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VOZ PASSIVA. 61
21-08-2015 00:33António Telmo no convívio do Grupo da Filosofia Portuguesa
João Ferreira

[João Ferreira, no Porto, em Dezembro de 2014]
António Telmo no convívio do Grupo da Filosofia Portuguesa
João Ferreira
[...] "Meu caro João Ferreira, que memórias guarda da tertúlia nos cafés de Lisboa nos anos 50 e 60? Lembra-se de ter visto o Telmo por lá? Como era o relacionamento entre Álvaro e Marinho e destes com os discípulos? Recorda algum episódio em particular? O seu testemunho ser-nos-á precioso!..."
Carta de Pedro Martins a João Ferreira. Em 16 de julho de 2015.
Pedro Martins, coordenador da edição das Obras Completas de António Telmo e autor de Um António Telmo publicado neste ano de 2015 pede-me um depoimento sobre António Telmo na tertúlia filosófica presidida por Álvaro Ribeiro e José Marinho em alguns cafés de Lisboa pelos anos 50 e 60. Naturalmente meu depoimento será muito limitado e apenas a versão daquilo que pude testemunhar. Outras pessoas do tempo poderão completar minha versão.
Para nos situarmos no tempo lembro que regressei da Itália em dezembro de 1953 e fui residir em Leiria onde estive até junho de 1963. Ia a Lisboa algumas vezes ao ano, e aproveitava para me encontrar com meus amigos do Grupo da Filosofia Portuguesa no café Palladium.
Em 1954 publiquei na revista "Colectanea de Estudos" Temas de cultura filosófica portuguesa. Sobre a posição doutrinal de Pedro Hispano e enviei uma separata do ensaio a Álvaro Ribeiro. O Mestre se entusiasmou com o que leu sobre Pedro Hispano, e publicou no Diário Popular um comentário falando do trabalho, de Pedro Hispano e do aristotelismo em Portugal. Me convidou a visitar o Café Palladium para conhecer o grupo da Filosofia Portuguesa na próxima vez que fosse a Lisboa. Aconteceu que tive de ir a Lisboa nessa altura, e então escrevi ao Álvaro e marcamos o encontro no Palladium. Bem benevolente, Álvaro me apresentou a José Marinho, a Orlando Vitorino,que eu já conhecia, a Afonso Botelho, a António Quadros, a António Braz Teixeira e aos demais componentes do grupo. Não me lembro se nesse primeiro encontro estava António Telmo, mas é bem provável que sim pois ele sempre acompanhava seu irmão Orlando. Havia outros membros jovens na tertúlia : Fernando Morgado, Luis Zuzarte, Francisco Sottomayor, entre outros. A impressão positiva que recolhi foi que Álvaro Ribeiro e José Marinho repartiam a liderança com a autoridade de mestres e sábios inteligentes.Mantinham-se em seus lugares como pares de todos os outros, deixavam fluir as temáticas e os debates. A presença deles estimulava os jovens. Álvaro Ribeiro ouvia e dialogava. José Marinho tinha como característica acompanhar, com um olhar muito vivo, a intervenção de cada um nas discussões. Por vezes iam também ao café figuras ilustres da amizade do grupo sobretudo leonardistas ou antigos alunos da Faculdade de Letras do Porto. Numa de minhas visitas ao Palladium encontrei José Sant'Ana Dionísio, que havia publicado em 1953, pela Seara Nova, O Poeta essa ave metafísica. Álvaro Ribeiro sugeriu-me que levasse para a tertúlia um comentário sobre o livro. Sant'Ana Dionísio compareceu e houve um interessante debate sobre o livro.
O que deve ser ressaltado é que grande parte dos componentes do grupo participava não apenas dos debates no café, mas de publicações, de conferências e debates que se desenvolviam na área de interesse do grupo. Delas participava António Telmo.
Entre esses eventos históricos que intensamente se produziram estão os Teoremas de Teatro, que acompanhei de 1955 a 1957 no Teatro Trindade e que eram coordenados por Orlando Vitorino e Azinhal Abelho. Antônio Telmo participava do debate que era aberto ao público após a apresentação dos Teoremas de Teatro.
A partir de 1957, o Grupo da Filosofia Portuguesa entrou numa nova fase. António Quadros publicou o jornal "57" e com ele nasceu naturalmente um novo movimento cultural dentro do grupo da Filosofia Portuguesa. Foi publicado nesse ano de 1957 na revista Itinerarium(Ano III, n. 3, pp.221-259) Fundamentação geral da Filosofia Portuguesa minha primeira manifestação escrita sobre debate da Filosofia Portuguesa. Nesse tempo quando era ainda muito escassa a bibliografia sobre o assunto, o ensaio serviu como guião de um debate sobre Filosofia Portuguesa no Centro Contemporâneo de Cultura, no Largo do Mitelo, 1, em Lisboa. Telmo tinha então 30 anos. Seu irmão Orlando Vitorino entusiasmado com a grande oportunidade em debater um problema que ainda era conhecido só em ambientes restritos, pegou o número da revista Itinerarium, e colocou-o aberto na mesa da presidência do Centro, convidando o público a discutir os principais pontos que ali eram desenvolvidos. A sala estava cheia. Havia personalidades ilustres interessadas no debate. Entre elas lembro a figura de Orlando Ribeiro(1911-1997), fundador do Centro de Estudos Geográficos, "o geógrafo português do século XX com mais projeção internacional". António Telmo participou do debate também, juntamente com outras figuras do grupo do café Palladium. Entre eles, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Afonso Botelho, António Quadros e outros. Em rigor, este seria o primeiro debate público, fora dos ambientes de café e das páginas do livros de Álvaro Ribeiro, e dos textos dos componentes do grupo da Filosofia Portuguesa.
Outro evento que está documentado e que teve a participação de António Telmo juntamente com os principais membros da Filosofia Portuguesa aconteceu em fevereiro de 1956. Em carta de 29 de janeiro de 1956, Álvaro Ribeiro escreve a João Ferreira em nome do grupo da Filosofia Portuguesa para ir a Lisboa para participar de uma programação preparada pelos amigos do grupo da Filosofia Portuguesa. De acordo com a carta de Álvaro Ribeiro, da programação fazia parte, em primeiro lugar, um colóquio entre meia dúzia de amigos escolhidos às 18 horas em casa do Dr. Afonso Botelho. Em seguida, haveria um jantar na residência de Afonso Botelho e às 22 horas a conferência A Saudade e seus problemas para os sócios do Centro Nacional de Cultura, com discussão, no final, para esclarecimentos.Álvaro Ribeiro acrescentava na carta "Pedimos que nos apareça munido de todos os seus trabalhos inéditos porque queremos fazer uma proposta de edição da conferência e de outros escritos menores". Paralelamente à carta de Álvaro Ribeiro recebi também uma carta de Afonso Botelho, no dia 2 de 1956 me convidando para jantar no dia da palestra ("para a qual já partiram os convites") que haverá no Centro Nacional de Cultura. A conferência A Saudade e seus Problemas foi realizada na Quinta-feira que se seguiu ao dia 4 de fevereiro. Afonso Botelho, Antônio Telmo, seu irmão Orlando Vitorino, Antônio Quadros, Álvaro Ribeiro, José Marinho, António Braz Teixeira,entre outros estiveram no centro de todo o debate que se constituiu em torno da temática apresentada. A presença de João Ferreira no Centro Nacional de Cultura celebrava a reabertura do Centro que havia sido inaugurado em 1952 com uma conferência de Teixeira de Pascoaes.
Há outros eventos a relatar que envolvem integrantes do Grupo da Filosofia Portuguesa e António Telmo. O mais importante talvez seja um evento quase desconhecido e pouco badalado mas muito real que aconteceu em 1956. João Ferreira era então professor de Filosofia dos estudantes do Curso de Filosofia do Seminário Franciscano de Leiria. Organizou para seus alunos um Curso de História da Filosofia Portuguesa (cf. António de Sousa Araújo. "João Ferreira e o seu Cruso de História da Filosofia Portuguesa". In: Itinerarium, ano XLVI, nº 168, setembro-dezembro, 2000, pp.389-480). A notícia deste curso interessou Álvaro Ribeiro e os amigos de Lisboa. Aos poucos, João Ferreira trabalhou também por estabelecer um vínculo mais profundo de Lisboa com Leiria. Com a anuência e colaboração do padre José Alves Pereira foi possível organizar uma conexão envolvendo palestras e presenças importantes idas de Lisboa. Segundo carta de Afonso Botelho que falou em 27 de abril de 1956 sobre "Situação do conhecimento em Portugal", o conferencista dizia:"Devo levar comigo os amigos daqui e por essa razão teremos que voltar no mesmo dia." Na verdade, Afonso Botelho e seus amigos idos de Lisboa compareceram em peso no salão do convento da Portela em Leiria. Além do doutor Luís Filipe, amigo de José Marinho, e de Afonso Botelho, conferencista, foram de Lisboa: José Marinho, Álvaro Ribeiro, Orlando Vitorino, Antonio Telmo e outros elementos do Grupo da Filosofia Portuguesa, e ainda, como surpresa, dois ícones da Renascença Portuguesa: Augusto Casimiro e Mário Beirão, autor de "O último Lusíada", parceiro de Pascoaes em A Águia e na Renascença Portuguesa. Tudo isso nos dava a sensação de que estávamos numa segunda versão simbólica da Renascença Portuguesa, desta vez, porém, convergindo das Letras para a Filosofia. Na Carta de 20 de maio de 1956, depois da palestra em Leiria, Afonso Botelho agradece a recepção em Leiria:"Foi-me gratíssimo encontrar na simpatia humana com que nos receberam a marca dessa fundamentada esperança". "Os nossos comuns amigos cá vão, acabando os seus livros e eu a animá-los a meterem-se em novas empresas para as quais conto com o concurso do convento da Portela." Afonso Botelho confidencia a João Ferreira: " Que diz a uma História da Filosofia Portuguesa colaborada por todos ou pelo menos uma História da Filosofia Contemporânea?". Mais tarde Orlando Vitorino falará também, por sua vez, a João Ferreira sobre uma História da Filosofia Portuguesa e convida-o a escrever a parte medieval até ao século XVI. Afonso Botelho, em carta de 25 de agosto de 1956 fala de um Livro sobre Pensamento português e fala de um capítulo reservado para João Ferreira: "O pensamento português no ambiente da Escolástica. Pedro Hispano e sua influência"[...]. E fechava a carta, dizendo: "Todos os Amigos que estão em Lisboa lhe enviam cumprimentos".
Lembrando o encontro em Leiria, José Marinho comentava em 1963, numa carta a João Ferreira: "Desde que o simpático dr. Luís Filipe me levou à Portela ando com desejo de lá voltar. Vamos a ver quando poderá efetivar-se. Se vier a Lisboa peço-lhe que não se esqueça de me dar sinal".
Estes excertos de arquivo e vestígios de memória mostram alguns dados importantes relativos a atividades do Grupo de Filosofia Portuguesa em seus primeiros tempos de constituição e da ligação de António Telmo com o Grupo.
31 de julho de 2015
VOZ PASSIVA. 60
21-08-2015 00:02
O voo de Lúcio
Risoleta C. Pinto Pedro
No dia 21 de Agosto de 2010, António Telmo fazia uma radical descida ao “poço da alma”, para usar as suas palavras no texto “O Quarto Inimigo do Guerreiro”, in A Terra Prometida: Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e V Império.
Poderíamos dizer que esta descida o conduziu ao Grande Oriente Eterno, mas detém-nos um pudor que tem a ver com uma sua convicção, ou pelo menos repetida afirmação, que poderíamos condensar numa passagem do mesmo referido texto:
“[...] o Jung, apesar do seu nome que parece chinês, está-me indicando que o caminho de um ocidental não é o do Oriente.”
Mesmo para um filósofo com olhos de oriental, que misteriosamente a vida ou, se quiserem a biologia, ou para outros, Deus, lhe terá dado, o caminho do Oriente não era o mais sedutor, ou o mais... iluminador. A sua escolha, o seu escol era o da lucidez, para lá das escolas, tendências ou modas. Era o escol do pensamento próprio.
Evidemente que o Oriente da Eternidade é outra coisa, ainda mais sendo um Oriente Grande. Na Eternidade o Grande Oriente terá de ser tão, mas tão grande, que lá caiba também o Ocidente e todos os outros pontos cardeais que sabemos e ainda mais os que existam para além do nosso conhecimento planetário.
Antes, no mesmo texto, escrevera este sempre jovem:
“Estou velho”. Isto comove-me. Faz-me mais pensar em algo como: “Estou cansado”
Há dias caiu-me no jardim, como em poço, um passarinho. Examinei-o, parecia íntegro, nem asas, nem patas mostravam qualquer mal. Deixei-o ficar aí um dia em gaiola, Lúcio pareceu-nos o nome perfeito para um ser caído do céu a fim de repousar ou iluminar-me ou mimar-me gaiola e jardim.
No dia seguinte, após vertiginoso voo rasante de chão, elevou-se no ar e voou.
Ao crepúsculo um bando de andorinhas cruzou vertiginosamente o céu do jardim em diversos sentidos e direcções e durante uns momentos o meu céu parecia um palco de caças em tempo de guerra. Mas era pela paz. Assim como apareceram, assim partiram. Anunciaram algo que ainda hoje desconheço. Mas não posso deixar de evocar outra afirmação do filósofo:
“Um dos sinais do Quinto Império é que ainda há andorinhas.“
Prefiro, por isso, pensar que a presumível derradeira queda de António Telmo no poço da alma, a mais grandiosa queda, a mais elevatória descida, é só uma pausa para descansar, íntegro, apenas poiso para este homem lúcido, antes do voo de Lúcio. Em direcção ao Grande Oriente. Eterno e como nenhum outro, interno. Tal como começa por ser o V Império, antes de se materializar.
Não se referem, os que o viram nos últimos tempos, antes da partida, a asas a necessitar conserto. Assim, partiu para pausa, descanso, novo voo. Como sempre, lúcido. Luminoso e hermético. Como muitos filósofos, é preciso descodificar o que diz, porque é portador de uma semântica própria. Traduzamos assim, sem receio, “velho” por “cansado” e “descer ao poço da alma”, “repousar antes de continuar”. Não faço ideia em que parte do caminho se encontrará, se já chegou, se já partiu novamente. Mas acredito que estará fascinado em mais uma invesigação do pensamento. Radical. Este corajoso pensador do transcendente que perto do final do caminho teve a coragem de se interrogar, como quem, à beira da obra completa, tudo abandona e recomeça tudo, do princípio: “se é que há alma e não só corpo.”.
Comove-me esta coragem, esta dúvida, esta verdade, esta grandeza de quem arrisca pôr em causa toda uma obra e todo um pensamento. Assim, pela verdade (Pelo amor. À verdade), a salvando, o salvando, se salvando, nos salvando.
20 de Agosto de 2015
CORRESPONDÊNCIA. 27
20-08-2015 23:24
[Álvaro Ribeiro na Cotovia, em Sesimbra, no final de década de 60. A foto foi gentilmente cedida por Conchita e Germano Teixeira, a quem muito agradecemos]
Carta de António Telmo para Álvaro Ribeiro, de 28 de Abril de 1971
Meu caro sr. Dr. Álvaro Ribeiro
Com o título Sampaio Bruno e a Tradição Hebraica Portuguesa, envio-lhe o que escrevi nestes dias a partir do que por cá tinha. Parece que o escrito tem unidade e configuração para livro. Fiquei com uma cópia. Agradeço que lhe dê o destino combinado. Não referi todas as citações aos livros, porque não disponho de todos estes e porque suponho que se pode fazer em trabalho sobre as provas. Se achar que convém fazê-lo já, agradecia que mo mandasse dizer.
Assino o livro com “António Carvalho”, por razões que o sr. Dr. Álvaro Ribeiro conhece…
Quando passam por aqui?
A Maria Antónia e todos nós gostávamos de ver em nossa casa o casal outra vez.
Como vai a Conchita e a Mónica?
O novo escrito já vai muito adiantado?
O Pinharanda Gomes escreveu-me requisitando três respostas para três perguntas sobre Filosofia Portuguesa.
Já escrevi, mas ainda não enviei porque me falta uma referência do nome do filólogo que tem um estudo sobre a língua portuguesa a demonstrar a sua superioridade sobre as europeias. Li este estudo na casa do Roque e preciso encontrá-lo para saber o nome do filólogo.
Cumprimentos meus e da Maria Antónia a sua Esposa.
Um abraço à Conchita e beijinhos à Mónica da Anahí, que está ao pé de mim a falar no Germano.
Do discípulo muito reconhecido
António Carvalho
[Biblioteca Nacional, Espólios N9/1053]
VOZ PASSIVA. 59
20-08-2015 23:17
Evocando António Telmo (2-5-1927/21-8-2010) hermeneuta de Diálogos de Amor de Leão Hebreu e autor de A Verdade do Amor
Eduardo Aroso
A luz intensa e súbita pode cegar. Não se tem dito o mesmo do amor verdadeiro, esse quando irrompe como lava de vulcão, mais em forma de luz do que de temperatura… sobre as emoções rotineiras, vulgarizadas também como afectos, ou desalmadamente sob a forma de “ter um caso”, ou na degradada e absurda expressão “fazer amor”.
Pode amedrontar e em simultâneo causar espanto se o amor surge como uma espécie de epifania. Receio que nos pode paralisar momentaneamente, pois também a isso não ficou imune, na visão, Paulo na estrada de Damasco, onde os seus olhos ficaram cobertos de escamas durante dias. A verdade é que somos, por enquanto, vasos frágeis para conter essa torrente misteriosa que faz estremecer o mundo da matéria, ao mesmo tempo que só ela o pode mover.
Quando esse amor amedronta e causa espanto é também o sinal de que chegou a hora de sermos guerreiros de luz afrontando um falso adamastor que se ergue para barrar a verdadeira aventura divina no campo de batalha mais desamparado e obscuro em que presentemente vivemos.
Se é verdade que houve céu antes da terra, é certo que "a terra antes do céu" tem o sentido da Grande Obra, pois que da terra ninguém se pode alhear seja qual for o nirvana! Quem ergue a espada de luz, afrontando o adamastor do receio e do espanto, tem já dentro de sim a certeza, como se fosse um terraço que dá para o mar imenso de todas as possibilidades que se abrem na linha do horizonte. Também nós, os do Portugal da esfera armilar, queremos o oceano antes do céu.
Cabo Mondego, 20-8-2015
VERDES ANOS. 13
20-08-2015 18:44
Sampaio Bruno, crítico literário[1]
Um dos aspectos pelo qual menos conhecem Bruno os nossos intelectuais revela os seus grandes dons de «crítico literário», senhor de segredos e processos filológicos de hermenêutica que lhe abriram o acesso a todas as zonas da literatura. Páginas e páginas se seguem e alternam nos seus livros, nas quais estuda a literatura francesa, desde os românticos aos simbolistas, a literatura russa, Shakespeare, Dante, Novalis e Goethe, toda a literatura portuguesa, para não falar da Geração Nova, um volume inteiramente dedicado a estudos literários.
Com a superioridade do filósofo que exerce a crítica, Sampaio Bruno interrogava a literatura de modo a descobrir a concepção do mundo pensada pelo poeta, pelo historiador ou pelo romancista. Consciente de que um novo pensamento ou uma nova ideia desce a escala que da literatura vai até à política pelo ensino, não caía no erro ingénuo de considerar, como querem os positivistas, a literatura uma sobrevivência do passado. Decifrava, utilizando a filologia, qual esse pensamento, qual essa ideia actuante. E assim resolveu muito problema obscuro e declarou muitos enganos no domínio dos conflitos políticos e das preocupações religiosas.
Em geral, os críticos literários acreditam na literatura como um objecto, uma coisa, não deixando, com os seus paralogismos, ver ao leitor o sujeito que está por detrás do objecto, a causa que se esconde na coisa. O autor da Geração Nova sabia muito bem como surge a questão literária, pois gozou de uma grande vantagem sobre quase todos os seus contemporâneos: a de ser inteligente. Se aceitamos a definição de Álvaro Ribeiro de que inteligente é aquele que compreende o que lhe querem dizer antes de lho terem dito, se adoptamos a menos subtil definição de que inteligente é aquele que não se deixa enganar, temos de reconhecer que a maioria dos intelectuais republicanos portugueses não era constituída por pessoas inteligentes, porquanto, mesmo e até depois de lho terem dito, não compreenderam e totalmente se deixaram enganar. Esses ingénuos Vencidos da Vida, e dizemos ingénuos para não ferir seus, por ventura ingénuos, prosélitos da hoje, escritores eles admiráveis que tanto contribuíram, por meio do poder do estilo, para instalar o que diziam querer destronar, para contrariar tudo o que diziam querer favorecer, não parecem pessoas inteligentes inteligentes, quando os comparamos à geração, pelos críticos menosprezada, de Garrett e Herculano. Efectivamente, tanto quanto diminui as figuras, os escritos e as acções de Antero, Eça e Oliveira Martins, exalta Sampaio Bruno as de Garrett, Herculano e Castilho. Também a Teófilo Braga não escapou o equívoco da influência dos Vencidos da Vida.
A crítica destes ao positivismo consiste no fundo no combate à filosofia portuguesa de Teófilo Braga. Outro foi o ponto de vista e de partida da crítica sistemática feita por Sampaio Bruno à doutrina de Augusto Comte. Fazendo depender a literatura da história e, por conseguinte, da lei dos três estados, dependência que ainda hoje (! ) orienta os cursos de filologia das Faculdades de Letras com as suas disciplinas de História da literatura portuguesa, inglesa, alemã, francesa, etc., os positivistas têm sempre pretendido dissociar a literatura da filosofia ou enterrar e ignorar definitivamente a filosofia na literatura. Deste modo, a ciência pitagórica, adoptada pelos positivistas, passará, no último limite, a reivindicar a totalidade dos direitos no domínio jurídico do ensino oficial e público, e a redenção das pátrias e da humanidade será retardada, uma vez que se-vede o aprendizato e o estudo das artes tradicionais.
Para combater o positivismo, escreveu Sampaio Bruno o Brasil Mental. Porquê o Brasil e não Portugal? Em 1857, ano em que morreu Augusto Comte e nasceu Sampaio Bruno, (curiosa coincidência!), já a doutrina, a que o biólogo Husley chamou um «catolicismo sem cristianismo», se encontrava implantada no Brasil, mediante acção de agentes franceses que ensinaram na Escola Naval do Rio de Janeiro. O positivismo não veio por terra de Paris; veio sim do Rio de Janeiro, por barco, em pacotes de livros. Tratava-se, portanto, de combatê-lo no seu ponto, para nós originário e nevrálgico. Simultaneamente, assim o filósofo evitava ferir os prtugueses; seus compatriotas.
Elucidativo é que seja nesse livro, o Brasil Mental, onde Bruno insere o seu admirável estudo sobre a Pátria. Guerra Junqueiro, que, como se sabe, fora iniciado por aquele na filosofia de Pascoal Martins, apartara-se, desiludido, dos Vencidos da Vida. Entre Guerra Junqueira e Antero de Quental, Sampaio Bruno escolheu, sem dúvida, o autor da Oração à Luz, o poeta iluminista, o poeta da Pátria e do Catolicismo português (como viu F. Pessoa), ao pé do qual o Catolicismo germânico do autor dos Sonetos não sustenta comparação. Como sucede com Oliveira Martins, existem nos livros de Bruno muitos passos explícitos denunciando em Antero os sofismas hábeis ou inconscientes do seu estilo. Mas nenhum leitor atento e perspicaz é enganado com o alvo da crítica ao poeta-didacta brasileiro Martins Júnior. O visado é ainda Antero de Quental.
A inferioridade da poesia didáctica é, em geral, admitida por todos os intelectuais. Isso não impede, porém, a admiração que muitos perfilham por todos aqueles poetas que puseram a literatura ao serviço da ciência, da política ou da religião. Medíocre leitor de Schopenhauer e de Hegel, Antero foi, sem dúvida, um excelente propagandista do pensamento germânico, servido como era por admiráveis qualidades de estilo. A mistura, nos Sonetos, de algumas noções de filosofia alemã com a mitologia católica, sustentada pelo lirismo, sentimental e enciclopedista, duma alma em perpétua contradição, não basta para fazer dele, como em geral se faz, o poeta-filósofo por excelência.
Só à cegueira provocada pelo ensino oficializado da literatura se deve atribuir a ignorância de tão fáceis explicitações. O positivismo faz ver ao invés a ordem por que se processa a tríade literatura, ensino e política e promove, por conseguinte, a sociologia a primeira das ciências. Daí a correlativa apologia da poesia didáctica, com a substituição do mito pela alegoria e do símbolo pelo emblema. A ordem «à rebours» que assim se estabelece, miragem na qual a literatura aparece como resultado, não deixa ver a verdade; tão bem formulada por Teixeira Rego. «A literatura é a expressão do sobrenatural». Somente quem o pensar poderá descobrir a íntima realidade daquele processo existencial que faz descer a palavra à política, e conceber o princípio do movimento que anima a humanidade.
O ensino de Sampaio Bruno, a actividade que desenvolveu como crítico literário não se perdeu. Hoje a literatura começa a ser estudada, nos meios afastados do ensino oficial, em função da filosofia. Tivemos de referirmo-nos, enquanto articulávamos estas linhas, a Teixeira Rego e Teófilo Braga. Estudando a obra destes três escritores, poderá alguém, no futuro, escrever a verdadeira história da nossa literatura, a última história da literatura portuguesa. Cem anos após o nascimento do grande pensador tornou-se possível confiar na virtude dessa esperança.
António Telmo
UNIVERSO TÉLMICO. 28
17-08-2015 21:59Raquel, Rafael, a “Escola” e as Escolas
(Resumo de uma viagem a Atenas
com regresso a Portugal, sem de cá ou de lá sairmos)
Risoleta C. Pinto Pedro

“Como é difícil a uma criança
distinguir o seu sonho,
que é a sua realidade,
do que os homens já cristalizaram
em realidade para eles!
As escolas, meu Deus, que tortura!”
Leonardo Coimbra, Adoração, cânticos de amor
Causarum cognitio, de Raquel Gonçalves
O Conhecimento das causas
A Escola de Rafael Sanzio
«Os intelectuais de “A Escola de Atenas”
encontram-se muito abaixo do nível de Deus,
abaixo ainda do nível dos poetas.»
Raquel Gonçalves
Raquel Gonçalves-Maia, cientista, divulgadora de ciência, tem feito numerosas e importantes pontes entre ciência, arte e símbolo, assim como já andou pela ficção. É um espírito veloz, curioso, insaciável, e tem tanto de tranquilo como de inquieto. Escreve agora sobre “A Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio, afresco que pode ser admirado no Museu do Vaticano.
Livro precioso, porque é o olhar livre e despreconceituoso da cientista sobre a arte, a filosofia, e a história de ambas. Num colo que é ciência.
A autora brinda-nos generosamente com um olhar científico, estético, filosófico e simbólico.
Recomendo-o por múltiplas razões: porque ensina, porque abre horizontes, interroga, expande, espanta-se, assombra-nos e indicia. E tem uma linguagem bela, a cientista divulgadora e ficcionista.
Será “A Escola de Atenas” o objecto ou o pretexto para este livro? Ao leitor as respostas, tantas as respostas quantos os leitores, certamente muito mais numerosas e ricas as respostas, que a amplitude desta minha ingénua pergunta.
Quem está no centro deste livro que analisa a pintura onde foram reunidos génios do pensamento desde o século VII antes de Cristo ao século XVI depois de Cristo? Aristóteles? Platão? Sócrates? Os Sofistas? Rafael Sanzio? A Pintura? A Filosofia? A História? A Ciência? Ou Averróis? Ou o Papa Júlio II? Ou...? Ou...?
Livro com vários centros e todos se encontram, como no mundo das ondas.
Da filosofia antiga à ciência moderna, passando pela eterna estética, pela eterna poética.
Entramos com Raquel na pintura e não sabemos aonde a viagem nos conduzirá, é muito arriscado entrar em certas pinturas. Que existe do outro lado da tela?
Não é de menosprezar a figura de convite que é a epígrafe, e que dá o tom, pelas palavras de Agostinho:
“Espero que um dia olhemos a serpente e a vejamos oculta; que a Ciência e a Filosofia sejam, no presente, um sonho do passado e que o mesmo aconteça com a Arte e com a Religião.”
Agostinho da Silva
Eu acrescento: Que o mesmo aconteça com a Escola, como Rafael a pinta, como a viveram os atenienses e como continuaram a vivê-la alguns filósofos... portugueses:
“Afastados do ensino oficial, dispensados de compromissos com as normas legais de validação do ensino, [...] os dois amigos [Álvaro Ribeiro e José Marinho] criaram uma escola de filosofia que é certamente das mais notáveis actualizações da livre docência dos grandes mestres atenienses.[...] Unidos pelo amor da sabedoria, mestres e discípulos exercitaram aquela ascese intelectual que José Marinho com propriedade designou de anagogia.”
In: Filosofia Portuguesa para a Educação Nacional, Joaquim Domingues
Acompanhemos então esta cientista também escritora, que perante a arte não se contenta com a sensação ou com a emoção. Experimentemos a sua escrita analítica, poética, rigorosa e elegante.
Na pintura em causa no Conhecimento das Causas, Platão e Aristóteles são, inequívoca, especial e espacialmente, as figuras centrais. As cores e os lugares (ou o não-lugar) para onde apontam, distinguem-nos. Eles são dois dos guias por onde entraremos no labirinto das infinitas possibilidades da arte, “as respostas nunca definitivas”.
A magia dos números compõe o quadro da complexidade: “nesta composição grandiosa (7,7 m de comprimento por 5,5 m de altura)”. O método científico aqui aplicado à arte não afugenta o mistério, não o expulsa, não o queima na fogueira.
Se não o sabíamos, ficamos a amar Rafael, que com onze anos de idade já administrava os conflitos familiares, e aqui estamos nos bastidores da obra antes da obra, as suas fundações.
Este precoce diplomata dos matizes emocionais, filho de mãe chamada Magia, precocemente perdida, é, ao contrário dos costumes da época, alimentado junto ao coração. Como precioso passarinho bebendo o leite alado. Para voar.
Entretanto, cresce. Conhece Leonardo. Admira-o. No afresco espelha, nas feições de Platão, o rosto de Leonardo. Assiste à luta dos titãs Leonardo e Michelangelo. Acaba por ser chamado para Roma, pelo Papa. Um sonho que se concretiza. O sonho do pintor que, sem o desejar, mas por causa do seu talento, foi responsável por o papa ter despedido todos os outros pintores ao seu serviço.
A partir da pintura, a análise aprofundada no espaço, no tempo, nas diversas perspectivas, como já referi: artística, histórica, filosófica, ética, estética, simbólica e mitológica. Ao pormenor. Não para arquivar em gavetas de laboratório, mas para procurar os paradoxos, as possíveis contradições.
Viajar pela Filosofia antiga e pela sua história através de uma pintura, pela mão de uma cientista: encantadora e conseguida ideia neste livro concretizada.
O estilo é vivo e caloroso, como ela própria: “Vazio? Que horror!”
Que longe está a fria antiga pedra científica do laboratório!
A viagem é a Atenas em tempo de outra troika, de onde e da qual recebemos quase tudo, trio amoroso e insuspeito, sábio e não assustador, inquieto, não inquietante, com "Sócrates, o «Sábio», Platão, o «Mestre», e Aristóteles, o «Professor» [..] membros desta ilustre trindade".
Afinal não é troika, segundo Raquel é Trindade (a maiúscula é minha, a cientista não me perdoaria a corrupção) e é fácil encontrá-la: na "Escola" de Rafael. O guia da visita é o extraordinário livro de Raquel Gonçalves-Maia, guia ciencioartística da intemporalidade.
Da minha parte, tudo aqui ficou por dizer: por incapacidade e propósito. Só há um remédio, colocar sobre cada mesa de cabeceira este livro de Raquel sobre Rafael e a história da Filosofia clássica, que é berço da nossa, embora não obrigatoriamente “condição” ou “destino” (sobre isto recomendo muito a leitura de O Céu e o Quadrante, de Pedro Martins,) e adormecermos todas as noites embalados pela Escola de Atenas. A sonhar com a Nossa. Aquela que, levantando-se da sombra, ainda se encontra semi-oculta, mas brilhou, por momentos, na Universidade de Leonardo Coimbra e nas tertúlias: selva, casas, montanha, naus, ruas e cafés. Com ele próprio, Leonardo, com Sampaio Bruno, com Álvaro Ribeiro, com Pascoaes, com Fernando Pessoa, com Agostinho da Silva, com José Marinho, com Delfim Santos, com António Quadros, com Afonso Boelho, com António Telmo, e outros, e outros...
Falta-nos Rafael, ou um pintor como ele, que os junte e os ponha a falar para nós ouvirmos, que projecte o som através dos tempos a ponto de ser ouvido por uma cientista apaixonada por história, filosofia e arte e que sobre eles escreva e transcreva, com tecnologia de ponta, os diálogos que tiveram e até mesmo os pensamentos que repeliram.
Um pintor inspirado e documental que pinte a Escola de Lisboa, a do Porto, a de Brasília, a de Sesimbra, a de Estremoz... E que, como Rafael e Raquel, lhes dê movimento e som.
Neste livro-altar em templo de arte, realiza-se casamento e diálogo de duas histórias: a da Filosofia e a da Ciência, bem como a influência espiritual exercida pelos professores, estes sábios na antiguidade. Essa influência espirital dos professores está igualmente patente numa página de Joaquim Domingues a propósito de Álvaro Ribeiro (a já acima citada Filosofia Portuguesa para a Educação Nacional), evocando o importante mestrado e convívio do mestre (Leonardo Coimbra) com o discípulo (Álvaro Ribeiro), depois tornado mestre de mestres.
Cito:
“[...] como as formas superiores de docência se distinguem do que habitualmente se pensa da relação professor-aluno, aproximando Leonardo dos mestres atenienses [...]” (sublinhado meu).
E retomo a citação:
“Sem cair em fáceis antinomias, opondo o que é complexo, há-de entender-se aqui como mestre o que abre a inteligência para níveis superiores de compreensão, numa relação que envolve uma dimensão sagrada, sacerdotal ou secreta: «O mestre é senhor de segredos que só revelará aos iniciandos e iniciados. Situado no seu quadro sacerdotal, Pitágoras figura evidentemente como o precursor de Platão, filósofo capaz de ver para além do visível.»
Assim, os mestres da Renascença Portuguesa reactualizaram uma tradição interrompida ou esquecida desde há muito, como defende Dalila Pereira da Costa.”
Diz ainda Joaquim Domingues, a propósito de Álvaro Ribeiro (que é, segundo António Telmo, o formador da Filosofia Portuguesa - de Sampaio Bruno teria vindo a emanação, para Pedro Martins, fundação, e de Leonardo Coimbra a criação): “acima de tudo, foram as tertúlias filosóficas que lhe ofereceram a cátedra mais eficaz e fecunda.”
É a tertúlia filosófica que Raquel mostra e que aprendemos dos gregos, que tem sustentado a Filosofia Portuguesa, quase sempre à margem da Academia, sempre à margem das instituições que conferem prestígio a peso. Mas com bicho, prestígio rapidamente deteriorável. Não é o caso da Escola de Atenas. Não é o caso da Escola da Filosofia Portuguesa.
A passagem do texto de Raquel Gonçalves que usei como epígrafe a esta minha recensão, nivelando os intelectuais, no afresco, abaixo do nível dos poetas, foi o motor que me levou a estabelecer o paralelo entre a Escola de Atenas e a Escola da Filosofia Portugesa. É que a Escola da Filosofia Portuguesa, que convém distinguir de Escola Portuguesa de Filosofia, e que não se pode separar do estudo da Língua, da Poesia e da Gramática, nasce com um rei poeta, o maior dos primeiros, o mesmo e o primeiro que fixou a língua para além da fala. Com este rei, a sua medida administrativa e sua poesia, nasce a nossa tradição filosófica e poética da saudade. Isto está magnificamente demonstrado por Pedro Martins, no livro já acima referido, O Céu e o Quadrante, em que explica de que forma a Filosofia Portuguesa reune a Poética e o Pensamento num abraço saudoso e profundo. Os poetas não estão, neste caso, abaixo dos intelectuais. Abraçam-se.
O caminho que aqui nos conduziu chama-se O Conhecimento das Causas e está, definitivamente, em lugar nobre na minha estante. É incontornável para quem pretenda conhecer ou esclarecer-se sobre “as correntes filosóficas” e os “avanços científicos” na “Antiguidade, mas também no período Medieval e Renascentista”.
E o que me levou a reunir o livro de Raquel Gonçalves e “A Escola da Filosofia Portuguesa” num mesmo texto é esta mesma sensibilidade à tradição do pensamento que pode encontrar-se inequivocamente no seu livro e inequivocamente nos Filósofos Portugueses que aqui referi, nomeadamente, num pequeno grande livro de Álvaro Ribeiro que recomendo (com sorte talvez consigam encontrá-lo em algum alfarrabista): O Problema da Filosofia Portuguesa: “não é de filosofia em Portugal, mas de Filosofia Portuguesa que a nossa cultura verdadeiramente carece; [...] Tudo depende [...] de recomeçar uma tradição [...] que venha a formular, em sistema ou sistemas, a filosofia própria da fisinomia nacional.”
Já terminara a escrita desta recensão ou testemunho da reflexão da minha alma, quando, relendo o que escrevera, um raio de sol da meia-noite me soprou ao ouvido a lembrança de que António Telmo, uma das mais eloquentes e recentes vozes da Filosofia Portuguesa, afirma, em Filosofia e Kabbalah, que em Aidós ou no Hades, a sombra de Platão e Aristóteles reflete a imagem pintada por Rafael. Atrás deste fio de luz veio a minha memória, a lembrança vaga do conto “No Hades” inserido no livro acima referido, onde, estimulado por Tomé Natanael, o protagonista chega a subir os quatro degraus que lhe permitiriam ver e ouvir, no que parecia ser uma imagem bidimensional, o movimento, as falas, a vida tal como a conhecemos.
É a essa mesma vida que Raquel Gonçalves, pelo método científico temperado de Graça, acede e nos convida.
Já era tarde qando concluí este texto, que seria (será e foi) o meu humilde e agradecido presente de aniversário para minha amiga e admirada Raquel, mas o bichinho já tinha entrado, estava instalado e não resisti a ir lá, a António Telmo, apresentar-lhe Raquel. E vice-versa. Ouçamos, então, António Telmo, em diálogo com Raquel Gonçalves, que ainda a noite é uma criança.
Aqui vos apresento Filosofia Portuguesa e Ciência em diálogo, no seu melhor, no seu nível mais alto, unidas pela Ética e pela Poética, diálogo santo entre o Hades e o Gerês:
Começa Telmo:
“Não ouvíamos o que diziam [Platão e Aristóteles] porque nada diziam que se ouvisse cá em baixo. [...] pela disposição desses livros e pela disposição das mãos que as duas sombras estavam uma para a outra na exacta relação ritual do esquadro e do compasso. [...]
O que ali me aparecia era o símbolo do perfeito entendimento entre os dois filósofos. Eles conduziam e projectavam na nossa direcção a mesma energia urânica, um recebendo-a, pelo dedo em ponta, na mão fechada e passando-a para o outro que a dirige para nós pelos dedos separados da mão de palma voltada para a terra. Os olhos nos olhos concentram num único ponto o foco interior dessa energia. [...] Procurava as ocasiões em que havia clientes na loja para me pôr diante das imagens dos dois filósofos, como se, de um momento para o outro, os pudesse ouvir falar. Tinha, porém, a certeza íntima que isso só aconteceria se conseguisse lançar-me fora de mim e subir aqueles quatro degraus. Enquanto o não fizesse, permaneceriam indiferentes ao meu desejo, mudos e imóveis até à eternidade. [...]”
«Olhe agora no intervalo, olhe através dele. O que vê?»
O famoso pormenor do fresco de Rafael com os dois filósofos estava na parede do fundo. Como era possível que ainda não tivesse reparado nisso? Mas logo que baixei o braço para continuar a vê-lo, apareceu-me o fundo da sala envolto numa espessa obscuridade, [...]
«Não pense que teve uma visão. A pintura está lá, isto é, uma reprodução a cores. A sua percepção tornou-se mais subtil. É só isso! Venha ver!»
De facto, na parede do fundo lá estava um quadro reproduzindo o pormenor do fresco com os dois filósofos. [...]
«Tomando à letra o que você me diz, não nos devemos admirar se, a nosso rogo, Platão nos entregar o seu Timeu ou Aristóteles as suas Categorias. Estou-me a ver a levá-los para casa, a folheá-los na minha secretária.»
Tomé Natanael ficou muito sério.
«Observe bem a pintura.» [...] Se estudar as categorias e souber estabelecer as suas exactas relações, poderá determinar a estrutura oculta da composição de Rafael. Conhecerá o que são os quatro degraus, as duas colunas humanas, o pórtico. De nada vale bater à porta da vida sem bater ao mesmo tempo à porta do espírito. [...]
Tomé Natanael, depois de ter lido os apontamentos, não disse uma palavra. Encaminhou-me pelo braço até ao fundo da loja, acendeu a lâmpada e ficou, comigo ao lado, a contemplar o quadro de Rafael durante alguns minutos. Era-me impossível romper aquele silêncio. Imitei automaticamente com o meu a postura do seu corpo. Quem entrasse pela porta ver-nos-ia aos dois, nas nossas roupas cinzentas, direitos e de braços pendentes, como dois candelabros de estanho. Eu sentia aquele momento como uma espécie de oração silenciosa [...]
Somente por uma demorada acção sobre si próprio no domínio da imaginação poética é possível ao homem adquirir a virtude régia que lhe permita passar o grande abismo [...]”
“No Hades”, in Filosofia e Kabbalah, António Telmo
Responde Raquel:
“as expressões das figuras [...] deixam transparecer o seu carácter psicológico. Rafael notabilizou de forma sulime o conhecimento natural do mundo, isto é, o conhecimento dos homens. [...] estamos perante uma cena de teatro duma narrativa em movimento [...] Quase podemos adivinhar os diálogos entre os elementos de cada grupo, quiçá neles participar, ou, simplesmente, atinar com os pensamentos que afetam os homens isolados. Por que corre uma das personagens para o palco, entrando à esquerda com um rolo e dois livros debaixo do braço? Por que se egueira outra, à direita, em passo apressado na mesma linha horizontal? Serão elas imagens do tempo com passado, com futuro e com presente fugaz? [...] Perto de nós, o múltiplo quadriculado do chão de “A Escola de Atenas”, símbolo da Terra, antítese do transcendente, bem pode resumir a captação do instante do homem encarnado.
[...] é bem possível que Rafael Sanzio [...] acreditasse que o curso da humanidade estivesse inscrito, desde o início dos tempos, num plano secreto e arquitectado por Deus, e que o conhecimento pesquisado pelo homem fosse alcançado por inspiração divina. ‘A Escola de Atenas’ foi o seu meio grandioso e encantador de mostrar ao mundo a descoberta do homem.
[...] a ideia subjacente à construção do afresco tem uma importância excepcional. O legado da Grécia e de Roma para a cultura ocidental flosófica e científica merecia, é um facto, uma homenagem desta dimensão. A ‘leitura’ da magnífica obra de Rafael Sanzio é fascinante. Que importa que o século XII espreite sobre o ombro do século VI a.C., se aquele mais deseja aprender sobre a perfeição dos números melódicos? Nada de intrigante que uma acesa discussão, reveladora do Universo e da Terra, tenha lugar entre um mancebo do século VII a.C e outro do século II¸ e para mais, atentamente escutada por pintores renascentistas...”
Causarum Cognitio, O Conhecimento das Causas; Raquel Gonçalves-Maia
O que aqui me apareceu foi “o símbolo do perfeito entendimento” entre um filósofo e uma cientista.
“Nada de intrigante” que o filósofo tenha partido em 2010 para o Hades ou para uma planície ou montanha de luz e a cientista esteja hoje a festejar, provavelmente no Gerês ou em Braga, o seu felicíssimo aniversário, em plena era de abençoada criação e vitalidade, a prometer mais, muito mais, como há anos, ininterruptamente, lhe conheço.
Paz na Terra e Glória nos Céus aos Seres de uma Escola ou Academia de Boa Vontade e Amor pela Verdade. Na interrogação e no espanto.
UNIVERSO TÉLMICO. 27
12-08-2015 12:33De Brasília, o Professor JOÃO FERREIRA dá-nos conta, com preocupação, de um retrato histórico de Agostinho da Silva que tem resistido às intempéries da invernia austral na capital brasileira, e que se encontra num poster precário exposto ao ar livre num espaço existente entre o prédio do Minhocão e a Biblioteca Central da Universidade de Brasília. Mas o privilégio desta sua nota percorre ainda outras memórias do círculo candango de Agostinho, através de uma foto-reportagem realizada em Julho de 2015, por sua neta AMANDA EHRHARDT FERREIRA, estudante universitária brasileira, do Instituto de Arte da UnB.

Uma foto histórica ameaçada
João Ferreira
Esta fotografia do retrato de Agostinho da Silva foi realizada em julho de 2015 pela estudante universitária brasileira, Amanda Ehrhardt Ferreira de Castro, do Instituto de Arte da UnB.
O retrato encontra-se num pôster precário exposto ao ar livre num espaço existente entre o prédio do Minhocão e a Biblioteca Central da Universidade de Brasília. Como é possível imaginar, o pôster é feito de materiais precários e torna-se extremamente frágil por isso.
Quase por milagre, o retrato de Agostinho da Silva resistiu até agora aos invernos e intempéries que a Natureza descarregou sobre o Campus da UnB. Mas suas permanência está ameaçada.
Faz parte de uma exposição ao ar livre, quase uma galeria informal, com as quatro figuras consideradas pioneiras, básicas e representativas na história da Universidade selecionadas em 2012 por ocasião da celebração dos cinquenta anos da fundação da Universidade de Brasília.
Desse quadrumvirato nobre faziam parte:
Darcy Ribeiro (1922-1997), fundador e primeiro Reitor da Universidade de Brasília.
Anísio Teixeira (1900-19710, um dos pioneiros da Educação Nova no Brasil, autor do projeto pedagógicos da Universidade de Brasília, fundador do INEP.
Agostinho da Silva (1906-1994), um dos fundadores da Universidade de Brasília, assessor do Presidente Jânio Quadros para assuntos africanos, fundador e primeiro Coordenador do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses e um dos primeiros teóricos e defensores da Lusofonia.
Teodoro Freire (1920-2012), grande figura da cultura popular brasileira, organizador do grupo folclórico Bumba meu Boi e do Tambor da Crioula, funcionário do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses e amigo de Agostinho que o ajudou a se projetar no meio cultural de Brasília.
De momento dos quatro retratos da galeria inicial só estão de pé dois deles: o pôster com a figura de Agostinho da Silva e o pôster com a figura de Anísio Teixeira.
A desproteção oficial da Universidade dada à galeria soma-se ao rigor do tempo que tem suas regras de impiedade e desgaste.
Nota redigida em 6 de agosto de 2015



[Nesta foto, João Ferreira encontra-se junto do local onde estava situado o CEC (Centro de Estudos Clássicos) dirigido por Eudoro de Sousa e onde trabalhou com António Telmo. Conta-nos João Ferreira: Entrei no subsolo do prédio que mostra a foto com grades para "rever" o espaço. Mas não há vestígios do passado... a utilização que foi feita posteriormente através de reformas e adaptações transformou tudo para servir ao padrão das necessidades da Faculdade de Educação que é a nova proprietária do espaço. No tempo do funcionamento do CEC, em 1968, por exemplo, quando cheguei a Brasília, a parte de cima era ocupada apela Reitoria e no subsolo, descendo as escadas funcionava o CEC, com saleta do Coordenador, sala administrativa para o Secretariado do Centro, postos para professores e pesquisadores e espaço para o acervo da Biblioteca. Hoje não há mais vestígios de nada. Tudo é outra coisa... ]

VOZ PASSIVA. 58
23-07-2015 14:36Os escritores António Telmo e António Quadros e um bolsista do Brasil – 2
Carlos Francisco Moura
Ler aqui a primeira parte:https://antonio-telmo-vida-e-obra.webnode.pt/news/voz-passiva-54/

[“Árvore chamada Jenipapeira e gente que pede esmola para a Festa do Espírito Santo Diamantino da Província de Mato Grosso. Janeiro, 1828. Hercules Florence.” A Expedição Langsdorff em Mato Grosso: desenhos e pinturas inéditos há 150 anos]
Por indicação do Antonio Telmo fui procurar o Escritor Antonio Quadros, Diretor da Bibliotecas Itinerantes da fundação Calouste Gulbenkian.
- A quem devo anunciar?
- Um bolsista do Brasil.
António Quadros recebeu-me com a maior simpatia:
- É sempre com alegria que recebemos estudantes do Brasil que vêm estudar suas origens.
Mais satisfeito ficou ainda ao saber que trabalhava com Mestre Agostinho da Silva, e era amigo do António Telmo.
Expus o problema que estava tendo com a demora da concessão da bolsa e, por sugestão do Antonio Telmo, vinha propor a venda de exemplares da separata “Nagasáki, Cidade Portuguesa do Japão”, artigo publicado na Revista Stvdia, do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, primeiro estudo publicado em Portugal
sobre a fundação da famosa cidade do Japão.
Antonio Quadros gostou muito do estudo, e comprou logo um bom número de separatas para as Bibliotecas Itinerantes..
Perguntou de que região de Portugal era minha família, e ao saber que da região de Coimbra, Província da Beira Litoral, chamou um senhor que estava trabalhando numa sala próxima:
- Branquinho, quero apresentar-lhe o Carlos Moura, que veio do Brasil fazer investigações históricas. A Família dele também é da sua região. Conte para nós uma daquelas suas histórias das montanhas da Beira.
Era o escritor Branquinho da Fonseca, que relatou, diante de nós um dos seus famosos contos: A Capela do Diabo. Uma experiência única: ouvir de viva voz de um grande autor, um conto antológico.
Não devo a António Quadros apenas a compra de separatas. Ao se despedir de mim, ele recomendou – O estudo sobre a fundação de Nagasáki é muito interessante, sugiro que procure o Prof. Artur Anselmo: ele coordena verbetes para o Dicionário da História de Portugal, de Joel Serrão.
Fui falar com o Prof. Artur Anselmo, e ele encomendou-me a redação do verbete Nagasaqui, para o Dicionário de Joel Serrão, e também conseguiu que escrevesse outro verbete Nagasáqui para a Enciclopédia Verbo. Os verbetes, posteriormente, saíram também nas segundas edições dessas obras. Assim, eu, recém-chegado do Brasil, sem conhecer quase ninguém da área acadêmica em Portugal, graças às indicações dos Professores Antonio Telmo, António Quadros e Artur Anselmo, em
pouquíssimo tempo tive textos de minha autoria publicados em obras de referência em Portugal. Encontrei-me com o Prof. Antonio Quadros outras vezes em Portugal, em conferências e eventos culturais. De volta ao Brasil, mantive correspondência com ele. Quando ele vinha ao Rio, ficava geralmente num hotel em Copacabana, na Av. Princesa Isabel. E telefonava-me: - Carlos Moura estou por apenas dois dias no Rio, pois sigo logo para S. Paulo e Brasília. Se você tiver tempo e puder passar pelo hotel, gostaria de saber o que anda estudando.
Num desses encontros ocorreu um fato singular.
- Vou fazer uma surpresa ao Professor: oferecer-lhe exemplar do meu livro que acaba de ser publicado: A Expedição Langsdorff em Mato Grosso: Desenhos e Pinturas inéditos há mais de 150 anos.
Cumprimentou-me pela publicação e ao abrir o livro uma surpresa ainda maior: a primeira página que apareceu foi a de número 58, que continha a reprodução de uma aquarela a cores intitulada “Árvore chamada Jenipapeira e gente que pede esmola para a Festa do Espírito Santo”, datada e assinada pelo autor “Diamantino da Província de Mato Grosso, janeiro, 1828 Hercules Florence”.
Uma surpresa e uma coincidência enorme, por ser o Prof. António Quadros estudioso da Festa do Espírito Santo, e abrir o livro justamente nessa página.
Basta lembrar dois estudos primorosos que publicou: Portugal Razão e Mistério: Introdução ao Portugal arquétipo – A Atlântida desocultada – o País Templário – Livro I Uma Arqueologia da Tradição Portuguesa (Lisboa: Guimarães Editores Lda, 1986) e Portugal Razão e Mistério, II – O Projeto Áureo ou o Império do
Espírito Santo, 2ª Edição (Lisboa: Guimarães Editores, 1987).
BIBLIOGRAFIA
“Nagasaki, Cidade Portuguesa no Japão”. In: Revista Stvdia, nº 26, Lisboa: Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, abr.1969, PP.115-148, Il.
“Nagasáqui” In Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, 1ª. Edição, Lisboa: Iniciativas Editorias, 1971, PP. 448-449.
“Nagasáqui” In: Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 1ª. ed., vol. 13º. Lisboa: Ed. Verbo,1972, p. 1661.
“Nagasaki cidade portuguesa do Japão”, In: Boletim do Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, no. 1, Macau, China, Julho 1988, 18 p.
“Nagasáqui” In Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, 2ª. Edição, Porto: Livraria Figueirinha, 1984, pp. 448-449.
“Nagasáqui” In: Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura Edição Século XXI, vol. 20. Lisboa / São Paulo: Editorial Verbo, 2001, pp. 1004-1005.
A Expedição Langsdorff em Mato Grosso: Desenhos e pinturas Inéditos há mais de 150 anos. Rio dde Janeiro: Universidade Federal de Mato Gosso / Editora Imprinta, 1984.
VOZ PASSIVA. 57
20-07-2015 13:50
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Apresentação do livro
UM ANTÓNIO TELMO – MARRANISMO, KABBALAH E MAÇONARIA
Pedro MARTINS, 2015, Col.‘Tomé Nathanael - Estudos sobre António Telmo’, Ed. Zéfiro, Sintra
Rui Arimateia
Estremoz, 20 de Junho de 2015
Notas introdutórias
Diz-nos Daniel Serrão que:
“O futuro do Homem é viver num Universo colectivo de inteligências comunicantes onde não haverá nem mestres que ensinem, nem discípulos que aprendam. Todos aprenderão com todos.”
A frase anterior poderia constituir uma das ideias-força do pensamento não só de António Telmo mas também de Agostinho da Silva e de toda uma plêiade de escritores e de pensadores que honram com os seus trabalhos e reflexões a língua e a filosofia portuguesas, e onde poderemos adivinhar, latente, a famosa tríade da Revolução Francesa e adoptada pela Franco-Maçonaria: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
António Telmo, foi de facto um homem livre e de livre pensamento ao serviço da Obra!
*
* *
Digo desde já que este não foi para mim um livro de fácil leitura, tive necessidade de recorrer aos dicionários e a trabalhar alguns conceitos filosóficos e teológicos menos comuns mas fundamentais para a abordagem e para a possível compreensão da obra télmica. Por outro lado, são citados neste livro de Pedro Martins, como importantes para o entendimento das múltiplas facetas abordadas de António Telmo, nada mais nada menos do que 118 autores, muitos deles de conhecimento e leitura obrigatórios para uma profunda compreensão do texto e das ilações retiradas dos escritos de António Telmo.
O trabalho de Pedro Martins agora publicado, que trata, no fundo, de uma proposta de desocultação da Obra de António Telmo, fez-me reflectir sobre a forma de a olhar que necessariamente será semelhante mas simultaneamente diferente da forma de olhar de outro sobre a mesma Obra. Perante a mesma substância temos miríades de formas de a olhar, de a compreender. É esta a riqueza do legado filosófico de Telmo. A liberdade que nos dá para até ele chegarmos e a surpresa que eventualmente possamos experimentar quando constatarmos que no final da Obra estaremos todos de mãos dadas, tal Cadeia de União Simbólica, porque a sua finalidade última, penso eu, será o Encontro com a Unidade e a Unicidade da Vida e a certeza de que a Vida vencerá a Morte!
Assim, olhando com “olhos de ver” a obra de António Telmo, intuímos que se encontra “contaminada” com a tríade filosófica atrás referida – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – que imediatamente nos coloca num registo de compreensão enquadrada numa “Escola de Pensamento” cujo fio condutor nos leva pelo menos até aos antigos Mistérios da Filosofia Perene da Idade Média, de Roma e da Grécia… a Escola Universal dos Livres Pensadores Franco Maçons.
Contudo, metodologicamente teremos de encontrar outras ferramentas de abordagem que nos permitam uma compreensão mais profunda – e dentro de cada um de nós – das mensagens que António Telmo intuiu e nos tentou transmitir. No fundo cabe a cada um de nós encontrar uma chave simbólica que consiga penetrar na fechadura dos mistérios télmicos, desocultando a Sageza aí latente.
Uma dessas abordagens é a poética. Só a poesia entra em esferas inatingíveis para os estados normais e normalizados de vigília (ou adormecimento?). Só a poesia é detentora de uma linguagem que permite uma comunicação com o Todo e com o Uno, e a linguagem de Telmo é de facto uma totalidade que nos envolve, que nos penetra nos nossos poros, que nos alimenta como uma Mãe – como uma Tellus Mater...
Outra abordagem possível será a analógica. Talvez porque só analogicamente, só pesando no nosso mais íntimo Ser, realidades diferentes nós possamos ter consciência de todo o processo histórico, mítico e humano e da transmissão dos Mistérios através dos séculos e das diferentes Culturas.
Ainda uma outra abordagem será a imaginária. A imaginação criadora (realidade filosófica tão querida do nosso António Telmo) realiza milagres, pequeninos milagres (haverá outros?) tais como: o desabrochar do significado oculto de uma palavra... o sorriso envergonhado de uma metáfora que se debruça e nos espreita do fundo de um texto... aquele conceito lá muito no profundo poço do nosso subconsciente que nos devolve a nossa imagem refletida... a sombra e as contra-sombras de um texto mais esotérico... um grito latente de desespero ou de alegria... uma palavra que adivinhamos... o harmonioso cântico da Vida e do seu Mistério...
Agarremos então nestas (e porque não noutras que possamos inventar?...) ferramentas de “observação”, de “escuta” e de “exegese simbólica” e partamos em demanda das profundezas Télmicas. Veremos que talvez se entreabra a porta do coração, do nosso coração, para as sentir, para as intuir, para as olhar, para as ver e compreender no mais íntimo do nosso Ser.
Diz-nos António Telmo, na sua História Secreta de Portugal, que estamos “num mundo onde a presença do mistério impõe que nada se possa realmente saber fora dos termos desse mistério. Assim, os mais lúcidos e imprudentes não desistiam de procurar a palavra perdida da Sabedoria.”
*
* *
Breves reflexões sobre o livro
Do Texto introdutório[p. 11]
Abre este livro com um notável excerto de Álvaro Ribeiro [in “A Literatura de José Régio”], que nos apresenta uma brevíssima mas muito clara caracterização cultural do povo judeu, remetendo para o livro de Sampaio Bruno, “O Encoberto”, onde este autor refere que a principal causa da decadência dos povos peninsulares resultou como consequência da expulsão dos judeus no século XV…, ainda no reinado de D. Manuel.
Matéria interessantíssima para pesquisa e para reflexão, contudo fora do âmbito dos ensinos oficiais dos poderes dinasticamente instituídos, antes e após o 25 de Abril de 1974.
*
* *
Do Prefácio, por António Carlos Carvalho [pp. 13-18]
“Quem foi, quem é António Telmo? Partiu há quase cinco anos, deixando-nos uma saudade imensa, um vazio que nunca conseguiremos preencher, uma vasta obra por decifrar, um exemplo de filósofo errante e exilado na sua própria terra, como sempre acontece neste País envolto em brumas de inveja. Mas desde então a sua ausência física tornou-se presença constante entre aqueles que o conheceram e os que o vão descobrindo nas páginas que publicou. (…) foi alguém que buscou precisamente a luz e soube transmitir as suas centelhas nas reflexões que nos legou. (…).”[p.14]
Explicação [pp. 19-26]
Com este pequeno capítulo introdutório à obra agora analisada pretenderá Pedro Martins, muito sinteticamente, problematizar os pontos abordados ao longo do livro. Nomeadamente a condição de marrano em António Telmo que marcou consciente ou inconscientemente a sua obra e a sua vida. Mais do que um sincretismo religioso, assumido por António Telmo, a questão cripto-judaica aparece “resolvida” interiormente mas sintetizada de modo poético, filosófico e vivencial com uma assunção do Cristianismo… mas também do ocultismo Cabalístico e de todo um conjunto de referências teosóficas e maçónicas.
Diz-nos Pedro Martins sobre António Telmo:
“Ímpar pensador do ocultismo entre nós, é pelo lado de dentro que António Telmo opera a conciliação, ali onde o cristão gnóstico e o cabalista judeu subtilmente se concertam pela interioridade harmónica do recôncavo gnósico. A kabbalah de António Telmo é aquela que ressuma das páginas d’O Bateleur: uma síntese portuguesa da kaballah hebraica que remonta a Moisés e da kabbalah cristã que remonta a Cristo.”[p. 20]
São referidos os livros onde António Telmo abordou estes temas, nomeadamente “História Secreta de Portugal”, Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões”, “Congeminações de um Neopitagórico”, “A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete”, “Filosofia e Kabbalah”, “Viagem a Granada”, além de serem igualmente nomeados autores que muito importaram na obra e no pensamento de António Telmo: Álvaro Ribeiro, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, António Quadros, José Marinho, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Agostinho da Silva,Natália Correia, Herberto Helder e ainda Luís António Verney, Pascoal Martins e Luís de Camões.
Teoria do Marranismo
“Tudo em Portugal, se explicará pelo compromisso do consciente cristão com o subconsciente hebraico.”
[in António Telmo, 1989, Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editores, L.da, Lisboa]
Importante a referência à filiação maçónica de António Telmo para a conciliação e harmonização das questões teológicas, tanto judaicas como cristãs.
Podemos então ler na página 35: “(…) A Ordem maçónica intenta conciliar, por via de uma síntese harmonizadora, estes dois aspectos antagónicos do mundo divino, graças ao equilíbrio incessantemente promovido por Schadaï (ou El Schadaï), assimilável, segundo a lição de Benzimra [in Contribution Maçonnique au dialogue entre les religions du Livre – Le grand secret de réconciliation, Paris, Dervy, 2010, p. 160], ao Grande Arquitecto do Universo que os franco-maçons procuram glorificar com o seu trabalho. (…).”
Agostinho da Silva, O Marrano do Divino [pp. 29-90]
Este é o capítulo mais longo da obra em referência em que o autor nos leva, metaforicamente falando, numa viagem com os dois companheiros de vida e de pensamento, António Telmo e Agostinho da Silva, através das concordâncias mas também através das suas dissonâncias conceptuais. Não só em relação às questões e problemáticas ligadas com o marranismo e também a muitas outras que, no fundo, caracterizam as especificidades idiossincráticas de natureza espiritual, filosófica e literária dos dois autores.
Assim, são por Pedro Martins rigorosamente identificadas algumas subtis nuances de pensamento entre os dois filósofos, nomeadamente na assunção da condição de marrano, e mais conceptualmente em assuntos de mor importância para a compreensão dos seus pensamentos e filiações filosóficos.
Por exemplo, poderemos ver a pequena citação de um texto de António Telmo sobre a tecnologia nas sociedades modernas, referindo a posição de Agostinho da Silva sobre a matéria e sobre a evolução das concepções de trabalho e de ócio nas sociedades ideais, bafejadas pelo sopro e inspiração do Espírito Santo:
“Agostinho da Silva vê o perigo. Os computadores podem libertar os humanos do trabalho, mas ao mesmo tempo tornar tudo previsível, como já se começa a ver em meteorologia. Ora sendo o imprevisível manifestação do Espírito Santo, tornar tudo calculável não será como que um esboço do único pecado imperdoável”.[p.38][in António Telmo, A Terra Prometida: Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império, pp. 74-75]
No seguimento deste desencontro entre António Telmo e Agostinho da Silva, refere-nos Pedro Martins, à p. 38:
“(…). Noutro escrito, desta feita uma prancha maçónica, (…), o filósofo, coberto pelo recato secreto e restrito dos adeptos, ao reflectir sobre o mal entrevisto na “aplicação do sistema binário que tornou possível a cibernética” [António Telmo, A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete…, Sintra, Zéfiro,2011, pp. 54-55], pôde afirmar:
“Não é difícil ver para onde isto aceleradamente nos encaminha. A Humanidade degenerará numa vastíssima comunidade de autómatos, obedecendo a comandos electromagnéticos. Todos estarão em linha, mas não haverá, dentro de poucos anos, um único obreiro que possa dizer-se livre. Alguns admiradores da tecnologia, como esse extraordinário homem que foi entre nós Agostinho da Silva, têm pensado que ela nos libertará do trabalho que escraviza, proporcionando-nos o ócio paradisíaco que nos deixará todo o tempo para cultivar a Beleza, a Força e a Sabedoria. Se ele caiu nesse engano, todos nós podemos cair. A época pós-moderna pode aparecer-nos como a idade do Espírito Santo, prometida pelas profecias. Todavia, assim como não devemosconfundir a internet com o Livro da Vida onde o G.A.D.U. tudo regista, também devemos ver que o império do número não é o Quinto Império.”
Outra dissonância muito interessante entre António Telmo e Agostinho da Silva, e que nos põe a reflectir é a concepção que os dois diferentemente possuem do ser-criança. A apresentação desta dissonância por Pedro Martins faz-se através da apresentação de dois textos fundamentais dos dois filósofos compadres:
De António Telmo que deixou escrito um texto inédito intitulado “Infância e Conhecimento”, agora publicado integralmente em livro. Eis um excerto:
“Todos nós nascemos não para sermos os homens que somos; a natureza cria-nos para ser outra coisa; aquilo de que a criança é embrião ou desaparece completamente no homem feito, a que Fernando Pessoa chamou “cadáver adiado”, ou se reclui numa intimidade impenetrável; a educação, não só a do Estado mas também essa, desvia o que noutros tempos constituía o curso inevitável da natureza (a criança é o ser que cresce) e, em lugar de desenvolver esse embrião de poder e conhecimento, faz o pobre ser frágil que é o adulto – poltrão, vaidoso, cuja afirmação de si não é mais estúpido do que o esconder de uma radical insegurança. Ai de quem denunciar essa insegurança!”
Por sua vez, de Agostinho da Silva recorda-nos o seu livro Educação em Portugal [1996, Ed. Ulmeiro, Lisboa, pp. 23-24], “onde a criança ocupa um lugar central na economia do pensamento agostiniano”[p. 42]. Um excerto:
“O ponto fundamental do culto popular do Espírito Santo não é, porém, nem o banquete comum e livre, nem o soltar dos presos, nem a procissão que segue a pomba, no estandarte ou coroa; é a instalação de uma criança como imperador do mundo. No paraíso terrestre que se quer dispensam-se os adultos de todas as funções dirigentes que têm tido até hoje e se declara mais importante que tudo quanto possam ter sido na vida o menino que foram e tão infelizmente morreu, declara-se que todos os Imperadores de qualquer Império declarado Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que uma convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro.”[p.42]
Para Agostinho da Silva – a criança ficará cristalizada, em estado de inocência, gerindo os destinos do Império. Contudo, a inocência, sem uma conscientização trabalhada intimamente, interiorizada através da experiência e da educação, poderá gerar ignorância, insegurança…
Para António Telmo – criança é o ser que cresce, o adulto em devir; a criança, através da educação deverá atingir o estado adulto com uma inofensividade (ahimsa) que a tornará um “príncipe, isto é, um ser que em si tem o seu princípio e do qual o Infante é o seu perfeito símbolo.”
Recordemos o Infante do poema Eros e Psique de Fernando Pessoa:
“(…).
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.”
Inofensividade é um estádio de evolução psicológica e espiritual que acontece após a fase de inocência da criança; é um estádio em que a reflexão e o autoconhecimento constroem um homem novo. Nos contos do maravilhoso, o Príncipe e ou a Princesa, no início da saga encontram-se normalmente num estádio de graça onde a inocência impera! Através das provas físicas e psicológicas, através da experiência perigosa de contacto com o mundo real, vão adquirir força, beleza e sabedoria interiores suficientes para assumirem a transformação/crescimento do Ser e, através da escolha e do livre arbítrio transmutam a inocência (estádio inconsciente) em inofensividade (estádio consciente). O autoconhecimento tem aqui um papel fundamental.
Não resisto a apresentar o “poema de infância” da autoria de Maria Beatriz Serpa Branco, em casa de quem tive o prazer de conhecer o António Telmo nos inícios dos anos 80 do século passado, do seu livro de poemas “A face e as sombras” [Colecção Daimon, Evora, 1959]:
“como deuses vivendo-se em disfarce
deuses de velhos mitos as crianças
descem do horizonte da distância
e vêm por um dia
a habitar nossa vileza
como deuses mendigos as crianças
vêm a provocar nossa riqueza
pedindo em sabedoria
as migalhas de saber
da nossa mesa vazia”
De Telmo a Herberto, Os Passos em Volta: Notas para uma Propedêutica do Agnosticismo Marrano[pp. 91-105]
Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira, nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família judaica. Conviveu literariamente, em Lisboa, com o grupo do Café Gelo de que faziam parte nomes como os de Mário Cesariny, Luís Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Em 1958 publica o seu primeiro livro: O Amor em Visita.
Pedro Martins faz-nos uma brilhante proposta de uma desocultação sobre as condições marrânica e cabalística, tendo como objecto de estudo o livro de contos publicado em 1963 (ano em que António Telmo publica o seu primeiro livro – Arte Poética) por Herberto Helder, Os Passos em Volta, estabelecendo uma comparação do conteúdo dos diferentes contos com a obra e a evolução do pensamento de António Telmo, tendo sempre subjacente leituras de um sentir interior judaizante e cabalístico. É obrigatório ler o livro de contos de Herberto Helder, considerado uma espécie de autobiografia do poeta. Contos marcados por uma estética surrealista, em que faz passar conteúdos literários marcados pela inquietação e inteligência (como dizem Pedro Martins e António Telmo: “os dois grandes indícios judaizantes” dos cripto-judeus, dos marranos…), pela morte, pelo agnosticismo, pela prostituição “sagrada”, pela demanda errática, pela experiência psicologicamente subterrânea de vida. No final do capítulo, Pedro Martins sugere-nos a leitura de um excerto do conto “Holanda”, em que o poeta fala de si:
“Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela lucidez, estiolar de excessiva inteligência no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo subtil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato.”[p.104]
Pensamento Pós-Atlântico[pp. 109-142]
Os ensaios apresentados por Pedro Martins inseridos no capítulo Pensamento Pós-Atlântico, abordando o encontro entre António Telmo, António Quadros e Teixeira de Pascoaes, pretendem “mostrar que a kabbalah, em António Telmo, se constitui como um regresso à terra e a terra – a uma terra firme, mas vivificada pela descensão das energias espirituais (…). Mais do que o marrano está aqui em causa o kabbalista (…).”
Hermenêutica Camonina [pp. 145-182]
Diz-nos Pedro Martins que:
“A Hermenêutica Camonina, tema central do pensamento télmico onde o marranismo, o cabalismo e o maçonismo naturalmente afluem, autonomiza e domina a terceira parte do livro, em que a conversação do filósofo com o poeta ora se firma de um modo directo, ora se estabelece pela interposta pessoa de Verney.”[p. 24]
Verney que não conseguiu ou não quis penetrar nas profundidades da poesia e do pensamento do fiel-de-amor que foi Luís de Camões, principalmente através das mensagens cifradas na sua obra-prima “Os Lusíadas” e que António Telmo tão bem intuiu e apresentou nas suas reflexões ao longo de toda a sua vida literária e filosófica.
As palavras de António Telmo mais uma vez elucidam, recorrendo ao seu mentor:
«(…).
Álvaro Ribeiro dá em A Razão Animada o preceito central de hermenêutica: “A leitura de escritos que versem acerca dos problemas humanos, dos segredos naturais e dos mistérios divinos só é útil na medida em que o leitor pratique a autognose.”
(…).
“Conhecer-se a si próprio é, efectivamente, conhecer-se como espírito. A energia primordial que assim é dada à consciência não deve, porém, ser confundida com o pensamento, segundo o erro de Descartes, nem com os princípios da lógica escolar, segundo o erro de Hegel.”
Todavia:
“Ao conhecer-se a si próprio, gnosicamente, o homem adquire a certeza que pensa e raciocina para se relacionar com o espírito universal…”
(…).»[in António Telmo, 1989, Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editores, Lisboa, pp. 99-100].
Da Inveja, essa hiena da alma [pp.183-199]
Remeto mais uma vez para as palavras de Pedro Martins:
“Na última parte, Da Inveja, essa hiena da alma de que nos fala Telmo, surgem dois dos mais altos espíritos portugueses do século que passou, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa. Irmanados na morte, pois que a ambos os levou a Parca em pouco mais de um mês, nessa dobra fatídica do calendário de 35 para 36, ei-los também irmanados em vida pelo génio cintilante da palavra que os faz sofrer as agruras da invídia, o desencanto da I República e o embate agreste do Estado Novo. (…).
(…). A inveja, que matou Mestre Hiram, é simplesmente o não querer ver, trate-se da verdade do amor ou da verdade da razão…”
Mais uma vez a palavra a António Telmo:
«(…). Todos somos filhos da Inquisição. Os nossos antepassados transmitiram-nos pelo sangue o medo e, mais do que o medo, a censura automática a tudo quanto seja menos certinho, a qualquer desvio da norma geral, em suma, à afirmação de uma personalidade original. Na aliança do medo e da autocensura emerge a inveja, essa hiena da alma.» [pp. 95-96]
[in “Marranos”, 2014, António Telmo, A Terra Prometida – Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império, Col. ‘Obras Completas de António Telmo’, Vol. I, Edições Zéfiro, Sintra.]
Conclusão e Agradecimentos
Uma palavra de agradecimento a Pedro Martins pelo desafio proposto e a todos os Amigos e Amigas do Projecto António Telmo. Enquanto se trabalhar e pensar a Obra de Telmo este estará vivo e presente entre nós, continuando a sua excelsa obra hermenêutica e de desocultação da língua, da cultura e do génio português.
Obra labiríntica esta a de Pedro Martins, mas também labiríntica se poderá considerar a Obra de António Telmo. Contudo, simbólica e mistéricamente, o Labirinto foi feito para chegarmos sempre ao Centro. A questão de encontrarmos ou não o Minotauro no Caminho para o Centro e a questão de o dominarmos ou não durante a nossa Demanda é outra conversa! A natureza do Minotauro confunde-se com a nossa própria natureza e a escolha é única e exclusivamente nossa, e como na fábula: teremos de decidir se alimentamos o lobo mau ou o lobo bom...
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PEDRO MARTINS - NOTA BIOGRÁFICA
Pedro Martins nasceu em Lisboa em 22 de Janeiro de 1971. Jurista e advogado, licenciou-se em 1993, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Pós-graduou-se em Sociologia do Sagrado e do Pensamento Religioso, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa. Vive há muito em Sesimbra. Ali ou em Estremoz, conviveu uma década bem contada com António Telmo, de quem é um continuador. É autor dos livros O Anjo e a Sombra: Teixeira de Pascoaes e a Filosofia Portuguesa (2007); O Céu e o Quadrante: desocultação de Álvaro Ribeiro (2008); O Segredo do Grão Vasco: de Coimbra a Viseu, o 515 de Dante (2011); Teoria Nova da Saudade (2013); Agostinho da Silva em Sesimbra (em colaboração com António Reis Marques, 2014); e Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo (em colaboração com João Ferreira e Rui Lopo, 2014). Tem colaboração nas revistas A Ideia, Devir, Invenire, Callipole, Nova Águia, Teoremas de Filosofia e Cadernos de Filosofia Extravagante, de que foi coordenador entre 2009 e 2013. Membro fundador do Projecto António Telmo. Vida e Obra, integra a coordenação editorial das Obras Completas de António Telmo, em curso de publicação na Zéfiro. Integra a equipa de investigadores do projecto “Redenção e Escatalogia no Pensamento Português”, da Universidade Católica Portuguesa, onde irá colaborar com artigos sobre Grão Vasco, Jaime Cortesão e António Telmo.
CORRESPONDÊNCIA. 26
14-07-2015 12:29UMA CARTA INÉDITA DE ANTÓNIO QUADROS PARA ANTÓNIO TELMO (NO 92.º ANIVERSÁRIO DO AUTOR DE PORTUGAL, RAZÃO E MISTÉRIO)

Lisboa
12.2.87
Meu caro António Telmo:
Agradeço-lhe a sua carta, sobretudo porque é bom reflectir um pouco em diálogo com uma pessoa como você.
Duas palavras, a principiar, acerca das ideias do centro e da revista. Depois dos meus almoços, trocas de impressões, etc., estou francamente desanimado quanto a tais possibilidades, pois verifico que os discípulos estão ainda mais divididos, ora por razões de pensamento, ora por causas pessoais, de que imaginava.
Seria necessário da minha parte um enorme esforço e para isso seria preciso colocar entre parêntesis os projectos de obras que tenho em perspectiva. Entre outros menores mas que também darão trabalho, principalmente o III vol. de Portugal, Razão e Mistério, que talvez afinal se intitule (para não ser demasiado saudosista), Da glória do Império ao desafio do Futuro; e a Introdução à Filosofia Portuguesa ou título parecido com este, cujo esqueleto já está delineado e vários textos aprontados, pois tive de os preparar para o curso da Universidade Gama Filho. Um outro livro em perspectiva para breve, é O Primeiro Modernismo Português . Da Vanguarda à Tradição (Pessoa, Sá-Carneiro, Almada, os futuristas, A. Ferro, Sousa Cardoso, Raul Leal, etc.)
Acho que você é capaz de ter razão, os sessenta anos são próprios para fazer obra mais sólida e avessos ao tipo de acção do 57. Uma parte de mim continua a querê-lo, mas há também uma aversão à ideia de perder tempo com coisas fugazes, quando a margem que temos à nossa frente vai diminuindo rapidamente.
Mas, até à Páscoa, compromissos grandes me ocuparão, só nessa altura podendo lançar-me àqueles dois livros de fundo.
O II vol. de Portugal… está quase a sair, assim como o 10.º vol. da Obra em Prosa de Pessoa na Europa-América. Quanto àquele, cerca de 1/3 parte é dedicada aos Painéis, que expressamente procurei interpretar nos quatro planos de Dante: o literal, o ético, o alegórico e o anagógico. Verá o resultado em breve. Quanto ao Pessoa, julgo que num dos volumes, que intitulei A procura da verdade oculta, sintetizei no prefácio, talvez bastante melhor do que até aqui, o pensamento filosófico, neo-pagão e gnóstico do poeta.
Noto que estou a falar demasiado de mim e pouco de si. Mas, creia, a sua obra está sempre presente (embora em leitura selectiva, no que está mais de acordo com o que sinto e penso), no que faço em áreas afins.
Por hoje, tenho que terminar.
Um abraço do seu amigo dedicado,
António Quadros
