VOZ PASSIVA. 149

17-01-2026 13:14

Gramática e História

Risoleta C. Pinto Pedro

O filósofo que nos apresenta uma gramática da autoria de uma espanhola, Pilar Vásquez Cuesta, escrita em espanhol e editada em Madrid, como sendo a melhor gramática do português, viveu, na sua idade adulta, no Alentejo, sendo-lhe por isso fácil visitar e aí se fornecer de livros, a Livraria Universitas, em Badajoz.

Mas se recuarmos à proximidade do nascimento do futuro filósofo, está-se no cume das inquietações do país, por causa do problema do provimento de pão ao povo; os campos não produzem o trigo necessário. Ele não sentiria este efeito, a situação em Lisboa era a mais crítica e a família não sofria necessidades, embora a nível nacional se tornasse imperiosa e urgente a importação de trigo.

Consultando a História de Portugal de Oliveira Marques, saberemos que em 1925, dois anos antes do nascer, o ministro da Agricultura do governo de esquerda de José Domingues dos Santos apresenta, no Parlamento, um “Projecto de lei da Organização Rural”, que indicava um repovoamento rural com uma reforma agrária moderada, que silenciava a desapropriação. O governo caiu antes da aprovação do projecto. Os governos que se seguiram, mais à direita, não lhe deram prosseguimento.

Em 1927 nasce António Telmo. No mesmo ano duplica o número de automóveis em relação a 1924. O nosso biografado irá adquirir o seu primeiro carro por alturas do serviço militar.

O número de localidades servidas por telégrafo quadruplicou também em relação a 1924, e em 1925 um diploma legitima, protege e estimula ainda mais, a marinha mercante nacional, o que irá ter uma fundamental importância quando, dois anos depois, a família de Telmo partir para Angola.

Subiremos à árvore, ainda não a da Cabala, cujos ramos tanto o atraíram, cujas raízes tão bem regou, de cujo jardim tão bem cuidou, para no-la mostrar no seu brilho de safiras. A nossa árvore é a da genealogia, para tentarmos compreender, procurando nos ramos onde a História se entrelaça com as histórias, a raiz da grandeza do génio.

Em Fevereiro de 1927, como já dito o ano do seu natal, aconteceu uma revolta, a primeira  tentativa, com alguma consistência, para derrubar a ditadura após o Golpe de 28 de Maio de 1926. A esta revolta há quem chame rebelião militar e terá durado sete dias. O centro da acção foi o Porto, porque aí estava o coração do comando e foi lá que se desenrolaram escaramuças, mas Lisboa juntou-se à revolução. Três meses antes do nascimento do herói cuja narrativa iniciamos, a dar o tom à vida que se desenrolará lúcida e inconformista, como uma revolução que se ergue, silenciosa, contra a escuridão. O aparente insucesso da revolta de Fevereiro foi, apenas, uma das etapas da não desistência de uma sempre presente, mas às vezes oculta, resistência. O preço deste episódio foi alto, rendição e prisões, dezenas de mortos e centenas de feridos no Porto e em Lisboa. Foi o general Adalberto Gastão de Sousa Dias quem liderou este primeiro gesto do chamado Reviralhismo, sucessão de movimentos insurrecionários para o derrube do regime.

Entretanto nasce, dentro de uma fortificação com forma aproximada à estrela de Salomão, o bebé a quem mais tarde alguém viria a revelar, em ambiente reservado, que poderia ser destinado a um notável papel, tendo acrescentado um conselho, que por ora manteremos em segredo.

 

17 de Janeiro de 2026.