VOZ PASSIVA. 152
Memórias sobre António Telmo
Rui Arimateia

Terá sido na Primavera de 1982, na residência de Maria Beatriz Serpa Branco, que me encontrei pela primeira vez com António Telmo. Maria Beatriz tinha-me pedido para a acompanhar nesta visita no dia anterior. Como eu já conhecia a “História Secreta de Portugal”, editada em 1977, fiquei muito agradado por ir conhecer o seu Autor. Penso que terá sido a meio da manhã que chegou. Vinha de Borba onde na época residia na Rua Marquês de Marialva, n.º 20-A.
A minha primeira impressão foi a de que estava perante um camponês alentejano: roupa escura simples em que predominavam os tons castanhos, camisa com padrões de xadrez e uma boina alentejana. O odor que o acompanhava tinha qualquer coisa de rural, de silvestre. Manteve sempre um rosto sorridente e um olhar brilhante e extremamente comunicativo. Dele emanava a palavra e simultaneamente o silêncio durante a comunicação mantida connosco.
Vinha oferecer a Maria Beatriz alguns dos seus livros, autografados, e conhecê-la pessoalmente. Os pontos em comum entre aqueles dois extraordinários seres eram a Theosophia e todo um conhecimento gnóstico e esotérico que estava impregnado nas suas profundas pesquisas no âmbito da Philosophia Perennis, tão acertadamente assim denominada por Aldous Huxley. Ambas as obras, de Maria Beatriz e de Telmo, se assemelhavam sem sombra de dúvida a nascentes de águas profundas e insondáveis. Ambos eram, eles próprios, fontes inesgotáveis da inspiradora Grande Obra na transmissão e na partilha generosa de ensinamento aos seus alunos e a todos quantos se acercavam deles, sequiosos de saber.
Posteriormente acompanhei a obra de António Telmo através da aquisição e leitura dos seus livros, nomeadamente: “História Secreta de Portugal” (de 1977); “Filosofia e Kabbalah” (de 1989), entre muitos outros. Além de o acompanhar nalgumas das suas digressões a Évora, ou para estar com amigos ou para ir adquirir livros à Livraria “Nazareth” ou para participar em alguma actividade académica na Universidade de Évora.
Em termos profissionais enquanto responsável pelos Serviços de Cultura da Câmara Municipal de Évora, propus ao executivo, e foi aceite, um pequeno apoio a duas edições do livro de António Telmo, a saber:
“Contos” (de 1999), da Editora ‘Aríon’ do saudoso amigo José Manuel Capelo, apresentando a edição 7 pinturas de Armando Alves, tendo sido responsável pela apresentação do livro que teve lugar em Évora, no espaço da histórica Sociedade Harmonia Eborense no dia 8 de Dezembro de 1999, com a presença do Autor, do Editor Dr. José Manuel Capelo, além do Vereador da Cultura de então, o Dr. Almeida Henriques e do presidente da Sociedade Dr. Manuel Piçarra, estando ainda presente Antónia Vitorino, esposa de António Telmo e o João Tavares, amigo de longa data.
Além de uma edição menos luxuosa do mesmo livro, intitulada “Contos Secretos” (de 2007), pela Editora ‘Tartaruga’ da responsabilidade da amiga comum Manuela Morais, apresentando esta edição inspiradores desenhos da autoria de Espiga.
Ainda em 2003, tive o grato prazer de publicar um pequeno trabalho sobre António Telmo, editado no livro “António Telmo e as Gerações Novas” (de 2003), da Editora ‘Hugin’, intitulado “As ideias são comunicadas pelos anjos”, tendo sido convidado para o efeito por Joaquim Domingues e Pedro Sinde.
Várias vezes me desloquei a Estremoz para me encontrar com António Telmo e disfrutar a sua companhia e sageza, cujo encontro sempre acontecia no Café “Águias D’Ouro”, seguindo depois para sua casa onde conversávamos sobre os entrelaçamentos das nossas vidas e dos estudos e projetos que tínhamos em mãos. Resta dizer que nunca abordámos a questão da revista “Portugal”. Contudo pelo rigor essencial e vivencial de António Telmo qualquer desvio a um determinado projecto idealizado por si levaria ao seu afastamento do mesmo, dando possibilidade que outro, que não ele, levasse o projecto a bom porto.
Évora, 18 de Outubro de 2026.
