INÉDITOS. 08

20-03-2014 09:16

[Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes]

 

A Interpretação de Leonardo Coimbra

 

Era a Faculdade de Letras da Universidade do Porto uma escola de Cabala? Que nos diz sobre o assunto Álvaro Ribeiro?

A resposta é de grande interesse para nós, porque, se for afirmativa, poderá explicar a origem da orientação cabalista do pensamento do nosso filósofo e abrirá uma nova perspectiva sobre a natureza de um ensino que, vinte anos mais tarde, viria a exprimir-se no movimento da filosofia portuguesa. Como é sabido, todo o movimento de natureza espiritual, na medida em que se afasta da origem, não só vai “perdendo a forma” que o caracterizava como, em dado momento, troca de sinal algébrico, invertendo todos os valores. O exemplo mais claro e mais notável é o do cristianismo que, na época da Inquisição, se volta contra si próprio em nome de Cristo. É, por isso, que importa regressar, de vez em quando, às origens e procurar no ímpeto de sempre a enteléquia do movimento.

Dado o modo cifrado próprio da prosa de Álvaro Ribeiro, no cultivo sábio da “prudência”, são raras as alusões mais claras à doutrina oculta no ensino que recebeu de Leonardo Coimbra, Teixeira Rego e Aarão de Lacerda. Podemos, no entanto, encontrar, aqui e ali, uma dessas alusões. A mais significativa, pela sua generalidade, é aquela em que nos diz ter constituído a Faculdade de Letras da Universidade do Porto “o exemplo de como uma sociedade secreta pode perfeitamente funcionar sem deixar de estar aberta ao público”. O que qualifica de secreta uma sociedade é, como Dante ensina, a doutrina escondida. Que doutrina era essa? Era a Cabala?

Álvaro Ribeiro explica a conversão de Leonardo Coimbra pelo modelo do romancista francês Huysmans, que ingressa num movimento trapista no fim de uma viagem espiritual “pelo espiritismo, pela teosofia, pela gnose e pela Cabala”. Noutro lugar das Memórias de um Letrado aponta a decisiva influência sobre Bruno e Leonardo do grande matemático e cabalista polaco Hoëné Wronski. Escreve também que “o educador Leonardo Coimbra atribuía ao estudo da alma, ou seja, à psicologia racional, à psicologia experimental, e à metapsíquica, ou parapsicologia, um valor e uma função de superioridade sobre todos os outros estímulos disciplinares” (110, v. II). A doutrinação d’A Luta pela Imortalidade não terá apenas constituído um momento efémero da evolução do pensador, mas terá sido vertida nas formas pelas quais exercia o seu magistério oral.

Como veremos no estudo que a Leonardo Coimbra dedicamos neste livro, a analogia que é o método por excelência das Ciências Ocultas e da Cabala constitui o primeiro método da sua aventura filosófica. O discípulo não deixa de frisar, repetidamente, a importância central da analogia no pensamento do mestre. “Consciente da função criadora do verbo” função “de Alta Magia”, conhecia Leonardo Coimbra “o poder mágico da palavra benéfica ou maléfica”. A magia foi por ele depurada “de todo o natural barbarismo pela acção sublimante do espírito”, pois “viu bem a intenção poética da oração mental e da oração ritual, precursora dos sacramentos litúrgicos” (116, v. II).

Entre Deus e o homem, há o mundo dos anjos. É à comunicação dos entes sobrenaturais, ao modo como o Intelecto Activo elabora os dados da comunicação que se deve a criação científica, filosófica ou religiosa. As palavras de Leonardo Coimbra que Álvaro Ribeiro cita são as seguintes: “Só os criadores de uma atitude sua, científica, filosófica ou religiosa, sentem a chegada dos mensageiros da dimensão espiritual: a sua comunicação na centelha do “Intelecto Activo”. É de notar o emprego do termo aristotélico num pensador vulgarmente interpretado como platonista. Quem visava Leonardo Coimbra com a sua crítica do aristotelismo?

Mais do que o platonismo, ou o aristotelismo oculto, Álvaro Ribeiro pretende mostrar a relação do pensamento leonardino com o positivismo de Augusto Comte.

O principal problema que terá de defrontar o estudioso de filosofia portuguesa é o da coexistência nessa filosofia do sobrenaturalismo com o positivismo. O positivismo foi pelo próprio Álvaro Ribeiro apresentado, nos primeiros livros, como um obstáculo à filosofia e a toda a literatura que seja, como teorizou Teixeira Rego, na sequência de Sampaio Bruno, “a expressão do sobrenatural”.

O positivismo dos factos contra os argumentos não pode, evidentemente, ser adoptado por nenhuma filosofia. A lei dos três estados, interpretada como abolição da teologia, também não se vê como possa ser perfilhada por uma filosofia, como a nossa, que tem por último e supremo fim o conhecimento de Deus. Álvaro Ribeiro, substituindo o adjectivo “teológico” pelo adjectivo “mitológico”, pensando “mitologia” onde Augusto Comte escreve “teologia”, estabeleceu melhor correspondência entre os três momentos seriados na lei e as idades do homem: puerícia, adolescência e adultidade, no curso de uma vida ou no curso da história, embora, para esta, mantenha o reparo de Bruno de que os três estados podem coexistir na mesma época.

A idade positiva é, como se sabe, aquela que a humanidade atingiu pelo descobrimento e desenvolvimento da ciência. A classificação comteana das ciências estrutura o programa de filosofia para os liceus elaborado por Leonardo Coimbra durante a sua efémera passagem pelo Ministério da Educação. A filosofia não é aí considerada uma disciplina de letras, mas “a unificação activa de todos os conhecimentos” adquiridos no curso de ciências. Esta unificação é possível porque ela constitui a ciência dos princípios, e doutrina do sobrenatural “na centelha do Intelecto Activo”. O programa ou progresso dos estudos científicos é o seguinte: Matemática, Física, Química, Biologia, Psicologia e Sociologia. Na Sociologia se incluem “a actividade estética e a actividade moral”.

A Faculdade de Letras do Porto representa-se-nos neste momento como uma escola da Cabala que tem por suporte o positivismo de Augusto Comte.

Se lermos com atenção o texto do programa, que Álvaro Ribeiro teve o cuidado de publicar no fim do segundo volume das Memórias de um Letrado, deparamos com uma constante no ensino das várias disciplinas: para a Física – “o valor da analogia na organização da experiência física”; para a Química – “a analogia química e a relação com a indução”; para a Biologia – “a analogia em biologia sistemática”; para a Psicologia – “a indução, a dedução e a analogia nos estados psicológicos”. Na segunda parte do programa, propriamente referido à filosofia e titulada de “Os Problemas Filosóficos”, entre as alíneas sobre “O problema metafísico” a referida constante aparece de novo: “A analogia, seu valor de conhecimento e seu alcance para a apreensão da realidade”.

A analogia é o método da Cabala e das Ciências Ocultas. Ela é, porém, um movimento da palavra ou do verbo, o seu movimento ascendente pela escada ou escala das categorias e das sephiroth. Assim se compreende que Álvaro Ribeiro, apesar de enaltecer o valor do programa, o critique por não incluir as disciplinas do Trivium: gramática, retórica e dialéctica. A hierarquia das ciências, adoptada por Leonardo Coimbra, é também uma escala, que sobe do estado do corpo cosmológico, necessariamente figurativo, pelo das relações íntimas ou químicas desses corpos, para o domínio da vida e da alma (biologia) e depois para o mundo do espírito (sociologia) culminando na concepção artística do mundo. A filosofia virá, no termo, unificar activamente todos os conhecimentos. A filosofia é a pura e suprema analogia.

A sociologia oferece o perigo, ao culminar a hierarquia das ciências, de ser confundida com a teologia.

 

António Telmo