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INÉDITOS. 57
15-09-2015 08:39Antecipamos hoje aos leitores o breve capítulo inaugural de Sobre Álvaro Ribeiro (Contra o maniqueísmo), um dos dois livros inéditos que António Telmo dedicou ao pensamento de seu mestre Álvaro Ribeiro e que integram o IV Volume das suas Obras Completas, a sair ainda este ano, com a chancela da Zéfiro e o apoio institucional e científico do nosso Projecto. A transcrição do texto manuscrito é de Ruy Ventura, que prefaciará o novo volume, Filosofia e Kabbalah seguido de Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica e outros estudos.

Abertura
O judaísmo que se exprime na filosofia de Álvaro Ribeiro é o judaísmo de um cristão-novo. Cristão-novo é uma palavra composta que sempre se interpreta em sentido histórico, isto é, como a designação de um judeu ou de um islamita convertidos violentamente ao cristianismo. Há, porém, a possibilidade de a interpretar em sentido espiritual: cristão-novo é aquele que traz um novo cristianismo, aquele que está em condições de compreender plenamente a mensagem de Cristo, porque é, como ele, judeu e confrontado com toda a tradição judaica e a religião de seus pais, vindo, não para a renegar, mas para a purificar. Ele distingue-se do cristão velho e do velho judeu, confronta-se com ambos, que são o seu passado, um por herança de tradição trazida no sangue, outro por transmissão cultural e institucional. Quando Álvaro Ribeiro insistia sobre a originalidade e a superioridade da filosofia portuguesa fazia-o com inteira legitimidade porque a interpretava como a expressão da espiritualidade do cristão-novo. É certo que a síntese que o cristão-novo deve realizar defronta um duplo obstáculo, no próprio seio da comunidade nascente: o dos cristãos-novos que se mantêm completamente fiéis ao judaísmo e que não traem e o dos cristãos-novos que se identificam inteiramente com a Igreja dos goim, vendo nela a Igreja judaica, para não falar já no quádruplo obstáculo que resulta de haver duas comunidades originais. Daqui a grandeza dos cristãos-novos como Uriel da Costa, mestre de Espinoza, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro, Pascoaes e Pessoa e a pequenez da multidão de intelectuais divididos na alma e na inteligência, vivendo em drama, como Antero, ou servilmente, como tantos outros. A filosofia portuguesa aparece como a síntese que resolve o drama e liberta para novos caminhos.
A doutrina capaz de conduzir a síntese na inteligência do mundo, do homem e de Deus é a Cabala Hibérica[1] que, no entanto, o cristão-novo que encontrou o sentido do seu destino espiritual deve esconder de cristãos velhos e de judeus velhos e da multidão servil dos cristãos-novos. Ambas as Igrejas a hostilizam, uma porque ela transporta os valores do judaísmo, outra porque ela é a concepção nova de Cristo.
O cristianismo desempenha, frente às duas ordens que se apresentam como representando o divino no humano, o papel do satanismo, aquele elemento individual que revolta em nome verdadeiro da luz e do amor.
Cristo é, na visão do cristão-novo Sampaio Bruno, o supremo cabalista, aquele cujos milagres são argumentos. Esta síntese gloriosa das duas tradições é, pois, o fim da filosofia portuguesa que se realiza por entre múltiplas hostilidades.
Temos, pois, de entender a imitação de Moisés, não como do Moisés legislador e despótico, mas do Moisés da revolta contra os Egípcios que escravizavam e torturavam o povo hebreu, uma espécie de Moisés-Messias, o Moisés próprio da idealidade do cristão-novo (Jesus Cristo), cuja imagem Jesus Cristo purifica e transubstancia.
António Telmo
VOZ PASSIVA. 63
13-09-2015 19:54Telmo e Temúria
Memórias de um laboratório de “ternúria”
Risoleta C. Pinto Pedro

Desde muito cedo, talvez quando comecei a ler, que inexplicavelmente para mim, e só para mim, porque nunca o confidenciei a ninguém receando que me metessem num manicómio, procedia mentalmente, em actividade incessante e compulsiva, a algo que considerava fúteis jogos de palavras e sons, mas que vim, muito mais tarde a saber, tratar-se de uma séria actividade que na Tradição ocidental se designa como Guematria, Notaria e Temúria. Precisamente o meu jogo: transposições, observação e deleite com o aspecto dos signos desdobrados em outros, comutações e combinações.
Não fazia ideia que procedia intuitivamente a operações imaginativas muito próximas da numerologia hebraica: inventava um valor numérico para letras e palavras, que depois relacionava em interpretações simétricas. Altas operações mentais de que hoje seria incapaz.
Esta pequena Cabalista procedia também a exercícios de Notaria, estabelecendo divinamente que a cada letra de uma palavra correspondia a abreviatura de outra. Conseguia até, com uma palavra, construir uma frase, numa espécie de exercício anagramático avant la lettre dentro da minha história, e com um notável rigor no mistério. Consoante a inspiração do momento.
Finalmente, a mais alta magia da Temúria, que ao que recordo era a que mais me divertia, procedendo à permuta de letras e sílabas dentro das palavras de modo a criar palavras novas. Muito pouco rigor Cabalístico, pois desconhecia as tabelas, mas um rigor afectivo e emocional que me desviou talvez de outras obsessões através desta, que na altura considerava totalmente gratuita e hoje percebo que me alimentou a criação, a liberdade, a imaginação, o símbolo, a capacidade para estabelecer correspondências, o matrimónio secreto e sagrado entre o número e a letra, e uma familiaridade leve e alegre com o mistério e a magia operativa da língua.
Relaxava-me, divertia-me, curava-me sei lá de que desconhecidas doenças, ainda antes de se manifestarem. Mesmo que assim não fosse, não conseguiria fugir-lhe, mas tornou-me íntima das palavras e números, ficando a conhecê-los por fora e por dentro, pelo menos na minha imaginação.
Que teria acontecido se me tivesse “queixado” a alguém desta secreta vida, para mim, na altura, muito próxima da loucura?
Como ainda não havia tantos psiquiatras como hoje há, talvez com sorte me tivesse saído bem, caso contrário não teria escapado a umas pílulas que me teriam reduzido a actividade mental ao nível da alface, com todo o respeito e afecto que tenho pela dita, mas não me parece que se entretenha, na horta ou nas bancadas do mercado, com exercícios de temúria.
Por essa altura, mesmo muito lendo, não conhecia Platão, era ainda uma infanta, mas se o tivesse feito, ter-me-ia tranquilizado com o Fedro, que cito a partir de “As estranhas etimologias de Platão” in Contos, de António Telmo:
"O melhor que nos é dado vem-nos por mediação do delírio, que é, sem dúvida, um dom divino. A profetiza de Delfos, as sacerdotisas de Dodona, quando estavam inspiradas pelo deus, deram aos gregos avisos que os encheram de benefícios na vida pública e na vida privada; mas, no seu estado de consciência normal, pouco sabiam ou nada".
"Eis o que vale a pena trazer aqui: os homens que, na antiguidade, estabeleceram os nomes não consideravam o delírio (manía) uma manifestação vergonhosa e um opróbrio. Se assim tivessem pensado, não teriam ligado este nome ao nome da arte por excelência que é a arte de adivinhar o futuro (manikê). Viam no delírio uma bela coisa, dado que provinha de uma dádiva divina...”
Fui, sem o saber, uma pequena sacerdotisa.
Telmo ainda não tinha chegado às minhas leituras. Publicaria, nesses arredores temporais, a Arte Poética, que eu, por muito precoce que fosse com os livros (e era-o), não saberia ler, e também ele ainda não tinha escrito, por essa altura, os Contos, onde mais tarde eu viria a encontrar-me e a encontrar:
“a Cabala, [...] usa exactamente os mesmos métodos de Platão na explicação dos nomes: a Temúria, a Guematria e a Notaria.”
E mais à frente:
“Olhe, vou-lhe ensinar uma coisa. Você diz que o que ali vemos em actividade é o génio da fantasia. De facto, como o próprio Sócrates o declara, podemos juntar letras, tirar letras, trocar letras. Parece assim muito fácil explicar qualquer nome e dar dele a explicação que quisermos. Experimente fazê-lo com, por exemplo, a palavra céu.
- O que é que devo fazer precisamente?
- O que Sócrates fez com os nomes que explicou: encontrar a palavra ou as palavras que estão escondidas na palavra céu, mas por tal modo que uma nova significação venha iluminar a significação corrente, enchê-la de profundidade.
Pus-me à procura e não encontrei nada.
- Como vê, não é fácil. Não é sequer possível num estado normal de inteligência. Se fossemos capazes de pensar a ideia do céu, eu não digo a ideia de céu, em ligação com a palavra que a designa, logo se apresentariam a exprimir o pensamento a que tivemos acesso as palavras foneticamente concordantes ou convergentes.
É o que Fernando Pessoa fez com a palavra Mensagem. Pensou-a à luz da ideia de levantar do chão o seu povo. Na sua qualidade de bateleur que faz da mentira uma verdade e da verdade uma mentira, sentou-se à mesa operativa de escritor e deixou-se possuir pelo daimon da analogia. Reconduzindo a palavra ao latim, jogou com as suas letras, desencobrindo os seus possíveis sentidos dentro da ideia vivente de Pátria concebida pelo seu espírito. Encontrou assim as seguintes significações: "MENS AGEM", "MENS AGITAT MOLEM", ENS GEMMA", "MENSA GEMMARUM", isto é, "A mente actua, "A mente remove as massas", "O ente pérola", "A mesa das pedras preciosas", aquela mesma mesa que é a mesa do bateleur.”
Sem querer ser ou parecer presunçosa, acredito que fiz parte de uma ordem secreta a que todas as crianças são agregadas na condição de depois tudo esquecerem, havendo no entanto algumas, mais obstinadas, que consegem manter na alma, ou na mente, algumas reminiscências. Essa ordem é responsável por conservar aceso no Universo o “génio da fantasia” escondido na palavra céu, a fim de o aprofundar. Isto não é possível “num estado normal de inteligência”, mas apenas possuído pelo “daimon da analogia” e assim, jogando, desencobrir o que as crianças conseguem.
Alguns adultos podem fazê-lo mantendo-se adultos e recordando a criança. Não é possível o fenómeno acontecer na ausência do adulto, a não ser no estado de criança. A criança que, embora crescendo, não atinge a condição de adulto, perde esta capacidade, perde o adulto e perde a criança. O adulto que perde a criança também não consegue ser adulto. É indispensável que o adulto cresça e a criança permaneça. É desta união inocente e poderosa entre consciência e imaginação, que a memória pode brilhar em focos de luz celestial à “mesa das pedras preciosas” que é a língua, nesta consciência enobrecida.
DOS LIVROS. 44
08-09-2015 09:11
O best
Há nas cartas de jogar uma figura, o best, capaz de assumir todos os valores, embora em si não possua valor nenhum. Análogo ao papel do best no jogo de cartas é o do zero matemático nos sistemas numéricos. Se o sistema é binário, o zero vale 1, se o sistema é décimal, o zero vale 9. É uma valência que varia de acordo com a estrutura numérica em que se integra e que permite a circulação infinita das operações.
Best é o melhor, mas este sentido comuta-se com o de beast. Nas cartas de uso português, aparentemente não existe o best. Todavia, em certos jogos, como por exemplo o sete e meio, uma convenção popular atribui ao dois de paus a mesma função. Porquê o dois de paus? Não haverá nesta escolha uma figuração secreta, a de uma besta cornúpeta?
Dada a versatilidade do best, esta sua capacidade de receber o valor que se queira, o jogador a quem ele coube em sorte encontra-se numa situação em princípio favorável, mas a dinâmica dos movimentos — associações e antíteses — que o desenrolar do jogo desencadeia, pode vir a tornar ineficaz a acção do best. Isto não significa que ele não seja por definição e à partida o outorgador do poder.
A sua relação com o dinheiro, sem o qual o jogo das cartas é um passatempo de crianças, está na própria definição de um e de outro. Também o dinheiro, na forma de ficha ou de papel-moeda, do papel-moeda sem valor material em ouro, prata ou cobre, cuja invenção Goethe atribui a Mefistófeles, também o dinheiro é um nada que se transforma em valor, no valor que se quer quando o produto se altera em mercadoria e o comércio se assenhoria do mundo. Marx pretendeu uma humanidade sem best. Como os cátaros na Idade Média, Lutero e Calvino e os demais protestantes, este filho de um rabino tentou forçar o mundo a girar sem o elemento essencial, sem aquele princípio de revolta e de luz, que a filosofia tem designado por princípio de individuação.
É o indivíduo o valor que eu assumo, aquilo que me permite ser singular e jogar-me como um projecto na existência. Mas se o best é o princípio de individuação, é também o ser genérico, o ser que podendo ser tudo é nada, a matéria que assume todas as formas e ela mesma não tem forma nenhuma, pelo que uma humanidade sem best é uma humanidade totalmente identificada com o best. Reduzir o jogo de cartas a uma única carta – o best – é tornar impossível o jogo e com ele o valor.
António Telmo
(Publicado em Filosofia e Kabbalah, 1989)
VERDES ANOS. 15
04-09-2015 12:56
Ensino do Português e Latim[1]
No número de Novembro de 1952 deste Boletim, o amigo da língua portuguesa, Sr. Dr. Hernâni Dias da Silva, publicou um tão raro, entre nós, como notável e meritório breve estudo sobre os verbos auxiliares. Raro, notável e meritório pelos caminhos que toma e pelos resultados a que chega. Reconhece na nossa língua, além de «ter», «haver» e «ser», outros verbos auxiliares, os quais encerram acção futurível, segundo vários modos que atentamente discrimina. Surpreende-se o leitor ao verificar que, nas notas ao seu trabalho, o autor não utiliza exemplos extraídos da língua francesa, mas sempre compara com o inglês e o alemão; mas logo cai da sua surpresa ao reconsiderar que a lista gramatical dos verbos auxiliares, se tem permanecido limitada, é porque os linguistas têm insistido em elaborar a gramática portuguesa pelo modelo da francesa. É certo que, hoje, quase todos os linguistas reconhecem os malefícios do comércio idiomático com a França, mas, na sua maior parte, limitam-se a denunciar e combater o galicismo do morfema. No domínio da sintaxe, quanto à ordenação dos elementos fundamentais da oração, introduzem alguns o justo reparo de que constitui, quase sempre, um galicismo sintático a sequência «sujeito-predicado-complemento». De facto, se uma oração se relaciona com a ventura, como nomear a série «sujeito-predicado-complemento», já de si fechada, e em que o elemento médio é, na língua francesa, essencialmente tempo presente, visto como o que é perfeito, por definição, não seja futurante? Também a ordenação das preposições, no período francês, que é rectilínea disposição de sentenças rectas, não dá perspectivas, pois não resulta da interferência de planos diversos. O carácter dos elementos vem a participar do carácter do discurso. E assim o galicismo que mais importa combater é o estilístico, pois dele resulta o total anquilosamento e a inteira alienação da alma pensante.
Justamente, porém, se orgulham os Franceses do seu idioma. Na abundância de partículas concisas, na precisão do período, curto e claro, na composição enquadrante, exacta do discurso, tem o francês as condições necessárias de inigualável delineação de quadros descritivos. Mas não deixa de ser prematura e prejudicial a sujeição a seus moldes de qualquer outro idioma que, na imprecisão e no capricho, sinala irrealização de virtudes, se não exprime verdades indescriptíveis. Se a ordem lógica da verdade é outra, outra terá de ser a ordem verbal que a exprime. E assim a língua portuguesa, nos escritores seus verdadeiramente representativos, do latim herda a expressão das substâncias eternas e de si cria as relações pelas quais age no tempo futurante a eternidade das substâncias.
Os escritores genuínos da língua portuguesa mostram vincados vestígios de demo-rada convivência com a língua virgiliana. Pelo contrário, o jornalismo, formado pelos apressados escritores de «todos os dias», contempla, boquiaberto e sonambúlico, os mode-los que da França nos traz quotidianamente o Sud-Express.
Aqui, porém, urge que paremos e reparemos.
Apontamos o mal que nos vem de ser a gramática portuguesa construída sobre a francesa. Paralelamente concorre para mal idêntico o ensino do latim, entre nós, pelo modelo do ensino do latim entre os franceses. No liceu, o ensino do latim é o ensino de o traduzir. Quem queira consultar a Traduction du Latin, de Marouzeau, ou quem rememore o método usado para levar a cabo uma tradução, verá como consiste em rectificar o labirinto sintático que o texto original oferece. Para tanto, importa, quanto ao período, colher primeiro a oração principal, e em seguida as coordenadas e as subordinadas; quanto à oração, encontrar o predicado, e em seguida o sujeito e os complementos. Posto cada termo no lugar que lhe cabe na construção sintática francesa, achada está a tradução. Deste modo, o latim, em vez de, como língua que é originante da nossa, nos possibilitar uma bela e original redacção do português, serve de instrumento para, com o idioma pátrio, escrevermos francês. Todos nós que um dia aprendemos latim nos surpreendemos a interrogar como se compreenderiam entre si os romanos, tal o hábito do pensamento sem curvas, simples e correntio. Métodos ingleses, todavia, abundam que ensinam a traduzir o latim sem saltos, à medida que se vai lendo, seguindo, embora com esforço, mas com surpresa e emoção, o curso labiríntico do pensamento. Consoante este processo de leitura, será depois, como é óbvio, a tradução redigida, e, o que mais importa, redigida consoante o português será, no momento em que o escritor defronta o próprio pensamento.
Estamos agora na ocasião propícia de sugerir que, no liceu, o ensino do português seja ministrado apenas pelos licenciados em filologia clássica. Mas para que a recta intenção não seja ludibriada, convém que o latim seja ensinado por método diferente do que vigora, método de acordo com as directrizes que sugerimos.
Em Les Nouvelles Littéraires de 6 de Novembro do corrente ano, lemos de Gabriel Marcel este apontamento: «Le problème de la traduction française en ce qui concerne Shakspeare doit être regardée comme à peu près insoluble. Bien sûr, on peut toujours retenir le sens, mais neuf fois sur dix la musique disparait». No mesmo número, Francis de Niormande, numa coluna dedicada, como de costume, à língua francesa, escreve: «Aucune erreur ne resiste à une phrase française bien faite; ou, plus exactement, il est impossible d'exprimer dans une phrase juste une pensée elle-même contrefaite. Cette épreuve est infaillible. Les ideologies plus ou moins fumeuses elaborées par des cerveaux mal équilibrés ne peuvent être dénoncées que dans un affreux jargon. Et les voilà jugés par le fait même». Estas duas citações, especialmente a segunda; vêm confirmar, ex ipsa origine, o que hemos dito. Consoante, em frases bem feitas, declara o jornalista francês, a sua língua é eminentemente disciplinar. Nela a razão encontrou o idioma próprio. E o fantasioso, desequilibrado Shakespeare logo se torna prosaico e sisudo, quando traduzido para francês. Não é admirativa a nossa subserviência à língua estranha. Mais do que isso, se não por inteiro, há o intuito agido de, à disciplina da língua que reúna as referidas condições, um povo imperfeito submeter, precisamente porque, porque imperfeito, busca na aventura da língua aquela remota palavra perdida que os lábios de Deus pronunciaram. Não o negamos. Na verdade, ao pensamento matemático nenhuma língua o exprime tão perfeitamente como a francesa. Língua perfeita, é, por isso mesmo, apta como nenhuma para as grandes sínteses historiográficas. Como nenhuma, é, por isso mesmo, tão inapta para a profecia.
António Telmo
INÉDITOS. 56
02-09-2015 09:04Por volta de 1993, António Telmo e alguns membros do seu círculo procuraram dar corpo ao projecto de uma revista que esteve para se chamar Portugal. O Encoberto e Átrio foram outros nomes possíveis desta publicação. O ensejo gorou-se, mas o texto de “Apresentação”, escrito e assinado pelo filósofo, ficou. Mais tarde, num período que presumivelmente se situará entre 1998, ano da iniciação maçónica de Telmo, e 2000, ano do começo da publicação da revista Teoremas da Filosofia, o filósofo parece ter querido recuperá-lo para uma outra publicação, afecta ao movimento da Filosofia Portuguesa. O dado novo mais significativo deste recomeço, também frustrado, parece, porém, ser a inspiração maçónica que António Telmo pretendia conferir ao novo projecto. Ao título inicial, dactilografado, acrescentará pelo seu próprio punho os seguintes dizeres: “a Oriente de Estremoz de uma revista literária”...

Apresentação a Oriente de Estremoz de uma revista literária
"É o começo que falta ao homem. Encontrá-lo não é difícil; o obstáculo é imaginar que se é obrigado a procurá-lo."
Gustavo Meyrink
O domínio intelectual de Lisboa e de Coimbra sobre o país, através da Universidade fundada pelo rei poeta, que perdurou e se intensificou no decurso dos séculos, tem funcionado, sobretudo a partir do Marquês de Pombal, como um meio de recepção, de adaptação e de propagação das ideias estrangeiras e de formação de juristas políticos, hoje também de engenheiros, que as utilizam na governação do povo. O movimento que se desencadeou no Norte, partindo de Sampaio Bruno, com dois exércitos perfeitamente harmónicos, o da Renascença Portuguesa e o da Filosofia Portuguesa, tentou, por entre reacções ferozes, a reconquista espiritual da Pátria. No seu discurso parlamentar sobre "A Questão Universitária", o filósofo iluminado Leonardo Coimbra, fundador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, disse assim:
A força de inércia ou coesão das associações é a grande força conservantista das sociedades, é como uma memória social implícita, hipnótica, parente dos instintos animais. Pertence à massa ignara. A força de dissociação e criação de novas associações pertence, singular e esporadicamente, aos génios; pertence sistematicamente aos organismos intelectuais superiores, que são a parte lúcida e criadora da consciência colectiva. Nesses organismos contam, desde o século XII, as Universidades.
As Universidades são, pois, grandes factores de evolução da crença. E assim é que sempre que um bando tenta impor uma crença, adormecer o espírito humano num dado associacionismo psíquico, esse bando vai à conquista das Universidades. É deste modo que a um período de esplendor da Universidade portuguesa segue, com D. João III, a conquista pelos jesuítas do colégio das artes e depois a confirmação da Universidade de Évora, sendo obrigatório o curso do colégio das artes para a matrícula na velha Universidade, e vindo a conseguir que os jesuítas graduados em qualquer Universidade fossem como graduados na Universidade de Coimbra.
Os dois primeiros discípulos de Leonardo Coimbra, José Marinho e Álvaro Ribeiro, e o décimo terceiro, Agostinho da Silva, logo após a morte do Mestre, trouxeram até à capital física do outrora Império do mundo o movimento da reconquista. O Alentejo, que recentemente viu reformulada nos moldes coimbrões a Universidade de Évora, manteve-se, desde a implantação da República, distante e alheado da guerra santa, constituindo uma zona desértica ou de "armamento" espiritual. Não é, pois, um acaso, o facto desta revista ter como sede a cidade alentejana de Estremoz.
Durante a ocupação de Portugal pelas tropas do duque de Alba, quando se constituiu aqui um governo de portugueses ao serviço do rei de Espanha, os alentejanos saíram e foram formar o Brasil. Jaime Cortesão conta-nos como isso foi na sua Introdução à História das Bandeiras. Enquanto a América espanhola nasceu dos "aldeamentos" organizados pelos jesuítas que, entre os seus muros, submetiam os índios vencidos a uma rigorosa disciplina, a América portuguesa foi feita pela aliança dos índios e dos portugueses, que traçaram o mapa do Brasil com os pés, por vales e montanhas. Os alentejanos foram capazes de tal proeza por estarem habituados a longas caminhadas atrás das perdizes até as cansarem. O verdadeiro "começar" não é, porém, sair, embora seja preferível fazê-lo a ficar escravo e, sobretudo, quando se imagina transplantar para longe a Pátria, criando-a de novo ali.
O rio Tejo é o diafragma de Portugal. Se nos representarmos o país na figura do Homem, o Alentejo aparece-nos em baixo, sob esse diafragma, cindido, na sua vagarosa digestão dos alimentos da terra, da vida superior do Espírito, que mora no Porto e no Marão. Estabelecer nele um foco de domínio material pelas ideias foi o que esteve na mente dos fundadores da Universidade de Évora. O Norte, intelecto e princípio da Pátria, já isolado no próprio corpo que superiormente inspira pela torácica acção das zonas de recepção e de projecção das influências exteriores, dificilmente poderá fazer-se sentir no Alentejo e no Algarve. Pensamos ter chegado o momento de aqui levantarmos um Castelo de irradiação espiritual. A antiga relação, hoje desfeita, com o pensamento islâmico e judaico encontrará assim, actualizado, um meio de reanimação. A profunda afinidade, outrora existente, entre as filosofias esotéricas de Prisciliano, no norte galaico, e de Ibn Qasi, mestre de Ibn Arabi, no Algarve, assume, através dele[1], a força de um símbolo.
Deve-se à operatividade intelectual de árabes e judeus o conhecimento pela Europa de Aristóteles e Platão. Há uma escolástica hebraica e uma escolástica islâmica, antes ainda de uma escolástica cristã. As três tradições conviveram harmoniosamente até D. Afonso, em terra portuguesa. O Alentejo e o Algarve eram então zonas de profunda irradiação da sabedoria filosófica.
Compreende-se assim porque escolhemos para capa da revista a Rebis alquímica, tal como a concebeu Rafael na figura dos dois filósofos gregos. Segundo Tomé Natanael, nosso mestre, Rafael não pintou a oposição de Aristóteles a Platão. O que, na verdade, ali está é o seguinte: a energia celeste é captada pelo dedo indicador de Platão, dirigido ao alto em ponta, e a energia terrestre pela palma da mão de Aristóteles, voltada para baixo paralelamente ao chão; as duas correntes de energia espiritual combinam-se no ponto que, na alma, corresponde ao encontro dos dois olhares e constituem-se numa terceira de que teremos a revelação perfeita quando os dois filósofos, que vêm andando para nós, descerem os quatro degraus da história.
A Escola de Atenas, pintada por Rafael, aparece-nos como o excelso modelo do ensino acroamático, proposto à nossa imitação hoje sobretudo em que o ensino para toda a gente, de louváveis intenções e de sinistros fins, pretende, não a vida do Espírito, mas adestrar os "escravos" com a instrumentação cultural indispensável para servirem, contentes e iludidos, a sociedade tecnológica. Quem a pode ter por ideal são as tertúlias. As tertúlias é que constituem autênticas escolas de ensino particular ou acroamático. E é por isso que o problema da legitimidade do ensino particular que é, afinal, o da liberdade de ensinar, tal como é posto habitualmente, se deve ou não ser reconhecido e autorizado pelo Estado, é um falso problema. Ensino público apenas para o Estado. Ao público as tertúlias chegarão pelos livros e pelas revistas.
O que hoje sabemos ter distinguido a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, extinta por Salazar, dos outros organismos estaduais de ensino foi duas coisas: a acção directora de um homem de génio, Leonardo Coimbra, e o facto de coexistir com ela uma tertúlia. Conforme a indicação de Álvaro Ribeiro: «A Faculdade de Letras da Universidade do Porto constituiu o exemplo de como uma associação secreta pode funcionar aberta ao público.»
O funcionamento de uma tertúlia activa e criadora depende da existência de uma tradição sófica, isto é, aquilo que a garante como verdadeira é a presença de quem continue a cadeia formada por sucessivas gerações de mestres e discípulos vivendo a mesma doutrina esotérica. Este é o caso das tertúlias de filosofia portuguesa, que foi fundada por Sampaio Bruno no ano em que, com trinta e seis anos, publicou as Notas do Exílio, vindo de Paris, onde terá recebido a iniciação no martinismo. A revista Leonardo foi a expressão actual de uma delas e constitui um foco de irradiação espiritual em Lisboa.
O que distingue a revista de outras é a identificação da arte de filosofar com a arte poética. Aparece, pois, como uma publicação em que predominam o conto, o poema, o ensaio, o aforismo. Sabemos que a razão não convence ninguém, se não falar aos sentimentos. O perigo que nos espreita é o da adulteração da filosofia pela literatura.
António Telmo
[1] Nota do editor – António Telmo grafa entre parêntesis manuscritos, seguidos de um ponto de interrogação também manuscrito, a expressão “através dele”.
CORRESPONDÊNCIA. 28
31-08-2015 12:16
CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 09
Estremoz
6-3-90
Estimado Amigo
Recebi o seu livro. Há dias enviei-lhe, pelo João Rêgo, o que me tinha pedido de Joseph de Maistre. Recebi a sua carta. Fiquei contente da sua vinda para Évora. Quando? Não mo diz. Claro que terei muito gosto em jantar consigo.
Há quinze dias que convivo com o seu espírito. Puseram à venda, na tabaqueira de Estremoz, um exemplar do seu livro para mim. A alma, tranquila, cristalina corrente tem a ressonância de um ritual [vitral?] na minha alma. Amo tudo no seu livro: a perfeita atenção e memória do mundo exterior acompanhadas, o saber subtil do pequeno, o convívio esotérico com a natureza e os seus segredos, a visão física de Inês pelo seu nome, a funda e certa reflexão sobre o sentido da História de Portugal. Pasma-se. António Cândido Franco, Mestre de Avis da Filosofia Portuguesa.
Há momentos em que se nos revela a perfeita Beleza. Por exemplo: a maçónica reflexão de Hirão em Mira.
Desde criança de dez anos em Arruda dos Vinhos que tenho sonhado escrever o que Shakespeare escreveria sobre Pedro e Inês. Tantos o têm tentado em vão, até o Vítor Hugo da mesma idade. É, porém, um caso que, em si, é tão perfeitamente significativo que nada é deixado à ideação do indivíduo que pretende descrevê-lo. Daqui o insucesso dos grandes espíritos que o tentaram. V. olhou e contou. Limitou-se a ver e a sentir e pensar o que viu. Daí o conseguimento onde outros fracassaram. Que idade tem, António Cândido Franco? Em si, a memória é um milagre.
Até mais ver. Seu dedicado
António Telmo
VOZ PASSIVA. 62
29-08-2015 22:05
FOTOS COM HISTÓRIA(S). 06
27-08-2015 20:32Manuel Victorino esteve esta semana em Almeida e fez-nos chegar algumas fotografias da casa onde seu pai nasceu, o que muito lhe agradecemos. A oportunidade permite-nos igualmente revelar alguns dados novos sobre os primeiros anos da vida do autor de História Secreta de Portugal, em particular na sua relação com a terra natal, num trabalho de investigação de Pedro Martins e Risoleta Pinto Pedro, que preparam presentemente uma biografia de António Telmo.


A CASA ONDE ANTÓNIO TELMO NASCEU
“Délivrance
Está em festa o lar do nosso querido Director, pelo nascimento dum pequenito.
Tanto o pequerrucho como sua mãe D. Maria Cândida Carvalho dos Santos Victorino, encontram-se bem.
Parabéns.”
Na sua edição de 10 de Maio de 1927, o jornal O Almeidense noticiava deste modo o nascimento de António Telmo. O futuro filósofo vira a luz do mundo, pela primeira vez, em 2 desse mês, em Almeida, na Rua do Convento, na casa que as fotografias agora nos mostram.
António Telmo partiu para África, com a família, ao que tudo indica, em 1929. O filósofo afirmava que esteve em Moçâmedes, onde seu pai dirigiu a agência local do Banco Nacional Ultramarino, entre os dois e os seis anos. Há aqui uma ligeira imprecisão, absolutamente compreensível, pois é ainda com a idade de cinco anos que Telmo regressa à Metrópole. Uma outra notícia, de O Almeidense de 18 de Novembro de 1932, revela-se, a este respeito, inequívoca:
“De África, onde passou perto de quatro anos na gerência do Banco de Angola, em Mossâmedes, regressou de licença, o nosso querido amigo e antigo director de «O Almeidense», sr. Dr. António Diniz Victorino, acompanhado de sua esposa e gentis filhos.
Para o antigo director e prezado camarada, acompanhando as nossas saudações de boas vindas, vai um grande abraço de «O Almeidense», sinceríssimo, cheio de calor, para quem com tanto valor, como o Dr. António Victorino, soube dar vida e fé a este periódico, que já hoje completa 7 anos de existência.”
É, pois, também possível que Telmo não tivesse ainda completado dois anos quando partiu para África, atenta a referência do articulista ao período de perto de quatro anos que durou a comissão de serviço de seu pai. Certo é que no ano seguinte voltará à terra natal, segundo se conclui pela leitura de O Almeidense de 12 de Setembro de 1933:
“Para Lisboa, acompanhada de seus filhinhos, seguiu a Sr.ª D. Cândida Victorino.”
E em 1934, ano da morte de seu avô materno, Joaquim Carvalho dos Santos, a cujo funeral assistiu, António Telmo esteve de novo em Almeida.
Depois disso, o filósofo não regressou, se não episodicamente, à terra que lhe foi berço. Outros caminhos o chamariam...
INÉDITOS. 55
25-08-2015 12:37Oferecemos hoje aos leitores "O messianismo", um dos capítulos do livro Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica, que será parte integrante do IV Volume das Obras Completas de António Telmo. O filósofo não o chegou a concluir. Mas o que nele brevemente afirma afigura-se-nos uma preciosa novidade.

O messianismo
Vimos que a designação mais corrente de árvore não é absoluta, pois outros termos existem para significar a tábua das categorias: trono, balança, carro, homem, etc….
Trono é o termo preferido por Álvaro Ribeiro que quase sempre o associa a escada e a escala, comparando a visão de Ezequiel com a visão de Jacob.
Nas páginas finais d’A Literatura de José Régio distingue antropomorfismo de antropolatria, valorizando um para repudiar a outra, parecendo aceitar a tese de Protágoras de que o homem é a medida de todas as coisas.
O livro aristotélico Da Alma, com a sua divisão do homem em corpo elemental, alma vegetativa, sensitiva e intelectiva, segue de perto o esquema cabalista: corpo, nephesh (alma vital), ruah (alma–sopro), neshamah (alma intelectiva). É o que, segundo o Zohar, se pode ver na chama de uma vela.
A figuração de Cristo, à luz da Cabala, permitiu aos cristãos-novos praticarem a nova religião sem traírem a religião de nascimento, com um mínimo de hipocrisia e um máximo de diplomacia. A duplicidade não é condenável quando há um terceiro termo a garantir a coexistência aparentemente contraditória. Alguns adágios sefardis referem-se à situação psicológica do cristão-novo: quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, o hábito faz o monge. Ao que respondiam os iniciados, justificando a hipocrisia, com a variante “o hábito não faz o monge”.
Onde faltou a filosofia, instalou-se, na sucessão das gerações, o remorso que divide a alma. Com efeito, para os portugueses, o problema de Cristo é o primeiro problema.
Álvaro Ribeiro adopta a solução da terceira tradição – a islâmica – que vê em Cristo um profeta, um novo Moisés que veio depurar a religião de seus pais, e de modo nenhum instituir uma nova religião. Isto equivale a pensar que o catolicismo deve, em princípio, perpetuar o judaísmo. O obstáculo consiste em (…)[1]
António Telmo
DISPERSOS. 13
24-08-2015 09:27
A conversão[1]
A conversão de Leonardo Coimbra ao catolicismo é interpretável e tem sido interpretada pela parábola do Filho Pródigo, mas alcança-se, na altura, todo o sentido da parábola? Deve a conversão ser entendida como o abandono do erro e o retomar do caminho direito? Ou como uma iluminação?
Tudo quanto o filósofo pensou, escreveu e disse, enquanto andou por fora e bem longe, é para desprezar ou só alguma coisa? Que livros devemos ter por legendas, isto é, dignos de serem lidos?
Ou dizemos que apenas a vontade errava, mas no pensamento Leonardo Coimbra foi sempre católico e só no fim se comoveu a vontade? Neste caso, terá para nós um interesse meramente exemplar.
O que é a parábola do Filho Pródigo?
Imaginemos que a Maçonaria foi o Egipto de Leonardo Coimbra. Diremos então que essa tão discutida instituição, tão intimamente ligada às ciências materialistas, mas também às ciências ocultas, com seu sonho republicano de liberdade política e religiosa, foi a terra negra onde se entenebreceu a luz do seu espírito e se degradou a energia do seu pensamento?
A parábola do Filho Pródigo poderá representar, nos termos de Leonardo Coimbra, a entropia, pela qual a energia se degrada e perde até ao aniquilamento da Criação. Mas, no seu pensamento, a vida é já o movimento contrário ao da entropia. Quando o éon perdido dos onze (fuga de José para o Egipto) ou, o duplo extraviado ou extravagante da parábola, ou o Filho de Deus descido e encarnado na terra regressa, não haverá um «aumento de ser» ou tudo fica como dantes na «inutilidade de um mundo feito»?
Nos termos iniciais: A conversão de Leonardo Coimbra não veio trazer nada de novo ao catolicismo?
Esta interpretação pela parábola do Filho Pródigo do regresso de Leonardo Coimbra à religião de infância pode receber a forma desta pergunta: O que andou fazendo entretanto o emigrante e porquê?
Porquê a erradia circulação das energias?
Havemos de continuar a pôr em termos de bem e de mal as oposições que necessariamente se dão com o movimento criacionista da energia espiritual? Nem no mundo da família é um mal a oposição do filho ao pai, do filho que parte e se separa à procura de uma vida diferente, nem no mundo natural as aves emigrantes são menos belas, menos fortes, menos audaciosas do que as aves sedentárias.
Todos sabemos da importância que Leonardo Coimbra dava à «experiência», isto é, ao viver em perigo ou em esperança. Assim, escreveu:
«O desprezo da experiência produz contemporaneamente a morte da ciência e da moral integral ou religião. Quando o homem cristaliza, em dogmas repousados, as grandes experiências cósmicas, resulta uma invasão do pensamento pensado e a estagnação da actividade científica ou religiosa. São os períodos de formalismo excessivo e, consequentemente, de um desatinado egoísmo de seita. A mística, romântica erupção do cósmico através do individual, é um prenúncio de libertadora atenção à realidade, como mostra a história da Idade Média e a sua condenação pelo Dogma».
É ainda preciso perguntar pela razão da sua «extravagância»?
Em escritos e discursos fez a apologia da Maçonaria; militou pela República contra jesuítas e reaccionários; opôs-se ao ensino eclesiástico. Explica-se assim a surpresa de amigos e discípulos, quando tiveram notícia da sua conversão. Todavia, se pensarmos que, na realidade, lutava por uma Igreja renovada ou restituída, muito semelhante à que hoje vemos desenhar-se na mente do actual Papa, teremos maior interesse em saber como sempre foi católico do que em verificar que foi anti-católico.
À luz do «criacionismo», a parábola do Filho Pródigo toma, pois, outro sentido. Não é legítimo ver à mesma luz a tentativa de uma Igreja Lusitana, de Teixeira de Pascoais, a Condição e Destino do Pensamento Português, de José Marinho e o movimento de Filosofia Portuguesa, de Álvaro Ribeiro?
Neste sentido, não houve conversão de Leonardo Coimbra. Ou, por outras palavras, a conversão foi a sua última experiência que antecedeu o seu verdadeiro regresso nove dias depois.
Se a religião é a moral integral, a filosofia é, pelo pensamento em que é e se move, «a única oração eficaz». Na verdade escreveu que «o pensamento filosófico é a única oração eficaz». Esta frase pode, evidentemente, receber a interpretação de que não há oração eficaz fora do pensamento filosófico.
Escreveu também: «O pensamento tem em si a sua própria garantia».
Somente a própria garantia?
Já vimos que não. Vimos que o pensamento não é só para pensar. Quando é bem consciente de si, a sua verdadeira e íntima natureza é o amor. Move porque é o amor. Todos toleram a filosofia quando está ao serviço da Religião ou do Estado. Não admitem que, por si só, possa servir Deus ou a Terra.
É a partir daqui que podemos compreender a hostilidade para com Leonardo Coimbra e para com a filosofia portuguesa, e, em geral, para com todos os filósofos, desde Sócrates a Álvaro Ribeiro. É uma hostilidade que vem da direita e da esquerda e que tem sempre um cómico ao serviço. A filosofia, porque é sincera, humilde, corajosa e verdadeira constitui um alarme para a tranquilidade instável estabelecida sobre um determinado conjunto de interesses. Há nela qualquer coisa como a rebeldia dos Anjos. Mas a rebeldia dos Anjos não é, sob outra forma, a parábola do Filho Pródigo? Porque é que o anjo rebelde não há-de um dia regressar, pelo seu retorno reintegrando todas as parcelas de luz dispersas?
É este um dos sentidos mais fundos da filosofia de Sampaio Bruno. Os comparativistas hão-de reconhecer um dia em Leonardo Coimbra toda a herança de Bruno. O conceito de entropia, que vai buscar aparentemente à ciência, é, no mundo da matéria, a ideia da queda que Bruno situa no mistério insondável de Deus. Há uma perda constante de energia, que a vida biológica ininterruptamente recupera e que a vida espiritual inverte num perpétuo «aumento de ser». Tal é, no «criacionismo», o movimento pelo qual se ligam os três mundos que constituem o universo.
E a missão do homem?
Onde Sampaio Bruno responde que é «ajudar a evolução da natureza», Leonardo Coimbra hesita, contradiz-se, retoma humildade e coragem para perguntar:
«É o homem capaz de criar energias?»
Duas concepções se opõem no espírito do filósofo: uma segundo a qual o mundo criado por Deus é um grande autómato, girando sobre si próprio, por tal forma agenciado nas partes e no todo que sempre em si conservará a mesma quantidade de movimento; outra que imagina o mundo como uma corrente da plenitude do todo para o abismo do Nada. A primeira deriva dos filósofos matemáticos, como Descartes e Leibniz; a segunda inspira-se dos modernos físicos e identifica-se como um dos aspectos da filosofia de Bruno. Se o homem tem por missão colaborar na ordem do mundo enquanto elemento dessa ordem, destruindo a liberdade, «essa missão é bem estúpida e ignara»; Leonardo Coimbra não quer perder tempo com uma doutrina conservadora que é o oposto da ideia criacionista; outro oposto dessa ideia é o facto inegável de «que o homem assiste ao envelhecimento próprio e alheio, quase impotente, e é levado na corrente da degradação física para a morte do planeta e dos mundos».
A missão do homem poderá ser, pois, a de criar energia, a de ser capaz de se assumir como um centro poderoso: «O homem seria Deus porque criava ser, visto que aumentava ou diminuía a realidade».
A que corrente de pensamento alude aqui Leonardo Coimbra? Conjecturamos que ao martinismo que deve ter conhecido através de Sampaio Bruno e que parece tê-lo seduzido de passagem. A conjectura nasce das implicações contidas nas seguintes linhas: «Neste desejo humano (de criar energia), há o orgulho de anjo rebelde, há um movimento para a Unidade de que o homem seria o foco e a razão única».
Aos mesmos responde, reflectindo, com as noções ocultistas de evolução e involução: «De resto, é a evolução integral e perfeita? é desacompanhada duma involução superior que a justifique?
É tão trágica a descida das energias, a corrida para um equilíbrio físico?
Não é antes um sinal bem evidente da divindade, dum poder de criação que renova os mundos, ou, por uma superior ordenação, acode à queda física?»
No último parágrafo está condensado todo o «criacionismo». Mas, então, qual é o papel do homem?
A sombra da primeira concepção, que fora arredada por estúpida e ignara, levanta-se de novo, não obstante a imagem da cadeia tenha, para nossa felicidade e do próprio pensador, sido substituída pela da escada da visão de Jacob por onde os anjos descem e sobem. É, todavia, necessário ressalvar a liberdade do homem.
A nossa missão, diz-nos, é ver, meditar e compreender. É o pensamento. Se, por uma superior analogia, pudermos repetir em nós «o Universo resplendente de acção criadora e presença divina» erguendo-se «sobre o Universo visto em fatalidade» teremos encontrado o único sentido possível da nossa liberdade.
Nas páginas que vimos reflectindo d'A Alegria, a Dor e a Graça (194-197), o problema da liberdade humana procura uma solução também no modo de «experiência» que utilizarmos. Leonardo Coimbra escreve a palavra Experiência em itálico e com inicial maiúscula. A quem se dirige, quando diz compreender «muito bem a necessidade da Experiência? A que modo ou tipo de experiência se refere, quando logo opõe que ela «só é uma longa e meditativa conversa com o Ser»? Porque, dos dois adjectivos, só sublinha o segundo?
Não é certamente à experiência científica. Refere-se, sem dúvida, a um modo de experiência mediante o qual o homem possa criar energias. Não é, certamente, à experiência científica, porque nunca se trata aí de criar energias, mas de conduzi-las. Há um outro passo do mesmo livro onde a mesma pergunta é posta de outro modo, mas com incidência no mesmo problema: «É o homem capaz de criar imagens?» De criar, isto é, de pô-las viventes e bem objectivadas, fora de nós.
Não haverá aqui, de novo, alusão ao «martinismo», operativo no domínio da magia e da teurgia?
Se assim é, compreende-se que Leonardo Coimbra oponha a tal operatividade, que se propõe criar imagens e energias, a sugestão de uma experiência que seja só uma longa e meditativa conversa com o Ser. Todavia, o módulo experiencial, num e noutro caso, deve ser o mesmo.
São as seguintes as palavras terminais de A Razão Experimental:
«De olhos cerrados, em íntima meditação, deixemos a alma apontar seu rumo».
Tal modo de meditação é, em si, a experiência do «grande sentido oculto do Universo», na qual podemos confiar porque «basta uma hora de meditação para conhecermos que somos um espírito».
Para tanto, duas virtudes são, pelo menos indispensáveis: coragem e humildade. Porquê coragem?
Não foi por falta de coragem que pôs de parte magia e teurgia, mas por humildade:
«O que há de propício no estranho é a sua parte de essência, que nós podemos penetrar pelo movimento, ou amor, mas que não poderemos aniquilar ainda que bem diabólico seja o desejo».
Mas a experiência é sempre um risco ainda quando seja «a socialização do nosso ser ou liberdade com os outros seres». Deve-mos acrescentar aqui «visíveis e invisíveis».
Eis, pois, dado um dos aspectos da visão ocultista de Leonardo Coimbra. Quem se aproximar da sua obra sem a noção de analogia poderá, evidentemente, descobrir muito no domínio do seu pensamento exterior, mas o essencial, aquilo que se revela pelo encontro do pensamento com a experiência ficará inteiramente por conhecer.
Leonardo Coimbra, isto é, o movimento da sua filosofia não deve ser apenas interpretado, mas interiormente repetido, por forma a que, enquanto nele meditamos, se transforme numa perfeita ressonância que é, já fora de Leonardo Coimbra, a nossa própria visão.
António Telmo

De uma (re)leitura de História Secreta de Portugal de António Telmo