CORRESPONDÊNCIA. 78

17-01-2026 09:00

CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 15

 

Estremoz        De António Telmo para António Cândido Franco         28 de Agosto 2001

 

No De Divinatione, Cícero compara a interpretação dos sonhos à interpretação das imagens de uma poesia. Dá inúmeros exemplos de sonhos que se apresentaram como vaticínios. Claro que isto não garante os dicionários de sonhos, como o de Artemidoro. Os médicos também utilizam um dicionário de doenças com os respectivos medicamentos; mas os medicamentos não são para as doenças, são para os doentes e estes são tantos quantos os biliões de seres humanos. Se, como ensina Aristóteles, “só há ciência do geral”, então a sabedoria é outra quando o que está em questão é o particular.

Todos estes dias que passaram depois da sua última carta, escrita em 4 de Agosto de 2001, tenho estado à espera de notícias do sonho que deverá ter tido sobre o espelho por ter decidido tê-lo. Ou ficou à espera que eu lhe escrevesse ou não resultou a invocação ou, se resultou, não quer contar-me o que aconteceu.

Veja o que eu li em consequência da sua Arte de Sonhar: o já referido De Divinatione, e Amélia do Gérard de Nerval, os Tales of Power de Carlos Castaneda (não a Art of Dreaming que não fui capaz de levar ao fim) a Autobiografia de Carl Jung, Dalila e Swedenborg sobre os sonhos, o capítulo de Ibn Kaldûn sobre os mesmos e outros mais. Por aqui pode calcular o impacto do seu livro sobre mim. Claro que, para cá[1] do fascínio que ele é por ser como é, o facto de incluir um sonho comigo (devo esquecer o outro de tão sucinto?) e de findar ou quase por uma minha carta terá contribuído para que viesse, como veio, a presar o meu tempo. Mas é apenas uma contribuição. Há o espanto: como foi possível sonhar deliberadamente com Pascoaes durante tantas noites. Eu tenho a mesma experiência, mas esporádica. Não digo que menos relevante. Todavia, a linha das minhas vivências no “mundo imaginal” superior é cortada por grandes espaços de tempo vazios. Valerá talvez a pena contá-las um dia. Algumas são descritas explicitamente nos meus livros: na Dama de Ouros e nos Dioscuros[2] por exemplo. Mas faltam as mais importantes, até agora guardadas em mim talvez por uma espécie de pudor metamnésico[?]: não dever contar o que só a mim e a Deus diz respeito. O que é que pensa sobre este comportamento? Gostaria que me respondesse aqui.

Da sua carta destaco o seguinte: “Há um contraste vivíssimo, dentro do sonho, entre o apagado pátio onde tudo se passa e o momento em que o espelho é descoberto. Há uma explosão de luz no momento em que o espelho é encontrado. O que eu pretendo ao recordar um sonho destes é acreditar que ele se passa num plano inalterável e sem fronteiras, onde eu e o António Telmo supra-existimos, e no qual é possível estabelecer continuidade”.

O António Cândido vê no verde do hieróglifo e no azul fosforescente elementos de ligação entre os dois sonhos, este que agora teve e o que pôs na Arte de Sonhar. Mas reparou certamente que há outros. Em ambos temos um quarto em que o recebo na minha casa; há em ambos um pátio; no primeiro, o quarto projecta-se onde falta uma parede para florestas e abismo, no segundo há um espelho onde esplende a visão do infinito. O primeiro sonho é na Graça, onde o António Cândido viveu a sua infância, ou muito perto da Graça; o segundo acontece num monte do Alentejo, onde agora vive e onde está a sua Cuba e os seus antepassados. Em ambos, a minha casa, onde tenho um quarto especial para si, está ligada com o espaço e o tempo da sua vida. São dados muito concretos e que vêm dar razão ao que das suas palavras sublinhei acima. Fico ansioso por saber o que ainda terá a dizer-me sobre o assunto. E não demore tanto como da última vez.

Hoje, sabe?, é a correspondência consigo, com o Pedro Sinde e com o Joaquim Domingues aquilo que vai enchendo a minha solidão intelectual. Fiquei, pois, muito contente com o que me conta sobre a segunda leitura e naquelas condições (a viagem!) do livro do Pedro Sinde. Contente sobretudo pela ressonância que em si obteve: “É um livro fabuloso, que é um milagre ter aparecido no seio de uma cultura pateta de vanguarda ou não.” (…)

Bem, meu estimado Amigo. Sem acompanhamento do cigarro (deixei há muito de fumar) a carta já vai longa. Abraça-o com a amizade de sempre o

 

                                                                                               António Telmo

      

     



[1] N. do O. – Palavra de leitura equívoca no original manuscrito. Admitimos igualmente a hipótese, se bem que pouco provável dado o contexto, de António Telmo ter escrito “lá”.

[2] N. do O. – Dois dos Contos de António Telmo.