VOZ PASSIVA. 19

08-05-2014 11:39

António Telmo – Fábulas com pinturas*

António Cândido Franco

 

Eu podia dizer que a Filosofia Portuguesa é uma rosa brava que se usa na lapela sem se desfolhar ou então um bordado selvagem, mas prefiro abster-me, que o assunto é sério e tem andado resfriado de equívocos.

A chamada Filosofia Portuguesa encarada à distância de 50 anos nada tem de desperdício cultural ou de transigência política. Para desperdício cultural há trabalho em demasia e para transigência política oposição a mais. Por detrás da benevolência tartamuda de um Álvaro Ribeiro esconde-se um invejável cepticismo ou até um racionalismo de esquadro e compasso, como por detrás da expressiva eloquência de um José Marinho se depara com um espantoso inconformismo, apostado em livrar o homem de todos os incómodos. Marinho não foi só o mais saudoso dos discípulos de Leonardo Coimbra; foi também o bravo que suportou corajosamente 30 anos de exclusão social, por ter sido implicado no atentado de 1937 contra Salazar.

A Filosofia Portuguesa parece assim um admirável ardil da História. Há humores que só se percebem 50 anos depois e este bem pode ser o estratagema a que a História inteligentemente engendrou em clima adverso e frio para salvar do esquecimento os sóis quentes da cultura espiritual republicana da Renascença Portuguesa.

É lástima que um tal trabalho de resistência possa ter sido visto, mesmo por argutos, como pouco menos que o afortunado dizer da sensibilidade média da época. Mais que demolir, interessou aos homens da Filosofia Portuguesa demandar o espírito que sobrevive às ruínas, mas isso só abona o talento raro de que dispunham e a desamparada situação de orfandade em que viviam.

António Telmo foi um dos jovens que há 40 anos se deu conta que o diálogo de Álvaro Ribeiro e José Marinho a uma obscura mesa de café não era assunto de rotina. Deixou-se então ficar na roda e estreou-se aos 36 anos com uma Arte Poética (1963). Hoje com mais de setenta, o autor passa por ser um caprichoso esotérico, quando não um perdulário que desperdiça em charadas e horóscopos a inteligência que Deus generosamente lhe confiou. Outros ainda, mais prosaicos e rasos, dizem-no tão só apreciador da batota e do bilhar, quando não da tourada portuguesa ou da caça às perdizes.

Eu nada sei disso. Conheço-lhe bem as letras, mas mal os passos. Por isso, digo que ele é um homem discreto, que foge da vaidade do mundo, sem precisar para isso de se fazer hipócrita ou insuportável. Tem o gosto inato do convívio, mas não se presta a fazer de pavão nas montras dos passeios públicos. Tal como Herberto se fica por um recanto de uma anónima tasca do Largo da Misericórdia, também Telmo não troca o café da cidade onde vive pelas docas de Alcântara ou os bares do Bairro Alto.

 

Julgo que isto só lhe fica bem. E julgo ainda que esta modéstia pessoal não é uma questão de feitio mas de justiça. Mais do que um hábito, ela é uma vontade. Há em tal cuidado a nobreza de um propósito, que tem sido de resto o centro de todo o seu trabalho literário. Este homem tem procurado em tudo quanto escreve, e não tem sido muito, o esforço de um aperfeiçoamento moral. De nada lhe vale a beleza, se tal encanto não se traduzir para ele num acréscimo de melhoria interior.

O que anda por aqui não é nenhum idealismo requentado, mas o lastro bem apetrechado do Aristóteles que desfibrou a tragédia, encontrando no suor amargo da poesia um superior sentido purgativo. O resultado é António Telmo ser um dramático, antes de ser um filósofo; mais vale para ele a beleza sem efeito que o raciocínio sem catarse. A primeira é só postiça, sem chegar a ser pérfida; o segundo é diabólico, sem ser inofensivo.

Daí o requintado domínio que este escritor de ideias pôs desde a sua estreia nos processos poéticos. A poesia é que monta, já que só ela garante, através do efeito purgativo, a operacionalidade moral e emotiva das ideias. E daí ainda este seu novo livro de contos, que sendo porventura o primeiro parágrafo do seu testamento espiritual é também o lugar onde a filosofia se dramatiza. Telmo parece dizer: – Não se pode chegar a uma arte de pensar sem primeiro viver uma arte de ver; quer dizer, não há filosofia sem o espectáculo prévio da poesia. Eu sei que coisas destas se esquecem facilmente. Mesmo um livro como este, em formato de álbum e com sete pinturas de Armando Alves, se abandona a correr. É muito mais fácil lembrar Mónica Lewinsky ou o cartão multibanco. Mas mesmo que nada disto mexa com a nossa vidinha, pode vir a bulir com a dos deuses, que esses, parece, nada sabem de televisão. Então aí o assunto ganha uma transcendência insuspeita. A palavra dos poetas, tão desabonada na terra, faz de vez em quando rugir o Céu.

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* Publicado em JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 1 de Dezembro de 1999.

in JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 1 de Dezembro de 1999.

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