DOS LIVROS. 79

Páscoa no mar
Todo o mundo comemora a Páscoa; em todas as terras ela se celebra. Mas se bem que Páscoa tenha um significado universal, diverge a atitude dos homens nas diversas regiões.
Sesimbra é um povo de mar; aqui não há vinho nem pão. Nos montes escalvados que a rodeiam, não há cachos doirados nem trigos ondulantes. Há o mar indefinido, com peixes, algas e sal. Há ainda uma população de pescadores, que em barcos ligeiros colhe nas redes e nas «linhas» os peixes que vivem entre as algas e entre o sal.
Os Apóstolos, eram pescadores. Cristo pregava sobre uma barca. O mar, inquieto como a vida, rodeava a barca. Por isso, para o pescador, a Igreja é uma barca onde o cristão busca refúgio contra as inquietações do mundo. E nessa barca comunga a palavra viva de Cristo, o pão que lhe falta, o pão que o mar não dá.
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Hoje, Domingo de Páscoa, ressuscita Cristo.
Não há aqui vinhas nem trigais que reverdeçam. Mas o mar, que a nós que o vemos de fora, oferece uma superfície tranquila, em seu seio todo ele se alegra e revive.
O sol penetra a sua intimidade escura. Os peixes doiram-se, e as algas reverdecem. Toda a água é como um aquário, translúcida e colorida, onde se agitam em harmónica vida, em profunda paz harmoniosa, todos os seres nascidos das águas. E o mar que era tenebroso e escuro, sobre o qual a barca baloiçava, segura pela âncora, é agora como o seio de Deus, em que todos os seres se amam e se querem, e se compreendem.
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Também a alma é escura, inquieta e indefinida. Também neste dia ela revive para a harmonia e para a luz.
É um outro sol que a ilumina, mas é o mesmo.
Também ela tem algas, e tem sal e tem peixes.
E também nela os peixes se doiram e as algas reverdecem.
Olhai o rosto de um pescador; vede quanto abismo interior ele revela; vede agora a criança que ensaia, pescando à beira-mar, com curtas canas, a profissão do pai. E reparai quanta graça o seu rosto reflecte.
Neste dia, o pai é o filho, e o filho é o pai.
[1] Publicado originalmente em O Sesimbrense, de 5 de Abril de 1953. Republicado em António Telmo, Sesimbra, o lugar onde se não morre, pp. 25-26.
