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VOZ PASSIVA. 84
26-07-2018 15:41Publicamos hoje "A fenomenologia da Saudade em António Telmo", comunicação que Pedro Martins, membro do nosso Projecto, apresentou ao VI Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, no passado dia 24 de Maio, em Lisboa.

A fenomenologia da Saudade em António Telmo
Pedro Martins
1. O nome de António Telmo não surge usualmente associado à reflexão filosófica sobre a Saudade, ao invés do que sucede, por exemplo, com os de Teixeira de Pascoaes, Afonso Botelho, Dalila Pereira da Costa, Pinharanda Gomes ou António Braz Teixeira, para não irmos além da primeira geração da Filosofia Portuguesa. Ainda assim, estarei em crer que a presente abordagem nada terá de excêntrica, pois que se trate de um pensador de pleno direito inscrito na tradição da Escola Portuense; nem será insólita, por se estar diante de um hermeneuta de Pascoaes, como alguns lugares de relevo da sua obra evidenciam.
Assim, na História Secreta de Portugal, de 1977, António Telmo dedica todo um capítulo – o VIII – a “Teixeira de Pascoaes, o Poeta da Natureza”. A este respeito, muito importa registar o que, em carta para Telmo, datada de 29 de Janeiro de 1987, escreveu António Quadros:
(…)
Há 5 ou 6 meses, uma Assistente da Faculdade de Letras, Maria das Graças Moreira de Sá (nada a ver com o outro), convidou-me para ir falar sobre o Pascoaes a um grupo de alunos de Cultura Portuguesa. Encontrei um anfiteatro cheio, de alunos e alguns professores interessadíssimos. Estive lá quase 3 horas.
Na minha exposição sobre o poeta, li várias passagens do seu capítulo sobre ele na História Secreta, aliás um dos melhores, senão o melhor texto dedicado a Pascoaes. Alguns conheciam já o seu livro. Creia: nós temos uma influência subterrânea muito maior do que podemos imaginar. E você tem muita.» (Ferro et al. (Coord.), 2015: 101-102)
(…)
Foi esta revelação feita em resposta a um lamento que o amigo lhe expressara em anterior missiva. Quase se diria uma consolação. Com efeito, em carta datada uma semana antes, a 22 de Janeiro, afirmara António Telmo:
(…)
O meu livro História Secreta de Portugal, veja bem com teses à volta, não presta. Amo os outros dois, os filhos desprezados da sorte. Mas as pessoas preferem o ocultismo enterrado na pedra. De resto, nesse livro, o que provoca o «envoutement» é a primeira parte. O capítulo sobre Pascoaes onde pus alguma coisa da minha orientação quotidiana e iniciática de viver o mundo passa esquecido.» (Idem: 91)
(…)
Na verdade, neste capítulo da História Secreta consagrado a Pascoaes já se encontra uma aproximação ao esoterismo da saudade, se bem que derivada, perfunctória e fugaz, pois que o principal enfoque houvesse então incidido sobre a vivência experiencial da Natureza, com particular atenção prestada a As Sombras.
Em Filosofia e Kabbalah, de 1989, o filósofo da razão poética estuda o Regresso ao Paraíso em estreito diálogo com a leitura que dele fizera Leonardo Coimbra; e em 2002, ano do cinquentenário da morte do vate de Gatão, irá ainda assinar uma arrojada “Introdução” (cfr. Martins, 2015: 129-142) a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, vigésimo primeiro volume das Obras de Teixeira de Pascoaes publicadas pela Assírio & Alvim.
A esta luz, será de admitir que a abordagem agora proposta possa surpreender, pois iremos considerar escritos algo desatendidos em que o tratamento do tema se autonomiza consideravelmente, tendendo já a abstrair-se do labor hermenêutico vinculado a um determinado poeta ou a uma dada obra. Como quer que seja, o que diferencia António Telmo dos demais estudiosos da Saudade é o ponto de vista, tão proverbial como singular, em que ele se coloca. Como muito bem esclareceu Miguel Real:
Dito de um modo muito claro: o lugar de António Telmo na cultura portuguesa releva-se por ter sido o grande pensador da segunda metade do século XX, na esteira de Sampaio Bruno e Fernando Pessoa, a teorizar o esoterismo, atribuindo-lhe um estatuto de testemunho e prova tão positivo quanto a prova factual mais concreta, furtando estes estudos à parafernália de seitas e grupúsculos marginais ao saber instituído. (Real, 2011: 799)
2. Será porventura a superior condição, há pouco apontada, de hermeneuta que nos faz, ainda hoje, olhar para Telmo mais como um filósofo do Amor e menos como um filósofo da Saudade. Pensamos, notadamente, no ciclo da grande invenção manifestado no lustro que transcorre de 1977 a 1982, período em que vai publicar História Secreta de Portugal, Gramática Secreta da Língua Portuguesa e Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões. A arquitectura, a língua e a literatura portuguesas oferecem então um vasto campo ao seu monumental labor de desocultação, passando a lírica e a épica de Luís de Camões a constituir, de modo quase obsidiante, o principal thema probandum do hermeneuta.
Alvitra António Telmo ter sido o vate, «talvez, o último iniciado da Igreja do Amor» (Telmo, 2017: 140). Foi, pelo menos, um altíssimo representante da tradição de matriz templária que, tendo em Dante o seu maior expoente, persiste nos fiéis-do-Amor. E é justamente a partir dos testemunhos sobre a iniciação nos mistérios do Amor cifrados na Vida Nova que o filósofo empreende a leitura anagógica de Camões. Neste, a experiência do amor serve de suporte ao conteúdo real da iniciação: «Deus aparece ao homem, no acto gnósico culminante, “na mais bela das formas”, que é a forma feminina» (Telmo, 2015: 48). A imagem da mulher desperta o espírito vital. A sua presença faz eclodir a energia espiritual no centro subtil cordial, ou seja, na alma do homem, a que Dante, secundando a terminologia da escola platónica, chama espírito vital.
Este despertar do ser pela iniciação amorosa permite que o espírito natural – e o mesmo será dizer: a potência vegetativa ou o corpo – seja subvertido e conhecido pela potência intelectiva – e o mesmo será dizer: pelo espírito visual, ou pelo espírito, simplesmente. Através dessa sua específica faculdade que é a imaginação, move-se a alma no mundo intermediário ou imaginal que, por consubstancial, lhe é próprio e opera a mediação, naquele ponto crucial em que os corpos se espiritualizam e os espíritos se corporizam (cf. Corbin, 1992: 120).
Na História Secreta de Portugal, António Telmo pretendeu, «pela primeira vez», dar «os fundamentos» para essa «verdade» que consiste em dizer «que os Jerónimos são Os Lusíadas em pedra dos Descobrimentos ou que Os Lusíadas são os Jerónimos em verso» (Telmo, 2017: 152-153). Décadas depois, irá recuperar a aguda observação de Fiama Hasse Pais Brandão segundo a qual os barões assinalados (pela cruz vermelha sobre branco) na primeira estrofe da epopeia são os cavaleiros da templária Ordem de Cristo (cfr. Telmo, 2018: 370).
Os Lusíadas serão a autobiografia espiritual de Luís de Camões: o poema é a cifra de uma viagem iniciática e Vasco da Gama uma projecção do próprio poeta. Mas o Gama, importa lembrar, é também um dos quatro navegadores cujas efígies surgem representadas nos medalhões simbólicos do lado sul do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, conforme a desocultação ensaiada na História Secreta de Portugal. Três desses navegadores olham o sol de frente, fazendo Telmo notar que a visão directa da luz só aos iniciados é concedida. A energia espiritual germinada no centro subtil cordial elevou-se até atingir a região do olho frontal de Shiva. Esta visão central culmina a realização espiritual dos pequenos mistérios.
3. A distinção entre pequenos mistérios e grandes mistérios, como dois graus de um mesmo iter iniciático, e não como dois diferentes tipos de iniciação, resulta fulcral para a abordagem que propomos. Os pequenos mistérios visam a restauração do estado primordial, ou seja a restituição do homem decaído ao glorioso corpo de luz do Adão edénico. Esta regeneração psíquica envolve o regresso ao Paraíso terrestre. Se tudo se passa ainda num estado humano que é da ordem da Terra, certo é que o homem, pela consumação dessa primeira etapa, readquire o sentido da Eternidade e adquire a imortalidade virtual.
Duas serão as fases dos grandes mistérios. À realização, já na ordem puramente noética, e não psíquica, dos estados supra-humanos, mas ainda condicionados, corresponde a identificação com o conjunto dos mundos espirituais, simbolicamente representado pela figura do Adão Kadmon. Não se trata já de regressar ao Paraíso Terrestre, mas de ingressar no Paraíso Celeste, como condição prévia da derradeira fase destes mistérios maiores, que é a da Libertação final ou da Identidade Suprema, pela qual se alcança a identificação com o Absoluto.
N’Os Lusíadas, observa Telmo, o episódio da Ilha do Amor, caracterizado pela angelologia que permite iluminar a unificação dos nautas com as ninfas, corresponde à consumação dos pequenos mistérios.Na senda de Dante, a via amorosa, tal como ela se patenteia em Camões, investe, a um tempo, a mulher na condição de mistagoga (aquela que conduz nos mistérios) e de cifra (do anjo pessoal): houve, por certo, a presença de Beatriz, no sublinhado do itálico se enfatizando o halo hierofânico de que a donna se reveste; mas foi «por virtude de muito imaginar» que Dante teve a visão do seu anjo, e o relato do sucedido poderá parecer surpreendente, porque nos mostra já outra coisa:
Parecia-me ver no meu quarto uma pequena nuvem cor de fogo, em cujo interior discernia a figura de um homem de temeroso aspecto, e mostrava-se todavia tão exultante, que era coisa maravilhosa. Entre muitas palavras que me dirigiu e que não pude entender, percebi esta: Ego dominus tuus (Eu sou o teu senhor). (apud TELMO, 2017: 142).
Uma citação de Le Paradoxe du Monothéisme, de Henry Corbin, permitirá esclarecer o que vem sendo dito:
(…) a individuação da relação entre o senhor ou Deus personalizado e o fiel para quem ele se personaliza, relação que é essencialmente a relação teofânica constituindo a «mensagem» do Anjo, encontra o seu eixo de meditação por excelência numa célebre sentença atribuída ao I Imã do xiismo: «Aquele que se conhece a si mesmo conhece o seu senhor.» (Corbin, 1992: 87)
Nesta visão da iniciação pelo amor, que é a de Dante e Camões, há uma necessária relação, que se diria ser de identidade, entre a angelização e o pleno desenvolvimento do corpo subtil, que é a finalidade da realização espiritual própria dos pequenos mistérios.
Mas onde, porventura, a figura do filósofo do amor, que Telmo foi, nos surge mais nitidamente recortada é na sua peça teatral A Verdade do Amor, na qual, na senda de seu mestre Álvaro Ribeiro, perfilha a doutrina da Carta sobre a Santidade, escrito cabalístico sefardi do final do século XIII atribuído a Joseph Gikatila. A esta luz, o acto sexual, pela observância de determinadas condições prescritas na Torah, investe o homem e a mulher na condição de activadores teúrgicos, ao influírem no pleroma divino por forma a reactivar, restaurar e atrair até este nosso mundo as emanações do mundo do alto. Limitamo-nos a assinalar o tópico, sem que nele, porém, nos possamos deter, pois a nossa atenção deve, doravante, centrar-se na fenomenologia da saudade, tal como ela encontrou expressão na razão poética de António Telmo.
4. Consideraremos um conjunto pouco numeroso de textos: cinco escritos, quatro dos quais de publicação póstuma. Consideravelmente tardios, pois será de crer que tenham sido compostos na última década da vida do filósofo e, por consequência, após a sua iniciação maçónica no Rito Escocês Rectificado, revelam curta extensão, o que não significa menor relevância, ou não se estivesse diante um autor de livros breves, não raro compostos por dispersos, e cuja ideação surge frequentemente condensada.
Dois desses textos – os que enunciam a reflexão sobre a fenomenologia da saudade – constituem, seguramente, outras tantas partes de um único e mesmo ensaio. A primeira saiu a lume em Viagem a Granada, integrada no conjunto de apontamentos com que abre o capítulo “Textos de Arte Poética”; de caso pensado a segunda foi incluída, com o título “Sobre a Saudade”, em A Aventura Maçónica, sem que o filósofo tivesse já chegado a vê-la vertida em letra de forma. Esta divisão, ou dispersão, do ensaio terá prejudicado a sua percepção e a sua valoração como um escrito fundamental do corpus filosófico sobre a saudade, pois, porventura como em nenhum outro antes dele, é uma leitura de matriz iniciática o que ali se propõe.
Para Telmo, a fenomenologia da saudade comporta três momentos distintos, em correspondência com outros tantos graus e em consonância com os diferentes objectos considerados. O primeiro momento é tratado no apontamento de Viagem a Granada; os restantes em “Sobre a Saudade”, de A Aventura Maçónica.
Num momento inicial, alguém é o objecto da Saudade, por estar em causa a relação terrestre do amante com a amada. Neste primeiro estádio do iter iniciático, importará sublinhar a existência de uma essencial identificação entre o amor e a saudade: são a mesma realidade, mas encarada de diferentes pontos de vista:
A saudade e o amor, no seu primeiro momento fenomenológico que é o da relação terrestre do amante com a amada, oferecem-se-nos como as duas faces do mesmo. Assim, no amor, a presença corporal da amada acorda no amante o sentimento do fugaz e inapreensível, do que estando presente está ao mesmo tempo ausente, do inviolável; pelo contrário, na saudade, ela é presença na imagem vivida em lembrança e ausência no seu corpo e seu lugar longínquo no espaço e no tempo.
O amor à distância de todo o espaço e de todo o tempo que há entre os dois é saudade; a saudade que se tem do que se possui na proximidade é amor. Nos dois casos, há sempre uma elipse, de que um foco é visível e o outro invisível. Num desses focos está a imagem luminosa e directamente visível; no outro o seu reverso nocturno e inacessível. O movimento de amor ou de saudade é elíptico como o da terra à volta do sol. Se não há, porém, a consciência simultânea do acessível e do inacessível, da presença e da ausência não há amor nem saudade. Haverá lembrança com dor, mas sem alegria, presença satisfeita, mas sem o sentido do mistério que é a amada. (Telmo, 2016: 46)
O amor do amante pela amada é já, de certo modo, a saudade de Deus ou, se se preferir, a saudade do numinoso, pois a mulher é o símbolo em que o mistério se revela, tomando aqui a noção de símbolo na acepção que Álvaro Ribeiro lhe deu, como «imagem sensível de uma realidade insensível» (Ribeiro, 2009: 204). É esta a concepção de um fiel-do-Amor: temos o culto da Donna-Divinitá, pela preponderância de um princípio representado como feminino (de que a Shekinah hebraica constitui cabal ilustração) e pela intervenção de um elemento afectivo (cf. Guénon, 2002a: 63). E daí que, logo nos dois primeiros parágrafos do escrito, uma pergunta e uma resposta de antemão nos elucidassem:
A saudade e o amor são manifestações do que a angelografia hebraica designa por Shekina e Metraton?
Pelo menos, é através de uma e de outro que parece passar a luz pela qual as duas potestades angélicas se nos tornam humanamente inteligíveis. (Telmo, 2016: 46)
A indissociabilidade do sentimento amoroso e do sentimento saudoso, surgindo estes por igual polarizados, se não unificados, nesse alguém – a amada – em que a relação terrestre se objectiva, sobremodo nos oferece ainda, não obstante o lugar de relevo que a reflexão concede à saudade, a imagem proverbial do filósofo do amor.
O emprego da palavra terrestre é bem um forte indício de que António Telmo situa este primeiro momento da fenomenologia da saudade no plano dos pequenos mistérios; mas os momentos saudosos parecem já traduzir, do ponto de vista da operatividade, uma intensificação do aprofundamento gnósico, pois que latente se encontre o Deus saudado.
Não surpreenderá, assim, que num segundo momento da sua fenomenologia, a saudade venha a ser a saudade de si, ainda que, então, tudo seja, no sentido de que o pode ser, objecto da saudade: não apenas as pessoas, mas igualmente as coisas (objectos, sensações, lugares, situações, momentos); e sobretudo o próprio ser saudoso. Importa voltar a dar a palavra ao próprio António Telmo, agora já em “Sobre a Saudade”:
Num segundo momento da fenomenologia da saudade, não são apenas as pessoas que vêm saudosamente à lembrança; são também as coisas. Tudo é objecto da saudade, desde que entre o ser saudoso e a coisa saudada se interponha a distância e o tempo. A saudade das coisas é mais nitidamente simultânea com a saudade de nós. Começa-se a compreender que o objecto da saudade é afinal o nosso ser profundo e perdido deixado atrás no tempo, por ela recuperável, na sensação inefável e misteriosa de que o infinitamente distante nos está próximo como o Reino de Deus no ensino de Jesus Cristo. (Telmo, 2018: 290)
A saudade do outro dá lugar à saudade do mesmo, do próprio ou do que, neste se encontrando em mais profundo plano, lhe é propriamente essencial. Estamos perante uma alusão que identifica a saudade com o processo de conhecimento iniciático, mas essa identificação surge já com manifesta abstracção de quaisquer formas tradicionais, como as que, do templarismo da fede santa à Kabbalah sefardi, indiciariamente havíamos vislumbrado no primeiro momento da fenomenologia da saudade.
André Benzimra distingue a iniciação da religião de acordo com vários critérios (cfr. Benzimra, 2013: 205-211). A iniciação, eminentemente activa, consistirá numa reapropriação de si: há um Deus imanente, mas oculto, em cada homem, que este deve procurar reactivar em si mesmo, depois de o reencontrar e re-conhecer ao cabo de uma descida às profundezas do seu espírito, podendo o conjunto destas operações resolver-se no esquema triádico em que da catábase se procede para a anábase pela iniciação, entendida esta, no sentido mais rigoroso do termo, como o despertar e a eclosão da energia espiritual. Assim se faz apelo a um esforço que nada tem que ver com a passividade da via religiosa, em que o homem fia da graça a sua salvação, pois que a Deus o conceba infinitamente distante e inacessível e dele espere o socorro exterior, sendo nesse sentido que a noção de oração recobra a sua inteligibilidade instrumental. Ao invés, o iniciado busca a libertação, pela reapropriação de si, tomando como instrumento, segundo Benzimra, não a prece mas a invocação, asserção decerto da maior importância na abordagem à seminal Arte Poética de António Telmo.
Regressemos, porém, a A Aventura Maçónica, em ordem a completar o nosso excurso pela fenomenologia da saudade, de cujo terceiro momento
teve a intuição o novel filósofo António Cândido Franco quando escreveu que o supremo ser da saudade é a não saudade, a saudade de nada. À primeira vista, parece estarmos perante uma afirmação vazia, lançada como um jogo da mente abstracta, sem conteúdo pela contradição que encerra, como se o sim pudesse ser o não ou alguma coisa identificável com a sua negação. Todavia, se àquelas expressões substituirmos a de saudade sem objecto, sem algo de definido para lembrar, teremos de interrogarmo-nos sobre o sentido do não e do nada. “Aquela verdade que nas coisas anda, que mora no visível e no invisível”, aquele “um não sei quê”, de que nos fala Camões, é, de facto, um nada. Mas a saudade desse nada, o sentimento que no-lo revela, é que funda a saudade em si própria e a torna independente de uma relação cujos termos são claramente conhecidos. A saudade é que cria os distantes que por ela vivem, como o amor é que cria os amantes. Existe saudade e amor antes dos termos que ligam. Não é pelo arranjo das coisas, como julgam os mecanicistas, que surge qualquer verdade; elas só são depois e pela verdade que nelas anda, por esse “não sei quê” que mora no visível e no invisível. Ao serem conhecidas como a sua morada, deixam de ser coisas para se transfigurarem em símbolos do para nós indizível.
A saudade e o amor não têm objecto porque uma e outro são o que procuramos. Em si, não são sentimentos. Os respectivos sentimentos emergem na alma quando tocados pelo seu poder de encantamento. Num dos seus supremos graus, o encantamento é assombro. (Telmo, 2018: 290-291)
A saudade de tudo, característica do segundo momento fenomenológico, cedeu o seu lugar à saudade de nada, que não deve, porém, confundir-se com a saudade do Nada, excepto se por este último termo se pretender significar o Absoluto: o Princípio Supremo que os cabalistas designam por En Sof, o para nós indizível na expressão de Telmo. Neste sentido, será lícito afirmar que nada é objecto da saudade, pelo que o “Nada” é o objecto da saudade. A saudade e o amor deixaram de ter um objecto mas, paradoxalmente, continuam a tê-lo. O que mudou, então? A saudade e o amor não emergem já de uma relação. São antes o Espírito universal criador dos termos com que depois se poderão estabelecer as relações. Independentes de uma relação cujos termos são claramente conhecidos, a saudade e o amor são o Absoluto. Absoluto é antónimo de relativo, significante adjectivo da relação.
Se a saudade é “um não sei quê”, um para nós indizível, pode bem ser reconduzida ao não manifestado. Segundo a Kabbalah, será pelas sucessivas etapas da emanação, da criação, da formação e da fabricação que, radicado no Princípio, se origina e desenvolve o processo de manifestação, por este se estabelecendo o conjunto dos mundos que constituirão o objecto, numa primeira fase, da realização espiritual dos grandes mistérios. O que no longo excerto, há pouco transcrito, de A Aventura Maçónica António Telmo enfim significa é a saudade como via dessa mesma realização espiritual.
Não por acaso, embora sem uma razão evidente, terá o filósofo incluído “Sobre a Saudade” no capítulo daquele livro onde agrega pranchas maçónicas e alguns outros textos por si referidos ao “Grau de Mestre”. Mesmo que, conforme o autor anuncia, a primeira parte de A Aventura Maçónica, em que o escrito em apreço se insere, seja preenchida por “Pranchas Lidas em Loja por Nathan de Nathanel”, a verdade é que esse escrito, à semelhança de alguns mais, não é uma prancha: nem o filósofo, ao invés do sucedido noutros casos, se lhe refere como tal; nem nada, pelo seu tom, o seu estilo ou o seu teor, nos autoriza uma semelhante qualificação. Mas se a mestria corresponde, nas lojas azuis, à consumação dos pequenos mistérios, teremos então de admitir que, de alguma sorte, esse texto se encontra onde deve estar, pelo menos prospectivamente.
5. Num apontamento mantido inédito até 2017, ano em que saiu a lume na revista Nova Águia, considera António Telmo que
como o espanto é para gregos (Platão, Aristóteles) o princípio da filosofia, o princípio da filosofia é para os portugueses a saudade. Mas a saudade implica espanto, o espanto de cada um se saber na sua essência mais íntima a substância amada e longínqua. Esta relação produz-se aparentemente através de uma imagem, a de alguém que amamos e que o tempo separou de nós. Na verdade, é de mim que me lembro com saudade, do que em mim é essencial que a separação daquele alguém revelou subitamente impossível de alcançar, e, no entanto, sentido como enigmaticamente próprio. (Telmo, 2017a: 252)
Reencontramos, nestas linhas, ainda que com cambiantes, algumas das ideias já desenvolvidas em A Aventura Maçónica. Não apenas no tocante à abordagem iniciática da saudade como saudade de si, no segundo dos três momentos fenomenológicos que Telmo enunciou, se bem que agora em estreita conexão com o momento inicial; mas também ao assinalar do espanto – ou do assombro, como em “Sobre a Saudade” se optou por dizer – que pode caracterizar o sentimento saudoso. O filósofo não o afirma explicitamente, mas parece indicar-nos ser este quid espantoso ou assombroso verificável naquela experiência que, na senda dos mestres helénicos, garante a afirmação, por si laboriosamente desenvolvida, de que a filosofia portuguesa é a filosofia da saudade. Desde logo no escrito em apreço, ao considerar, como se viu, que o princípio da filosofia é para os portugueses a saudade; mas também noutros dois escritos, publicados postumamente em A Terra Prometida. Assim, se «a filosofia da saudade é a de Sampaio Bruno n’A Ideia de Deus» (Telmo, 2014: 139), e se na obra-prima deste portuense ilustre vamos encontrar «a mais admirável reformulação filosófica do Tratado da Reintegração dos Seres nos seus Princípios Primitivos» (Idem: 126), uma terceira proposição, a de que «martinismo e filosofia portuguesa são a mesma verdade, pela origem e pelo desenvolvimento» (Ibidem), franqueia a conclusão de que a filosofia portuguesa é a filosofia da saudade. Não cabe aqui analisar com um módico de minúcia a correspondente fundamentação. Pretendemos apenas, a este propósito, relevar a importância extrema de que a filosofia da saudade, afinal, se reveste para António Telmo. Na esteira de Álvaro Ribeiro, seu mestre, o filósofo está ciente de que a saudade é uma alegorização ou mitificação da Tradição (cfr. Ribeiro, 2004: 484). Sendo, pois, a filosofia portuguesa, como filosofia da saudade, uma filosofia tradicional, mais do que um acto de coerência, a leitura iniciática que Telmo propõe na sua fenomenologia da saudade será uma inexorabilidade para quem a filosofia ou é operativa ou, verdadeiramente, não chega sequer a ser filosofia.
BIBLIOGRAFIA
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(2009) – A Razão Animada. Lisboa: INCM.
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(2014) – A Terra Prometida – Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império. Sintra: Zéfiro.
(2015) – Luís de Camões e o Segredo d’Os Lusíadas seguido de Páginas Autobiográficas. Sintra: Zéfiro.
(2016) – Viagem a Granada seguida de Poesia. Sintra: Zéfiro.
(2017) – O Horóscopo de Portugal e escritos afins. Sintra: Zéfiro.
(2017a) – “Nove Apontamentos Inéditos”, in Nova Águia, n.º 19, 1.º semestre de 2017. Sintra: Zéfiro.
(2018) – A Aventura Maçónica e Outros Textos Sobre a Arte Real. Sintra: Zéfiro.
EDITORIAL. 16
21-06-2018 11:24
Luz e apogeu
Nesta data, há quatro anos, sob o signo solsticial, com a luz no seu apogeu, a editora Zéfiro, com o apoio institucional e científico do nosso Projecto, iniciava a publicação das Obras Completas de António Telmo. Ontem, no Museu Maçónico Português, foi lançado aquele que é já o nono volume desta colecção. Perante uma casa cheia, tornou-se notório que o filósofo da razão poética vai granjeando o surgimento de novos leitores. Porque nove e novo são palavras estreitamente aparentadas, será de crer que a hora seja de irradiação e descoberta. Mesmo que alguém só muito dificilmente seja profeta na sua própria terra, a obra daquele que os maçons espanhóis põem ao lado de René Guénon, Joseph de Maistre ou Pascoal Martins, e que um notável poeta brasileiro, Ângelo Monteiro, próximo do grande Suassuna, já pusera a par de Ibn Arabî, pode justamente reclamar uma atenção que não se quadra com os limites de um quintal, mesmo que este nos surja como um jardim plantado à beira-mar. A esta luz, editar a sua opera omnia pode infundir a sensação do cumprimento de um dever. Mas isso será bem pouco, quando o entusiasmo não prescinde sequer, na justa medida, de um módico de loucura. Porque António Telmo veio muito antes do seu tempo. E, tal como o homem da fita encarnada que misteriosamente o visitou em Estremoz antes de ser elevado ao grau de mestre, a sua casa tem o mundo por lugar.
«OS MEUS PREFÁCIOS». 15
03-06-2018 11:54
Prefácio, com texto adicional na contracapa, a A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, de Rodrigo Sobral Cunha[1]
Neste livro, Rodrigo Cunha tirou uma história de outra história como quem tirasse uma pérola do seu engaste de ouro. Talvez nada mais esteja hoje ao nosso alcance do que tirar histórias de histórias. Porém, ao fazê-lo, se na primeira história há verdade e a soubermos ver, continuamos a engendrar segundo o espírito e poderemos, talvez, olhar o que está para além de nós. Não será este o caso de Rodrigo Cunha?
A História Verdadeira de Aladino, compreendida através do que seu autor nos diz dos liliputianos, anões e gigantes, à luz do raio, que lhe coube, da lâmpada maravilhosa, não virá convencer os incrédulos, desta, tão actual, impressionante profecia:
«Sobre os traços de Seth nascerá o último ser engendrado do género humano. Ele será portador dos seus segredos. Depois, não haverá mais filhos entre os humanos, porque ele é o Selo dos engendrados.
Com ele, nascerá uma irmã. Ela virá ao mundo antes dele, e ele depois dela, a sua cabeça junto aos seus pés.
O lugar desse nascimento será a China e a sua língua será a dos povos deste país.
Em seguida, a esterilidade espalhar-se-á entre os homens; as uniões sem progénie multiplicar-se-ão.
Chamará os homens para Deus, mas ninguém o ouvirá.
Quando Deus, o Altíssimo, o fizer morrer e Ele tenha feito morrer os crentes do seu tempo, aqueles que restarem serão como bestas, sem consideração pelo que é lícito e pelo que não o é. Agirão governados pela natureza, dominados por instintos que nem o Intelecto nem a Lei controlarão. É sobre eles que se levantará a Hora.»
Segundo estas palavras de Ibn’Arabî, o último descendente de Seth nascerá, como vem de ler-se, na China. O mágico negro foi lá que adivinhou Aladino e a sua lâmpada e veio de extremo a extremo da terra até ao Império do Meio, para, uma vez de posse da lâmpada, poder dominar o mundo, fazer dele o seu globo, uma farsa macaqueada do Quinto Império. No momento exacto em que estava prestes a consegui-lo, uma criança negou-lhe esse poder. Aladino não lhe entregou a lâmpada. Pouco foi preciso depois para que nesse mesmo mundo, que é o nosso, reinasse a Bondade e a Beleza.
E também a Verdade, porque tudo será um Milagre da Luz.
É essa mesma luz que perpassa, remota, nas páginas admiráveis em que Rodrigo pretende contar-nos a Verdadeira História de Aladino.
Texto publicado na contracapa do livro
«Pediu-me o autor de A Verdadeira História de Aladino que a fizesse preceder de umas palavras mágicas capazes de abrirem uma Introdução, isto é, uma Porta ou Janela para aqueles que não sejam capazes de entrar pelos telhados. A verdade é que, depois, a lermos a essa história tirada de outra história, sentimo-nos como Aladino nos jardins subterrâneos e o autor aparece-nos como o Mágico Africano, pois ao pôr no fecho dela a palavra exclamativa “Continua!” faz o equivalente ao que aquele fez ao colocar de novo a pedra para que o jovem jamais de lá pudesse sair. Mas as palavras do autor têm a qualidade de um ritmo superior e funcionam como o anel de poder e de guarda que o Mestre deu ao discípulo e assim abre-se em nós a perspectiva de continuar a história maravilhosa dentro da nossa alma, pois o “Continua!” é uma pedra que se abre, uma pedra que se levanta, fazendo com que nos sintamos impregnados do santo desejo de encontrarmos nos subterrâneos dessa alma a lâmpada maravilhosa.»
António Telmo
[1] Nota do Editor – Publicado originalmente em Rodrigo Sobral Cunha, A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, Sintra, Zéfiro, 2009, pp. 7-8.
UNIVERSO TÉLMICO. 59
03-06-2018 11:38Com transcrição, organização, introdução e notas de Pedro Martins, nove cartas inéditas de Agostinho da Silva para Joel Serrão serão publicadas no próximo número da revista de cultura libertária A IDEIA, em boa parte dedicado à figura do Estranhíssimo Colosso, num vastíssimo dossier com coordenação editorial de António Cândido Franco, Pedro Martins, Risoleta C. Pinto Pedro e Rui Lopo. Em pré-publicação, adiantamos hoje aos nossos leitores uma dessas missivas.

Agostinho da Silva[1]
8.12.75
Caríssimo Dr. Joel
Desta vez, com muita pena minha, não houve “Conversação da Quintola”[2], porque me foi um fim-de-semana muito confuso, e estou a ver que o outro próximo vai na mesma. De algum modo me consolei escrevendo a nosso Ramón Piñeiro[3] e assegurando-lhe que o Amigo não esquece a Galiza e seu grande futuro papel. Leu o artigo do Oliveira Marques[4], no Expresso de sábado? Não fala nisso, mas claro que Santiago é a chave da questão: a maneira de “pôr o guizo ao gato”. Um grande abraço do Agostinho
[1] Nome impresso em timbre.
[2] Referência à residência de Joel Serrão na Quintola de Santana, na freguesia rural do concelho de Sesimbra. Por esta menção se comprova enfim o que em Agostinho da Silva em Sesimbra, à falta de testemunhos ou documentos, somente se aventara, ainda que com um elevado grau de probabilidade: o convívio sesimbrense de Agostinho da Silva e Joel Serrão.
[3] Filósofo, ensaísta e político galego, nascido em 1915 e que viria a falecer em 1990, em Santiago de Compostela. Acérrimo defensor da autonomia da Galiza e da afirmação dos valores linguísticos e culturais desta “nacionalidade histórica”, a sua amizade com Agostinho, que por certo assumiu feição convivial quando o português se deslocava à Galiza, evidencia-se também no plano da correspondência epistolar – cfr. também, infra, Carta V – e deixa-se ainda documentar na biblioteca pessoal do filósofo português, onde, de Piñeiro, se encontra o livro Filosofia da Saudade, galáxia ensaio e investigación, Vigo, Editorial Galaxia, 1984, com a seguinte dedicatória manuscrita: Para o Prof. Agostinho da Silva, en homenaxe de admiración sincera e de amistade certa de Ramón Piñeiro, Campostela, 4-X-84.
[4] António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques. Nasceu no Estoril, em 1933, vindo a falecer em Lisboa, em 23 de Janeiro de 2007. Historiador, professor universitário e maçon, foi colega de Joel Serrão no corpo docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
VOZ PASSIVA. 83
13-05-2018 13:36
Para uma reintegração[1]
Dalila Pereira da Costa
Até fins do século XV, houve em Portugal como em toda a Península Ibérica, a partilha na textura cultural e civilizacional, da sabedoria contida e transmitida nas três etnias e tradições de sua humanidade, cristã, judaica e islâmica: como tesouro da Tradição, única e primordial, sob três formas e seus símbolos específicos. Ou como três ramos duma mesma árvore comum onde corre a mesma seiva vivificante. Com o banimento do ramo judaico e islâmico sob o radicalismo da elite visigótica católica, uma cisão e esquecimento dessa Tradição se deu, que nestes quatro séculos se tem mostrado destrutiva nas suas consequências: perda da antiga harmonia dessa humanidade peninsular e nela, da portuguesa e sua mensagem e missão no mundo. Será esta catástrofe que Américo Castro analisou e declarou nos seus livros, tal o De La Edade Conflictiva.
Entre nós, António Telmo vai realizando o acto de unir as três partes desse tesouro perdido, soterrado ou desbaratado; ou unir de novo os três ramos dum só tronco comum. Procurar, aqui e além ou desenterrar e unir, pedaço a pedaço os fragmentos desse todo há muito separado. Trabalho de hermenêutica, mais do que exegese; e que no seu fim será a tentativa de procurar a palavra perdida, na secretude do seu silêncio. Depois desses longos séculos de traição de si mesma, na busca de modelos ou encarnações alheias e destrutivas, a alma portuguesa tem, num filho da sua antiga Lusitânia, o mistagogo tentando que ela se reencontre na sua identidade, una e tripartida: a que lhe permitiu no seu passado sua plena realização ou cumprimento do seu dever, como mandato divino, sobre a terra.
Através da história, simbólica, língua, poesia, história portuguesa, os livros de António Telmo, como aquele que justamente acaba de surgir, Filosofia e Kabbalah, serão, e pretenderão ser, como chamadas, apelos de resposta inadiável, a essa alma extraviada, para um seu acto de «conhece-te a ti mesmo» - tal o dístico do frontão do templo de Delfos, ou as palavras do mestrado de Sócrates: como primeiro e necessário passo de todo o caminho de iniciação ou sabedoria: e actuante no mundo como missão futura.
Para esse apelo, houve uma prévia leitura do oculto, nas diversas manifestações dessa alma como sua vontade, projecto, manifestado, ou falhado nos seus tempos de sono, ou fuga do real.
Porto, 30 Março 1990
[1] Publicado em Arca do Verbo, Ano III – 1.ª Série, n.º 110, in O Setubalense, de 20 de Fevereiro de 1991.
VOZ PASSIVA. 82
13-05-2018 13:09
A palavra perdida[1]
Afonso Botelho
Foi Álvaro Ribeiro – sabemo-lo bem – quem se preocupou em acentuar que o positivismo não se constituiu em escola filosófica.
A minha geração, que comprovou a função intermédia deste movimento, não terá ainda hoje dificuldade em verificar que a sua intervenção no desenvolvimento doutrinário, na edificação institucional, na argumentação filosófica persiste em se insinuar no pensamento como uma lei redutora, tal qual a que Leonardo Coimbra definiu por coisificação.
Se o positivismo possui este poder de infiltração e persistência não foram suficientes os esforços os nossos Mestres nem o respaldo da doutrina criacionista para libertar o pensamento da acção entrópica. Aliás, a intervenção do pensamento essencialmente positivista faz-se sentir no acto poético de pensar e na própria raiz da livre criação.
Ora na refutação das teses e normas positivistas, sistematicamente feita de Leonardo Coimbra ao movimento do 57, só a obra superiormente inteligente de António Telmo erradica aquela perversa acção anti-poética. Com efeito, desde 1963 e com a Arte Poética que este filósofo percorre os caminhos sempre iluminados da imaginação e da intuição na procura das energias espirituais transmitindo realidade àquelas coisas «que o positivismo relegou para o campo da superstição».
O pensamento adormecido dos portugueses necessitava deste despertar do sono plúmbeo de modo a reconhecer o que lhe tem estado oculto nas formas históricas, na génese da língua, nos sinais da religião e na própria tradição filosófica.
Ao longo de trinta anos António Telmo tem pensado por nós e para nós, desvelando o secreto em tudo o que esquecidamente tomávamos apenas por oculto.
[1] Publicado em Arca do Verbo, Ano III – 1.ª Série, n.º 110, in O Setubalense, de 20 de Fevereiro de 1991.
INÉDITOS. 75
06-05-2018 18:40
Uma prancha do grau de Aprendiz[1]
À partida, para que as minhas palavras fiquem bem claras nesta Loja perfeitamente iluminada, devo dizer que não pretendo com elas ensinar o que quer que seja, pelo que as afirmações que pareça fazer são, na realidade, proposições ou propostas, mais dirigidas a mim próprio do que a quem me queira ouvir.
No dia em que fui recebido na Loja Quinto Império e em sessões ulteriores, vieram do Venerável Mestre e de outros respeitáveis Mestres palavras que destacavam uma sabedoria que me é atribuída, com maior ou menor verdade, só porque sou autor de alguns livros em que procurei dar da língua, da literatura e da história portuguesas uma nova visão à luz do esoterismo. Tal sabedoria, dado que seja lícito designar assim o que é um mero saber teórico, deixei-a lá fora no momento em que me despojei de todos os metais. Ela foi-me restituída, mas para que faça dela um uso diferente do que fazia antes.
E, dentro desse uso, está a atenção que devo prestar ao que se passa na Loja, de modo a tomar perfeita consciência do que é o meu lugar, um lugar situado ao Norte e que devo compreender pelas seguintes palavras de Dante, no primeiro canto do Purgatório: «Ó gentes que habitais o Norte, como lamento a vossa viuvez por não poderdes contemplar as estrelas flamejantes do Cruzeiro do Sul.»
É que o meu saber, se algum tenho e se alguma coisa vale, foi todo adquirido lá fora, no mundo profano, e aqui só terá algum sentido no dia em que o saiba transformar num saber iniciático, o que equivale a uma completa transubstanciação da sua natureza. Tal só é possível ascendendo pelos degraus da escada que conduz ao Templo. Segundo me parece e se me afigura certo, neste lugar onde por entre trevas imagino a luz total, as iniciações que abrem acesso aos superiores graus conferem pelo rito em cada um deles uma qualidade que nenhuma sabedoria profana pode superar, até porque, como disse, a sabedoria que lhe corresponde é de uma natureza inteiramente diferente da que podemos adquirir por caminhos profanos. Se assim não fosse, nada do que aqui se passa teria qualquer sentido.
Isto significa que o saber que alguém tenha adquirido por esses caminhos lá de fora, como é o caso, para dar exemplos, de um professor universitário ou de um cientista laureado, não só nada tem que ver com o que aqui se aprende como constitui até um impedimento, por ser uma falsa luz, à iluminação pela luz verdadeira. Para o conseguir, a alma teve de se adaptar àquelas condições sem as quais não se trepa no mundo exterior social, condições sobretudo de ordem mental, onde se criam vícios do entendimento muitas vezes difíceis de extirpar. Nessa adaptação a alma sofre múltiplas deformações, uma das quais é a convicção de que está mais apta do que outras, menos cultas, de compreender o mundo misterioso em que foi recebido. Ora todos nós sabemos que para esta recepção se foi previamente reduzido à condição de nem nu nem vestido. A iniciação, pelas viagens simbólicas, operou nova redução, que teve por resultado pôr a alma do recipiendário num estado comparável ao da matéria pura e indiferenciada, que a fizesse sensível à influência transcendente da luz. Assim um espelho deve oferecer uma superfície lisa e polida para que nele se forme a imagem que a luz transporta.
Como observou o Venerável Mestre que presidiu no Oriente à minha iniciação, aos graus que se realizam na ordem do ser e às funções que se assumem na ordem do aparecer não é necessário que corresponda na ordem mental qualquer distinção ou privilégio, pois, ensinava ele, aquilo de que se trata é de conservar e de transmitir uma influência espiritual e de tornar presentes os grandes significados pelos quais se manifesta a sabedoria do Grande Arquitecto do Universo. Perante esta presença supranormal o que é que vale o nosso demasiado humano saber? Perante ela não somos todos demasiado humanos?
Eu observo do Norte o “quadrado longo”, que nos situa aqui, distribuindo-nos por graus e funções. Vejo que, no domínio das funções, o Venerável Mestre, o Irmão Secretário, o Irmão Tesoureiro e os dois primeiros Vigilantes, compõem a figura do pentagrama e que o Irmão Orador, pela palavra, e o Irmão Mestre de Cerimónias, pelo movimento do corpo, criam as ligações e as correntes que tornam esse pentagrama um símbolo vivente. Verifico que os Aprendizes estão colocados no Norte, os Companheiros no Sul e os Mestres no Oriente. Os dois Vigilantes, situados a ocidente, fazem, enquanto guardiões, a cobertura da Loja por onde ela poderia estar sujeita às influências profanas e dirigem o trabalho dos obreiros menores.
O indivíduo que assume transitoriamente esta ou aquela função é comparável ao actor que desempenha um papel no teatro. Desde que represente bem esse papel, para o que evidentemente terá de ter certas qualidades excepcionais, nele veremos Hamlet ou o Rei Lear e a carga de significação que estas personagens transportam nada tem que ver com a qualidade do indivíduo que lhes dá forma.
No catecismo para o grau de Aprendiz, não está dito que os três primeiros degraus, que o neófito teve de subir durante a iniciação, correspondem à Poesia, à Música e à Arte do Desenho como as artes que ele deve praticar para se poder libertar das escabrosidades da pedra bruta que arrastou durante a vida enquanto profano. Não está dito, mas julgo ser bom que ele o saiba, sem o que o seu trabalho de desbaste não se pode efectuar eficazmente.
Fazer versos, compor músicas ou tocá-las e desenhar são actividades ao alcance de qualquer profano que tenha aptidão para tal. Também aqui não devemos confundir o que se ensina nas escolas públicas com o que constitui a intimidade dos nossos mistérios. Os exemplos de homens como Teixeira de Pascoaes, Wolfgang Mozart e Albrecht Dürer não devem enganar-nos. Por este ou aquele modo estiveram ligados a uma organização iniciática, sabendo-se para os exemplos citados que essa organização era a Maçonaria. A poesia de Fernando Pessoa não se explica em uma relação análoga e, por isso mesmo, os investigadores que estudam seriamente a sua obra, (…)[2], se interrogam sobre a natureza exacta dessa relação. A ligação a uma organização iniciática permite explicar a universalidade das respectivas obras, mas isso não quer dizer que tenha sido ali que tenham aprendido a fazer versos, a compor músicas e a desenhar ou pintar.
Por Poesia, por Música e por Arte de Desenhar teremos de entender outra coisa, precisamente o que não está ao alcance do profano. Ora, o que é que não está ao alcance do profano? Precisamente o rito, com tudo o que nele se inclui e por ele se anima de uma significação activa na relação do estar com o ser, de estar aqui com o ser no mundo sobrenatural, enigmático e misterioso que é o domínio transcendental do Grande Arquitecto do Universo. Eu digo o rito e não os símbolos, porque estes só são verdadeiramente símbolos quando nele integrados. Por isso mesmo, eles podem ser postos lá fora, aparecerem em livros ou me fotografias onde dificilmente deixarão de ser mais do que letra morta. Poder-se-á objectar que também o rito pode ser transposto para o exterior por alguém que se tenha suficientemente informado de todo o processo que o constitui. Não será um rito, mas uma paródia de rito, porque lhe falta a transmissão da Baraka, fundado no poder que, de cadeia em cadeia, o Venerável Mestre recebe do Grande Arquitecto do Universo.
António Telmo
[1] Nota do editor – Texto encontrado inédito no espólio de António Telmo. O título é da nossa responsabilidade.
[2] Nota do editor – Suprimimos uma brevíssima passagem do texto, no estrito respeito pela reserva da identidade de um maçon que nela é referido.
INÉDITOS. 74
02-05-2018 09:38No dia em que celebraria 91 anos se ainda estivesse fisicamente entre nós, assinalamos o aniversário do nosso patrono com a publicação de um excerto inédito de Uma Loja de São João, estudo que fará parte integrante do Volume IX das suas Obras Completas, A Aventura Maçónica e outros textos sobre a Arte Real, que será lançado, com a chancela da Zéfiro, no próximo dia 20 de Junho, pelas 18:30, no Museu Maçónico Português. Prefaciado por Risoleta C. Pinto Pedro, este novo volume será apresentado, no seu lançamento, por António Carlos Carvalho.

Uma Loja São João: Entrada ou intróito
Estremoz é, no seu traçado medieval, uma cidade rodeada por muralhas, aberta para o exterior por quatro portas, a dos Currais, a de Évora, a de Santo António e a de Santa Catarina, a padroeira da filosofia. Há, porém, uma quinta porta, que não se vê, no centro da cidade. Dela só se lhe conhece o nome: a Porta Nova. Contíguo ao Rossio, o vasto largo, hoje de Marquês de Pombal, outrora de São João, como se vê pela lápide que o identifica, está o Largo da Porta Nova, mas em vão procuramos; de porta antiga, destacada nada vemos. O seu maior edifício e o mais antigo é o que parece ter sido um convento, com um claustro e belos azulejos lá dentro. De uma das suas janelas, no primeiro andar, foi anunciado ao povo de Estremoz a queda da Monarquia e por isso o largo recebeu o nome oficial de Largo da República. No rés-do-chão é hoje a sede da Sociedade Recreativa Popular Estremocense, conhecida precisamente por Porta Nova. Há, de facto, lá dentro, habitualmente fechada para o exterior que não nos diz nada, uma grande e magnífica porta, aquela mesmo que poderia ilustrar a capa deste livro. Mas ninguém liga o nome à coisa, talvez porque cada um tem na ideia uma porta do tipo das quatro que se abrem nas muralhas.
Por ela se entrava para um santuário numa vasta sala, hoje utilizada para jogar o bilhar e as cartas, ler os jornais e, ocasionalmente, para ver na televisão um desafio de futebol. Do santuário restam os belos azulejos do século XVIII que cobrem parte da abóbada e das paredes.
A Porta Nova é, pois, uma porta para o interior, o que condiz admiravelmente com ser a quinta. O interior é, como se disse, um santuário, o que só há alguns anos se tornou possível imaginar. Durante mais de uma centena de anos, os azulejos estiveram tapados por uma espessa camada de caliça que o acaso de umas obras de restauro levantou, pondo à vista uma das maiores maravilhas da nossa arte simbólica. Quis o Desígnio que o sócio n.º da Sociedade Recreativa Popular Estremocense estivesse lá quando se deu o descobrimento dos azulejos. Eu mesmo, o autor deste livro, filósofo nas horas livres, praticante de bilhar e professor de língua portuguesa nas horas presas.
O espantoso é que, onde outros vêem com razão uma igreja, ele veja uma Loja de São João do século XVIII e, mais extraordinário ainda, o lugar sagrado onde celebrava os seus ritos um ramo da misteriosa Ordem Templária ou Ordem da Serpente ou Ordem Sebastianista, nas três designações pelas quais a fez conhecer ao mundo o misterioso poeta Fernando Pessoa. Isto ir-se-á mostrando à medida que estas páginas vão sendo escritas. Claro que não escrevo para historiadores, mas para poetas. “A poesia é mais verdadeira do que a história”, ensinou Aristóteles, mas para tanto é necessário que a poesia esteja fundada numa verdade superior à da história, pois só esta é digna do seu nome. A história deverá servilmente encontrar e apresentar os documentos provativos de uma verdade que, por si mesma, não seria capaz de conceber. E aqui fica bem citar Agostinho da Silva quando diz que primeiro faz-se a teoria, depois logo se arranjam os documentos.
Eu sei que me vão dar por um espírito de imaginação desvairada e que, se me tomarem outros minimamente a sério, aparecerão a afirmar, com documentos ou sem eles, que, diga-se o que se quiser dizer, do que se trata é de uma antiga igreja, católica, apostólica, romana, como se, a ser assim, fosse impossível conciliar este facto com o de serem as imagens impressas nos azulejos a simbólica de uma Loja de São João. A coisa admirável é que, aqui, estão maravilhosamente associadas Igreja Católica e Maçonaria.
Neste sentido, o que importa desde logo ver é se, nessa simbólica se exprime o pensamento de uma Fraternidade, deixando para depois saber que tipo de Fraternidade, na relação do exotérico com o esotérico. Nada mais fácil. A obra está assinada. Podem ver-se na parte inferior do manto da segunda personagem, ao lado esquerdo de São João Baptista, três letras bem visíveis, F. MI, que são a abreviatura de Fraternidade da Misericórdia. A personagem tem sobre o peito uma cruz semelhante à templária. Não devemos atribuir ao acaso a sua escolha para portador da assinatura.
Tudo está em saber o que eram eram, em toda a sua extensão e em toda a sua profundidade, as Misericórdias fundadas por D. Leonor. Recordo o seguinte: A Rainha (representada à direita de São João nos azulejos) era irmã do Duque de Viseu, assassinado pelo Rei, D. João II; era também irmã de D. Manuel I; pertencia, pois, àquele grupo de nobres ligados à memória de D. Afonso V que D. João II desbaratou, matando e prendendo. Alguns deles conseguiram fugir para Espanha, entre os quais Isaac Abarnabel. Quem era Isaac Abarnabel? O Hermes Trimegisto, segundo os judeus. Cabalista e sábio tinha sido o conselheiro de D. Afonso V e o seu mestre espiritual. Era pai de Bernardim Ribeiro, o da Menina e Moça, o Leão Hebreu italiano.
Estes factos sugerem curiosas hipóteses. Mas não há nada tão incerto como a história. Pois se nós não sabemos o que se passa detrás dos acontecimentos políticos de hoje, que garantia oferecem as explicações dos historiadores com seus métodos científicos pretendendo indicar as causas de acontecimentos remotos? Os documentos só falam do que está à vista. Contra os documentos há todos os argumentos. Tudo o que do passado interessa verdadeiramente saber só o pode revelar o estudo daquilo que os historiadores põem de parte: a literatura, a arquitectura, a pintura, as lendas, desde que a mesma luz nos ilumine a decifrar o que foi cifrado.
Na Misericórdia de Sesimbra, há um quadro de Gregório Lopes (século XVI), contemporâneo da sua fundação, com Nossa Senhora de largo manto azul, aberto a abraçar o mundo e, de um e de outro lado, o clero e a nobreza, tudo como aqui, até à figuração das sete virtudes na peanha acima da qual se eleva. Aliás, este arquétipo parece ser comum a todas as Misericórdias do país. Mas, no quadro de Gregório Lopes, há um pormenor inquietante para o beatério, não para os que ainda sabem o que é o catolicismo e a sua sabedoria. A figura mais próxima de Nossa Senhora da Misericórdia é um homem do povo, entendendo por povo a terceira classe medieval. Está ajoelhado sobre o joelho esquerdo; a perna direita, em postura de esquadro, tem a calça arregaçada acima do joelho. É o que, ainda hoje, se pode observar na Maçonaria: o modo de ajoelhar, a altura da calça, a adoração da aurora que se levanta no Oriente. O candidato a Aprendiz ajoelha assim perante o altar do Venerável.
A Maçonaria em Portugal no século XVI! Como é isto possível?
Mas a Maçonaria em Portugal no século XVIII é um facto que não pode ser escamoteado. Abriram-se-lhe as portas com o Marquês de Pombal. Porque não haveria, então, uma Loja em Estremoz?
Houve, de facto, em Estremoz, uma Loja a funcionar no primeiro andar do edifício da Porta Nova, mesmo por cima da sala dos azulejos no segundo piso, mas nos fins do século XIX e princípios do século XX. Era conhecida exteriormente por Centro Revolucionário Republicano. Foram os maçons que anunciaram ao povo a implantação da República.
Isto, porém, pouco tem que ver com o que me proponho mostrar. A Maçonaria inspiradora do Centro Revolucionário Republicano é uma Maçonaria importada de França. A ideia que lanço é a da existência no século XVIII, senão até hoje, de uma Maçonaria caracterizadamente portuguesa e é para isso que servem os azulejos. Os mesmos símbolos, de um modo geral, devem, porém, aparecer numa e noutra, porque ambas derivam, embora por caminhos diferentes e diferentes paisagens de alma, da mesma origem remota. Adiante se tentará explicar por que misteriosas razões a nossa ficou até agora coberta ou encoberta.
Não é apenas um pormenor, como no quadro de Gregório Lopes, que dá força àquela ideia. Todas as indicações simbólicas apontam para a hipótese de que, em Estremoz, estamos perante o que foi uma Loja de São João, na linha das Misericórdias fundadas por D. Leonor.
António Telmo
UNIVERSO TÉLMICO. 58
27-04-2018 12:34Um fragmento da II parte de Vida Conversável, obra ainda inédita que resultou do registo de uma longa conversa de Agostinho da Silva com Henryk Siewierski, antecedido de uma nota introdutória assinada por este amigo polaco de Agostinho, é uma das valiosíssimas colaborações que vão integrar o próximo número da revista de cultura libertária A Ideia, especialmente dedicado à vida e à obra do autor de Conversação com Diotima e que será lançada no final do ano em curso, com coordenação editorial de António Cândido Franco, Pedro Martins, Risoleta C. Pinto Pedro e Rui Lopo. Em pré-publicação, antecipamos hoje aos nossos leitores um excerto dessa notável peça.

Vida Conversável
Fragmento da II parte (inédita)
Agostinho da Silva
com Henryk Siewierski
NOTA INTRODUTÓRIA
O texto aqui reproduzido integra segunda parte, ainda inédita, do livro Vida conversável, uma longa entrevista com Agostinho da Silva, conduzida e gravada nos últimos meses de 1985 e primeiros de 1986, em Lisboa. A primeira parte foi publicada pelo Núcleo dos Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, em 1994 e, logo em seguida pela editora Assírio & Alvim, de Lisboa. Somente em 2014 apareceu perdido na passagem dos séculos e nas desventuras editoriais o texto datilografado da segunda parte. Atualmente a Vida conversável aguarda a sua publicação na íntegra.
Concluída a gravação, na primavera de 1986, Agostinho da Silva quis que o seu interlocutor dispusesse do texto das conversas de forma que acharia melhor. Tomei a liberdade de retirar do texto as minhas perguntas, comentários, provocações, já suficientemente presentes nas respostas, e dessa forma deixar correr a fala do Professor, não interromper nem fragmentar o seu fluxo, preservar ao máximo o caráter oral e o estilo individual do discurso que resiste a quaisquer interferências na sua exigente e envolvente sintaxe. Espero que desta forma o Leitor possa presenciar, também como o ouvinte, esse discurso inacabado e indisciplinado sobre tudo, em que a retrospecção da vida, a reflexão e a experiência revivida de busca do saber se confundem e complementam, e talvez o mais importante aconteça entre os domínios da ciência e da poesia, da física e da metafísica, em diálogo com o mundo e com o outro, além dos sistemas limitados pelos dogmas e preconceitos.
Brasília, 25 de março de 2018.
Henryk Siewierski
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47.
Seriedade com que uma criança brinca. No templo budista em Tóquio. Toynbee e o futuro do mundo. Herdeiros do Cristo e do Maomé. Entender os outros no Oriente e no Ocidente. A busca da unidade fundamental pelo europeu. China, Brasil, Japão. Fernando Pessoa – a unidade e a pluralidade. O fenômeno e o numeno. O verbo ser. Tempo e eternidade. Homem – filho de Deus.
A começar da tal história de Tóquio, neste livrinho do Nietzsche reencontrei uma frase que eu já conhecia de qualquer outro lado e que me parece muito importante, na qual ele diz que um homem atinge o máximo de maturidade na sua vida quando tem a seriedade com que uma criança brinca.
Ora, muito bem. Eu estava a ouvir uma história de Tóquio e estava a pensar naquilo que me contou do seu Miguel brincar em português. Quando o Miguel está inteiramente sério, segundo Nietzsche, isto é, quando não é um heterônimo na casa onde fala polaco, quando é ele mesmo no máximo da sua maturidade de 6 anos, no máximo de sua seriedade, o nosso amigo fala português, não aquele português do diálogo com que ele fala com os meninos da escola, mas um português do monólogo consigo próprio. Esse é um ponto muito importante. Quer dizer, se quando estamos plenos na vida, nós não estamos a ter uma linguagem connosco. Por enquanto, o menino está tendo uma linguagem falada, ele fala em português. Provavelmente, um pouco mais tarde, o menino brinca sem falar, possivelmente é o que vai suceder. E, quando ele for homem e estiver no máximo da seriedade, ele porventura não fala, ele vai abolir todos os heterônimos, porque ele falar quando brinca ainda é de certo modo um reflexo do heterônimo que ele é na escola. Um dia, quando ele estiver inteiramente sério, apaga todos os heterônimos e fará uma coisa que não tem linguagem para ele.
Quando eu estava na tal história do templo em Tóquio, eu realmente estava a falar alguma linguagem ou estava a ser mudo numa verdadeira linguagem? Eu estava realmente a ser dois ou três heterônimos. Estava ser um português ou brasileiro, um brasileiro em Tóquio, num país estrangeiro e, portanto, vendo as coisas com certa estranheza, achando muito interessante o som do sino e o som da moeda batendo na madeira. E ao mesmo tempo estava com as lembranças das minhas origens. Era um brasileiro em Tóquio, mas era também um português, pequeno, rezando as orações que a mãe em Barca d’Alva me tinha ensinado. Mas, na realidade, eu porventura estava silencioso. O íntimo de tudo não era eu estar a dizer as orações – até não sei se as dizia em voz alta se não –, nem tocar o sino, nem lançar a moeda. Eu estava de fato sendo ali plenamente religioso com o íntimo de cada uma daquelas coisas tão diferentes. Porque naquele templo já devia estar misturado culto dos antepassados e religião do Buda – primeira mistura. E a outra mistura que eu estava fazer era realmente a de uma religião que não era nem sequer um catolicismo ocidental, que era um catolicismo da minha mãe que porventura não seria um catolicismo muito ortodoxo, porque não me lembro por exemplo de ela ir à missa, de maneira que já devia ser um catolicismo meio avariado pelos mouros lá de baixo porque ela era originária do Algarve. Não nasceu no Algarve, nasceu em Lisboa, mas a minha avó, mãe dela, era realmente do Algarve, de maneira que aquele catolicismo dela já devia estar temperado. Além disso ela tinha tido uma experiência de Brasil, onde também não podemos garantir que o catolicismo seja perfeitamente ortodoxo. Bem, era, portanto, uma coisa qualquer que, no entanto, ela exprimia pelas orações que fazem parte do breviário, fazem parte da catequese de qualquer católico, mas provavelmente havia um silêncio interno fundamental.
Então, quando nós falamos desses homens todos que cita o nosso amigo Toynbee – nesta parte do Civilization on Trial que citou, em que ele diz que os nossos próprios descendentes não vão ser simplesmente ocidentais como nós, mas vão ser os herdeiros de Confúcio e Lao Tse, de Cristo e Maomé, de Lenine e Ghandi, etc. –, nós vemos evidentemente que não é aquilo que ele diz pelas suas palavras o que tem importância. Quando nós pensamos nas guerras que houve entre cristãos e mouros, entre muçulmanos e cristãos, as mais violentas que têm havido no mundo, e evidente que nós não pensamos que sejamos ao mesmo tempo herdeiros duma contradição. Mas é possivel que, à medida que nós nos vamos afastando no tempo, que vamos vendo a história mais longínqua se comecem esbatendo aquelas coisas que caracterizam cada uma dessas personalidades, para ficar apenas o fundamental. Exatamente como há diferença quando nós estamos junto dum homem e ele nos aparece com todas as suas características agradáveis ou desagradáveis, mas, à medida que nos afastamos dele, à medida que ele se afasta de nós e aquilo que é propriamente individual nele se vai esbatendo, fica apenas um pouco mais longe um ser humano, homem ou mulher, depois alguma coisa que era um vulto que sabemos não é um leão nem um elefante, é realmente uma pessoa, é um homem, e isso pode ser uma tranquilidade quando ele está misturado noutros seres… Se eu estou perdido no deserto e me aparecem bichos que não me interessam nada porque podem atacar e de repente aparece uma silhueta de homem lá no horizonte, a vida nova entrou imediatamente em mim. Eu não sei se aquele homem é mouro, se não é mouro, se me vai bater, se me vai matar, se me vai roubar, não sei absolutamente nada, mas pode haver uma esperança porque apareceu uma figura humana. Então, é possível que, à medida que nós nos afastamos do ponto da história em que eles estiveram, as coisas mudem. Quer dizer que nós tínhamos o homem fundamentalmente e não a sua circunstância. Quando se diz que cada pessoa é o que é mais a sua circunstância por adaptação, por harmonia ou por combate, não importa, ele e a sua circunstância, é possível que, à maneira que a história vai estando longínqua para nós, a circunstância desapareça ou apenas sirva para pôr em relevo umas determinadas características que nos dizem mais que as outras características que foram simplesmente o tempo dele.
UNIVERSO TÉLMICO. 57
17-04-2018 15:43Em pré-publicação, antecipamos aos leitores o prefácio que António Cândido Franco escreveu para Uma Vida de Herói: Morte e Transfiguração de Jaime Cortesão, de Pedro Martins, que será lançado no próximo dia 4 de Julho, no Museu Maçónico Português, em Lisboa.

Prefácio a Uma Vida de Herói: morte e transfiguração de Jaime Cortesão, de Pedro Martins
António Cândido Franco
Pedro Martins neste seu novo trabalho não se afasta da sua linha anterior – ler o que há de mais vital e vivo nas manifestações da cultura portuguesa a partir dum estrato iniciático, que é anterior às religiões e que lhes sobreviveu muitas vezes à margem ou mesmo em franco antagonismo.
Isto deu já proveitosos frutos na leitura duma pintura ainda tão mal conhecida como a de Vasco Fernandes, o autor dos painéis do Retábulo da Sé de Viseu, coevo de Gil Vicente e de Bernardim e sobre o qual tão pouco se sabe.
Com idênticas chaves de leitura – experiência e saber iniciáticos – ele consegue agora uma cerrada e prodigiosa interpretação de parte da obra de Jaime Cortesão e que fica desde já a ser, pela inteligência, finura e teimosia com que cinge as letras, um marco assinalável de progressão nos estudos sobre a poesia e o teatro do autor.
Só agora, após este trabalho, estamos em condições de começar a vislumbrar as verdadeiras dimensões duma obra poética e dramática que sem a simbologia iniciática ficava amputada dum espírito essencial que em muito contribui para a sua altura e o seu desmedido valor.
Cortesão é um dos grandes escritores do século XX português e este livro de Pedro Martins, escrito numa era sombria de morte e de esquecimento, contribui como nenhum outro até hoje para lhe restituir a aura de grandeza e de luz que tem.
