VOZ PASSIVA. 150
Publicada na edição de 18 de Junho de 1977 do Diário de Lisboa, a recensão sobre a História Secreta de Portugal que hoje aqui se traz aos nossos leitores foi escrita, embora não assinada, segundo o próprio António Telmo, pelo jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco, então figura de proa na Redacção daquele vespertino. Com efeito, na entrevista, conduzida por Francisco José Viegas, que o filósofo concedeu à revista LER em 1998, pode, em dado momento ler-se o seguinte:
«[Revista LER] Mas escrever sobre o nacionalismo naquela altura não podia ser considerado como uma recuperação dos ideais conservadores do Estado Novo?
[António Telmo] Mas o livro até é a favor do 25 de Abril. O Estado Novo não tem nada a ver com os Dom Afonso Henriques nem com os Jerónimos… Aliás, a própria política de esquerda foi muito favorável, o livro agradou a toda a gente. O Assis Pacheco, por exemplo, escreveu um bom artigo sobre o livro.»
Estamos, pois, diante de um importante documento histórico-biográfico…

História Secreta de Portugal de António Telmo (Vega)
Fala-se aqui dum sentido que a história de Portugal pode ter. «Há uma história oculta de Portugal – diz o autor a páginas 24, ainda numa introdução. Não dizemos isto no sentido em que tudo se pode afirmar ter um aspecto simbólico. Pensamos que houve entre nós, se não connosco, uma organização esotérica que, de uma maneira perfeitamente consciente e intencional, procurou, a partir dessa Pátria, a quem deu existência, redimir o mundo do mal e da divisão». O texto de António Telmo pretexta-se mais imediata e concretamente no horóscopo que Fernando Pessoa fez prevendo (digamos) para 1978 (o ano que vem, portanto) uma mudança cíclico-astrológica para Portugal. Depois é a perseguição interpretativa do sentido que terão certos sinais dispersos ente os vestígios que do passado nos ficaram. Estamos aqui dir-se-á que predominantemente no domínio da especulação. Naturalmente. Mas haverá no trajecto que esta especulação faz (e que é, pode-se talvez dizer, um esforço produtivo de leitura – do processo de representação dos sinais e da sua articulação imaginada na cena igualmente imaginada da história) uma certa coerência, e não será de todo errado falarmos mesmo em termos de rigor. É evidente que restam sem resposta tantas interrogações, como outra coisa, aliás, não seria de esperar. O livro não terá o mínimo interesse ou sequer alguma validade para aqueles leitores que não serão capazes de sair do esquema unívoco que adoptam os mais dos discursos com a história por objecto – e que os nossos ajuizados compêndios reproduzem invariavelmente. O discurso de António Telmo privilegia o seu objecto mais distante e porventura inacessível: o símbolo, primeiro, o mito, depois – em perseguição do sentido para que a narração (o mito) aponta. Tudo isto se passa no âmbito do que poderemos dizer as estruturas mais profundas, ou a estrutura mais profunda, onde o sentido com que se gera e oculta – motivação e finalidade da actividade, das actividades, do trabalho, dos trabalhos, do homem dos homens. Trata-se no entanto não de uma análise estrutural – no que de científica a designação «estrutural» para nós denota e conota com as noções e conceitos mais generalizados hoje em dia. Haverá nisto uma limitação – dirão os mais prevenidos, armados de historicismo (seja qual for a forma, mesmo a aparentemente menos historicista, que este historicismo pode assumir). Para a generalidade dos leitores será necessária uma certa disponibilidade para a leitura deste livro. Quer dizer, este livro exige que o seu leitor se desembarace de algumas numerosas sobregangas que fazem dele um fóssil virtual. Parte-se aqui do famoso horóscopo que Pessoa fez prevendo para 1978 uma mudança ciclo-astrológica para Portugal. «É evidente que nada disto terá realidade à luz da história profana de Portugal» – diz o próprio autor a páginas 21. É evidente que tudo isto de que neste livro se fala nos escapa um pouco. Mas nem por isso nós poderemos recusarmo-nos a admitir a legitimidade do interesse que, se não em nós, noutros, pelo menos, pode suscitar (até à fascinação) o que neste livro se diz.
