UNIVERSO TÉLMICO. 80
Passam 250 anos da morte de João Daniel, “Camões dos trópicos”
Henryk Siewierski*

No dia 19 de janeiro de 1776 morre no Forte de São Julião da Barra, ali recluso por 14 anos, Padre João Daniel, jesuíta português, missionário na Amazônia, autor do monumental Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas, obra chamada por Leandro Tocantins de “Bíblia Ecológica da Amazônia”[1].
Nascido em 1722, em Travaços, perto de Viseu, João Daniel entra, aos 17 anos, na Companhia de Jesus em Lisboa e, em 1741, parte para o Brasil, onde, depois de dez anos de estudos, é ordenado padre e começa o trabalho missionário entre os índios da Amazônia. Em 1757, na onda das perseguições pombalinas, mas ainda dois anos antes da carta régia que decretou a expulsão de Companhia de Jesus de Portugal e de todas as suas possessões ultramarinas, é deportado para Portugal, junto com nove outros missionários, e preso no Forte de Almeida. Quatro anos depois é transferido para a Torre de São Julião da Barra, em Oeiras, onde morre em 19 de janeiro de 1776. Como o motivo da sua prisão e extradição, é apontada a discordância do Diretório dos Índios, uma lei editada em 1755 pelo Marques de Pombal, e implementada pelo seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governado do Grão-Pará. De fato, a obra do Padre João Daniel escrita depois, na prisão, pode ser considerada também uma resposta ao Diretório que extinguia o trabalho missionário dos jesuítas nos aldeamentos[2].
No decorrer dos seus 16 anos vividos na Amazônia, João Daniel fazia uma intensa e interdisciplinar pesquisa de campo, colhendo os dados sobre a geografia, o clima, a fauna, a flora e os povos daquela região. Certamente não deve ter sido apenas uma ocupação à margem das atividades religiosas do missionário, mas a sua parte integral, se o conhecimento assim reunido e guardado nos arquivos da memória iria se tornar fonte de uma obra monumental, escrita ao longo dos 18 anos nas prisões de Lisboa.
Tesouro é uma narrativa, um tratado e uma enciclopédia de mil e duzentas páginas em manuscrito, registro de quase tudo que no século XVIII foi possível saber sobre Amazônia, um relatório de um missionário e descobridor do tesouro da Amazônia. Foram muitos os que viajaram ao sabor ou contra a corrente do grande rio e seus afluentes em busca do tesouro. O Padre João Daniel descobriu o tesouro maior, a própria Amazônia. Tomar posse desse tesouro, apropriar-se dele, enriquecer, não era para ele outra coisa a não ser o seu conhecimento, o mais amplo e mais preciso possível, bem como compartilhar dessa riqueza com os outros.
A obra do Padre João Daniel, que só no século XIX viu a luz do dia, somente há cinquenta anos foi publicada com as suas seis partes divididas em dois volumes. Desde 1810 o manuscrito das primeiras cinco partes do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde foi trazido por Dom João VI em 1808. A sexta parte foi perdida e encontrada depois na Biblioteca de Évora. Nos anos 1820, 1840 e 1878 a obra foi publicada em edições parciais. Somente em 1976 a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro estabeleceu e publicou todas as partes conhecidas do manuscrito, reeditadas em 2004 pela editora Contraponto[3]. Mas ainda não foi a versão completa do Tesouro, uma vez que poucos anos depois foram descobertos no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, por Antonio Porro, os capítulos da Terceira Parte, faltantes nas edições anteriores[4].
O primeiro volume da edição de 2004 compõe a summa do conhecimento de geografia, fauna, flora, minerais, história e dos povos da Amazônia. O segundo é dedicado às questões relacionadas às missões, agricultura, pesca, navegação, comércio, indústria a e organização da vida social.
As descrições da natureza e dos seus fenômenos, das paisagens, da fauna e flora e das diversas curiosidades comprovam o olho e o ouvido sensíveis do observador, mas também uma postura do leitor para quem a terra era um grande livro. Ele descreve o que tinha visto e, ao mesmo tempo, lê, interpreta a seu modo o que não pode ser visto, mas que se nos apresenta através dos signos da escrita da terra ou da memória dos seus habitantes. Fazem parte do tesouro da Amazônia os mitos e lendas ali encontrados, entre eles as histórias sobre os homens-peixes que vivem nos rios e saem à noite para espantar os pescadores, sobre a Pedra Maravilhosa, que tem em si todas as pedras preciosas, sobre o lago dourado e o outro, que transforma em pedra cada um que ousasse nele entrar. O Padre Daniel está aberto a mais do que captam os sentidos e a razão e, por isso, ao registrar as histórias maravilhosas dos povos da Amazônia, não manifesta a descrença, mas costuma tomar o lado das verdades que elas representam.
Esta atitude manifesta-se também nas relações do autor do Tesouro com os índios da Amazônia. Ele não esconde a distância que o separa deles, os considera como os que vivem “à lei da natureza, sem Deus, sem Lei e sem Rei, conforme a vontade de cada um” [I,318][5]. Mas, ao mesmo tempo, toma decididamente o lado dos nativos, defendendo a sua dignidade humana e denunciando todas as formas de escravidão, bem como os métodos de evangelização a qualquer preço, inclusive o da renegação dos princípios cristãos com o uso das manhas da retórica e o tratamento instrumental dos convertidos.
Nas partes quinta e sexta da sua obra, o Padre João Daniel propõe novos métodos da agricultura, extração, pesca e comunicação, as invenções que objetivam facilitar a vida dos moradores da Amazônia e contribuir para o desenvolvimento dessa região. Fazem parte dessas invenções as que podem facilitar e melhorar a navegação fluvial, assim como as ideias de aproveitamento de marés para mover os moinhos, os projetos de bombas, aquedutos, máquinas para cortar madeira e engenhos de açúcar.
Várias vezes o autor menciona de passagem a sua situação do prisioneiro „enterrado vivo” e pede ao leitor a compreensão pelas faltas provocadas pelas condições em que escreve. Alguns estudiosos já se perguntavam como poderia João Daniel, nas condições tão adversas do seu longo cativeiro, sem ter acesso às fontes, privado constantemente até de papel e tinta, ter produzido uma obra tão bem documentada, tão extensa e rica em detalhes. Há quem desconfiasse que a obra foi escrita ainda na Amazônia[6]. Mas no próprio texto é possível encontrar os argumentos contrários a essa hipótese, como as lacunas e faltas de dados, o que não iria ocorrer se o autor tivesse acesso às fontes bibliográficas. Ao longo da narração da obra encontramos também vários trechos metanarrativos que descrevem a situação do autor e que servem de justificativa para a escassez ou falta de alguns dados:
(...) faltam-me as notícias por me faltarem os livros, onde os curiosos as poderão ler, enquanto eu gemendo e chorando opresso com o peso da minha cruz, submergido, e enterrado vivo no funesto sepulcro, e subterrânea cova da minha prisão, vou pedindo a Deus piedade, e misericórdia; e que com a sua se digne santificar a minha cruz. [I, 54]
Por outro lado, em vários momentos da obra, o grau de detalhamento e as citações de outros autores, inclusive com as referências bibliográficas exatas, pode levar à conclusão de que pelo menos algumas partes do Tesouro foram escritas ainda na Amazônia ou que o autor teve acesso às suas anotações feitas antes de ser preso[7].
Depois de transferido para o Forte de São Julião, ele teve companhia de outros padres expulsos da Amazônia, com os quais podia trocar as recordações e conferir os dados[8]. No decorrer da narração do Tesouro, encontramos várias citações dos relatos e informações fornecidos por eles, como, por exemplo, quando cita o testemunho de um missionário da China “que também para aqui veio preso” [I,527], ou conta história de um missionário companheiro do cárcere, que foi vizinho na missão [II,69].
É impossível definir hoje com precisão todas as fontes bibliográficas da obra do Padre João Daniel, e o grau de contribuição dos outros presos. Porém, não resta dúvida de que a principal fonte foi a própria vivência e a busca de todo o conhecimento possível sobre a Amazônia, uma terra eleita como a pátria que foi forçado a deixar.
O Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas do Padre João Daniel reúne todas as características da produção missionária, jesuítica em particular, da época: a curiosidade pelo outro, a sua descrição e avaliação em função da obra evangelizadora, recordação saudosa da igreja que estava sendo construída, e – ao contrário de muitas outras obras escritas depois da expulsão – alimentação da esperança de que essa construção continuará e que as experiências vividas devem servir de incentivo e de preparação para os futuros missionários. As descrições do universo amazônico na obra do Padre João Daniel servem, sem dúvida, para o conhecimento e compreensão da população nativa visando a sua conversão ao cristianismo. Mas elas servem e objetivam também, a transformação desse universo numa Terra de Promissão também no sentido social, econômico e político. Por esses e outros motivos, como os elementos meta-narrativos que evidenciam a dramática situação do escritor, como a crítica dos métodos de evangelização e de colonização em vigor, como o extraordinário arquivo da memória, o Tesouro de João Daniel se apresenta como uma das mais completas e mais misteriosas obras do gênero, uma fonte inigualável de conhecimento da Amazônia do século XVIII.
Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas representa também um dos mais significativos atos de resistência ao terror pombalino e um forte argumento contra as suas justificativas da expulsão e da punição dos jesuítas. O outro “diretório” do Padre Daniel não foi menos avançado do que O diretório dos índios do Marquês de Pombal, mas com certeza estava fundamentado no maior conhecimento da Amazônia e dos seus povos. O ódio à Companhia de Jesus e a ânsia pelo poder absoluto levaram esse ministro de D. José I a eliminar os que podiam ser os seus melhores aliados no processo de colonização baseado no reconhecimento da racionalidade e capacidade dos povos nativos e no potencial libertário e civilizatório da ação educativa.
Embora no tempo que passou desde a missão do Padre João Daniel no Grão-Pará e Maranhão, da missão não interrompida nem nas masmorras de Portugal, surgiram tantas outras descrições do mundo amazônico, apesar de que hoje se saiba bem mais do que guarda o seu Tesouro e de que as suas invenções não têm mais chance de aplicação, o valor desta obra não é apenas o valor histórico. A riqueza da linguagem e da imaginação, a dimensão interdisciplinar, a base firme da experiência, do estudo e da meditação, o reconhecimento do valor da biodiversidade e da dignidade do outro, a opção pelo desenvolvimento sustentável, fazem com que o Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas mereça ser chamado hoje “a Bíblia Ecológica da Amazônia” e o seu autor “Camões dos trópicos”.
Há duzentos e setenta anos depois da sua expulsão da Amazônia, o Padre João Daniel continua sendo um aliado daqueles que não só veem naquela terra os tesouros, mas, antes de tudo, reconhecem a própria Amazônia como um tesouro que não pode ser perdido.
* Professor da Universidade de Brasília (UnB), autor de Livro do Rio máximo do Padre João Daniel. São Paulo: EDUC 2012.
[1] TOCANTINS, Leandro, Bíblia ecológica do Padre João Daniel”. Introdução a Padre João Daniel, Tesouro Descoberto no Rio Amazonas, “Anais da Biblioteca Nacional”, 1975, vol. 95, t. I. No mesmo texto o autor chama Padre João Daniel de “Camões dos trópicos”.
[2] QUADROS, Eduardo Gusmão de. Luzes e sombras sobra a alma nativa: dois jesuítas expulsos da Amazônia. In https://www.ifch.unicamp.br/ihb/Textos/GT48Eduardo.pdf
[3] DANIEL, João Pe., Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. Apresentação de Vicente Salles. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004, Vol. 1- 2.
[4] PORRO, João. Um „tesouro” redescoberto: os capítulos inéditos da Amazônia de Pe. João Daniel. „Revista do Instituto de Estudos Brasileiros”, 2006, n. 43, p. 127-147.
[5] DANIEL, João Pe. Op. cit. Todas as citações do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas serão localizadas como esta – com o número do volume (romano) e o número da página (árabe) em colchetes.
[6] PAPAVERO, Nelson. Relíquia do século 18. “Ciência Hoje”, v. 35, 2004, no. 208, p. 77.
[7] Por exemplo, ao falar dos homens marinhos, faz referência precisa ao livro de Frei Benito Geronimo Feijoo, Theatro Crítico Universal, o Discursos vários em todo gênero de matérias, para desengaño de errores comunes, Madrid, 1738: “Dos homens marinhos fala Feijó no 6 Tom. Discurso 7º” [I,120].
[8] PORRO, Antonio. Uma Enciclopédia Amazônica. “Revista do Instituto de Estudos Brasileiros”, 2006, n. 43, p. 223-224.
