INÉDITOS. 80

06-01-2019 13:12

Carta Segunda

 

Leonardo Coimbra não quer que a humanidade seja depois de Cristo o que foi antes de Cristo e por isso repudia a tragédia grega. Deveria também repudiar o teatro de Shakespeare. Mas a redenção da humanidade e, segundo Orígenes, de todo o Universo, é feita através da tragédia de Deus que, aliás, a Igreja Católica repete em simbólica presença todas as semanas. “O mal não é por si só suficiente para que por ele se explique o Universo” escreve contra A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Todavia, foi suficiente para provocar a morte humana de Deus. E como o segundo Édipo (Édipo em Colona) nos mostra o herói trágico, que a fatalidade no primeiro Édipo (Édipo Rei), levou ao desterro e à cegueira dotado do poder miraculoso de curar (Cristo ressuscitado), assim a ressurreição de Cristo não foi sem a celebração pela humanidade que o crucificou do mistério do mal.

Se na existência do mal, não houver algo de radical, isto é, se o mal não estiver nas raízes do mundo não se compreenderá a necessidade da encarnação de Deus. Essa raiz é também a de que brotou a humanidade porque é a figura do homem que Deus assume pelo Filho. Daqui a importância do homem na Divina Comédia que levou Orígenes a dizer que a Divina Tragédia repercutiu infinitamente e tremendamente nas esferas angélicas e arquiangélicas do Universo.

Há que reconhecer que os gregos perpetuavam pela tragédia uma antiquíssima tradição, conhecida e sabida de todos os povos do mundo. A teoria da tragédia exposta por Aristóteles na Poética é a teoria do sacrifício que Leonardo Coimbra já medita no seu primeiro livro. Só nos tempos modernos a arte da palavra se tornou uma ocupação de literatos.

 

António Telmo