu autor até ao fim da vida. Constata-o quem, sem pensar com a vontade, evitar treslê-lo com a bílis… 
Oscilando entre a freima criacionista e um claro propósito rectificador, este par de livros cumpre a contento o propósito cifrado nas “Últimas Reflexões de um Profano” com que desce o pano sobre a História Secreta, obra em que a Ordem Maçónica nos surgia já, congruentemente, como a depositária virtual de um renascimento. Serão, pois, o corolário de um desígnio cuja concretização fora longamente preparada e maturada. Querer somente ver na aventura maçónica de Telmo, como promovem os reaccionários da mentirada, um devaneio dessultório constitui um grave atentado à boa-fé, cuja punição maior logo lhes chega do ridículo com que os recobre a indesmentível verdade textual de uma obra couraçada. Dela, em dado momento, se vê, com Sampaio Bruno, no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria. Não diremos que esta proposição de Telmo permita resumir, no essencial, o seu ideário político. Diremos antes ser uma sua expressão plausível, em jeito de aproximação à essência complexa de um pensamento que é movimento.
6. Em 30 de Janeiro de 2010, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, casa de que foi o primeiro director, escutei, ao lado de António Telmo, uma conferência sobre Guerra Junqueiro por um dos membros do seu círculo. E ouvi-o comentar, com desagrado, que o poeta de A Velhice do Padre Eterno não era o que ali dele estava a ser dito.
Quatro meses depois, a 29 de Maio, já visivelmente doente, fará Telmo, naquela mesma sala, a sua derradeira oração pública. É manifesto o sacrifício com que o orador, bastante debilitado, fala para a assistência. Surpreende, porém, pelo tom empolgante com que a arrebata num apólogo estrénuo da República, em detrimento da dinastia de Bragança, que manifestamente verbera. Arranca-lhe, a final, tremenda ovação. No âmbito do colóquio “Anarquia, Monarquia e República”, Telmo fala sobre “Monarquia e República”. A seu lado, António Cândido Franco abordará o tema “Anarquia e República”, para além de apresentar o livro Luís de Camões, de Telmo, lançado nesse mesmo dia.
Nas palavras de Telmo corre, medular, a indignação que atravessa as laudas da Pátria. Como um testamento espiritual, a resposta ao conferencista de Janeiro estava dada.
OBRAS CITADAS
DIONÍSIO, Sant’Anna (1953), O Poeta, Essa Ave Metafísica. Lisboa: Seara Nova; LÉONARD, Yves; (2023), Salazar – Uma Biografia. Lisboa: Edições 70; RIBEIRO, Álvaro; (1969) – A Literatura de José Régio. Lisboa: Sociedade da Expansão Cultural; (2004) – Dispersos e Inéditos. I. Lisboa: INCM; (2005) – Dispersos e Inéditos. III. Lisboa: INCM; RIVERA, Jorge Croce (2000) – “«Estádios no caminho da Verdade»: o percurso ético-metafísico de José Marinho”, in História do Pensamento Filosófico Português, Direcção de Pedro Calafate. Lisboa: Caminho, pp. 211-247; SILVA, Agostinho da (2014) – Cartas para António Telmo. Évora: Licorne; TELMO, António (2013) – História Secreta de Portugal. Sintra: Zéfiro; (2014) – A Terra Prometida: Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império. Sintra: Zéfiro; (2016) – Viagem a Granada seguida de Poesia. Sintra: Zéfiro; (2018) – “Agostinho da Silva”, in A Ideia – Revista de Cultura Libertária, 84-85-86, Outono 2018, pp. 174-176.
CORRESPONDÊNCIA. 78
17-01-2026 09:00CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 15

Estremoz De António Telmo para António Cândido Franco 28 de Agosto 2001
No De Divinatione, Cícero compara a interpretação dos sonhos à interpretação das imagens de uma poesia. Dá inúmeros exemplos de sonhos que se apresentaram como vaticínios. Claro que isto não garante os dicionários de sonhos, como o de Artemidoro. Os médicos também utilizam um dicionário de doenças com os respectivos medicamentos; mas os medicamentos não são para as doenças, são para os doentes e estes são tantos quantos os biliões de seres humanos. Se, como ensina Aristóteles, “só há ciência do geral”, então a sabedoria é outra quando o que está em questão é o particular.
Todos estes dias que passaram depois da sua última carta, escrita em 4 de Agosto de 2001, tenho estado à espera de notícias do sonho que deverá ter tido sobre o espelho por ter decidido tê-lo. Ou ficou à espera que eu lhe escrevesse ou não resultou a invocação ou, se resultou, não quer contar-me o que aconteceu.
Veja o que eu li em consequência da sua Arte de Sonhar: o já referido De Divinatione, e Amélia do Gérard de Nerval, os Tales of Power de Carlos Castaneda (não a Art of Dreaming que não fui capaz de levar ao fim) a Autobiografia de Carl Jung, Dalila e Swedenborg sobre os sonhos, o capítulo de Ibn Kaldûn sobre os mesmos e outros mais. Por aqui pode calcular o impacto do seu livro sobre mim. Claro que, para cá[1] do fascínio que ele é por ser como é, o facto de incluir um sonho comigo (devo esquecer o outro de tão sucinto?) e de findar ou quase por uma minha carta terá contribuído para que viesse, como veio, a presar o meu tempo. Mas é apenas uma contribuição. Há o espanto: como foi possível sonhar deliberadamente com Pascoaes durante tantas noites. Eu tenho a mesma experiência, mas esporádica. Não digo que menos relevante. Todavia, a linha das minhas vivências no “mundo imaginal” superior é cortada por grandes espaços de tempo vazios. Valerá talvez a pena contá-las um dia. Algumas são descritas explicitamente nos meus livros: na Dama de Ouros e nos Dioscuros[2] por exemplo. Mas faltam as mais importantes, até agora guardadas em mim talvez por uma espécie de pudor metamnésico[?]: não dever contar o que só a mim e a Deus diz respeito. O que é que pensa sobre este comportamento? Gostaria que me respondesse aqui.
Da sua carta destaco o seguinte: “Há um contraste vivíssimo, dentro do sonho, entre o apagado pátio onde tudo se passa e o momento em que o espelho é descoberto. Há uma explosão de luz no momento em que o espelho é encontrado. O que eu pretendo ao recordar um sonho destes é acreditar que ele se passa num plano inalterável e sem fronteiras, onde eu e o António Telmo supra-existimos, e no qual é possível estabelecer continuidade”.
O António Cândido vê no verde do hieróglifo e no azul fosforescente elementos de ligação entre os dois sonhos, este que agora teve e o que pôs na Arte de Sonhar. Mas reparou certamente que há outros. Em ambos temos um quarto em que o recebo na minha casa; há em ambos um pátio; no primeiro, o quarto projecta-se onde falta uma parede para florestas e abismo, no segundo há um espelho onde esplende a visão do infinito. O primeiro sonho é na Graça, onde o António Cândido viveu a sua infância, ou muito perto da Graça; o segundo acontece num monte do Alentejo, onde agora vive e onde está a sua Cuba e os seus antepassados. Em ambos, a minha casa, onde tenho um quarto especial para si, está ligada com o espaço e o tempo da sua vida. São dados muito concretos e que vêm dar razão ao que das suas palavras sublinhei acima. Fico ansioso por saber o que ainda terá a dizer-me sobre o assunto. E não demore tanto como da última vez.
Hoje, sabe?, é a correspondência consigo, com o Pedro Sinde e com o Joaquim Domingues aquilo que vai enchendo a minha solidão intelectual. Fiquei, pois, muito contente com o que me conta sobre a segunda leitura e naquelas condições (a viagem!) do livro do Pedro Sinde. Contente sobretudo pela ressonância que em si obteve: “É um livro fabuloso, que é um milagre ter aparecido no seio de uma cultura pateta de vanguarda ou não.” (…)
Bem, meu estimado Amigo. Sem acompanhamento do cigarro (deixei há muito de fumar) a carta já vai longa. Abraça-o com a amizade de sempre o
António Telmo
[1] N. do O. – Palavra de leitura equívoca no original manuscrito. Admitimos igualmente a hipótese, se bem que pouco provável dado o contexto, de António Telmo ter escrito “lá”.
[2] N. do O. – Dois dos Contos de António Telmo.
CORRESPONDÊNCIA. 77
17-01-2026 09:00Carta de Max Hölzer para António Telmo de 6 de junho de 1978

Paris, le 6 juin 78
Cher António Telmo,
Je vous remercie vivement de votre lettre. Je n’en doutais pas que votre intérêt et la force, comme vous le dites, qui vous portent vers l’attitude et le travail vont en augmentant. Formant de plus en plus un point central en nous, rien n’en est à séparer, et tout l’influence, non pas « directement », horizontalement, mais par « quelque chose » supérieure, en la plupart de cas « cachée », si nous avons « accepté ».
Je vois bien ce que vous dites.
Vous trouvez dans « Views from the Real World », p. 187/188 un passage qui indique la possibilité, la virtualité du travail (de plus en plus) subtil. « One piece of bread I eat, another I throw away… ». Il serait à chercher la liaison entre tout ce qui est dit là (187/188) de telle manière qu’elle trouve l’écho dans la conduite du travail même.
Si vous cherchez à faire les « exercices » et les études de plus en plus dans l’état renouvelé de l’expérience, vous constaterez que l’accès change soi-disant du « côté » qu’il devient plus « libre ».
A approfondir, toujours, « l’acceptation » -- peut-elle, et comment, devenir active ?
Je n’essayais pas seulement, dans les dernières réunions, de vous suggérer un travail plus subtil, mais aussi de comprendre plus « subtilement » tout ce qui est arrivé, et que nous avons fait (où ce qui était manqué n’a pas une moindre importance, pour cette compréhension, que ce qui nous a semblé « accompli »).
J’écris en même temps à Francisco ; ce que je dis sur le travail dans les lettres peut se compléter. – Je ne veux pas répéter les choses qui font encore très incertaine la date de ma prochaine venue. Brigitte et moi, nous ne pouvons pas venir ensemble au mois de juillet, je le regrette beaucoup. Si mon prochain retour devrait être reporté pour plus tard, il est d’autant plus nécessaire que vous maintenez tous un travail vraiment compréhensif -- la situation générale, de plus en plus dégagées [sic] des aspects illusoires, est très propice dans ce sens.—
Je vous embrasse, et tous mes vœux –
Max Holzer
Ce que je voulais vous signaler que, comme en Alchimie, où tous gestes, conduits, règles sont à observer aussi strictement comme un rite qui est expression et voilement en même temps, l’expérience est absolument imprévisible, neuve ; sans d’être une surprise dans le sens commun, pour qui s’y engage. Aucune expérience antérieure peut faire deviner l’expérience, et non plus, naturellement, aucune « description » des autres qui l’ont vécu. C’est là que nous nous faisons « sourds ». –
Le cinéaste est Peter Brook.
UNIVERSO TÉLMICO. 80
17-01-2026 09:00Passam 250 anos da morte de João Daniel, “Camões dos trópicos”
Henryk Siewierski*
No dia 19 de janeiro de 1776 morre no Forte de São Julião da Barra, ali recluso por 14 anos, Padre João Daniel, jesuíta português, missionário na Amazônia, autor do monumental Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas, obra chamada por Leandro Tocantins de “Bíblia Ecológica da Amazônia”[1].

Forte de São Julião da Barra
Nascido em 1722, em Travaços, perto de Viseu, João Daniel entra, aos 17 anos, na Companhia de Jesus em Lisboa e, em 1741, parte para o Brasil, onde, depois de dez anos de estudos, é ordenado padre e começa o trabalho missionário entre os índios da Amazônia. Em 1757, na onda das perseguições pombalinas, mas ainda dois anos antes da carta régia que decretou a expulsão de Companhia de Jesus de Portugal e de todas as suas possessões ultramarinas, é deportado para Portugal, junto com nove outros missionários, e preso no Forte de Almeida. Quatro anos depois é transferido para a Torre de São Julião da Barra, em Oeiras, onde morre em 19 de janeiro de 1776. Como o motivo da sua prisão e extradição, é apontada a discordância do Diretório dos Índios, uma lei editada em 1755 pelo Marques de Pombal, e implementada pelo seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governado do Grão-Pará. De fato, a obra do Padre João Daniel escrita depois, na prisão, pode ser considerada também uma resposta ao Diretório que extinguia o trabalho missionário dos jesuítas nos aldeamentos[2].
No decorrer dos seus 16 anos vividos na Amazônia, João Daniel fazia uma intensa e interdisciplinar pesquisa de campo, colhendo os dados sobre a geografia, o clima, a fauna, a flora e os povos daquela região. Certamente não deve ter sido apenas uma ocupação à margem das atividades religiosas do missionário, mas a sua parte integral, se o conhecimento assim reunido e guardado nos arquivos da memória iria se tornar fonte de uma obra monumental, escrita ao longo dos 18 anos nas prisões de Lisboa.
Tesouro é uma narrativa, um tratado e uma enciclopédia de mil e duzentas páginas em manuscrito, registro de quase tudo que no século XVIII foi possível saber sobre Amazônia, um relatório de um missionário e descobridor do tesouro da Amazônia. Foram muitos os que viajaram ao sabor ou contra a corrente do grande rio e seus afluentes em busca do tesouro. O Padre João Daniel descobriu o tesouro maior, a própria Amazônia. Tomar posse desse tesouro, apropriar-se dele, enriquecer, não era para ele outra coisa a não ser o seu conhecimento, o mais amplo e mais preciso possível, bem como compartilhar dessa riqueza com os outros.
A obra do Padre João Daniel, que só no século XIX viu a luz do dia, somente há cinquenta anos foi publicada com as suas seis partes divididas em dois volumes. Desde 1810 o manuscrito das primeiras cinco partes do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde foi trazido por Dom João VI em 1808. A sexta parte foi perdida e encontrada depois na Biblioteca de Évora. Nos anos 1820, 1840 e 1878 a obra foi publicada em edições parciais. Somente em 1976 a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro estabeleceu e publicou todas as partes conhecidas do manuscrito, reeditadas em 2004 pela editora Contraponto[3]. Mas ainda não foi a versão completa do Tesouro, uma vez que poucos anos depois foram descobertos no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, por Antonio Porro, os capítulos da Terceira Parte, faltantes nas edições anteriores[4].
O primeiro volume da edição de 2004 compõe a summa do conhecimento de geografia, fauna, flora, minerais, história e dos povos da Amazônia. O segundo é dedicado às questões relacionadas às missões, agricultura, pesca, navegação, comércio, indústria a e organização da vida social.
As descrições da natureza e dos seus fenômenos, das paisagens, da fauna e flora e das diversas curiosidades comprovam o olho e o ouvido sensíveis do observador, mas também uma postura do leitor para quem a terra era um grande livro. Ele descreve o que tinha visto e, ao mesmo tempo, lê, interpreta a seu modo o que não pode ser visto, mas que se nos apresenta através dos signos da escrita da terra ou da memória dos seus habitantes. Fazem parte do tesouro da Amazônia os mitos e lendas ali encontrados, entre eles as histórias sobre os homens-peixes que vivem nos rios e saem à noite para espantar os pescadores, sobre a Pedra Maravilhosa, que tem em si todas as pedras preciosas, sobre o lago dourado e o outro, que transforma em pedra cada um que ousasse nele entrar. O Padre Daniel está aberto a mais do que captam os sentidos e a razão e, por isso, ao registrar as histórias maravilhosas dos povos da Amazônia, não manifesta a descrença, mas costuma tomar o lado das verdades que elas representam.
Esta atitude manifesta-se também nas relações do autor do Tesouro com os índios da Amazônia. Ele não esconde a distância que o separa deles, os considera como os que vivem “à lei da natureza, sem Deus, sem Lei e sem Rei, conforme a vontade de cada um” [I,318][5]. Mas, ao mesmo tempo, toma decididamente o lado dos nativos, defendendo a sua dignidade humana e denunciando todas as formas de escravidão, bem como os métodos de evangelização a qualquer preço, inclusive o da renegação dos princípios cristãos com o uso das manhas da retórica e o tratamento instrumental dos convertidos.
Nas partes quinta e sexta da sua obra, o Padre João Daniel propõe novos métodos da agricultura, extração, pesca e comunicação, as invenções que objetivam facilitar a vida dos moradores da Amazônia e contribuir para o desenvolvimento dessa região. Fazem parte dessas invenções as que podem facilitar e melhorar a navegação fluvial, assim como as ideias de aproveitamento de marés para mover os moinhos, os projetos de bombas, aquedutos, máquinas para cortar madeira e engenhos de açúcar.
Várias vezes o autor menciona de passagem a sua situação do prisioneiro „enterrado vivo” e pede ao leitor a compreensão pelas faltas provocadas pelas condições em que escreve. Alguns estudiosos já se perguntavam como poderia João Daniel, nas condições tão adversas do seu longo cativeiro, sem ter acesso às fontes, privado constantemente até de papel e tinta, ter produzido uma obra tão bem documentada, tão extensa e rica em detalhes. Há quem desconfiasse que a obra foi escrita ainda na Amazônia[6]. Mas no próprio texto é possível encontrar os argumentos contrários a essa hipótese, como as lacunas e faltas de dados, o que não iria ocorrer se o autor tivesse acesso às fontes bibliográficas. Ao longo da narração da obra encontramos também vários trechos metanarrativos que descrevem a situação do autor e que servem de justificativa para a escassez ou falta de alguns dados:
(...) faltam-me as notícias por me faltarem os livros, onde os curiosos as poderão ler, enquanto eu gemendo e chorando opresso com o peso da minha cruz, submergido, e enterrado vivo no funesto sepulcro, e subterrânea cova da minha prisão, vou pedindo a Deus piedade, e misericórdia; e que com a sua se digne santificar a minha cruz. [I, 54]
Por outro lado, em vários momentos da obra, o grau de detalhamento e as citações de outros autores, inclusive com as referências bibliográficas exatas, pode levar à conclusão de que pelo menos algumas partes do Tesouro foram escritas ainda na Amazônia ou que o autor teve acesso às suas anotações feitas antes de ser preso[7].
Depois de transferido para o Forte de São Julião, ele teve companhia de outros padres expulsos da Amazônia, com os quais podia trocar as recordações e conferir os dados[8]. No decorrer da narração do Tesouro, encontramos várias citações dos relatos e informações fornecidos por eles, como, por exemplo, quando cita o testemunho de um missionário da China “que também para aqui veio preso” [I,527], ou conta história de um missionário companheiro do cárcere, que foi vizinho na missão [II,69].
É impossível definir hoje com precisão todas as fontes bibliográficas da obra do Padre João Daniel, e o grau de contribuição dos outros presos. Porém, não resta dúvida de que a principal fonte foi a própria vivência e a busca de todo o conhecimento possível sobre a Amazônia, uma terra eleita como a pátria que foi forçado a deixar.
O Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas do Padre João Daniel reúne todas as características da produção missionária, jesuítica em particular, da época: a curiosidade pelo outro, a sua descrição e avaliação em função da obra evangelizadora, recordação saudosa da igreja que estava sendo construída, e – ao contrário de muitas outras obras escritas depois da expulsão – alimentação da esperança de que essa construção continuará e que as experiências vividas devem servir de incentivo e de preparação para os futuros missionários. As descrições do universo amazônico na obra do Padre João Daniel servem, sem dúvida, para o conhecimento e compreensão da população nativa visando a sua conversão ao cristianismo. Mas elas servem e objetivam também, a transformação desse universo numa Terra de Promissão também no sentido social, econômico e político. Por esses e outros motivos, como os elementos meta-narrativos que evidenciam a dramática situação do escritor, como a crítica dos métodos de evangelização e de colonização em vigor, como o extraordinário arquivo da memória, o Tesouro de João Daniel se apresenta como uma das mais completas e mais misteriosas obras do gênero, uma fonte inigualável de conhecimento da Amazônia do século XVIII.
Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas representa também um dos mais significativos atos de resistência ao terror pombalino e um forte argumento contra as suas justificativas da expulsão e da punição dos jesuítas. O outro “diretório” do Padre Daniel não foi menos avançado do que O diretório dos índios do Marquês de Pombal, mas com certeza estava fundamentado no maior conhecimento da Amazônia e dos seus povos. O ódio à Companhia de Jesus e a ânsia pelo poder absoluto levaram esse ministro de D. José I a eliminar os que podiam ser os seus melhores aliados no processo de colonização baseado no reconhecimento da racionalidade e capacidade dos povos nativos e no potencial libertário e civilizatório da ação educativa.
Embora no tempo que passou desde a missão do Padre João Daniel no Grão-Pará e Maranhão, da missão não interrompida nem nas masmorras de Portugal, surgiram tantas outras descrições do mundo amazônico, apesar de que hoje se saiba bem mais do que guarda o seu Tesouro e de que as suas invenções não têm mais chance de aplicação, o valor desta obra não é apenas o valor histórico. A riqueza da linguagem e da imaginação, a dimensão interdisciplinar, a base firme da experiência, do estudo e da meditação, o reconhecimento do valor da biodiversidade e da dignidade do outro, a opção pelo desenvolvimento sustentável, fazem com que o Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas mereça ser chamado hoje “a Bíblia Ecológica da Amazônia” e o seu autor “Camões dos trópicos”.
Há duzentos e setenta anos depois da sua expulsão da Amazônia, o Padre João Daniel continua sendo um aliado daqueles que não só veem naquela terra os tesouros, mas, antes de tudo, reconhecem a própria Amazônia como um tesouro que não pode ser perdido.
* Professor da Universidade de Brasília (UnB), autor de Livro do Rio máximo do Padre João Daniel. São Paulo: EDUC 2012.
[1] TOCANTINS, Leandro, Bíblia ecológica do Padre João Daniel”. Introdução a Padre João Daniel, Tesouro Descoberto no Rio Amazonas, “Anais da Biblioteca Nacional”, 1975, vol. 95, t. I. No mesmo texto o autor chama Padre João Daniel de “Camões dos trópicos”.
[2] QUADROS, Eduardo Gusmão de. Luzes e sombras sobra a alma nativa: dois jesuítas expulsos da Amazônia. In https://www.ifch.unicamp.br/ihb/Textos/GT48Eduardo.pdf
[3] DANIEL, João Pe., Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. Apresentação de Vicente Salles. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004, Vol. 1- 2.
[4] PORRO, João. Um „tesouro” redescoberto: os capítulos inéditos da Amazônia de Pe. João Daniel. „Revista do Instituto de Estudos Brasileiros”, 2006, n. 43, p. 127-147.
[5] DANIEL, João Pe. Op. cit. Todas as citações do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas serão localizadas como esta – com o número do volume (romano) e o número da página (árabe) em colchetes.
[6] PAPAVERO, Nelson. Relíquia do século 18. “Ciência Hoje”, v. 35, 2004, no. 208, p. 77.
[7] Por exemplo, ao falar dos homens marinhos, faz referência precisa ao livro de Frei Benito Geronimo Feijoo, Theatro Crítico Universal, o Discursos vários em todo gênero de matérias, para desengaño de errores comunes, Madrid, 1738: “Dos homens marinhos fala Feijó no 6 Tom. Discurso 7º” [I,120].
[8] PORRO, Antonio. Uma Enciclopédia Amazônica. “Revista do Instituto de Estudos Brasileiros”, 2006, n. 43, p. 223-224.
CORRESPONDÊNCIA. 76
06-10-2025 15:26Carta de Max Hölzer para António Telmo de 29 de Março de 1978
.jpg)
Mon cher António Telmo,
Maintenant je peux disposer un peu plus libre du prochain temps : si tout va bien, j’arriverai le 12 avril, le matin, avec le Sud-express, à Lisbonne (l’heure exacte dépend d’un éventuel changement de l’heure après le 1er avril). J’ai l’intention de rester su moins trois semaines.
Il serait bien si nous pouvions nous voir, aussi pour des réunions respectives (avec Fr. S. et C. H.) la fin de cette même semaine. Je sais que vous avez fixé la date prochaine des réunions une semaine avant, mais il m’est impossible de venir plus tôt sans couper le travail ici. Qui était difficile mais « bon » depuis mon retour le 15 mars.
Dans ma lettre de l’Autriche, je n’avais pas « élucidé » les malentendus que j’avais provoqués par mes indications sur « l’exercice » que je vous ai proposé. (C’est simplement debout, les mains tendues sous l’eau coulant du robinet, que vous deviez le faire, sans aucune « position » autrement prise.
Il me tardait de vous revoir. J’espère que vous et votre femme et vos enfants vont tous bien traversé l’hiver !
Je vous embrasse --
Max H.
CORRESPONDÊNCIA. 75
23-09-2025 13:14
Carta de António Telmo para Francisco Soares, de 26 de Dezembro de 1995
Estremoz, 26 de Dezembro de 1995
Meu caro Amigo
É-me grato acusar a recepção do seu livro[1] e dar notícia da minha sua leitura na quadra do Natal, pois assim posso desejar-lhe as maiores felicidades materiais e intelectuais para o ano de 1996, e fazer votos que tão bela reflexão sobre a Monarquia encontre leitores tão atentos e dedicados como eu e obtenha a ressonância que o seu valor merece.
Dizia Álvaro Ribeiro que pensar consiste em pesar as palavras, de modo a que a filologia se torne aventurosamente filosofia. O seu texto é o perfeito exemplo disso. A Pátria em exílio ressurge em escritos como o seu.
Tenciono fazer outras leituras. Não calcula como fico contente por ver que homens como o Francisco Soares, o António Cândido Franco ou o Paulo Borges, erguendo a alma ao espírito, forcejam por criar uma escola de Filosofia Portuguesa num meio que lhe é radicalmente adverso.
Vamos ver se, em breve, o vou visitar a Évora-Monte.
Até lá, um abraço do
António Telmo
CORRESPONDÊNCIA. 74
21-08-2025 15:18CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 14
Estremoz
24-11-89
Meu caro Amigo
Li, de seguida, fraternal e interessadamente, todo “O Mar e o Marão”[1]. Antes, porém, de falarmos sobre o que importa, devo-lhe uma explicação do meu silêncio depois da sua última carta.
Procurei o livro de Joseph de Maistre no caos dos meus livros dos outros e, como não consegui encontrá-lo para lho enviar, esperei que, mais tarde ou mais cedo, aparecesse, coisa que arreliadoramente não aconteceu ainda. Como não emprestei o livro a ninguém, tê-lo-ei eu deixado esquecido em qualquer parte? Quanto aos originais que me enviou, o silêncio deixou-lhe certamente toda a liberdade. A revista Princípio, aliás feita, não se publica já. Causa próxima: ficarmos sem resposta às perguntas à Fiama que quisemos entrevistar. A minha amizade e admiração por ela permanecem, no entanto, inalteráveis.
Voltemos ao mar e ao Marão. Uma amiga minha assistiu à sua conferência no Iade e ao colóquio que se lhe seguiu e falou-me com entusiasmo de si e da sua comunicação, mostrando-se indignada com o modo como o trataram, no colóquio, os cristãos-novos envergonhados[2]. Tive pena de não ter podido estar lá.
Seríamos dois marranos corajosos num momento difícil da arte diplomática, porque a filosofia portuguesa aparece, nos Jorges Pretos[3], a defender teses que lhe são contrárias.
Passei o seu estudo a um dos meus próximos, o João Rêgo[4], que ficou impressionado e pretende contactar consigo.
Pelo que me diz respeito, tudo me falou no seu escrito e, sobretudo, a felicidade como se movimenta em themuria. A identificação de Marános com marrano, sendo uma chave falsa, abriu-lhe a porta do melhor entendimento de Pascoaes. O erro está no início de todos os descobrimentos. V. conhece já todos os segredos cabalistas do primeiro grau, como, por exemplo, a repetida criação de novo do mesmo pensamento, de que são maravilhosa manifestação as páginas poéticas do seu escrito.
O António Cândido Franco espanta-me por ter chegado de fora da filosofia portuguesa em ressonância perfeita com o que ela tem de melhor. Não há, porém, na sua reflexão nenhuma referência de Álvaro Ribeiro. Será que ainda não encontrou a chave para o ler?
Um grande abraço do companheiro
António Telmo
[1] N. do O. - Livro de António Cândido Franco, publicado em 1989. Na sua origem esteve uma conferência subordinada àquele mesmo título e proferida, em 20 de Junho desse ano, no IADE, a convite do seu Director, o filósofo António Quadros.
[2] N. do O. – Referência à controvérsia gerada pela conferência de António Cândido Franco, desde logo no período de debate com a assistência que se lhe seguiu. Também na imprensa escrita se colheram ecos dessa celeuma: no semanário Expresso, o jornalista António Cabrita publicou uma reportagem crítica da conferência.
[3] N. do O. – Diplomata. Discípulo de Álvaro Ribeiro e José Marinho, com estudos publicados nos domínios da Filosofia, da História e da Heráldica. Jorge Preto interpelou António Cândido Franco no debate que se seguiu à conferência em apreço.
[4] N. do O. – Membro do círculo de António Telmo. Médico. Nasceu em 1957 e faleceu em 2007, vítima de um acidente de aviação. Publicou a antologia, por si organizada e apresentada, A Medicina em Álvaro Ribeiro (1992). Postumamente, mas logo em 2007, saiu a lume Contos da Coluna de Meio.
EDITORIAL. 34
21-08-2025 15:08A memória vivente
Passam hoje quinze anos sobre a partida de António Telmo para a Grande Viagem.

E hoje mesmo, num arquivo de Lisboa, teve continuidade o trabalho de investigação que Pedro Martins e Risoleta C. Pinto Pedro estão a realizar há já dez anos e que, assim se espera, irá culminar, em 2027, na edição de uma biografia do filósofo da razão poética. Hoje mesmo, pois, António Telmo renasceu um pouco mais para a memória vivente dos homens.
Acreditamos que algumas surpresas advirão dessa obra. Estamos certos de que permitirá um conhecimento mais profundo, e mais rigoroso, da vida no nosso patrono. A cada um, porém, o seu retrato, único e inconfundível, de António Telmo.
VOZ PASSIVA. 147
13-06-2025 11:22
HISTÓRIA SECRETA DE PORTUGAL, António Telmo*
Paulo Pereira
Foi com este livro que a Vega se estreou no plano editorial; agora reeditado, aparece em situação curiosamente simbólica, já que esta editora procede, de momento, a um esforço sério de relançamento. A actual edição repete a primeira integralmente, perdendo-se, porém, a qualidade, já de si escassa das fotografias originais; em contrapartida, ganhou uma nova capa de excelente grafismo.
A obra em apreço data de 1977, ano importante para o campo da «história mítica», da especulação esotérica e dos conhecimentos de âmbito «tradicional» entre nós; já que foi este texto de António Telmo, bem urdido e sem sensacionalismos, que suscitou o reganho de interesse por este meio de aproximação heterodoxa às evidências materiais e espirituais do passado, de resto bem mais sérios do que à primeira vista parecem (e contra o que alguns detractores, ajudados por charlatães e escudados no argumento ideológico, gostam de fazer crer).
António Telmo situa-se na linha de Julius Evola e René Guénon, «patriarcas» dos estudos tradicionais na perspectiva ocidental, integrando-os, todavia, na corrente da Filosofia Portuguesa. Através da interpretação mítico-simbólica, reconstitui uma «ciclologia» da História de Portugal (Ciclo dos Reis, do Clero e do Povo), relendo os seus mais significativos testemunhos culturais, como sejam a poesia galaico-portuguesa, a simbologia manuelina e o Mosteiro dos Jerónimos (assim pela primeira vez interrogados), Camões, Vieira ou Pessoa. É bem evidente o empenhamento «prospectivo» e «escatológico» do autor, claramente antimaterialista. Mas quer se concorde ou não com este finalismo histórico, o certo é que as reflexões de Telmo permanecem, em muitos domínios, sedutoras. (Vega, colecção «Janus»-Série História, 1986, 166 págs., 750$00).
______________________
* Publicado em Expresso (A Revista), de 29 de Novembro de 1986, p. 11-R.
