VOZ PASSIVA. 40

05-02-2015 16:49

Da Gramática Secreta ao três, passando pelo mundo sensível

Risoleta Pinto Pedro

 

Para demonstrar que “não há progressão sem movimento triádico”, acrescentando que “O paradigma da progressão é o andar do homem que se faz a três tempos e não a dois, porque o esquerdo e o direito estão misteriosamente ligados a um centro de energia no baixo-ventre”, António Telmo, ainda na Gramática Secreta da Língua Portuguesa, sobre a qual escrevi na minha primeira participação neste projecto, vai escolher, como exemplo, o sol, da seguinte maneira:

“Seja qualquer ser sensível, o sol, por exemplo.”

E isto encanta-me. Porque me transporta para o mundo das coisas maravilhosas e verdadeiras onde o sol e outros seres que uma humanidade embrutecida por um racionalismo radical embruteceu, aqui é reabilitado para o mundo dos seres sensíveis.

Não é pela argumentação que se segue que aqui trago o exemplo, mas por dois aspectos aqui aflorados: que o três é o motor da progressão e que o sol é um ser sensível. E talvez estas duas afirmações não estejam assim tão distantes ou separadas.

Do sol como ser sensível falarei em breve. Ocupar-me-ei por agora, do três, inspirada pelo brilho do pensamento de António Telmo.

Recordo que publiquei, há tempos, sobre o três, o seguinte texto, que intitulei de 

 

“Matemática, nascimento, renascimento, recuo e progresso”:

 

“… Ou a diferença entre o 1 e o 3 a partir do 2.

Ouvia no outro dia, Nuno Michaels falar sobre um tema que nos é muito caro aos Renascedores: a passagem do dois para o três ou o recuo para o um? É uma questão fulcral.

Quando o bebé está no útero, e mesmo admitindo que nem sempre a vida intrauterina é a bem aventurança que costumamos atribuir a esta fase da vida, apesar de tudo, o ser vive, quando dentro do corpo da mãe, por muito difícil, repito, que seja essa fase para ambos, um sentimento de união, o bebé ainda não sabe o que é a separação,  está em íntima comunhão com o ser da mãe, de onde lhe vem o alimento e a vida, o “seu Deus”. Ele e a mãe são um. Não há oscilações de temperatura, não há ruídos excessivos, não há, em princípio, dor física. Embora possa sentir a dor psicológica da mãe, quando a houver. O seu Deus é um Deus que sofre. Mas é um Deus que o contém. Melhor, que ele É.

De qualquer modo, este é um estado de beatitude, se compararmos com o que encontramos ao sair: calor ou frio, ou ambos, ruídos agudos, manipulação sentida como violência, afastamento da mãe, que é sempre vivido pelo bebé como algo ameaçador, risco de vida, perigo de não sobreviver.

São já alguns os estudos sobre a psicologia do bebé no útero, e sabe-se que o bebé não é aquele livro branco e neutro que durante muito tempo se acreditou ser.

Então, a vida depois do nascer é, essencialmente, e mesmo nos casos em que se considera que “correu bem”, uma experiência de separação (passa a haver um eu e um tu), e o  mundo um desafiador local de experiências, a maioria das vezes, interpretado pelo ego, que apenas quer proteger, defender e ajudar, como um campo de batalha: tu de um lado da linha, eu do outro. Tu gritas, eu morro. Tu ameaças, eu fujo. Tu agrides, eu congelo. Tu atiras, eu destruo-te. Podemos assistir a isto nas famílias, nos casamentos, nas escolas, nas instituições em geral, nas ruas. É a experiência do 2. Surge, então, a nostalgia do um, o mito da bem-aventurança, da experiência de eu e Deus Mãe juntos e sem guerra.

Isto explica o impulso, quer consciente, quer inconsciente, para a autodestruição, que é, no fundo, um impulso de regresso ao amor; à suprema felicidade, fim dos problemas. E acontecem os suicídios, os “acidentes”, as doenças mortais: estratégias do ego para o recuo, escapismo, impulso para a felicidade, em última análise. O mítico e impossível recuo para o um. O problema é que não está garantido que tal aconteça, o caminho faz-se para a frente, não para trás e o grande desafio e a grande ferramenta são os relacionamentos. Os relacionamentos românticos, ou amorosos, como lhes queiramos chamar, embora não se trate da mesma coisa, são os mais difíceis e necessários, o trunfo de Deus, o Ás que atira  para cima da mesa quando se cansa dos truques que tiramos da manga. São os relacionamentos de casal os mais desafiantes e também os que mais (tantas vezes dolorosamente) nos libertam, porque nos fazem enfrentar o dilacerador sentimento de separação. Por isso tanto procuramos (no fundo, sabemos do que precisamos) um relacionamento amoroso.

Quando, após passarmos por todas as ilusões românticas e destrutivas, auto e “heterofágicas” compreendemos que somos um eu e um tu, não um eu contra um tu, mas ambos para o mundo, quando cada um já não se sente miseravelmente partido ao meio, mas um ser inteiro, e o outro igualmente assim se sente, e ambos aceitam, como cereja sobre o bolo, caminhar lado a lado numa relação livre, esses seres estão disponíveis para o terceiro elemento, o mundo. Só assim podem fazer a diferença para melhor: de cada um deles, da relação e do mundo. É a alteração da matemática, que se torna progressiva e não regressiva (ou agressiva): a passagem do 2 ao 3. Tudo o que não seja assim é ainda uma condenação à dilacerante experiência do 2 num impossível e suicidário um. Mas, enquanto assim tiver de ser, também isso está certo, porque faz parte da experiência e da aprendizagem.”

 

In: Diz-mecomo nasceste.blogspot

 

Este, o meu pequeno contributo para o mapa do caminho do um ao três.

 

Mas regressemos a A. Telmo. No seguimento do seu raciocínio, associa a dicotomia, como por exemplo sol lua, a um deslize das “almas poéticas e preguiçosas”, dado que “cada ser sensível”, como exemplificou com o sol, “é curvo num aspecto, rectilíneo noutro, luminoso ou ímpar ou masculino e os seus contrários se o aspecto muda…”.

Nada mais certo.  

Também em certas organizações de carácter secreto ou discreto, verificamos, e a informação está amplamente disponível na Internet, que o primeiro grau começa no três e o passo do neófito depois de iniciado tem um ritmo ternário:

 

 “A marcha do aprendiz é composta de três passos iguais e retilíneos, ... ou seja, a dualidade da manifestação, e o número três, ou seja, o ternário da perfeição”

In: Portal Pedreiros Livres

 

E recordo o início deste texto, citando Telmo: “não há progressão sem movimento triádico.”

 Este compasso ternário é aquele com que dançamos o tango.

Como na gravura de Jacob e o Anjo em que os passos, paradoxalmente miméticos de uma luta ou uma dança, ensaiam, afinal, a valsa do amor.

http://moradasdedeus.blogspot.pt/2011/04/jacob-e-o-anjo-em-imagens.html

Sobre este caminho do um ao três, recordo ainda a voz de Jesus, quando diz:

“onde dois ou mais se reunirem em Meu nome Eu estou no meio deles”

Isto é: no mundo d’Ele, o dois não existe. Em Seu nome, não é possível que dois estejam sozinhos. Ele, o Espírito, estará sempre lá como um terceiro ou “re-união”, reconciliação. É uma promessa. Ou lei. O dois pertence ao mundo da ilusão.

Quanto ao mundo sensível de Telmo, fica para outra ocasião.