UNIVERSO TÉLMICO. 26

26-06-2015 08:49


Na edição de hoje do jornal Raio de Luz, mensário de opinião e informação do concelho de Sesimbra, Pedro Martins, na sua habitual coluna, escreve sobre o marranismo de Herberto Helder, à luz de premissas que partem de António Telmo.



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Na edição de hoje do jornal Raio de Luz, mensário de opinião e informação do concelho de Sesimbra, Pedro Martins, na sua habitual coluna, escreve sobre o marranismo de Herberto Helder, à luz de premissas que partem de António Telmo.



Ler mais: http://antonio-telmo-vida-e-obra.webnode.pt/news/universo-telmico-15Na edição de hoje do jornal Raio de Luz, mensário de opinião e informação do concelho de Sesimbra, Pedro Martins, na sua habitual coluna, escreve sobre o marranismo de Herberto Helder, à luz de premissas que partem de António Telmo./

Na edição de Junho do jornal Raio de Luz, mensário de opinião e informação do concelho de Sesimbra, Pedro Martins, na sua habitual coluna, republica o prefácio que escreveu para o livro Coisas de Sesimbra, de António Reis Marques, recentemente editado pela Câmara Municipal de Sesimbra.

 

A Arte de Ser Sesimbrense[1]

Pedro Martins

 

O Município tem a sua história, às vezes assinalada por factos de importância nacional; tem a sua economia própria, a sua personalidade e tradição, etc.

O munícipe deve, portanto, conhecer a história do seu Município, estudando o que ele foi no Passado, as suas características especiais na economia, na linguagem, na paisagem, etc., para melhor compreender as suas aspirações de progresso.

Dando-se-lhe a completa independência que pretendemos, ele deveria organizar a sua instrução primária, tornando-a, por assim dizer, patriótica, sob o ponto de vista municipal, como desejaríamos ver a instrução secundária, sob o ponto de vista nacional.

E assim, em cada Município, o ensino primário abrangeria o estudo da sua própria História, para esse fim redigida por pessoa competente. A criança, depois de saber, na casa paterna, o que houve de bom exemplo na tradição familial, iniciaria o espírito no conhecimento da História pátria, pelo estudo do seu Município, aprendendo a conhecer e a amar a sua terra, os homens que nela se distinguiram e por ela trabalharam, e habilitando-se, portanto, a melhor cumprir, mais tarde, os deveres de munícipe.

Da Família deve sair o munícipe, como do munícipe deve sair o patriota.

                                              

           Teixeira de Pascoaes, Arte de Ser Português

 

 

Agostinho da Silva, que nasceu no Porto, à esquina do Atlântico, e ao colo materno galgou o Douro para resgatar a Barca de Alva, descobriu em Sesimbra, rincão «com litoral de alcantil e praia, com seu castelo e seu porto, suas encostas e seus plainos, seus ocres e seus verdes, seu arreigamento no concreto e sua pronta partida para as nuvens», o perfeito resumo de Portugal. Raros, como ele, navegaram de antemão sem barca, contra a corrente indómita, contumazes ao impossível. António Reis Marques, íntimo do filósofo por cinco lustros, está entre os poucos que o acompanham. Sabe que o futuro é um rio que se sobe até à nascente, e que no lento, dissolvente desaguar da foz tudo se esbate e se perde. De resto, de que valem cursos de água a quem Deus deu a terra toda por regaço e o mar inteiro por horizonte? Por isso só os rios não correm por cá, nesta pequena pátria pintada por Agostinho. Limiar e fronteira, mesmo a alva da barca do pensador dista ainda da fonte; mas é já bem o Nascente, luz indecisa de clarão com que Midas lhe toca as águas.

António Telmo, vindo das fragas do Riba Côa, dessa adusta Almeida paredes meias com as ameias de Castelo Rodrigo, tão vizinho de Agostinho, sulcou menininho os mares do Sul para aportar ao Namibe, onde se apossou do leão que o sestro dos deuses lhe pusera nos astros; já homem feito, cruzou o oceano, desembarcou no planalto, firmou padrão em Vera Cruz; mas só em Sesimbra encontrou o barco. E deu-o por mito à legenda com que lhe leu o brasão.

O leitor, se não sabe ao que vem, terá agora de me desculpar, que eu só sei falar de António Reis Marques na igualha de homens assim, sábios e grandes como ele, e como ele guardando o segredo que o fulgor da visão lhes concedeu.

Hoje, dezasseis anos passados sobre o dia em que tive a dita de o conhecer, julgo saber um pouco desse segredo. Fui-lhe testemunhando a sabedoria a par do saber, uma generosidade tocante, a prudência firme do conselho amigo, uma lealdade sem vacilações, a hombridade que também sabe ser humilde, o estímulo poderoso de uma confiança inabalável nas gerações novas. E, sobretudo, um amor prodigioso à terra que o viu nascer. 

Que Sesimbra, com seu hino e seu feriado municipais, lhe seja a pequena pátria, sabemo-lo logo pela leitura das primeiras páginas deste livro, Coisas de Sesimbra, que a Câmara Municipal, com inteiro mérito e plena oportunidade, decidiu agora dar à estampa: Reis Marques cria o povo a que dá voz nos jornais onde lhe descobre a imprensa; e a um governante emérito como Abel Gomes Pólvora confere até o poder soberano de emitir papel-moeda; por ele é já a Piscosa que canta Camões n’Os Lusíadas, ou não tivesse Sesimbra, depois prendada por D. Carlos, esse insólito Ti’Rei, o sinal claro de um privilégio com ter só para si a célebre edição dos piscos a que bem pode chamar sua. E ao próprio Mestre Agostinho, que tanto lhe ensinou, também António Reis Marques dá a sua lição, bem franciscana por sinal, e por isso tão portuguesa, de um cão de água que é só nosso, em seu fraterno viver com o pescador da companha.

Da língua madre que há nesta terra de mar, desse variegado falar pexito, código secreto e musical com que nos cantam e encantam os seus filhos, já António Reis Marques muito nos dissera em O Que Veio à Rede – Vocabulário, alcunhas e topónimos de Sesimbra, de 2001, como marca individuadora dessa sua outra, primeira e imediata nação. Agora, nestas Coisas de Sesimbra, reincide pontualmente, lembrando fórmulas de saudação e tratamento, relevando nomes e adágios da vida piscatória, fazendo soar pregões.

Mas depois do mar há sempre a terra, aquém do rolar das marés. Já Rafael Monteiro, fraterno mestre e amigo a quem Reis Marques não poderia deixar de prestar sentido tributo nestas páginas, memorava algures a unidade essencial do território arrábido-sesimbrense, hoje quebrada, perdida e, por isso, difícil de entender. Que uma pátria, por pequena, não vá sem a promessa de um chão onde os seus homens firmem os pés, bem o sabe o autor, e por isso nos recorda, como quem lamenta, as sucessivas perdas destacadas no mapa, minguante como a lua que, no entanto, há-de renascer. Na geração nova, a recente e espantosa descoberta de Ruy Ventura, pelo prisma da geografia sagrada, da capitalidade arrábida de Sesimbra, vem confirmar a verdade de uma escola que em Joaquim Preto Guerra (Rumina) reconhece o fundador e que através de Rafael e de Reis Marques, seus vultos maiores, chega aos dias de hoje com reconhecida vitalidade, afirmando-se num João Augusto Aldeia e no já mencionado Ventura.

A esta luz, a nota pitoresca de uma “sedição” em Alfarim ao dealbar a Primeira República é saboroso apontamento, entre tantos outros – e são dezenas sobre dezenas neste livro! – que o autor, em porfiosa, amorosa dádiva, nos foi desfiando nos últimos quinze anos, mormente na agenda cultural do município.

Sem prejuízo da adunação espiritual que lhe perfaz a integridade, é uma visão tópica e poliédrica a de António Reis Marques, e nisto em muito se aproxima da do saudoso António Cagica Rapaz, o maior escritor de Sesimbra de todos os tempos. O que este durante décadas nos ofereceu no domínio da crónica em que exímio, magistral, insuperado, pontificou por via de um humor imaginoso e inteligente vertido em narrativas que, aqui e ali, transcorrem para a ficção, propõe-nos agora Reis Marques em registos históricos ou etnográficos tão simples quão rigorosos na sua nitidez fotográfica.

Uma atenção sábia e constante ao universo piscatório, domínio onde se lhe credita um livro já clássico como As Artes de Pesca de Sesimbra, de 2000, surge aqui amplamente desenvolvida e pormenorizada. Será justo realçar, pelo fôlego que lhe anima a envergadura, o estudo sobre “A barca típica de Sesimbra”; mas as miniaturas dedicadas às espécies piscícolas que afamaram a Piscosa, na esteira da importante monografia Peixe-Espada de Sesimbra, a Preto & Branco, de 2008, e bem assim as que, a montante e a jusante, dos moços e dos arrais à antiga lota e ao primeiro molhe de abrigo, se debruçam sobre os agentes e as circunstâncias que envolvem a dinâmica da faina, constituem-se como um precioso repositório testemunhal e documental sustentado na tradição, na observação e na investigação.

A religiosidade dos homens do mar, polarizada no culto popular ao Senhor das Chagas, padroeiro em quem José Rumina reconhecia o maior político de Sesimbra e de quem o Padre Gomes Pólvora afirmava ser o único santo que havia no céu dos sesimbrenses, não poderia deixar de ter lugar de privilégio nestas páginas. Se o peculiar Cristo crucificado de Sesimbra, envolto ancestralmente em lendas miraculosas e motivando a maior procissão portuguesa a sul do Tejo, se impõe como penhor do credo próprio que esta pequena pátria consente e justifica, vários outros são os escritos que Reis Marques aqui dedica à emergência local do sagrado, dos registos de santos e dos santos populares à festa mariana de Alfarim, sem esquecer alguns sacerdotes insignes de que Sesimbra foi berço.

Estudioso e profundo conhecedor do movimento associativo sesimbrense, António Reis Marques, na senda da trilogia que dedicara já a algumas associações venerandas da sua terra – O Clube Sesimbrense – Contributos para a sua História (2003); Bombeiros Voluntários de Sesimbra – Origem, Formação e Percurso (2003); e Breve História do Clube Naval de Sesimbra (2005) –, oferece-nos agora o texto da palestra que em 2006 proferiu na sessão solene comemorativa do centenário da Sociedade Recreio Sesimbrense, o popular Refugo entretanto, infelizmente, desaparecido. Por aqui se evidencia, sem sombra de exagero, e de um modo exemplar, o valor sem preço destas Coisas de Sesimbra. Não fora a alocução de Reis Marques, enfim guardada em livro, e hoje, possivelmente, pouco ou nada subsistiria da memória, já de si imprecisa, da extinta colectividade secular, por onde, como orador, passou um Agostinho da Silva, pouco antes de a polícia política de Salazar o enfiar numa enxovia do Aljube.

Coisas de Sesimbra intitulou o autor, sem réstia de pretensão, este seu novo livro. Não poderia estar mais certo. Ao longo das suas mais de trezentas páginas, desfila em caleidoscópio, pela ordem em que viu a luz do dia, para deleite do nosso olhar, uma miríade pinturesca de pessoas, personagens, personalidades; instituições, lugares e recantos; práticas, usos, andanças; episódios graves ou picarescos, acontecimentos rotineiros ou de excepção, momentos de júbilo ou de tristeza – num encontro em que a tradição dos arcanos coexiste, convive e dialoga, de modo nem sempre pacífico, com a progressiva aspiração futurista a que Sesimbra, senhora de si, como bem o sabe Reis Marques, jamais se poderá eximir. A este propósito, vale a pena prestar atenção às notas lúcidas que o autor projecta sobre os marcos miliários da evolução turística do concelho. Há aqui um caminho a seguir.

Por uma coincidência significativa que não deve por isso atribuir-se ao acaso – e o acaso, ensina Álvaro Ribeiro n’A Razão Animada, é apenas o instante entre o caos e o cosmos –, surge este livro no ano do centenário da Arte de Ser Português de Teixeira de Pascoaes, profeta maior da nossa condição que concebia o Município como um ente relativamente independente, mediando a Família e a Pátria.

Quem tiver atentado na longa epígrafe com que encimei este escrito, poderá depois verificar, pela leitura do livro que agora tem entre mãos, como o seu autor, discípulo fidelíssimo do mago do Marão, o poderia ter intitulado, se a modéstia o não tolhesse, Arte de Ser Sesimbrense. Tanto basta para nos irmanar.

 

Cotovia, Sesimbra, 2 de Maio de 2015.

 


[1] Prefácio ao livro Coisas de Sesimbra, de António Reis Marques, Sesimbra, Câmara Municipal de Sesimbra, 2015.