INÉDITOS. 76

29-07-2018 16:08

Sobre Álvaro Ribeiro. 01

 

O conceito de filosofia como viagem é muito difícil. O pensamento vai de livro em livro como de porto em porto, aquieta-se por momentos (dias, meses, anos) para de novo partir. Agora é o deserto das águas e a contemplação das estrelas, tomando rumo na alma para novas descobertas.

Nós que lemos um filósofo da viagem procuramos em vão um sistema, mas encontramos mapas e roteiros, instrumentos para marear e, por vezes, um diário de bordo. Tal é o caso de Álvaro Ribeiro, da sua filosofia itinerante, itinerante dum longo percurso que, do primeiro livro para o último, mede precisamente quarenta anos.

Muitas vezes o ouvimos lamentar ironicamente que o crucificado de um certo culto religioso nunca mais morresse, ele que reconheceu em Jesus Cristo o Supremo Filósofo, vítima, como todos os filósofos, da hostilidade e do ódio dos contemporâneos. Insurgiu-se contra Fernando Pessoa por dizer que «nunca teve biblioteca». Nos Evangelhos, por mais de uma vez mostra conhecer perfeita e profundamente os vários livros do Antigo Testamento. Aquele que disse ser o Alfa e o Ómega, o Alef e o Tau, a primeira e a última letra do alfabeto parece, com esse dizer, ter inspirado o nosso filósofo quando escreveu que “não acreditar em Deus é ser analfabeto”.

Quarenta anos andou Moisés pelo deserto, conduzindo o seu povo para longe do Egipto em busca da Terra Prometida. O Egipto é a terra do culto dos mortos, mumificados e guardados na pedra. A Igreja Católica e a Ordem Maçónica estão ambas edificadas sobre a pedra. Álvaro Ribeiro foi educado num colégio de dominicanos, ao qual se refere nas Memórias de um Letrado como a um degredo. Foi, mais tarde, recebido na Maçonaria, donde se evade, ferido por várias humilhações. Todos nós temos o nosso Egipto, a terra dos sábios que conhecem o segredo da morte e da vida.

Com excepção de José Régio, que encheu a sua casa de Portalegre de imagens do Crucificado, ou outros três poetas da tétrada inspirada – Pascoaes, Pessoa e Junqueiro – recordaram repetidamente e por vários modos que o Natal e a Ressurreição são os dois momentos que a tradição portuguesa enaltece. Para Castela a tragédia do Calvário, A Agonia do Cristianismo e Do Sentimento Trágico da Vida, dois livros de Unamuno. O sentimento da Majestade e da Glória divinas é tão vivo no português que os poetas e filósofos de Portugal não suportam nem aceitam os ultrajes que Deus parece receber na figura humana de Cristo. O menino Deus que vem salvar o mundo e Deus Homem que se ergue do túmulo, vencendo o peso das pedras que pareciam encerrá-lo para sempre compõem-se nesse sentimento, no qual a maternidade e a paternidade, bem distintas e caracterizadas, como no pensamento de Álvaro Ribeiro, marcam os dois momentos da epifania.

Os quarenta anos de labro criptográfico que decorrem do primeiro livro para o último do filósofo correspondem a uma marcha no deserto da alma até à visão da Terra Prometida. Morreu sem ter assistido ao levantar da Pátria que sonhou nos seus livros, sem ver realizadas as suas propostas no ensino, na política, na filosofia. Ao traçar o seu perfil pelo de Moisés, não esquecemos a analogia do povo português com o povo judaico, a semelhança das suas reacções para com o homem que lhe apontou os caminhos que libertam da servidão.

 

António Telmo