VOZ PASSIVA. 84

26-07-2018 15:41

Publicamos hoje "A fenomenologia da Saudade em António Telmo", comunicação que Pedro Martins, membro do nosso Projecto, apresentou ao VI Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, no passado dia 24 de Maio, em Lisboa.

A fenomenologia da Saudade em António Telmo

Pedro Martins

 

1. O nome de António Telmo não surge usualmente associado à reflexão filosófica sobre a Saudade, ao invés do que sucede, por exemplo, com os de Teixeira de Pascoaes, Afonso Botelho, Dalila Pereira da Costa, Pinharanda Gomes ou António Braz Teixeira, para não irmos além da primeira geração da Filosofia Portuguesa. Ainda assim, estarei em crer que a presente abordagem nada terá de excêntrica, pois que se trate de um pensador de pleno direito inscrito na tradição da Escola Portuense; nem será insólita, por se estar diante de um hermeneuta de Pascoaes, como alguns lugares de relevo da sua obra evidenciam.

Assim, na História Secreta de Portugal, de 1977, António Telmo dedica todo um capítulo – o VIII – a “Teixeira de Pascoaes, o Poeta da Natureza”. A este respeito, muito importa registar o que, em carta para Telmo, datada de 29 de Janeiro de 1987, escreveu António Quadros:

 

(…)

Há 5 ou 6 meses, uma Assistente da Faculdade de Letras, Maria das Graças Moreira de Sá (nada a ver com o outro), convidou-me para ir falar sobre o Pascoaes a um grupo de alunos de Cultura Portuguesa. Encontrei um anfiteatro cheio, de alunos e alguns professores interessadíssimos. Estive lá quase 3 horas.

Na minha exposição sobre o poeta, li várias passagens do seu capítulo sobre ele na História Secreta, aliás um dos melhores, senão o melhor texto dedicado a Pascoaes. Alguns conheciam já o seu livro. Creia: nós temos uma influência subterrânea muito maior do que podemos imaginar. E você tem muita.» (Ferro et al. (Coord.), 2015: 101-102)

(…)

 

Foi esta revelação feita em resposta a um lamento que o amigo lhe expressara em anterior missiva. Quase se diria uma consolação. Com efeito, em carta datada uma semana antes, a 22 de Janeiro, afirmara António Telmo:

           

(…)

O meu livro História Secreta de Portugal, veja bem com teses à volta, não presta. Amo os outros dois, os filhos desprezados da sorte. Mas as pessoas preferem o ocultismo enterrado na pedra. De resto, nesse livro, o que provoca o «envoutement» é a primeira parte. O capítulo sobre Pascoaes onde pus alguma coisa da minha orientação quotidiana e iniciática de viver o mundo passa esquecido.» (Idem: 91)

(…)

 

Na verdade, neste capítulo da História Secreta consagrado a Pascoaes já se encontra uma aproximação ao esoterismo da saudade, se bem que derivada, perfunctória e fugaz, pois que o principal enfoque houvesse então incidido sobre a vivência experiencial da Natureza, com particular atenção prestada a As Sombras.

Em Filosofia e Kabbalah, de 1989, o filósofo da razão poética estuda o Regresso ao Paraíso em estreito diálogo com a leitura que dele fizera Leonardo Coimbra; e em 2002, ano do cinquentenário da morte do vate de Gatão, irá ainda assinar uma arrojada “Introdução” (cfr. Martins, 2015: 129-142) a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, vigésimo primeiro volume das Obras de Teixeira de Pascoaes publicadas pela Assírio & Alvim.  

A esta luz, será de admitir que a abordagem agora proposta possa surpreender, pois iremos considerar escritos algo desatendidos em que o tratamento do tema se autonomiza consideravelmente, tendendo já a abstrair-se do labor hermenêutico vinculado a um determinado poeta ou a uma dada obra. Como quer que seja, o que diferencia António Telmo dos demais estudiosos da Saudade é o ponto de vista, tão proverbial como singular, em que ele se coloca. Como muito bem esclareceu Miguel Real:

 

Dito de um modo muito claro: o lugar de António Telmo na cultura portuguesa releva-se por ter sido o grande pensador da segunda metade do século XX, na esteira de Sampaio Bruno e Fernando Pessoa, a teorizar o esoterismo, atribuindo-lhe um estatuto de testemunho e prova tão positivo quanto a prova factual mais concreta, furtando estes estudos à parafernália de seitas e grupúsculos marginais ao saber instituído. (Real, 2011: 799)

 

2. Será porventura a superior condição, há pouco apontada, de hermeneuta que nos faz, ainda hoje, olhar para Telmo mais como um filósofo do Amor e menos como um filósofo da Saudade. Pensamos, notadamente, no ciclo da grande invenção manifestado no lustro que transcorre de 1977 a 1982, período em que vai publicar História Secreta de Portugal, Gramática Secreta da Língua Portuguesa e Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões. A arquitectura, a língua e a literatura portuguesas oferecem então um vasto campo ao seu monumental labor de desocultação, passando a lírica e a épica de Luís de Camões a constituir, de modo quase obsidiante, o principal thema probandum do hermeneuta.

Alvitra António Telmo ter sido o vate, «talvez, o último iniciado da Igreja do Amor» (Telmo, 2017: 140). Foi, pelo menos, um altíssimo representante da tradição de matriz templária que, tendo em Dante o seu maior expoente, persiste nos fiéis-do-Amor. E é justamente a partir dos testemunhos sobre a iniciação nos mistérios do Amor cifrados na Vida Nova que o filósofo empreende a leitura anagógica de Camões. Neste, a experiência do amor serve de suporte ao conteúdo real da iniciação: «Deus aparece ao homem, no acto gnósico culminante, “na mais bela das formas”, que é a forma feminina» (Telmo, 2015: 48). A imagem da mulher desperta o espírito vital. A sua presença faz eclodir a energia espiritual no centro subtil cordial, ou seja, na alma do homem, a que Dante, secundando a terminologia da escola platónica, chama espírito vital.

Este despertar do ser pela iniciação amorosa permite que o espírito natural – e o mesmo será dizer: a potência vegetativa ou o corpo – seja subvertido e conhecido pela potência intelectiva – e o mesmo será dizer: pelo espírito visual, ou pelo espírito, simplesmente. Através dessa sua específica faculdade que é a imaginação, move-se a alma no mundo intermediário ou imaginal que, por consubstancial, lhe é próprio e opera a mediação, naquele ponto crucial em que os corpos se espiritualizam e os espíritos se corporizam (cf. Corbin, 1992: 120).

Na História Secreta de Portugal, António Telmo pretendeu, «pela primeira vez», dar «os fundamentos» para essa «verdade» que consiste em dizer «que os Jerónimos são Os Lusíadas em pedra dos Descobrimentos ou que Os Lusíadas são os Jerónimos em verso» (Telmo, 2017: 152-153). Décadas depois, irá recuperar a aguda observação de Fiama Hasse Pais Brandão segundo a qual os barões assinalados (pela cruz vermelha sobre branco) na primeira estrofe da epopeia são os cavaleiros da templária Ordem de Cristo (cfr. Telmo, 2018: 370).

Os Lusíadas serão a autobiografia espiritual de Luís de Camões: o poema é a cifra de uma viagem iniciática e Vasco da Gama uma projecção do próprio poeta. Mas o Gama, importa lembrar, é também um dos quatro navegadores cujas efígies surgem representadas nos medalhões simbólicos do lado sul do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, conforme a desocultação ensaiada na História Secreta de Portugal. Três desses navegadores olham o sol de frente, fazendo Telmo notar que a visão directa da luz só aos iniciados é concedida. A energia espiritual germinada no centro subtil cordial elevou-se até atingir a região do olho frontal de Shiva. Esta visão central culmina a realização espiritual dos pequenos mistérios.

 

3. A distinção entre pequenos mistérios e grandes mistérios, como dois graus de um mesmo iter iniciático, e não como dois diferentes tipos de iniciação, resulta fulcral para a abordagem que propomos. Os pequenos mistérios visam a restauração do estado primordial, ou seja a restituição do homem decaído ao glorioso corpo de luz do Adão edénico. Esta regeneração psíquica envolve o regresso ao Paraíso terrestre. Se tudo se passa ainda num estado humano que é da ordem da Terra, certo é que o homem, pela consumação dessa primeira etapa, readquire o sentido da Eternidade e adquire a imortalidade virtual.

Duas serão as fases dos grandes mistérios. À realização, já na ordem puramente noética, e não psíquica, dos estados supra-humanos, mas ainda condicionados, corresponde a identificação com o conjunto dos mundos espirituais, simbolicamente representado pela figura do Adão Kadmon. Não se trata já de regressar ao Paraíso Terrestre, mas de ingressar no Paraíso Celeste, como condição prévia da derradeira fase destes mistérios maiores, que é a da Libertação final ou da Identidade Suprema, pela qual se alcança a identificação com o Absoluto.

N’Os Lusíadas, observa Telmo, o episódio da Ilha do Amor, caracterizado pela angelologia que permite iluminar a unificação dos nautas com as ninfas, corresponde à consumação dos pequenos mistérios. Na senda de Dante, a via amorosa, tal como ela se patenteia em Camões, investe, a um tempo, a mulher na condição de mistagoga (aquela que conduz nos mistérios) e de cifra (do anjo pessoal): houve, por certo, a presença de Beatriz, no sublinhado do itálico se enfatizando o halo hierofânico de que a donna se reveste; mas foi «por virtude de muito imaginar» que Dante, «na solidão e no silêncio de um quarto», teve a visão do seu anjo, parecendo este surgir-lhe, tanto quanto o poeta discerniu, na «figura de um homem de temeroso aspecto» (Telmo, 2017: 142). Uma citação de Le Paradoxe du Monothéisme, de Henry Corbin, permitirá esclarecer o que vem sendo dito:

 

(…) a individuação da relação entre o senhor ou Deus personalizado e o fiel para quem ele se personaliza, relação que é essencialmente a relação teofânica constituindo a «mensagem» do Anjo, encontra o seu eixo de meditação por excelência numa célebre sentença atribuída ao I Imã do xiismo: «Aquele que se conhece a si mesmo conhece o seu senhor.» (Corbin, 1992: 87)          

 

Nesta visão da iniciação pelo amor, que é a de Dante e Camões, há uma necessária relação, que se diria ser de identidade, entre a angelização e o pleno desenvolvimento do corpo subtil, que é a finalidade da realização espiritual própria dos pequenos mistérios.

Mas onde, porventura, a figura do filósofo do amor, que Telmo foi, nos surge mais nitidamente recortada é na sua peça teatral A Verdade do Amor, na qual, na senda de seu mestre Álvaro Ribeiro, perfilha a doutrina da Carta sobre a Santidade, escrito cabalístico sefardi do final do século XIII atribuído a Joseph Gikatila. A esta luz, o acto sexual, pela observância de determinadas condições prescritas na Torah, investe o homem e a mulher na condição de activadores teúrgicos, ao influírem no pleroma divino por forma a reactivar, restaurar e atrair até este nosso mundo as emanações do mundo do alto. Limitamo-nos a assinalar o tópico, sem que nele, porém, nos possamos deter, pois a nossa atenção deve, doravante, centrar-se na fenomenologia da saudade, tal como ela encontrou expressão na razão poética de António Telmo.

 

4. Consideraremos um conjunto pouco numeroso de textos: cinco escritos, quatro dos quais de publicação póstuma. Consideravelmente tardios, pois será de crer que tenham sido compostos na última década da vida do filósofo e, por consequência, após a sua iniciação maçónica no Rito Escocês Rectificado, revelam curta extensão, o que não significa menor relevância, ou não se estivesse diante um autor de livros breves, não raro compostos por dispersos, e cuja ideação surge frequentemente condensada.

Dois desses textos – os que enunciam a reflexão sobre a fenomenologia da saudade – constituem, seguramente, outras tantas partes de um único e mesmo ensaio. A primeira saiu a lume em Viagem a Granada, integrada no conjunto de apontamentos com que abre o capítulo “Textos de Arte Poética”; de caso pensado a segunda foi incluída, com o título “Sobre a Saudade”, em A Aventura Maçónica, sem que o filósofo tivesse já chegado a vê-la vertida em letra de forma. Esta divisão, ou dispersão, do ensaio terá prejudicado a sua percepção e a sua valoração como um escrito fundamental do corpus filosófico sobre a saudade, pois, porventura como em nenhum outro antes dele, é uma leitura de matriz iniciática o que ali se propõe.

 Para Telmo, a fenomenologia da saudade comporta três momentos distintos, em correspondência com outros tantos graus e em consonância com os diferentes objectos considerados. O primeiro momento é tratado no apontamento de Viagem a Granada; os restantes em “Sobre a Saudade”, de A Aventura Maçónica.

Num momento inicial, alguém é o objecto da Saudade, por estar em causa a relação terrestre do amante com a amada. Neste primeiro estádio do iter iniciático, importará sublinhar a existência de uma essencial identificação entre o amor e a saudade: são a mesma realidade, mas encarada de diferentes pontos de vista:

 

A saudade e o amor, no seu primeiro momento fenomenológico que é o da relação terrestre do amante com a amada, oferecem-se-nos como as duas faces do mesmo. Assim, no amor, a presença corporal da amada acorda no amante o sentimento do fugaz e inapreensível, do que estando presente está ao mesmo tempo ausente, do inviolável; pelo contrário, na saudade, ela é presença na imagem vivida em lembrança e ausência no seu corpo e seu lugar longínquo no espaço e no tempo.

O amor à distância de todo o espaço e de todo o tempo que há entre os dois é saudade; a saudade que se tem do que se possui na proximidade é amor. Nos dois casos, há sempre uma elipse, de que um foco é visível e o outro invisível. Num desses focos está a imagem luminosa e directamente visível; no outro o seu reverso nocturno e inacessível. O movimento de amor ou de saudade é elíptico como o da terra à volta do sol. Se não há, porém, a consciência simultânea do acessível e do inacessível, da presença e da ausência não há amor nem saudade. Haverá lembrança com dor, mas sem alegria, presença satisfeita, mas sem o sentido do mistério que é a amada. (Telmo, 2016: 46)

 

O amor do amante pela amada é já, de certo modo, a saudade de Deus ou, se se preferir, a saudade do numinoso, pois a mulher é o símbolo em que o mistério se revela, tomando aqui a noção de símbolo na acepção que Álvaro Ribeiro lhe deu, como «imagem sensível de uma realidade insensível» (Ribeiro, 2009: 204). É esta a concepção de um fiel-do-Amor: temos o culto da Donna-Divinitá, pela preponderância de um princípio representado como feminino (de que a Shekinah hebraica constitui cabal ilustração) e pela intervenção de um elemento afectivo (cf. Guénon, 2002a: 63). E daí que, logo nos dois primeiros parágrafos do escrito, uma pergunta e uma resposta de antemão nos elucidassem:

 

A saudade e o amor são manifestações do que a angelografia hebraica designa por Shekina e Metraton?

Pelo menos, é através de uma e de outro que parece passar a luz pela qual as duas potestades angélicas se nos tornam humanamente inteligíveis. (Telmo, 2016: 46)

 

A indissociabilidade do sentimento amoroso e do sentimento saudoso, surgindo estes por igual polarizados, se não unificados, nesse alguém – a amada – em que a relação terrestre se objectiva, sobremodo nos oferece ainda, não obstante o lugar de relevo que a reflexão concede à saudade, a imagem proverbial do filósofo do amor.

O emprego da palavra terrestre é bem um forte indício de que António Telmo situa este primeiro momento da fenomenologia da saudade no plano dos pequenos mistérios; mas os momentos saudosos parecem já traduzir, do ponto de vista da operatividade, uma intensificação do aprofundamento gnósico, pois que latente se encontre o Deus saudado.

Não surpreenderá, assim, que num segundo momento da sua fenomenologia, a saudade venha a ser a saudade de si, ainda que, então, tudo seja, no sentido de que o pode ser, objecto da saudade: não apenas as pessoas, mas igualmente as coisas (objectos, sensações, lugares, situações, momentos); e sobretudo o próprio ser saudoso. Importa voltar a dar a palavra ao próprio António Telmo, agora já em “Sobre a Saudade”:

 

Num segundo momento da fenomenologia da saudade, não são apenas as pessoas que vêm saudosamente à lembrança; são também as coisas. Tudo é objecto da saudade, desde que entre o ser saudoso e a coisa saudada se interponha a distância e o tempo. A saudade das coisas é mais nitidamente simultânea com a saudade de nós. Começa-se a compreender que o objecto da saudade é afinal o nosso ser profundo e perdido deixado atrás no tempo, por ela recuperável, na sensação inefável e misteriosa de que o infinitamente distante nos está próximo como o Reino de Deus no ensino de Jesus Cristo. (Telmo, 2018: 290)

 

A saudade do outro dá lugar à saudade do mesmo, do próprio ou do que, neste se encontrando em mais profundo plano, lhe é propriamente essencial. Estamos perante uma alusão que identifica a saudade com o processo de conhecimento iniciático, mas essa identificação surge já com manifesta abstracção de quaisquer formas tradicionais, como as que, do templarismo da fede santa à Kabbalah sefardi, indiciariamente havíamos vislumbrado no primeiro momento da fenomenologia da saudade.

  André Benzimra distingue a iniciação da religião de acordo com vários critérios (cfr. Benzimra, 2013: 205-211). A iniciação, eminentemente activa, consistirá numa reapropriação de si: há um Deus imanente, mas oculto, em cada homem, que este deve procurar reactivar em si mesmo, depois de o reencontrar e re-conhecer ao cabo de uma descida às profundezas do seu espírito, podendo o conjunto destas operações resolver-se no esquema triádico em que da catábase se procede para a anábase pela iniciação, entendida esta, no sentido mais rigoroso do termo, como o despertar e a eclosão da energia espiritual. Assim se faz apelo a um esforço que nada tem que ver com a passividade da via religiosa, em que o homem fia da graça a sua salvação, pois que a Deus o conceba infinitamente distante e inacessível e dele espere o socorro exterior, sendo nesse sentido que a noção de oração recobra a sua inteligibilidade instrumental. Ao invés, o iniciado busca a libertação, pela reapropriação de si, tomando como instrumento, segundo Benzimra, não a prece mas a invocação, asserção decerto da maior importância na abordagem à seminal Arte Poética de António Telmo.

Regressemos, porém, a A Aventura Maçónica, em ordem a completar o nosso excurso pela fenomenologia da saudade, de cujo terceiro momento

 

teve a intuição o novel filósofo António Cândido Franco quando escreveu que o supremo ser da saudade é a não saudade, a saudade de nada. À primeira vista, parece estarmos perante uma afirmação vazia, lançada como um jogo da mente abstracta, sem conteúdo pela contradição que encerra, como se o sim pudesse ser o não ou alguma coisa identificável com a sua negação. Todavia, se àquelas expressões substituirmos a de saudade sem objecto, sem algo de definido para lembrar, teremos de interrogarmo-nos sobre o sentido do não e do nada. “Aquela verdade que nas coisas anda, que mora no visível e no invisível”, aquele “um não sei quê”, de que nos fala Camões, é, de facto, um nada. Mas a saudade desse nada, o sentimento que no-lo revela, é que funda a saudade em si própria e a torna independente de uma relação cujos termos são claramente conhecidos. A saudade é que cria os distantes que por ela vivem, como o amor é que cria os amantes. Existe saudade e amor antes dos termos que ligam. Não é pelo arranjo das coisas, como julgam os mecanicistas, que surge qualquer verdade; elas só são depois e pela verdade que nelas anda, por esse “não sei quê” que mora no visível e no invisível. Ao serem conhecidas como a sua morada, deixam de ser coisas para se transfigurarem em símbolos do para nós indizível.

A saudade e o amor não têm objecto porque uma e outro são o que procuramos. Em si, não são sentimentos. Os respectivos sentimentos emergem na alma quando tocados pelo seu poder de encantamento. Num dos seus supremos graus, o encantamento é assombro. (Telmo, 2018: 290-291)

 

            A saudade de tudo, característica do segundo momento fenomenológico, cedeu o seu lugar à saudade de nada, que não deve, porém, confundir-se com a saudade do Nada, excepto se por este último termo se pretender significar o Absoluto: o Princípio Supremo que os cabalistas designam por En Sof, o para nós indizível na expressão de Telmo. Neste sentido, será lícito afirmar que nada é objecto da saudade, pelo que o “Nada” é o objecto da saudade. A saudade e o amor deixaram de ter um objecto mas, paradoxalmente, continuam a tê-lo. O que mudou, então? A saudade e o amor não emergem já de uma relação. São antes o Espírito universal criador dos termos com que depois se poderão estabelecer as relações. Independentes de uma relação cujos termos são claramente conhecidos, a saudade e o amor são o Absoluto. Absoluto é antónimo de relativo, significante adjectivo da relação.

Se a saudade é “um não sei quê”, um para nós indizível, pode bem ser reconduzida ao não manifestado. Segundo a Kabbalah, será pelas sucessivas etapas da emanação, da criação, da formação e da fabricação que, radicado no Princípio, se origina e desenvolve o processo de manifestação, por este se estabelecendo o conjunto dos mundos que constituirão o objecto, numa primeira fase, da realização espiritual dos grandes mistérios. O que no longo excerto, há pouco transcrito, de A Aventura Maçónica António Telmo enfim significa é a saudade como via dessa mesma realização espiritual.

Não por acaso, embora sem uma razão evidente, terá o filósofo incluído “Sobre a Saudade” no capítulo daquele livro onde agrega pranchas maçónicas e alguns outros textos por si referidos ao “Grau de Mestre”. Mesmo que, conforme o autor anuncia, a primeira parte de A Aventura Maçónica, em que o escrito em apreço se insere, seja preenchida por “Pranchas Lidas em Loja por Nathan de Nathanel”, a verdade é que esse escrito, à semelhança de alguns mais, não é uma prancha: nem o filósofo, ao invés do sucedido noutros casos, se lhe refere como tal; nem nada, pelo seu tom, o seu estilo ou o seu teor, nos autoriza uma semelhante qualificação. Mas se a mestria corresponde, nas lojas azuis, à consumação dos pequenos mistérios, teremos então de admitir que, de alguma sorte, esse texto se encontra onde deve estar, pelo menos prospectivamente. 

 

5. Num apontamento mantido inédito até 2017, ano em que saiu a lume na revista Nova Águia, considera António Telmo que

 

como o espanto é para gregos (Platão, Aristóteles) o princípio da filosofia, o princípio da filosofia é para os portugueses a saudade. Mas a saudade implica espanto, o espanto de cada um se saber na sua essência mais íntima a substância amada e longínqua. Esta relação produz-se aparentemente através de uma imagem, a de alguém que amamos e que o tempo separou de nós. Na verdade, é de mim que me lembro com saudade, do que em mim é essencial que a separação daquele alguém revelou subitamente impossível de alcançar, e, no entanto, sentido como enigmaticamente próprio. (Telmo, 2017a: 252)

 

Reencontramos, nestas linhas, ainda que com cambiantes, algumas das ideias já desenvolvidas em A Aventura Maçónica. Não apenas no tocante à abordagem iniciática da saudade como saudade de si, no segundo dos três momentos fenomenológicos que Telmo enunciou, se bem que agora em estreita conexão com o momento inicial; mas também ao assinalar do espanto – ou do assombro, como em “Sobre a Saudade” se optou por dizer – que pode caracterizar o sentimento saudoso. O filósofo não o afirma explicitamente, mas parece indicar-nos ser este quid espantoso ou assombroso verificável naquela experiência que, na senda dos mestres helénicos, garante a afirmação, por si laboriosamente desenvolvida, de que a filosofia portuguesa é a filosofia da saudade. Desde logo no escrito em apreço, ao considerar, como se viu, que o princípio da filosofia é para os portugueses a saudade; mas também noutros dois escritos, publicados postumamente em A Terra Prometida. Assim, se «a filosofia da saudade é a de Sampaio Bruno n’A Ideia de Deus» (Telmo, 2014: 139), e se na obra-prima deste portuense ilustre vamos encontrar «a mais admirável reformulação filosófica do Tratado da Reintegração dos Seres nos seus Princípios Primitivos» (Idem: 126), uma terceira proposição, a de que «martinismo e filosofia portuguesa são a mesma verdade, pela origem e pelo desenvolvimento» (Ibidem), franqueia a conclusão de que a filosofia portuguesa é a filosofia da saudade. Não cabe aqui analisar com um módico de minúcia a correspondente fundamentação. Pretendemos apenas, a este propósito, relevar a importância extrema de que a filosofia da saudade, afinal, se reveste para António Telmo. Na esteira de Álvaro Ribeiro, seu mestre, o filósofo está ciente de que a saudade é uma alegorização ou mitificação da Tradição (cfr. Ribeiro, 2004: 484). Sendo, pois, a filosofia portuguesa, como filosofia da saudade, uma filosofia tradicional, mais do que um acto de coerência, a leitura iniciática que Telmo propõe na sua fenomenologia da saudade será uma inexorabilidade para quem a filosofia ou é operativa ou, verdadeiramente, não chega sequer a ser filosofia.

 

 

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