VOZ PASSIVA. 151

21-08-2026 10:19

21 de Agosto, dia de evocação

Risoleta C. Pinto Pedro

Estacionei, recentemente, na avenida ladeada pela Rua António Telmo. Olhei, cá de baixo, a rua, com vontade de a conhecer melhor, mas não havia contexto para lá ir, com uma criança ansiando por descer à praia. Já várias vezes a contornei, rodeei, ladeei, mas nunca a percorri a pé. Na verdade, de Telmo apenas tem o nome. Ele viveu, inicialmente, num quarto na rua da Fortaleza e mais tarde na conhecida como Rua do Forno, oficialmente Rua Joaquim Marques Pólvora. Estas, sim, terão, mais provavelmente, eco dos seus passos.

Apesar de Sesimbra ser o meu lugar dos fins-de-semana e férias, o espaço que verdadeiramente me acolhe é o campo, e apenas ocasionalmente, a vila. Talvez por isso, por o meu deambular não ter ainda adquirido o estatuto do hábito, sinto-me sempre, andando pela vila, como ali caminhando pela primeira vez. E os passos que a percorrem não são propriamente os meus. Dou por mim, espontaneamente, imaginando Telmo nos seus dezoito anos, quando para cá veio com a família (pai, mãe e irmãos), e depois mais tarde, com a nova família (Maria Antónia, filhos), e imagino-o percorrendo as ruas e olhando o mar. Ora só, ora com os outros jovens da tertúlia, ora mais tarde com os seus alunos, e tento sentir Sesimbra como ele terá sentido, e isso não é difícil, pois nas “Páginas Autobiográficas” deixou-nos relatos e pensamentos desses tempos e do convívio desta extraordinária geração que ali se reuniu, como Rafael Monteiro e Agostinho da Silva. Terá sido Telmo, segundo Reis Marques, que os terá apresentado, quando Agostinho regressou a Portugal, após 1969. Ainda que não em Sesimbra, conheci António Telmo e Agostinho da Silva, seu amigo e compadre, padrinho de Anahi. Deste com Rafael, deixa Telmo, num dos seus cadernos, uma conversa breve, possivelmente tida no castelo, onde Rafael vivia, ou no café, ou deambulando de madrugada peãs ruas, ou na avenida em frente ao mar. O cenário, por não descrito, pode ser escolhido pelo leitor:

«Rafael- Sabe o senhor? Eu em geral tenho dinheiro para o próprio dia e às vezes para o dia seguinte.

A.Silva- Isso é bom. Comigo acontece uma coisa semelhante. Em geral só tenho dinheiro para a véspera.»

Era esta a geração sem dinheiro, mas com génio, que deixou legado. Só temos de o receber, somos, se quisermos, seus herdeiros. António Telmo partiu há dezasseis anos num dia 21 de Agosto. Mas deixou obra. E está publicada. Basta procurar a sua Obra Completa, com chancela da Zéfiro, na Biblioteca. No meu entender, pode tornar-se, pelo andar da carruagem, um quase manual de sobrevivência para tempos de escuridão.