CORRESPONDÊNCIA. 79

26-02-2026 09:36

Carta de António Telmo para José Marinho de 1 de Fevereiro de 1973

 

Meu caro Amigo Sr. Dr. José Marinho

 

Chegou, pois, a altura de lhe escrever, depois de ter lido pela terceira vez Filosofia ensino ou iniciação? que quis oferecer-me pelo Natal e que, de facto, desceu pela chaminé. Há muito tempo não me sentia tão feliz a ler um livro. Só é pena que aqui no Redondo não tenha com quem trocar reflexões. Há uma ou duas pessoas para trocar impressões sobre livros que nos entram pela porta da cozinha.

Fiz três leituras: a primeira de um ímpeto; a segunda analítica; a terceira aprofundante. Como todos os livros que nos hipnotizam e nos “adormecem as potências resistentes da alma” ou nos fazem saltar de mundo, uma vez saídos há depois um esforço para recordar, a procura subtil duma atitude do espírito, para falar a linguagem de Bergson, ou a invocação dum demónio divino que nos conduza de novo para dentro, para falar a linguagem de Dante. Direi, no entanto, conforme vier vindo e pedindo desde já desculpa ao Sr. Dr. José Marinho se as minhas interrogações assumirem, como é inevitável, por vezes, a forma de afirmações.

Gostaria, contra o que sugere na dedicatória amiga, de publicar um escrito sobre o livro, mas como teria de me referir à democracia simiesca (de Veiga Simão) da educação nacional, tão justamente maltratada, não posso fazê-lo sem arriscar o pão do Manuel e da Anahy. Gostei de ver o Sr. Dr. José Marinho sair do barco em terra para definir esse e outros movimentos que se desenvolvem precisamente para anular a infinita virtualidade de espanto que há em todas as crianças e impedir a possibilidade de interrogação. Ando, porém, triste, flco triste a verificar que eles constituem os inevitáveis resultados da cultura numa gente, a portuguesa, que logo que emerge do torrão rústico só dá “mestres e polícias”. Nem sequer a influência estrangeira ou clerical explica. Fomos sempre assim, atavicamente, como quer Bruno. E se há, como há, uma outra história, o seu sujeito é outro. O duplo oculto em nada corresponde ao duplo visível. A unidade da língua? Mas a língua pode ser falada por pássaros ou por porcos.

Ensinar a essa gente, com muito mais lógica do que ela quando defende os seus próprios pontos de vista, que a filosofia não constitui objecto de ensino e que, quando constitui, como no programa do ensino liceal, deve introduzir aquelas noções operativas (intuição, reminiscência, imaginação, etc. que a transmutam numa actividade iniciática e, portanto, a desobjectivizam, atribuir-lhe, à filosofia, a suprema categoria de magistério espiritual ou, pelo menos, circunscrevê-la pelo domínio mental onde esse magistério se manifesta no homem; pareceria inútil, se não estivesse mais perto do que se julga (e isso nos é dito pelas palavras terminais do livro) a autofagia dum ciclo cultural que já começa a devorar a própria cauda. Ainda, na caracterização do homem português, aquela nota sobre o sarcasmo nos dois romancistas nacionais mais representativos e admirados, e mais lidos, é definitivamente certeira e creio que pelo menos em relação ao Eça não tinha sido marcada.

Do ponto de vista dos meus interesses mais próximos, o livro ajudou-me muito, na medida em que a filosofia é tida não como coisa mental mas como coisa capaz de nos integrar num processo misterioso cujo início só ela pode encontrar. É, porém, discutível se esta iniciação está ao alcance de todos os indivíduos através do ensino, já que “a luz ilumina todo o homem que vem a este mundo”. De qualquer modo, a pedagogia que não tem como supremo fim a anagogia reduz-se sempre a um mecanismo destinado a desenvolver o espirito crítico e científico.

Os romances do Graal são relatos dessa experiência anagógica. E também ali se conta que não conquista a pedra, o vaso, o livro de poder e da sabedoria quem não sabe, não pode ou se esquece de “interrogar”, de “pôr a demanda”. Não há exemplo no nosso país de reflexão filosófica tão funda deste e doutros pontos decisivos como aquela que o Sr. Dr. José Marinho nos apresenta. Pelo que me diz respeito, não lamento que, desta vez, tenha tornado mais acessível a expressão do seu pensamento, até porque o pensamento autêntico é sempre difícil se irrompe duma raiz secreta e remota, à qual temos de referir sempre o que, aparentemente parece próximo. Se assim não fosse, nunca se teriam inventado os contos tradicionais para crianças, para os que nascem segunda vez e já têm no rosto as rugas e os sulcos da filosofia. Além disso, parece-me que a leitura deste livro levará alguns a retomar de novo A Teoria do Ser e da Verdade ou, como diriam os hebreus, O Livro da Teoria.

Se o Sr. Dr. José Marinho quiser ter a bondade de me escrever outra vez, poderemos conversar mais sobre estes assuntos. De qualquer modo, gostaria de vir a saber quais as reacções que o livro provocou, não só entre os amigos, mas, se algumas houve, entre o público ignaro.

Do discípulo e amigo muito grato

 

António Telmo