VOZ PASSIVA. 148

17-01-2026 09:00

A mentirada

Pedro Martins

1. Por mais de uma vez escutei a António Telmo a palavra saborosa que substancia o título deste escrito. Disse-me o filósofo que a haurira nas andanças vocabulares transtaganas; e com ela designava os desvirtuamentos do movimento da filosofia portuguesa patenteados, no plano político como no religioso, por alguns dos seus condiscípulos e seguidores. 

Resulta difícil discernir uma dimensão política no pensamento filosófico deste livre-pensador religioso. Mais curial será reconhecer no gnóstico que também foi algumas atitudes políticas que, pela firmeza do rumo, o nobilitam como um cultor da Liberdade.

A concretização de tal desígnio torna-se, porém, premente: um número recente da revista Superinteressante, supostamente dedicado à portugalidade, amalgamou três escritos de Telmo com alguns ensaios de interpretação filosófica sobre o ser português de que, não raro, ressuma um devocionismo fanático com laivos de autoritarismo. Não admira, pois, que os editores hajam trazido para a capa da publicação o Padrão dos Descobrimentos de Cottinelli Telmo. Independentemente da valia artística do monumento, e do seu direito de cidade, ninguém, por certo, desconhecerá que o padrão foi um expoente da Exposição do Mundo Português, valendo, por isso, como símbolo do Estado Novo.

Mas António Telmo não cabe nos labirintos do mago das Finanças, esse “menino mimado do Vaticano”, como justamente chamou a Salazar o seu biógrafo Yves Léonard. Com um módico de boa boa-fé e outro tanto de instrução, percebe-se o que quis Telmo significar ao verberar na História Secreta de Portugal a paródia mnésica do salazarismo, essa falsa vivência dos valores patrióticos.

Ler, como algures se lê na revista, que Agostinho da Silva foi incomodado pelo Estado Novo releva, por certo, de uma outra incomodidade que somente a frequência do divã de Freud poderá mitigar. Afinal de contas, foi só passar pelo catre da enxovia do Aljube, pernoita chique a valer e então muito em voga, e seguir de rota batida para os trópicos de Vera Cruz num exílio assaz voluntário.

Ficamos ainda a saber, a pretexto dos malefícios do positivismo, que a Seara Nova, com as suas costas largas de décadas (tão largas que nela coube, por muitos anos e por direito próprio, um Sant’Anna Dionísio a defender Leonardo Coimbra e a publicar os seus próprios livros), teria hostilizado Pascoaes, Pessoa e Régio. Essa mesma Seara de quem Telmo, porém, pôde belamente escrever que «era uma promessa de pão, uma messe, uma missa, uma mensagem dirigida à acção imediata, esteada em razões susceptíveis de serem ensinadas onde houvesse mente de homem» (2014: 100). No mesmo texto em que verbera «aqueles traidores que teimam em ver a luz nas labaredas da Inquisição» (Idem: 98).

Tanto a Seara hostilizou Pascoaes que, pasme-se, deu chancela à segunda edição da Vida Etérea e revelou as cartas que o vate escrevera a Suzanne Jeusse, tradutora francesa do longo poema mítico de 1912! Para começo, não está mal… 

De Pessoa, publicou a Seara postumamente, em 1937, o fabuloso poema anti-salazarista intitulado “Liberdade”, que nos fala do prazer de não cumprir um dever, de ter um livro para ler e não o fazer. Neste caso, não foram propriamente livros, mas, na ordem das muitas dezenas, senão centenas, os números da Seara Nova que ficaram por ler. Só assim se explica não ter havido do plumitivo a percepção de que José Régio, anos a fio, foi figura de proa da Seara e só a abandonou num gesto de compromisso – imagine-se! – com António Sérgio.

Foi aliás com a chancela seareira que o sobredito Sant’Anna publicou em 1953 O Poeta, essa ave metafísica, livro sobre Pascoaes em que o autor, não raro, recorre a frases deste. Como essas, preciosas, que lhe escutou sobre a conversão de Leonardo Coimbra, lamentando o vate de Gatão que o filósofo criacionista o houvesse feito na ocasião em que o fez: «Se estivesse um governo anti-religioso, duro, avermelhado, – está bem; a sua atitude seria justificada e heróica. Assim, – foi o diabo…» (1953: 31-32)

 

2. Será por certo mais fácil procurar saber o que não foi Telmo em política, na medida em que procurou desenlear a filosofia portuguesa dos liames abusivos com que alguns pretenderam jungir ao reaccionarismo uma tradição filosófica politicamente liberal e de livres-pensadores religiosos.  

Telmo tinha consciência do pecado original. Em 1988, numa carta que não sabemos se chegou a seguir para Francisco Moraes Sarmento, director da revista Leonardo, mas cujo dactiloscrito surge firmado pelo seu próprio punho, mostra estar ciente do «proveito que os adversários do livre-pensamento podem tirar da confusão estabelecida pela conversão final ao catolicismo do pensador “obreiro”, desviando subtilmente a interpretação da sua filosofia da linha de impulso que Álvaro Ribeiro situou em Sampaio Bruno. Tudo está aqui neste desvio subtil. Não me parece que a orientação geral ou dominante da Revista possa, sem contradição, incluir entre os filósofos de filosofia portuguesa Sampaio Bruno, aceitando o ensino de Álvaro Ribeiro que o dá como “fundador”, isto é, como aquele que estabeleceu os princípios que fundam essa mesma filosofia».

A conversão de Leonardo ocorre em plena ascensão do salazarismo; e o Estado Novo, mais do que um regime fascista como o italiano (de cujo paradigma, não obstante, irá recolher alguns traços fundamentais), é um regime autoritário de radicação católica: Salazar, nada atreito ao cesarismo pagão que unge o Duce, chega ao poder, como ministro das Finanças, em Abril de 1928, para não mais o largar até à fatídica queda quatro décadas depois, como militante proeminente do Centro Católico Português, um partido nacionalista, anti-liberal e anti-socialista (Léonard, 2023: 70). Prevalecendo sobre a Igreja, na pirâmide do regime, restará apenas, em última instância, a pessoa imensa e inexorável do ditador.       

A confusão não se deu, porém, na geração dos discípulos de Leonardo. Álvaro Ribeiro, para quem o mestre havia convertido na ortodoxia católica a Saudade, interpretada em termos judeo-cristãos (a precisão técnica desta expressão conotada com o ebionismo remete-nos para a mais lídima tradição herética nacional) (2005: 139), confessa-se impedido, dez anos depois da morte de Leonardo, por força de divergências profundas, especialmente em teologia, de estudar a obra deste e de escrever sem mácula um estudo sobre o seu pensamento (2004: 298). A sua vinculação, ao dealbar a década de 30, ao movimento da Renovação Democrática permite creditá-lo como um dos primeiros opositores ao Estado Novo, em cujo funcionalismo público irá modestamente sobreviver com a solércia, não raro incompreendida, do marrano que sempre foi, e que se não converteu, nas suas próprias palavras, «à religião da maioria» (1969: 20). Daí que, quando, nas palavras de Telmo, já não temia que o proibissem de viver, houvesse vindo exortar a Igreja Católica a «aceitar, enfim, o messianismo de S. João Evangelista e de Joaquim de Floris, libertando a liturgia de praxes e de dogmas que representam rotinas pretéritas, já insignificantes ou talvez hipócritas» (2005: 304).

Obra de fundo sobre Leonardo virá José Marinho a escrevê-la, não sem antes haver caído em desgraça perante o salazarismo. «Em 1937», como lembra Jorge Croce Rivera, «e por ter protestado pela inclusão do seu nome sem seu consentimento num telegrama de repúdio pelo atentado anarquista ao presidente do Conselho de Ministros, Marinho foi preso por alguns meses no Aljube, sendo-lhe retirada, após a libertação, a licença de ensino» (2000: 217). Antes mesmo de incomodar Agostinho, a ditadura incomodava Marinho, poderia quiçá ter escrito o plumitivo paliativo da Superinteressante.

Do “Estranhíssimo Colosso”, a história da sua passagem pelo Aljube é hoje assaz conhecida e, em lance de paralelismo com a de Marinho, encontra já antecedentes na sua recusa, dois anos antes, enquanto funcionário público, em assinar a declaração imposta pela Lei Cabral, que visava sobretudo atingir a Maçonaria e o Partido Comunista. Como Marinho, Agostinho quer ter a primeira e derradeira palavra sobre o núcleo irredutível da sua pessoa, e não que outros pensem, digam ou ajam por ele. Se a queda em desgraça leva Marinho a cruzar-se, em Arruda dos Vinhos, com os caminhos de Telmo, pois que ali passe a deslocar-se, como explicador particular de seu irmão Orlando Vitorino, ao dealbar a década de 40, a deriva de Agostinho para os trópicos prepara o encontro, duas décadas depois, em Brasília, com o filósofo da arte poética, para cuja universidade Eudoro de Sousa o chamará a leccionar.   

Telmo, em escrito dado à estampa, pela primeira vez, nas páginas desta revista, explica a aparente animadversão de Agostinho para com a filosofia portuguesa e para com Leonardo pelo facto de o ensino deste haver sido «falsamente interpretado sobretudo pelos discípulos dos discípulos como de direita» (2018: 175). Assim, «era preciso levedar a “esquerda”», e isso teve de ser feito por quem, mais do que qualquer outro dos discípulos de Leonardo, dele herdara «o poder de comunicar de viva voz o verbo do espírito, o fascínio pela matemática e pela física nas suas mais altas expressões modernas, o franciscanismo, a conversão ao catolicismo, o sentido da fraternidade de todos os seres, o misticismo e o universalismo» (Idem: 174).

A carta, acima citada, de António Telmo para Moraes Sarmento parte de um episódio que este último teria revelado: «o senhor bispo fulano de tal» advertira a Leonardo, através de Pinharanda Gomes, «sobre o perigo, já visível, de ela se tornar um órgão do anticlericalismo». Telmo supõe, então, que a sua colaboração na revista haja sido envolvida na advertência episcopal; e, visando aquele seu condiscípulo, prossegue: «a intriga, no nobre sentido da relação a três, estabeleceu-a o autor desse livro subreptício e subversivamente antipatriótico “História da Filosofia Hebraica”».

Na visão do filósofo, o artigo sobre Leonardo, que escrevera para o primeiro número da revista «logo provocou a censura eclesiástica, através da carta de Barrilaro Ruas»: «Nos livros que até agora publiquei e nos escritos que se vão dispersando por revistas e jornais deixei claramente expressa uma interpretação de filosofia portuguesa de raiz brunina e, por isso, incompatível, no domínio da religião, da política e do ensino com a que é dominante entre vós.»

A fractura é já evidente; mas duas décadas depois ganha contornos mais nítidos, em carta, datada de 12 de Novembro de 2007, para o próprio Pinharanda, que, em anterior missiva, repreendera Telmo por este, imprecisamente, haver imputado a Salazar o encerramento da Faculdade de Letras do Porto. Telmo não gosta e responde-lhe à letra:

«Quando eu era moço e andava lá pela tertúlia de filosofia portuguesa, ouvi dizer que tinha sido Salazar a fechar a Faculdade pela qual tudo conhecemos do que verdadeiramente conhecemos. Não foi Salazar, nem ninguém por ele mandado. Sei-o agora por si. Peço-lhe desculpa do engano. Não peço à memória de Salazar, pois me parece que não me engano desta vez lembrando que foi, quando ele era Primeiro Ministro e Presidente do Conselho, que se deu a prisão de José Marinho e lhe foi tirado o pão da boca das filhas, pois o impediram de continuar a ensinar nas escolas do Estado. Andou, depois, calcorreando ruas, de casa em casa a dar explicações, até que, muitos anos passados, o Orlando, que Deus haja, lhe arranjou emprego na Gulbenkian. Ironia do destino. Estranho favor da Providência! Foi por ter sido impedido de ensinar nas escolas do Estado Novo que veio até Arruda dos Vinhos para onde o solicitaram, a fim de dar explicações de filosofia ao futuro enorme filósofo Orlando Victorino. Disto beneficiámos todos. Eu e o Pinharanda também. Por alguém ser contra a FILOSOFIA PORTUGUESA; ESTA CRESCEU E AUMENTOU. Por ser contra, quem? Sem dúvida, o diabo que protege os estúpidos.»

«Meu caro Pinharanda, meu Amigo, com toda a franqueza, eu acho que o engano não foi assim tão mau, embora seja condenável por não corresponder à verdade. Acho que não foi assim tão mau, porque os nossos inimigos situados em grande parte entre os materialistas ateus politicamente de esquerda gostam de fazer passar por fascistas Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e até já o fizeram com o Agostinho da Silva quando ele veio do Brasil e constava que se tinha convertido ao catolicismo. Mas o que caracteriza o ensino destes homens e dos que o acompanham, entre os quais me situo e gosto de o situar a si, é o amor da liberdade e da verdade, ambas incompatíveis com o positivismo salazarista e com o materialismo dos anti-salazaristas de esquerda ou de direita. Somos livres e, se não somos, devemos sê-lo.»

Desfazer a confusão emergente do pecado original, cujas consequências se sentirão sobretudo a partir da década de 50, eis o propósito, firme e constante, de Telmo. Tarefa árdua, mas não impossível, ainda se, em plano eminentemente político, o liberalismo de Orlando Vitorino, amplamente esteado no pensamento de Friedrich Hayek, nos não deve fazer perder de vista a viva simpatia que o autor de O Caminho para a Servidão nutria por Salazar e pelo seu regime, chegando mesmo, em 1962, a enviar-lhe um exemplar da sua obra A Constituição da Liberdade, e a manifestar-lhe a esperança de que um tal «esboço preliminar de novos princípios constitucionais possa ajudá-lo nos seus esforços de conceber uma constituição protegida dos abusos da democracia» (apud Léonard, 2023: 363). Como refere Yves Léonard, autor de que me venho servindo, Hayek esclarecerá mais tarde que a sua ideia consiste em concentrar «o poder nas mãos de uma elite cuidadosamente selecionada, ao abrigo da influência das massas» (Idem: ibidem).

 

3. No Verão de 1965, com arrepiante exactidão, o astrólogo e quirólogo Horus predissera a António Telmo alguns acontecimentos decisivos da sua vida pessoal e profissional que o curso dos meses se encarregaria de confirmar; e, não sem assombro, revelou-lhe ser ele o único homem que poderia derrubar Salazar, exortando-o, porém, a que o não fizesse.

Em 1962, quando leccionava na Escola Industrial e Comercial de Beja, Telmo vira-se exonerado, conforme acta de 31 de Janeiro daquele ano, do cargo de Adjunto do Director dos Serviços de Concursos Literários do Centro da Mocidade Portuguesa, por mor de 14 faltas injustificadas, pois que o filósofo se recusasse sistematicamente a colaborar com aquele Centro, deixando de comparecer a aulas que eram obrigatórias. A bravata trouxe-lhe ainda outras consequências desagradáveis: não haver obtido, como classificação de serviço, no ano lectivo de 1961-62, mais do que um sofrível “Suficiente”, segundo reza uma outra acta, agora do Conselho Escolar daquele estabelecimento, de 11 de Agosto. Esta classificação era raríssima: nos anos anteriores sempre Telmo fora classificado com um “Bom”.

A ida para o Brasil estivera entre os vaticínios de Horus. Ao cabo de uma estada de dois anos e meio, desencantado com o país irmão e receando os efeitos da Ditadura Militar que dele se apoderara, Telmo e a família regressam a Portugal. Aterram na Portela em 26 de Julho de 1968. Mas, de início, o regresso estivera previsto para 1 de Agosto, data da queda de Salazar. Telmo obedecia a Horus…

No ano lectivo de 1971-72, Telmo vai fundar e dirigir a Escola Preparatória do Redondo, à qual, não sem orgulho, se referirá, mais tarde, como a primeira escola democrática do país, graças às inovações pedagógicas que ali incrementa e ao sentido, profundamente humanista, que norteará este seu projecto. Em carta de 4 de Maio de 1972, Agostinho da Silva dar-lhe-á conta da espantosa impressão que a visita à escola lhe motivara: «Já para não falar de mim, Maria Violante veio entusiasmada com sua Escola – a da liberdade, da familiaridade, da criação. Acho que há que acrescentar o louvor da sua pedagogia de gente adulta, inteligente e corajosa, coisa rara por estes lados. Suponho, pelo que vimos, que sua Escola será do melhor que jamais se fez» (2014: 108).

A tríade enunciada por Agostinho descreve a realidade com exactidão. António Telmo estimulara o convívio entre docentes e discentes, sem solução de continuidade entre a sala de aula e o refeitório. Uma cantina tinha sido posta a funcionar rapidamente e o refeitório era simultaneamente utilizado por professores e alunos, que tomavam as suas refeições em mesas comuns sem qualquer espécie de discriminação e com o evidente propósito pedagógico de prolongar até às refeições o ensino de saber comer e estar à mesa. Alunos e professores utilizavam igualmente as salas comuns de convívio, de trabalho e de lazer. No mais, o filósofo opera uma autêntica revolução, interditando estrita e definitivamente os castigos corporais aos alunos e promovendo iniciativas que vão desde a criação de um jornal à organização de actividades comuns entre estabelecimentos escolares congéneres de povoações vizinhas, passando pela recepção a vultos importantes, que vinham de visita à escola, como o caso, já apontado, de Agostinho e também o de Hernâni Cidade, redondense ilustre.

O processo de fundação do estabelecimento não isentou António Telmo de dissabores e sobressaltos com as autoridades locais e governamentais do Estado Novo. Num rincão pejado de grandes latifundiários e homens bem escanhoados, a barba cerrada que então usava era um alarmante indício de bolchevismo. Como o próprio nos conta, em entrevista à revista LER – Livros e Leitores: «Quando vim do Brasil, usava barba. E o ministério de Veiga Simão pediu-me para ir fundar a escola do Redondo. E eu vim. Nesse tempo ainda se fundavam escolas – agora abrem-se escolas. E quem ia fundar uma escola tinha, também, de escolher os professores, etc. Quando lá cheguei, apareceram-me os políticos da terra a impor os professores, mas eu não deixei. Entre os que escolhi, pelo menos dois eram contra a situação, o que, aliado às minhas barbas, fez com que isto chegasse ao Governador Civil e, depois, ao ministério. Lá fui eu a Lisboa. O director-geral [Dr. Rogério Fernandes] perguntou-me: «Você é a favor da situação?» E eu disse: «Não, sou contra.» E ele perguntou-me o mesmo que vocês agora: «Mas pertence a alguma coisa?» e eu disse que não. «Então, volte lá para o Redondo, que tem o nosso apoio», respondeu-me ele. A partir daí não tive mais problemas» (2016: 116).

Logo após o 25 de Abril, o nome de Telmo surgirá a encabeçar as assinaturas de um grupo de democratas de Sesimbra que «vem manifestar o seu incondicional apoio e adesão ao programa político apresentado pela Junta de Salvação Nacional». Dessa Sesimbra que, pelo seu empenhamento, verá desfilar nas suas ruas Vitorino Salomé e o grupo de Cantadores do Redondo, actuação musical que contou também, como nos testemunha António Couvinha, com a participação de Zeca Afonso.

Por contraste com as demais figuras de proa da geração do 57, tudo isto torna Telmo um vulto sem par. “Você é diferente deles” – sussurrar-lhe-á Joel Serrão, depois de o escutar no decurso de uma mesa-redonda subordinada ao tema “Leonardo Coimbra e a Filosofia Portuguesa”, realizada no Porto, em 12 de Abril de 1983, por ocasião das comemorações do centenário do filósofo criacionista, em que um e outro coincidem com Fernando Sylvan, José Augusto Seabra, António Quadros, Afonso Botelho e António Braz Teixeira.

 

4. Tudo isto são apenas gestos e atitudes, decerto nobilíssimos, mas insuficientes para esclarecerem o seu pensamento político. Ainda assim, a História Secreta de Portugal, obra publicada com êxito estrondoso na Primavera de 1977, no rescaldo de uma revolução que o autor realmente desejara e a que visava agora conferir a orientação superior de um sentido espiritual, será o lugar da sua obra que, a um tal respeito, melhor nos pode servir. Desígnio ali postulado vem a ser, como n’O Encoberto de Sampaio Bruno, o da unidade na liberdade, assegurada pelo governo do melhor, ou seja, por um regime aristocrático polarizado na figura do Rei, tal como Dante Alighieri propugnara na sua Monarquia, o que está longe de se poder confundir com as monarquias existentes, que ou «são uma paródia, ou não são legítimas ou constituem uma evocação» (2013: 143).

Neste sentido, e dentro da concepção cíclica que Telmo desenvolveu naquela obra, será talvez possível buscar na tradição iniciática um horizonte de esperança, por ser ela que, em última instância, sustenta, permeia e vivifica o pensamento político do florentino.

A perda do poder pela Igreja Católica a favor da Maçonaria havia assinalado, com Pombal, o início do terceiro ciclo da nossa história: o do povo. Não desconhece, porém, o filósofo que a Ordem Maçónica, que durante algum tempo ainda pudera assegurar as condições requeridas para a iniciação, havia sido minada de fora para dentro e reduzida, no dogma e no ritual, a um mínimo facilmente neutralizável. No capítulo que no livro, referido ao ciclo do povo, dedica a “Fernando Pessoa, Rectificador da Maçonaria”, se, por um lado, mostra como o positivismo veio desvirtuar a experiência espiritual das lojas, não deixará, por outro, de vislumbrar na Maçonaria, na senda de António Carlos Carvalho, talvez «o que passe deste ciclo para o seguinte, assegurando a transição através dos elementos incorruptíveis que contém» (Idem: 119). Nessa mesma Maçonaria que, tornada dominante no início do ciclo do povo, conservava ainda algumas reminiscências do ciclo dos reis: à gibelina e templária monarquia portuguesa, em meio de excomunhões e interditos papais, muito conviera a doutrinação dantesca e o remoto fundo sapiencial em que esta se inscrevia.

Mas o derradeiro capítulo da História Secreta, pelo reconhecimento de condições as mais adversas, por hostis, à iniciação, parece um convite desalentado ao isolamento individual, mero apelo à reclusão estóica de cada um em si mesmo. Poderemos, porém, entrever neste desenlace a proposição de um tempo suspenso, como espera ou esperança de estrelas propícias. Significativamente intitulado “Últimas reflexões de um profano”, o derradeiro acto da História Secreta aponta já, por isso mesmo, para a vitriólica câmara de reflexão e para o que nela precede e prepara a mudança de estado pela morte iniciática. Posto que insuladas, as mónadas, pelo comum propósito que as reúne, formarão um arquipélago…

No ano seguinte, em 1978, por indicação de Álvaro Ribeiro e a pedido de José Valle de Figueiredo, escreve António Telmo um prefácio destinado à reedição, pelas Edições do Templo, de O Encoberto, de Bruno.

Na leitura de Telmo, Bruno faz n’O Encoberto o elogio do socialismo, essa degenerescência da Maçonaria, como forma de teodiceia. Mas, ainda que, por mor dessa degradação, se possa discordar do portuense; ou que da Ordem Maçónica se forme uma imagem minorativa precisamente «porque o socialismo ateu ou igualitário dela derive ou nela se fundamente» (2014: 152), o filósofo, judicioso, fará notar que, «também para os católicos, os caminhos sinuosos do clero não alteram a perpétua verdade da Igreja fundada por Pedro» (Idem: ibidem).

A verdade é que Sampaio Bruno, adentro de uma angelologia que fora já a de Dante, «vê no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria» (Ibidem), com o que se quererá talvez significar «que o socialismo constitui o socorro que o todo homogéneo dos seres integrados envia ao nada dos seres decaídos. O fim da Maçonaria no plano político será assim a participação dos membros dispersos e dilacerados da humanidade numa grande e luminosa unidade interior. Nem um só homem poderá ficar fora do processo universal de realização da Bondade. Todos os homens, pela democracia, serão chamados a cooperar activamente na política, assumindo-se cada um como uma parcela luminosa do universo, pois, enquanto emanação superior, conquanto esquecida de si, possui a potencial dignidade de um “sacerdote-rei” maçon, de um arquitecto. Há então que correr o risco que consiste na subversão dos elementos superiores pelos elementos inferiores. Mais do que o risco, há que viver essa subversão sem a cobardia do egoísmo, a não ser que se aceite a ideia pessimista de que para sempre haverá divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os que podem e os que não podem» (Idem: 152-153).

A importância decisiva do trecho impõe tão longa transcrição. A reedição de O Encoberto, porém, gorou-se, e com ela a saída a lume do escrito de Telmo; mas o filósofo parece jamais ter deixado de pensar o que nele mentara. Comprova-o o facto de o haver recuperado e enviado para publicação no livrinho Messianismo Português que a Fundação Lusíada, em 2005, dará à estampa, modo de documentar o colóquio que, sob aquele título genérico, tivera lugar em Coimbra, em Outubro do ano anterior. Por esta época, ainda Telmo mantém plenamente a prática maçónica na Loja Teixeira de Pascoaes, cuja criação obedecera ao seu desígnio de conferir operatividade iniciática, pela desinência martinista do Rito Escocês Rectificado, ao pensamento filosófico da tradição portuguesa, na senda de Bruno, Junqueiro e Pascoaes.      

 

5. Alguns dos fautores da mentirada que continua a envolver o movimento da filosofia portuguesa, fiados no título de uma sua obra publicada a título póstumo, têm pretendido fazer crer que a iniciação maçónica de António Telmo mais não foi do que uma aventura inconsequente, e mesmo deletéria, no caminho do filósofo.

Se fossem intelectualmente honestos, teriam estes lamentáveis ultramontanos de postular que o filósofo jamais se desencantou com a tradição maçónica, com o seu ritual, com o seu simbolismo, com o seu ideário. Poderá, é certo, António Telmo ter ficado entristecido com o que, por vezes, presenciou em loja ou fora dela, em ágape ou nos passos perdidos. Mas o que quer que haja sido, não o impediu de, em 2009, já afastado do templo, ter dado para reedição, ao editor Alexandre Gabriel, as suas Congeminações de um Neopitagórico, título que é, nem mais nem menos, do que o termo de substituição para Reflexões de um Maçon ou coisa que o valha, como, de resto, o mostram as suas páginas. Desde logo as da “Introdução”, descarada projecção de uma loja maçónica sob a égide da tradição filosófica portuguesa, em que aos onze lugares preenchidos pelos irmãos se acrescenta um décimo segundo, cadeira vaga aguardando quem nela quiser, puder e souber vir sentar-se; mas também as da “Carta ao Pedro Sinde – Um dos Doze”, ou ainda as da fabulosa sequência de diálogos que, entre o marranismo, a Kabbalah e o gnosticismo, ali exprimem o ânimo conciliador da Ordem Maçónica.

Também A Aventura Maçónica – Viagens à Volta de um Tapete foi entregue pelo próprio Telmo a Alexandre Gabriel poucos meses antes de partir. O livro pode ter saído póstumo, mas as ideias que veicula manteve-as o seu autor até ao fim da vida. Constata-o quem, sem pensar com a vontade, evitar treslê-lo com a bílis… 

Oscilando entre a freima criacionista e um claro propósito rectificador, este par de livros cumpre a contento o propósito cifrado nas “Últimas Reflexões de um Profano” com que desce o pano sobre a História Secreta, obra em que a Ordem Maçónica nos surgia já, congruentemente, como a depositária virtual de um renascimento. Serão, pois, o corolário de um desígnio cuja concretização fora longamente preparada e maturada. Querer somente ver na aventura maçónica de Telmo, como promovem os reaccionários da mentirada, um devaneio dessultório constitui um grave atentado à boa-fé, cuja punição maior logo lhes chega do ridículo com que os recobre a indesmentível verdade textual de uma obra couraçada. Dela, em dado momento, se , com Sampaio Bruno, no socialismo democrático subordinado à ideia suprema de República a aplicação ao progresso da humanidade dos princípios sóficos da Maçonaria. Não diremos que esta proposição de Telmo permita resumir, no essencial, o seu ideário político. Diremos antes ser uma sua expressão plausível, em jeito de aproximação à essência complexa de um pensamento que é movimento.

 

6. Em 30 de Janeiro de 2010, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, casa de que foi o primeiro director, escutei, ao lado de António Telmo, uma conferência sobre Guerra Junqueiro por um dos membros do seu círculo. E ouvi-o comentar, com desagrado, que o poeta de A Velhice do Padre Eterno não era o que ali dele estava a ser dito. 

Quatro meses depois, a 29 de Maio, já visivelmente doente, fará Telmo, naquela mesma sala, a sua derradeira oração pública. É manifesto o sacrifício com que o orador, bastante debilitado, fala para a assistência. Surpreende, porém, pelo tom empolgante com que a arrebata num apólogo estrénuo da República, em detrimento da dinastia de Bragança, que manifestamente verbera. Arranca-lhe, a final, tremenda ovação. No âmbito do colóquio “Anarquia, Monarquia e República”, Telmo fala sobre “Monarquia e República”. A seu lado, António Cândido Franco abordará o tema “Anarquia e República”, para além de apresentar o livro Luís de Camões, de Telmo, lançado nesse mesmo dia.

Nas palavras de Telmo corre, medular, a indignação que atravessa as laudas da Pátria. Como um testamento espiritual, a resposta ao conferencista de Janeiro estava dada.

 

 

OBRAS CITADAS

DIONÍSIO, Sant’Anna (1953), O Poeta, Essa Ave Metafísica. Lisboa: Seara Nova; LÉONARD, Yves; (2023), Salazar – Uma Biografia. Lisboa: Edições 70; RIBEIRO, Álvaro; (1969) – A Literatura de José Régio. Lisboa: Sociedade da Expansão Cultural; (2004) – Dispersos e Inéditos. I. Lisboa: INCM; (2005) – Dispersos e Inéditos. III. Lisboa: INCM; RIVERA, Jorge Croce (2000) – “«Estádios no caminho da Verdade»: o percurso ético-metafísico de José Marinho”, in História do Pensamento Filosófico Português, Direcção de Pedro Calafate. Lisboa: Caminho, pp. 211-247; SILVA, Agostinho da (2014) – Cartas para António Telmo. Évora: Licorne; TELMO, António (2013) – História Secreta de Portugal. Sintra: Zéfiro; (2014) – A Terra Prometida: Maçonaria, Kabbalah, Martinismo e Quinto Império. Sintra: Zéfiro; (2016) – Viagem a Granada seguida de Poesia. Sintra: Zéfiro; (2018) – “Agostinho da Silva”, in A Ideia – Revista de Cultura Libertária, 84-85-86, Outono 2018, pp. 174-176.